Tempestuoso

31 Rachando o Gelo


Notas iniciais
VOLTEI QUERIDOS MUITO OBRIGADO A TODOS QUE COMENTARAM OS ÚLTIMOS CAPÍTULOS E UM PEDIDO DE DESCULPA PELA DEMORA EM ATT E PELOS COMENTÁRIOS NEGLIGENCIADOS. CONTINUOU NA CONDIÇÃO DE ONLY MOBILE PARA ESCREVER, POR ISSO TBM UM CAPÍTULO CURTINHO, MAS NECESSÁRIO... BOA LEITURA.

Frio, foi a primeira sensação que experimentei ao despertar e logo ao abrir os olhos, uma dor de cabeça irritante que sentia toda vez que bebia, o que não acontecia com frequência, mas quando acontecia gerava resultados catastróficos, acometeu-me. Tive dificuldade em me localizar, minha visão embaçada não conseguia reconhecer os vultos do local que estava, não lembravam meu dormitório em Sta. Agnes e nem o quarto de hotel que me hospedava em Vermont. Passada a confusão inicial, percebi que o frio era devido ao fato de eu estar nu, ao meu lado havia uma fonte muito atrativa de calor, Yerik, reconhecia o seu modo de respirar dormir e aparentemente também estava nu. Esse pequeno detalhe deixou-me desconfiado sobre a situação que acontecera ali, tentei lembrar alguma coisa da noite anterior, mas o que conseguia devido a dor de cabeça atrapalhar, era de comemorar as vésperas de Natal.

Tatei com as mãos o chão perto de mim, que era um velho tapete de pelos mofado e empoeirado, tentando localizar meus óculos, seria mais fácil pensar com um visão limpa, era o que eu pensava. Ao enfim, localizá-los e colocá-los, reparei no local que estávamos. Era uma pequena cabana, muito simples de madeira, com suas separações de ambiente delimitadas apenas pelos móveis, que estavam todos deslocados. Não pude ficar muito tempo “admirando“ a paisagem, pois senti meu amigo ao lado, rapidamente admite uma posição de quem ainda estava dormindo.

Yerik se movimentou mais, eu estava de costas a ele, não podia ver seu rosto, mas sabia que despertara. Devia estar com frio como eu, porque se aconchegou em mim, puxando-me mais para si, abraçando-me e se eu tinha dúvida perante sua nudez, essa pergunta foi respondida ao senti-lo pressionar-me na região da nádega.

Senti fazer-me carinho no rosto e levantando meus óculos, droga, eu tinha esquecido de tirá-los.

— Eu sei que já está acordado. — Sussurrou levemente no canto do ouvido, o toque de sua respiração aliada a temperatura, fez cada fio do meu corpo se arrepiar.

Eu não estava assustado em acordar dormindo ao seu lado, estávamos dormindo juntos fazia um tempinho, mas nada com segunda intenções como acordar nus que deixava coisas subentendidas. Era como nos últimos dias do nosso primeiro ano, dias difíceis e com um abraço muito bom para ser ignorado, agora, sem os dias ruins, o abraço muito bom era motivo suficiente para ficarmos juntos principalmente após admitirmos nossos sentimentos um pelo outro, quero dizer, eu finalmente admitir. Estaria mentindo, se dissesse que não me culpava todos os dias ao dividir a cama com ele, mas a sensação era tão boa e não sentia estar fazendo algo errado em 90% do tempo.

— Foram os óculos? — Lhe perguntei sussurrando de volta.

— Uhum. — Ele falou sorrindo quando abri os olhos. Ele era lindo, mesmo com mau hálito e remela na cara, era um verdadeiro deleite encontrar aqueles olhos celestes brilhando para mim e o seu sorriso que pressionavam seus lábios de maneira sedutora. — Bom dia. — Falou se aproximando e tocando meus lábios com os seus de modo delicado. — Também senti se afastar de mim. — Completou.

— Bom dia. — Lhe retribui o sorriso, mas sem dentes.

— Você está bem?

— O quê? Por quê?

— Você está com ressaca? — Respondeu minha pergunta com uma pergunta.

Eu estava um pouco arredio, com medo das possibilidades da última noite. Mas precisava não parecer tão desesperado.

— Estou morrendo de dor de cabeça.. — Murmurei pressionando a tempora.

— Você se lembra de ontem? — Percebi seu tom e expressão mudar, uma ruga cortou-lhe a testa, parecia preocupado, o que me deixava também.

— Como assim? O que aconteceu ontem? Mas, por que estamos pelados? — Tomei coragem de lhe perguntar aquilo que passava pela minha cabeça desde que acordara, se tive intenções de não soar desesperado, falhei vergonhosamente.

Seus olhos brilharam, parecia que estava prestes a contar o segredo de sua vida, acho que temia minha reação e eu também a temia.

— Você bebeu muita gemada ontem. — Começou a falar contido, o ambiente além de frio tornou-se pesado. — Eu também bebi um pouco… — Acho que não era dessa forma que ele esperava acordar.

Yerik começou a narrar os acontecimentos da noite anterior, conforme discorria pequenos borrões das situações que falava aflorava-me na memória, mas nada consistente o suficiente para abandonar sua narrativa. Não conseguia acreditar que havia conseguido atravessar um lago congelado sem travar.

— Você foi corajoso e confiou em mim. — Falou orgulhoso.

Conforme contava, eu ficava mais relaxado, porém, até chegar na parte que eu tanto temia.

— O que aconteceu depois que coloquei o disco para tocar? — Perguntei perdendo a respiração, não era por acaso que ele parara de falar, algo sério tinha acontecido.

— O que você acha? — Ele desviou os olhos dos meus.

Comecei a tremer, me movi para trás para aumentar a distância que nos separava e assim que fiz um movimento mais incisivo, senti uma dor na região posterior ao ventre. Não só uma dor, mas como se estivesse “aberto”, não era das melhores sensações. Mais indicativos do acontecera na noite anterior.

— Por favor, me conte tudo. — Lhe supliquei, tentando manter o controle da voz, porém, falhando.

— Não… — Yerik fez menção de me tocar, mas desviei de suas mãos.

Não queria o seu toque, era a certeza de tudo que fizera ontem. Não me sentia bem, pior que a ressaca, era a culpa moral.

— Só conta tudo. — Limpei as lágrimas que escorreram pelo rosto.

— Você queria fazer amor comigo. — Sua voz soou tão frágil quanto a minha, estava prestes a chorar. — Eu falei para a gente não fazer, mas você insistiu tanto e eu te queria a tanto tempo. — Seu rosto se molhou como o meu. — Eu sabia que não acabaria bem. — Ele sorriu nervoso. — Nós transamos e foi terrível.

Apatia, seria o melhor adjetivo para descrever o meu estado depois de saber de tudo. Queria ter alguma reação, queria poder consolar o garoto na minha frente, queria reagir e dizer que tudo ficaria bem, tentar me convencer disso. Porém, não conseguia. Fiquei encarando Yerik por minutos, digerindo e sentindo a dor física de um sexo desconfortável, era a mais óbvia lembrança dos acontecimentos. O búlgaro tocou minhas mãos, ele esperava algo de mim, não o impede dessa vez, mas também não correspondi o afago que recebia.

— Eu sinto muito, me desculpe, não era para ter sido assim. — Se aproximou de mim e me abraçou.

Seu toque era tão bom, sua pele nua e arrepiada de frio, agitava-me por dentro, lembrei de como me sentia ao tê-lo sobre mim antes de tudo desmoronar, do desejo que sentia por ele e tanto negava-me a acreditar e sentir. Não era justo culpá-lo por nada, não podia usá-lo de bode expiatório, eu tomara a iniciativa, queria fazê-la e tinha curiosidade a muito tempo. Ele percebeu que minha recepção mudará, conhecia tempo o suficiente para saber quando conseguia vencer minhas neuras e assim ultrapassar minhas barreiras, meu coração martelando aceleradamente e meus cabelos arrepiados também entregavam-me.

Yerik virou o rosto, ainda me abraçando e beijou meu rosto.

— Prometo, que vai ficar tudo bem. — Fez uma trilha de beijos da bochecha até o canto dos meus lábios, enquanto segurava meu rosto com uma das mãos e eu acenava positivamente com o olhar distante.

Suas mãos desceram para minha cintura e puxaram-me para o seu colo, senti frio ao ter o tapete deixado do meu corpo ao mesmo tempo que o calor do outro me aquecia. Deixei ser levado, apesar de uma voz interna perturbar-me. Seus lábios tocaram os meus, tinha o gosto salgado de nossas lágrimas, podia senti-lo completamente no meio de minhas pernas. Foi um beijo calmo, apesar da posição e de estarmos nus, Yerik queria me acalmar. Lhe dei um beijo e deitei minha cabeça na base do seu pescoço, minha respiração era pesada assim como a dele, uma de suas mãos acariciava-me o corpo enquanto a outra afagava-me os cabelos.

— Estou com medo. — Confessei com os olhos úmidos, mas sem chorar e o abraçando com intensidade.

— Você confia em mim? — Yerik perguntou em um sussurro. Acenei positivamente, apesar de não estar cem por cento certo. — Então, não precisa ficar com medo. Não fizemos nada de errado, só fizemos no momento errado.

Queria novamente estar cem por cento de acordo com suas palavras, mas uma voz interna reprimia-me. Gostaria de estar confortável com minha sexualidade, havia percorrido um longo caminho de aceitação até chegar aonde chegara, mas só era preciso uma pequena coisa ou avanço e minha cabeça recuava vergonhosamente.

—x-

Quando tomei aquela decisão não tive ideia das proporções que elas tomariam e nem que lhe causaria tanto mal. Após sair dos braços de Yerik, senti que precisava fugir, tinha que ter um momento sem ele, meu desejo por ele me corrompia e só podia ser detido, se me afastasse. Só precisava de uma oportunidade para fazê-lo e ela surgiu logo após nos vestirmos e ele usar do lavabo.

O mais rápido possível, abri uma das janelas do chalé, com dificuldade, mas com razoável velocidade e pulei por ela, encontrando uma camada de pelo menos cinquenta centímetros de neve, da tempestade anterior, não poderia utilizar da porta pois ela estava bloqueada pela mesa que arrastamos.

Encontrei um mundo gelado e branco, encantador talvez se não fossem as circunstâncias. Poderia ficar admirando a paisagem, as árvores com os seus troncos que brilhavam negros em contraste com a neve branca nos seus galhos e pés, mas precisava me afastar para não ser seguido ou ter a ausência notada antecipadamente. Eu tinha duas opções, andar sobre o lago ou subir pela floresta desconhecida, nenhumas das possibilidades pareciam promissoras, mas minha hidrofobia gritou mais alto e decidi ir por floresta adentro, teria sido mais prática a outra opção, estava tão frio que a probabilidade do gelo rachar eram mínimas, o terreno seria plano e teria apenas a neve para me atrasar, porém ainda exista a possibilidade de congelar debaixo d'água caso estivesse com muito azar.

Andar na neve era uma tarefa complicada, mas tinha força de vontade suficiente para fugir de Yerik, o que estava vivendo com ele era errado, não devia ter envolvido me mais, além de pecar estaria destruindo o seu coração, o que era o pior de tudo. Andei margeando o lago congelado, vez o outra ouvia algum animal na mata, isso me amedrontraria em outra circunstâncias, mas preso em meus pensamentos, só tinha o foco em voltar para o hotel e ficar preso no meu quarto até a viagem acabar e ser impossível de evitá-lo. O hotel parecia um ponto distante no alto do vale, não imaginava o tanto que tínhamos andado na neve.

Quando voltasse para casa procuraria por ajuda, deveria ter algum tratamento para o que eu sentia, sabe dos rumores de que algumas intuições católicas realizavam terapia de conversão e também sabia de todo o ar sinistro que também carregavam, mas se esse fosse o preço a ser pago para ser minimamente normal, talvez valesse a pena. A pior parte seria contar para o meu pai, não acreditava que ele teria uma boa reação quando contasse que queria realizar a cura.

Distraído pelos pensamentos, não percebi quando acabei tropeçando em uma pedra coberta de gelo e consequentemente caindo de bunda no lago congelado. O barulho que o gelo fez com o meu peso fez todos os pelos da minha espinha se arrepiarem, juraria que rachara o gelo e estava prestes a afundar em uma imensidão gelada. Engoli em seco.

Olhei em todas direções possíveis no meu campo de visão e não avistava ninguém, estava sozinho, a cabana era um ponto um pouco menos distante que o hotel, porém mais fácil de se camuflar na paisagem para olhares mais desatentos. A brisa invernal que carregava pequenos flocos de neve era minha única companhia.

Eu simplesmente travei, não conseguia me mover, estava em pânico. Mal conseguia respirar, na minha cabeça qualquer movimento involuntário quebraria aquele gelo e me mataria, só respirava porque era uma reação involuntária, se não, nem isso estaria fazendo. Eu ordenava me a ficar calmo, se desesperasse mais, aí sim afundaria, tentava mover meus membros, no meu cérebro o comando não tinha empecilhos, mas mecanicamente a perna ficava estática. Eu deveria estar em um maré de azar ou sendo punido pelos meus pecados, não seria errado se fosse a segunda opção, já suspeitava a algum tempo que Deus estaria me testando por colocar tantos percalços ao longo do último ano.

Eu poderia gritar por ajuda, com sorte, alguém me escutaria, porém, nem isso conseguia. Estava mais fácil eu ter um morte angustiante de hipotermia, do que esboçar qualquer ação.

Não sei quanto tempo exatamente se passou quando avistei um pontinho preto vindo da cabana, só sei que quase sentia meus lábios e tremia de frio quando o avistei. Só poderia ser uma pessoa, se não estivesse congelando ficaria constrangido com o encontro, mas naquele momento só queria que ele me ajudasse a sair daquela situação.

— Não deveria sair escondido na neve sozinho em um lugar que você não conhece. — Ele murmurou quando se aproximou o suficiente para ouvi-lo.

Não o encarei imediatamente.

— Me ajuda. — Sussurrei tão baixo que parecia que só fizera o movimento com os lábios.

Yerik estendeu a mão, juro por tudo que queria pegar sua mão, no entanto permaneci estático.

— Pegue a minha mão para sairmos daqui. — Ele voltou a falar, seu tom era calmo, eu esperava ao menos sentir um pouco de raiva ou ressentimento quando falasse comigo.

Levantei um pouco o rosto e o encarei, sua expressão era tão calma quanto sua voz, o rosto estava corada de frio e os olhos brilhavam em contraste com a paisagem. Tentei transmitir meu estado de impotência com o olhar, todo o desespero que deveria ter sentido igual na noite anterior ao realizar tal ação com ele antes de encontrar abrigo na cabana

Por Deus, ele entendeu o meu estado pois se agachou ao meu lado e segurou minhas duas mãos, me encarou de tal forma que todo meu sangue foi para o meu rosto.

— Vamos fazer igual ontem, Bleika. — Somente com sua força, ele se levantou e me puxou.

Agora eu estava de pé, mas não queria dizer que conseguia me mover.

— Obrigado. — Sussurrei da mesma forma que a anterior.

— Me agradeça quando estivermos em solo firme.

— Você deve me odiar.

— Falemos disso depois. — O ressentimento finalmente transpareceu.

Eu estava vivendo uma constante, não queria machucá-lo, mas fazia exatamente coisas que o machucariam. Não devia envolvê-lo nos meus dilemas morais, mas estavam tão emaranhado com ele quanto com essas questões.

Foi como se tudo passasse em câmera lenta, em um piscar de olhos Yerik estava na minha frente e de repente sumisse. O gelo sob nossos pés se rachou e ele caiu na imensidão gelada.

O mundo ficou mudo.

— BLAKE! BLAKE! BLAKE! — Ele gritou pelo meu nome enquanto lutava para segurar a borda do gelo no buraco que estava.

Senti meus pés oscilarem, eu estava agora sobre uma plataforma de gelo bem fina que se movia de acordo como eu mudava o peso sobre meus pés. Olhei para todos os lados e o lago estava todo rachado, a água se movia molhando a fina camada de neve, revelando o gelo transparente e a água escura. Eu podia cair a qualquer momento igual a Yerik, entrei em desespero.

— BLAKE, ME AJUDA! — Ele voltou a gritar.

Eu travei como da última vez. Vi ele lutar para conseguir voltar a alguma plataforma de gelo, mas elas quebravam sob seu peso. Senti as plataformas se moverem e Yerik sumir em uma delas.

Eu não conseguia gritar estava desesperado, devia pular e ajudá-lo, mas seria um peso morto para atrapalhá-lo. Tentei me mover para frente, tentando procurá-lo, porém acabei me desequilibrando e caindo, felizmente no espaço que me fazia boiar. A água gelada molhou minhas mãos e foi como se pequenas agulhas perfurassem a minha carne, Yerik deveria estar sentindo isso pelo corpo todo, não conseguia imaginar ou suportar o que ele deveria estar sentindo. A água se movia de modo malicioso, como se estivesse esperando por mim.

Se passaram dois minutos e nada dele voltar a superfície, eu não diria que estava preocupado porque estava em um estado completamente acima disso. Eu sabia que ele era um excelente nadador, não era atoa que era atleta regional, mas por quanto tempo conseguiria manter a respiração e a hipotermia? O corpo tinha suas limitações, incluindo o dele.

Minha resposta surgiu como um susto de filme de terror, senti baterem embaixo de mim, olhei para baixo e Yerik batia no gelo tentando quebrá-lo com o rosto amassado. Novamente,olhei ao redor a procura de um buraco para ele sair, mas mesmo com o gelo rachado, as plataforma deram um jeito de se unir novamente o prendendo embaixo.

Eu assisti aqueles dois minutos com agonia, atônito. Não sabia quando começara a chorar ou se nem tinha parado algum momento desde a partida da cabana, no entanto, molhavam meu rosto como uma pequena chuva.

Pálido, de lábios roxos, olhar vítreo e sem vida, foi neste estado que vi o rosto de Yerik pela última vez ao ver seu corpo afundar sem vida naquele lago escuro. Somente aí que consegui gritar, um grito tão forte que arranhava minha garganta com tanta angústia que poderia fazer a neve daquela montanha desmoronar. Meu peito doía como nos dias que perdera minha mãe e Sam, agora Yerik, na lista das pessoas que amo.

—x-

Acordei com a respiração ofegante, a imagem do olhar vazio de Yerik morto embaixo do gelo após implorar que eu o salvasse ainda inundava minha mente. Tremia-me descontroladamente, meu descontrole emocional continuará do mundo dos sonhos para a vida real, meus olhos eram como uma represa que cederá, as lágrimas escorriam como uma enxurrada de medo e desespero. A pessoa ao meu lado, logo acordou com minhas reações.

Bleika, o que aconteceu?

“Bleika”, ouvir meu nome da maneira que só ele pronunciava encheu o meu coração de luz. Para mim, eu ainda estava no sonho e dono daquele sotaque deveria estar congelado no lago. Ouvir sua voz, pelo menos me garantia que ele estava vivo. Eu estava sem óculos e tudo estava embaçado, mas conseguia sentir a sua presença e não exitei em abraçá-lo.

O apertei com todas as forças de um garoto mirrado de dezesseis anos conseguía, meu coração batia tanto que poderia rasgar minha caixa torácica e peito a qualquer momento. Precisava senti-lo, saber que estava vivo, quente, bem e comigo.

— Você teve um pesadelo? Agora está tudo bem. — Retribuiu me o abraço, parecia preocupado com meu estado e tentava me tranquilizar.

Eu não diminuía a intensidade do abraço, a dor de perdê-lo era recente demais, corria-me como veneno pelas veias, como todas as vezes que perdera alguém.

— Você precisa se acalmar. — Seu tom agora era baixo, amenizador. — Olhe para mim. — Pediu, colocando meus óculos em seguida. — Me fale com o que sonhou.

Minha visão clareou, tudo tornou-se mais nítido e pude vê-lo melhor, seus olhos azuis que me encantavam tanto. O apertei ainda mais, solucei, estava muito assustado.

— Você está vivo… — Murmurei em um momento de fôlego, tateando minhas mãos por seu rosto e corpo.

— Claro que estou vivo. — Percebi um sorriso se formar nos seus lábios.

Novamente tomado por impulso, o beijei com âmago. O peguei desprevenido pois não correspondeu de imediato, mas logo me acompanhou no ritmo desesperado que eu tinha. Dessa vez não teria desculpas, não teria bebida, meu beijo era o de alguém que temia a perda do amor.

— Você sonhou comigo? — Yerik perguntou assim que encerrei o beijo para recuperar o fôlego, suas bochechas estavam rosadas, imaginei como estariam as minhas que era mais branco que ele.

Balancei a cabeça positivamente, o beijo acalmara o meu desespero, mas meu coração continuava acelerado.

— Quer me contar com o que sonhou, para acordar desse jeito?

Desviei meus olhos dos seus, não queria falar sobre o pesadelo, era vergonhoso e doloroso ao mesmo tempo, então decidi resumir em poucas palavras.

— Sonhei que te perdia no lago. — Só de falar me dava vontade de voltar a chorar.

— Pensou que eu tinha morrido? — Não consegui identificar sua expressão.

— Sim. — Limpei do rosto uma lágrima que caiu. — Você foi atrás de mim, porque eu tinha fugido da cabada…

— Mas você não está assim porque… — Ele não completou sua linha de raciocínio, ficou calado e pensativo.

— Foi muito real. — Voltei a murmurar.

— Foi real porque poderia ter acontecido? Pretendia fugir da cabana? — Se atropelou com as palavras.- Não lhe respondi.- Você pensava em fugir da cabada? Odiou o que fizemos. — Yerik ficou visivelmente triste ao repetir a pergunta, que mais soou uma resposta para a anterior. — Pretendia, realmente, fugir?

Balancei a cabeça positivamente, sem coragem para encará-lo. Podia mentir, mas também precisava ser honesto

— Se isso te faz mal, podemos voltar a sermos só amigos, eu gosto o suficiente de você para te deixar livre e bem. Se você fugisse poderia congelar lá fora, não quero isso para você. Não vale a pena o risco. — Balançou a cabeça negativamente.

Peguei suas mãos, o que ele dizia era bonito e tentador, seria o certo e minha consciência clamava por isso. Mas meu subconsciente, ou melhor, meu coração gritava por outra coisa, não podia me fazer de surdo e nem de esquecido sobre os últimos meses. Viver sem Yerik era mais doloroso que lidar com a culpa de estar em seus braços todas as noites e pensar em perdê-lo fazia-me querer abandonar tudo e desistir da vida, sua importância era tão grande dentro de mim e somente com o pesadelo percebera isso.

— Não é isso que eu quero. — Minha garganta ficou seca como quando assumira meus sentimentos. — Eu quero, na verdade, mas também não quero. — Lhe encarei.

— Não entendi. — Pareceu confuso.

— Eu te amo. — Sussurrei em seu ouvido para evitar seus olhos, o abraçando.

— Eu sei disso… — Fiquei calado com a resposta. — Falou quando eu te violava.

— Você não me violou. — O corrigi.

— Mas age como se tivesse. — Fiquei constrangido com a verdade. — Não quero viver pisando como se tivesse sempre pisando em ovos...

— Não me deixe… — Me surpreendi com as palavras que saíram da minha boca.

Finalmente o encarei, seu olhar era calmo e sua boca tentadoramente quente, vermelha e úmida. Uni nossos lábios com delicadeza, quase como se beijasse uma pétala de uma flor, ele tinha o mesmo cuidado que o meu.

— Não vou. — Sussurrou entre as bocas. — Mas me sinto inseguro. — Cortou nosso contato.

— Se eu falasse que estou assumindo oficialmente que estou perdidamente apaixonado por você e quero viver com você todas as experiências possíveis, te deixaria mais seguro?

Notas finais
QUERO UM REVIEW SIM E MAIS UMA RECOMENDAÇÃO SERIA PEDIR DEMAIS? ATÉ A PRÓXIMA QUERIDOS. UMA NOVA ERA ESPERA EM TEMPESTUOSO.