Tempestuoso
41 Alguém Bom
Notas iniciais
O pensamento de ter feito algo que não devia, me acometeu antes mesmo de despertar. Acordei de um sonho ruim, que imediatamente já havia esquecido, assustado e desorientado. Meus pensamentos eram confusos, estava enjoado, a luz me incomodava e minha cabeça parecia que poderia explodir só com o ruído da minha própria respiração. Eu estava de ressaca, sabia disso, e não só física como moral. Vasculhei na minha falha memoria os últimos acontecimentos, ainda era um exercício triste me contextualizar da minha nova e dura realidade.
Olhei para o vulto ao meu lado, que dormia em um sono pesado, pelo o que me lembrava seu nome era Andrew ou Drew. Ele era muito bonito, um garoto latino, de pele acobreada e de cabelos longos, me remetia a um anjo. Tateei o chão a procura dos meus óculos para amenizar a dor, os encontrei facilmente e estavam em frangalhos, todo remendado, porém não tinha outra opção a não ser continuar com esses.
Me levantei e procurei na memória onde que poderia ser o banheiro naquele lugar, não foi difícil achá-lo, era um apartamento de cômodo único. Eu soube que tinha transado na noite anterior quando comecei a andar e depois ao realizar minhas necessidades biológicas e sentir incomodo, a dúvida era se fora com o meu colega de apê ou com outra pessoa. Se eu não me lembrava de quem tinha sido, pior ainda se tinha usado proteção, um calafrio me subiu na espinha com a possibilidade de estar com alguma coisa.
— Blake, deixa eu entrar no banheiro. – Andrew bateu na porta, me assustando.
Fiz o que ele pediu, e sem cerimonia alguma, tirou a cueca e sentou no vaso ao meu lado.
— Quer que eu saia? – Perguntei.
— Não. – Ele bocejou. – Só é xixi.
Lavei minhas mãos e sai.
— Se lembra de muita coisa de ontem? – Gritou.
— Não muito. – Lhe respondi, parado do lado da porta.
O apartamento era tão estranho para mim, não me sentia a vontade e nem achava que deveria me sentir. A sua atitude em me acolher, apesar de ser muito grata, ainda me causava estranheza, minhas últimas experiencias me fizeram duvidar de quando a esmola que era generosa demais.
— Você arrasou cantando no palco. – Ele saiu de lá com as mãos molhadas. – Seu rosto ainda está horrível. – Falou ao me encarar.
Automaticamente, os hematomas da minha surra começaram a doer, na realidade o incomodo sempre estivera ali, mas o ignorava sem perceber até serem citados.
— Eu cantei no palco, aonde? – Fiz uma careta.
— Na boate da Mama Julia, não se lembra de nada? Eu não devia ter te dado MD ou Tequila...
— O quê!? – Perguntei assustado.
Nunca me vira usando qualquer tipo de drogas, os acontecimentos da noite anterior começaram a me aterrorizar como um asteroide ameaça um planeta antes de chocar-se com ele.
Ele riu.
— Relaxa, você não teve overdose ou nada do tipo, vai ficar de ressaca. Mas não se lembra, mesmo?
Forcei a memória e alguns fragmentos da noite anterior voltaram a aparecer.
— Não lembro muito bem. – Admiti.
— Você subiu no palco e começou a cantar, cantou bem pra caralho. Deveria ser cantor...
— Eu cantava no coral. – O interrompi.
— Da igreja? – Riu
— Não, da escola.
Andrew arqueou as sobrancelhas.
— Ainda tenho muito que saber sobre vocês, porém devemos ir ao encontro do Papa Julio antes disso.
— Casado com a dona da boate? – Perguntei inocentemente.
— Não, a mesma pessoa só que em períodos diferentes. – Sorria. – Vai se limpar e vamos correndo lá na lanchonete conseguir o seu emprego.
Passou por mim e pegou seu celular.
— Eu não tenho roupas...
— Vamos passar na igreja antes e te pegar algumas pro dia-a-dia. – Respondeu sem olhar para mim. – Pelo menos servem para isso.
— Obrigado. – Gritei. Por dentro, torcia para não ser o mesmo local que me expulsaram.
—x-
Estávamos caminhando em direção a lanchonete/bar com duas sacolas com roupas usadas, felizmente pegamos em outra igreja e Andrew não parava de mexer no seu celular. Eu não precisava e nem deveria perguntar o porquê, o modo como levava sua vida já era resposta mais que suficiente. Porém, não conseguia ficar tranquilo pensando na possibilidade de ter transado com ele na noite anterior e se estava com alguma doença por não ter me cuidado.
Fiquei lhe encarando e torcendo para não tropeçar na rua.
— Eu amo que me olhem, mas o modo que me encara, me faz questionar sua sanidade mental e se devo mantê-lo dentro de casa. – Me falou, finalmente olhando para mim.
— Queria te fazer uma pergunta. – Falei calmo e sério.
— Pode fazer. – Não desviou o olhar.
— Ontem, a gente... – Deixei o final subentendido.
Andrew gargalhou.
— Sim. – Deu uma resposta curta.
Engoli em seco, sem conseguir novamente encará-lo e sem foco para frente.
— A gente se protegeu? -Reuni forças para perguntar.
— Sempre, mas não sei se você se protegeu com o Chad, mas ele costuma ser sempre muito cuidadoso com isso. – Continuou digitando como se estivesse falando sobre a compra do mercado.
— Como assim?! – Praticamente gritei.
— Blake, você é muito histérico, eu sou uma pessoa histérica e estou te dizendo isso. – Me encarou, parecia sempre se entreter com minhas reações.
O choque de ter transado com duas pessoas em uma noite era muita coisa para eu lidar, eu não pensava em sexo ou algo do tipo desde o dia no vestiário das piscinas e na última noite na casa da Maggie. Balancei a cabeça tentando me livrar daquela lembrança.
— Eu nunca tinha transado com nenhum desconhecido. – Falei ofegante, tentando controlar a minha voz. – Nunca transei com mais alguém, apenas com uma...
— Isso é normal. – Tentou me tranquilizar. – E foi péssimo.
— O que?
— Você não tem muita experiência, não é? – Me encarou pelo canto do olho. – Parecia que eu fodia com um virgem. – Ele riu.
Fiquei constrangido.
— Me desculpe.
— Não se desculpe pelo sexo ruim, a gente estava louco e nem devíamos ter começado a foder. – Ele parou e segurou minha mão. – Eu sei o que você passou e não está tudo bem, porém... Você entendeu.
Acho que ele se referia a minha violência, o que mais eu tinha falado ou feito fora da minha consciência.
— Obrigado.
— Mas seu beijo é bom, não teria problema de te beijar de novo. – Falou malicioso.
Lhe encarei, ele era muito bonito, não tinha a beleza tradicional masculina, era andrógeno, mas ao meu ver, ainda sim muito bonito. Acho que percebeu a deixa e me beijou, tínhamos praticamente a mesma altura. Foi algo rápido, não senti nada, era apenas uma pessoa me beijando sem pretensão nenhuma.
— Vamos? – Ele me puxou pela minha mão.
Eu fiquei extasiado com a ideia de alguém ter nos vistos se beijando em público, nunca tinha beijado ninguém na frente de todo mundo. No caminho da lanchonete, começou a soar familiar até entrarmos nela. A lanchonete/bar de Papa Julio era igual a qualquer uma de uma região central, levemente encardida e com cheiro de óleo, porém atrativa o suficiente para se comer algo rápido.
— Mama, cheguei. – Andrew chegou gritando assim que entramos. Tinha passado o braço no meu ombro e me puxou até o balcão.
Pensei que alguns olhares no seguiram, mas ninguém pareceu se importar, havia meia dúzia de pessoas comendo.
— Pensei que não viria mais e nem traria sua cria. – Um homem corpulento gritou na cozinha, caminhando até o balcão.
— Claro que não, precisamos de dinheiro e olhe esse rostinho. – Segurou o meu rosto pelas bochechas. – Quebrado e inocente demais para as ruas.
— E eu tenho cara de quem faz caridade? – Apesar da fala atravessada, a sua expressão era divertida.
— Papa Julio. – Tentei o cumprimentar com as bochechas apertadas.
— Garotinho. – Tocou na ponta do meu nariz.
Ele era um homem afetado, dava para perceber que era gay só pelo jeito que se expressava, me lembrava um pouco o Elton John, mas sem tanto glamour e um pouco mais de chocolate e óleo quente.
— Viemos cobrar o que foi prometido. – Andrew voltou a falar, sentando-se uma das cadeiras altas que ficavam pra bancada.
— Eu sei. – Papa sorriu. – Tem alguma experiencia? – Me perguntou desconfiado.
Balancei a cabeça negativamente.
— Vai ficar na limpeza, temporariamente porque um dos meus sobrinhos se mudou para Caracas e eu preciso de ajuda para limpar as coisas.
— Muito obrigado. – Abri um sorriso que abria a muito tempo.
— Se aprontar, te chuto daqui tão forte que vai parar em Nova Jersey. – Falou sério e ameaçador. – E sobra para você também. – Apontou para Andrew, que voltara a mexer no celular.
— Claro, Mama. Mas tenho um bom palpite com esse daqui. – Fez um carinho nas minhas costas.
Eu queria confiar naquelas pessoas, mas não conseguia não ter um pé atrás sobre as suas intenções, estava pronto para correr o mais rápido possível para lugar nenhum, caso fosse necessário.
— Você também tinha dos outros e depois acabou do jeito que acabou. — Andrew não respondeu, mostrou a língua. – Podemos já começar hoje.
— Claro. – Respondi endireitando minha postura.
— Preciso ir. – Andrew virou olhando para mim. – Um atendimento.
Confesso que comecei a ficar um pouco desesperado quando vi indo embora, deixando me sozinho.
— Você vai se sair bem, Papa Julio é um amor e mais tarde eu passo aqui para te pegar. – Falou saindo ao perceber meu olhar desesperado.
Apenas acenei, sem conseguir processar a rapidez daquilo.
— Acho que a vida tem lhe batido bastante ultimamente, ein. – Papa falou rindo.
— O Senhor nem imagina o tanto. – Lhe encarei.
Eu tinha que aprender a ser forte, era só eu, já tinha ficado na rua e sofrido por coisas piores, estava conseguindo o emprego de uma maneira que jamais imaginaria que conseguia e só tinha que agradecer por isso. Não havia motivos para nervosismo.
— Pode me chamar de Mama ou Papa... – Começou a falar.
Papa Julio me puxou para o outro lado do balcão e começou a me passar todas as orientações sobre como seria o meu trabalho, que eu receberia cinco dólares por hora trabalha, o que já era muito para quem não recebia nada e com minhas condições dificilmente encontraria, porém menos que o mínimo. Trabalharia limpando tanto a lanchonete como ajudaria na limpeza da boate, poderia escolher limpar o segundo local assim que ela fechasse ou antes de abri-la, seria do meu critério, o importante era estar limpo as 22hrs todos os dias. Fiquei tentado a fazer mais cedo, do que prolongar mais um tempo o expediente. Ele me deu um avental sujo e ficou mostrando onde ficavam todas as coisas e dividindo a atenção com os clientes, ele que cuidava do caixa. Além de nós, haviam mais três outros funcionários, o cozinheiro e as duas garçonetes que também ajudavam na cozinha quando preciso, todos em certo grau da mesma família.
— Entendeu? – Me perguntou quando me entregou o esfregão.
— Perfeitamente.
— Eu sei que pode parecer difícil no começo, é realmente é, mas não fique aterrorizado por ser seu primeiro emprego. Só vou te chutar caso pergunte minha idade ou me roube. – Sorriu.
— Tudo bem. – Sorri amarelo.
— Não sei porque te dei o esfregão agora quando é melhor você ajudar o Pablo na cozinha. – Pegou o esfregão de volta. – Qualquer coisa pode me perguntar.
— Obrigado. – Olhei no fundo dos seus olhos negros, não poderia jamais dimensionar meu agradecimento pela oportunidade.
— Anda, que tem muita coisa para fazer. – Me empurrou para cozinha. – Pablito, diga a ele o que fazer.
— Claro, Mama.
Pablito deveria ser pouca coisa mais velho do que eu, era branco, porém com traços latinos, olhos escuros e cabelos lisos também escuros. Usava rede, mas alguns fios escapavam,
— Qual o seu nome, novato?
— Blake. – Lhe respondi baixo.
— Pega os pratos que as meninas trouxerem e coloca na máquina de lavar, depois pega o esfregão e passa aqui com frequência porque sempre fica engordurando...
Pablo ficou repassando o que eu devia fazer e fui lhe obedecendo, eu era muito lento e desajeitado, ficava na dúvida de perguntar e parecer irritante ou de aprender sozinho e fazer merda, optava por um equilíbrio entre os dois. Com apenas alguns minutos na cozinha, fui percebendo o quão abafado era aquele lugar devido a chapa quente, a fritadeira e a fumaça que exalavam. Todos os dias ali, com o tempo iria sair cheirando a hamburguer e fritas, mas não reclamaria.
— Qual o seu nome, novato? – Escutei uma voz feminina falando comigo.
Levantei os olhos, estavam esfregando o chão e as duas garçonetes me encaravam.
— Blake. – Respondi.
— Tonya e Gigi. – A moça de cabelos tingidos de vermelho apontou primeiro para si e depois para a colega, uma mulher mais velha de cabelos escuros com fios brancos na raiz.
— Prazer. – Acenei com a cabeça.
— Estamos de olho em você, se aprontar. – Falaram sério.
— Não vou. – Respondi sem jeito.
— Elas nem sempre são assim, com tempo fica melhor. – Pablo falou assim que foram atender um cliente.
— Mas elas estão certas, vocês nem sabem quem eu sou.
Ele não me respondeu, voltou sua atenção a chapa.
Percebi que se conseguisse manter um ritmo na cozinha, não teria obrigações acumuladas, por isso, quando o ritmo diminui lá pela metade da tarde, comecei a limpar a área que os clientes ficavam. Apenas um comia solitário em uma mesa privada, sua postura e roupas não combinavam com o ambiente, destoavam pela elegância. Senti seus olhos caírem em mim, conforme limpava as mesas, odiava ser a atenção de alguém, era muito melhor quando era invisível ou ignorado, coisas ruins não aconteciam.
Por um dos espelhos presentes no ambiente, o vi melhor. Ele era um homem negro, provavelmente com mais de trinta anos, sua pele era tão escura que chegava a brilhar aonde a luz refletia. Seus olhos eram tão escuros como sua pele, o que diferenciava ou melhor, destacava além das roupas caras, eram os seus cabelos crespos e volumosos em cor alaranjada, me perguntei se eram pintados como o de Tonya ou excepcionalmente naturais e raros.
Continuei fazendo o que fazia, ainda sendo seguido por seu olhar.
— O que está achando do seu primeiro dia de trabalho? – Papa Julio apareceu do nada, dando um tapinha nas minhas costas, quase derrubei o esfregão com o susto.
— Não tenho absolutamente nada do que reclamar. – Respondi com sinceridade, puxando o carrinho de limpeza para a área restrita da lanchonete.
— Já entendi que está agradecido, mas pode ser honesto comigo. – Ele riu me seguindo.
— E estou. O que mais preciso fazer?
— Você pode descer comigo lá na boate e me ajudar a limpar, depois voltamos e você finaliza a limpeza daqui. Não precisa levar o material de limpeza daqui, eu separo. – Falou ao me ver pegando novamente o esfregão.
Dei uma última olhada na pequena e engordurada janela, do espaço de estoque, vi o sol se pondo e o segui. Fomos por uma passagem interna, descendo duas escadas e saímos nos camarins atrás do palco. Olhei para o chão, era uma confusa de cores, glitter, maquiagem, plumas e tudo o que se espera que seja o camarim de Drag Queens.
— O que eu preciso que você faça aqui e lá fora, é limpar principalmente o chão e as mesas. Lá fora. – Apontou para o palco. — Tenho uma equipe que limpa o pesado, você só vai passar por cima, o mais pesado é aqui no camarim mesmo. Tudo bem?
— Sim. – Balancei a cabeça positivamente, mas sem prestar tanto atenção.
Eu estava encantado com todos aqueles restos de Drag Queens, aquilo deveria ser a maior amostra de estrelato e de palcos que um dia cheguei e chegaria na minha vida. Meu maior sonho sempre fora cantar, me apresentar para multidões e lotar teatros chiques, mas isso naquele momento, era algo tão distante, que até o camarim de uma boate no centro da cidade era mais do que muito. Meu corpo poderia reagir ao que Papa Julio falava e esperava de mim, mas minha cabeça estava frenética com o cenário.
Depois de familiarizado com o espaço onde se guardava o material de limpeza, fui guiado para a área realmente da boate, onde na noite anterior tinha vivenciado, porém com poucas lembranças. O espaço era bem menor, do que imaginei que era, mas não deveria ter esperado tanto, já que era embaixo da lanchonete. A decoração ficava em uma linha tênue entre o cafona e o extravagante, imaginei que era a essência da Mama Julia, não achava feio, apenas diferente de tudo aquilo que já tinha visto. O bar era exatamente do jeito que eu lembrava, devido a ter sido o primeiro lugar que fui quando cheguei e o último que deixei sóbrio.
Comecei levantando todas as cadeiras do recinto e comecei a varrer com a vassoura, como Papa havia falado, não tinha muita sujeira devido a limpeza anterior, ele estava checando o bar enquanto também me observava.
— Te observei cantando, ontem. – Comentou quando eu já estava no palco.
— Eu estava muito louco ontem. – Falei constrangido.
As pedrarias falsas e plumas no palco o fazia parecer mais especial do que o normal, o importante fato sobre esse palco era o seu formato. Minúsculo e com uma extensão no meio, que lembrava uma passarela e ia até próximo do bar e onde geralmente ficavam os caras bonitos e quase pelados dançando.
— Quem nunca fica? – Piscou. – Você tem talento, qualquer outro dia deveria cantar de novo.
— Muito obrigado. – Falei em meio a uma varrida e outra. – Mas acho que no momento, prefiro ficar limitado apenas a limpeza.
Olhei para cima e o globo de disco deveria ser maior do que eu, era lindo.
— Mama, você não o afogou no óleo quente, estou orgulhosa da senhora. – Escutei a voz de Andrew e o vi beijar meu chefe.
— Oi, gatinho. – Acenou para mim e se sentou em cima do balcão. – Como está o primeiro dia?
— Muito bom. – Sorri.
— Como se ele fosse dizer o contrário. – Papa riu rouco. – Como foi o seu atendimento?
— Prefiro não entrar em detalhes... – Andrew respondeu enojado. – Mas como ele está se saindo?
— Não tenho, do que reclamar. Ei, não pegue os pirulitos, são para os drinks.
— Um só não vai te dar prejuízo.
— Você pega muito mais do que um, e chupa mais do que pirulito aqui. Acha que não sei que está dando sua bunda magrela pro meu barman?
— Como ousa? Me acusa de usar de sexo para conseguir vantagens?! – Andrew fingiu indignação.
— Já começaram os trabalhos mais cedo? – Escutei vozes entrando no lugar, pensava que só abria mais tarde.
— Não, apenas observando o meu protegido trabalhar e disputo o barman com essa bicha velha. – Andrew respondeu.
Quem entrara, fora os amigos dele que conheci na noite anterior, seus nomes era uma vaga e distante memória na minha cabeça. Um deles, em particular, se destacou quando sua fisionomia se tornou familiar, assim como suas mãos e seu corpo no meu. Era o Chad, lembrei do nome porque Andrew falou de manhã, o outro cara de que transei. Desviei minha atenção do grupo, mas não em tempo suficiente para ele não perceber.
— Chad, você se protegeu ontem? – Andrew perguntou alto o suficiente para eu ouvir.
— O quê? – Ele perguntou confuso.
— Ontem, você não fodeu com o Blake no banheiro antes da gente sair?
Bati no balde e quase derrubei todo o a cera que iria usar pra polir de uma vez só. Como eles podiam falar aquilo com tanta naturalidade, eu estava morto de vergonha, queria era me afogar naquela cera ou sumir o mais longe possível daquela conversa.
— Foi e daí?
— Usou capa?
— Acha que eu sou amador?
— Não, mas ele não te conhece e está preocupado. – Andrew falou com naturalidade, eu sentia o seu olhar sobre mim. Eu tinha ficado propositalmente de costas a eles.
— Usamos, pode ficar tranquilo. – Chad gritou.
Por dentro, respirava aliviado para um caramba, mas por dentro já estava morto e enterrado de vergonha. Fiz um sinal de positivo.
— Ele é muito fofo. – Andrew voltou a falar.
— Era virgem? Não parecia pelo o que me lembro, mas não lembro de muita coisa.
— Não é não.
Eles realmente não poderiam mudar de assunto, me perguntava. Optei por focar no meu trabalho, pois ainda tinha muito o que fazer e sem me concentrar no que falavam. Passei a cera o mais rápido possível e fui satisfeito para o camarim, aonde não teria a companhia involuntária de ninguém. Era tão ridículo eu me constranger com a conversa, eles eram garotos de programa, sexo era a profissão deles, era o que mais fazia parte de suas vidas e por dentro eu ficava enfrentando um dilema moral que se quer deveria existir. Eu era gay, qualquer coisa além disso já não importava mais, Deus nem se importava comigo mais porque ficar com uma culpa católica sobre quantos eu transaria.
Minha resposta veio direta nos pensamentos, o problema não era quantos, mas ao ato em si, o que ele estava significando dentro de mim. Eu não sentia ou queria fazer sexo mais, havia sido ressignificado para mim, após sofrer tanta violência após ou durante o ato. A ideia de alguém tocando em mim beirava a repulsa, apesar de o beijo ainda ser algo que eu gostasse, como quando fui beijado por Andrew e não me incomodei com a ação, apenas com a possível plateia e sua reação.
Uma música pop começou a tocar do lado de fora, seu som era abafado dentro do camarim, me apressei para terminar o mais rápido possível.
— Oi. – Alguém gritou para mim. Era Alexis, o barman e o cara que Andrew se pegava esporadicamente.
— Olá. – Lhe respondi um pouco assustado.
— Não precisa correr não, o pessoal só está testando o som, não está perto de começar nada.
— Obrigado.
— Disponha. – Ele me olhava de forma estranha, poderia ser ciúmes ou algo do tipo, senti que não gostava tanto de mim.
— Alexis veio te ameaçar? – Andrew se sentou em uma das penteadeiras do camarim, observando-me usar o esfregão. Acho que nunca passei tanto tempo com um em toda minha vida.
— Não. – Neguei veementemente. – Só veio falar que o som era um teste e não a festa.
— Eu sei, eu que pedi, mas é que ele costuma ser chatão com quem eu dou um pouco mais de atenção.
— Entendi.
Tivemos um pequeno momento de silêncio, constrangedor como sempre era qualquer coisa para mim e natural para ele, que acedeu um cigarro e ficou usando um cinzeiro que tinha por perto.
— Já fumou? – Me perguntou. Balancei a cabeça negativamente. – Quer experimentar? — Lhe encarei, me aproximando. – O gosto é horrível, mas você se acostuma, ajuda a relaxar.
Levou o cigarro até os meus lábios e o suguei, o gosto era realmente horrível, senti minha garganta arder e comecei a tossir compulsivamente.
— Como esperado. – Ele bateu nas minhas costas.
— Horrível. – Murmurei.
— Falta muito para você acabar?
— Acho que preciso terminar aqui o camarim. – Olhei e faltavam poucas coisas. – Depois preciso fazer o mais pesado lá em cima.
— Acho um saco trabalho assim. – Soltou a fumaça no meu rosto. Eu não era muito fã de cigarro, mas a forma que ele fazia era tão sexy. – Por isso prefiro fazer atendimentos.
— Mas não é perigoso? – Voltei a trabalhar.
— Sempre é, mas o dinheiro compensa.
— Sempre compensa? – Perguntei desconfiado.
— Não, tem vezes que é horrível e me sinto um lixo. Mas eu sou uma merda em tudo, sou bom em fuder e se deus me deu esse dom, sou grato em usá-lo para o beneficio da humanidade. Todo mundo merece um sexo bom na vida, mesmo que pagando por ele. – Riu.
— Já pensou em desistir.
Andrew ficou pensativo.
— Todos os dias, mas como eu te falei, sou péssimo em tudo que me proponho a fazer, menos sexo. Quanto você está ganhando aqui?
— Cinco dólares por hora.
— Eu ganho cinquenta e faço quase todos os meus horários do jeito que eu quero...
— Mas e o sacrifício que precisa dispor o seu corpo... – O interrompi e fui interrompido.
— Que sacrifício? Meu corpo já deixei de me importar faz tempo. – Falou sorrindo e tragando mais uma vez. – Não desejo essa vida para ninguém, mas ainda se tem seus benefícios.
— Tudo bem. Me desculpe se fui invasivo. – Recuei devido ao rumo que aquela conversa estava levando.
— Não se desculpe, sei que a maior parte das suas perguntas é por curiosidade, mas não consegue segurar o seu julgamento católico. – Novamente riu.
— Desculpe...
Andrew me fez uma careta e eu ri.
—x-
Limpar banheiros eram algo nojento, eu tinha que admitir, principalmente se eram de uma lanchonete emergente do centro da cidade, o cheiro parecia já estar solidificado no azulejo, tentei o meu melhor, mas era impossível parecer completamente limpo. Acho que quando terminei tudo o que tinha que fazer na lanchonete já deveria ser quase 22hrs, só ficara Papa Julio e eu.
— Você trabalhou bem, hoje. – Falou enquanto fazia a contabilidade do caixa.
— Valeu.
— Mas vamos ver se mantem o ritmo nos próximos dias, todos começam assim e depois fazem corpo mole.
— Prometo nunca fazer corpo mole.
— Cuidado com suas promessas. – Deu uma risada seca.
Fui me abaixar para amarrar o tênis e vi a imagem de uma santa com um bebe no colo, imaginei que fosse Maria, mas nunca tinha visto sua representação assim.
— Papa, você é católico?
— O quê? – Ele olhou para mim e me viu abaixado em frente a imagem. – Sou, tem algum problema com isso?
— Não, porque eu também era ou sou. – Falei me levantando.
— Pensei que fosse falar alguma coisa, porque eu sei que a Igreja não gosta da gente, mas Deus é maior que isso, a Virgem do Coromoto também.
— Esse é o nome dela. – Falei ainda olhando a imagem.
— Santa Padroeira da Venezuela. – Se aproximou. – Ajudou tanto minha família aqui na América, você não sabe como é duro ser imigrante latino, aqui.
— Ainda frequenta a igreja? -Lhe perguntei atento.
— Não mais. – Pude ver a tristeza no seu olhar. – Você trabalhou bem, pode ir embora e eu fecho tudo aqui. – Mudou de assunto.
— Obrigado.
— Te pagarei sempre ao final da semana, está bem?
Balancei a cabeça positivamente e me arrumei para sair, peguei as sacolas de roupas doadas e tive um leve momento de desespero ao lembrar que não tinha como me comunicar com Andrew, teria que torcer para ele ainda estar na La Perra. Já tinha na rua e prestes a dar meia volta quando ele apareceu.
— Você vai sair em um horário bom para sair. – Fumava um cigarro, o cheiro da nicotina fazia meu nariz arder.
— Quase me desesperei sem saber aonde você estava.
— Toma. – Me entregou um celular velho. – Encontrei em uma gaveta de casa, não é bom, mas funciona e pode me ligar a cobrar, enquanto não recebe.
Sorri, ia falar obrigado, mas ele já havia pedido para eu parar. Trocamos olhares e ele também sorriu, deveria estar imaginando exatamente o que eu pensava.
— Cigarro ajuda a relaxar. – Me ofereceu.
Tinha alguma coisa no jeito dele que qualquer coisa que me oferecesse, eu iria aceitar. Dei uma tragada, ou melhor, imaginei que estivesse tragando e senti a fumaça toxica arranhar-me por dentro. Tossi.
— Com o tempo você aprende. – Me puxou para o seu lado e o cigarro dos meus dedos.
— Isso é horrível.
— Concordo, mas não consigo largar.
Caminhamos em silêncio até o apartamento minúsculo que vivíamos, era bem próximo da lanchonete e eu já memorizara o caminho para a manhã seguinte.
— Gostou do que fez?
— Sim, não é minha coisa favorita, mas não é desagradável.
Andrew concordou com a cabeça.
— Eu vou continuar trabalhando hoje, se quiser tomar um banho e voltar para o clube... – Começou a falar.
— Posso só ficar em casa? – Pedi o interrompendo.
— Sim. – Concordou, seus olhos pareciam distantes e seus pensamentos em outro lugar. – Vou te dar uma cópia da chave, voto de confiança. – Riu nervoso.
Me entregou a chave com um chaveiro de pelúcia vermelha.
— Te vejo mais tarde. – Falei entrando no prédio e lhe dando tchau.
— Até. – O vi pegar o celular.
—x-
A luz da alvorada pintava o quarto em tons de rosa e amarelo quando Andrew abriu a porta, sem meus óculos só pude ver seu vulto cambaleando até achar a cama e gemer. Olhei-o do meu colchão, parecia estar miando ou chorando.
— Você está bem? – Perguntei sonolento.
— Estou. Pode voltar a dormir...
Assim se seguiu por algumas semanas até eu tomar coragem e ir acudi-lo. Na minha terceira noite da terceira semana, me levantei, peguei um copo d’agua e me sentei ao seu lado.
— Bebe um pouco de água.
— O que está fazendo? – Me encarou avermelhado.
— Te dando um copo de água.
Ele fez uma careta pegando o copo e bebendo a água em um único gole, uma gota escorreu pelo seu queixo.
— Blake, você precisa entender que eu estou bem...
— Tudo bem. – Balancei a cabeça positivamente e lhe fiz um afago nas costas.
Ficamos nos encarando em silêncio até avançar para cima de mim e beijar os meus lábios.
— Ei.. ei... – Tentei segura-lo conforme beijava o meu corpo, que respondia aos incentivos. – Acho melhor não. – Segurei sua cabeça quando já estava por dentro da minha camiseta e descendo por minha barriga. – Não estou pronto.
Vi um fleche de memórias ruins e balancei a cabeça na tentativa de espanta-las.
— Me desculpe. – Se recompôs. – Estou um caco, não estou?
— Não está. – Peguei sua mão.
— Você é muito bom por isso sempre sofre. – Me olhou com pena.
— O que? – Fiquei confuso.
— Adam não gostou muito de eu ter outro hospede. — Meu coração parou, eu teria que me mudar de novo. – Mas podemos contornar essa situação.
— Obrigado por tudo. – Falei me levantando rapidamente.
— Não, não. – Me segurou pelo ombro, impedindo-me de andar. – Você não vai embora, está me ouvindo? – Praticamente gritou.
— Sua vida já tem seus problemas, Andrew não quero complicar ainda mais...
— Você nem sabe quem ele é...
— É alguém importante, se não, não estaria tão abalado.
— É meu cafetão. Mas olha, eu já o enfrentei outras vezes.
— Preciso ir.
— Por favor, fique. – Segurou meu rosto. – Já está tudo bem, não estou chorando com medo dele. Ele só não está feliz...
— Por que chora? – Perguntei curioso, o encarava profundamente naqueles olhos tão escuros.
— Porque sim. – Lagrimejou.
— Por que quer que eu fique?
— Porque você me faz bem, é bom ter alguém bom perto de você, às vezes. – Riu.
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