Tempestuoso

14 Presentes Substituem Ausentes


Notas iniciais
A fic fez um ano e eu 17. Novidades, estou in love com alguém. Dedico esse capítulo a ele. Frozen - Do you want to build a snowman www.youtube.com/watch?v=V-zXT5bIBM0

No último dia de aula daquele ano o clima pela escola era simplesmente natalino. Poinsétias decoravam todos os ambientes comuns dando um tom rubro ao sem graça cinza costumeiro. Na sala da ala masculina havia sido colocado um pinheiro de 3 metros perto da lareira com decorações prateadas e uma bela estrela dourado no seu topo. Até a parte externa da escola havia adotado uma decoração para as festas, com a ajuda das Irmãs e da própria natureza, os terrenos estavam salpicados de neve, uma camada de pelo menos dez centímetros e de pequenas lâmpadas coloridas que brilhavam do anoitecer ao alvorecer.

– É simplesmente minha data favorita. – Sam falou para mim enquanto sentávamos em mesas separadas no refeitório, mas muito próximas para sermos ouvidos.

– É a minha também. O clima é tão gostoso, não existe conflitos ou desentendimentos, todo mundo esquece as rixas para comemorar e celebrar.

Até as refeições daquele dia haviam sido modificadas, tomávamos uma xícara grande e fumegante de chocolate quente acompanhado por biscoitos de açúcar em formato de boneco no horário do almoço, véspera da véspera de Natal.

– Já sabe aonde passará as festas? – Perguntei, deliciando-me com o aroma da bebida.

– Com a minha avó, na casa de um parente distante que descobriu que ela adoecera. Vai ser o nosso primeiro Natal juntas em anos, nos últimos ela passava trabalhando e eu na escola.

– Acho que lhe devo desculpas por isso, Emy passava a data comigo. – Desculpei-me desgostoso por dentro ao saber que não passaria a data com minha babá.

– Desculpo, mas pare de roubar minha avó. – Ela brincou. – Na verdade, seu pai me chamava todos os anos, só que preferia não ir. Me sentiria uma invasora se fosse. — Confessou.

– Deveria ter ido, já teríamos nos conhecido antes.

– Tudo tem seu tempo certo. – Sorriu.

Sam estava particularmente encantadora naquele dia, usava uma touca frouxa de lã purpura e um suéter turquesa também de lã. O cabelo curto definitivamente combinava consigo. Inicialmente lhe retribuíra o sorriso, porém ele acabou esvaindo-me dos lábios.

– Por que a expressão tão triste? – Me cutucou com a ponta da bota ao perceber-me.

– Nada. – Sorri fraco e falso.

Antes que ela pudesse indagar mais sobre meus sentimentos internos, Beth propiciamente aparecera e sentara na mesa de Sam, roubando-lhe total atenção. Ela reclamava de algo, mas suas palavras atropeladas lhe tornavam não entendível.

– Do que reclama, bruxinha? – Sam perguntou.

– Terei que ir para América do Sul. – Suspirou irritada.

– Por que está tão irritada, a América do Sul parece tão... – Não soube como completar.

– Quente nessa época. É verão lá, o calor é insuportável. Ideia louca das minhas mães...

– Mães? – Lhe perguntei confuso.

– Minha mãe! – Falou firme. – Ela quer ter novas experiências com a mudança de ano.

– Pensei que concordaria com essa loucura. – Sam interviu.

– Em dias normais sim. Mas é natal, amo passar o natal em neve.

– Só por isso? – Perguntei.

– Basicamente sim.

– Aproveite, ainda pode passar as festa com sua mãe. – Sorri não querendo soar tão melancólico como a frase por si só já soava.

Depois disso as duas se calaram, absorvendo a frase.

– Ainda pode aproveitar as praias. – Sam falou um tempo depois, acabando com o clima pesado que se instalara.

– Eu amo a praia. – Beth pareceu animar-se.

– Nos traga algo. – Sam sorriu.

– Claro. – A garota retribuiu o sorriso.

Observei Yerik e Jesse entrarem juntos no refeitório sorrindo, conversavam animados, um profundo arrependimento da cena que fizera no auditório me ocorreu. A presença deles me causou rubor, eu deveria me desculpar.

– Por que está assim? – Beth perguntou-me desconfiada seguindo a direção do meu olhar.

– Nada. – Desviei os olhos, mas não em tempo suficiente para que ela não os localizasse.

Ela estreitou os olhos, possuía desconfiança, não reprovação. Isso deixou-me ainda mais parecido com os cabelos dela. Nossos celulares vibraram ao mesmo tempo, havíamos recebidos mensagem do Coral que convocava uma reunião urgente com todos os membros.

– Sra. Underwood vai nos agraciar com um amistoso discurso e depois alguém falará sobre a Festa de Ano-Novo. – Sam nos previra.

– Todo ano é assim? – Perguntei.

– Sim.

Um a um, os membros do Coral presentes no refeitório saíram rumo a nossa sala. Quis me esconder embaixo da mesa quando olhava para Yerik e Jesse e o olhar deles encontraram com o meu causando uma estranha conexão. Os olhos esverdeados de Jesse eram sem malicia, apenas olhava-me, mas os de Yerik eram carregados, pesados, me mediam.

– Vamos. – Levantei-me assim que eles saíram do meu campo de visão.

– Um momento. – Sam levantou-se destrambelhada bebendo em um gole o chocolate quente, fazendo-o escorrer pelo canto dos lábios.

– Você se sujou. – Beth limpou o rosto dela com o dedo, lambendo-o depois.

Tive que caminhar na frente delas pela medida da nova diretora, era incomodo virar-me toda hora para conversar e ter que ficar gritando para ser ouvido. Os corredores no Prédio Principal estavam desérticos e muito frios, nenhum aluno iria percorrer aqueles caminhos sem necessidade se poderiam ficar no conforto de seus quartos ou comendo no refeitório.

– Os últimos, já que meus gêmeos viajaram. – Camille falou quando entramos na Sala do Coral, se referindo a Joanne e Zach, que não eram nem irmãos de sangue, mas eram tratados como tal por nós.

– Cadê a Sra. Underwood? – Sam perguntou direta.

– Por ai. – Ela respondeu irrelevante.

– Tanto faz. – Sam sentou em uma cadeira mais afastada ao fundo da sala.

– Não teria a professora aqui? – Lhe perguntei sentando ao seu lado.

– Teria, mas acho que esse ano a dispensaram. – Respondeu antes de tossir fortemente.

– Atenção. – Camille nos repreendeu.

– Ai, meu deus. Ela pensa que é alguém. – Sam sussurrou-me.

– Para quem não sabe. – Continuou a loira. – Temos a tradição de realizar uma festa de Ano-Novo com o pessoal do Coral e alguns convidados especiais na casa de um dos membros. Por isso, realizaremos um sorteio para decidir o anfitrião desse ano...

– Pode tirar o meu nome. – Beth a interrompeu após ela mostrar uma urna transparente com alguns papéis.

– Por que? – Perguntou desconfiada.

– Não vou participar.

– É uma tradição. – Irritou-se.

– Não é obrigatória. – Peter interviu.

– Mas se bem que é uma ótima ocasião para nos conhecermos melhor. – Steve pronunciou-se malicioso e olhando para Sam.

– Pois é. – Sam sorriu indiferente.

– Por que não pode ir? – Cami voltou a falar.

– Assuntos pessoais, não gosto de você, não preciso falar. – Beth azedou-se juntando-se a mim e Sam no fundo da sala sob uma ovação dos outros membros.

Camille sorriu falsamente, digeria a grosseria, por um momento temi por Beth até lembrar-me que os métodos de ataque da loira eram inatingíveis na minha amiga. As táticas de Cami eram baseadas em disseminação de boatos pela escola, procurando destruir a reputação da pessoa. Porém, o que Beth menos se importava era com reputação.

– Que seja, esquisita, ninguém iria te querer lá mesmo. – Tentou mostrar-se superior, jogando o cabelo para trás do ombro. Teria conseguido, se não fosse pelas provocações de Peter e Steve.

– Está se mordendo por dentro. – Peter falou alto para Steve, de modo que todos ouviram.

– Não estou! – Cami rosnou indignada.

– Não consegue nem mais disfarçar.

– Vai ficar com o pescoço vermelho.

– Calem a boca. – A loira ordenou já evidenciando a vermelhidão.

– Segurem os cachorros ela mandou a gente calar a boca. – Metade do Coral riu do comentário.

– Vamos logo com isso. – Marc tentou impor alguma ordem, ele poderia ter um tamanho intimidador, mas sua voz não era nenhum pouco.

– Deixem o macho alfa falar. – Charlotte falou próxima a mim para Abi.

Todo mundo começou a falar ao mesmo tempo, causando um caos de vozes até que alguém interviu. Yerik gritara algo em búlgaro que fizera todos se calarem. Não era bem pela imposição dela, mas pela língua estranha que se surpreenderam a tal ponto.

– Obrigado. – Voltou ao inglês. – Continue Camille.

A loira estava mais do que visivelmente irritada, o pescoço estava bem vermelho como o de uma galinha depenada e bufava como um búfalo.

– Sem mais interrupções. – Controlava a voz. – Quem mais não irá participar?

Ninguém mais se pronunciou.

– Ótimo, esquisita pode ir embora. – Apontou para porta.

– Estou de boas. – Beth deu de ombros.

– Da aqui. – Marc tomou a urna das mãos da outra, colocando a mão nela e retirando um papel.

– Antes que leia, se eu for sorteada não poderão dar a festa na minha casa, porque não tenho. – Sam interferiu.

– Sabemos, querida, que você é quase uma desabrigada e que quando se formar vai ter que substituir sua vó na casa dele. – Camille apontou para mim.

Existem limites toleráveis para provocações, mas essa fora demais. Eu sentira o quão ofensivo e errado aquilo soara, todos perceberam pois se calaram, apenas era audível nossas respirações. A loira sorria com um sorriso vitorioso.

– Segura minha touca. – Sam a tirou, jogando-a no meu colo.

Camille observou a rival levantar-se calma e caminhar lentamente na direção de Marc, franziu o cenho desconfiada.

– Com licença. — Sam puxou a urna das mãos de Marc sem cerimônias ou resistências.

Foi um único e certeiro movimento. Sam levou a urna para trás do seu corpo, pegando impulso e acertando a face de Camille com violência, desfazendo qualquer resquício de sorriso. A violência fora tanta que o objeto se partira espalhando papeis por toda sala.

– Sua puta! Porca, imunda! Como ousa pronunciar algo sobre minha vó. – Sam não esperou nem a outra cair antes de voar em cima dela.

Cami zonza pelo impacto na cabeça, só fora perceber tudo que acontecia após vários puxões de cabelo e tapas de Sam que montara em si. Em uma tentativa desesperada de reverter as posições tentou puxar o cabelo da minha amiga, só que não conseguira pelo pouco comprimento.

Não precisei intervir, Marc e os outros garotos interviram antes que pudesse ter outras elongações a briga. Sam saíra fisicamente ilesa, contara com o elemento surpresa, já Cami estava bem inchada, o rosto vermelho e o lábio vermelho.

– Você tá muito fodida. – Gritou.

– Você está muito linda. – Sam gritou de volta.

– Vai ter troco.

– Se quiser posso ter bater de novo quantas vezes quiser.

– Só porque me pegou desprevenida acha que é melhor do que eu?

– Não acho, seu rosto mostra isso.

Camille era segura por Marc e Yerik, que tiveram que se esforçar mais para contê-la após aquele comentário, simplesmente queria avançar contra Sam.

– Soltem me e ela também, que ainda não terminei. – Sam tentou se livrar de Steve e Harry que a seguravam.

– Alguém vai buscar gelo. – Marc pediu.

– Não, deixa essa porca inchar. – Sam sorriu.

Olive ignorou o comentário de Sam e correu para buscar gelo.

– Deveria ir na enfermaria. – Abi sugeriu se aproximando de Camille que ainda se debatia nos braços alheios.

– Não toca em mim, gorda! – Gritou.

Abi pareceu travar com o comentário, só eu e Charlotte percebemos isso, os demais estavam ocupados em assistir a discussão entre as outras duas.

– Abi! – Charlie gritou, chamando a atenção da outra. – Vamos. – Indicou a porta com a cabeça.

Abigail apenas assentiu com a cabeça e foi embora com a outra, percebi que seus olhos estavam marejados. Isso me vez olhar para meu próprio corpo e tomar ciência dele. A forma ofensiva que Camille usara pareceu ter sido direcionada a mim, me senti extremamente mal e acima do peso. Só sai daqueles pensamentos ao sentir um corpo passar por mim, quando Jesse correra atrás das amigas.

– Calem a boca, ou vão nos foder. – Maggie que estava tão invisível até então mostrou-se. – Se quiserem chamo uma das irmãs e resolvemos rapidinho essa baixaria...

– Nada das freiras. – Marc a interrompeu. Maggie revirou os olhos com insignificância. – Se descobrirem da briga estaremos todos fodidos...

– Diga isso sobre si mesmo, posso relatar exatamente o que aconteceu aqui e manter minha fixa limpa. – Da mesma forma que fora interrompida, o interrompeu.

– Alguém faz ela calar a boca?

Isso só gerou um risinho frouxo na outra.

– Patético. – Falou antes de sair, transparecendo toda sua indiferença e fazendo Marc bufar.

Foi o tempo de Olive retornar com uma compressa de gelo para as duas se calarem.

– Tome. – Ela entregou na mão de Marc.

Ele sem muito cuidado colocou na face de Camille que emitiu ruídos de incomodo.

– Finalmente a fizeram calar a boca. – Sam aproveitou a deixa.

A loira escutara e fizera um gesto obsceno em resposta.

– Me larguem. – Olhou para quem a continha. – Estou calma. – Garantiu.

– Você está bem? – Harry perguntou verdadeiramente preocupado, eu percebia o quanto ele gostava de Sam, apesar de todo tempo passado desde que fora dispensado por ela.

– Como se importasse. – Respondeu frigida, fazendo um movimento brusco para se libertar.

Estava caminhando para fora da sala quando Beth e eu começamos a segui-la.

– Não decidimos aonde será...- Escutei Yerik falar.

– McCarthy! – Marc gritou meu sobrenome.

Eu já estava fora da sala quando ouvir, por isso só coloquei a cabeça dentro.

– Parabéns, você foi escolhido. Será na sua casa, depois lhe passarei os detalhes. – Ele tinha sentado no chão e Camille deitado no seu colo enquanto colocava a compressa no rosto dela.

– Como?

– Ano-novo na sua casa.

–x-

A primeira coisa que fiz após ser intimado a fazer a festa fora contar a Vick, se não fizesse isso antes não teria festa e nem Blake no próximo ano. Depois que fui dispensado por Sam que preferiu ficar a sós com Beth, procurei minha irmã pela escola, havia deixado o telefone no quarto. A encontrei caminhando em um corredor qualquer acompanhada das gêmeas.

– Bom dia. – As cumprimentei.

– Temos uma super noticia para você. – Lucy falou, a identifiquei pelo tom mais despojado da voz.

– Também tenho uma notícia. – Olhei confuso para Vick.

– O que tem para me contar? – Minha irmã perguntou.

– Marc falou que fará a festa de Ano-novo do Coral na nossa casa. – Falei um pouco temeroso da reação dela.

– Tá. – Ela mostrou-se inexpressiva.

– Sério mesmo? – Arqueei uma das sobrancelha.

– Sim, vai ser legal. Só teremos que dispensar o papai, mas isso é fácil...

– Vai participar?

– Claro que sim, minha casa.

– Me ajudaria?

– Sim, é só ligar no escritório dele e pedir um favor para a auxiliar dele.

– Tudo bem. – Estanhei ainda mais a futura boa ação.

– Vick vai passar o Natal com a gente. – Lucy não conteve e começou a dar pulinhos de alegria.

– Para com isso. – Mirna retalhou com a irmã.

– Como assim? – Perguntei indignado.

– A família das gêmeas me chamaram para passar o Natal na casa de inverno deles nos Alpes, e eu vou.

– No Natal?

– Sim, mas eu volto no dia trinta. Não tem problema, não é?

– Não. – Aquela palavra ardeu na minha garganta.

– Falei que ele não se importaria. – Vick olhou para Mirna.

– Vamos. – Lucy puxou as duas. – Temos que fazer as malas, logo mamãe estará aqui.

– Feliz Natal. – Cada uma falou após me dar um singelo beijinho na bochecha.

Quando Vick foi se despedir, me deu um abraço que ficou sem resposta. Estava estático ainda absorvendo a notícia. Antes que se tornasse desconfortável, ela me soltou e seguiu com as amigas.

Fora um doloroso baque, se eu estivesse no lugar da Camille quando lhe acertaram a urna teria sido menos doloroso do que passar o Natal sem minha irmã. Ela era uma parte importante de mim, a queria por perto nessa época. Caminhei a esmo sem saber para onde ir, quando dei por mim estava no auditório. Meu subconsciente deve ter definido que eu precisava me acalmar e muitas vezes o palco me causa essa sensação, isso é, quando não tinha uma plateia para me observar.

Pensei se Jesse tinha mudado para o auditório, pois assim que cheguei o vi lá. Um flashback de tudo que acontecera me ocorreu causando-me vergonha, ia sair de fininho se tivesse chutado o balde de limpeza que alguém deixara a esmo, causando um extremo barulho no recinto, consequentemente atraindo a atenção dele.

– Blake? – Me chamou, eu estava de costas para ele.

– Oi. – Falei ainda de costas.

– Quer usar o auditório para ensaiar?

– Não, não. Minhas pernas que me trouxeram aqui sem eu perceber, agora vou usá-las para ir embora. – Comecei a caminhar.

– Espere. – Escutei os seus passos até mim, fiz o que ele mandou. – Já que está aqui acho que precisamos conversar. – Tocou no meu ombro para que eu virasse.

– Tudo bem. – Virei-me sorrindo amarelo.

– Está bem? – Sorriu simpático.

– Sim e com você?

– Também.

Ele me guiou até o centro no palco para sentarmos e ficarmos de frente um para outro.

– Eu queria falar sobre o que aconteceu aqui a última vez que estivemos aqui... – Começou.

– Eu sei, também queria falar sobre aquilo, pedir desculpas, na realidade. Só queria criar coragem antes. – Essa parte saíra mais alto do que eu previra.

– Você está afim do Yerik?

– Não! – Retalhei abasbacado. – Jamais.

– Pensei que fosse por isso, que estivesse com ciúmes. Ele parecia estar também.

– Não gosto do Yerik. – Falei.

– Não transparece, ou gosta de mim?

– Eu não sou gay! – Quase gritei. – E não estou afim de você!

– Tudo bem. – Ergueu as mãos em defesa. – Não teria problemas se fosse. – Olhava-me com uma expressão de consolação.

– Mas não sou, para deixar bem claro. – Respondi irritadiço. – Só queria me desculpar com você, mas não estou gostando do rumo da conversa. – Me levantei.

– Espere. – Me segurou pelo pulso. – Não quis ofendê-lo, só foi uma suposição errada.

– Muito errada. – Reforcei.

Não sei porque reagira daquela forma, envergonhei-me novamente.

– Desculpa. – Voltei a falar. – Jesse, boas festas, mas eu não estou muito bem para conversar sobre isso agora.

– Compreendo. – Não consegui identificar o que pensava.

– Até mais. – Me despedi saindo do auditório.

–x-

Depois de ter deixado Jesse sozinho, eu tinha passeado pelos terrenos da escola a esmo. Fiquei naquela situação até o momento que recebera uma mensagem no celular de Sam, pedindo que eu a encontrasse na bifurcação para os dormitórios.

– Me desculpe por mais cedo. – Sam falou enquanto caminhávamos para a entrada.

– Não se preocupe, estava exaltada. Eu compreendo. – Falei sincero enquanto caminhávamos.

– Espero que sim, ficaria muito mal se estivéssemos em um mal entendido em pleno Natal.

– Não mentiria pra ti. – Sorri, lembrando-me do que fizera com Vick.

Assim que avistamos o portal da entrada paramos de andar e olharmos um para o outro.

– Um táxi me espera, vou buscar minha vó na sua casa e seguiremos para a casa da prima dela. Não quer mesmo ir comigo agora? Aproveita e já fica em casa. – Ela ofereceu.

– Não, estou bem aqui. Meu pai mandou mensagem que me buscaria mais tarde, quero ficar com ele. – Indiquei ao celular que carregava em mãos.

– Então como só nos veremos no dia vinte e seis, Feliz Natal. – Tirou minha touca, bagunçou meu cabelo e me abraçou.

Absorvi a fragrância dela, o cheiro tão acolhedor de canela, isso me fez lembrar o aroma do chocolate quente que tomamos mais cedo.

– Se cuida.

Ela se afastou rumo aos velhos portões onde o taxi estava parado, lhe acenei em despedida. Esperei o veículo partir para voltar ao meu dormitório. Yerik estava dormindo quando cheguei lá, agradeci por isso, não tinha sido fácil conversar com Jesse poderia acontecer o mesmo se tentasse falar com ele.

Esperei por mais de duas horas e meia um sinal do meu pai para receber no fim um mensagem de duas linhas dizendo para eu pegar um táxi para casa porque não passaria a ceia comigo. Admito que derrubei duas lágrimas por ter lido aquela mísera frase. Naquele momento, propiciamente Yerik despertou e olhou para mim enquanto recobrava os sentidos. Virei o rosto para que não fosse visto, não precisei me preocupar muito com isso, pois ele pegou o celular e foi para o banheiro enquanto eu pegava o meu e pedia por um transporte.

Meu notebook apitou, fora mensagem da rede social que conversava com Mick.

Mick:

Oi? Ainda está ai?

Blake McCarthy:

Oie, estou sim. Como está?

Mick:

Muito bem e você?

Blake McCarthy:

Melhor impossível, com a chegadas das festas sabe que fico bem animado.

Mick:

Imaginei que estaria. Já tem tudo planejado para elas?

Blake McCarthy:

Por mais incrível que pareça, pela primeira vez estou sem rumo. Mas para o Ano-Novo estou sendo obrigado a dar uma festa para o Coral.

Mick:

Uma festa na sua casa? Quando que se tornou o Sr. Popular que não estou sabendo..?

Blake McCarthy:

Nem eu estou sabendo disso. Exatamente, na minha casa e o melhor de tudo Vick concordou. Ela está estranha comigo agora.

Mick:

Estranha como?

Blake McCarthy:

Basicamente me tratando bem, o que é uma coisa bem estranha.

Mick:

Acho que com o tempo e os acontecimentos as pessoas mudam, tire exemplo por si próprio nesses últimos meses. Sua irmã pode ser uma pessoa dificílima de se lidar, porém ela já passou por muita coisa, principalmente nesse ano. Querendo ou não, ela tirou e absorveu alguma coisa dessas experiências, possivelmente se tornando uma pessoa melhor.

Blake McCarthy:

Sinto e espero que tenha sido para melhor.

Mick:

Como se tornou o Rei das Festas? Ainda não me contou...

Blake McCarthy:

É uma tradição do Coral realizar a festa, sempre na casa de algum membro com pessoas escolhidas a dedo. Teve uma grande confusão na hora do sorteio, porque eles sorteiam o anfitrião. Sam bateu na Camille, porque ela falou da Emy. Detesto violência, mas ela mereceu e apanhou feio, está toda inchada. Aí, o Marc falou: “Vai ser na sua casa”.

Mick:

O que achou da ideia?

Blake McCarthy:

Não sei... Ainda estou absorvendo e pensando no que farei... Estou te intimando a me ajudar. Não sei como preparar uma festa e não quero pedir ajuda para minha irmã ou meus amigos da escola.

Mick:

Tecnicamente também sou seu amigo da escola.

Blake McCarthy:

Sim, mas é diferente. Te conheço há muito mais tempo e você não me olha com o típico olhar deles quando demonstro minha inexperiência com qualquer coisa.

Mick:

Serei convidado?

Blake McCarthy:

De honra. Mas terá que revelar-se, é proibido usar pseudônimos na minha festa.

Mick:

Então não irei e nem lhe ajudarei.

Blake McCarthy:

Por favor, sim?

Mick:

Só se não me pressionar nesse assunto.

Blake McCarthy:

Pensei que estava acostumado, sempre faço isso quando conversamos. Já é um reflexo natural tentar descobrir sua identidade.

Mick:

Queria tanto que soubesse sem eu ter que te contar, descobrisse por si só. Te dou tantas dicas, estou tão próximo de ti e nem percebe.

Blake McCarthy:

Toda a vez que me fala isso, me deixa ainda mais encafifado. Tenho três nomes em mente, mas prefiro os deixar em segredo.

Mick:

Não quer arrisca? Vai que um deles é o certo.

Blake McCarthy:

Exatamente por isso, se uma das minha opções estiverem certas corro o risco de você querer se disfarçar mais e parar com as dicas.

Mick:

Esperto da sua parte.

Blake McCarthy:

Não sou tão bobo como aparento, ter uma irmã como Vick me serviu de alguma coisa. Tenho que saber minhas vantagens ao meu favor, todas as armas possíveis.

Mick:

Soou como uma megera de ensino médio.

Blake McCarthy:

Foi essa a intenção.

Mick:

Você me falou do Ano-Novo, mas nada do Natal. Sei que é sua data preferida, não deixou em branco propositalmente?

Blake McCarthy:

Foi proposital, será um Natal triste.

Mick:

Como será triste? Só imagino Natais triste quando alguém morre. Não diz que vai ser triste pela morte da Irmã?

Blake McCarthy:

Antes fosse por isso. Será meu primeiro Natal definitivamente só.

Mick:

Vick, Emy e Seu pai?

Blake McCarthy:

Meu pai me abandonou e as outras duas irão viajar, Emy vai encontrar uma parente distante no interior e Vick irá para nos Alpes com a família das gêmeas.

Mick:

Sinto muito...

Blake McCarthy:

Não sei o que é pior, estar sozinho ou ter que cozinhar.

Mick:

Não tem aula de Culinária?

Blake McCarthy:

Tenho, mas isso não me faz alguém excepcional ou um exímio cozinheiro, e outra, minha comida é bem relacionada ao meu emocional e no meu estado atual, nada tragável será produzido.

Mick:

Tenho fé em você, conseguirá fazer algo bom.

Blake McCarthy:

Você tem muita boa fé em mim, não deveria.

Mick:

Mas, não fique triste. Não hoje, não nessa época.

Blake McCarthy:

Tarde demais, já estou.

Como não nos veremos mais por um tempo...

Feliz Natal desde já!

Mick:

Não vá! Não nesse estado...

Blake McCarthy:

Sinto muito, preciso ir, o táxi deve estar a minha espera.

Deixei meu notebook em cima da cama, peguei minha mochila e fui para entrada para esperar o meu táxi sem responde-lo. Ele não demorou muito, logo chegou e partimos para casa. O motorista era bem falante e divagava sobre tudo, por isso assim que chegamos ao nosso destino paguei a corrida e deixei uma generosa gorjeta pela simpatia.

Quando abri a porta de casa uma forte sensação de solidão me atingiu, porém logo a afastei pois essa era a minha data preferida e não a passaria triste. Coloquei minha mochila ao lado da porta, livrei-me de alguns casacos e me dirigi diretamente para cozinha, obviamente não conseguiria preparar uma ceia como a dos anos passados, mas me esforçaria para cozinhar algo digno da data.

Busquei no armário, mantimentos que me ajudariam na receita, escolhi fazer uma sopa grossa de leguminosas com pedaços de frango assado. Liguei o aparelho de som, em todas as estações tocavam músicas natalinas, escolhi uma que tocava uma conhecida e a fiquei a cantarolar. No relógio de parede, marcava quase dezenove horas, por isso me apressei.

Pela janela da cozinha, que proporcionava uma visão ampla do quintal vi um vulto, pensei que se tratava de um jogo de sombras provocada pela neve e a pouca iluminação, porém as marcas de pés na recém caída neve indicavam outra coisa. Me aproximei do vidro e tentei observar o invasor de propriedade, tirei meu celular do bolso para ligar para polícia, mas ele estava sem bateria, minha outra única alternativa era o telefone fixo de Emy. Por sorte, ele ficava na cozinha, porém assim que o coloquei escutei o chiado referente a falta de linha, isso acontecia com frequência nessa época do ano, os fios ficavam muito ressecados pelo frio e acabavam partindo, as vezes acontecia até com o de energia.

Após pensar na possível falta de energia, foi exatamente isso que aconteceu. Tudo escureceu e somente a chama do fogão iluminava o ambiente, abri uma parte do armário que sabia que haveria velas e as acendi no fogão, e a coloquei presa em um copo. O som de algo no quintal, lembrou-me do meu invasor. Se fosse em um dia comum não me preocuparia porque teria a segurança do alarme interno de casa, porém a falta de energia devia tê-lo desativado.

Olhei para porta da cozinha que dava acesso ao quintal e fui até ela, estava destrancada, ao toque na sua maçaneta senti uma pressão vinda do outro lado, o invasor queria entrar em casa. Desesperei-me e a tranquei de todas as formas possíveis e do conjunto de faqueiros em cima da bancada, peguei a maior e voltei para porta.

Ofegante, fiquei nessa posição por vários minutos, a pouca luz vinda do céu era favorável a criação da sensação de terror. Os piores pensamentos passaram pela minha cabeça. Duas batidas na porta, me assustaram de tal forma que derrubei a faca quase que em cima do meu pé. Meio desajeitado, a peguei de volta e abri porta de supetão, com ela erguida.

– Blake, você quer me matar? – Meu invasor levantou as mãos em defesa.

Antes mesmo de enxerga-lo debaixo do capuz do casaco, o reconheci por sua voz, era Yerik.

– O que faz aqui? – Relaxei, mais aliviado.

– Está frio, não vai me convidar para entrar? – Sorriu.

Em suas grossas vestes estava acumulado um pouco de neve, não falei nada, apenas lhe dei passagem para que entrasse. Aproveitei para espiar melhor o terreno e ter certeza de que não havia outra pessoa, o único sinal de movimentação era da lenta descida dos flocos de neve até o chão.

No mesmo minuto que fechei a porta, a energia voltou, com ela o calor do aquecedor e o som natalino.

– O que faz aqui? – Voltei a olhar para o meu não convidado. – É natal.

– Eu venho lhe trazer a energia elétrica. – Ele riu da própria piada. Seus caninos pressionavam os lábios quando fazia isso. – Não é só por isso, obviamente. – Completou após ver minha cara nenhum pouco receptiva.

– Não sei se fico bravo por você ter invadido minha casa, por estar falando comigo ou por ter abandonado sua família. – Comentei menos defensivo.

Yerik havia tirado dois grossos casacos e usava um suéter de lã verde, estava sentado em uma cadeira do balcão. Sentei ao seu lado, observando minha comida no fogo.

– Também deveria ficar bravo. Pela cena no auditório.

– Me desculpe. – Falei automaticamente.

– Por? – Fez-se de cínico.

– Por ter pulado em cima de você e dito coisas ruins? – Arrisquei isso. Fora mais fácil falar isso do que imaginava.

– Começou bem, mas eu quero falar com você também. – Ele falou.

– Percebi. – Desviei o olhar. – Já que invadiu minha casa.

– É natal e eu queria acabar com todo ressentimento que existe entre a gente.

– Já tentei, lembra-se? Duas vezes e o que recebi? Um suco na cara e seus ataques nojentos.

– Não fala assim. Escutei que ficaria sozinho, e vim aqui te fazer companhia. Sou quase um Papai Noel.

– Por mais que considere a sua atitude nobre. – Falei me levantando para verificar o assado. – Mas prefiro que passe com sua família, é uma data para isso.

– Ei.- Ele tocou no meu pulso. – Eu falei com a minha família, eles foram viajar para o interior. Inventei que teria coisas na escola para poder não ir.

– Fez mal. – Me desvencilhei dele e desliguei o fogo, tudo estava pronto.

– Sou eu que decido isso.

– Também sou eu que decido se quero companhia, ainda mais a sua.

– Essa doeu. – Fez uma interpretação bem ruim de ser ferido no coração, não pude evitar de rir. – Sei que está feliz comigo aqui, não queria se sentir solitário.

– Como sabe? – Lembrei de ter mandado uma mensagem para Mick falando exatamente isso.

– Tenho meu métodos para descobrir isso. – Soou misterioso e malicioso.

Lhe olhei suspeito, depois descobriria mais sobre isso.

– O que cozinhou?

– Fiz uma sopa e assei frango.

– Ceia melhor do que essa...

– Está sendo irônico?

– Não, não, de forma alguma. – Balançou as mãos. – Não menosprezaria o que vou comer.

– Não está brincando quando diz que vai passar a noite comigo?

– Nenhum pouco, e para provar que sou um bom hospede ainda faço a sobremesa da ceia.

– O que seria?

– Chocolate quente com marshmellow.

– Se estiver ruim, eu vou te expulsar. – Ameacei.

– Estou melhor que as alunas de Culinária, posso garantir. – Sorriu.

Arquei uma sobrancelha duvidando. Peguei a louça necessária para comermos e as coloquei sobre o balcão.

– Não mereço nem a mesa de jantar? – Yerik perguntou sorrindo.

– Se quiser pode comer na guia da rua.

– Não, aqui está bom mesmo.

Fui até a sala de jantar e peguei o enfeite natalino do centro da mesa e algumas velas vermelhas que também estavam em cima da mesa. Os coloquei em cima do balcão, fazendo uma decoração bem simplória. Peguei o prato dele e o servi, fiz o mesmo com o meu e sentei ao seu lado.

– O cheiro está ótimo. – Comentou, fazendo menção de pegar os talheres.

– Não. – O impedi batendo em sua mão. – Rezemos hoje.

– Não sou cristão.

– Mas eu sou, hoje celebramos o nascimento de Cristo e está em minha casa. – Lhe ofereci as mãos.

Primeiro, olhou para elas e depois as segurou com firmeza. Assim que senti o calor de suas mãos, fechei os olhos e rezei. Terminada a prece começamos a comer. De vez em quando Yerik soltava um elogio para me enganar, sabia que era falso pois, a comida estava horrenda, o frango seco e a sopa insossa, somente o pão que havia lembrado na metade da refeição era razoável.

– Está horrível. – Falei ao terminar.

– Não estava. – Ele mentiu.

Peguei as travessas com o restante da comida e joguei tudo no processador, olhei para o prato dele, não querendo me magoar, tinha comido tudo.

– Não precisava fazer isso. – Peguei o seu prato e o meu, lavando na pia.

– Eu quis. – Escutei sua voz atrás de mim.

– Tudo bem. – Suspirei. – Eu vou ir preparar o seu quarto, se quiser pode ir para sala, daqui a pouco eu vou para lá.

– Não, vou fazer nossa sobremesa, pode ir lá.

– Esteja à vontade para vasculhar os armários.

Rumei para quarto de hospedes, trocando os lençóis de cama e separando algumas grossas cobertas. Peguei algumas cobertas e as coloquei na sala de estar. Ao voltar para cozinha, Yerik estava concentrado em mexer a bebida no fogo, o aroma delicioso impregnava o ambiente.

– Vocês têm marshmellow? – Ele me perguntou.

– Acho que sim.

Os doces ficavam em uma parte mais alta do armário, por isso, peguei uma cadeira e subi em cima dela para alcança-los.

– Achei. – Falei, me esticando para pegá-los, estavam bem no fundo.

O que não esperava era escorregar e ir supostamente de encontro ao chão. Supostamente porque cai em cima de Yerik, ele tivera um bom reflexo pois conseguira me pegar a tempo. Sentia seus braços envolverem o meu corpo, prendendo-me pela cintura, como em um clichê nossos olhos se encontraram, podia ouvir sua respiração descompensada, a minha também estava. Em câmera lenta, o observei se aproximar do meu rosto e antes que pudesse me tocar da forma que pretendia, livrei-me dele.

Abruptamente, dei um salto para trás conseguindo firmeza nos pés e ainda segurando o pacote de doces.

– Estão aqui. – Balancei o saco como se nada tivesse acontecido.

Yerik olhava-me constrangido, evitando ficar na mira desse olhar peguei duas xicaras grandes e lhe entreguei, ele as serviu com o chocolate quente enquanto eu segurava o doce. Fomos para sala de estar, onde colocamos tudo em cima da mesa de centro de madeira gasta, herança de família e sentamos no confortável estofado.

A noite de natal era costumeiramente utilizada para passar especialmente nada de bom, porque quase todas as pessoas não ligavam os seus televisores por estarem ocupadas comemorando com suas respectivas família a data.

– Deixe nesse. – Yerik falou quando passei rapidamente por um canal. O obedeci, era uma animação realista natalina. – Eu amo este filme. – Comentou depois de um tempo.

– Qual é o nome? – Bebi um pouco do chocolate, estava maravilhoso.

– Expresso polar. – Se acomodou melhor ao meu lado.

Cada um estava meio sentado deitado em uma das extremidades do sofá, dividíamos a coberta, em um momento os dedos dos nossos pés se tocaram, causando-me uma sensação estranha e arrepiante. Não falei nada de início, mas após se repetir, manifestei-me.

– Seu pé. – Comentei, ele estava tão absurdo no filme que nem ainda havia bebido seu próprio chocolate, que já parara de fumegar.

– O que? – Perguntou atônito.

– Seu pé. – Repeti.

– O que que tem? – Nem desviava os olhos da televisão.

– Estão tocando nos meus. – Automaticamente puxou seus pés, voltando a pouca da atenção que me cedera de volta para o televisor.

O filme não era longo, combinado com fato de termos começado a assisti-lo já depois de ter começado, não demorou pouco mais de uma hora para acabar. Ele era encantador, prometi para mim mesmo assisti-lo em todo natal nos próximos anos. A bebida do meu colega continuava intocada, a minha já havia acabado duas vezes, tinha pegado as sobras ainda no caneco e o saco de marsmellow encontrava-se na metade.

– Feliz Natal. – Yerik falou assim que apareceram os créditos.

– Feliz Natal. – Sussurrei de volta.

Ele me encarava, olhava diretamente para os meus olhos, fiz o mesmo e acabei me perdendo nos dele. Por que aquele azul era tão atrativo? Não percebi o quanto o corpo dele se aproximara do meu, até ele estar se inclinando sobre mim. Não falávamos nada, sabia o que estava por vir ao observar umedecer os lábios, admito ter feito o mesmo, porém desviei o rosto no momento exato do ato. Pude sentir sua boca roçar no canto da minha indo até meu maxilar.

– Não. – Sussurrei.

Sua frustração ficou evidente quando bufou e caiu sobre mim antes de levantar, o empurrei para o lado quase o derrubando do sofá, peguei nossas xicaras e rumei para a cozinha, fui seguido.

– Ainda não tomei. – Falou como se nada tivesse acontecido, se referindo a xícara.

– Pela milésima vez, que isso não se repita. – Falei sério lhe entregando sua bebida já fria.

Não esperei que respondesse, fui para o meu quarto o ignorando por completo. Realizei a higiene noturna, coloquei meu pijama e rezei antes que Yerik batesse na minha porta.

– Pode abrir. – Falei.

Ele fez isso com uma expressão de coitado.

– Desculpa.

– Estou cansado das suas desculpas. – Deitei-me na minha cama. – Sua cama está pronta no quarto de hospede, pode sair de manhã, não precisa se despedir.

– É sincera dessa vez. – Se sentou na minha cama sem permissão. – O que sinto por você é difícil de ser refreado.

– Reze, é o que eu faço. – Falei.

– É o que faz, para suprir o que sente por mim? – Seus olhos brilharam ao desconfiar disso.

– Não! Quis dizer que faria, se fosse no seu caso.

– Você acredita em Papai Noel? – Mudou de assunto aleatoriamente.

– Não, desde meus cinco anos quando meu pai me contou.

– Porém ainda recebe presentes?

– Sim, mas aonde quer chegar com essas perguntas?

– Receberia um presente meu?

– Depende.

– Depende, por que?

– Depende do que seria.

– A minha permanente amizade, é um final definitivo de minhas investidas.

– Já ouvi esse papo outras vezes, no entanto, aceito esse presente inacreditável e sem credibilidade.

– Não me oferecera nada em troca? – Arqueou a sobrancelha de modo pervertido.

– O que quer? Sabia que tinha alguma coisa por trás....

– Um beijo, é só o que peço.

– Isso é completamente errado e inapropriado. – O sabor da minha garganta era amargo ao dizer isso.

– Vou concordar contigo para evitar uma discussão, mas ainda o quero.

– Já me beijou várias vezes. – Admiti enrubescendo.

– Exatamente, eu te beijei. Nunca teve uma troca, eu quero ter isso. Provar de seus lábios com permissão. – Esticou o braço e acariciou-me a face.

Fiquei calado, ele deve ter visto isso como um consentimento, pois nos dois segundos seguintes ele já estava sobre mim, deitando-me na cama e aproximando nossos rostos. Pela primeira vez, tomei a iniciativa e toquei nossos lábios ao puxar sua nuca contra a minha. Permiti me entregar a caricia, mesmo que sentindo as mãos dele explorarem o meu corpo. Admito vergonhosamente que toquei em toda extensão de suas costas e abdômen.

Mesmo já o tendo provado outras vezes, nada se comparou com aquele beijo. Era muito melhor quando existia uma cooperação, uma dança sincronizada de lábios e línguas. Não lhe ofereci barreiras para que me explorasse daquela maneira. Só voltei-me a mim ao senti-lo rasgar meus lábios com uma mordida provocante, a dor me situara da minha situação. As mãos de Yerik estavam perigosamente embaixo da minha blusa na lombar, as minhas eram ainda mais libertinas, apertando a bunda dele sobre o tecido grosso. Ele estava entre as minhas pernas, uma posição bem comprometedora.

Um frio percorreu-me na espinha, acabara de profanar a minha casa em pleno natal. Um sentimento de culpa inundou-me. Yerik já admitira que eu era uma pessoa bem expressiva, devido a isso que o devo tê-lo feito parar de me tocar ao observar minha expressão.

– O que foi? – Perguntou-me preocupado.

Eu queria chorar de culpa e nojo, por isso, nem olhei para ele, desabaria se fizesse isso, olhei somente para o teto.

– Vá para o seu quarto, por favor. – Falei quase sem voz firme.

Não precisou de mais informações, ele se recompôs e foi embora do meu quarto sem dizer mais nada. Ao som da porta batendo, permitir-me chorar, segurava o próprio cobertor. Não culpava –me por tê-lo beijado, mas por ter gostado. Em algum momento, acabei dormindo tendo como última lembrança o som de guizos.

No meio da noite, acordei com uma brisa gélida vinda da movimentação da minha porta. Meio grogue e quase totalmente cego, tentei identificar quem entrara, o vulto se aproximou de mim e sentou na minha cama.

– Quem está aí? – Perguntei atônito.

– Durma. – A voz falou.

–Vick? – A identifiquei. – Pensei que passaria o Natal com as gêmeas. – Fiz menção de sentar-me, mas fui impedido por mãos que empurraram-me para baixo.

– Mudei de ideia no caminho. – Ela sussurrava. – Pensou que lhe deixaria sozinho justo hoje?

Balancei a cabeça positivamente.

– Jamais faria isso. – Inclinou-se e beijou minha bochecha, seus lábios estavam frios.

– Dorme aqui. – Sussurrei.

Ela não me respondeu, apenas deitou-se ao meu lado, lhe dei espaço na cama e abertura nos cobertores. Suas roupas também estavam frias, isso me causou um leve arrepio. As posições que estávamos permitia que conversássemos frente para o outro.

– Como nos velhos tempos. – Falei fechando os olhos.

– Como nos velhos tempos. – Sussurrou de volta.

– Queria que papai estivesse aqui, poderia ter dado um tempo do trabalho pelo menos hoje.

– Ele deve ter tido um motivo bem plausível, não nos deixaria se não fosse importante.

– Mesmo assim. – Bocejei.

– Sinto muito por não ter chegado mais cedo, perdi a ceia. – Senti acariciar meus cabelos.

– Não teve ceia, apenas fiz uma coisa qualquer, que ficou horrível ainda por cima. – Pude ouvir sua risada fraca.

– Teve companhia?

– Sim, Yerik apareceu aqui.

– Por que?

– Não sei... – Deixei que minha sonolência enganasse minha mentira.

– Estranho. – Sussurrou.

– Também acho.

– Já foi embora?

– Não, está dormindo no quarto de hospedes.

Inevitavelmente acabei caindo no sono e perdendo o que ela pudesse ter me respondido. Um sono tão pesado que nem percebera quando Vick deixara a minha cama e fora para o próprio quarto.

– Blake, Blake, acorda. – Despertei com alguém exercendo peso sobre mim e me chocalhando.

A visão turva sem óculos não servia para me ajudar a identificar o meu despertador. Foi a voz dele que fez isso.

– Tome. – Me entregou o óculos, o coloquei e confirmei a minha suspeita, era Sam.

– O que faz aqui? — Falei animado, arrumando-me na cama.

– Pensou que passaria o almoço de natal sozinho, jamais deixaríamos que isso acontecesse. – Disse sorrindo e saindo de cima de mim.

– Emy também está aqui? – Minha animação só aumentava.

– Sim e já está preparando o almoço. Agora pode me dizer o que o Yerik está fazendo aqui, se você nem gosta dele?

Ser pego de surpresa com essa pergunta logo de cara, recordou-me do nosso momento intimo na noite anterior.

– Ele apareceu aqui do nada, ontem. – Falei com sinceridade.

– Por que? Meio estranho, não acha?

– Totalmente. – Sorri nervoso, me calando em seguida.

Um lampejo do meu sonho daquela noite me ocorreu, até ele era natalino. Assim como no filme que assistimos, eu acordara no meio da noite com o barulho de algo, no meu caso com o som de sinos. Ia verificar no lado de fora de casa e me deparava com uma grande catedral gótica, nas escadas que davam acesso a porta principal estava uma mulher maltrapilha carregando um embrulho nos braços. Me aproximei dela e vi seu rosto, era como da Virgem Maria no presépio da igreja. Olhei para seu embrulho e ele era a representação viva de Cristo na manjedoura também da igreja. Antes que pudesse discernir qualquer coisa fora despertado por Sam.

– Estou criando uma teoria de que ele está obcecado por ti.

– Que teoria maluca. – Desconversei.

– Concordo, mas apresse-se em levantar, não pode ficar na cama o dia todo. Papai Noel lhe deixou presentes.

– Deixou? – Falei me levantando.

– Deixou, até antes de eu subir sua árvore tinha alguns presentes.

– Milagres natalinos. – Sorri como uma criança.

– Se demorar mais um pouco não poderá tomar café. – Avisou-me antes de sair.

Rapidamente realizei minha higiene matinal e corri como uma verdadeira criança para sala de estar, atrás dos meus presentes. Sam não mentira, haviam três presentes no pé da árvore, sentei-me também ali e comecei a abrir um por um.

O primeiro era um conjunto de acessórios de lã verde, luvas, touca e um suéter, quem me dera fora Emy. Ela mesma costurara. Eram bonitos e quentes, tinham uma apreço especial pois poderiam ser os últimos feitos por ela. O segundo fora um terno despojado de Vick, todo preto, parecia sobre medida. O terceiro era um CD caseiro com até a capa artesanal, prometi que o escutaria mais tarde.

Todos os presentes na minha casa estavam na cozinha, a cena que presenciei ao entrar lá era uma melhor representação do sentimento felicidade. Todos sorriam, Emy estava cozinhando enquanto os demais se reuniam no balcão tomando café.

– Bom dia. – Lhes atraindo a atenção.

– Bom dia. – Fui recepcionado em minha própria casa.

Abracei cada um, até Yerik agradecendo pelos presentes.

– Irei usar mais tarde. – Avisei Emy sobre as roupas, ela pareceu especialmente satisfeita com a notícia.

Nos últimos dias havia demonstrado uma reação ao tratamento, estava até mais visivelmente mais saudável. Usava a peruca com os cabelos de Sam. Eu não queria que ela se esforçasse em cozinhar o almoço, porém sabia que minha imposição seria em vão em frente à sua vontade.

– Coma antes que fique mais tarde. – Ela me entregou panquecas com formatos festivos.

As panquecas de Emy eram sensacionais.

– Papai não vai vir. – Vick me anunciou, também comia panquecas.

– Era de se esperar. – Suspirei decepcionado.

– Não fique assim. – Yerik tocou no meu ombro. – Deve ter um bom motivo.

– Com certeza. – Sam instigou.

– Eu sei. – A panqueca pareceu menos apetitosa.

– O importante é que está cercado de pessoas que te amam. – Emy falou de costas para nós.

– Sim. – Senti alguém abraçar-me, arrepiei-me ao pensar ser o búlgaro. – Te amamos, Blake. – Ao perceber que era Sam relaxei.

– Amamos. – Pela primeira vez escutei Vick falar isso para mim.

A olhei abismado, sorria para mim, aquilo me aqueceu de uma forma que nem me queimando me aqueceria daquela forma. Retribuí o sorriso, no fundo gritava em alegria, afeto vindo dela era tão raro quanto um trevo de quatro folhas.

– Acho que vou indo. – Yerik falou ao terminar o ultimo pedaço da sua panqueca.

– Fique. – Emy pediu. – Ou sua família o espera?

– Minha família viajou. – Revelou.

– Então por que quer ir embora tão cedo se estou preparando o almoço? Vai fazer algo melhor?

– Não. – Sorriu.

– Então, sente-se rapaz. – Mandou falsamente ranzinza.

Trocamos olhares, lembrei de quando falaram sobre o amor e pensei se ele também me amava.

– Fica. – Lhe falei mudo com os lábios.

– Está bem. – Voltou a se sentar.

– Por que não passou o Natal com sua família? – Sam perguntou desconfiada.

– Eles viajaram para o interior não poderia deixar o Blake no estado que estava, após descobrir que passaria a noite sozinho.

– Entendi. – Quem respondeu fora Emy.

Essa postura lembrara-me de quando ele dormira em casa pela primeira vez e quanto causara desgosto em Emy, mas desta vez não gerava tal efeito. Muito pelo contrário, minha babá exigia a presença dele.

– Vamos brincar na neve? – Sam me olhou animada como uma criança.

– Não, neve é úmida. – Lhe respondi automático.

– Por favor? – Pediu.

Balancei a cabeça em negação.

– Por que não cantamos a música do filme? – Yerik sugeriu brincalhão.

– Não. – Vick lamentou.

Do you want to build a snowman?

Come on, let's go and play!

I never see you anymore

Come out the door

It's like you've gone away

We used to be best buddies

And now we're not

I wish you would tell me why!

Do you want to build a snowman?

It doesn't have to be a snowman

Sam começou a cantar, espantando Vick e causando risadas em Emy.

Do you want to build a snowman?

Or ride our bike around the halls?

I think some company is overdue

I've started talking to

The pictures on the walls!

(Hang in there, Joan.)

It gets a little lonely

All these empty rooms

Just watching the hours tick by

Yerik assustou-me ao começar a cantar também, porém não pude parar de sorrir.

– Parem. – Os interrompi. — Eu vou, só deixem me trocar.

– Cuidado para não ficarem gripados.

Rapidamente me troquei para uma roupa apropriada para brincar na neve e corri para o lado de fora, onde Sam, Vick e Yerik me esperavam.

– Guerra de Neve, garotas contra garotos. – Minha irmã anunciou não dando me tempo nem para parar de andar.

Acreditei que milagres de Natal aconteciam no momento que começamos a brincadeira, Sam e Vick pareciam amigas de infância muito bem sincronizadas e não rivais de colégio. Em compensação minha dupla com Yerik era desastrosa, na realidade eu era desastroso. O cumulo do absurdo foi quando tropecei em um montinho de neve e cai de cara na neve, em um momento meu companheiro cansou de tentar me defender e a guerra se tornou o massacre do Blake.

– Você é horrível. – Yerik falou se escondendo no monte considerável que juntara para fazer de barreira contra os ataques das rivais.

– Eu sei, as roupas me deixam lento.

– Estou te abandonando. – Avisou quando correu para o lado inimigo.

– Não vale. – Gritei comendo neve da bola que ele arremessara.

– As regras mudaram. – Gritou.

Depois disso recebi uma serie de boladas que me levaram ao chão doendo de tanto rir.

– Injusto reclamei. – Quando eles se aproximaram.

– Mau perdedor. – Vick acusou-me.

– Yerik é um traíra.

– Não gosto de um peso morto, já estávamos perdendo mesmo. – Sorriu.

– Apenas aceite, Blake. – Sam também não estava no meu lado.

– Okay. – Me dei por vencido deitando na neve.

Os outros me imitaram e imediatamente pequenos flocos incidiram. Olhávamos para o céu perolado, mesmo no frio, aquele conforto dentro de mim ainda permanecia intacto.

– Sua vó vai te matar. – Yerik falou depois que Sam tossira.

– Eu sei, mas já estou assim a um tempo. – Ela respondeu.

Estávamos fazendo anjinhos na neve, por estarmos cansados, quando Emy nos chamou para almoçar. Ela preparara uma verdadeira ceia, nada comparado com aquilo que eu fizera na noite anterior. Após rezarmos, simplesmente devoramos a comida, guerras de neve eram demasiadas cansativas.

Sei que era pecado comer demais, porém só me dei por satisfeito ao sentir a barriga doer, tinha comido tanto que queria apenas dormir, me mexer causava-me preguiça. O estados dos outros era parecido ao meu, menos o de Emy, pelo tratamento era bem mais regrada.

No restante do dia ajudamos a limpar a cozinha enquanto Emy descansava, após isso fomos para sala onde jogamos alguns jogos de tabuleiros. A pronuncia do anoitecer, Yerik pediu um táxi e fora para casa.

– Até o Ano-Novo. – O abracei, isso o espantou. Estávamos a sós, Vick e Sam tinham ido dormir.

– Até. – Abraçou-me com mais força. – Desculpe-me. – Sussurrou.

– Chega de desculpas. – Olhei nos olhos dele, como um dono faria com um cachorro desobediente.

Ele entrou no taxi e partira para sua casa. Todas as outras pessoas não despertaram mais, simplesmente viraram a noite inteira dormindo. Eu pelo contrário não conseguia, necessitava da presença paterna, não seria Natal sem ele. Fingi dormi por um momento para que minha presença na sala não despertasse as demais.

Na minha fantasia mais desesperada, imaginei que meu pai chegaria pela madrugada, por isso sai do meu quarto as três da noite e o esperei na sala de estar. Mesmo com o climatizador tínhamos acendido a lareira para deixar o clima ainda mais acolhedor. Passaram-se duas horas e nenhum sinal dele, não existia mais fogo e nem lenha, apenas uma fuligem solitária, alaranjada e dispersa e o alvorecer era proeminente no oriente.

Queria que todos os dias fossem assim, tudo calmo e em harmonia. Como exemplo da minha irmã e Sam.

Olhei para nossa árvore de natal, estava tão bela decorada, um dos seus galhos mais baixos estava em um ângulo esquisito. Ajoelhei-me e o observei melhor, dentro da árvore bem próximo a seu tronco estava uma pequena caixa metálica prateada, peguei, examinando-a. Em cima dela havia um cartão de natal, era bonito e tradicional, apesar de estar em uma outra língua. O abri e estava a seguinte mensagem:

“Feliz Natal, Blake.

Lhe dou esse pequeno presente em forma da afeição que sinto por ti. É uma caixinha de música búlgara, que toca uma melodia de ballet russo. Como promessa de Natal, prometo definitivamente nunca mais te assediar, sem teu consentimento. Só lhe tocarei quando pedir para que eu te toque.

Ps: Me sentirei ultrajado se encontrar esse presente após o dia de Natal.”

Sorri com a delicadeza daquele ato, a caixinha era tão bonitinha e delicada. A abri e uma melodia soou, ao centro dela um casal de bailarinos rodavam. Do lado oposto a tapa existia um espelho, pude observar quando uma lágrima atrevida escorreu pelo meu olho.

Notas finais
Estou considerando entrar em hiatus até terminar o primeiro arco, ou seja, escrever mais 11 caps e depois postar um por semana. Faria isso até o final de ano. Bjss. Reviews? Alimentariam minha pobre alma.