Tempestuoso

38 Rogue Pela Minha Alma


Notas iniciais
Passado quase um mês, mas..... Completamos Cinco Fuckin Anos de Existência. Cda kkkk é uma semana de atraso. Agradeço a todos que ainda acompanham, sei que perdi muitos leitores ao longo do tempo, mas fico muito feliz com os que tenho. ♥ Será que consigo terminar tudo em mais dois anos? CUIDADO - CONTEÚDO SENSÍVEL.

O carro seguia veloz pela estrada deserta em meio a uma tempestade fria de primavera, em nada parecida com as de verão que sempre serviam para emplacar o calor, esta era fria e pouca amistosa, não que alguma chuva parecesse amistosa para mim, combinava com meu espirito, como um solene luto a tudo que perdia. O frio era ainda pior por estar encharcado, as roupas não pareciam ser feitas de tecido ou estarem grudadas na minha pele, era mais intenso, como um metal gelado encostando nos ossos. Uma manta grossa falhava vergonhosamente em me aquecer e eu não fazia nada, creio que no fundo talvez torcesse para ter uma hipotermia e morrer.

Eu não conseguia raciocinar direito, tentava não pensar em nada e organizar tudo ao mesmo tempo, tentar encontrar uma solução faria necessário retornar a certos pontos e isso era horrível. Por hora, deixava-me ser levado por aqueles que me levavam para um novo desconhecido. Maggie segurava tão forte minha mão que os nós dos seus dedos estavam brancos, estávamos assim desde que me resgatara em um parque malcuidado no subúrbio da cidade que eu dava adeus e nem me importava.

Talvez Filadélfia fosse o meu novo lar, era onde ela morava, eu não sabia mais de nada, apenas que estávamos algumas horas na estrada e que levariam mais algumas até o nosso destino.

— Você quer alguma coisa? – Maggie repousou sua mão em meu ombro.

Ela tentava me confortar, apreciava seu esforço, mas nada que ela fizesse seria o suficiente para me resgatar do caos que me encontrava. Não lhe encavara, envergonhava-me demais para conseguir, não sei se conseguiria fazê-lo novamente, não depois dos últimos que o vira transmitirem tanto desprezo, após meses terem servido como o meu porto seguro. Sua insistência fazia me ser obrigado a olhar os cenários pela janela do carro. Respondi sua indagação negativamente com a cabeça, pude perceber a troca de olhares que fizera com as suas mães pelo espelho retrovisor.

— Vai ficar tudo bem. – Sussurrou.

Ela não era uma pessoa muito otimista, era realista e na sua voz podia sentir sua insegurança, não tinha nada a ser feito ou remediado, o que aconteceu, aconteceu e não se poderia mudar. Novamente balancei a cabeça negativamente, esse deveria ser o momento que choraria, porém não o fazia, algo dentro de mim me bloqueava ao ponto de inercia, de parecer indiferente. Quando a exaustão me venceu, agradeci por conseguir desligar um pouco e por não ter sonhos, sabia muito bem que uma hora ou outra receberia os pesadelos, mas não daquela vez.

Ao acordar, a umidade pegajosa e abafada me indicou que não estávamos mais em região interiorana, a cidade grande não era tão convidativa como no passado imaginei que seria ou tinha guardado na memória. exaustão acabou me abatendo, adormeci sem perceber e de mal jeito, acordei quando já estávamos na cidade grande e o ar já não era mais tão fresco como de antes, a umidade era pegajosa e abafada.

— Estamos quase chegando. – A mãe que dirigia falou quando me viu despertado.

Ela era a única acordada no automóvel, o barulho da chuva era muito convidativo aliada a escuridão para uma soneca, Maggie dormia apoiada na janela, ainda segurando minha mão e como um reflexo a minha posição de antes.

A embriagues de sono apenas serviu para o caos fluir, tudo parecia desmoronar, não parecia, tinha desmoronado. Quis tanto chorar, mas não poderia e não deixaria, não na frente da Maggie e da sua família, minha fraqueza havia sido escancarada ao mundo e elas não mereciam mais uma amostra disso. Segurei meus pulsos forte, tentando distrair minha mente com a dor física e não a emocional, de forma tão intensa que a carne cortou e uma pequena marca se formou, porém eficiente o suficiente para eu não pensar no meu pai o no Yerik.

Porém a leve familiaridade da região servia para resgatar uma memoria tão distante, mas tão associada ao meu pai que serviu como um gatilho. Uma das sedes do escritório se localizava na Filadélfia, no passado, em suas situações propícias sempre me levava consigo, uma época em que não se tornara tão brutal comigo ou que a nostalgia mascarava. Lembrei-me dos seus socos e tapas acertando-me o corpo, revivia os momentos como se estivesse acontecendo naquele momento, os hematomas ardiam como se estivessem sendo feitos. Me abracei da mesma forma que fiz antes.

Hora de encarar os fatos, você está sozinho, não pense no que aconteceu, tente focar no que precisa fazer daqui para frente, era o que tentava me dizer. Pela janela do carro vi um garoto caminhar calmo com um guarda-chuva, não seria nada demais, se não fosse por ser tão parecido com meu ex-namorado. Eu também não o tinha mais, não tinha ele e nem ao meu pai, Sam se fora, assim como minha mãe, Emily... Vick, ela não poderia me ajudar e nem tinha como. Lembrei-me dos seus braços envolvendo-me quando o mundo parecia que se acabaria em água, que meu corpo boiaria na imensidão azul, nada restaria e ao ser resgatado por ela, Deus teria me arrebatado aos céus e não sofreria nunca mais. Quanta ingenuidade. Não nos falamos depois daquele episódio, nenhum sinal, nenhuma tentativa de contato, aquela altura a escola já deveria tê-los comunicado sobre o meu desaparecimento, ou melhor, abandono. Só adiantei o que viria acontecer, meu pai pararia de pagar a mensalidade e eu seria convidado a me retirar, isso se não arrumassem um motivo para me expulsar por ser gay.

O que por tanto tempo me consumiu finalmente teve o seu fim, todos sabiam e o mais importante, eu aceitava isso e não negaria, eu era gay e se isso estivesse me levando a perdição, então, era um caminho sem volta.

As luzes eram desnecessariamente excessivas de noite, o mundo não parecia parar, só escurecia e tudo continuava, era essa a impressão que tinha ao passar por áreas comerciais e empresariais da cidade. A casa delas ficava em um subúrbio muito próximo a parte urbana, não sendo imune aos seus ruídos e até mesmo, um pouco decadente como as áreas centrais costumavam ficar. Eram várias casas de tijolinhos sujos de limo, com um quintal pequeno, estreitas, de dois andares e uma colada na outra, algumas possuíam pequenos arbustos ou árvores na frente, iguais.

— Blake. – A mãe que não dirigia me chamou, lhe dei atenção com o olhar, notei que a outra também me encarava. – Não sei se você sabe, mas temos um outro filho, ele é mais velho que você.

— Maggie comentou algumas vezes. – Decorrido tanto tempo sem falar ou abrir os lábios, minha voz saiu rasgada e abafada.

Nunca consegui lembra dos nomes, decidi por identificá-las como mãe motorista e acompanhantes, julgo-me um pouco ingrato por nunca gravar suas identidades, mas minha passagem e contato com elas fora tão breve. Ambas eram brancas e morenas, em meados dos quarenta anos, bonitas de modo comum.

— O nome dele é Calvin, é um tanto delicado. – Se olharam apreensivas.

— Peculiar, eu diria.

— Esperamos que vocês se deem bem.

— Em um primeiro momento pode ser estranho, mas ele tem bom coração. – Se interpolaram na fala.

— Tudo bem. – Suspirei.

Não era como se eu tivesse muitas opções, eram as únicas pessoas que me acolhiam e a outras opções seriam voltar para Sta. Agnes ou a rua, nenhuma delas pareciam muito promissoras, e no fim pararia na rua de qualquer forma. E não era como se estivesse em uma posição de entrar em conflito com seus filhos, o estranho ali era eu.

— Sentimos muito pelo o que aconteceu e ficamos felizes em recebe-los. – A mãe acompanhante falou.

Dos presentes, elas eram as únicas poderiam talvez ter passado por uma situação parecida com a minha, era lésbicas e talvez fosse até por isso que me acolhessem, pela similaridade e um pouco de fraternidade de movimento. Apesar de senti legitimidade no que diziam, ficava ainda mais triste justamente por estarem sentindo isso de mim, não queria ser coitado ou digno de pena para ninguém.

— Querida, acorde. – A mãe motorista cutucou Maggie. – Já chegamos.

Ela acordou desnorteada, limpou a boca babada e agarrou no meu braço.

— Vamos, tenho que te mostrar a casa.

A casa delas era exatamente igual as outras dezenas na redondeza, quando entramos a meticulosa organização era perceptível, tudo muito branco e muito alinhado. Queria estar animado, a um dia atrás estivesse, por conhecer a casa de uma amiga ou só por sair da minha rotina. Teria rido das suas fotografias de criança com tule de balé em peças de teatro ou em ensaios encarando amargamente as colegas de dança, no entanto, passei batido por esses detalhes.

— Vou pegar depois umas roupas do meu irmão para você. – Comentou.

Lhe segui até uma escada, subimos para o andar superior e viramos à esquerda, íamos para o cômodo que ficava de frente a rua.

Seu quarto era a sua mais pura essência, organizado, em um tom sóbrio e muito simples, devido ao tempo de ausência na escola possuíam uma atmosfera de abandono, como se não fosse utilizado a algum tempo.

— Ofereceria o quarto de hóspedes para você, mas está cheio de tralha, não costumamos receber visitas.

— Se quiser... – A interrompi.

— Não! Não estou te expulsando, não recebemos por conta do Calvin. – Segurava um punhado de roupas masculinas, que eu nem vi de onde trouxera. – Vão ficar enormes em você, mas por tempo, é o melhor que eu tenho.

— Obrigado.

— Quer falar um pouco sobre o que aconteceu? Pode ajudar. – Me perguntou com os olhos trêmulos. Balancei a cabeça negativamente. – Tem certeza? Você não gosta muito de falar, mas acho que internalizar tudo não é a melhor solução e...

— Não! – A interrompi grosseiramente. – Não quero pensar nisso agora, estou tentando não pensar justamente nisso e você só está piorando tudo insistindo, Maggie. – Desabafei, sentando na beira da sua cama.

— Me desculpe.

Não lhe encarei, envergonhado com a grosseria que acometi justamente com a pessoa que me ajudava.

— Não é sua culpa. – Olhava para o seu carpete sem muito interesse. – Obrigado por me acolher.

— Nem a sua. – Se sentou no chão ao meu lado, abraçando minhas pernas. Balancei a cabeça negativamente, não concordava com ela. Senti molhar minha roupa ainda úmida com suas lágrimas quentes, a invejei, não conseguia chorar e necessitava fazê-lo, geralmente servia, no passado, como um desintoxicador de emoções. – Você devia trocar sua roupa, vai ficar doente.

Ela se levantou e se virou, antes reclamaria da sua mínima noção de privacidade, mas depois de ter ficado de cueca da frente de centenas de pessoas, ou pior, centenas de pessoas terem me visto transando com um homem; ter uma amiga me vendo de cueca era a menor das coisas. Conforme tirava o tecido úmido do corpo sentia ainda mais frio, em um canto do quarto estava um espelho móvel de um metro e meio, vi meu reflexo e meu corpo coberto de escoriações das mais variadas colorações, percebi que minha colega me expiava por ele também.

Coloquei as roupas do seu irmão, que ficaram excessivamente grandes, como previsto e de apertar em pontos específicos, ele deveria ser alto e magro.

— Pronto. – Falei.

— Você parece tomou uma poção de encolhimento e as roupas não encolheram juntos. — Balancei a cabeça positivamente. – Se quiser lavar o rosto com água quente, o banheiro é no final do corredor. – Vou ver com as minhas mães o que tem para comer.

Ela saiu e correu para o andar inferior.

O corredor era mal iluminado devido à ausência de luz natural ou janelas, não era tão longo e servia aos dois quartos daquele andar, provavelmente os dois filhos. Ele era só mais um reflexo da casa, tão branco que incomodava a retina. Caminhei até a frente da pia, molhei um pouco da toalha de mãos com água quente e passei no meu rosto.

Foi inevitável o susto e a dor, estava com uma aparência horrível.

— Você é tão patético.— Falei para o meu reflexo no espelho. – Acho que foi devidamente merecido, tudo que aconteceu.— Era como conversar com outra pessoa, mas era apenas eu, o pior de mim. – Era só uma questão de tempo até ser pego, sempre foram muito descuidados, esperava o quê? Viver um conto de fadas, felizes para sempre? Isso não existe! Não sei o que é pior, ter acreditado nessa merda ou que ele realmente te amava para superar tudo e todos. As pessoas te usam e você é apenas ou desvio ou atalho na vida delas, quando não serve, apenas te descartam. Olhe para si mesmo por um segundo e saberia exatamente o que estava acontecendo!— As lágrimas desciam pelo meu rosto. – Você foi um passatempo, um caso na história dele, achou que ele largaria tudo para ficar com o menino do vídeo? Coitadinho de você! Mais uma desgraça para a coleção do garotinho traumatizado, vamos ver qual vai ser a nova que você terá.

— Merda! – Gritei.

— Seu pai ter te dado uma surra é o mínimo pelo o que você fazia, nem para Deus deveria pedir perdão. Não se desculpe pelo indefensável. Ahhh, nem pense em se matar, só pioraria as coisas na vida de todo mundo.

Respirei fundo, encarei profundamente os meus olhos esverdeados e me estapeei com força.

— Recomponha-se. – Falei firme, tinha retornado o controle. – O que aconteceu, aconteceu, não há nada a se fazer ou se arrepender. – Tentava me convencer. – Só siga, não pare, apenas aprenda a viver novamente.

Enxuguei minhas lágrimas, o tapa não era nada ao inchaço que estava o resto do meu rosto. Algo começou a vibrar nas roupas molhadas e percebi que se tratava do meu celular, o peguei e vi que Vick me ligava.

“Blake?!”— Seu tom era levemente desesperado.

“Sou eu.”— Dentro de mim algo se encheu de esperança, apesar de bem no fundo estar ciente do rumo que aquela breve conversa levaria.

“Sinto muito por tudo que aconteceu, aonde você está? Como você está?” — Sentia veracidade no que dizia, porém também sua hesitação.

“Eu estou... Na casa de uma amiga.”

“Ai que bom, fico mais aliviada.”

Fiquei em silêncio.

“Vi o seu namorado na escola agora a pouco e ele me evitou, não sabia para onde você tinha ido.” — Estava receosa.

“Ele terminou comigo.” — Tentei soar o menos afetado possível, mas era impossível, era uma ferida aberta, infeccionada e que causava hemorragia.

Ela ficou em silêncio.

“Fiquei surpresa em saber que você namorava, ainda mais um garoto. Poderia ter me contado que era gay.”

“Não contamos mais as coisas um para o outro, cada um tem seu segredo sortido. “– Soei defensivo, realmente estava sendo.

“Eu te receberia bem.”

“Não importa, você gosta de presumir as coisas e fez isso toda vez que estive perto de lhe contar. E só iria me receber por sempre querer um gay como chaveiro”

“Isso não é verdade...”

“Por que não ficou comigo?” — Deveria ter me acalmado, porém, meus pensamentos pulavam o meu bom senso.

“Papai não deixou...” — Ela entendeu a pergunta.

“Você nunca se importou muito com isso.”— Não deveria soar magoado ou ressentido.

“As coisas são diferentes agora, estão mais complicadas”— Estava desesperada.

“O que é tão complicado de estar comigo?! Eu tinha acabado de perder tudo e a única coisa que queria era ter alguém que minimamente me amasse por perto.”

“É...”

“Não posso voltar para casa ou Sta. Agnes, não é?” — Fazia um tempo que eu não a poupava mais do peso de minhas palavras, geralmente as media, mas depois de tudo e tanto tempo, receberia um pouco de tudo que sentia.

“Papai trocou as fechaduras de tudo e te desmatriculou da escola, levou suas coisas já. “

“Você não fez nada, não foi?” — Praticamente gritei.

“Não pude...” — Estava chorando.

“Sempre pensei que você não gostasse de mim, mas não a esse ponto...” — Minha voz saiu contida para não gritar ainda mais.

“Estou grávida!”

“Que merda!” — Não pude me segurar, o que ela tinha na cabeça para ter engravidado de novo, depois de tudo que passou da última vez.

“Papai descobriu e está complicado, não posso enfrentá-lo agora, é complicado...”

“Meus pêsames para o futuro lata de lixo ou descarga.”— Um dos maiores arrependimentos da vida, foi essa frase.

“Não vou abortar dessa vez, ele não deixou e nem posso, não tenho grana e posso morrer...”

“Me poupe dos detalhes.” — Tinha uma leve noção das suas complicações após o método ilegal.

“Blake, eu quero te ajudar, prometo, mas não consigo agora.”

“Tanto faz. Sobre Yerik, ele é meu ex-namorado.”

Desliguei o celular afoito, nem o diabo em suas piores artimanhas faria algo do tipo. Vick estava grávida, deveria ter seus riscos aumentados pelo histórico e estava presa ao seu pai, nem se quisesse poderia ajudar um ferrado como eu, outra vida, mais importante, entrara na jogada. Dentro de mim, me sentia péssimo por ser horrível com ela e outro doía pela esperança morta, devia admitir que ao ver sua chamada uma pequena fagulha se acendeu, para logo em sequida receber um balde de água fria.

Me recompus e fui jantar.

O jantar foi particularmente desconfortável, elas estavam hesitantes e avaliavam meticulosamente minhas reações, era como voltar para o refeitório na época do meu vídeo bêbado, quando todos me olhava, só que em uma escala menor e mais potencializada. O irmão não nos acompanhou, ficou recluso no seu quarto e fiquei agradecido por isso, era uma pessoa a menos na plateia no meu show de decadência.

— Você já sabe o que fará agora? – A mãe motorista me perguntou quando o silêncio se tornou tão insuportável que o barulho dos talheres soava como lamentos de bebês.

Balancei a cabeça negativamente, sentia que no silêncio, preservando minha voz, pudesse servir de consolo para a minha dor. Fingir que nada acontecia e que estava apenas fazendo uma visita a uma amiga, que logo voltaria para casa ou para os braços do meu namorado, porém não era assim. Acho que perceberam que eu não estava afim de conversar, um tanto quanto mal-agradecido de minha parte por sua hospitalidade, e ficaram conversando entre si.

A comida não tinha gosto, tudo tinha gosto de vazio, de cinza, como uma água velha e parada. Olhei para janela da casa, avaliando quais seriam minhas possibilidades caso, decidisse fugir. Ali não era o meu lugar, percebia desde o momento que pisara lá. O restante da noite passou como um borrão, da mesa do jantar fui parar nos braços da minha amiga no seu quarto.

Não esperava consolo, não esperava por carinho, não esperava nada, só queria chorar o suficiente para me afogar no meu próprio desespero, deixar de existir como deveria ter acontecido nas duas vezes que quase fora levado pelas águas. Quando Maggie me viu desabando, apenas me puxou para o seu colo e acalentou meus cabelos.

Odiava chorar ainda mais naquele momento em que fazer qualquer movimentação no rosto era sofrível. Tentei achar motivos ou razões para os acontecimentos, minha mente agia contra mim e ainda presa aos dogmas cristãos. Seria castigo por ter me entregado ao pecado, segundo suas convicções? O que mais poderia ser? O que fazia de tão ruim para merecer tantas coisas ruins acontecendo em um período de tempo tão curto? Eram perguntas que eu me fazia na expectativa de respostas que nunca encontraria, mesmo anos depois.

— Você é forte. – Maggie sussurrou quando percebeu que se eu chorasse mais um pouco desidrataria, percebi que também me acompanhava nas lágrimas.

Recebi seu abraço de bom coração, no entanto, sem ânimo.

—x-

A primeira vez que vi Calvin foi na manhã posterior, enquanto me encarava novamente no espelho, pronto para mais uma autohumilhação e ele espreitou pela fresta da porta e ficou me encarando. Era bem parecido com Maggie, uma aparência esbelta e esguia, apesar de ser magro de maneira um tanto doentia e seus olhos profundos me passassem a impressão de alguém que não dormia a muito tempo, os cabelos eram acobreados e sem vida, assim como os olhos negros.

Ele não falou nada e da mesma forma que entrou saiu, como um animal avaliando o invasor do seu território e se preparando para uma melhor e eficiente investida. Nunca perguntei o que ele tinha ou teve, porém jamais o esqueceria na minha memória, seria o pior dos meus fantasmas. Fiquei um pouco arrepiado, algo dele me incomodou além da sua intrusão, minha intuição.

Quando me encarei no espelho, estava com o rosto mais inchado do que no dia anterior, não sei se fora especificamente pelo choro ou pelo processo curativo dos hematomas.

— Bom dia. – Ele bateu na porta, ao retornar.

Tive um leve sobressalto, porém consegui disfarçar, acenei com a cabeça e fiquei olhando no espelho. Ele permaneceu no recinto, foi desconfortável.

— Você é o amigo da Margaret?! – Não soube se afirmava ou perguntava. – Seu rosto está horrível. — Balancei a cabeça positivamente concordando. – Você é mudo?

— Blake.

— Você já sabe quem sou eu, preciso usar o banheiro. — Não foi preciso dizer mais nada, o mais apressado possível saí de lá, sentia seu olhar nas minhas costas e quando olhei para atrás, fechava a porta lentamente e me observando, agia como se não tivesse invadido o banheiro alguns segundos atrás.

Não pude me dar o luxo da companhia da minha amiga por mais de um dia, passamos a tarde apenas usufruindo um da companhia do outro enquanto silêncio reinava entre nós, quando ela partiu na manhã seguinte desejei ter sido um pouco mais proativo em minha ações, ter aproveitado a sua companhia, só tinha a ela e agora ninguém, apesar da comodidade da sua casa.

Os dias passavam em uma velocidade impressionante, apesar de não fazer nada e praticamente passar os dias inteiros dentro do quarto, não queria fazer nada ou tinha animo para. As mães passavam os dias trabalhando e nos encontrávamos brevemente durante o jantar, quando tinha que forçar a comida pela minha goela, não queria que se preocupassem com a minha saúde física. O único problema se tornou as idas ao banheiro, sempre de alguma forma Calvin arrumava um jeito de sempre me encontrar no caminho.

Não seria um problema até que um dia o vi se masturbando no banheiro, tive a certeza que precisava sair dali, poderia não saber suas reais intenções, porém, não poderia ficar com ele e o dia todo sozinho, não parecia seguro. Se tocava escancaradamente, só tinha eu lá e obviamente não estava preocupado em ser visto, quando nossos olhares se cruzaram e um sorriso cínico se formou no seu rosto, só quis morrer.

Avaliei contar para Maggie ou para suas mães sobre o acontecido, porém, no final seria a palavra do filho delas contra minha, filho que faziam questão de elogiar todos os dias sobre o progresso dele nas suas sessões psiquiátricas.

— Fico feliz que não tenha contado nada sobre hoje. – Ele falou ao segurar a porta do quarto quando me preparava para dormir após o jantar. Paralisei, ele fechou a porta atrás dele e eu recuei. – Gostou do que viu? – Balancei a cabeça negativamente. – Você não é gay, ouvi falaram que você era e seu jeito também te entrega.

Comecei a suar frio, ele nem ao menos se aproximava e me tremia, sua voz era controlada e quem visse a cena de fora viria apenas eu desesperado.

— Me responda. – Exigiu calmo.

— Eu sou gay. – Murmurei.

— E não gosta disso? – Apertou seu pênis duro sob a calça. – Já me falaram que eu sou bem-dotado. — Balancei a cabeça negativamente. – Não pareceu, você sorriu para mim. – Seu tom de voz se alterou.

— Não sei do que você está falando. – Novamente murmurei.

Abruptamente ele avançou para cima de mim com a mão estendida e antes de me tocar recuou.

— Nos vemos por aí. – Falou se despedindo e batendo a porta.

Imediatamente a tranquei, andei de um lado para o outro desesperado, não sabia o que fazer ou para onde correr. Peguei meu celular na esperança de visualizar algum contato para que pudesse ligar e nenhum pareceu possível. Naquela noite eu não dormi, meu medo de Calvin tomou o controle e me impediu de dormir, que perdurou por uma semana até o pesadelo se tornar realidade.

Era final de tarde quando fui no banheiro, era a primeira vez que não era abordado por ele, fiz o que tinha que fazer e quando estava retornando, foi quando que ele me atacou. Me empurrou no chão e se pôs sobre mim, mesmo sendo magro, teve força o suficiente para me dominar.

— Finalmente saiu do quarto.

— ME SOLTA! – Gritei.

— Vamos fazer o que estava sedento, que eu sei.

Puxou as minhas roupas rasgando-as, fez o mesmo com a suas, tentei aproveitar essa oportunidade para fugir, no entanto, me puxou pela perna, fazendo-me cair novamente no chão.

— ME SOLTA! – GRITEI.

— Você quer tanto quanto eu, não resista. – Seu tom calmo era o pior.

Suas mãos seguravam meus braços tão forte que os deixariam roxos, minha garganta ardia na tentativa falha de tentar gritar, sua meia bloqueava qualquer ar de sair. Seus beijos no meu pescoço e seu corpo em cima do meu, me davam tanto nojo que vomitaria se fosse possível, queria tirá-lo de cima de mim e me lavar com álcool.

— Me larga!

Tentei o empurrar, era mais forte, o chutei e recebi um tapa na cara.

— Se se contorcer será pior. – Sussurrou calmo no meu ouvido.

Comecei a gritar e recebi mais dois tapas, engasgando-me com a minha língua e sangue. Quando suas mãos prenderam em meu pescoço sabia que seria o meu fim e não poderia fugir.

Era impossível não tentar resistir, rezei a Deus para que me salvasse ou que me matasse antes que o pior acontecesse, porém, fui ignorado. Só tive a certeza que não havia morrido ao sentir o sangue quente escorrer pelas minhas pernas conforme me invadia. Acho que chegou um momento em que eu simplesmente desisti, mesmo que não estivesse mais me segurando, não conseguiria me mexer. Apenas ficaria parado naquela posição esperando-o acabar com meu corpo porque minha alma já havia partido destruída.

Não demorou muito, soube que terminara quando foi tão fundo que poderia ter me perfurado por dentro, ao sair, tudo que tinha dentro de mim saiu. Acho que ele não estava acostumado a fazer, não sei, não sabia de nada, só não fora rápido o suficiente.

Desabei no chão, meu corpo ardia no chão gelado, quente de suor e violência. Desnorteado, me rastejei pelo chão até o quarto de Maggie puxando seu lençol de cama e cobrindo meu corpo. Seus fluidos impregnavam o meu corpo, o suor misturado ao meu, os toques das suas mãos em mim e seu pau me rasgando. Tremia e pela primeira vez em muitos anos, queria tomar um banho.

— Vamos fazer isso todo os dias. – Calvin falou no corredor, tinha parado de reparar nele ao humilhar-me com a sua repugnância.

Meu coração se acelerou ainda mais, se possível, com a eminencia da frequência das violações diariamente. Esperei que ele fosse até o seu quarto enquanto me vestia, recolhi o que tinha de forças, me levantei e fechei a porta. Não pensei muito, catei tudo o que tinha e coloquei em um bolsa que estava fácil, o que era basicamente nada e pulei pela janela.

Notas finais
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