Tempestuoso
6 Internato Católico Sta. Agnes
Notas iniciais
A última semana de férias passou rápida, apesar de não apresentar nenhum acontecimento excepcionalmente especial, acreditei que a velocidade se devia à minha confusão mental. Não conversei mais com Mick mesmo querendo o fazer, e ele não me procurou também, devia estar respeitando o meu tempo para digestão da sua revelação. Era homossexual e seu destino era o inferno, minha religião acreditava nisso e eu também, mesmo que em todos os nossos nos conversando não tenha demonstrado merecedor para tal destino. Refletia se o meu contato com ele me levaria para tal sina comum.
Outros dois fatores relevantes na semana foram o afastamento de Vick e a aproximação de Emy. Vick mal me encarou no período, mantinha-se reclusa no quarto a maior parte do tempo e quando vinha para o convívio comum, ignorava-me. Sua repetitiva resposta para o estranho comportamento comigo era:
— Ações sempre geram consequências, conviva com uma prévia das suas.
Eu e Emy tínhamos nos aproximado ainda mais, com a chegada dos meus últimos dias na Street Mulberry. Nunca havíamos distanciados desde sua chegada a dez anos atrás.
— O que farei sem meu menino? – Lamentava-se esporadicamente durante a realização de suas tarefas domesticas.
Entristecia-me saber que por longos períodos não sentiria seu adorável cheiro de canela todas amanhãs ou que não receberia os seus afagos quando a tristeza me abatesse. Emily, era mais que minha empregada ou babá, era minha avó presente e muitas vezes minha mãe, por isso, a convenci de participar do último jantar na noite de domingo, véspera da partida.
— Como foi a semana de vocês? – Meu pai perguntou após todos estarem acomodados na mesa de jantar e com as comidas nos pratos.
Era a primeira vez desde o último jantar antes da festa de Iniciação que estávamos todos juntos como uma família. Meu pai, ocupado com o trabalho, retornava apenas alguns dias para casa, já muito tarde, para se alimentar comigo ou Vick, não havíamos combinados os horários um dia se quer.
A comida, posta por mim, era mais pomposa do que a habitual, a data pedia. Contra o meu gosto, Emily a tinha feito, mesmo eu insistindo que era errado. Quase apanhei por isso.
— Razoavelmente triste e comum. – Lhe respondi, mas olhando para Emy que me deu um sorriso discreto.
— Monótona. – Falou Vick simplória. O tédio lhe dominava a face combinando com a fala.
— Quero saber de você também, Emily.
— Triste com a expectativa da partida dos meus meninos, Sr. McCarthy. – Falou Emy que até então estava muda.
Sorri para ela. Vick revirou os olhos com desdém.
— Sempre também fico, ainda mais quando os meus dois filhos irão. – Meu pai se esforçou em tentar sorrir, mas o que saiu foi mais para uma careta do que para um sorriso.
Estranhei a sua fala, não lhe era muito comum dizeres emotivos.
— Estão ansiosos para escola? – Ele perguntou com uma garfada a caminho da boca.
— Não, mas será melhor do que aqui. – Vick respondeu deixando a última parte apenas audível a mim que estava ao seu lado. Logo depois voltou sua atenção para comida, lhe parecia mais interessante do que iniciar um diálogo.
— Um pouco. – Admiti simplificando o grau de ansiedade, na realidade as noites dos últimos dois dias haviam sido visitadas pela insônia.
— Também fiquei um pouco ansioso antes de ir para faculdade. Filho único, nunca havia dividido nada com ninguém e nem saído da aba dos pais, no entanto, consegui me sair bem. Vick também conseguiu se sair bem...
— Isso porque eu estudei e convivi com outras pessoas antes, esse daí é sem chances. – Sussurrou Vick.
— É o que eu espero, pai.
— Victoire e os treinos? – Silêncio. – Victoire!
Meu pai a chamou atenção, seu foco estava em revirar o assado em seu prato e voltou a revirar os olhos antes de responder.
— O técnico me comunicou que os treinos só iram começar na próxima semana, devido ao processo seletivo dos novos integrantes e que a carga horaria vai aumentar.
— Você deverá se esforçar mais esse ano para conseguir uma vaga nas Nacionais. O ano passado foi claro que sua falha foi pelo pouco esforço. Tem que dar o seu melhor sempre. Nunca só 99%, busque o 101%.
— Claro. – Vick forçou um sorriso de canto no rosto.
— Está muito boa a comida. – Ele se dirigia a Emy.
— Obrigada, Sr. McCarthy. Blake me ajudou. – Ela fez um carinho na minha mão em cima da mesa, lhe retribui o afago e também lhe dei um sorriso.
— Victoire não é quem deveria ter-te ajudado?
— Sim. – Emy notavelmente estava desconfortável. – Mas fico feliz só com a ajuda do meu menino.
— Sim, sim, sim, mas não é ele que vai cuidar dessas obrigações quando se casar. Fico feliz que tenha um pouco de conhecimento, porque conhecimento nunca é demais e até que consiga uma namorada é bom saber cozinhar, isso as impressiona. Mas você, Victoire, tem o dever de saber fazer isso.
Vick que antes estava comendo quase se engasgou.
— Como é? – Perguntou incrédula.
— Você deveria aprender a cozinhar, ajudar Emy ocasionalmente no lugar do seu irmão.
— Primeiro é ele que se dispõe a fazer isso e segundo não preciso aprender isso, porque serei rica ou casarei com um cara rico que me bancará e me dará uma cozinheira.
Emily balançava a cabeça negativamente. Meu pai sorriu, era um sorriso maldoso.
— Ótimo, mas enquanto o marido rico não aparece e você também não fica, pode ocupar seu tempo lavando a louça do jantar. – Ele ainda sorria.
Ela bufou.
— Temos uma empregada para o quê?
— Não, Sr. McCarthy, deixa que eu cuido disso. – Emy se intrometeu.
— Viu, até ela sabe disso. – Falou Vick.
— Não mesmo, Emily. – Meu pai discordou. – É seu dia de folga, não faça nenhuma tarefa. Já fez muito com o jantar, a louça é obrigação de Vick.
— Ótimo! Quando terminarem de comer me avisem que eu volto do meu quarto. – Se levantou raivosa da cadeira.
— Negativo. – Nosso pai a chamou com o dedo indicador a mandado se sentar. – Não mandei se retirar da mesa, só saia quando eu autorizar ou mandar.
O restante do jantar se seguiu silencioso, o desconforto do atrito causara isso e nem a sobremesa de torta holandesa adoçara o ambiente. Esta feita exclusivamente por mim, velha receita de família.
Todos seguiram para os seus devidos aposentos, menos Vick designada para limpeza. Não demorei-me em me preparar para dormir, quanto mais cedo tentasse maior seria o tempo de descanso quando conseguisse.
—x-
— Estamos indo para Hogwarts? – Perguntei para Emy.
Eram quase sete horas da manhã, ela me ajudava com o uniforme vagamente familiar ao da história do bruxo. A luz matinal era proeminente pela cortina translucida pastel.
— Quase isso, bruxinho. – Ela me respondeu sorrindo.
— Todos nós seriamos então da Grifinória. – A referência era para gravata dourada e vermelha, as cores da escola.
— Melhor parecer um bruxinho do que um tomatinho.
Essa referência era para o antigo modelo de uniforme, todo na coloração avermelhada tijolo. Modelo julgado horrível para todos, menos para alfaiate da época, de cento e oitenta e cinco anos atrás até os anos setenta quando mudou para o modelo atual em tom acinzentado ou negro.
— Graças a Santa Agnes que mudaram. – Suspirei.
Nos encaramos por alguns instantes até um inevitável abraço acontecer.
— Está tão crescido meu menino, agora vai começar a estudar em um colégio e vai esquecer de mim. – Escutava sua voz meio falha pelo choro.
— Nunca vou te esquecer Emy, só vou para o St’Agnes. – Tentei lhe consolar.
— Sei... Sua irmã também falou isso pra mim e veja o que se tornou. – Fungava.
— Sou diferente de Vick.
— Sempre foi. – Concordou.
— Então pare de chorar antes que eu faça o mesmo. – Nos afastamos finalmente.
— Sua mãe estaria tão orgulhosa de vê-lo vestindo esse uniforme e superando de certa forma tudo o que já passou. – Secou as lagrimas escorridas pelo rosto. – Liguei para a minha neta, sabe ela estuda lá, é veterana vai se formar nesse ano. Pedi para que ela cuide de você.
— Emy! — a censurei, já não bastava Vick me controlando lá agora teria outra.
— Ela vai te ajudar a se enturmar nos primeiros dias e ficar com você durante as refeições, aproveitando assim para ver se está se alimentando bem.
— Obrigado, mas eu já tenho quinze anos, sei me alimentar muito bem. – Garanti, porém no fundo estava certa, eu não era muito bom no quesito alimentação adequada.
— Mesmo assim não confio. – Ela apertou minha bochecha e me lançou um olhar de confidencia, lembrando-me do meu histórico.
— Está bem, vou procurá-la quando chegar lá. Será ótimo. Melhor do que ter somente a companhia de Vick.
— Também acho mais sábio. Não confio nessa menina, herdou o gênio do pai e na escola piorou. Tome cuidado com ela, viu.
Acenei positivamente. No decorrer dos dias havia feito as malas, por ser uma mudança grande as bagagens eram muitas: um malão, uma mala e uma bolsa carteiro.
— Quer ajuda? – Observava o meu caminhar capengo.
— Está falando sério? – Lhe perguntei com uma pitada de humor já no corredor.
— Sou muito forte. – Me mostrou o muque frágil e molengo.
Gargalhei e parei no início da escada. Por ter um bom senso desci cada bagagem por vez e segui para garagem, lá já era esperado por meu pai e Vick.
— Novatos... – Comentou ao passar por ela.
Seus pertences estavam resumidos a uma mala de porte médio rosa. Por ser veterana não precisava fazer grande deslocamento de itens, uma parcela sempre ficava em casa e outra no colégio. Seu uniforme era uma versão feminina do meu, uma saia plissada acinzentada, cinco dedos acima dos joelhos e o paletó de alfaiataria preto, ajustado na cintura.
Nosso pai nos ajudou a guardar tudo no porta-malas antes de partir e ainda em tempo Emy correu e nos deu um último beijo e abraço, me fez prometer ir visitá-la em todos finais de semana possíveis.
No carro, meu pai não gostava que sentássemos no banco do passageiro na frente, por isso, eu e Vick dividíamos o posterior. Logo após dobramos a esquina da rua de casa, ela tirou do bolso interno do paletó uma pequena embalagem retangular e me entregou.
— O que é isso? – Lhe perguntei, pois estava embalada.
Apontou para o banco do nosso pai e depois fez um gesto de quem pede silencio.
— Coloquei os números das pessoas que valem a pena de se conhecer ai. – Me informou, deixando claro que se tratava de um novo celular, substituindo o antigo que quebrara.
— O de Yerik eu já lhe dei o dinheiro. – Lhe sussurrei.
— Depois te ressarço. — O que poderia ter sido o início de uma conversa morreu por ali.
A chegada nos terrenos do St’Agnes deu-se anunciada pela chegada dos muros altos de tijolinho encardido que lhe cercam, cobertos por limo e musgo das últimas décadas.
Nosso pai nos acompanhou por um tempo até chegarmos próximo da entrada, o congestionamento de carro era bem aparente. Só havia duas maneiras de se chegar até lá, pegando o ônibus escolar cedido pela prefeitura, que funcionava apenas nos finais de semana ou em dias especiais como o primeiro e último dia letivo. A outra maneira era sendo levado por um responsável, mesmo os alunos já habilitados não poderiam ir sozinhos com seus automóveis, pois somente era permitida a permanência dos veículos de funcionários durante as aulas. A única exceção ficava para as bicicletas, mas essas trazidas no ônibus ou no carro.
A despedida foi rápida sem muitas delongas ou carinhos, não era do feitio do Sr. McCarthy demonstrações de afeto. Ele ajudou a esvaziar o porta-malas e apenas desejando um ótimo ano letivo zarpou para o trabalho. Para evitar o congestionamento havia estacionado ligeiramente afastado da entrada.
Atrapalhado repeti o modo de separação da minha mudança pelo meu corpo. Sem me esperar Vick seguia na frente com vantagem.
— Ei! Me espere. – Corri para alcançá-la me desequilibrando no processo.
— Você é muito devagar. – Censurou ajudando-me a não cair.
— É difícil andar com todas essas coisas espalhadas pelo o seu corpo.
— Já passei por essa experiência no meu primeiro dia e posso te garantir que foi mais rápida, na realidade para dizer a verdade, tinha mais coisa que você e dei o meu jeito de carregar minhas coisas até o dormitório. – Falou presunçosa.
— Não foi isso que me contou, lembro-me de ter dito que um dos veteranos havia lhe feito a gentileza de carregar suas coisas até a ala feminina.
De retaliação por tê-la contrariado e como detestava isso, acelerou ainda mais os passos, deixando-me ofegante na tentativa de acompanhá-la.
A entrada principal do St’Agnes estava com os seus mesmos velhos portões escancarados como antes, mas se em compensação outrora estivesse vazia hoje encontrava-se abarrotada de gente. Alunos devidamente vestidos com os seus uniformes se despediam de suas famílias, vez ou outra observa as Irmãs conversando com alguma família. O clima quente já de manhã ficava ainda mais abafado com a carga de sentimentos presentes naquele ambiente, observar os gestos de carinhos de mãe para filho, muitas vezes negados pelo mais novo, me entristecia. Nunca poderia ter isso.
As mães choravam, porém não estavam tristes, apenas já imaginavam a saudade. Me observando sentir toda aquela carga emocional Vick pegou minha mão e me guiou pelo jardim, o toque firme de sua mão era acolhedor, mesmo não se comparando com qualquer abraço materno ali. Ainda sim me enchia com o sentimento de que não estava só.
— Fico feliz que as coisas tenham voltado ao normal entre a gente. – Falei quando Vick soltou minha mão no meio do jardim.
— Quem te falou que as coisas mudaram? Apenas lhe dei o celular porque era de seu direito, nada mais do que isso. Ainda contribui para o seu silencio sobre a noite da festa. – Cada palavra proferida era dominada pelo sentimento do ressentimento observado nos seus olhos. – Você continua a ser o mesmo ingrato que me trocou por Camille na primeira oportunidade.
— Como lhe troquei, Vick? Você é minha irmã jamais seria trocada ou substituída. – Toquei-lhe no braço.
— Solte me ou eu começo a gritar. – Me ameaçou olhando para a minha mão.
— Vick não é pra tanto...
— TEM COMO ME SOLTAR! – Ela gritou atraindo muito olhares.
— Vick, por favor, não grite não quero escândalos. – Sussurrei. – Apenes fale comigo.
— JÁ MANDEI ME SOLTAR! – Sua atuação era boa.
A soltei querendo evitar mais escândalos, porém já atribuíamos muitos olhares que me deixavam rubro. Assustei-me com todo aquele seu sensacionalismo desnecessário.
— Tem algum problema aqui, Vick? – Escutei uma voz familiar de sotaque.
— Tem sim, meu irmão não me deixa em paz. – Ela respondeu.
O fruto de todo o seu teatro havia sido a aproximação daquele conhecido por Marc. Combinado com a luz solar pude observar melhor as suas feições melhor do que com a festa, através do casaco de alguma equipe esportiva da escola, julguei ser a equipe de futebol americano, existia um grande porte. A pele bronzeada brilhava no sol. O cabelo e olhos era do mesmo tom escuro de chocolate amargo. Na tentativa de me intimidar o brilho infantil o descontruía.
— Quer que eu te livre dele? – Sua voz era também era outro ponto que lhe desmontava, levemente aguda quando comparada com o seu todo.
Encarou-me com expressão intimidadora, mesmo havendo aquele brilho infantil fiquei receoso, o seu porte físico não era para ser ignorado, possivelmente com mais de um metro e oitenta e cinco.
— Não. Não acho que seja necessário, já me soltou e deve ter percebido que é melhor se manter afastado. – As palavras possuíam um tom de ameaça, muito bem entendidos por mim.
— Ótimo. – Ele rosnou.
Passando pelo pequeno espaço que nos separávamos fez questão de entrombar comigo quando foi ficar ao lado de Vick.
— Vai mesmo usar esse aí para me ameaçar, o seu próprio irmão. Com um motivo que o também faz culpado. Pelo amor de Deus, Vick você o viu te traindo.
Atrai mais a atenção do Marc do que a dela. Ele a olhava com expectativa para resposta.
— Quando assinou o seu contrato verbal com aquela vaca para entrar naquele clube, assinou também a sua associação de minha pessoa. Para mim, você deixou de ser meu irmão. Vou te tratar como trataria qualquer outro calouro. No meu caso com o Marc nós nos resolvemos e os detalhes não lhe dizem respeito. – Dando um selinho nele, se afastou de mãos dadas.
Diferente da outra noite o portal de entrada estava ocupado por uma escrivaninha de madeira escura onde duas Irmãs entregavam as papeladas de início letivo. Sua posição estratégica impedia a passagem de qualquer aluno antes de passarem por uma avaliação dos seus rigorosos olhos. Ainda atrás dela, ficava um arquivo alto de metal com seis fundas gavetas cada um, onde elas abriam após abordarem cada aluno. Esse empecilho formava duas filas de alunos, uma para cada Irmã.
Fui para a do lado direito onde a Irmã responsável parecia ser menos exigente, a sua fila seguia mais suave do que a outra. Na espera por ser atendido vi Marc e Vick pegarem os seus papeis e seguirem juntos de mãos dadas.
— Nome completo e ano, por favor. – Me pediu quando chegou a minha vez.
— Blake Brian McCarthy. Nono ano.
— Outro McCarthy? – Sorriu.
A Irmã se identificava como Florence descobri pelo pequeno broche dourado preso no seu habito na altura do busto. Aparentando ter muitos anos, na casa dos setenta. O rosto era coberto por marcas, rugas e pequenas manchas amarronzadas na pele clara. Os olhos transmitiam bondade e seriedade numa tonalidade escura.
— Sim. – Lhe respondi sorrindo enquanto ela se virava e abria a terceira gaveta de cima para baixo do arquivo, retirando uma pasta fina.
— Sua família tem história aqui no St’Agnes, lembro-me dos seu avós, mãe e é claro da nossa prodígio e ainda estudante Victoire. – Entregou-me a pasta.
— E agora outro. – Completei mordendo a parte interna da bochecha.
— Que continue com o legado deles, esperamos. Terá uma reunião com todos os alunos no auditório daqui duas horas. Na pasta que lhe entreguei tem os documentos essências para o começo da estadia, como: o livro de regras e condutas, um mapa dos terrenos, as chaves de armário e dormitório e um horário provisório da sua rotina. Este será mudado depois que conversar com a conselheira e escolher suas matérias eletivas. E siga pelo corredor principal de ligação que encontrará uma placa te informando a direção até os dormitórios masculinos.
— Obrigado. – Lhe agradeci.
Fiquei parado em quanto ainda me observava, tinha percebido que os alunos só seguiam depois da ordem de liberação.
— De uma volta, por favor. – Me ordenou analisando-me com aqueles olhos escuros, enquanto fiz o ordenado.
— O uniforme aparentemente parece bom e em ordem. Está liberado.
Ia me adiantando pelo portal quando sua última fala me impediu.
— Tenha um ótimo ano, Blake. Antes que eu me esqueça. – Ela sorria.
— Igualmente, Irmã Florence. – Lhe retribui o sorriso.
Fiz o percurso sugerido por ela, sabia que era o certo só pelo pouco que conhecia da escola. A primeira placa que apareceu indicou que era o início do outro prédio, os dos dormitórios e a direção a ser tomada para cada ala, a masculina era para esquerda e por lá fui. Era outro corredor no seu fim havia uma porta dupla de carvalho aberta em relevo, era entalhado cuidadosamente folhas de bordo, que lhe davam um toque outonal. Por estar aberta vi o que deveria proteger, um corredor.
O corredor era composto de portas no seus dois lados, os dormitórios, sendo apenas três do lado direito. O seu final era um portal onde era possível observar a algazarra dos alunos, deveria ser as escadas. Na parede a direita onde não havia mais dormitórios outros arcos davam acesso a um salão.
Não era um salão qualquer, sua área deveria ser quase equivalente a área construída térrea da minha casa. Na parede a minha esquerda havia uma grande lareira de mármore escurecido ao centro, sob os pés de uma tapeçaria com a imagem de Santa Agnes, que deveria ter sido com um material parecido com fio de ouro, pois seus adornos dourados transpareciam isso. Como guardiãs da tapeçaria dois pares de grandes e amplas janelas, uma em cada lado, faziam do ambiente bem iluminado. Poltronas e estofados preenchiam o salão, sendo o maior de frente o borralho, assim como mesa de estudo e estantes de livros encadernados com couro de aspecto antigo. Foi o que pude observar com a algazarra de alunos que se encontrava, não aparentando ser colegiais. Na parede a esquerda ficavam distribuídos vários portais que davam acesso a um corredor onde ficava os dormitórios do térreo e as escadas. Até o segundo andar os quartos tinham um corredor de acesso com visão ao salão.
Uma Irmã, que julguei ser noviça pela jovialidade de seu rosto e por suas tentativas falhas de por ordem, isso estava além do poder de autoridade dela. Os alunos praticamente a ignoravam, nem os seus berros pareciam funcionar só ecoavam no corredor audível também no salão, só lhe davam atenção quando lhe faziam um falso flerte, causando muito desconforto na coitada.
— Sugiro que saia do caminho. – Falou alguém ao meu lado. Eu estava debaixo de um dos arcos de acesso ao salão.
Segui o conselho e assim que encostei na parede da extrema direita, ainda pouco afastado da baderna, passou um grupo de formandos sorrindo como abestados e correndo, certamente teriam me atropelado. Seguiram para o estofado na frente da lareira onde começaram a jogar almofadas uns no outros.
— Obrigado. – Agradeci a pessoa que me alertara.
Ele era um pouco mais alto que eu. Os cabelos loiro pálido estavam perfeitamente alinhados como o seu uniforme. A expressão era dura e os olhos acinzentados frios. Olhava a tudo com um misto de melancolia e arrogância. Poderia até se passar por um fantasma por seu jeito aparentemente mórbido.
— Calouros tem que se ajudar. – Falou em um tom superior a um sussurrou sem desviar os olhos do salão. Ao mesmo tempo em que parecia olhar para tudo, não olhava para nada diretamente.
Aproveitando a deixa que nosso silencio causou, abri a pasta recebida anteriormente e constatei cada item dito pela Irmã. Voltando a atenção para o pequeno saco plástico com duas chaves prateadas e o papel com o número do dormitório e armário. O quarto era no quarto andar, número 80.
Caminhei até a frente da escada e esperando enquanto via a multidão subindo, mas o que encontrei foi uma fila imensa para utilizar o elevador, que ficava ao seu lado. Os veteranos abusavam da experiência e vivencia passando a frente injustamente dos novatos ou mais novos. Sabia que minha melhor alternativa era subir os quatro lances com o peso todo, deixando uma bagagem propicia um furto.
— Qual andar? – O garoto pálido perguntou.
— Quarto. – Suspirei.
Ele ficou calado e o silencio foi constrangedor.
— Sou Blake McCarthy. – Estendi uma mão para cumprimento.
— Prazer. Alexander Smith. – Me cumprimentou desconfiado.
Tentei pensar em uma logística para evitar um grande esforço, mas não cheguei a nenhuma solução.
— Boa sorte com suas malas. – Ele falou se afastando quando eu estava no primeiro degrau.
Poderia ter me ajudado com a mala pensei, mas gentileza não era uma qualidade de todos. Cada degrau era um sacrifício, uma coisa é arrastar um malão pesado outra é ficar levantando repetidamente. Na metade do primeiro lance já suava, fato difícil de acontecer, ofegando e vermelho.
— Quer ajuda? – Escutei uma voz vinda de cima, deveria ser um anjo enviado por Deus para me ajudar.
— Seria ótimo. – Falei sem olhar o dono e subindo mais um degrau.
— Peça.
Abasbacado olhei para cima procurando o falante, ele estava apoiado no corrimão de madeira lustrosa no andar de cima, com um sorriso debochado, era Yerik. Franzi o olhar, nos encarávamos.
— Repensando melhor se for sua ajuda estou dispensando. – Capengo subi mais um. Aquela ajuda estava longe de ser celestial.
— Tem certeza? Porque antes queria. – Ele se deslocou até o último degrau no topo.
— Prefiro cair. – Mais um degrau e outra oscilação.
— Pensei que tínhamos nos aproximados na sua casa. – Ele agora estava poucos degraus acima de mim.
— As pessoas tiram conclusões erradas. Provavelmente fez o mesmo. – Outro degrau e uma oscilação maior.
— Não quer mesmo? Está quase caindo. – Ele desceu os últimos degraus até ficar apenas um superior ao meu de modo que nossa diferença de alturas ficou mais acentuada.
— Não estou cain...
Sabe aquele momento que você está em uma embate discussão, diz uma coisa e o destino decide te contradizer, pois foi o que aconteceu comigo. Cortando minha frase ao meio, meu malão escorregou pela escada me puxando para trás. Senti ser levado, porém um braço se colocou nas minhas costas, segurando me impedindo de seguir com o malão que desceu escada abaixo. Nos encaramos, seus olhos eram de um azul tão bonito.
— O que dizia? – Ele perguntou com um sorriso presunçoso.
— Nada. – Grunhi o empurrando, livrando-me dele e descendo as escadas para recomeçar o processo.
— Cadê o obrigado?
— Desceu com o malão, não viu?
— Você poderia ter morrido, sabia? Salvei sua vida.
— Deveria ter me deixado cair assim me privaria da sua presença.
— Nossa... – Ele fez uma expressão de ofendido.
— Me desculpe. – Falei.
— O quê? – Quase que automaticamente mudou a expressão.
— Me desculpe, você me ajudou e eu fui rude. – Levantei a mala e com a mesma dificuldade de antes comecei a subir as escadas.
— Vai acontecer de novo e desta vez não vou te ajudar. – Alertou-me, ao passar por mim ultrapassando-me.
Quando eu estava do terceiro degrau senti o mesmo comichão antecedente ao escorregamento do malão, precavido consegui segura-lo em tempo de queda, mas não sem dar uma pendida para trás.
— Vou perguntar de novo. Quer a minha ajuda?
— Por que não me deixa em paz?
— Pensei que éramos amigos. Dividimos roupas, banhos, irmãs e tudo mais.
— Pensou errado, já disse. – Falei ofegante após ter em fim completado o primeiro lance, ao lado tinha mais outro. – E não fale de minha irmã.
— Qual é o seu andar, o terceiro ou o quarto? – Ele supôs esses dois andares porque era onde os calouros deveriam estar distribuídos.
— No quarto, mas porque quer saber disso?
Mal terminado a frase ele pegou a mala dos meus ombros e começou a subir o segundo lance.
— Me devolva.
O acompanhava de forma lenta, mesmo com um grande peso a menos, o malão já dava trabalho o suficiente para o atraso. O início de uma transpiração despontava-me, o dia era quente mesmo para o fim do verão e a roupa também não ajudava.
— Te devolvo no quarto.
— Não espere agradecimentos.
— Vou querer mesmo assim. – Já estava no terceiro lance.
Quando terminei o quarto lance Yerik me esperava com a mala aos seus pés. Seu uniforme estava levemente desarrumado assim como os cabelos.
— Obrigado!? – Exigia.
— De nada. – Lhe usei ironia.
— Você roubou minha fala. – Falou sorrindo.
Pendurada no teto existia uma placa indicando a direção da numeração dos quartos. Sem sacada, todos os meus lados eram compostos por quartos. A placa indicava do 79 ao 90 a esquerda e do 91 ao 102 a direita. Como certo, segui para esquerda com a mala acomodada na antiga posição.
— Pode ir para o seu quarto, não tem mais a necessidade de me acompanhar. – Falei para ele que parecia me seguir.
— Não estou te acompanhando. — Um pensamento passou pela minha cabeça desejei estar errado.
— Então por que me segue?
— Estou apenas indo para meu quarto.
O octogésimo dormitório era o último no corredor a direita, sua porta era negra lustrosa lisa como as outras, um “80” prateado e fino era preso nela em cima de uma placa também prateada com B. Brian McCarthy e o Y. Ivanov Petroff, o nome dos novos residentes escrito em preto.
— Nome estranho. – Falei consciente da sombra atrás de mim.
— Não acho. – Comentou.
— Será que ele chegou? – Olhei-o.
— Tenho certeza que sim.
— Sim ele já deve ter chegado, mas eu digo, será que ele está ai dentro. Não quero passar uma primeira expressão errada, vamos dividir o quarto durante quatro anos...
— Nesse momento acho que não, aporta está fechada. – Ele pressionou a maçaneta.
Peguei a minha chave e destranquei a porta abrindo-a.
O ambiente possuía tamanho confortável para duas pessoas. Uma grande janela ficava na parede oposta, amparada por duas camas de ferro antigo e criados mudo. A encostada a direita estava com os seus pés ocupados pelas malas do meu companheiro e ainda uma estante no mesmo lado. Na parede esquerda onde ficava a minha provável cama também ficavam outras duas portas, supus serem a do banheiro e do armário de roupas. Ao lado da porta de acesso existia uma escrivaninha rabiscada e velha.
— Pelo visto ele já chegou. – Yerik apontou para as bagagens.
— Percebi, mas agora você pode ir saindo do quarto, porque não sei se meu companheiro gostaria da presença de estranho aqui. Ainda mais da sua presença. – Falei ao adentrar.
Coloquei minhas malas em cima da minha cama enquanto um Yerik ainda meu seguidor sentava na outra cama.
— Tenho certeza que não. – Comentou. – Sou extremamente agradável e simpático.
— O conhece por caso? Existem controversas em relação as suas denominações de qualidades e saia da cama dele. – Ralhei com as mãos.
— Pode-se dizer que sim. – Falou deitando-se.
— Não acredito que você deitou na cama dele... – De repente tudo começou a fazer sentido e as peças se juntarem. – Não! – Já iniciei a lamentação.
— Demorou hein!
— Você é meu colega de quarto. – Devo ter feito uma expressão muito desgostosa ao sentar na cama.
— Surpresa. – Levantou as sobrancelhas com uma exagerada e caricata falsa expressão de surpresa.
— Não pode ser. – Estava fazendo bico.
— Pode ser sim e o nome do meu pai Ivan como meu nome do meio prova isso, é claro além do seu sobrenome.
— Não creio.
— Creia
— Não.
— Sim.
— Não
— Sim.
— Sim, provavelmente sim.
— Nossa...
— Vai me tentar. – Afirmou, relembrando das situações em minha casa.
— O que disse?
Balancei a cabeça em negação e falei:
— Vou me mudar de quarto.
— Pode tentar. Eu tentei, sabia que iria querer mudar, tentei fazê-lo antes, mas me avisaram que a troca de companheiros de quarto só era permitida depois de dois anos de convivência. Você já deve saber disso.
Soltei uma lamuria, ele estava certo. Com Vick havia acontecido a mesma coisa, nos seus primeiros anos dividira o quarto com uma garota, segundo ela, merecedora de todos adjetivos ofensivos.
— Por que você? Eu tinha outros sessenta alunos para serem meus companheiros, no entanto tinha que ser você. Deus deve estar me castigando, domingo vou à missa orar por meus pecados, porque começarei a paga-los hoje.
— Pare de se lamentar, não sou de todo mal. E que pecados “Bleika”? Andou pensando no que não devia?
— Não... Claro que não. – Respondi vermelho.
— Andou pensando sim, sua vermelhidão lhe entrega. Agora esclareça-me uma dúvida. Na sua casa falou que ditaria algumas regras para o seu colega, estou curioso para saber quais seriam elas?
— Não vou dividir o quarto com você. Não preciso te contar.
Peguei o mapa da escola pronto para sair daquele ambiente. Evitaria ficar lá desde já e tentaria, mesmo sabendo que seria em vão, mudar de quarto.
— “Bleika”, eu estou aguardando ansiosamente para saber das tuas imposições mais tarde, já que vejo que vai sair. E convenhamos você já sabe que esse problema só tem uma solução. – Sorria.
Isso me irritou. Sem cerimonias grunhi e bati a porta.
Sabendo da folga no horário, faltava pouco mais de uma hora para reunião no auditório, vaguei sem rumo pelos corredores acompanhado de meus pensamentos conflituosos. A situação era completamente desconfortável, dividir um ambiente por longos períodos e expor minha intimidade para alguém que poderia me arrastar para o inferno. Emy dizia que ele estava dando em cima de mim, me atentando e que sua presença deveria ser pretensão do tinhoso. Mas se todo esse flerte fosse coisa de minha cabeça e dela, e se sua única pretensão seja de aproximação para um motivo maior, Vick.
— Ai. – Só percebi bater em alguém após sentir atingi-la e escutar seu grito de dor.
— Olhe por onde anda.
A garota caída no chão era a mais bela que já tinha visto na vida. Poderia tanto se passar por uma boneca de porcelana francesa quanto por um anjo, com os seus traços delicados e a boca carnuda. Os olhos pareciam brincar na decisão de uma cor com nuances azuis e verdes protegidos, por longos cílios. O cabelo, similar a fios de ouro, estava preso em um rabo de cavalo alto.
— Desculpe-me. Estava distraído. – Lhe ofereci uma mão para ajudá-la a se recompor, a qual ela aceitou.
— Acontece... Só tome cuidado na próxima vez. – Assim como os traços, a voz também era doce, poderia ser comparada com a primavera sulista.
— Desculpe-me novamente. – Sorri com um sorriso torto ainda constrangido. – Não te vi, foi erro meu. Não que você seja invisível, só eu que estava distraído.
Ela esboçou um fraco sorriso. Por mais incrível que pareça era mais baixa que eu, uma perfeita boneca.
— Todo bem, eu mesmo fico distraída com facilidade. Por exemplo, me distrai com a escola e acabei me perdendo.
— Quer ajuda?
— Seria ótimo. – Dessa vez ela que ficou constrangida o rubor nas maças da face lhe denunciou.
— Não te entregaram uma pasta com um mapa. — Falei já abrindo o meu.
— Sim. Está por...
Somente notei a queda de suas malas quando ela se abaixou para mexer nos seus pertences. Devia ser caloura, por sua desorientação. Abaixei-me ajudando-a nas malas. Depois de todas recompostas ela abriu sua pasta.
— Não. – Falei quando ela fez menção de pegar o mapa. – Estou com o meu aqui.
Antes de abri-lo por inteiro havia algumas instruções para o caso de desorientação. A instrução mais útil foi a procurar um ponto de referência dando adendo a uma obra de arte como também sendo um. Olhando pela extensão do nosso corredor, a melhor referência era a escultura do busto de mármore branco de uma garota com aparente minha idade. Procurei pela obra no mapa e identifiquei nossa localização, era no quarto andar, devíamos ter andado distraídos para chegarmos ali.
— Quem lhe indicou este caminho?
— Como eu conheço o meu péssimo senso de direção, pedi ajuda para algumas líderes de torcida, após ter chego perto do refeitório, com as instruções da Irmã Nancy. Elas indicaram por um caminho e parei por aqui até você esbarrar em mim.
— Começou errado ao pedir informação para líderes de torcida, elas sempre são um tanto maldosas. Uma dica, a entrada para o dormitório só é permitida pelo salão de ala, que fica no térreo. Jamais pelos andares superiores, mesmo que seu quarto fique.
— Você está querendo me dizer que subi tudo isso. – Apontou para as bagagens. – À toa, que terei que descer tudo para depois provavelmente subir de novo? – O desanimo era mais do que claro.
— Mais ou menos isso, mas desta vez vou te ajudar. – Antes que me respondesse peguei firme o seu malão cor de barro.
— Não precisa, mal me conhece. – Se opôs e tentou pegar o malão.
— Eu insisto, considere como um pedido de desculpas por ter esbarrado em ti e como mesmo sabe, é péssima em senso de direção. Qual é o número do seu quarto? Porque só poderei te levar até a porta da ala feminina.
— Eu deveria recusar, mas vou aceitar porque tudo isso está muito pesado. – Ela tinha o malão e outras duas malas de porte grande. – E o número do dormitório também não sei.
— Tem um papel ai dentro desta pasta que tem todas essas informações.
— Não me deram muita informação do seu conteúdo.
— Então, se me permite? – Peguei a pasta de suas mãos e expliquei a função de cada item. – A Irmã da entrada não te ajudou.
— A Irmã Nancy e a única coisa boa que fez foi me orientar até o refeitório, porque de resto...
— O que uma mulher devotada a fé poderia fazer de tão ruim? – Falei sorrindo.
— Aquela mulher de boa-fé me prendeu por mais de quinze minutos em uma inspeção de retaliação. No primeiro momento implicou com a altura de minha saia, eu insisti que era o modelo vendido pela própria escola e que minha mãe tinha vindo pessoalmente comprar aqui, o que é verdade. Ela ficou ofendida e mandou que eu abrisse todas as malas para uma inspeção, revirou tudo e confiscou algumas coisas antes de me libertar, além de mal dizer o caminho. – Não se conteve em demonstrar seu descontentamento.
— A boa notícia é que a maioria das Irmãs não são rancorosas ou rabugentas como essa. – Sorri.
— Assim espero. Estamos conversando e não sei o seu nome.
— Blake. E o seu, qual seria?
— Georgina.
— Como o estado Geórgia?
— Não me venha com esta piada, já estou cansada de ouvi-la.
— Desculpe-me, foi automático. Mas você não é daqui.
— Isso foi uma pergunta ou uma afirmação?
— Uma afirmação. De onde você seria?
— Kansas, mas como percebeu?
— Pelo seu sotaque charmoso.
Achar o caminho de volta até a intersecção onde encontrava a placa que direcionava as alas foi menos complicado do que a descida dos quatros lances, porém bem mais fáceis que minha subida ao meu dormitório. No caminho consegui convencê-la de me dar a outra mala.
Seguimos a direção oposta a tomada por mim para chegar na ala masculina, a direção direita. Pude conhece-la melhor. Seu pai era um grande produtor de soja e de milho, filho único herdou todo o patrimônio dos pais. Fazendo diferente dos seus progenitores teve seis filhos, Georgina era uma das do meio antes do seu casal de irmãos gêmeos casulas.
Só por acompanhá-la até a porta de sua ala, cometia uma grave infração. Visita de alunos de alas diferentes era estritamente proibido e punível, se alguma Irmã me avistasse provavelmente acabaria sendo advertido e sofreria detenção no melhores dos casos e no pior seria expulso. A maioria dos alunos discordavam dessa regra, porém a maioria sabia que era necessária, sendo alguns até fiscalizadores dos burladores. As responsáveis pela fiscalização eram as Irmãs, as únicas com liberdade de movimentação entre alas.
— Acho que seja aqui. – Falei ao chegarmos ao fim do corredor leste.
A porta para salão feminino era parecidíssima com a da masculina, com o mesmo tipo de madeira mudando somente o entalho em relevo. Diferente da masculina, aquela possuía adornos primaveris como flores e pequenos animais campestres. Fiquei curioso em saber se a porta das outras alas também representavam as estações.
— A porta é mais trabalhada. – Comentei.
— O que? – Ela perguntou distraída.
— Nada, só que chegamos ao seu destino.
Exatamente quando terminei de falar a porta se abriu revelando duas garotas, e por possuírem um grande porte, obstruíram boa parte do interior do salão. Mas ainda pude notar que ao contrário dos garotos que eram mais bagunceiros, as garotas eram mais barulhentas. Elas se espalhavam pelo ambiente com os seus grupos e panelinhas falando sobre tudo. As que pareciam mais acanhadas falavam entre si, julguei serem as novatas, tentei localizar Beth, mas a pouca visão impossibilitava.
— Ala errada. – Rosnou uma das garotas.
Ambas eram extremamente feias e pelo o que indicavam também rudes e carrancudas. Uma possuía pelos na glabela, ou seja, uma monocelha e a outras imensos dentes tortos. A que tinha falado era a de monocelha.
— Eu sei. – Comentei baixo.
— Se sabe, o que ainda faz aqui? – Perguntou a dentuça.
— Estava ajudando-a com as malas e na vinda até aqui. – Esclareci.
— Sei... Como se fosse muito difícil chegar até aqui. – Ironizaram.
— Na verdade, eu acabei me perdendo e ele me ajudou. – Falou Georgina.
Aquela situação estava sendo completamente desnecessária, as duas garotas me pareciam extremamente intrometidas e mal encaradas, não lhe deviam informação.
— É melhor eu ir indo, Georgina. Prefiro evitar conflitos e de certa forma, elas estão certas.
— Tudo bem, Blake. Fico agradecida.
— Já que se manifestaram na porta, podem ajuda-la com as malas. – Me dirigi as mal encaradas. – Antes que negassem larguei o malão e a outra mala em suas mãos.
As duas resmungaram alguma coisa e voltaram para dentro, pressupus estarem seguindo para o elevador. As garotas pareciam ter uma logística e ordem melhor para utilização do elevador pois não tinha fila.
— Nos vemos do auditório? – Georgina me perguntou enquanto entrava.
— Sim, sim. Até lá. – Me afastei sorrindo, para minha surpresa fui correspondido.
No caminho da volta fui mais cauteloso e minucioso. Relaxei rapidamente após fechar a porta do meu quarto, entretanto a voz do meu companheiro me lembrou de minha situação
— Voltou cedo. Já foi ver o que eu te falei? – Ele estava deitado na sua cama, com suas malas abertas.
— Não.
— Desistiu?
— Não, mas fazer o quê?
Ele riu.
— Esperei você voltar para organizarmos da melhor maneira possível o nosso espaço.
— Certo. – Falei, abrindo as minhas.
Eu fiquei menos defensivo no período que passamos nos acomodando, ele não era muito bagunceiro como pressupus. Rapidamente a estante, o armário do banheiro e de roupas estavam perfeitamente divididos e organizados, esperava que ele respeitasse os espaços. Fizemos tudo isso em tempo de irmos juntos para o auditório.
— “Bleika” ... – Ele começou a falar quando estávamos no corredor oeste.
Lhe olhei feio.
— Blake. – Recomeçou. – Acho que seria melhor para ambos se fossemos amigos. Não seria nada legal dormir todos os dias, durante quatro anos, detestando a pessoa ao seu lado.
Fiquei pensativo por alguns minutos, repensei tudo o que eu sabia dele e acreditava conhecer e ser. Decidi por acreditar que suas intenções comigo, eram fantasias de minha cabeça e de Emy.
— Está certo...
— O quê? Eu ouvi bem? Está concordando comigo?
— Olha se quer começar desse jeito...
— Não. Agora você que está certo, me desculpe.
Caminhamos em silencio até o corredor central de ligação quando fui interceptado.
— Blake? – Uma garota segurou o meu pulso. – Blake McCarthy?
— Sim. – A encarei, parando de andar acompanhado por Yerik que me imitou e estagnou.
— Sou Samantha Willy. Neta da Emily, estava procurando-o. Prazer em conhece-lo. – Falou soltando meu pulso.
Samantha decididamente lembrava Emy. Possuíam os meus olhos castanho canela e de certa forma até o mesmo aroma. O cabelo era ondulado parecido com chocolate derretido. A pele era alguns tons mais escuro que o da avó.
— Prazer em conhece-la, Samantha.
— Me chame de Sam, prefiro assim. Minha vó pediu para que eu te ajudasse por aqui.
— Emy é muito exagerada.
— Eu sei. Pode ficar tranquilo que não bancarei a babá não. – Disse sorrindo. – Só queria te conhecer pessoalmente e assim podendo relaxar a velha.
Sorri.
— Blake acho melhor irmos, se não vamos nos atrasar. – Falou Yerik. Ele parecia mais sério.
— Pode ir, já vou indo. – Falei.
— Não, eu te espero. – Insistiu.
— Se me permitem, acompanho vocês. Também tenho que ir para o auditório.
No caminho pude conhecer melhor Sam. Ela era veterana do quarto e último ano, sempre estudara em internatos, graça a seu esforço e inteligência todos com bolsa. Seu nome soava me familiar, até que lembrei de sua referência.
— Por um acaso participa do coral? – Lhe perguntei na porta do auditório.
— Sou uma dos membros. E sei que você e outro novato entraram no clube na festa de Iniciação, os outros me contaram...
— Eu sou o outro. – Comentou Yerik pela primeira vez a contrafeito.
— Dividem o quarto?
— Sim. – Ele respondeu mais rápido.
— Infelizmente – Completei inaudível.
— Isso é bom. Fica mais fácil ensaiar os duetos.
— Não iremos fazer duetos. – Comentei.
— Por que não? – Ele me perguntou.
— Me contaram que vocês cantam bem juntos. Que o Blake possui um domínio das notas e que o Yerik tem a voz peculiar por causa da língua natal búlgara. Suponho que você seja o Yerik?
— Sou o Yerik. – Ele falou.
— Então Blake, por que não faria duetos com ele, se é mais fácil até?
Fiquei vermelho.
— Porque... Porque... Porque dueto é coisa de casal e fica mais bonito assim.
— Nem sempre isso acontece. – Ela falou.
Preferi por não debater e observar o auditório. Aquele ambiente no subsolo comportaria facilmente mil pessoas. Com os seus quase quinhentos alunos presentes, boa parte das poltronas vermelhas ficavam vagas. Tentei localizar Georgina em meio a todos presentes, mas era uma tarefa quase impossível com sorte localizei outra pessoa, ou melhor, outra amiga: Beth.
Ela se sentava sozinha mais ao fundo, ao contrário da maioria dos calouros que se amontoavam mais a frente, perto do palco.
— Vi uma amiga. – Falei para eles.
— Podem ir. – Falou Yerik.
Eu e Sam seguimos até Beth que não notou nossa aproximação até eu tocar no seu ombro, lhe tirando do estupor. Ela estava com o uniforme amassado e desalinhado, os cabelos preso em um coque mal feito que deixava algumas mechas de cachos soltas.
— Olá, Beth.
— Olá, meu caro amigo. – Falou ainda um pouco aérea. – Acompanhado por uma total desconhecida.
— Ahh. Sou Sam, babá dele aqui no St’Agnes. — Ela se apresentou.
— Você não é minha babá. – Ralhei.
— Imaginei que seria. – Falou Beth.
— Ela só vai me ajudar aqui. – Tentei arrumar a situação.
— Também está no coral. Imagino? – Perguntou Sam.
— Como sabe, tenho expressão de cantora?
— Não. Me falaram o seu nome como nova integrante e considerei essa possibilidade, já que até agora Blake só me apresentou pessoas do coral.
— Ele só falou com o pessoal do coral e os amigos superficiais da irmã.
As duas se enturmaram rápido e conversavam como se eu não estivesse lá.
— Qual é o seu signo? – Beth perguntou.
— Touro. – Ela respondeu.
— Interessante. – A outra comentou antes de olhar para mim e depois para Sam.
Ninguém falou mais nada depois disso, pois a chegada de quatro Irmãs no palco inspirou cautela e hesitação a todos. Digo, aos calouros, pois muitos veteranos continuaram a conversar, mas em tom pouco audível.
Pude reconhecer duas das quatros Irmãs, Florence e Nancy, as responsáveis por entregar as pastas e papeis na entrada.
— São as Irmãs Guadalupe e Marie, respectivamente conselheira e diretora do St’Agnes. – Beth pareceu ler minhas dúvidas em mente.
— São uns amores. – Sam sussurrou.
A Irmã Marie iniciou a discursar, um enunciado maçante e longo que durou quase uma hora e meia, mas só terminou para que a Irmã Guadalupe iniciasse o seu, que por sorte fora de quarenta minutos. Ambas falavam das expectativas para o novo ano e reforçaram as regras de condutas. O ponto mais relevante foi quando as Irmãs inspetoras, Florence e Nancy, tomaram a frente e falaram do ocorrido na festa de Iniciação.
Explicaram que a ausência delas tinha sido a pedido dos alunos no ano anterior e um voto de confiança, que fora quebrado e como punição pela decepção e todo estrago ocorrido, os alunos teriam a saída negada nos finais de semana até as festas de final de ano e que as próximas festas estavam suspensas. A notícia foi recebida por uma ovação de indignação que logo foi contida pela diretora.
— Será um ano interessante. – Suspirou Sam.
—x-
— Quais matérias eletivas escolheu? – Yerik me perguntou quando estávamos no quarto.
A reunião com todos alunos tinha acabado por volta do meio dia para o almoço, e o retorno só seria necessário para os novatos. Durante o almoço me sentei junto de Beth e Sam em um canto mais lateral do refeitório, porém, mesmo assim consegui atrair o olhar de Vick. Ela se sentara com as gêmeas e outros três garotos na mesa de seis lugares, um dos garotos era Marc.
Na volta para o auditório, agora só acompanhado de Beth, não vi mais Yerik. O prolongamento da reunião não fora relevante, ela terminou na metade da tarde quando fomos dirigidos, um por vez, a conversar com a conselheira auxiliada por alguns professores a decidirmos nossas matérias eletivas.
Infelizmente fora o último a ser atendido. Eram cinco matérias a serem escolhidas, distribuídas durantes as duas últimas aulas no decorrer da semana. Somente tinha uma certa, o Coral que era nas terças e quintas feiras. As outras que optei foram História da Arte e Marcenaria nas segunda e sextas feiras, Desenho, exclusivamente aula dupla na quarta, Culinária também nas terças e quintas.
— História da Arte, Culinária, Marcenaria, Desenho e é claro o Coral. – Lhe respondi.
— Você cozinha?
— Um pouco. E as suas?
— Só peguei três eletivas, as outras duas foram substituídas por treinos de natação. Fiquei com o Coral, Empreendedorismo e Metalurgia.
— Diferentes.
— Sim. Olha já está no horário do jantar. Mais cedo encontrei com a sua irmã, contei para ela que estamos dividindo o quarto. Ela nos convidou para sentarmos juntos no jantar.
Olhei-o incrédulo. Não entendi com convite como aquele de Vick se tinha me repudiado mais cedo. Ela realmente não era uma pessoa de humor muito estável.
— Vamos? – Ele insistia.
— Não sei não. Acho que Vick não me quer ver tão cedo...
— Não, ela quer sim. Insistiu para que eu te chamasse...
— Acho melhor não, deve ter sido uma má interpretação da sua parte.
— Não. Não interpretei errado não. Vocês não estão brigados? Ela pode estar querendo se reconciliar com você.
— Vick não costuma querer se reconciliar com facilidade ou procurar por isso.
— Pode ser diferente desta vez.
Mesmo não convencido, o segui até o refeitório. Como tinha notado já no almoço a mesa que Vick ocupava era exatamente a central, onde poderia ter uma visão de todas. Desta vez só estavam acompanhada das gêmeas. Lucy e Mirna eram líderes de torcida, usavam saia de pregas e top de mangas vermelho com detalhes em dourado. Uma delas estava com o cabelo preso em um rabo de cavalo e a outra solto.
— Olá, Blake e Yerik. – Falaram juntas.
— Oi, Lucy e Mirna. – Falei, Yerik também me imitou na saudação.
— Irmãozinho. – Vick falou, sua expressão era tranquila, não sabia se isso me relaxava ou me deixava mais nervoso.
— Vick. — O clima era estranho, não sabia como agir.
— Por que não se senta?
— Você quer que eu me sente?
— Adoraria.
A obedeci. Nenhum dos outros presentes se manifestaram, apesar de Yerik também sentar ao meu lado, estávamos de frente a elas.
— Por que não me conta sobre o seu primeiro dia, Irmãozinho? – Ela olhava as próprias unhas.
Simploriamente narrei meu dia, evitando muitos detalhes.
— Então Sam já foi falar com você?
— Sim, eu achei ela bem...
— Ela está longe de ser legal. – Ela me interrompeu.
— Como assim? Ela foi tão receptiva.
— Claro, por que não seria? – Olhou para gêmeas com cumplicidade rindo, como se relembrasse de um comentário ou piada antiga.
— Exatamente, por que não seria? – Uma delas falou, não conseguia identificar quem era quem, supus ser a Mirna.
— Não estou entendendo...
— Samantha precisa honrar a fama. – Mirna falou.
— Que fama?
— A de fácil. – Lucy respondeu.
— A nossa querida Willy tem o adorável legado a ser mantido. Imagino que já tenha dado em cima de você? – Vick me perguntou.
— Não! – Protestei contra a afirmação delas e de certa forma até como resposta para pergunta.
— Eu acho que sim. – Comentou Yerik.
Olhei-o indignado com aquela afirmação. Sam tinha se mostrado uma pessoa adorável e não percebi em nenhum momento ter dado em cima de mim.
— Como dissemos, a Willy nunca brinca em serviço. Tomem cuidado com ela porque essa garota é danada. – Vick falava.
— Você já chegou a conversar com ela? – Perguntei.
— Obviamente. Emy também a mandou para mim no meu primeiro ano, mas logo a dispensei, porque como sabe, devemos andar com iguais ou com superiores, nunca com inferiores. – Continuou.
— Como sabem se essa fama é verdadeira?
— Ela deu em cima de nossos amigos. – Lucy respondeu.
— Eles que falaram isso?
Ela acenou positivamente. Ironicamente Sam passou por trás delas, a uma distância inaudível para ouvir o que falavam dela, e acenou quando me viu. Retribui o aceno.
— Falando no diabo. – Vick comentou quando achou pela pessoa responsável pelo meu aceno.
— Diaba. – Mirna a corrigiu, gargalhando em seguida.
Fiquei ofendido com o que elas diziam, mesmo conhecendo Sam a poucas horas ela não parecia ser a garota promiscua ou, como ela a intitulavam, devoradora de homens. Sam para mim, estava mais para uma Emy adolescente.
— Vamos para fila? – Yerik perguntou.
— Podem ir, nossas refeições geralmente chegam até nós. – Vick respondeu.
Não pensei duas vezes antes de levantar, naquela mesa me sentia como um ovelha perto de lobas.
— Só cuidado com a quantidade que come, Irmãozinho. Não queremos vê-lo gordinho novamente. – Vick sussurrou assim que eu levantei.
Lhe lancei um olhar feio, pois aquele assunto era delicado demais para ser tratado com zombaria.
Na cantina era servido massa italiana com um aromático e bonito molho de tomate. Depois de servidos com a comida e bebida retornamos para mesa, que naquele momento estava com uma significante diferença. Se antes existiam três lugares vagos quando saímos, agora só sobrara um. Os outros dois estavam ocupados pelo Marc e outro garoto igualmente alto de cabelo raspado negro e de pele parda.
Olhei para Vick, ela também me encarava e como havia dito, assim como ela as outras duas estavam servidas com suas refeições. Percebi que aquilo deveria ser parte de algum plano, mas mesmo assim, caminhei até a mesa deles.
— Esqueci de avisar, Irmãozinho. Alguns amigos meus sentariam aqui. Desculpe-me, erro meu, agora só sobrou um lugar. – Falou quando estávamos audíveis a sua fala de falso tom inocente.
Encarei Yerik, ficamos assim por um tempo, tentando decidir o impasse com os olhos. Nossa plateia aguardava ansiosamente. Por fim, estava pronto para ceder quando Yerik concedeu.
— Pode se sentar. – Indicou a cadeira com a cabeça, pois as mãos estavam ocupadas com a bandeja.
Puxei a cadeira e fiz o movimentar de se sentar com a minha bandeja em mãos, na expectativa de encontrar o assento acabei caindo no chão virando todo conteúdo segurado sobre meu corpo. Tinham tirado minha cadeira no momento exato em que ia me sentar.
Todo o auditório fez silencio ao som da queda. Vi que quem puxara fora Yerik, o olhei incrédulo, seu olhar era inexpressivo.
— Você está bem, Irmãozinho? – Vick era falsa, se apoiava na mesa para me ver.
Não respondi, não tinha estrutura para isso.
— Lembra o que te falei mais cedo, que tudo gera suas consequências, pois começaram as suas. – Sussurrava, pegou o seu copo de suco e continuou. – Gostou do coral, não foi? Mas eu não, sigo o exemplo da série que é a melhor referência nesse caso.
De uma vez só virou todo o suco na minha cabeça.
— Termine o que começou, se não, já sabe. – Ela olhava para Yerik.
Ele colocou a sua bandeja em cima da mesa e pegou o seu copo de suco e repetiu a ação de Vick.
Eu estava completamente molhado e humilhado, minha respiração completamente descompensada era a única coisa que denunciava o meu nervosismo. Me levantei pronto para me retirar dali quando Vick puxou a ovação de gargalhadas contra mim. Todos riam como fiéis seguidores fariam.
Perdi o controle e sai correndo, não tomei ciência de que caminho tomara, mas acabei em um banheiro masculino no terceiro andar do prédio Principal. Logo que entrei, tratei de trancar a porta. Segui para o box mais distante e também o tranquei. Sentado no chão frio limpei meu rosto com as lagrimas.
Eu seria culpado daquilo tudo, só por ter entrado em um clube de canto? Não, esse castigo era fruto de outra coisa, de pensamentos pecaminosos e errados. Era sim merecedor daquilo tudo, meu castigo. Deveria tomar jeito, buscar na fé uma maneira de sanar aquilo.
Meu alento não perdurou por muito tempo porque uma batida incessante na porta do banheiro chamou minha atenção.
— Blake! – Alguém gritava do outro lado enquanto batia.
— Vai embora! – Reuni forças para gritar. Minha voz saiu falha e aguda.
— Não vou, prometi a alguém que cuidaria de você. – Gritou. Percebi que era Sam.
— Já falei que não preciso de cuidados... – Respondi fungando.
Tudo ficou quieto novamente, a não ser por minhas fungadas no nariz congestionado, até que ela voltou a gritar.
— Então deixe-me só vê-lo.
— Não quero que ninguém me veja, estou todo sujo.
— Deixe que eu te ajudo a se limpar.
— Não quero ninguém.
Silencio novamente, este perdurou por cerca de quinze minutos.
— Eu sinto muito pelo o que aconteceu no refeitório. – Voltou a falar.
— Eu também. – Falei baixo.
— Eles foram cruéis.
— Eu mereci.
— Ninguém merece aquilo, não sei o que você fez, mas pelo pouco que conheci hoje posso garantir que não merecia aquilo. Na realidade, ninguém tem o direito de humilhar os outros, ou se quer, julgar. Agora por favor, deixe entrar aí, preciso usar o banheiro.
— Aqui é o banheiro masculino. – Estranhei.
— Tem certeza? Olhou a placa na porta quando passou?
— Tem mictórios aqui.
— Okay. Você me pegou na mentira... Só me deixe entrar, daqui a pouco vai soar o toque de recolher.
Mesmo que receoso, me levantei, destranquei o box e em seguida a porta do banheiro. Sam estava com os cabelos presos e me olhava preocupada.
— Você está bem?
Para essa resposta havia duas formas de resposta, a falsa quando você respondia que sim e a honesta quando você demonstrava todos os sentimentos que estavam sentindo. Optei pela honesta e, ao recomeçar a chorar, senti os seus braços me envolver.
Ela só me abraçou e não falou mais nada, ficamos assim por um tempo.
— Acho melhor limpar um pouco do mais grosso antes de você ir tomar um banho.
Acenei positivamente. Ela pegou um chumaço de papel higiênico, o molhou e depois o passou no meu rosto.
— Fique longe deles. – Recomendou.
— Eu bem queria. – Limpei meu nariz, que queria escorrer. – Mas um deles divide o quarto comigo.
— Yerik, né?
— Sim.
— Ele é um falso.
Concordei com a cabeça.
— Não acredito que eles também estão no coral. – Falei rouco.
— Ah! Tem essa também, pois é. Mas verá que as pessoas são diferentes quando estão lá, como no caso do Marc. Ele é extremamente ligado a sua reputação, por isso age e anda com esse pessoal, porém, no clube é totalmente diferente.
— Não deveriam ser assim.
— As pessoas escolhem serem “bem vistas” ou invejadas do que felizes. Vá se olhar no espelho. – Mandou. Estávamos em um box, eu sentado enquanto era limpo.
Havia um espelho sob as pias, estava ligeiramente manchado, a falta de luminosidade e as manchas de gorduras na lente atrapalhavam a visão, éramos só iluminados pela luz lunar. Meu rosto estava vermelho, pelo choro, e meu uniforme coberto com molhado de tomate, além dos óculos sujos.
— Não desista do coral por causa disso. Não é igual a série de televisão onde levamos raspadinhas. Somos respeitados, todos são. O seu caso foi especial, acredito que seja pela sua própria irmã. – Sam se aproximou por trás de mim.
— Não vou decidir. O que eu sofri foi um castigo por uma outra coisa. – Confessei.
— O que seria?
— Pensamentos pecaminosos.
— Que perversão um garoto de quinze anos poderia pensar. – Ela ria.
— Acho melhor irmos. – Falei, já caminhando.
Fomos em silencio pela escola, já vazia pelo horário. Quando chegamos na intersecção das alas o alarme de recolhimento soou, tínhamos quinze minutos toleráveis para irmos aos nossos dormitórios, a permanecem de alunos em outros lugares depois disso era proibida e punível.
— Acho melhor acelerarmos agora. – Ela falou. – E aqui nos despedimos.
— Obrigado por tudo. – Falei sincero.
— Não por isso. – Ela sorriu.
— Nós vemos amanhã?
— Sim, e faço questão de dividirmos a mesa durante todas refeições. E vou te cantar uma canção especial de boas-vindas amanhã.
— Fico agradecido duas vezes.
Um silencio constrangedor se instalou.
— Então até mais. – Falei me afastando.
— Blake! – Ela me chamou.
Mal tive tempo de reagir, ela colou nosso lábios e eu só consegui fechar os olhos. Foi muito rápido e simples, apenas um selinho, nem um beijo. No entanto, para quem nunca tivera contato físico com outra pessoa daquela maneira, era muito. Quase um primeiro beijo.
— Até mais. – Falou correndo para direção oposta.
Era um misto de emoções para tão pouco tempo que nem percebi quando fechei a porta do dormitório ainda com os dedos sobre meus lábios.
— Você está bem?
Escutar aquela voz arrastada pelo sotaque estrangeiro fez com que uma emoção despontasse mais do que as outras, a raiva. Sabendo que ela era insensata e que ele não merecia minha sensatez, consegui muda-la para uma indiferença amargurada.
Passei por ele sem nem olha-lo nos olhos, indo para o banheiro. Sabia que o correto era tomar um banho, mas minhas emoções estavam muito instáveis para tomar um decentemente. Só o que tomei de menos de três minutos fez meu corpo sentir agonia. Mais do que rápido me sequei, limpei o óculos e percebi que tinha cometido o erro de esquecer a roupa fora do banheiro. Enrolado de toalha fui busca-las.
Yerik olhou para mim assim que sai.
— Você tem todo o direito de estar com raiva de mim, o que eu fiz foi horrível... – Ele começou o discurso.
Continuei andando até o pequeno ambiente onde ficavam nossas roupas.
— .... Mas era a única forma de me enturmar ... – Continuava.
Peguei meu pijama e quando fechei a porta ele estava parado atrás dela.
— Por favor, apenas me ouça.
Finalmente o encarei, tentei não demonstrar emoções.
— Não. – Falei firme.
Voltei para o banheiro e me troquei. Ao abrir a porta ele estava lá.
— O que eu falei mais cedo é verdade, acho melhor sermos amigos.
Caminhei até minha cama e fiz menção de me deitar, mas o seu toque em minha mão me impediu. O repudiei.
— Pelo menos olhe para mim. – Pediu.
— Não.
— Eu sinto muito, mesmo.
— Não sinta. Toda ação tem uma consequência, minha irmã te ensinou e demostrou isso muito bem hoje. Conviva com a sua agora.
Ele me olhava sério, um olhar penetrante.
— Então eu quero conviver com as consequências disso.
Antes que pudesse se quer formular um pensamento de resposta ou entendesse o que queria dizer, ele me puxou e colou nossos lábios. Foi um beijo de verdade, na realidade, meu primeiro beijo e com um garoto.
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