Tempestuoso
3 Olhando Para o Céu
Notas iniciais
Blake McCarthy:
Como promessa é dívida… Acabei de alugar a minha fantasia, vai ser de Chaplin, foi a Vick que escolheu, admito que adorei. Bom espero que você veja algum Chaplin na sua festa e seja eu. Estou torcendo para que estudarmos juntos.
Por favor, avise-me o quanto sobre a sua situação e fantasia, faltam poucas horas para a Integração e você está desaparecido.
Mick foi a primeira coisa que pensei ao voltar para casa, precisava atualizar meu amigo sobre os últimos detalhes e foi o que eu fiz. Vick e eu não tínhamos conversado muito na volta do centro da cidade, ida que tinha durado a maior parte da manhã e assim que chegamos cada um foi para o seu quarto.
Poderia apostar que estava conversando com suas amigas sobre a fantasia ou com o ficante sobre qualquer outra coisa. Eu por outro lado, não tinha ninguém além de Mick, que estava inacessível no momento, para, por isso, decidi ficar lendo na cama até almoço estar pronto. Eu tinha uma mania de escolher os títulos que lia de acordo com a sua importância na literatura americana/inglesa, eu achava aquilo um pouco pretensioso, escolher algo pela relevância e não pelo gosto, como se um dia eu fosse querer soar pseud. intelectual em literatura. Mas como esse dia não chegava para eu poder me sentir culpado, eu continuava nessa mania, naquela época, coincidentemente lia algo que eu gostava, The Great Gatsby.
Estava tão entretido na leitura que nem ouvi Emily entrar no quarto.
— O almoço já vai ser servido – Ela falou, assustando-me levemente.
O susto foi passageiro, pois logo a sensação de conforto, paz e canela, que só Emy tomou-me, era sempre assim com ela.
— Obrigado, Emy. Já estou indo – Respondi, sem tirar os olhos das páginas.
— Está lendo esse livro de novo? – Senti sentar-se ao meu lado na cama.
— É o meu favorito – Respondi sorrindo, fechando o livro. Ao contrário, do que muitos pensariam, eu não me sentia incomodado com a interrupção de Emy.
Olhei-a, os seus olhos eram como lareiras em manhãs de inverno, transmitiam o mais sincero aconchego.
— Eu acho que você fica parecendo tão adulto lendo esses livros assim.
— Mas eu só tenho quinze anos. — Comentei sorrindo. — Sou quase um adulto, mas ainda tenho tempo.
Crescer estava longe de ser um dos meus maiores desejos, a vida parecia ser dura demais, maliciosa, me sentia bem e seguro sendo um adolescente dentro de casa, porém isso estava prestes a mudar.
— Mesmo assim, para mim ainda é um susto perceber que não verei mais meu gordinho. — Emy raramente chamava-me de “gordinho”, pois o adjetivo refere-se uma fase muito tempestuosa e problemática da minha vida, mas quando chamava-me era o auge do seu afeto. — Que daqui a pouco, você vai se mudar e abandonar essa velha decrépita.
— Eu jamais lhe abandonaria, Emy. — Falei sorrindo, pegando em suas mãos enrugadas. — Você sabe que é minha vovozinha preferida.
— Sei. — Ela riu, batendo nas minhas costas de maneira carinhosa, aproveitei a deixa para deitar minha cabeça no seu colo, ela fazia um cafuné como ninguém. — Mas sua mãe ficaria orgulhosa, com você se mudando para a Sta. Agnes.
Emily tocou em um assunto delicado, minha mãe. Fiquei em silêncio por um tempo, esse assunto parecia até ser um tabu.
— Você acha? — Perguntei.
— Pelo pouco que conheci dela, sim. — Emily suspirou. — Susan reconheceria sua força de vontade, você ou outras pessoas podem não achar uma grande coisa estar indo para escola, mas é. Principalmente por tudo que você viveu, é tão jovem e passou por tanta coisa.
Novamente, não lhe respondi de imediato.
— Obrigado, Emy, por estar aqui. — A abracei. — Mas eu tenho medo. — Sussurrei no seu ouvido. — Tenho medo do que vai acontecer quando eu para lá.
— É normal ter medo do que não conhecemos, isso não te faz fraco. — “Fraco”, era essa palavra que eu mais temia. Meu pai sempre dizia que era para eu não ser fraco e eu senti que eu era justamente isso, não queria desapontá-lo. — Não acredite em tudo que o seu pai fala, ele também sente medo. — Emily completou como se tivesse lido meus pensamentos.
— Mas como é uma escola? — Tentei desconversar. — Como era o seu dia-a-dia, lá?
— Blake, é difícil descrever… faz tanto tempo. — Emily ficou pensativa. — Não acho que qualquer coisa que eu possa te dizer, vai lhe ajudar. Cada um tem sua experiência, nunca a mesma para cada um. Os tempos também são outros. — Soou vaga. — Mas eu acho que a única coisa que deve ter permanecido são as freiras, cuidado com elas.
[...]
— Você ainda não está pronto? – Escutei os berros de Vick, antes dela entrar abruptamente no banheiro.
Eu tinha acabado de vestir-me com a fantasia de mímico.
— Estou quase pronto, só falta o chapéu de coco – Falei. – E não entre no banheiro dessa forma, eu poderia estar nú.
— Como se fosse grande novidade ver o que você tem no meio das pernas, meu Deus, um pinto! – Revirou os olhos.
Não consegui evitar de ficar constrangido. Ela aproximou-se de mim, de modo que nossos rostos ficassem juntos refletidos no espelho. Nossa semelhança era incrível, os mesmos olhos castanho/verde e cabelo cacheado loiro escuro, naquele momento o de ambos estavam com um aspecto de molhado e bem penteados. Poderíamos ser irmãos gêmeos se não fosse pela diferença gritante de altura, Vick era pelo menos uns dez centímetros mais alta do que eu, eu era mirrado e ainda esperava o estirão da adolescência que não tinha chegado.
— Como você é pequeninho. – Ela sussurrou no meu ouvido.
— Como se eu não soubesse ou esquecesse, você faz questão de me lembrar todo santo dia. – Suspirei, pegando o chapéu de coco negro que estava em cima da bancada da pia e colocando-o na cabeça. – Acho que agora estou pronto.
— Tsc, tsc... – Ela discordou com a cabeça – Você não está pronto.
— O que foi? Falta o quê? – Olhei para ela pelo espelho.
— O bigode.
— Não, obrigado. Abdiquei desse detalhe – Falei, fazendo a menção de sair do banheiro.
— Diz isso como se pudesse escolher “abdicar” alguma coisa, querido. Isso não está nem em discussão – Falou, puxando-me pelo colarinho.
— Tentei fazer, não ficou bom – Falei em vão.
— Eu sabia que não ia conseguir, por isso, trouxe isso.
Eu não tinha visto, mas ela havia trazido consigo um pequeno estojo de maquiagem, mostrando a sua premeditação
— Eu não quero, Vick. – Eu pedi.
— Calado. – Ordenou-me.
Fiz o que ela mandou, suas mãos eram ágeis, porém pesadas e pouco gentis. Ela tirou os meus óculos e chapéu e começou o seu “trabalho”. A caracterização foi rápida e barulhenta, esporadicamente soltava um comentário crítico contra mim, como:
“Como você é branco, não vai precisar de muita…”
“Pare de se mexer, vou furar a sua boca.”
“Finalmente vai ter um bigode.”
“Seus olhos são verdes”, esse deveria ter surgido a partir de um colapso mental.
O que eu pensei que seria apenas a confecção de um bigode com um lápis de olho preto, tornou-se uma maquiagem mais elaborada. Senti passar algumas vezes um pó do meu rosto, como se quisesse deixá-lo mais pálido.
— Isso é extremamente incômodo, sinto-me com o rosto todo sujo. – Falei assim que senti suas mãos abandonarem o meu rosto e meus óculos serem recolocados. – Como consegue fazer isso todo o dia? Passar tanto pó na cara?
Assim que pude enxergar bem novamente, vi o resultado do trabalho de Vick, ela não tinha feito muita coisa, apenas me empalidecido e feito o bigode falso no meu buço. Toda a sua movimentação em cima de mim, tinha me deixado com calor, pude sentir o suor formando-se na minha testa.
— Sou mulher – Falou, recolocando também o chapéu. – E cuidado pra não suar muito e a maquiagem começar a escorrer.
Balancei a cabeça em positivo. A noite estava quente e úmida, por sorte eu não era de transpirar muito, então borrar a maquiagem não era uma grande preocupação.
— Consegui ficar parecido? – Perguntei-lhe.
— Claro que sim, depois de todo o meu esforço pelo menos um “parecido” é mais do que merecido, mas devo lhe dar os créditos pelo cabelo.
— Não é de se empolgar, não fiz muita coisa, mas você sabe como eles são, logo estarão armados. Falei, referindo-se ao cabelo.
— Não fugirá muito do personagem – Disse sorrindo, ela ficava muito bonita sorrindo, deveria fazê-lo mais.
— Você está muito bonita hoje, Vick – Elogie lhe assim que notei sua fantasia.
— Eu sei! – Ela estendeu os braços, dando um giro para que eu pudesse melhor admirá-la.
Tanto sua fantasia quanto sua maquiagem remetiam aos anos 20, ela estava com um bodysuit de renda, levemente transparente em tom de lavanda e com detalhes pérolas. Além das pérolas no vestido, ela também as usava em um imenso colar, que dava três voltas largas no seu pescoço e ficava sobrando, e brincos. Usava também um casaco de pele falsa de coelho e uma touca de brilhantes, que combinava perfeitamente com o cabelo reduzido em cachos marcados até a altura da orelha.
— Incrível! – Exclamei.
— Sempre sou.
— Papai, já lhe viu assim?
— Não, por quê? Estou vulgar?
— Não, só um pouco sensual demais – Argumentei, não que eu fosse fiscalizar as roupas dela, mas sabia que nosso pai iria.
Ela soltou uma gargalhada prazerosa.
— Papai também não gostaria de te ver com maquiagem, então não opine.
— Mas, foi vo...
— Em primeiro lugar, tenho total senso de vulgaridade e sensualidade. Em segundo, papai não está em casa, ficou na cidade cuidado daquele caso e o que ele não vê, não pode opinar. – deu uma piscadela.
— E Emily? E a Sta. Agnes é católico!
— Emily não é significante o suficiente para opinar sobre minhas roupas ou minha vida. – Censurei-lhe com os olhos. – E outra, estou muito comportada, verá garotas muito piores do que eu, pode ter certeza. Estou maravilhosa vintage.
— Por isso escolheu o Chaplin para mim? Vintage? — Caminhávamos para fora do quarto.
— Como você é espertinho...
— Por que mudou de opinião?
— Já olhou para minha fantasia? Quando me vi nela mudei completamente de opinião. Fique feliz, porque você não iria querer e nem gostaria de usar a outra que eu tinha escolhido para você, se fosse ainda no tema anterior.
— Ainda bem que mudou e se inspirou nas melindrosas – Comentei enquanto descíamos as escadas.
— Por quê?
— Elas eram graciosas, talentosas e muito mal compreendidas.
— O que é completamente similar a minha pessoa.
Há quem discorde, pensei.
[...]
— Ainda bem que você não dirige da forma como age. – Comentei.
— “Ainda bem que você não dirige como age” – Ela fez uma péssima imitação da minha voz – Não me enche, se não te deixo no meio do nada.
Pensei em lhe esclarecer que aquele comentário era na verdade um elogio, ao invés, de uma crítica porque a maioria das suas ameaças eram concretizadas e o cenário ao meu lado não era nem um pouco auspicioso e convidativo para se ficar perdido – uma mata de vegetação densa que deixava passar poucos feixes de luz para seu interior.
— A escola é longe. — Comentei, mudando de assunto.
— Já estamos nos seus terrenos. — Vick falou, apontando para sua janela.
Do outro lado da via se estendia um muro por além da vista, com altura poderia ultrapassar facilmente os cinco metros. O seu tempo, ou melhor, a sua idade era entregue pelo musgo e limo que cobriam os tijolinhos, antes vermelhos, agora verdes escurecido e encardidos.
— Este muro já nos vem acompanhando a algum tempo — Comentei.
Ela riu.
— E ainda nem chegamos na metade.
Fiquei boquiaberto.
— Para falar a verdade, já nos aproximamos da entrada que fica na metade dos terrenos – me informou.
Quando falavam que um terço da cidade era apenas a Sta. Agnes, ficava difícil de acreditar, mas agora passando pelos muros perimetrais ficava um pouco mais crível. Vick contara-me que não tinha muita área construída, que a maior parte dos terrenos eram de mata nativa, um bosque de árvores de médio porte e campinas.
Não demorou muito tempo e logo Vick freou, parando em frente a um grande portão de ferro preto, em processo de oxidação, que provavelmente era a entrada para a Sta. Agnes. Ela seguiu pelo portão aberto e na rua interna, o primeiro prédio ficava pelo menos uns cem metros à frente e nessa extensão que nos separava ficava um imenso jardim, no estilo francês. O local era iluminado por antigos postes de ferro, tão enferrujados quanto o portão, não pude ver qual era as espécies de flores que tinha no jardim, mas pelos aromas inebriantes, consegui identificar pelo menos, rosas e lírios.
— Desfrutando dos aromas? – Perguntou-me, tirando-me do estado de estupor. Ela tinha acabado de estacionar, o estacionamento estava cheio.
— Como...?
— Por sua expressão. – Vick interrompeu-me, antes que eu pudesse terminar. – E todo mundo fica um pouco bobo com o aroma do jardim.
— Deve ser maravilhoso sentir esse cheiro todos os dias. – Comentei.
— A gente só sente o cheiro das flores quando está do lado de fora dos prédios, os dormitórios ficam longe do jardim e as salas de aula, geralmente ficam com as janelas fechadas e acaba se tornando tão comum que paramos de prestar atenção. – Esclareceu.
— Ahh... – Não consegui disfarçar a decepção, como os alunos podiam ignorar uma coisa como essa no dia-a-dia.
— Tenho uma coisa para te dizer antes de sairmos do carro. – Vick falou.
— Diga, sou todo ouvidos. – Forcei um sorriso.
— Como você sabe, eu sou a atleta modelo dessa escola, ou seja, eu sou a rainha dessa porra toda. Então, você precisa estar ciente de que agora pode ser usado contra mim, para ameaçar o meu poder e minha reputação, você é como uma espécie de ponto fraco aqui dentro. Por isso, preciso que você siga exatamente tudo o que eu mandar. – Fiquei tão impressionado com suas palavras que fiquei sem reação. – Se fizer tudo certo, não terá complicações. – Essa última parte soou um pouco ameaçador.
— Que complicações seriam essas? – Perguntei com a garganta seca.
— Nada que você tenha que se preocupar, se me obedecer. – Novamente foi incisiva no “obedecer”— Começando por hoje, só converse com meus amigos ou com quem eu apresentar, é um grupo grande, vai conseguir se enturmar e passar despercebido, depois que a euforia do “ irmão mais novo da Vick” passar. Seja agradável, na Integração ninguém quer conhecer ninguém, de verdade. Só tente não fazer nada que me constranja, tipo dança, nós sabemos que você não é bom nisso. Só aja normalmente, mas não o seu normal esquisito, mas um normal tipo eu, só que mais humilde.
Diante daquelas palavras, só consegui apenas ficar concordando com cada coisa que ela dizia, apesar de por dentro, estar sentindo-me magoado e atingido com as muitas entre linhas no que dizia.
— Você sente vergonha de mim? – Tomei coragem de perguntar quando ela estava saindo no carro, como se eu não tivesse nada para dizer após ela.
Ela pareceu apreensiva sobre responder-me, porém, optou pelo o que sempre optava, pelo caminho que poderia me machucar mais.
— Acredito que você tenha potencial, temos os mesmos genes, somos parecidos. Então, você pode conquistar o seu espaço e melhorar esse seu jeito meio esquisito, por tanto, minha resposta é sim. Eu tenho um pouco de vergonha de você, mas não terei, se seguir à risca o que eu te falei.
Não maioria das vezes, eu conseguia manter-me imune as palavras que Vick falava e machucavam-me, sempre dizia para mim: “É só o jeito dela, não quer te machucar”, “Ela está brincando”, entre outras justificativas, mas naquela fez, não consegui diminuir o impacto das palavras. Aquilo, tinha sido a pior coisa que ela tinha me falado. Saber que sua única irmã, envergonhava-se de si, era simplesmente devastador. Eu já tinha experimentado a sensação de quase de afogar, da água salgada queimar meus pulmões e ter que lutar pela minha vida, isso, tinha sido somente um pouco pior do que, ouvir aquilo.
— Não vai sair? – Assustei-me com Vick batendo na janela do carro, do meu lado.
Eu tinha travado no carro, perdido nos meus pensamentos, tive milésimos de segundo para decidir se iria sair do carro ou não, por mais que por dentro eu gritasse para não fazer nada, decidi pela vontade de Vick.
— Já vou. – Respondi, abrindo a minha porta e saindo do veículo.
Qualquer entusiasmo, se tivesse existo, pela festa esvaiu-se ou ficou no carro, pois a única coisa que queria era acelerar o tempo e poder voltar para casa, onde eu teria uma última semana em paz. Por mais desgosto que eu tivesse, eu não podia demonstrar isso, ou seria retalhado, consequentemente tive que arrumar um modo para disfarçar a minha cara de poucos amigos, o método que eu achei foi olhar para o céu e pensar em coisas boas.
Era uma noite de lua minguante e céu parcialmente nublado, uma vez ou outra uma nuvem encobria a lua, escurecendo ainda mais a paisagem. Enquanto isso na minha cabeça, consegui achar a única coisa que poderia me fazer querer ficar ali, a possibilidade de encontrar meu amigo, Mick. Por mais, que ele não tenha me respondido, eu sabia que ele tinha visualizado a mensagem e isso já era alguma coisa, ela sabia que eu era o Charles Chaplin e se quisesse falar comigo, poderia. Eu sei que eu estava animando-me com possibilidades, mas pelo menos, era uma coisa positiva no meio de tanta coisa negativa, que eu sentia estar por vir.
— É por aqui. – Vick puxou-me pelo braço, ela nos guiava pelos terrenos da escola até entrarmos em um modesta entrada no prédio de entrada.
— Quanto tempo tem essa escola? – Tentei puxar conversar, para ela não me perceber estranho.
— Eu acho que está perto de completar uns cento e cinquenta anos lecionando para todo mundo e uns duzentos como convento. – Vick era fascinada por história, um traço de personalidade que se diferenciava bastante dos demais.
Tudo que eu sabia sobre o Internato, provinha, principalmente, dela e de Emily. Ela tinha me contato boa parte da história do local e da organização dos seus espaços, no seu primeiro ano, no recesso das festas de final do ano.
O Internato Sta. Agnes tinha praticamente fundado a cidade, era um pouco mais antigo que ela, posteriormente ajudado no seu desenvolvimento. Tinha fama em âmbito nacional, como sendo um dos melhores internatos particulares do país, mas que no passado havia sido público, na época de Emily especificamente. Apesar de tudo, o internato não era tão preferido por tantas famílias devido a sua localização, no meio da Pensilvânia, a maioria das famílias ricas preferiam colocar seus filhos em cidades pequenas próximas as grandes cidades, por tanto, acabava sendo a opção para as famílias que buscavam por um lugar mais recluso ou ricos locais. Uma das coisas que a instituição valorizava, era o potencial dos seus alunos, tendo incentivo nas mais diversas áreas do conhecimento, desde as artes até os esportes, mas desde que lhe dessem frutos em competições. Pois, gostavam de exibir seus prêmios em jornais, por isso, ofereciam muitas bolsas para quem fosse excepcional em alguma coisa e lhe garantisse mais prêmios.
Apesar da mensalidade ser cara, o valor era compensado com a estrutura e a qualidade do ensino oferecidos. A instituição era composta por três estruturas prediais em estilo neogótico, com seus anexos e setor esportivo, tudo equipado com os luxos e as tecnologias do mundo moderno. O prédio principal, que era visto logo na entrada, era o maior de todos, tanto em altura, com sete andares, quanto em extensão, lá era aonde abrigava toda a parte administrativa e educacional da escola.
O segundo prédio, era o prédio dos dormitórios, onde todo mundo, sem exceção, dormia. Dividido em quatro alas: a masculina, dos professores, freiras e feminina, sendo a primeira e a última nos extremos, oeste e leste respectivamente e proibido a comunicação física entre elas. A localização das alas dos alunos serem nas pontas, era uma estratégia para evitar visitas de alunos em quartos de alunas e visse e versa, por isso todo o corpo docente e religioso no meio.
Entre estes prédios, localizava-se a cozinha e refeitórios, servindo como uma espécie de ligação entre eles. Na área externa, ficavam as estufas e o jardim de inverno. O último prédio, era a igreja dedicada a Santa Agnes, protetora das imaculadas, e o cemitério das Irmãs, localizado no ponto mais alto dos terrenos da escola, local onde as freiras, que não ajudavam na escola, ficavam. Seu acesso mais remoto, uma trilha razoável e ligeiramente íngreme no meio de um bosque, fez com que fosse instalada uma pequena capela, próxima ao setor esportivo e o uso da igreja ficasse mais restritos as missas de domingos.
Um ponto importante da escola, era que o ensino religioso não era obrigatório, assim como a frequência as missas ou fazer orações também não eram, isso só tinha sido possível após a escola ter sido obrigada a abrir suas portas para alunos com fé diferente da católica e quase ser processadas por famílias protestante e judias. Para mim, a fé não era um problema, já que eu era um grande devoto da igreja católico e frequentador das missas dominicais, com Emily.
— Onde fica o ginásio? – Perguntei-lhe enquanto passávamos rapidamente por vários corredores, eu suspeitava que não estávamos no caminho principal.
— Depois dos dormitórios, no complexo esportivo. – Respondeu-me.- Estamos pegando um atalho.
Seguimos por mais corredores, descemos e subimos uma escada até sairmos em um deposito ao lado do ginásio, dentro do complexo esportivo.
— Como? – Perguntei impressionado, tínhamos passado tão rápido por toda a escola e saído diretamente dentro do complexo.
— Sou muito boa com atalhos. – Respondeu piscando. – Vamos. – Puxou-me para fora do deposito.
O complexo era grande e amplo, tinha espaço para as mais diversas modalidades de esportes, alternando entre espaços abertos e fechados. Próximo ao ginásio, era possível observar o campo de futebol americano e de beisebol, ambos com arquibancadas. Na porta do ginásio estavam duas Irmãs, que fiscalizavam o controle do acesso ao espaço e os alunos para não irem para outra área esportiva do complexo. Mesmo do lado de fora, era possível escutar as batidas de uma música genérica pop que tocavam lá dentro, meu coração começou a martelar no ritmo dessa música, estava ficando ansioso. Tudo parecia que iria mudar quando eu entrasse ali, isso, entusiasmava-me e amedrontava-me ao mesmo tempo.
— Não precisa ter medo, vai dar tudo certo. – Vick sussurrou-me ao perceber meu nervosismo.
Não lhe respondi, apenas caminhamos em direção as portas, assim que nos aproximamos as freiras no cumprimentaram e liberou a entrada.
— Bem-vindo ao colégio – Vick falou assim que entramos.
A cena que se seguiu poderia ter sido retirada de qualquer filme colegial disponível na netflix, um bando de adolescentes suados, vestindo as mais diversas fantasias dançavam ao som da música pop, que um dj tocava em um palco no fundo do ginásio. Se um dia eu pensei que não chamaria a atenção naquela festa, estava redondamente enganada.
— CHEGUEI, VADIAS! – Vick gritou, apesar do som, as pessoas mais próximas a ouviram e pararam para olha-la, causando um efeito domino nos que não tinham escutado, de repente era o colégio olhando para nós, isso, nós porque eu estava parado como um estátua, travado, ao lado dela.
— Você só pode estar de brincadeira. – Sussurrei-lhe em um único sopro de folego.
— Acostume-se, pois isso é só o começo. – Respondeu-me, caminhando para sei lá onde.
O ambiente era escuro, iluminado por refletores de luz colorida que pareciam fazer uma dança descompensada com os seus feixes. Conforme Vick caminhava, as pessoas a seguiam com o olhar, e também como sua sombra. A situação só voltou ao normal, quando ela, finalmente, chegou ao seu grupinho de amigos. Percebi que o grupo se tratava dos populares, pois aparentarem serem as garotas e garotos mais gatos do local, terem uma aura intimidadora com todo mundo fora desse ciclo e pelo modo que se portavam, como superiores a todo mundo. Não podia ter esperado nada diferente vindo de Vick.
— Amiga, eu poderia virar lésbica agora, só para te pegar. – Um garota ruiva falou, assim que nos viu aproximar.
— Amiga, eu também. – Vick lhe respondeu, o tom entre as duas era superficial. Não conseguir identificar a quem minha irmã se referia naquela fala, se a si mesma ou a ruiva.
— Mas quem é o pequeno? – A ruiva perguntou, estava torcendo para passar despercebido dessa vez.
— Meu irmãozinho, Blake. – Vick passou o braço ao redor do meu pescoço. – Essa é uma das minhas melhores amigas, Mirna, que tem uma irmã gêmea, Lucy. Então, quando conhecesse uma, está conhecendo as duas. – Apresentou-nos.
— Prazer. – Cumprimentei-a com um aperto de mãos.
— Todo meu. – Respondeu-me sorrindo, seus lábios estavam em vermelho vivo. Lhe retribui o sorriso.
Mirna era muito bonita, possuía um longo e liso cabelo ruivo e olhos esmeraldinos, estes quase encobertos por uma máscara branca felpuda de gato. O seu corpo estava moldado por uma fantasia de veludo branca bem marcada e com um rabo felpudo saindo da altura do coxis.
— Não tente flertar com meu irmão. – Vick lhe censurou, sem acreditar no que ela dizia, fiquei envergonhado. – Está tão desesperada assim, para dar em cima de um novato?
— Ai Vick, você é tão estraga prazer. – Mirna soltou uma lamúria – Eu só iria brincar com ele um pouquinho, não sou nenhuma papa-anjo.
Minha irmã soltou uma risada. Se possível, fiquei ainda mais vermelho. Uma situação como aquela era completamente nova, nunca me imaginei como interesse para alguém, o que obviamente não era o caso, mas por alguns segundos tinha parecido. Não pude ficar muito tempo refletindo sobre essa questão, porque logo, fui arrastado para conhecer todos daquele grupo.
Um a um, fui sendo apresentado, não consegui gravar os nomes de ninguém, era muito barulho e muita gente. Em comum, todos tinham as mesmas características que identifiquei olhando de longe, o destaque ia para a duplicata de Mirna, Lucy que vestia uma fantasia idêntica à da irmã, só que preta. As pessoas conversavam comigo, assuntos que não passavam da superficialidade, nada que parecesse me conhecer de verdade, achei até que faziam isso para poder agradar a minha irmã, fazendo “amizade” com o irmão mais novo dela. Com o tempo, comecei a ficar entediado.
A coisa só se tornou interessante quando o ficante de Vick apareceu, ela estava conversando entusiasmada com Mirna e Lucy quando um garoto apareceu por trás dela, lhe envolvendo com um abraço e beijando-lhe a bochecha, supôs que era seu ficante. Ele era extremamente alto, no mínimo fazia parte de alguma equipe esportiva pelo seu porte físico, vestia-se de guerreiro romano, uma fantasia que mostrava boa parte do seu corpo bronzeado. Contratante ao seu porte intimidador, seus olhos, negro, possuíam um brilho quase que infantil.
Ele sussurrou alguma coisa no ouvido dela, que lhe consentiu com a cabeça e o acompanhou de mãos dadas para a saída do ginásio.
— É o Marc? – Perguntei para gêmeas, ao me aproximar delas.
— Sim. – Responderam juntas, entre risinhos.
— Vocês sabem aonde foram?
Sem responderem-me, entreolharam-se e soltaram uma gostosa gargalhada, mesmo não sendo uma resposta direta, eu entendi o que queriam dizer. Afastei-me delas e caminhei em direção a porta, queria saber o que Vick estava fazendo, mas antes que pudesse dar dois passos, fui segurado pelas gêmeas.
— Blake, não estrague a diversão de sua irmã. – Mirna falou.
Somente após ela me dizer aquilo, entendi o que Vick tinha ido fazer, aquilo embrulhou-me o estômago, de repetente o ginásio tornou-se muito quente, queria sair dali.
— Jamais iria querer fazer isso – Falei com uma voz embargada, senti o suor escorrer pela minha testa.
— Então, aonde está indo? Nós vimos que estava seguindo-os. – As duas pareciam ter o hábito de falarem juntas.
— Não, não... – Atrapalhei-me ao responder. – Só queria tomar um ar.
— Sua irmã não iria querer que você se afastasse da gente.
— Eu sei, mas eu realmente preciso de um pouco de ar fresco. – Dito isso, soltei-me delas.
Voltei a caminhar em direção a porta, agora não mais no intuito de seguir minha irmã, na realidade, ela era a última pessoa que eu queria ver no momento, porque se fizesse, seria a visão dela se agarrando com o Marc. Pensei que as gêmeas seguir-me-iam ou tentariam me impedir de seguir novamente, mas não foi isso que aconteceu, imaginei que não tivessem tanta disposição de perder parte da festa impedindo o irmão mais novo de uma amiga de sair andando por aí.
Eu não sabia quanto tempo tinha se passado desde que chegara, mas tudo parecia estar sendo um desastre, não tinha feito amizade com ninguém e nem sentido qualquer empatia por qualquer um, para completar o combo, minha irmã havia me abandonado. Quando o ar fresco tomou meus pulmões, foi uma pura sensação de alivio, porém não era o suficiente, eu precisava de ar fresco em um ambiente aberto, por isso, caminhei até o campo de futebol americano. Fiquei apreensivo, em ser repreendido por alguma Irmã, mas elas pareciam estar mais ocupadas em fiscalizar os alunos que saiam para se “divertir” em casal, do que no menino esquisito caminhando para um campo deserto e mal iluminado.
Meus pensamentos só foram normalizar depois de um tempo, vi-me sentado nas arquibancadas do campo sozinho, da altura que estava dava uma boa visão de boa parte dos terrenos e do céu. Pouca coisa tinha mudado em relação a ele, desde que entrara no ginásio, a lua ainda tentava aparecer entre as nuvens, porem algo chamou minha atenção e não era algo relacionado a astronomia, era uma garota deitada no meio do gramado. Se achava-me esquisito, aquela menina estava ali para provar que existe gente mais doida do que eu. Tomado pela curiosidade, foi descendo a arquibancada para poder observa-la mais de perto, até ficar no nível do chão.
— Se pensa que vai me tirar daqui, está muito enganado. – A menina falou, tão alto pegou-me tão desprevenido, suponha que minha descida estava sendo despercebida, que acabai dando um saltinho de susto.
— O que... eu, eu nem pensei nisso. – Gaguejei, tentando defender-me.
Pelo visto, eu não era o único a estar observando alguém.
— Então, por que veio até aqui embaixo?
Ela não olhava para mim, sua atenção visual estava totalmente voltada para o céu.
— Achei que estava perdida. – Falei qualquer coisa para não justificar com minha curiosidade por alguém com uma ideia de fuga parecida com a minha.
— Eu pareço perdida?
— Acho, qu- que não. – Falei, constrangido. – Vou deixá-la em paz. Desculpe-me.
Comecei a me afastar.
— Por que está se desculpando e se afastando, se não fez nada de errado? Se só estava com curiosidade em ver uma esquisita deitada no meio do gramado, tudo bem, porque eu também observava o esquisito nas arquibancadas.
— Não quero incomodá-la.
— O espaço é comunitário, se você é um aluno daqui, como suponho ser.
— Sou sim.
— Então, não se afaste e se apresente como um ser civilizado. – Pela primeira vez, ela me deu atenção visual, olhando-me diretamente.
— Sou Blake. – Apresentei-me, nervoso, não sabia o que esperar daquela desconhecida, estendendo a mão em sua direção.
— Pode me chamar de Beth. – Respondeu-me, apertando a minha mão e usando-a para se levantar.
Quando Beth levantou-se, deu uma dimensão melhor do seu tamanho, era mais baixa do que eu e magra, dando-lhe um aspecto de frágil, o que contrastava com sua personalidade que não era nem um pouco frágil, seu fosse apostar, diria que era caloura como eu. Pela pouca luz do ambiente, consegui identificar que seu cabelo era em um tom alaranjado, entre o loiro e o ruivo, os olhos deveriam ser claros, apesar de não ser possível identificar a cor. Concidentemente, também usava óculos, mas os dela, lhe davam um aspecto de libélula. Sua fantasia remetia a de uma plebeia dos tempos medievais, um vestido simples azul claro.
Assim que cumprimentou-me, voltou a sentar-se, eu a acompanhei.
— O que fazia numa arquibancada sozinho, Blake? – Perguntou-me, voltara a olhar para o céu.
— Acho que o mesmo que você, Beth. Fugindo dos meus pensamentos. – Respondi-lhe com sinceridade.
— Não vim aqui para fugir dos meus pensamentos, na realidade, vim refletir sobre eles e fugir das pessoas. – Ela sorriu, seus dentes eram ligeiramente assimétricos. – A gente poderia mudar de realidade, mas mesmo assim, não conseguiríamos fugir dos nossos pensamentos, é impossível.
— Queria que fosse possível. – Suspirei, naquele momento lembrei de Mick, estaria ele procurando-me.
— Do que tenta fugir? – Beth encarou-me.
Por mais que eu só a tivesse conhecido em menos de cinco minutos, sentia que no fundo podia confiar nela ou só era o desejo de poder desabafar com alguém.
— Minha irmã, do seu controle e sombra. – Suspirei, olhando para o céu.
— Você é o irmão mais novo? – Perguntou-me.
— Sim.
— Eu também sou irmã mais nova e sei como é difícil conseguir sair da sombra do mais velho, as comparações de nossos pais e tudo mais. Mas não pode ficar caindo nessas neuras, com o tempo você vai conseguir o seu espaço... – O conselho era bom, mas não sabia se adequava-se ao meu caso. – Sobre o controle dela, ás vezes, só é preciso se posicionar de maneira mais incisiva.
— Eu não consigo, ela é muito temperamental e não quero ficar sozinha, se magoa-la ou irrita-la, fazendo-a para de falar comigo.
— Por algum acaso, só tem ela? – Percebi um tom de curiosidade na sua pergunta.
— Só somos nós dois, nosso pai e Emily, nossa governanta.
— Não tem outros amigos, da antiga escola?
— Eu não tenho amigos, nunca tive. – Omiti Mick. – Eu nunca estudei fora de casa.
Dessa vez, ela não me respondeu, um silencio incomodo instalou-se sobre nós. Lembrei que eu estava fazendo uma coisa, que justamente Vick mandara eu não fazer, conversar com desconhecidos. Antes que eu pudesse canalizar qualquer sentimento de culpa, pela desobediência, foquei no quão boa tinha sido a conversa com Beth, a melhor da noite. Pelo canto do olho, olhei para ela, parecia estar refletindo sobre a última coisa que eu falara, as vezes acontecia isso, quando eu falava que não tinha amigos, as pessoas ficavam caladas e pensativas
— Ela que escolheu a minha fantasia. – Puxei assunto.
— Chaplin? – Perguntou-me.
— Sim.
— E você por um acaso, gosta do Charlie Chaplin?
— Não gosto e nem desgosto, mas foi bem melhor da outra, que ela poderia ter escolhido...
— Então, faz exatamente o que ela manda, mesmo que isso lhe desagrade. – Pelo seu tom, não tinha feito uma pergunta.
— Não... eu acho que não.
— Você disse que poderia ter sido pior, se tivesse sido a pior opção, teria usando do mesmo jeito. – Novamente, não era uma pergunta, estava chegando em suas próprias conclusões. – Foram vocês que entraram fazendo todo aquele alvoroço com a porta? – Pelo visto, até ela tinha visto aquilo.
Balancei a cabeça em positivo.
— E você adorou não foi?
— Claro. – Sorri em ironia.
— Qual é o signo dela?
— Acho que é Leão, não tenho certeza. É um dia depois de mim, dia 22 de julho.
— É Leão, e o seu é Câncer.
— Eu não acredito muito nessas coisas...
— Está explicado... – Ela parecia não estar mais me ouvindo, tinha entrado no seu mundinho particular.
— O que está explicado? – Fiquei curioso, não conhecia muito de astrologia, era um conhecimento pagão, não era real e nem era bom.
— Toda aquela necessidade de atenção, uma perfeita leonina e você ainda falou que ela é mandona, deve se sentir como centro do universo.
— Não estou entendendo o que você está falando. – Falei rindo.
— Estou fazendo apenas fazendo suposições astrológicas sobre a sua irmã. – Ela riu também.
— Não acredito em astros, apenas na bíblia.
— O seu signo é bem voltado para família, o que confere com a sua constante abnegação de vontades em prol dos desejos de sua irmã. – Ela continuou falando, ignorando a última coisa que eu falara.
— Não estou entendendo aonde você quer chegar.
— Nem tente entender, nem eu me entendo, que dirá os outros – Ela riu, como se aquilo já lhe fosse uma piada interna.
— Beth, você é diferente. O que faz em um colégio católico? – Só depois de ter feito a pergunta, que fui perceber que ela soara bem rude. – Me desculpe.
— Não sei ao certo qual foi a ideia dos meus pais ao me mandarem para cá, mas eu acho que foi pela educação porque também não são católicos ou cristãos. E você quis dizer esquisita, não é? Já estou acostumada, mas acho que você também se considera um, então não vou levar como ofensa.
— Não foi isso que eu quis dizer, ser diferente, não é necessariamente algo ruim. – Esbocei um fraco sorriso.
— Desculpe, tenho essa mania de fazer suposições e de ter meias ideias.
— Se isso vai te fazer se sentir mais feliz, acho que está certa em relação a análise dos signos. – Continuei sorrindo.
— Nunca erro. – Ela parecia satisfeita consigo. – Mas posso te aconselhar uma coisa? – Consenti com a cabeça. – O Leão tem espírito de liderança e controle, por isso tome cuidado com a sua irmã, seu signo já não lhe beneficia nesse assunto. Não deixe que ela tome conta de sua vida e de ti, impedindo de ter uma vida e personalidade. – Com um impulso ela se levantou, para a minha surpresa.
— Aonde vai? – Perguntei-lhe, ainda estarrecido com as palavras a poucos instantes ditas.
— Voltarei ao ginásio.
— Mas já? – Lamentei.
Ela sorriu.
— Outra ideia dos meus pais em ter me colocado aqui é a de me fazer um ser mais sociável e creio que talvez seja mais bem sucedida lá dentro. – Falou, afastando-se. – Então lhes devo pelo menos uma tentativa. – Tive que concordar com ela.
Conversar com Beth, com certeza, tinha sido o ápice da minha noite, até então, de todas as pessoas que eu tinha conhecido, ela tinha sido a mais interessante, o que era engraçado, era que tinha sido a única a não ter conhecido por intermédio da minha irmã. Pensar em Vick, lembrava-me de como a noite estava sendo ruim até eu decidir ir ao campo, a expectativa de voltar para ela e seus amigos fúteis no ginásio era como um pesadelo, por isso, optei por ficar aonde eu estava, sem fugir do impossível, meus pensamentos.
As palavras ressoavam em minha mente, chegava cada vez mais na conclusão de que Vick era uma péssima irmã e muito egoísta. Éramos irmãos, deveríamos ter uma relação mais saudável, ela não deveria ter vergonha de mim ou tentar me controlar para anão constrange-la, ou me abandonar no meu quase primeiro dia de escola.
Não sei como, mas de minha irmã, meus pensamentos foram para minha mãe, não passava um dia se quer desses últimos dez anos, sem que eu não sentisse sua falta. Ela ajudar ia-me, aconselhar ia-me, eu e Vick seriamos pessoas diferentes com a presença dela, tudo seria diferente e eu sentia que seria para o melhor. Sempre que eu pensava nela, eu sentia vontade de cantar, ela sempre cantarolava para mim, por isso, quando dei por mim, estava cantarolando no campo deserto.
“I know you, I walked with you once upon a dream
Eu te conheço, andei com você uma vez num sonho
I know you, the look in your eyes is so familiar a gleam
Eu te conheço, seu olhar tem um brilho familiar
And I know it’s true that visions are seldom all they seem
E eu sei, é verdade que as visões são raramente o que parecem
But if I know you, I know what you’ll do
Mas eu te conheço, sei o que você vai fazer
You’ll love me at once, the way you did once upon a dream
Você me amará de uma vez, do jeito que amou uma vez em um sonho
I know you, I walked with you once upon a dream
Eu te conheço, andei com você uma vez num sonho
I know you, the look in your eyes is so familiar a gleam
Eu te conheço, seu olhar tem um brilho familiar[..]”
— O brilho dos seus olhos também me é familiar, Bleika.— Alguém falou com uma voz arrastada pelo sotaque muito próxima de mim, o suficiente para sentir o ar quente que saía ao pronunciá-las.
Automaticamente abri meus olhos, que eu antes tinha involuntariamente fechado. “Já está em dia”, foi a primeira coisa que pensei ao ver aqueles olhos tão azuis tão próximos de mim, passada a surpresa inicial, identifiquei o dono daquele par, o rosto anguloso com um sorriso presunçoso, Yerik.
Senti pingos de chuvas caírem sobre a gente.
— Saia de cima de mim! – Protestei, limpando o rosto que se molhava.
— Se perceber, verá que não estou em cima de você. – Respondeu, mantendo o mesmo sorriso presunçoso.
Ele estava certo, quando olhei para o lado pude perceber que estava agachado muito próximo da minha cabeça. Vestia uma fantasia de borracha verde, uma roupa de surfista que lhe deixava todo o tronco desnudo, percebi que ele tinha uma musculatura levemente proeminente, principalmente nos ombros, provavelmente por ser atleta de natação.
— Então, afaste-se. – Empurrei-o, despreciando, acabou caindo sentado na grama.
Levantei-me, batendo as mãos pelo meu corpo para tirar qualquer possível sujeira acumulada e sentindo a chuva aumentar.
— Continua sendo mal educado, cadê a hospitalidade local? – Ele estendeu uma mão, como um pedido de ajuda para se levantar.
— Só existe hospitalidade quando a pessoa é bem-vinda. – Falei, ignorando seu pedido mudo.
— Me derruba e nem me ajuda a levantar. – Falou, levantando-se sorrindo, divertia-se com toda aquela situação. – Quem te falou que não sou bem-vindo?
— Não por mim. – Encarei-o com descaso, a chuva aumentava.
— Como se isso me deixasse triste, “Bleika”.
— A pronuncia é Blake. Se você vai vir para o meu país, que saiba pelo menos a pronúncia das palavras.
Corrigir o meu nome, pareceu diverti-lo ainda mais, seus caninos pressionaram ainda mais os lábios conforme o sorriso aumentava.
— Claro... “Bleika”. – Percebi que errava a pronuncia de propósito, para me irritar.
Urrei e comecei a caminhar em direção ao ginásio, sem muitas opções pois a chuva aumentava cada vez mais.
— Por que tem raiva de mim, “Bleika”? – Ele estava seguindo-me, nada poderia ficar melhor, era tão irritante. Não lhe respondi. – Estamos voltando para o ginásio? – Perguntou.
— Eu estou voltando sozinho, já você não tenho a menor ideia e interesse de saber o que está fazendo.
— Saia um pouco da defensiva, Blake. – Ele me deu um soco de companheiro no ombro.
— Olha, aprendeu a falar o meu nome. – Falei irônico.
— Se me tratar bem, talvez.
Revirei os olhos, desejando chegar logo no ginásio, só ele me atormentando para eu querer desejar voltar. A cada passo, eu ficava mais irritado.
— Agindo assim, me faz acreditar até que gosta de mim. – Agia como um encosto. – Falando em gostar, cadê a sua irmã? — Parei de andar abruptamente, ocasionando nossa colisão, ele tinha tocado em um ponto muito delicado. – Não pare desse jeito, quase que eu tropeço em você. – Resmungou. Fiquei parado em silêncio. – Por que parou? – Saiu de trás de mim e encarou-me de frente
— Não se aproxime da minha irmã. – Soei o mais rude possível, desviando dele e voltando a andar.
— Vai me impedir, “Bleika”? – Divertia-se com a minha irritação.
— Se possível, sim.
Ele riu, acelerando os passos, ultrapassando-me.
— Me impeça, então. – Parou de andar, parando na minha frente e abrindo os braços como um convite para eu avançar.
Empurrei-o para o lado e continuei andando, finalmente aproximávamos do ginásio.
— Quantos você anos tem? – O critiquei por achar que eu iria brigar, fisicamente, mesmo se eu quisesse apanharia feio, pois era evidente a sua superioridade de força perante eu.
— Me diga aonde ela está? – Pela primeira vez soou mais sério.
— Vamos esclarecer as coisa, Yerik. Eu não gosto de você e infelizmente teremos que dividir a mesma porcaria de escola, então, faça a mesma coisa que eu estou tentando fazer: evitá-lo. Quando não gostamos de alguém, fazemos o máximo para não ter contato.
— Exato, mas quando gostamos tentamos ao máximo ficarmos por perto.
— O que quer dizer com isso?
— Cadê a sua irmã? – Ignorou-me.
Minha paciência havia acabado, em um acesso de raiva, vomitei palavras sobre ele:
— Transando com o namorado dela pelos terrenos da escola. – Fiz um gesto amplo para toda a área. — Faça um favor a si mesmo e procure outra garota – Dito isso, entrei no ginásio sem ao menos esperar por uma resposta.
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