Tempestuoso
40 AnDrew - Apenas Mais Outra Noite (Algo Quente)
Notas iniciais
Eu devia ouvir mais os conselhos dos meus amigos e parar de trazer desconhecidos para minha casa, se bem que, se referiam aos clientes e não ao tipo de maltrapilho que dormia no meu colchão de reserva puído. O tinha encontrado todo quebrado na sarjeta, o rosto inchado, devia ter sido espancado ou algo do tipo, parecia ser tão jovem, lembrando-me a mim no passado. Seu cabelo era uma confusão de cachos desgrenhados cor de caramelo, não conseguia ver a cor dos seus olhos devido aos hematomas. Não podia tê-lo deixado lá, sozinho. Dormia pesadamente, cansado e profundamente, suspeitei que não tivesse uma boa noite de sono a muito tempo.
Fiquei indeciso se o acompanhava sono ou ficava a observá-lo até acordar. Experiência própria, quando se trás desconhecidos e dorme com eles, há grandes chances de quando acordar, não ter nada na sua casa, isso aconteceu cerca de duas vezes, eu não era o melhor exemplo de pessoa que aprendia com os seus erros. Apesar de não aparentar ser uma má pessoa, tinha uma boa sensação e parecia estar tão maltratado que não oferecia mal algum, todo cuidado era pouco. Optei por ficar acordado, mesmo tendo que lidar com o sono durante a próxima noite.
Minha resistência ao sono era péssima, acredito ter cochilado algumas, muitas, vezes. No entanto, a perturbação do sono do meu “convidado” sempre me despertava, ele revirava no colchão, murmurando coisas incompreensíveis e chorava. Não foi uma boa experiencia de se ver, pensei em acordá-lo, mas algo em mim dizia que seria pior. Quando finalmente acordou, o dia já havia ido embora e em breve eu teria que começar a me arrumar para o trabalho.
Seus movimentos eram rígidos, como se os músculos estivessem desacostumados ao movimento ou estivessem doloridos demais para serem alongados. Fiquei alheio a suas reações.
— A onde estou? – Murmurou.
A voz confirmou o que já desconfiava de sua juventude, ainda um pouco aguda. Ele coçava os olhos, sentando no colchão.
— Quem é você? – Não consegui segurar a língua, era uma pessoa ansiosa.
Seu rosto de virou para mim, seus olhos inchados pareciam piscar, acho que tentava focar em mim para enxergar meu rosto. Quando o encontrei, um par de óculos estavam jogados a poucos metros dele, o peguei supondo de você dele. O tinha colocado ao lado do colchão, o peguei e lhe ofereci. Notei recuar com a aproximação da minha mão, porém não hesitou em pegá-los.
— Eu sou Andrew. – Me apresentei. – Eu te encontrei na rua, te trouxe para minha casa.
Tentei lhe fornecer o mínimo de contextualização para se sentir o mínimo confortável para conversar comigo, afinal, seja lá o que aconteceu com ele, provável espancamento, apagou daquela situação e acordou em um lugar completamente diferente. Eu ficaria aterrorizado, no seu lugar.
— Quem é você? – Ele me perguntou, agora com os óculos. Duvidei que conseguisse enxergar muita coisa com os olhos inchados do jeito que estavam.
— Já falei. – Ri. – Sou Andrew.
— Por que me ajudou? – Pelo visto ele faria um interrogatório, o que era bem injusto porque era eu, quem deveria estar fazendo isso nele.
— Deixaria uma criança toda arregaçada na sarjeta? – Novamente. – Porque eu não.
— Não é comum... – Murmurou.
— Eu sei que não. – Ele desviou os olhos do meu. – Vou pegar um remédio para dor muscular e gelo para você. Seu rosto está horrível.
Meu apartamento era tão pequeno que não haviam cômodos, era uma kitnet minúscula com um banheiro menor ainda, se possível, onde se poderia usar a privada, a pia e o chuveiro ao mesmo tempo. Por isso, ele ainda se mantinha no meu campo de visão enquanto pegava o gelo.
— Toma aqui. – Lhe entreguei o saco.
— Obrigado. – Agradeceu, os colocando nos olhos.
— Qual o seu nome?
— Blake. – Murmurou. – Obrigado por ter me tirado da rua.
Sentei ao seu lado.
— Quer me contar um pouco sobre você? – Sugeri mais perguntando.
Ele não respondeu imediatamente, pareceu bem receoso.
— Tudo bem, se não quiser me contar, mas preciso saber se você tem pretensão de me roubar ou algo do tipo, porque com as suas atuais condições, eu te pego antes de sair do prédio.
Ele riu.
— Mesmo que eu quisesse, como você mesmo falou, não tenho condições para isso. E eu jamais, prejudicaria alguém que me ajudou. — O discurso era lindo e meu coração de manteiga, quase que imediatamente acreditei em suas palavras, porém a cabeça não era tão tonta, então, lhe manteria sobre a minha vista até que se mostrasse realmente de confiança. — Se quiser, eu posso ir embora agora.
— Não! Imagina, olha o seu estado! – Coloquei a mão no seu peito quando fez menção de se levantar, rapidamente ele novamente recuou. – Não vou te fazer mal.
— Não tenho como saber disso. – Retrucou.
— Se quisesse, já teria feito enquanto estava desacordado.
Sem argumentos, ele abaixou a cabeça.
— Só não me sinto bem com as pessoas me tocando. – Confessou, era a primeira coisa mais intima que me contava, fiquei feliz com o progresso.
Esse tópico, eu não tentaria entrar em mais detalhes com ele. Com meus cinco anos de rua e noite, sabia o que esse sinal poderia representar, já havia visto algumas meninas e meninos ficarem assim depois... Novamente experiencia própria, marcava e deixava uma cicatriz. Alguns conseguiam superar o trauma, outros aprendiam a conviver e tinha os que nunca conseguiam seguir em frente, eu tinha colocado as experiencias em um local de bloqueio, não pensava e agia como se nada tivesse acontecido, nenhuma das vezes.
— Posso ir te fazendo perguntas? Aí você pode me responder se quiser, do que falar tão livre. – Tentei agir como se nada tivesse acontecido. – Você deve estar como fome, acho que tenho um macarrão instantâneo para a gente.
Ele balançou a cabeça positivamente, não sei se para primeira, segunda ou as duas coisas que disse. Me levantei e fui para o espaço que era a cozinha.
— Seu nome é Blake, certo?
— Sim. – Me respondeu baixo.
— Quantos anos você tem?
Não mantínhamos contato visual, estava ocupado demais sendo um desastre até com comida praticamente pronta. Mas quando ele não respondeu essa pergunta, virei-me para encará-lo.
— Eu sei que você é menor de idade, só queria saber o quanto.
— Tenho quase dezessete.
— Eu era mais novo quando eu fugi de casa. – Comentei. – Tinha quinze para dezesseis anos.
—Por que fugiu de casa?
— Um dia ainda te conto. – Sorri, se ele não me contaria tudo sobre ele, também não revelaria maiores detalhes tão íntimos da minha vida. – Por que estava nas ruas?
— Eu não estava nas ruas. – Quase ri da sua incapacidade de mentir.
Talvez eu pudesse confiar nele, se mentisse eu claramente perceberia.
— Eu sei que estava, sei o que são roupas de doação, já fiquei muito tempo as usando e sei quando alguém é um ser lar. A quanto tempo que está fora de casa?
— Que dia é hoje? – Ignorou minha pergunta.
— Quinze de Julho. – Respondi, olhando no calendário na geladeira.
— Não sei ao certo, desde meados de maio que meu pai me expulso de casa.
Parei por um instante, tínhamos chegado em um ponto interessante. Assim que o vi, ele não parecia ter os modos de alguém que crescerá nas ruas, que era pobre. Imaginei que tivesse tido algum tipo de surto de criança mimada ou fosse viciado, porém não o tinha visto com nenhum tipo de sinal de abstinência, devido ao tempo que dormia, já deveria estar na vontade, se fosse viciado. Mas agora, com o motivo revelado fazia sentido.
— Você é gay!? – Mais afirmei do que perguntei.
— Sou.
— Explica muita coisa. Bom, eu também não sou hétero, na realidade não sou muitas coisas. Mas sinto muito por ter sido expulso de casa por isso...
— Eu fui expulso da minha vida.
— Não tem mais ninguém?
— Viável? Não.
Nossas histórias eram parecidas, só que eu tinha fugido de casa, antes de ser expulso. Lembro-me até hoje, de cinco anos atrás quando minha mãe me pegou no nosso trailer com o filho mais velho da nossa vizinha de trailer, estávamos fudendo na cama dela. Eu peguei minhas coisas e saí correndo, ele obviamente ficou. Um cara de trinta anos jamais deixaria os três filhos e mulher para trás por um casinho de sexo. Não me orgulhava muito da ocasião, mas era um fato.
— Qual é a última coisa que se lembra?
— Posso ir ao banheiro? – Me perguntou.
— Claro, fica na outra única porta além da entrada aqui. – Bati na parede que dividia com o banheiro.
Acompanhei com o olhar o seu caminhar até o banheiro, minha desconfiança dele diminuía cada vez mais, levando em conta que meu dinheiro estava muito bem escondido e olhando para o seu tipo, não iria querer minhas roupas. O meu esconderijo para meus bens era o forno, que não funcionava, por isso não havia risco de assar meus documentos e grana.
O macarrão ficou pronto e nada dele sair, estranhei a demora e decidi ver o que estava acontecendo, imagina se ele teve uma overdose ou se matou lá, teria uma bagunça tremenda para limpar. Bati na porta e a abri, a desculpa pela falta de modos era por ser minha casa.
— Você está bem? – Perguntei assim que o vi, se encarando no espelho.
Um fio de lágrimas escorria pelo seu rosto, ele soluçava, a cena era agonizante. Ver um garoto chorando tão descontroladamente. Por impulso, o abracei, faria isso com qualquer um que visse assim. Ele não me afastou como antes, para minha surpresa, me abraçou com mais intensidade e afundou o rosto no meu ombro, tínhamos praticamente a mesma altura.
O levei de volta ao colchão e limpei o seu rosto, parou de chorar e pareceu envergonhado pela recente crise. Fui delicado o suficiente para respeitar o seu silêncio.
Quando o abracei, foi como voltar ao meu passado, quando não tive ninguém para me abraçar ao ver como o mundo poderia ser duro com quem não tinha nada. Das noites que eu chorei por estar sozinho, mesmo que o calor do corpo do último homem que deitei ainda estivesse em mim. A vida era injusta e amarga.
— Me desculpe. – Ele segurou minha mão. – Muito obrigado pelo abrigo, mas eu preciso ir embora. – Deu uma fungada no nariz. – Já ocupei muito do seu tempo. – Se levantou.
— Calma. – Falei, segurando o sei braço. – Você vai para onde? Tem para onde ir? — Balançou a cabeça negativamente. – Então, espera aí.
— Não... – Apesar de sua negação, ele parou.
— Olha. – Eu me levantei. – Sei que não nos conhecemos, nem nada do tipo, mas eu não posso te deixar ir assim, sem ter para onde ir e com fome. – Para assentir o que eu dizia, a sua barriga roncou.
— Não...
— Se querer te ameaçar com cárcere privado, longe de mim, mas a porta está trancada e eu tenho as chaves. Come pelo menos.
Não me respondeu, mas pela resposta do seu corpo entendi que tinha concordado.
Voltei a cozinha e lhe servir o macarrão, não era muito e tem enchia por muito tempo a barriga, mas era o que tinha. Não pareceu se incomodar, comeu como se tivesse comendo uma ceia de natal, perguntei-me a quanto tempo que não comia decentemente.
— Faz uma semana que fui expulso do Abrigo St. Mary of the Mount Church.— Falou. – Assim que souberam que eu era gay.
— Se eu fingisse surpresa estaria mentindo. – Lhe lancei um sorriso. – Todo mundo da comunidade sabe da fama daquele lugar.
— Me pagaram na rua, estavam me observando a alguns dias. – Sua fala foi meio desconexa, porém se referia a quem o batera, antes de encontrá-lo. – Já estou quase me acostumando a apanhar, tem acontecido com frequência. – Riu da sua própria desgraça.
O macarrão na minha barriga revirou no meu estomago.
— Você precisa recomeçar a sua vida, sem apanhar dos outros.
— Eu não sei... não sei por onde começar ou se quero realmente começar. – Foi sincero. – Seria tão mais fácil desistir, tenho vivido assim. O que acontece, acontece...
— Posso te ajudar, se quiser. – Falei precipitado e já me arrependendo. – Poderia ficar aqui, até conseguir andar com as próprias pernas.
Esperei que o seu rosto iluminasse, conseguia ver que tinha dentro de si uma chama que em muitas nunca existiu ou se apagara, porém, manteve-se impassível.
— Não posso aceitar, não mais do que esse prato de comida.
— Por que? – Falei quase irritado, estava oferecendo um teto para um quase desconhecido e era assim que ele reagia.
— Porque quando você me decepcionar, não irei me machucar, quando me tornar um estorvo tão grande que terá que se livrar de mim, não irá doer porque não irá acontecer;
Suas palavras me balançaram.
— Não será assim.
— Vai ser, sabemos que sim.
Seu ponto de vista era válido, eu mesmo possuía em minha história minha própria cota de decepções com as pessoas que achava confiar. Eu poderia a vir a ser uma decepção na sua vida, não poderia garantir o futuro e as expectativas que nos são depositadas, porém me intuito não era nem ser alguém para ele, mas uma ajuda.
— Não precisa me colocar nesse lugar. – Falei calmo. – Só quero te ajudar a não ser um sem teto. – Ri. – Eu já fui como você, se fosse você, aceitaria uma ajuda. — Ele ficou pensativo, não sei se o tinha convencido de algo, mas a informação já havia sido plantada. – Me acompanha por hoje, veja o meu dia-a-dia.
— Sua confiança em mim, me assusta.
— A mim. — Também.
Ficamos jogando conversa fora até chegar a hora que eu costumava me arrumar para os programas, mas com a companhia de hoje seria praticamente impossível. Austin não reclamaria se não fosse recorrente, ainda mais da semana corrida que foi a passada.
Adam era no melhor dos termos, o meu “cafetão”. Ele era um cara de legal, na maioria das vezes, sempre era compreensível com os percalços que aconteciam comigo, como da vez que espancou um cliente que queria me dar um calote, ou da outra vez que quase matou um cara que foi muito violento durante o programa. Mas quando estava atacado, no seu limite, era melhor não passar no seu caminho, muito genioso, eu costumava chama-lo depois dos seus surtos e quando estava de bom humor.
— Você quer me acompanhar durante a noite? – Perguntei para Blake, caminhando para o banheiro.
— O que você faz? – Sua inocência era tocante, era o seu charme especial.
— O que Madalena fazia antes de ser convertida por Cristo. – Ri, ele tinha me contado um pouco do seu passado extremista católico. Que felizmente, não era comum.
Sua expressão foi impagável.
— Quer que eu te acompanhe? – Ele pareceu tão receoso, que quase me arrependi de não ter sido mais delicado.
— Não nesse sentido. – Comecei a tirar a roupa e percebi seu rubor, obviamente o garoto católico teria seus pudores com nudez. – Não vou te levar para fazer um programa, falo em ir aonde eu arrumo os clientes. O bar que eu fico quando não estou na rua ou quando volto do serviço. – Sorri.
— Ahhh. – Pareceu aliviado, apesar do rubor se intensificar conforme ficava mais pelado.
— Tem problema com nudez? – Ri.
— Não. – Mentiu, péssimo mentiroso. – Só não estou acostumado. – Falou se virando.
— Eu tinha no começo. Mas metade dos homens com mais de cinquenta anos daqui já devem ter me visto pelado, então, não tenho mais. – Ele permaneceu virado. – Já entrei no banheiro. – Gritei. – Vou deixar a porta aberta porque não confio em você para te deixar sozinho. – Ri.
Não me demorei muito e logo saí novamente pelado e molhado.
— Sua casa é bem condensada. – Sua delicadeza era hilária.
— Aqui é minúsculo, mas está ótimo e o aluguel é mais barato. Se fosse maior, Adam me cobraria mais do que o cu. – Ri. – Se for ficar comigo, teremos que nos acostumar a ficar pelado. — Suas orelhas ficaram vermelhas.
— Não...
— Não diga nada, ainda. Pode olhar, já coloquei a cueca.
— Onde você quer me levar? – Perguntou curioso, apesar de não tirar os olhos do meu corpo.
— Nesse seu estado em nenhum, depois que você tomar banho vou te levar ao bar que eu vou, é muito legal e gay friendly.
Lhe dei as coisas para tomar banho e ele foi rápido até demais, brinquei com sua rapidez e de repente o clima mudou, deveria ser um tópico delicado, não perguntei. Não demorou muito e logo estávamos saindo.
— Posso te fazer uma pergunta? – Falei quando tive que bater a porta com força para trancá-la.
— Claro.
Eu tinha lhe emprestado uma roupa, já que não tinha absolutamente nada, além da roupa do corpo, felizmente ele era apenas um número maior do que eu, então algo mais folgado ficou okay nele.
— Você já saiu para algum lugar gay?
— Não. – Respondeu quando saímos do prédio. – Por que?
— Vamos pela direita. – Lhe guiei. — Porque consigo ver a virgindade no seu olhar. – Ri.
— Obrigado pelas roupas. Eu lembro de ter uma mochila com algumas coisas doadas, mas não sei para onde foi.
— Podemos depois ir na igreja pegar algumas, pelo menos para isso eles servem.
Blake estava todo de preto, com uma calça muito velha e uma camiseta que eu costumava usar para dormir. Ficou bem nele, ele era bonito. Para disfarçar os hematomas, sério, seria assustador vê-lo sem luz todo arrebentado, lhe dei um par de óculos escuros. Poderia se passar facilmente por um adolescente emo dos anos 2000.
Continuamos papeando até chegarmos em La Perra, era um clube noturno LGBT. Era bem discreto, ficava nos porões de um bar/cafetaria, apenas um letreiro neon roxo com o seu nome, indicava o local.
— É seguro? – Blake me perguntou, pela primeira vez pegando na minha mão.
— Mais do que na minha casa. – Lhe afaguei a mão.
Papa Julio era o dono do local, o edifício pertencia a sua família a pelo menos três gerações antes dele, ou seja, muito tempo porque ele deveria ter mais de sessenta anos. Uma maricona latina com cara de fumante e toda maquiada, e que frequentemente se montavam em Drag, nas noites temáticas. Foi graças a essas festas que pude conhecer Drew, um outro lado dentro de mim que quando pode nascer, fez com que tudo fizesse sentido. Papa Julio, ou Mama Julia, acolhia a todos a décadas no seu clube. Garotos e garotas como eu, encontrava no seu estabelecimento, conforto e distração quando a vida ficava insuportável, o que acontecia com frequência.
— Eai Drew, está de Andrew hoje. – Uma amiga drag me chamou.
— Hoje estou uma coisa mais masculinazinha. – Ri.
Lana Stark estava longe de ser a drag mais polida ou feminina que eu conhecia, porém era a mais engraçada. Sua maquiagem e escolha de roupas, deixavam claro sua proposta de ser mais palhaça que bonita.
— Quem é o menininho com você? Arrumou um para criar.
— Respeita o de menor. – Falei sério.
— Quem é Drew? – Blake me perguntou sussurrando.
— Eu, só que alguns dias. – Ri. – Depois, te explico. Quero que conheça minha amiga mais feia, Lana Stark.
— Só não dou na sua cara para não cometer crime de ódio. – Lana riu quando se aproximou.
— Blake. – Ele pegou ofereceu a mão.
— Bicha, me cumprimenta direito.
Ela fez menção de beijá-lo no rosto, porém manteve a distância saudável de uma maquiagem preservada. Erro comum de quem não conhece muito desse universo é tentar cumprimentar as Drags tocando nos seus rostos, mas como uma outra amiga falava: Quando se está em Drag, o nosso rosto é como um quadro, uma obra de arte. Ninguém fica tocando na Monalisa, porque vai tocar no meu rosto!?
— A gente é Drag, não morde. – Ela lhe encarou. – A não ser que você peça. – Fez menção de mordê-lo.
— Deixa ele em paz. – Ri quando o vi se assustando. – Ele está perdendo a virgindade no nosso mundo agora.
— Um novato?
— Não para você, palhaça. Tchau e vai fumar seu cigarro.
Ela gargalhou enquanto eu o puxava para longe dela.
— Se assuntou? – Perguntei brincando.
— Um pouco, admito.
— Vai ter mais lá dentro.
— Tudo bem...
Não tive problemas com o segurança, Joe era o meu amigo, eu que tinha o ajudado a chegar em Brigitte, uma colega trans e namoravam desde então. Passei por ele, lhe dando um beijo na bochecha.
Lá dentro, uma fumaça deixava o ambiente pegajoso e com um aspecto embaçado, que era o máximo quando se está dançando. Não haviam muitas pessoas porque acabara de abrir, preferi ir mais cedo do que o normal para poder enturmar meu colega e não o jogar de uma vez aos leões, ou melhor, aos veados. O espaço era surpreendentemente amplo, com uma aérea de mesas perto do palco, palco, bar e pista, fora o que não víamos nos bastidores.
— Mi hija, chegou cedo. – Mama Julia me puxou para um abraço antes que eu pudesse fugir. Experimente ser amassado por uma senhora latina de 1,90 e gorda, que entenderiam o porquê de se fugir. – Quem é esse com você, é novo?
Estava montada como sempre, com seu vestido e peruca velha de sempre. Nada passava pelo seu olhar, apesar de que um ser humano quase adulto seria difícil de ignorar, porém ela era conhecida por ser observadora e fofoqueira.
— Achei na rua, trouxe para casa. – Brinquei com a verdade.
— Você sempre faz isso, querida e sempre acaba sem o aluguel do próximo mês. – Ela riu, lhe acompanhei no riso, rindo de nervoso porque era verdade.
— Blake. Mama Julia. – Os apresentei.
A senhora estendeu a mão e como um bom garoto de berço, ele beijou sua mão.
— Olha, vem até treinado. Cuidado com esse, parece ser dos bons, — Ela bateu o leque e saiu para falar com outra pessoa.
— A dona desse lugar. – Apontei para tudo enquanto Blake a acompanhava com o olhar. – Fofoqueira, um amor. – Ri – Vamos.
Encontrei alguns colegas de profissão no bar, bebiam para ficar mais soltos e perder um pouco das inibições.
— Alexis! – Gritei quando vi o barman.
Alexis era um dos casos que eu costumava levar para casa quando estava carente. Não tínhamos uma relação, ele basicamente servia para suprir minha carência emocional física quando precisa, ou quando queria fazer sexo só pelo o prazer. Ele era ótimo nisso, me surpreendia nunca ter caído na vida, com certeza, lucraria bem mais na vida, do que, fazendo drinks. Mas é aquela coisa, para fazer o que eu fazia, era necessário ter estomago, nem todo mundo tinha.
— Preferi bem mais quando está de Andrew. – Ele me puxou pelo maxilar, por cima do balcão e me deu um beijo.
— E eu estou pouco me fudendo para o que você prefere. – Mordi seus lábios.
Uma das coisas que mais me irritava nele, era não respeitar o fato de eu ser gênero fluído. Alexis se declara exclusivamente gay, então, não gostava de me ver com um aspecto mais feminino. Porém, pouco me importava para o que ele achava, era apenas um cara para transar, jamais me oprimiria pelo desejo de um homem. Só ficava ainda por ele porque tínhamos uma conexão sexual sensacional e porque era sempre o melhor em juntar os meus cacos.
— Já me trocou? – Ele perguntou sorrindo.
A diastema dos seus dentes da frente lhe dava um charme a mais, como se ele precisasse de mais. Seu cabelo era de um loiro sujo, mas eu gostava porque sabia que não era, seus olhos bem pretos como o de um furão, eu tive um furão quando era criança e o corpo marcado por sardas vermelhas, todo mesmo, já o tinha visto pelado inúmeras vezes.
— Você sabe que ainda é o meu favorito. – Lhe dei um tapa carinhoso no rosto.
— Esse é o meu amigo, Blake. – Lhe apresentei.
— Alexis. – Ele sorriu nos servindo duas doses de tequila.
— Prazer. – Blake falou.
— Já te falei que te amo, por sempre saber o que eu quero e quando eu quero?
— Não, mas poderia dizer mais vezes. – Soou malicioso. – Tipo depois do expediente.
Ele queria ir para minha casa, no entanto, estava fora de cogitação pois o meu novo colega tinha prioridade no local e não o faria ficar trancado no banheiro enquanto transo.
— Hoje eu não posso. Mas quem sabe uma rapidinha...
Alexis fez uma cara de decepcionado, mas rapidamente nos deixou a atenção para atender os outros que chegavam e lotavam gradativamente o lugar.
— Vamos...! – Apontei para bebida.
— Não sou acostumado a beber. – Blake pareceu receoso.
— Deveria mais, ajuda a lidar com os sentimentos. – Peguei os dois copinhos, fiquei com um e lhe dei o outro. – Ao inferno. – Ri, brindando.
A bebida desceu de uma vez só, rasgando, não tanto como as outras costumavam fazer porque meu amante sempre me garantia as melhores bebidas, o que melhorava e muito o seu sabor. Blake não pareceu apreciar muito tequila. Bebeu também em um gole só, porém diferente de mim, começou a lagrimejar e dar algumas batidinhas no ar.
— Isso é horrível. – Ele parecia querer gorfar.
— Devíamos ter lambido o sal e depois chupado o limão. – Lembrei. – Desculpe, não tenho o costume.
— Tenho que pagar... – Sussurrou.
— Não precisa, eu faço um boquete no Alexis e já está tudo certo. – Brinquei, não que eu precisasse fazer para ter a bebida paga, era um hije* para a Mama e fora apenas uma dose. Eu faria um boquete no Alexis mais tarde porque queria mesmo.
Ele ficou vermelho, sua moral católica era divertida.
— Aqui está legal e tals. – Ele estava mentindo. – Mas ainda não posso ficar com você, não posso ficar de favor.
— Você arruma um emprego. – Acenei para alguns conhecidos e pedi para Alexis uma dose dupla, apenas para mim, duvidava muito que meu colega aceitasse naquele momento mais uma vez.
— Que emprego... – Percebi a apreensão na sua fala.
Era óbvio o que ele temia, que eu o iniciasse na mesma vida que a minha. Tal possibilidade me deixou irritado e decepcionado, a profissão tinhas seus estigmas, porém não desejaria isso para ninguém.
— Você só vai se prostituir se um dia querer isso, ou melhor, não lhe sobrar opções. Você pode até pensar em estar perto disso, mas me conheceu e tenho alguns contatos. – Falei sério. – Te trouxe aqui para te arrumar um emprego, conhecer um pouco do local...
Ele notou que eu tinha mudado o meu humor, meu tom deixava claro que conseguira quebrar o clima.
— Eu... – Tentou se desculpar.
— Não desminta, você é um péssimo mentiroso. – Tomei uma outra dose. – Assim como eu sou péssimo em esconder meus sentimentos. – Mais outra dose e a última, sabia que tinha bebido o necessário para ficar alto no limite da lucidez. – Não gostei. Eu sei que não está gostando, mas dê uma chance para nós. – Girei apontando para todo mundo. – Tem muita moral dentro de você e julgamentos. – Apontei para o seu peito. – Você não tem outras opções, a não ser morrer na rua. Não viu nada ainda.
Não quis parecer pessimistas, mas depois de tantos anos, se adquiria experiencia e se via muita coisa.
— Me desculpe. – Vi sinceridade no seu olhar. – Você está me ajudando e eu...
— Vai aproveitar a noite hoje, apenas isso.
Jasmine, Penny e Chad se aproximaram de nós e puxaram conversa, interrompendo o drama que se iniciava.
— Vai trabalhar hoje, não? – Chad me perguntou, era michê como eu.
Sendo o resultado de um relacionamento interracial, era o que mais fazia sucesso devido a beleza da mistura dos traços, além do fato também de ser o mais masculino. Muito clientes, como diziam, queriam ficar com homens de verdade, logo era preterido. Chegava a prestar serviços até para as madames.
— Hoje não.
— Por que?
— Estou apresentando o mundo ao meu novo amigo. – Passei o braço nos ombros de Blake.
Fizeram uma breve apresentação e fizeram os mesmos comentários feitos pelas pessoas que encontramos antes.
— Ele então nunca deve ter visto um show de Drag. – Jasmine comentou. Ela e Penny eram Drags, que apesar da amizade nunca tinha visto ou conhecido desmontada, só nos conhecíamos e nos víamos na La Perra.
— Vocês cantam? – Ele perguntou interessado.
Todos caímos na gargalhada, porque um show de Drag na sua essência, envolvia justamente o oposto. Fingir cantar de uma maneira tão realista que cada palavra dita pela cantora pareça realmente sair dos seus lábios, e é claro, muito carão e dança.
— Não exatamente. – Penny respondeu rindo.
Penny era uma Drag bem feminina, assim como eu, ela tinha descendência latina. Porém, ela nascera em Porto Rico, eu só era filho de latinos, seu sotaque era bem forte.
— Você verá. – Quis manter o mistério para ver sua cara de surpresa para quando presenciasse uma performance.
— Vamos beber uma rodada. – Chad sugeriu.
— VAMOS!
Pedimos uma dose dupla de tequila, agora para todo mundo e bebemos, incluindo Blake.
Quando dei por mim, estávamos dançando na pista. Minha cabeça parecia girar no ritmo do caleidoscópio de luzes que iluminavam a pista. Estava tão cheio que praticamente roçávamos um no corpo do outro. Era sexy e excitante, todo mundo parecia ser um pouco mais sexy, o suor escorrendo pelo corpo e o brilho dos olhos.
— Eu te amo, amigo. – Blake me abraçou. – Muito mesmo. É a primeira pessoa que é legal comigo... – Seus olhos estavam marejados, apesar de sorrir.
— Que isso. – Retribui o carinho, dançando com o seu corpo no ritmo da música pop.
— Sério. – Ele me acompanhou dançando. – Eu queria muito ficar com você, recomeçar, mas tenho medo.
Eu ri, estava mais bêbado do que ele, porém ainda tinha um fio de sanidade.
— Eu te aceitei, claro que pode ficar.
— Mas é estranho receber ajuda de estranhos. – Sua voz saiu manhosa.
— É mesmo. Só precisamos nos conhecer melhor.
— Quero arrumar um emprego.
— Depois falamos com Mama Julia, aposto que ele terá alguma coisa aqui ou lá em cima para você.
Novamente ele me abraçou, dessa vez, meus outros amigos nos acompanharam e demos um abraço grupal. Giramos e gritamos na pista.
Minha consciência e minha memoria começavam a dar indícios de falha, os acontecimentos começaram a pular entre eles como se não tivesse meio, não fosse orgânico. Quando dei por mim, estava atrás do bar, agarrando-me com Alexis.
Nossas bocas se moviam na intensidade e ritmo da música cyber pop, me apertava tanto que parecia que tirariam um pedaço de mim ou que me levantaria do chão a qualquer momento. O puxava cada vez mais para mim, o queria.
— Dá para mim. – Ele mordeu minha orelha.
— Não posso.
— Agora?
— Agora, eu posso.
Não fazíamos geralmente sexo com carinho, era mais animal e mais instintivo, o desejo pelo desejo. Eu amava foder de todas as formas com ele. Quando me empurrou para baixo, abriu o zíper, tirou o seu pau duro e o bateu na minha cara, antes de eu engoli-lo inteiro; sabia que queria aquilo tanto quanto ele.
Forçava minha cabeça contra o seu quadril da mesma forma que puxava o seu corpo para minha cabeça. Sabíamos que eu tinha um bom folego, por isso, a segurava junto de si, até me libertar, deixando-me tomar ar. Não sei por quanto tempo eu o chupei ou quando ele foi parar no meio das minhas pernas, porém novamente tive outro lapso de consciência quando ele apertou a minha bunda ao gozar.
— Você estava um tesão. – Sua respiração batia no meu pescoço ainda me dando arrepios.
— Eu deveria te cobrar. – Suspirei.
— Não, eu que devia te cobrar. Sabe que sou o melhor nisso. — Ele estava certo, mas só quando o sol nasce no oeste que eu iria pagar por sexo, essa era uma via de mão única. – Preciso voltar pro trabalho. – Falou ajeitando a calça. – E você cuidar do seu amigo.
— Isso é ciúmes? Não acho sensato se apaixonar por um puto.
— É só amor de cu. – Me deu um tapa na bunda.
— Ainda vou te comer. – Suspirei, puxando a calça com preguiça.
— Vai esperando...
— Da ultima vez, você não reclamou quando usei os dedos. – Lhe mostrei o dedo do meio.
— Sua bunda é boa demais para não ser usada.
— Eu como você e depois você poderia me comer. – Sugeri.
— Não vai rolar. – Ele riu.
— Vou te comer ainda como Drew. – Me virei para encará-lo. – Há quanto tempo estamos aqui?
— Uns dez minutos. – Falou com calma, acendendo um cigarro. – Tenho um presentinho para você.
Prendeu o cigarro nos lábios, o que deixou extremamente sexy, culpo a embriaguez pós gozo por essa percepção. Tirou do bolso de trás um saquinho plástico com uns cristais brancos, era uma quantidade pequena, mas o suficiente para me deixar bem louco.
— Não acredito! – Fiz menção de pegar da sua mão.
— Ahn Ahn. – Colocou para longe do meu alcance. – Meu agradecimento primeiro.
Eu sabia o que ele queria, revirei os olhos, o puxei para perto de mim e o beijei com calma, sem ser um beijo sexual. Particularmente, eu detestava beijar depois do sexo, era muito íntimo, sempre evitava faze-lo porque me sentia vulnerável. Beijá-lo daquela forma era bom e ao mesmo tempo ruim, porque dentro de mim algo parecia fantasiar em um futuro que jamais existiria ao lado dele.
Suas mãos acariciavam o meu rosto com carinho.
— Já chega. – Falei afastando minha boca da sua, pegando o cigarro da sua boca e tragando.
Ele riu.
— Só vou te dar porque você merece. – Me jogou o pacote. – Use com moderação. – Novamente riu.
— Não, vou comer igual açúcar. – Ri.
MD era a minha droga favorita, minhas experiencias com ela eram incríveis, apesar dos efeitos colaterais depois.
— Aposto que teu amigo nunca usou.
— Está sugerindo que eu vou... — Ele balançou a cabeça positivamente enquanto acendia outro cigarro, já que eu tinha roubado o seu. – Se eu tivesse um pirulito agora seria perfeito. – Falei sugestivo.
— Já não está cansado de me chupar?
— Não tô falando do seu pau. Você tem no bar, você sempre coloca nos drinks.
— Deixa eu terminar o meu cigarro primeiro.
Não demoramos muito tempo, cinco minutos depois e estávamos de volta a boate, tínhamos saído na área de carga e descarga de mercadorias do edifício. Estava insuportavelmente cheio, não me lembrava de ter enchido tão rápido antes, as pessoas se abarrotavam em todos os lugares, sendo praticamente impossível se locomover. Quando finalmente chegamos ao bar, Alexis voltou ao seu posto e me deu dois pirulitos de framboesa, lhe lancei um beijo de agradecimento e coloquei um deles na boca.
Como minhas memórias eram furadas, optei por usar minha visão para tentar localizar meus amigos, o que não foi muito difícil quando os vi interagindo com os go-go-boys no pau de pole dancing.
— Hey! – Tentei gritar para que me vissem, mas era impossível com a música alta.
Sem alternativas, caí na galera e com um misto de dança e empurrões, consegui chegar até onde estavam.
— DREW! – Blake gritou ao me ver, estava bem transtornado.
Jasmine, Penny e Chad estavam ao seu lado, ou melhor, com ele dançando. Tamanha era a proximidade dos seus corpos que poderiam facilmente serem um só.
—Onde esteve? – Perguntou.
— Nenhum lugar. – Respondi sorrindo.
Os outro três riram tanto da minha pergunta quanto da minha resposta. Jasmine fez uma imitação de um boquete.
— Serviço completo, querida. – Ri para ela.
— Você estava dando para o barman, não é? – Blake perguntou.
— Foi uma rapidinha.
— Chad queria me levar para uma rapidinha também. – Ele me interrompeu. Assim que falou o nome dele, este apoiou a cabeça no seu ombro, convenientemente estava atrás do meu protegido.
— Se aproveitando do coitado. – Balancei a cabeça em negação.
— HEY. Seria tudo consensual. – Chad respondeu roçando ainda mais nele, que parecia gostar pois tendia a cabeça para trás. – Ele é muito puro, não resisti. – Lhe deu um beijo na bochecha.
— Mas eu não quis. – Blake falou gargalhando.
— Fez bem.
— O que é isso na sua mão? – Penny perguntou.
Essa latina maldita deveria ter faro para drogas porque era pior que um pastor alemão.
— Acha mesmo que eu vou chupar um pau e sair de mão abanando? – Balancei o plástico.
— O que é isso? – Blake perguntou.
— Passagem só de ida para a terra dos unicórnios. – Jasmine fez uma careta ao responder, não era muito entusiasta das drogas.
— Experimenta assim. – Tirei meu pirulito da boca, coloquei dentro do plástico, o confeitando com os cristais e o recoloquei na boca.
O doce do pirulito amenizava o sabor amargo dos cristais. Repeti o ato mais duas vezes antes de lhe dá-lo.
— Isso é lícito? – Perguntou receoso.
— No nosso mundo, sim. – Meus amigos riram.
Ele me imitou e não pude deixar de reparar na sua careta ao sentir o sabor. Dei o outro pirulito para o restante do grupo que nos acompanharam. MD demorava em torno de quarenta minutos para surtir efeito, por isso levaria um tempo até nos tornarmos incrivelmente invencíveis.
— Por que não me levou ao hospital? – Blake de aproximou de mim sussurrando no meu ouvido.
— O quê? – Perguntei sem entender o sentido de sua pergunta.
— Por que não me levou direto ao hospital quando me viu todo arrebentado na rua.
— Porque hospitais são caros, me agradeceria se soubesse o quanto que ficaria cuidar do seu rostinho. – Lhe respondi com simplicidade.
Ele piscou algumas vezes, absorvendo minha resposta.
— Muito obrigado, de novo.
— Disponha. – Sorri. – De novo.
Começou a tocar a tocar uma música das Spice Girls, eu e minhas amigas começamos a gritar. Primeiro, porque eram elas e só isso seria motivo suficiente; segundo porque iniciava a parte túnel do tempo, que particularmente amávamos e por último, era a nossa música. Entramos em formação como uma pose a la As Panteras, e começamos a dançar e dublar. Blake ficou alheio sem entender o que estava acontecendo.
— Ele é a nossa quinta spice. – Jasmine gritou.
— A Baby. – Falei.
— Não, essa sou eu. – Penny me fez uma careta.
— Tanto faz. – Ri. – Tenta nos imitar. – Falei para o Blake.
Ele até que se esforçou, mas era uma comparação injusta tentar compará-lo com um grupo consolidado com anos de treino. Confesso que erramos mais do que acertamos os passos devido a perca da sobriedade, porém era sempre o máximo. Nos prometemos que um dia performaríamos como uma casa em um ball quando estivéssemos confiantes e treinados o suficiente.
Voltei a ter outros pequenos apagões da memoria e quando percebia estava no palco junto com os go-go-boys. Naquele momento, tocava Dirrty da Christina Aguilera, outra música que eu amava. Não pensei duas vezes e pulei no pau de poli dance mais próximo e escorreguei pela barra.
Não sabia identificar ou associar os gritos que vinham de todos os lugares, mas o tomei como um incentivo e continuei dançando no meio dos homens sarados e nem tão bonitos de rosto. Daquela música, eu sabia boa parte da coreografia, por motivos que prefiro deixar guardados.
Olhei para pista e vi Chad praticamente engolindo Blake com os lábios, pobre cordeirinho era comido pelo lobo. Ri. Penny e Jasmine o cercavam, quando as beijaram percebi que talvez isso acabasse em suruba.
Outro apagão.
Penny performava no palco, estava praticamente nua, seu corpo era perfeito e sua delicadeza e minuciosidade nos detalhes lhe deixavam mais bela. Emocionalmente, preferia sempre as apresentações de Jasmine, porém não naquela noite, minha outra amiga literalmente brilhava. Conforme batia seu cabelo longo, escuro e comprido para várias direções, sua pele brilhava como uma supernova, um brilho acobreado que uma pessoa branca jamais conseguiria ter.
O véu de fios negros caia no seu corpo e rosto a cada pose que faziam, vogueava, era a melhor nisso naquela boate. Eu tinha uma boa flexibilidade, me alongava todos os dias e procurava fazer yoga para ter um melhor desempenho com os clientes, mas nada comparado com a dela. Poderia ser uma contorcionista, ou melhor, deveria ser a dançarina ou modelo para alguém ou marca famosa, tinha tudo necessário, corpo e carão, mas outros fatores sempre lhe atrapalhavam.
— Odeio essa vagabunda. – Jasmine gritou animada com o que assistia.
Jasmine era gorda, eu falo gorda sem peso, desculpa o trocadilho. Mas porque ela assumia esse adjetivo com orgulho e sem uso de outras palavras, era isso e acabou, estava bem. Naquela noite estava montada em um vibe bem disco, com um black platinado e um macacão azul que combinava com o seu tom de pele escuro.
A droga finalmente surtiu efeito quando os primeiros instrumentais da música da Donna Summer fizeram os pelos do meu corpo vibrarem de modo insanamente intenso. Tudo ao meu redor começou a agir como se fosse em câmera lenta e tudo que eu sentia estava multiplicado por mil. Olhei para o meu grupo, e todos, pareciam estar sentindo a mesma coisa que eu. Focalizei em Blake para não ficar tão desorientado, ele fez o mesmo.
Olhamos um para o outros e sorrimos, nos aproximamos e começamos a dançar de um modo louco, como se literalmente estivéssemos sentindo o corpo um do outro. Tomei a iniciativa e passei a mão pelo seu corpo, principalmente nos braços, seus pelos eram tão ralos como o de uma criança. Ele me imitou, seus dedos pareciam perfurar minha pele de um modo bom, não sei como explicar. Me virei para ele e agarrei no seu pescoço.
Partiu dele a iniciativa de me beijar, foi um beijo delicado e despretensioso, bem diferente dos que eu estava acostumado. Não foi nada demais, eram apenas dois caras se beijam no meio da pista sem intenções. Nossos corpos se moviam em graciosidade, no ritmo da música, não poderia desejar estar mais feliz ou em outro lugar.
Quando nos separamos, rimos um para o outro e agimos como se nada tivesse acontecido. Exatamente do jeito que eu gostava.
Tive mais um apagão.
Olhei para o palco, a multidão me prensava contra ele, já que eu estava praticamente colado nele.
Sittin' here eatin' my heart out waitin'
Waitin' for some lover to call
Dialed about a thousand numbers lately
Almost rang the phone off the wall
Depois de ouvir vocais conhecido, entendi o que acontecia. Olhei mais atentamente para o palco e vi que Blake cantava e dançava no palco. Ele não deveria estar em outro lugar.
Lookin' for a lover who needs another
Don't want another night on my own
Wanna share my love with a warm blooded lover
Wanna bring a wild man back home
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