Tempestuoso
5 O Hospede
Notas iniciais
Naquela noite não tive sonhos ou pesadelos. A minha consciência apenas devaneou pelo limbo escuro até ser despertada pelos sons naturais, que invadiam o quarto pela janela aberta, esquecida de ser fechada na noite anterior. A fraca luz do alvorecer preenchia o ambiente, deveria ser muito cedo. Já me sentia saciado de descanso apesar das poucas horas dormidas.
Por um reflexo de costume tateei em minha cabeceira, procurando por meus óculos e os coloquei. Pouco a pouco a minha mente ia se clareando e os acontecimentos da noite de ontem vinha em minha recordação. Não consegui decidir se tinha sido uma noite de bons ou ruins proveitos, cheguei somente a unanime conclusão de que havia sido uma noite de grandes acontecimentos.
O hospede do quarto em frente, tomou minha mente. Ia me levantar para espia-lo, porém ao tomar o impulso de levantar da cama toquei no meu notebook, me lembrando de Mick. Instantaneamente liguei o aparelho, a nossa costumeira rede social de conversa já estava aberta com uma mensagem nova, ainda não lida, datada do início da noite anterior.
Mick:
Por mais mentiroso que pareça, eu ainda não sei o nome da escola que estudarei, mesmo indo em uma festa nela. Sei que soara estranho, acho que pode até ficar com raiva, mas consegui convencer minha mãe em me deixar escolher a fantasia. Como supus que sua irmã seria a responsável pela escolha de sua fantasia e que também seria numa temática mais apreciada por ela, escolhi a minha com algo relacionado ao mar. Desculpa se soar desrespeitoso contigo.
Espero que leia a mensagem a tempo da festa, para que no caso da mesma, possa ir até o garoto aquático conhecer o seu amigo à distância finalmente.
Até mais tarde.
Sorri em pensar que meu amigo tinha tão boa percepção para supor meu comportamento, ele conhecia-me bem. Aparentemente nem se quer tinha lido minha última mensagem na qual dizia sobre a fantasia. Uma pontada de culpa surgiu-me a mente ao lembrar que nem a possibilidade de encontra-lo havia me passado.
Blake McCarthy:
Não fiquei ofendido não, mas que tema horrível, hein!
Supôs certo sobre minha fantasia, porém o teatro dos anos 20 e 30 são mais atrativos para Vick. Deveria ter lido minha última mensagem, nela falava sobre a fantasia.
Como pode ver, só li essa mensagem agora e nem lembrei de ti lá. Teve alguns problemas com Vick, lhe explicarei melhor mais tarde quando estivermos online ao mesmo tempo.
Era segunda-feira, nossa empregada Emily trabalharia normalmente, mesmo sendo dispensada nos finais de semana, ela insistia em trabalhar nesses dias como fora feito ontem, mas isso não me impedia de arrumar o quarto. Depois de realizar as higienes matutinas, arrumei minha cama, mesmo sabendo que Emy depois a refaria. Coloquei a fantasia no seu devido lugar, no cesto de roupas sujas no banheiro, e saí do quarto.
A porta do quarto a frente trouxe novamente a recordação do visitante, uma curiosidade me tomou. Meticulosamente e silenciosamente abri a porta do quarto.
Yerik estava deitado de bruços à mim, com seu corpo desnudo coberto apenas por um fino lençol branco que lhe marcava o corpo suado e cobria somente as pernas. Ao contrário de mim tinha fechado a janela, deixando o ambiente abafado e escuro, pois também havia passado as cortinas de coloração pastel e essas bloqueavam parcialmente a luz da alvorada.
Sua tonalidade possuía um bronzeado considerável comparado com a minha e mínimo comparado com o de Vick. A musculatura das costas era marcada e desenvolvida, supostamente devido à natação, bonita a ser olha. Por ela escorreu uma gota de suor que caiu no colchão, sendo absorvida.
Com um movimento lento pelo sono ele se mexeu, me assustando, e com um movimento antagônico, eu fechei a porta, ainda que silenciosamente e rapidamente desci até a cozinha. Na cozinha a senhorinha com aspecto de uva passa e com fragrância de canela preparava o café da manhã, o aroma era delicioso.
– Bom dia, Emy! – A abracei por trás e seus cabelos brancos parecidos com algodão doce rocaram no queixo. Ela conseguia ser mais baixa que eu, um fato raro.
– Bom dia, meu menino. – Ela fez um carinho em minhas mãos que a cercavam.
Soltei-a e lhe dei um beijo na sua bochecha.
–Acordou cedo para quem voltou tarde de uma festa!
Sentei-me na mesa da cozinha observando-a cozinhar, ato repetido ao longos dos anos.
– Perdi o sonho. Estava acordada quando voltei?
– Sim. Quem seria o nosso convidado de honra no quarto de hospedes? – ela perguntou.
– Quem você diz? – me fiz de ingênuo, só por implicância.
Ela me encarou pela primeira vez naquele dia, antes mantinha a atenção no que fazia com aqueles olhos castanhos achocolatados, tão acolhedores e pregados de rugas, mas naquele momento nem tão carinhosos
– Não se faça de desentendido, mocinho. Eu digo sobre aquele menino que te ajudou a trazer a Vick ontem de noite.
– Bem, ele é um amigo. E Emy não fique acordada até tarde por mim. – Desviei o assunto.
– Não consigo dormir sem ter o meu amadinho no ninho. – Falou fazendo um gracejo em minha face e me sujando com um pó branco. O provei, era açúcar refinado de confeiteiro.
Só então percebi os utensílios sujos com farinha e outros ingredientes na pia, o forno emitindo calor e os cheiro maravilhoso do que era assado.
– O que está fazendo de especial? – Lhe perguntei já com água na boca.
– Donuts e cookies. Na realidade só cookies agora, os donuts já estão prontos.
– Por que isso? Tem alguma ocasião especial hoje?
– Seu pai me pediu os donuts e os cookies são para o nosso hospede.
– Mas meu pai vai trabalhar cedo nos dias de semana, ainda mais com o caso que tem em mãos.
Olhei no relógio redondo preso na parede, marcava 06:30 e meu pai saía ás 06:00.
– Acho que está errado. – Comentou.
Com zelo, arrumou a cesta de pães e a exclusiva de donuts, as colocando junto com o bule de porcelana de café me cima de uma bandeja de prata ilustríssima. Caminhou até a sala de jantar, eu a acompanhei e levei um susto ao deparar com meu pai sentado à mesa.
– Bom dia. – Falou em tom grave, assustandome novamente, assim que me viu atrás de Emy.
– Bo-bom dia. – gaguejei.
– Parece assustado, está me escondendo alguma coisa? – ele me analisou com os seus gélidos olhos azuis.
– Não é nada, Emy só estava me perguntando sobre o meu amigo que dormiu aqui em casa. – Falei sentando ao seu lado á direito da mesa, dando ênfase no “meu”.
– Quem é? – Ele parecia interessado.
Pegou um donut açucarado e deu uma mordida enquanto Emy lhe servia o café.
– Yerik, está no mesmo ano que eu. É estrangeiro. – Completei.
– E por que dormiu aqui? – Seu tom era acusatório, o mesmo tom que usava quando perguntava para uma testemunha contraria ao seu cliente no julgamento dos seus casos. Já havia assistido a um e, por isso, sabia de tal fato.
– Ele acabou perdendo a carona na hora de ir embora. – Menti.
– E você convidou o garoto que acabou de conhecer para dormir aqui?
– Sim, mas...
– Não tinha nenhum celular? Duvido. Todos jovens da sua idade tem um, incluindo você. Por que ele não ligou para casa ou já que é seu amigo, poderia emprestar seu celular ou pedir para Vick levá-lo? – Perguntou, tomando um gole do café preto.
– Ele acabou o perdendo na festa. E como falei, por ser estrangeiro não está familiarizado com tudo, não se recordava muito bem o caminho de casa, nem sabia o telefone de cor, tinha salvado-o no próprio aparelho. Além do mais, se tentássemos leva-lo acabaríamos nos perdendo no meio da noite, queria isso? – Continuei mentindo.
– Está certo nisso. Ele e sua irmã têm alguma coisa? – Em nenhum instante se quer desviou o olhar dos meus olhos.
– Não! Eu não deixaria. – Me exaltei com a ideia, mesmo que aquilo já estivesse quase se encaminhando a realidade.
– Acho bom. – Ele me deu uma piscadela e sorriu.
– Quando acordar livre-se dele, não quero estranhos em casa.
– Pode deixar. – Concordei.
Não demorou muito e meu pai já partia.
– Vou chegar tarde hoje, Emy. Por favor, sirva o jantar no horário normalmente. – Falou se afastando.
– Claro Sr. Richard, mas não esqueça sua mala. – Gritou da cozinha.
Ele sorriu e correu em sua direção, na volta fez um afago na minha cabeça, roubou mais um donut e retornou para cozinha, por onde tinha acesso mais rápido a garagem.
– Por que acobertou a sua irmã? – Ela me perguntou, trazendo me uma xicara de chocolate quente, nem tão quente, já que o clima estava um pouco cálido mesmo sendo de manhã.
Emy ficava abismada com minha facilidade para mentir quando se tratava em acobertar minha irmã e estava certa. Só conseguia mentir bem sobre isso, quando eram outros tópicos a farsa ficava óbvia.
– Porque é a coisa certa a se fazer, um irmão acoberta o outro. – Tomei um gole do liquido, estava na temperatura ideal.
– Ela não faria isso por você. – Me desaprovou.
– Aonde quer chegar?
– Só estou querendo dizer que suas ações para com ela não são igualitárias. Você faz muito para receber pouco. Dos anos que os crio e já observo isso. Preserve-se mais, ás vezes o melhor é sermos egoístas e pensarmos mais em nós mesmos. – Sua fala não soava crítica, estava mais para um conselho de avó.
– Emy, eu te amo do fundo do meu coração e me arrependo se parecer rude o que direi, mas por favor, não se envolva em minha relação com Vick.
Emily fez uma expressão desgostosa, aquela que fazemos ao sermos contrariados. Fez menção de falar, mas se calou mesmo com a boca entreaberta, o som não saiu. Se manteve a me observar desjejuar, sentada ao meu lado.
– Obrigado. – Lhe agradeci ao terminar de comer, pegando os utensílios sujos e os levando até a pia da cozinha.
– Não por isso. – Havia me acompanhado até lá. – Mas pense naquilo que te falei.
Eu acenei positivamente com a cabeça e subi para o meu quarto. Ela nem precisaria ter pedido aquilo, esse pensamento já tomava-me a mente desde a festa e, de certa forma, já o tinha posto em pratica quando decidi entrar no clube do coral, contrariando Vick.
Uma vontade me tomou ao passar pelo batente, esta não sentida muito nos últimos meses: a de escrever em minha caderneta, uma espécie de diário diferenciado, herança de minha mãe.
O seu funcionamento era o seguinte, marcava-se a data do dia em questão e escrevia-se palavras ou nomes chaves no momento, classificando-os como sendo algo ruim ou bom. Lembro-me quase que perfeitamente do dia em que minha mãe me presenteou com a primeira caderneta, fora no meu aniversário de cinco anos, o primeiro aniversario alfabetizado e o ultimo com ela, poucos dias antes de sua morte.
Estávamos deitados em minha cama, ela me punha para dormir após um dia divertido.
– Tenho mais um presente a lhe entregar. – Falou enquanto me aninhava.
Era verão e o clima estava quente, eu só era coberto por um fino lençol enquanto ela não se mantinha.
– Quando eu era mais nova, ou melhor, quando eu era menina e no meu primeiro aniversário alfabetizada minha mãe, sua avó, me entregou isso. – Se aprumou na cama, sentando-se e retirando duas cadernetas, uma rosa claro e outra azul, de sua calça de algodão amarela suave e me entregando ambos.
– O que é isso, mamãe? – Lhe perguntei interessado, sonolento e revirando os objetos em minhas mãos.
– Um diário diferenciado. Sua irmã tem um igual, lhe presentei quando aprendeu a ler.
– Por que isso? – estava despertando minha curiosidade.
– Porque nelas é possível escrever sobre tudo, além disso é uma tradição de família.
– Para que escrever? E o que é tradição de família?
– Uma tradição de família ou tradição familiar é uma coisa que passamos para os nossos filhos, mas que antes foi nos passada por nossos pais. Escrever é muito bom, meu filho. Você pode usar a escrita para quase tudo. Eu particularmente uso para colocar pensamentos confusos em ordem, mas você verá e decidirá qual é a melhor definição para esse ato.
Apesar de pouco ter entendido daquelas palavras, acenei positivamente com a cabeça afirmando um falso entendimento.
– Sobre o que você escreve, mamãe? – Foi a primeira coisa que pensei.
Ela ficou pensativa.
– Sobre tudo. Mas principalmente sobre o que amo. – Ela me abraçou, tive a certeza de que eu era presente em sua escrita.
– Mamãe, eu ainda não sei escrever direito.
– Eu sei, mas pode colocar uma palavra que signifique o que sente no momento e pode a classificar como algo agradável ou ruim.
– Como assim?
– Veja. – Ela pegou a caderneta rosa claro de minhas mãos e a foleou. – Esta foi exatamente a minha primeira caderneta e aqui estão.
As folhas da cadernetas eram amareladas nas bordas pelo tempo. Havia uma lista de coisas escritas, como: mamãe, papai, bala, mel, remédio e etc, com um “bom” ou “ruim” escrito ao seu lado, a letra era infantil e de forma.
– Entendeu? – Ela me perguntou.
– Acho que sim.
– Então por que não começamos?
– Tá, mas a mamãe escreve. – Falei.
– Fala as primeiras coisas que vierem a mente. – Pediu retirando uma caneta vermelha do mesmo bolço que retirou as cadernetas anteriormente.
Fiquei pensativo por um tempo e depois prossegui, me levantando e sentando no processo.
– Papai, mamãe, Vick, bolo, mar, pepino e caderneta.
– Ótimo. – Ela falou anotando cada um dos itens em forma de lista na caderneta azul, tomou a delicadeza de voltar a escrever de forma infantil para parecer como se fosse eu a fazer aquilo – Agora você me diz se é bom ou ruim. Vamos começar com o papai. – Ela me analisava com expectativa com aqueles belos olhos achocalhados.
– Papai é bravo às vezes, mas é bom. – Ela sorriu e anotou.
– Mamãe? – Ela me olhava com atenção sorrindo.
– Muito bom.
– Por um momento pensei que seria ruim. – Sorriu quase marota.
– Jamais, mamãe dá bolo.
Ela soltou uma gargalhada e riu com mais afinco.
– Vick?
– Ela é chata, por isso é ruim.
Continuou rindo, mas calada, sem comentários. Acho que todos pais deveriam ser assim, sempre demonstrarem imparcialidade.
– Bolo?
– Muitíssimo bom. – Voltei a me deitar e a olhar para o teto, naquela época era pintado para parecer um céu cheio de nuvens sendo a fonte de luz o sol, que no caso era a lâmpada.
– Mar?
– Bom também, as ondas dão um sensação diferente no corpo. Parecem que nos fazem flutuar, mesmo a gente não estando no ar. Quando estou no ar sinto estar flutuando na água.
Voltou a gargalhar.
– Também sinto isso meu filho. Agora, pepino?
– Horrível, digo ruim.
– Também odeio pepino. – Comentou ao anotar.
– Então por que cozinha, mamãe?
– Seu pai gosta.
– Papai gosta de coisas estranhas, de Vick e de pepino.
– Ei! – Ela me censurou. – Também gosto muito de sua irmã.
– Eu sei, mas também não gosta de pepino e eu também gosto muito muito de Vick, só que ela é muito muito chata e se souber disso vai implicar comigo, então guarde segredo.
– Quer saber um segredo?
– Sim, mamãe diga.
– Ela também gosta muito muito de você.
– Não é verdade.
– É sim.
– Não é.
– É sim, mas não fale nada a ela que lhe contei. – Fez com o dedo indicador o gesto de silencio sobre os lábios.
No outro dia fui ver com Vick se era verdade e ela desmentiu convictamente.
– Vamos mamãe prossiga, estou com sono.
Ela riu.
– Como o meu menininho é impaciente. – Comentou. – Pois bem, esse é o último e o acho o mais importante depois de “mamãe” é claro, caderneta. – Me olhava desconfiada com um sobrancelha arqueada.
Fiquei pensativo, situação muito repetida naquele dia e lhe respondi.
– Bom, eu acho.
O dia seguinte fora o aniversário de Vick, o dia da princesinha. Fui feito de boneca por ela. Tanta coisa aconteceu naquele dia que me esqueci de escrever. No final de semana seguinte aconteceu o acidente e só pude escrever novamente, ou o certo, escrevi pela primeira vez uma semana após ter sido liberado do hospital e estabilizado em casa. Descobri por eu mesmo um significado e sentimento para o ato de escrever, como ela mesma queria que eu descobrisse. Ele era meu anestésico para a dor de sua perda e dos sofrimentos acometidos pelas consequências de toda situação vivida.
No quarto, levantei o colchão de minha cama e peguei a caderneta, agora marrom couro, a azul já havia sido toda preenchida. O esconderijo também tinha sido sugestão de minha mãe, que garantira na época que o de Vick era diferente do meu, para assim nunca descobrirmos um do outro, coisa que eu jamais tentei fazer com o dela.
Escrevi o que me tomava a mente no momento com maior significado.
Mick – Bom
Nos últimos anos meu amigo virtual tinha tomado sempre o primeiro lugar na lista, no início o classificava como uma incógnita, mas conseguira minha confiança apesar dos pesares e de sua identidade secreta.
Coral – Bom
Esse poderia até ter colocado com uma incógnita, o sinal de interrogação, porém o momento de apresentação havia sido de tamanha satisfação, que seria errado o classifica-lo diferente.
Festa escolar – Ruim
A festa não me agradara em nada, somente em ter conhecido tantas pessoas legais e ter entrado no coro, acontecimento que poderia ter sido acarretado naturalmente em aula.
Camille – Ruim
A loira batera em minha irmã, por código de irmãos seria ruim no momento, no fundo sabia que a sua classificação mudaria com o tento, porém seu olhar mesmo que tirando toda rixa possuía certo veneno, não mortífero, no entanto danoso.
Marc – Ruim
Neste coloquei ênfase no ruim, quase tudo de ruim ontem havia sido provocado por ele.
Vick –?
A incógnita da caderneta sempre seria ela, tendo sempre forte probabilidade para pender para os dois lados. Um novo concorrente estava por vir e roubar o seu status de inclassificável.
Beth – Bom
A mística da festa foi a melhor coisa que conheci, queria muito a sua amizade e conselhos.
Yerik –
Ia classificar este quando escutei a porta bater, caminhei até ela e a abri.
– Bom dia. – O próprio me esperava lá, com um olhar de sono.
– Olá. – Falei.
– Desculpe incomodar, mas eu poderia tomar um banho antes de meu rumo? – Sorriu, os caninos salientes pressionavam levemente os lábios, os deixando vermelho.
Pisquei várias vezes até entender aquela pergunta de resposta óbvia.
– Ca-claro que pode. – Lhe respondi gago.
Reparei em seu corpo, os ombros possuíam sardas acastanhadas, no abdômen sutilmente definido havia uma pequena fileira de fios castanhos, que seguia adentro de onde a roupa de borracha verde cobria.
– E você teria uma toalha e uma escova de dente a mais, se não fosse muito incomodo?
– Tem tudo isso no quarto de hospedes, eu lhe mostro. – Passei por ele, entrando no quarto.
A janela desta vez estava bem aberta deixando as lufadas de vento sulista fresco adentrarem no ambiente iluminado, não mais pela alvorada, mas por um sol proeminentemente quente de manhã veraneia. O quarto era de um suave e bonito amarelinho com assoalho escuro. A cama estava completa por se fazer, o censurei mentalmente por ainda não tê-la arrumado quando me chamou. Caminhei até a velha cômoda de nogueira, abrindo a última e rangedora gaveta, pegando a toalha mais felpuda por lá e a cheirando para constatar o não cheiro de tempo.
– Tome. – Lhe entreguei a toalha.
– Obrigado. – Agradeceu.
– Noite quente. – Comentei por educação enquanto caminhava até o banheiro, o clima estava estranho.
– Como é? – Perguntou-me acompanhando.
– A noite estava muito quente, vejo que está suado.
– Sim, estava muito quente.
O banheiro de hospedes era o menor da casa, sendo decorado todo branco. A cerâmica branquíssima era quase refletiva, o Box todo feito de vidro translucido era outro detalhe a parte. Agachei-me para ficar na mesma altura do pequeno armário de supor para pia do banheiro e dispensa para os produtos de higiene pessoal.
– Você já viu seu pai? – Me perguntou, pude pressenti-lo próximo.
– Sim. Por quê? – Perguntei procurando no armário todos objetos necessários para sua higienização.
– E o que ele falou?
– Falou para eu te expulsar o mais rápido possível. – Escutei uma risada. – Pode já ir ligando o chuveiro para verificar o funcionamento.
Ele assim o fez.
– Não costuma receber muitas visitas, “Bleika”. – afirmou.
– Não tenho muitos amigos e meu pai não gosta de visitas.
Escutei novamente sua risada, desta vez acompanhada com o som de algo sendo jogado no chão, estranhei, porém continuei a procura até ter tudo em mãos.
– Não ria, é exatamente o que ele diz e aqui está... – falei-me, virando e carregando tudo quando fiquei perplexo e perdi toda a fala.
Completamente à-vontade, ele já despido banhava-se no chuveiro. Por reflexo fechei os olhos com força, em tempo de evitar olhar para suas intimidades. Totalmente constrangido, nem o sol do dia mais quente do verão africano provocaria tal vermelhidão em minha face, como a que estava naquele momento. Deixei os itens caírem dos meus braços e pelo som distingui o seu espalhamento pelo piso
– Aqui está? – Ele me perguntou sínico, ria da minha confusão.
– O que, o que... vai precisa... pro ba-banho. – Gaguejei, forçando ainda mais os olhos. – Que no caso, já está tomando. – Sussurrei rápida a última parte.
– Por que está de olhos fechados? – Ele perguntou, percebi que sua voz estava carregada de escárnio derradeiro.
– Não quero te ver. – Falei tateando as cegas pelo chão, a procura de tudo que eu havia deixado cair.
– Do que tem medo? Daqui menos de uma semana estará dividindo o quarto com outro garoto, não tem porque se envergonhar. Tudo o que tem, eu tenho, o único diferencial pode estar na qualidade. – O escárnio era nítido.
Grunhi, ao tatear de joelhos pelo banheiro recolhendo os itens. Ao achar o que eu considerei ser o último, ás cegas me guiei até o Box, os estendendo para que Yerik os pegasse. Senti os respingos d’agua do chuveiro respingar -me.
– To-tome. – Balbuciei nervoso.
– Não se acanhe está em casa. – Senti ele me puxar para dentro do Box.
– Não! – Gritei, o empurrando ainda com os olhos fechados.
Senti a água fria molhar os meus braços, desesperei-me.
– Vamos, abra o olho. – Ele deveria estar sorrindo, acha a situação cômica.
– Não! Deixe-me ir, não gosto dessas brincadeiras. – Me debatia desesperado.
– Só depois que você abrir os olhos.
Imediatamente abri-os.
– PRONTO PODE ME SOLTAR. – Mantive o olhar alto.
Sua força sobressaía a minha. Meu desespero era tanto que a força que usava para me prender machucava-me.
– SOCORRO! – Gritei.
– Pare de escândalos, Blake! – Sussurrou. – Seu pai vai nos ouvir.
– Ele já foi embora! POR FAVOR ME SOLTA! – Continuei gritando, já estava chorando.
– Pare de gritar! – Ele falou nos meus ouvidos.
Arrepiei-me.
– O que está acontecendo? – Era a voz da Emily, olhei-a fixamente.
Ela nos encarava perplexa.
– Blake estava me ajudando no banho. – Ele falou sorrindo.
Encarei-o nos olhos, minha expressão deveria transparecer pânico porque assim que a viu me soltou instantaneamente. Solto, corri e abracei Emy, minha respiração era descompensada.
– Ele estava brincando comigo, Emy. – Lhe esclareci, ainda a abraçando muito forte.
Ela me olhou com uma expressão séria, depois para ele.
– Arrume-se, tome café, ligue para sua mãe e vá embora. – Se dirigiu a Yerik, a fala era como a sua expressão.
Ela me guiou até o outro quarto, onde me secou por completo. Me pediu calma em alguns momentos, pois estava chorando e tremendo. Ajudou me a vestir e enxugou minhas lagrimas.
– Meu menino. – Passou a mão em minha bochecha molhada. – Sinto muito por ter acontecido.
Eu estava com a cabeça deitada no seu colo, enquanto ela se sentava em minha cama.
– Não foi sua culpa. – Lamuriei.
– Pode me e dizer exatamente o que aconteceu lá no banheiro? – Me perguntou com ternura.
Lhe contei tudo detalhadamente, por que esconderia lhe alguma coisa? Entre nós não havíamos segredo.
– Fique longe desse menino. – Foi seu primeiro comentário, em todo o relato se manteve calada.
– Ele também não sabia da minha aversão a água. – Tentei defende-lo, porque com pessoas normais aquelas brincadeiras deveriam ser normais, o problema era eu.
– Por que ele fez isso?
– Não sei, acho que quis brincar comigo.
– Isso não é uma brincadeira muito comum...
– Aonde quer chegar, Emy?
– Acho que esse menino pode estar com pretensões além das saudáveis com você.
– O que? — Não entendia o que queria dizer.
– Eles está dando em cima de você, quer ser mais do que seu amigo.
Ri timidamente em imaginar aquela ideia.
– Não, Emy. – Balancei a cabeça negativamente. – Yerik está interessado em Vick, não em mim e nem somos amigos.
– Por que ele dormiu aqui então?
– Vick o fez realmente perder a carona e o celular também, assim como o meu. Ele nos trouxe aqui porque ela estava bêbada. Retribui o favor ao deixa-lo dormir aqui, nada mais do que isso.
– Prefiro que seja só isso mesmo. – Ficou silenciosa. – Seja sincero nessa resposta. – pediu antecedendo a pergunta. – Sente algo diferente em relação a ele?
– Como assim diferente? – Perguntei curioso.
– Simplesmente diferente. – Suspirou.
Fiquei pensativo.
– Acho que só raiva, porque, como já disse, ele dá em cima de Vick. Só isso.
Seu semblante ficou indecifrável.
– Cuide disso e nunca conte para seu pai. – Odiava quando dizia essas palavras, ficava misteriosa, com o tempo percebi que a melhor resposta a tal ato era acenar e concordar, e foi o que fiz. – Ele não gostaria dessas coisas se soubesse. – Completou.
– Por que, Emy?
– Tenho meus motivos... Mas não preciso me preocupar já que você nem ao menos é amigo dele...
– Sim. – Concordei.
– O mantenha longe de Vick também por precaução.
– Pode contar com isso.
– Olha que irmãozinho mais ciumento. – Me vez cocegas.
Fiquei gargalhando até ela parar.
– Tenho que ir adiantar o almoço, leve logo seu “amiguinho” para tomar café, porque já vou tirar a mesa e assim também não fala mal por aí dizendo que deixamos os outros com fome. – Se despediu com um beijo e foi para cozinha.
O som da porta se fechando foi seguido do som de alguém batendo nela. Abri pensando que se tratava de Emily, só que era meu hospede.
– Oi. – Foi o que falou com sorriso sínico.
Lhe fiz cara feia. Ele estava seco, porém ainda coberto pela toalha felpuda.
– O que quer? – Perguntei rude.
Sua expressão mudou, ficou para uma de quando ficamos compassível aos nossos erros.
– Desculpe, pelo que aconteceu no banheiro.
Me mantive impassível.
– Eu sinto muito, foi uma brincadeira sem graça. Não pensei que reagiria dessa forma.
– Pois é, nunca sabemos como o outro pode reagir, por isso, pensamos antes de agir. – Falei firme. – Eu te levo para tomar café antes de descobrirmos um jeito de te mandar embora.
Caminhei para fora no meu quarto passando por ele e foi quando senti segurar meu braço.
– Espere... Tenho que te pedir um último favor.
– Nunca encoste em mim novamente. – O repreendi, primeiro olhando para o meu braço, no qual segurava, depois para seus olhos e com um puxão me soltando.
– Novamente, me desculpe.
– Diga logo de uma vez o que quer.
– Queria uma roupa emprestada, minha fantasia está fedendo e semana que vem te devolveria.
Não lhe respondi, caminhei de volta ao meu quarto indo para a porta do minúsculo ambiente em que guardava minhas coisas.
– Provavelmente tudo o que tenho aqui vai ficar pequeno. – Comentei.
Minhas roupas eram perfeitamente organizadas por mim mesmo, outra vontade de meu pai. A ordem e organização de nossas coisas eram nosso dever, inspecionava com regularidade nossos quartos, meu e de Vick, se houvesse desordem descontava de nossas mesadas.
– Como é organizado... – Falou atrás de mim enquanto eu procurava por uma peça mais larga.
– Tome. – Coloquei em suas mãos e me virando.
– Muito muito obrigado mesmo, mas tá faltando uma peça.
– E qual seria? – Perguntei, me virando.
– Uma cueca. – Falou com uma sobrancelha arqueada desconfiado.
– Use a mesma.
– Não consigo, sou complexado com roupa intima suja.
– Quer mesmo usar uma cueca usada por mim? – O perguntei desconfiado, falando cada palavra pausadamente para que compreendesse cada uma delas.
– Melhor do que nada. – Sorriu sincero, não lhe retribui o sorriso.
Minhas roupas intimas ficavam em uma gaveta na cômoda ao lado da cama, peguei uma cueca qualquer e lhe entreguei. Sem avisos, se virou e deixou a toalha cair, rapidamente me virei grunhindo, mas não em tempo de não ver a sua bunda. Era mais clara que o corpo, ele deveria estar bronzeado. Era a primeira bunda, além da minha, que eu via despida na vida.
– Você tem algum problema? – Perguntei.
– Com o que? – Falou vestindo-se.
– Com nudez. Acabou de me pedir desculpas e está praticamente repetindo a cena no banheiro.
Os sons dele se vestindo cessaram, mas não ousei virar-me.
– Tenho quase certeza que aquela cena foi pela agua não com o fato de eu estar nu. Tem medo de agua? – Perguntou-me ao me tocar.
Virei-me.
– Não diria medo, porém um receio sim. – Encarei-o, estava desconfortavelmente próximo.
– E de ver pessoas nuas?
– O que?
– Também tem receio? – Ele também encarava-me.
– Não, nunca vi pessoas nuas porque teria receio? – Seus olhos eram muito bonitos, contudo irritantes.
– Então por que tanta aversão em ver uma? Daqui uma semana conviverá com outra pessoa em um dormitório e ocasionalmente a verá nua.
– Só não tenho a necessidade e nem quero ter em ver uma, assim como não quero que me vejam. E no dormitório já tenho uma solução.
– Qual seria? – Mordeu o lábio inferior com os caninos superiores.
– Combinação de horários, evitaria esses desconfortos.
– E se ele não quiser.
– Vou tentar ser bem persuasivo.
– Posso ser seu companheiro de quarto, não concordaria com isso.
– Tenho fé em Deus que ele não me acometera com tal penitencia. — Apontei para o céu.
– Ainda sim existe a possibilidade...
– Remota. – Intervi.
– Seus olhos são bonitos, “Bleika”. – Por essa não esperava.
– Os seus também são Yerik. – Falei por reflexo.
Ele se aproximou mais, a distância estava extremamente desconfortável. Olhei para baixo, olhando minhas roupas nele.
– Vejo que minhas roupas não ficaram tão apertadas. – Comentei levantando a cabeça, que bateu no seu nariz.
Ele se afastou colocando a mão no nariz, devia ter doido, minha própria cabeça doía aonde havia acontecido o contato.
– Me desculpe. – Falei, o guiando para minha cama.
Yerik colocava a mão no nariz, que por sorte não sangrava.
– Quer que eu pegue gelo? – O olhava preocupado.
Balançou a cabeça negativamente.
– Não, não precisa. – A voz estava nasalada.
– Você está bem? – Tentei ver seu nariz.
– Não, digo sim. – Ele me desviava.
– Por favor. – Ordenei com calma. – Deixe me ver...
Toquei no pulso da mão que tapava o nariz e a puxei para que liberasse a visão. Seu nariz não parecia danificado, apenas vermelho.
– Viu... Só está vermelho – Falou ainda fanho.
– Venha pegar um pouco de gelo e aproveite e tome café. – O puxei pelo pulso que segurava, não demonstrou resistência.
Nas escadas soltei o seu pulso e sua mão automaticamente voltou para o nariz. Droga, eu era muito desastrado, mas ele também tinha que estar tão próximo? O que estava pensando, ou melhor, o que fazia tão próximo de mim? Será que...? Não, ele não estava indo me beijar, impressão errada. Deus me livre, pensei.
– Só para confirmar o que falou, as roupas ficaram boas mesmo. Te devolvo na escola, só a cueca que ficou um pouco apertada.
– Não precisa devolver a cueca não. – Comentei baixo, porém o suficiente para que escutasse. Ele riu.
– Emy, por favor me vê um pouco de gelo. – Falei ao passar pelo batente da porta da cozinha.
– Sim meu querido, mas seria para o quê? – Falou de costas a mim, estava entretida com o fogão nos preparativos da comida para o almoço.
– Machuquei o nariz dele. – Indiquei para Yerik, parado atrás de mim ainda com a mão no nariz.
Quando Emily virou sua primeira expressão foi de simpatia, a expressão costumeira ao me ver, porém ela mudou drasticamente para uma de desagrado quando viu meu hospede.
– Claro. – Falou seca. – Mas antes de o café para seu hospede na sala de jantar enquanto faço a compressa de gelo.
– Acompanhe-me. – o chamei ao mesmo tempo em que Vick ditava ordens para Emy.
– Emily me dê um café preto bem forte! – Passou por mim com encontrão.
– Bom dia pra você também, Victoire. – Emy a repreendeu.
– Que seja, quero café.
Vick estava acabada, os cabelos antes parecidos com cascatas de ouro com diamantes, agora estavam mais para um ninho de passarinhos bagunceiros. A maquiagem borrava a face, assim como os reflexos da briga, o rosto inchado e arranhado. Ela se sentou em uma pequena mesa que havia ali.
– A festa foi boa hein. – comentou Yerik.
Ela olhou para ele e ficou um pouco refletiva.
– Eu transei com você? – Foi a primeira perola que conseguiu dizer.
– Não. – Falou bem fanhoso.
– Então o que faz em minha casa?
– Lembra-se jogou o celular dele no outro lado da avenida na escola. – Lhe respondi antecipadamente.
Ficou pensativa, olhando para o teto.
– Ahhh! – Exclamou, deveria ter se lembrado. – É verdade, me desculpe. Estava muito louca ontem.
– Como assim você ficou louca ontem? Esqueceu que tinha que dirigir para o seu irmão. – Emy estava tão indignada, que quando serviu o café derrubou mais da metade do conteúdo em cima da mesa.
Vick bufou.
– Olha a sujeira.
– Olha você a sujeira que faz mocinha, como ele poderia voltar?
– É melhor irmos. Isso não vai acabar bem. – Sussurrei para Yerik.
– Sim. Até mais Vick! – Gritou ao guia-lo.
– Até! – Gritou Vick.
– Já levo o gelo! – Gritou também Emy. As duas ainda se prolongaram discutindo.
A mesa de jantar ainda estava desposta do jeito que eu a deixei ao partir, só que agora suprida por cookies ligeiramente mornos, mas ainda assim deliciosos.
– Ela os fez para você. – Indiquei aos cookies ao sentarmos.
– É sempre assim de manhã? – Perguntou não se servindo.
– Só quando temos situações atípicas. – O observei, continuava a colocar a mão no nariz e a ficar parado, senti culpa pelo incidente – Quer que eu te sirva? – Propus.
Ele concordou com um aceno.
– Só dizer o que quer...
Foi me orientando no que queria, por sorte e surpresa não foi abusivo nas ordens e pedidos. Comeu mais do seu cookie, até eu provei um, por insistência dele, pois não queria comer mais.
– Delicioso. – Ele comentou para Emily quando ela lhe trouxe a compressa de gelo, conseguindo até lhe tirar um meio sorriso, elogiar sua culinária era a melhor maneira de agradá-la.
– Obrigada. – Apesar da sua aversão inicial, Emy ainda presava pela boa educação e cortesia.
Rapidamente retirou a mesa, apenas nos deixando só.
– Quer que segure para você? – Me ofereci, a culpa me consumia.
Ele estendeu a compressa para mim. A peguei, me levantei e coloquei-a no seu nariz, mais vermelho do que antes. Com uma mão segurava o gelo e com a outra apoiava sua cabeça, sentindo o seu cabelo macio que depois deixaria uma fragrância maravilhosa de rosas nela.
– Me desculpe. – Lamentei-me novamente.
– Não, eu que peço desculpa, pelo incidente no banheiro. Não pensei que te afetaria tanto.
– Foi sem intenção, não foi? – Perguntei. – Não tinha como saber de minha aversão.
– Sim...
– Além do mais descontei com o seu nariz. — Ri.
– Pode ser. – Ele também riu.
– Se não acha suficiente, pode parar de dar em cima de Vick. – Sugeri.
– Não conte com isso. – Tirei a compressa do seu rosto e coloquei na sua mão a força.
– Como queira. – Falei.
Ele voltou a rir e colocou a compressa no rosto, fiquei a observa-lo.
...
– Podemos tentar ligar para minha avó, pelo tempo que mora aqui e que a outra vovó aparenta, devem se conhecer. – Se referia a Emily, falou após todo o gelo da compressa descongelar. Ao retira-la do nariz constatou que não havia mais vermelhidão de choque. Senti-me aliviado.
– Isso teremos que checar.
Voltamos para cozinha, onde Emy se encontrava na mesma posição de antes. Vick já devia ter voltado para quarto, pois não estava mais lá.
– Emy! – A chamei, desta vez não se surpreendeu com a presença de Yerik.
– Pode nos ajudar a contatar a avó do Yerik?
– E quem seria a senhora? – Experimentou o conteúdo de uma das panelas no fogo.
– Agatha Mason, senhora. E obrigado pela compressa. – Agradeceu Yerik a lhe entregando o objeto.
– Ah! Sim a Mason, essa mora longe no extremo sul. Como dizem a Mason se esconde. Então você é filho da fugida Agnes?
– Minha mãe não fugiu. – Ele se sentiu insultado.
– Sim, ela só fez uma saída estratégica com um búlgaro ortodoxo. Foi um escândalo na época, sua avó é uma grande devota de Nossa Santa Agnes, nossa padroeira tendo a filha fugida com um ortodoxo.
– Meu pai não era ortodoxo e nem minha mãe se tornou uma.
– Menos mal, por isso e influência de sua avó que deve ter conseguido uma vaga no St’Agnes imagino.
– Não, consegui porque sou excepcional em natação. – Se fez pomposo.
Sabia que Emy o estava testando até o limite de proposito, preferi por intervir.
– Emy, sabe o número?
Ela ia falar alguma coisa, mas engoliu pela metade por minha intervenção.
– A memória já não é mais a mesma, não lembro.
– E agora? – Lamentou Yerik.
– A lista telefônica, meu querido. Procure pelo sobrenome de sua avó na lista telefônica, ainda existe essa alternativa no mundo dos celulares, sabiam?
Depois disso contatar a família dele foi fácil. Procuramos primeiro pelo sobrenome e depois pelo nome, ele ligou pelo telefone fixo que eu nem sabia que tinha, a principal fonte de acesso as fofocas por Emily, a conversa foi rápida e agitada com uma constante troca de idiomas indo do inglês para o búlgaro na maior naturalidade. Das partes em minha língua que entendi, ele estava encrencado, a sua avó e mãe estavam muito bravas com seu sumiço desavisado. Aproveitei para subir até meu quarto e buscar o livro que lia e o dinheiro pelo estrago do seu celular, ou melhor, para compra de um modelo novo, porque nem eu e nem ele tínhamos ficado dispostos a procurar no escuro, nossos aparelhos danificados.
– Ela, minha mãe, está vindo. Vai demorar um pouquinho pela distância. – Falou quando retornei.
– Ótimo. Aqui está o dinheiro pelo seu celular. – Lhe entreguei o dinheiro. – Espero que seja o de direito. – Havia retirado da minha reserva pessoal acumulada pela mesada ao longo dos anos, depois me ressarciria com Vick.
– Já quer ver-se livre, não é?
– Não discordo.
– Não se parece mais com o menino que me colocava compressa no nariz. – Ele se aproximava.
– Se ficar me zoando por isso, irá precisar dela de novo. – Ameacei.
– Ambos sabemos que sou mais forte. – Nisso estava certo e chegando próximo de mim novamente, quase ultrapassando a distância do desconfortável.
– Eu tenho mais raiva. – Ele ultrapassou a barreira e seguia para o muito desconfortável.
– Do que tem raiva, “Bleika”? – Desta vez não abaixei a cabeça.
– De “Bleika”. – Lhe respondi sincero. Ambos estávamos na disputa de quem desviava primeiro o olhar ou pisca-se. Venci quando ele se aproximou mais, de forma que sentia sua respiração na minha face e sussurrou no meu ouvido.
– “Bleika”, não sinta raiva do meu apelido, ele é carinhoso. E se o dinheiro não bastar você me paga de outra forma.
Um arrepio vindo da minha orelha pelo qual sussurrara me eriçou todo. Devo ter ficado mais vermelho do que seu nariz quando teve o choque. Não me afastei, foi ele que fez isso.
– Sua irmã compete em campeonatos, estou certo? – Me perguntou como se antes estivéssemos discutindo a probabilidade de chuva dos próximos dias.
– O que? – Perguntei ainda nauseado.
– Perguntei sobre as competições de sua irmã na natação. Ela compete, não é? – Ele possuía um sorriso na face ao me observar, não entendia o porquê dele.
Estávamos na sala, onde ficavam os troféus dela de competição e ele tinha um dos muitos em mãos.
– Sim. – Afirmei.
– Estavam na competição regional em Filadélfia no começo do mês? – O interesse era nítido.
– Sim, eu e meu pai fomos a observar competir. Foi uma das melhores classificação dela. Ficou com bronze em duas modalidades, mas por conta de alguns quesitos técnicos infelizmente não passou para a competição nacional.
– Eu também estava lá, como telespectador, olhando os concorrentes sabe. Por isso que vocês me eram familiares, deveríamos termos nos cruzado por lá.
– Pode ser. – Concordei, deveria ser por isso mesmo, porque ele também era-me familiar. Para falar a verdade ele tinha sido presente no meu último sonho, então deveria ter visto em algum momento em vida.
Sentei-me no sofá, entretendo-me com a leitura de The Great Gastby e ele se manteve a contemplar os prêmios. Aleatoriamente soltava alguns comentários, que eu não consegui distingui-los pela falta de atenção. Ficou assim por dez minutos, quando se irritou.
– É feio ignorar os outros, camarada. – Ele tirou o livro de minhas mãos.
– Ei! – O censurei. – Devolva! ... Espera, camarada?
– Sim, camarada. – Ele sorria, fechara o livro sem pudor, não me importei sabia a página em que estava.
– Está usando referência comigo? – Sorri.
– Pode apostar que sim, camarada.
“Camarada” era uma expressão muito usada pelo personagem homônimo ao título do livro, no cumprimento com o outro protagonista.
– Então agora pode me devolver o livro, camarada. – Ordenei.
Ele fez menção de me devolver, mas assim que fui pega-lo ele o puxou para trás. Marotice.
– Só se prestar atenção no que falo, por favor. – Impôs.
Concordei e arranquei o livro dos seus dedos.
– O que ia dizendo? – Fiz uma expressão bem forçada que pretendia a soar como uma falsa atenção.
– Ia dizendo sobre... – Foi interrompido pelo soar da campainha.
O ignorei e fui atender a porta. Quem tocara fora quem juguei ser a sua mãe. Era uma mulher na casa dos finais dos trinta anos, com as marcas de expressão aparente ao redor dos olhos castanhos comuns. Os cabelos eram da mesma tonalidade da de Yerik.
– Bom dia. – Me cumprimentou. – Mas, aqui é a residência dos McCarthy?
– Sim. – Confirmei – Senhora?
– Stanilau.
– Mãe do Yerik, imagino. Por favor queira entrar. – Lhe dei passagem para que entrasse no pequeno hall.
– Você é Blake, o menino que ajudou o Yerik quando ele perdeu o celular. — ele deveria ter mentido, gentil de sua parte, porque eu com certeza seria xingado em búlgaro caso soubesse a verdade – Obrigada por tê-lo ajudado, como sabe ele é novo aqui não conhece muito da cidade e cultura, não sabe ainda como voltar para casa...
– Não por isso, ele me ajudou com minha irmã que passou mal. – Tomei cuidado com as palavras, não sabia até onde tinha mentido para sua mãe. – Só foi uma troca de favores.
– Mesmo assim, fico agradecida. Cadê ele?
– Tô aqui... – Ele respondeu, tinha vindo até o Hall.
A Sra. Stanilau fez uma expressão brava, abraçou ele e falou muitas coisas em búlgaro em alto tom, repreendia-o. Isso durou por cerca de quinze minutos concluindo em um Yerik cabisbaixo e uma Sra. Stanilau ainda arredia.
– Agradeça seu amigo pela hospitalidade. – Ordenou.
– Obrigado, “Bleika” pela hospitalidade. – Demonstrava constrangimento, mas nos seus olhos notava o divertimento.
– Perdoe Yerik, ele tem problema com a dicção do inglês. É Blake, não “Bleika” Yerik.
– Não tem importância. – Intervi. – Já adotei como apelido mesmo, acho até bonitinho.
– Se assim quer. Muito obrigada novamente por tê-lo hospedado Blake, mande um abraço para velha Emily por mim. – Apertou minha mão se despedindo e seguiu para o carro parado em frente de casa.
– Até mais. – Estiquei minha para me despedir dele.
– Blake vem comigo lá em cima rapidinho pegar a minha fantasia que esqueci no banheiro.
O acompanhei, a fantasia estava colocada em cima da cama, ela a tinha arrumado, de mau jeito, mas arrumado.
– Aqui está, já pode ir. – A lhe entreguei.
– Sim, mas antes queria me despedir e agradecer mais apropriadamente. – Jogou a fantasia no ombro esquerdo e se aproximou, decididamente ele não tinha noção de espaço.
– O que? – fiquei estático e provavelmente vermelho com sua aproximação.
Ele colocou as duas mãos no meu ombro, me trazendo para mais próximo de si. Eu deveria estar me afastando. Se aproximou mais e me puxou para mais perto, por um momento pensei que fosse me beijar tanto que fechei os olhos, no entanto, seus lábios foram de encontro a minha bochecha direita, cedi um pouco a tensão.
Raspando os lábios até o caminho do meu ouvido e sussurrando.
– Obrigado “Bleika”, espero ansioso o início das aulas. – Sorriu se afastando e indo embora.
Toquei aonde havia beijado e corri para o meu quarto, aonde pela janela teria visão da rua. Cheguei em tempo de vê-lo bater a porta do passageiro do carro ainda com o sorriso estampado, e sua mãe partir.
Me joguei em seguida na cama. O que aquele beijo havia significado eu não sabia dizer, mas tinha mexido comigo. Evitei pensar muito nele, estava tentado em aceitar que havia sido bom e de como cedi quando pensei que me beijaria. Pensamentos impuros, julguei ser o diabo me atentando. Optei por ficar rezando o resto do dia, saindo do quarto somente para o almoço, evitando suspeitas. Quando supus ser o suficiente por aquele dia, recebi o som da chegada de uma nova mensagem pelo notebook, o peguei e constatei que era do Mick.
Mick:
Charlie Chaplin? Por essa eu não esperava.
Blake McCarthy:
Sabe pelo o que eu não esperava? Em descobrir esse teu péssimo senso e gosto para homenagens. Poxa, você me conhece não seria difícil ter escolhido outra coisa que me agradasse mais.
Mick:
Desculpe-me, não esperei que levaria tão a sério.
Blake McCarthy:
Não estou levando. Na realidade, achei bonitinho suas tantas deduções. Como foi a sua festa?
Mick:
Agitada e turbulenta. Teve apresentações dos alunos e tudo mais, me senti em um episódio de Glee ou em um filme da Disney. Acabou com uma briga de garotas, depois disso todo mundo saiu correndo.
Ao ler a última mensagem, fiquei muito muito animado, porque a possibilidade de estudarmos na mesma escola estava muito muito grande. Em que mundo todas as festa de iniciação escolares a fantasia acabam em briga de garotas.
Blake McCarthy:
Já sabe o nome da sua escola?
Mick:
O nome é bem feio: Colégio Católico dos Imaculados de Santa Agnes, eu acho que é a mesma que a sua não?
Blake McCarthy:
Sério, não está brincando?
Mick:
Não, é verdade.
Blake McCarthy:
Meu Deus, eu não acredito! Por que não falou de primeira? Ficou curtindo comigo!
Mick:
Sim, estava curtindo com você. Já sabia que estudaríamos juntos desde a festa, quando fez a grande entrada triunfal ao lado da grande conhecida Victoire McCarthy.
Blake McCarthy:
Como assim viu minha chegada com Vick? Nem conhece minha fisionomia.
Mick:
Sua chegada no ginásio não foi nem um pouco discreta. Quando vi os dois perguntei quem eram e me responderam que era a Victoire McCarthy e o irmãozinho calouro.
Blake McCarthy:
Sério, isso? Já sabe quem eu sou e eu nada? O que achou de tudo?
Mick:
Você canta muito bem, para dizer a verdade, o imaginava mais alto e também é bonito. A escola parece interessante, muito receptiva. Acredita que contratou mais uma enfermeira para o meu caso? Mal vejo a hora de passar longos quatros anos lá.
Blake McCarthy:
Você me viu cantando, que vergonha! Foi irônico, não foi? Pra você é difícil, sempre teve uma certa liberdade na escola, agora vai ter que viver em uma.
Mick:
De certa forma sim, mas estou animado sim! Viver longe dos meus pais já é uma mudança drástica, como sabe, eles ficam muito em cima de mim por conta da doença. Vou poder respirar livre.
Blake McCarthy:
Não é justo! Você já me conhece e eu não. Exijo uma foto.
Mick:
Ainda vai me ver. Agora que ficou melhor que podemos ter contato direto, continue o mistério. Não quer me explicar melhor o motivo da confusão final?
Blake McCarthy:
Poderia ter ido falar comigo!
Mick:
Eu poderia ficar te falando mil coisas sobre isso, mas fiquei com vergonha. Não vai me falar sobre a briga?
Blake McCarthy:
Lembra-se dos cantores da primeira apresentação? Um moreno alto e uma loura?
Mick:
Sim, acho que sim. Essa loura era a que estava brigando com a sua irmã?
Blake McCarthy:
A própria, ela e Vick possuem uma rivalidade. O moreno que se chama Marc tem um lance com as duas, acho que escondido, onde todos sabem e ambas se fazem de cegas. Fiz minha irmã flagrar os dois juntos e o resto pode-se deduzir
Mick:
Entendi...
Blake McCarthy:
Posso te contar uma coisa? Mas promete não me julgar nem nada. Já até rezei sobre esses pensamentos e em breve vou ir me confessar com o padre.
Mick:
Nossa se é tão complicado pra tudo isso é melhor me contar mesmo, guardar tanto não é bom.
Blake McCarthy:
Tenho vergonha até.
Mick:
Diga logo Blake.
Blake McCarthy:
Lembra aquele garoto que cantou comigo na apresentação?
Mick:
Sim...
Blake McCarthy:
O nome dele é Yerik. Vick estava louca, jogou longe o celular dele e como é novo e estrangeiro ficou sem contato. Como sabia dirigir, nos trouxe então dormiu aqui. Hoje estava estranho comigo, se aproximando demais em alguns momentos, até me agarrou pelado. Ele sempre se demonstrou interessado em Vick, dava em cima dela na minha frente, já foi muito ignorante por causa disso. Quando foi embora, jurei que ia me beijar e ele beijou, só que a minha bochecha.
Mick:
Você gosta dele desse jeito?
Blake McCarthy:
De que jeito? Eu não gosto dele.
Mick:
Ainda bem, mas tem que deixar claro isso a ele.
Blake McCarthy:
Por que deixaria claro?
Mick:
Ele está dando em cima de você descaradamente.
Blake McCarthy:
Ai Meu Deus! Isso não!
Mick:
Sugiro que fique longe dele se não o quer.
Blake McCarthy:
Se eu não o quero, não existe essa possibilidade. Gays são antinaturais, não estão na bíblia. Invenção do homem acometido junto com o pecado da besta.
Mick:
Não sabia que pensava assim dos gays...
Blake McCarthy:
Mas esse é o pensamento correto, não vou bater em nenhum porque os julgamentos e castigos são destinados a Deus fazer. Porém eu não concordo com eles, acho muito muito errado.
Mick:
Fico triste em saber que pensa assim.
Blake McCarthy:
Por que? Conhece algum.
Mick:
Sim e sou um deles.
Fechei a tela automaticamente a ler aquela última mensagem. Mick parecia ser uma boa pessoa, mas ele ser gay significava mudar alguma coisa? Minha mente estava um caos, muita coisa a se assimilar. Meu melhor amigo era gay e eu estava sendo cortejado por um.
Abri a minha caderneta que havia fica em cima da cama quando peguei o dinheiro do celular, sim também guardava meu dinheiro nela. Em busca de uma ordem para o caos e vi que faltava listar mais um item.
A incógnita foi sua classificação, pois não sabia o que ele significava.
Yerik -?
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