Tempestuoso

7 Mundo Selvagem de Corais


Notas iniciais
Primeiro, todo meu amor aos que comentaram e acompanham de verdade. Meus lindos, bati meu recorde desta vez. Se tudo der certo talvez na sexta pós carnaval tenha capítulo novo, vai depender da criatividade e de quanto vou demorar fazendo as lições do tecnico. Faço tecnico de Edificações. Nicki Minaj - Stupid Hoe https://www.youtube.com/watch?v=T6j4f8cHBIM Jason Mraz - Living In The Moment https://www.youtube.com/watch?v=YUFs_1vKYlY Taylor Swift - Eveeything Has Chade (ft Ed Sheeran) https://www.youtube.com/watch?v=w1oM3kQpXRo

— Você está estranho. – Beth me acusou.

— O quê!? – Assustei-me.

Estávamos no refeitório, era horário de almoço e comíamos. Havíamos nos encontrado no quarto período durante a aula de francês, nossa matéria escolhida como língua estrangeira.

— Eu falei que você está estranho. – Analisava-me.

A preocupação de que ela soubesse do acontecido da noite anterior rapidamente tomou-me a mente. Não tinha como ela saber, ou tinha? Não, não tinha. Da mesma forma que a ideia surgiu, ela passou.

— Você acha? – Tentei voltar ao normal.

— Não acho, tenho certeza. E isso está vindo de mim, uma pessoa bem estranha.

— Você não é tão estranha, só é meio.

— Inteira. – Falou uma voz de trás, era Sam.

— Concordo. – Beth sorriu arqueando as sobrancelhas.

— Boa tarde, Sam. – Falei quando ela se sentou, carregava uma bandeja com seu almoço.

— Boa tarde, Blake e moça pagã.

Esperei que estivesse um clima estranho depois que nos víssemos novamente, no entanto, até o seu modo de olhar se mantinha o mesmo. Agradeci por isso, a última coisa que precisava era ter outra pessoa com um clima constrangedor.

— Quem entona é a cética e boa tarde para você também. – Beth rebateu.

— Cética? – Perguntei.

— Só porque sou ateia. – Sam falou.

— Não crê em Deus?

— Minha fé se restringe a 3% da coisa toda. – Esclareceu.

— Mesmo estudando em uma escola católica?

— St’Agnes respeita a minha descrença. Não me obriga a rezar todos os dias ou seguir os ensinamentos de um livro sagrado.

— Entendi... – Minhas palavras se perderam.

Sam era a primeira pessoa descrente que eu conhecia e por incrível que pareça não me incomodei com isso. A ateia se portara melhor comigo do que a católica da minha irmã.

— Do que falavam? – Sam voltou a puxar a conversa.

— Eu estava acusando Blake de estar estranho. – Beth esclareceu. – E eu gostaria de saber o porquê?

Se a resposta fosse honesta falaria que era pelo beijo recebido por um cara ontem.

O contato de Yerik comigo não durou muito, consegui me livrar dele mordendo sua língua. Empurrei-o, corri para o pequeno cômodo de roupas e tranquei-me lá até metade da noite. Sai na surdina, ele já dormia, e fiz minhas preses por um determinado tempo até pegar no sono, na cama. Não antes de programar um alarme no celular para soar meia-hora antes do toque de alvorecer. De manhã, saí antes dele acordar e por sorte não dividimos nenhuma aula até então.

A culpa me consumia. Tudo havia sido extremamente errado, mesmo que não concedido. Ser beijado por um garoto, aonde isso iria me levar?

— Ele deve estar estranho por ontem... – Sam falou, me causando um quase infarto. – A irmã dele foi uma vaca como sempre.

E como se fosse uma enunciação, Vick entrou no refeitório acompanhada por suas submissas súditas gêmeas e por seus cães, que habitualmente comiam na mesma mesa. Eu não poderia defende-la mais depois do que fez comigo, abri mão de qualquer relação ou contato iniciado por mim. Só a perdoaria se fosse falar comigo buscando por isso.

Pude ver como suas refeições chegavam por intermédio de estudantes que ela classificaria como inferiores.

— Sua irmã vai ter uma surpresa nesse almoço. – Sam falou.

— Como assim? – Perguntei.

— Você verá. Porém, posso dizer que o coral possui um espirito de união e defende os seus membros.

Não demorei muito para descobrir o que aconteceria. Logo Camille entrou vestida com o uniforme da torcida — saia de pregas e top vermelho com detalhes dourado — e cabelo preso em um rabo de cavalo alto, seguida por outra garota.

Esta vestia o tradicional uniforme escolar. O destaque ficava para o seu cabelo negro com um corte afro volumoso, consequentemente combinado com sua pele morena e olhos escuros.

As duas se aproximaram da mesa e assim que Steve e Peter chegaram com uma caixa de som, acompanhados de outro garoto. Cami começou a cantar com a batida.

Cuspia cada palavra na cara de Vick, dando olhadas esporádicas para Marc. A garota negra e Sam dançavam de fundo. Fiquei abismado quando a vi dançando, porque a segundas atrás estava ao meu lado, tanto é que olhei para seu lugar constatando se não era um clone. A coreografia poderia ser classificada como inapropriada facilmente.

I get it crackin like a bare back

Bitch talkin she the queen

When she lookin like a lab rat

I’m Angelina, You Jennifer

Come on, bitch

You see where Brad at

Ice my wrists and I piss on bitches

You can suck my diznik, if you take this just is

You don’t like them disses, give my ass some kisses

Yeah, they know what this is, givin this the business

Cause I pull up and Im stuntin but I aint a stuntman

Yes Im rockin Jordan but I aint a jumpman

Bitches play the back

Cause they know Im the front man

Put me on the dollar

cause I'm who they trusting

Ayo SB, whats the fucks good?

We ship platinum, them bitches are shipping wood

Them nappy headed hoes but my kitchen good

I wish, I wish, I wish, I wish, I wish, I wish

A bitch would

You a stupid hoe, you a, you a stupid hoe

You a stupid hoe, you a, you a stupid hoe

You a stupid hoe, you a, you a stupid hoe

You a stupid hoe, (yeah) you a, you a stupid hoe

You a stupid hoe, you a, you a stupid hoe

(Stupid, stupid)

You a stupid hoe, you a, you a stupid hoe

(Stupid, stupid)

You a stupid hoe, you a, you a stupid hoe

(Stupid, stupid)

No último refrão Camille pegou o próprio copo de suco de Vick e jogou o liquido na face dela. Dessa vez, o ambiente tinha a presença de algumas Irmãs, ausentes da vez em que fui o alvo, e não permitiram aquela ação se passasse impune. Todos os outros presentes se mantinham em silencio e estáticos, pararam de se mover ao início da apresentação.

— Ao pessoal do clube do Coral que fez esse número para sala da Irmã Marie, assim como, a Srta. McCarthy. – Ralhou gritando a Irmã mais rabugenta.

A sala da Irmã Marie era a diretoria.

Os convocados saíram escoltados pela rabugenta, porém antes de sair recebi uma piscadela e sorriso de Cami e Sam, os retribui.

— No seu caso, os envolvidos também foram para diretoria e punidos? – Beth me perguntou.

Os alunos voltavam a se movimentar.

— Não, infelizmente não havia nenhuma Irmã presente.

Antes que terminássemos o almoço, Sam voltou e acompanhada.

— Vocês são um porre. – Ela retalhava quando chegou à mesa.

Olhava para Steve, Peter e o outro garoto. Olive também os seguia.

— Nos ama. – Falou Steve.

Sam voltou ao seu antigo lugar ao meu lado, o outro foi preenchido por Olive. Existiu um problema de espaço, só havia outros dois lugares vagos para três pessoas. Os últimos envolvidos fizeram uma guerra silenciosa por eles, tendo até sentadas em falso protagonizadas por Steve e Peter.

O outro garoto era mais pálido do que eu e cristão como, percebi pelo crucifixo de prata no seu pescoço. Os cabelos eram tão escuros quanto os olhos e canto superior direito, perto da sua boca, havia uma pinta charmosa.

Ele foi mais esperto que os outros dois e conseguiu garantir o seu lugar. Beth se divertia com a confusão ria de forma engraçada pelo nariz, Olive também acompanhava o coro de gargalhadas, porém de forma mais recatada.

— Parem com isso. – Sam revirou os olhos. Situações como aquela com aqueles dois deveriam ser corriqueiras.

— Brigamos por você, Samantha, amorzinho. – Peter disse.

— Podem ao menos decidirem pela cadeira. – Ela falou carrancuda.

— Claro, nossa Deusa. – Steve falou.

— Só vai poder sentar um.

— Eu puxo outra cadeira. – Peter cedeu para o amigo pegando uma cadeira das mesas ao lado.

— Ótimo. – Ela suspirou.

— Como foi lá? – Beth perguntou antes de mim.

— Nada demais, nos ameaçaram com suspensões e tudo mais, no entanto, só vamos ter que cumprir detenções nesse final de semana...

— Porém, Cami se lascou... – Steve interrompeu Sam.

— E está até agora lá. — Peter agora que interrompeu.

— Ela fugiu do intuído inicial... – Sam tentou explicar, mas foi interrompida novamente.

— Era só cantar a música explicita para sua Irmã...

— Não jogar um copo de suco na cara dela... – Se repetiu os descontínuos.

— Se me atrapalharem novamente vou dar na cara dos dois. – Sam ameaçou-os. – Queríamos te defender, como tinha dito antes, mostrar para essa cadela do mal que você tem amigos.

Senti me acolhido e no fundo ofendido pelo insulto a Vick.

— O-obrigado. – Gaguejei. – Não queria que se metessem em confusão por minha causa, nem me conhecem direito.

— Somos um time. – O outro garoto falou pela primeira vez.

— Quem é você e seu signo? – Beth perguntou em tom de interrogatório policial.

— Harry, acho que virgem. – Falou assustado.

— Que dia nasceu?

— 3 de Setembro.

— Então é virgem.

— Quer dizer então que o Harry é virgem! – Peter falou brincalhão.

— Sim. – Ele falou inocente.

Steve gargalhou junto com o amigo. Harry percebeu o tom da brincadeira e ficou vermelho, principalmente depôs de olhar para Sam.

— Em signo. – Pareceu tentar corrigir a marotice ainda mais rubro.

— Acreditamos. – Eles riam debochados.

— Eu acredito. – Sam tocou na sua mão, ele já parecia uma tocha.

Os outros dois se calaram desconfiados. O papo prosseguiu despretensioso pelo pouco tempo que restava de almoço até o soar do sinal de seu fim. Steve, Peter, Harry e Sam seguiram para as suas respectivas aulas, mas não antes de dizerem que nos esperavam no coral mais tarde. Beth e eu seguimos para o quinto andar do prédio Principal, onde ficava a sala de geografia. A professora era a mesma responsável pelo Coral, Sra. Underwood.

A Sra. Underwood conseguia ser mais baixa do que eu e emanar mais nicotina do que um cigarro acesso. Os olhos azuis eram pregados de rugas e rosto levemente acinzentado, culpa do cigarro. O cabelo loiro na raiz deixava aparecer os fios grisalhos, a tintura precisava ser retocada.

Quase chegamos atrasados, ela já estava na sala, mas com sorte conseguimos arrumarmos lugares na mesa de dupla perto dela. Maggie também estava na aula, com os cabelos cor de bronze arrumados em uma trança, no seu uniforme havia um broche de raposa. Seria atraente, se não fosse pela expressão de superioridade. Ao seu lado estava Alex. O garoto que me salvou de um atropelamento, mantinha a mesma expressão de frieza e indiferença. Uma dupla perigosa.

No meio da chamada um outro casal apareceu na porta interrompendo a professora. Esse eu me surpreendi. Era Yerik comboiado de Georgina.

— O que!? – Deixei exclamar, por graças baixo.

— Desculpe, professora. Nos perdemos e acabamos nos atrasando. – Ele falou.

Aquilo era mentira, todos recebíamos um mapa no primeiro dia. Eu pessoalmente havia mostrado para Georgina um.

— Claro. – Respondeu a Sra. Underwood inexpressiva, toda vez que falava parecia sair um pouco de fumaça da sua boca.

Na sala havia somente dois pares de mesa vagas, um atrás de mim e outro no fundo da sala, desejei com todas minhas forças que sentassem no último. Porém, para o meu azar escolheram o outro. Conforme iam se aproximando podia notar o rubro das maças do rosto dela e ambos os lábios vermelhos, tinham acabado de voltar de uma ficada, esse deveria ser o motivo do atraso.

Um sentimento estranho me consumiu, senti raiva de Georgina estar ficando com ele, tanta pessoa melhor, mas justamente ele. Yerik deveria ter me visto conversando com ela, só isso justificaria ter a escolhido. Ele percebeu meu olhar e sorriu, rapidamente o desviei e fiquei vermelho.

— Perdemos muita coisa? – Ele perguntou atrás de mim e para mim.

— Só o início da chamada e a vergonha na cara. – Beth respondeu primeiro. – No seu caso pelo menos. – Completou.

— Pensei que fossemos amigos. – Yerik lhe falou.

— Blake também achou que você era e no fim, jogou um copo de suco na cabeça dele. – Tentou encerrar a conversa ríspida, havia informando-se dos detalhes do evento no intermédio da volta de Sam e o soar do alarme.

— Olá, Blake. – Georgina, ela falou quando notou-me. Não tinha tomado atenção na conversa anterior, pois, estava se arrumando naquele momento.

— Olá, Georgina. – Virei-me um pouco para vê-la.

Estava linda, mesmo que simplória com o uniforme e os cabelos presos. Notei um broche de coelho na altura do busto.

— Como vai? – Ela sussurrou.

— Bem. – Lhe sussurrei de volta. – E você?

— Bem, também. É verdade que divide o quarto com o Yerik?

Fiquei calado, essa atitude poderia ter me causado várias desconfianças da parte deles, se a Sra. Underwood não tivesse acabado a chamada e iniciado a aula, impedindo-me supostamente de responder.

A sorte não estava ao meu favor, na metade da aula ela propôs uma atividade em grupos, de quatro pessoas, e infelizmente fui encaixado com os de trás. O intuído na formação não era muito relevante, mas tive que encara-los, extremamente desconfortável.

O tempo restante pareceu demorar uma eternidade e quando ele passou, mal me despedi de Beth antes de sair. A próxima aula era de Escrita, meu único conhecido naquela era Alex. As carteiras eram solitárias, mas me sentei atrás dele.

O professor que lecionava possuía aspecto de uva passa pelo tanto de idade. Possuía pele escura e o cabelo branco ficava em contraste nela. Enganava-se quem pensava que a imagem de idoso frágil era semelhante a sua personalidade. Carrancudo, intimidou a todos com as palavras firmes e desbocadas. Era o Sr. Jackson.

Pediu em menos de cinco minutos, uma redação que nos melhor apresentasse e que fosse entregue antes dos últimos vinte minutos. Me esforcei em fazer boa escrita. Quando me dei por satisfeito com o resultado, lhe entreguei, mas ele nem se quer me olhou. O último a entregar foi Alex, nos exatos vinte últimos minutos.

O Sr. Jackson leu minuciosamente cada redação em dez minutos, fazendo anotações nelas e passou outros dez minutos entregando, seu caminhar era lento. A cada aluno que recebia uma nova expressão de desgosto era feita, a exceção foi Alex, ele sorriu levemente ao ler sua. O professor passou por mim sem emitir qualquer comentário e colocou a redação em cima da mesa.

No seu corpo, a redação possuía três marcações em vermelhos nos erros de gramatica. O que chamou foi a sua anotação no verso da folha, escrito também em vermelho.

“Escrita quase perfeita, precisa-se de mais atenção.

Se é só isso que pode oferecer falando sobre si, posso te julgar como uma pessoa sem personalidade e apático. Cuidado com isso na escola, te faz um alvo fácil para bullying.

No próximo texto, por favor, não tente me fazer dormir. A consideração final é que você é entediante.”

Fiquei sem palavras ao terminar de ler. Como poderia ser tão julgador? Todos pareciam estar tão indignados quanto eu, salvo aquela exceção. Porém, também assim como eu, não possuíam coragem para indagar o mestre.

Reencontrei Georgina na aula de Culinária. O ambiente era majoritário feminino, na realidade só havia eu de garoto. Nesta aula todos deveriam usar toucas e luvas, nos dias de aula pratica. A sala era uma mistura da normal com uma cozinha.

Por ser o primeiro dia só tivemos teoria no quadro negro, por isso, pude conversar com Georgina.

— Conhece Yerik? – Me perguntou puxando assunto. Um péssimo tópico a meu ver.

— Dividimos o quarto.

Estávamos dividindo a mesma bancada, naquele ambiente não existiam carteiras.

— Deve ser ótimo dividir o quarto com ele. – Supôs.

— Não necessariamente. – Falei alto demais para que ouvisse.

Eu não a olhava, prestava atenção no quadro.

— O que quer dizer com isso?

Olhei-a, possuía expressão desconfiada.

— Yerik, não é tão legal como aparenta.

— Pelo visto, não se dão bem...

— Não. – Confirmei.

— Ele me pareceu tão legal. O desentendimento de vocês não é só um mal-entendido?

Lembranças ruins passaram pela mente.

— Não foi um mal-entendido. E sem querer ser intrometido, vocês estão se envolvendo, romanticamente falando?

— Estamos ficando, se refere-se a isso.

A confirmação fez a raiva voltar, mas a guardei.

— Eu não te conheço muito, mas acho que poderia arrumar alguém melhor.

— Aonde quer chegar?

— Yerik é uma má pessoa. Existem outras pessoas, melhores. Você é bonita.

Ela riu.

— Eu compreendo a sua preocupação, no entanto, prefiro eu mesma tirar as conclusões sobre as pessoas.

— Como queira. – Retribui o sorriso, mas desgostoso.

Não conversamos mais.

A última aula era o Coral, fiquei um pouco ansioso para esta e quando soou o termino da aula de Culinária a ansiedade chegou ao seu ápice. Dei uma rápida despedida para Georgina e parti para o terceiro andar onde ficava o coro.

Mesmo para quem não soubessem a sua localização era possível identifica-la pela melodia que escapava pela fresta da porta, tornando a audível já no corredor. Pude ouvir uma voz feminina e rouca.

If this life is one act
Why do we lay all these traps
We put them right in our path
When we just wanna be free

Caminhei até a porta melodiosa e a abri. A Sra. Underwood se mostrava bem à-vontade cantando na frente de quinze alunos. Eles estavam desposto no fundo do ambiente, sentados em cadeiras simples e ela também sentada em uma simples, mas ao centro. Decididamente não se parecia em nada com a professora tediosa de geografia mostrada mais cedo.

I will not waste my days
Making up all kinds of ways
To worry about all the things
That will not happen to me

So I just let go of what I know I don't know
And I know I'll only do this by
Living in the moment
Living my life
Easy and breezy
With peace in my mind
With peace in my heart
Got peace in my soul
Wherever I'm going, I'm already home
Living in the moment

I'm letting myself off the hook for things I've done
I let my past go past
And now I'm having more fun
I'm letting go of the thoughts
That do not make me strong
And I believe this way can be the same for everyone
And if I fall asleep I know you'll be the one who'll always remind me

To live in the moment
To live my life
Easy and breezy
With peace in my mind
With peace in my heart
Peace in my soul
Wherever I'm going, I'm already home

I can't walk through life facing backwards
I have tried I tried more than once to just make sure
And I was denied the future I'd been searching for
I spun around and searched no more

By living in the moment
Living my life
Easy and breezy
With peace in my mind
With peace in my heart
Peace in my soul
Wherever I'm going, I'm already home
I'm living in the moment I'm living my life
Just taking it easy
With peace in my mind
I got peace in my heart

Entrei na sala quase que despercebido no meio da performance e me sentei no lugar vago ao lado de Beth. Quando a mulher terminou de cantar todos a aplaudiram, os acompanhei e ele fez uma referência de obrigado para todos.

— Uma musiquinha bem relaxante para começarmos o ano. Ao contrário do que já fizeram. Aos novos integrantes, sejam muito bem-vindos, aqui encontraram uma segunda família, estejam certos disso. Agora falo aos mais velhos que fizeram uma pequena performance calorosa no refeitório durante um almoço, estejam avisados que se acontecer de novo, adeus ao clube. A Irmã Nancy me deu a graça do aviso, ou seja, meninos comportem-se. – Sua fala soou escarnia.

— Defendemos um de nós. – Camille se pronunciou.

— Cami, te conheço há três anos, sei que para pirraçar Victoire McCarthy faria por bem menos. – Piscou para ela.

— Diferente. – Beth me sussurrou.

— O quê? – Sussurrei de volta.

— Ela, é diferente aqui.

— Ahh, sim.

— O que os novatos sussurram? – A Sra. Underwood olhava para nós. Engoli em seco.

— A Senhora é diferente aqui do que dando aula de geografia. – Beth respondeu calma.

— Aqui faço o que amo. – Justificou-se. – Agora vamos ao que interessa. Como a maioria é ciente ficamos em quinto lugar na fase nacional do campeonato de corais. Neste ano, seremos diferentes. O foco será o primeiro lugar e troféu de campeões, por isso, não esperarei nada mais do que o melhor de vocês. Mas como são as primeiras semanas pegarei leve. A lição dessa semana será retratar músicas que se encaixam com a volta as aulas e a recepção dos novos integrantes. E a da semana que vem, músicas que os melhor representam, apresentação obrigatória aos novatos...

— Professora? – Sam interrompeu-a.

— Diga, Sam.

— Eu já tenho uma música preparada para a lição dessa semana. Eu só ia cantá-la para um amigo que entrou agora, porém ela já é perfeita para tarefa.

— À-vontade. – Elas trocaram de lugares. Sam carregava um violão

— Blake, se souber cantar a música, por favor, me acompanhe porque ela fica melhor em dueto.

Olhando nos meus olhos, Sam começou a cantar e dedilhar.

All I knew this morning when I woke
Is I know something now, know something now
I didn't before
And all I've seen since eighteen hours ago
Is green eyes and freckles and your smile
In the back of my mind making me feel like

I just want to know you better
Know you better
Know you better now
I just want to know you better
Know you better
Know you better now

Eu conhecia a canção. Não pude evitar acompanhá-la no canto, fui me aproximando até ela.

I just want to know you better
Know you better
Know you better now
I just want to know you, know you, know you

'Cause all I know is we said, "Hello"
And your eyes look like coming home
All I know it's simple isn’t it?
Everything has changed
All I know is you held the door
you will be mine and I'll be yours
All I know since yesterday
Is everything has changed

And all my walls stood tall, painted blue
I'll take 'em down, take 'em down
And open up the door for you
And all I feel in my stomach is butterflies
The beautiful kind makin' up for lost time
Takin' flight, making me feel like

I just want to know you better
Know you better
Know you better now
I just want to know you better
Know you better
Know you better now
I just want to know you better
Know you better
Know you better now
I just want to know you, know you, know you

'Cause all I know is we said, "Hello"
And your eyes look like coming home
All I know is a simple name
Everything has changed
All I know is you held the door
You'll be mine and I'll be yours
All I know since yesterday
Is everything has changed

Come back and tell me why
I'm feeling like I've missed you all this time
And meet me there tonight
Let me know that it's not all in my mind

I just want to know you better
Know you better
Know you better now
I just want to know you, know you, know you

'Cause all I know is we said, "Hello"
And your eyes look like coming home
All I know is a simple name
Everything has changed
All I know is you held the door
You'll be mine and I'll be yours
All I know since yesterday
Is everything has changed

Ao final da canção havia uma tensão instalada. Sam mesmo tendo a pele mais bronzeada ainda demonstrava o calor em suas faces. Tomei uma atitude que até eu mesmo me surpreendi depois, tomei-lhe os lábios, a beijei, porque era o certo a ser feito.

Não sabia muito bem o que fazer, mas ela sim. Moveu os seus lábios, acompanhei-a, os abriu, percebi que era um convite e o recebi. Sua boca tinha gosto de canela, como a cor dos olhos, era muito bom. Toquei-lhe o rosto, fazendo uma caricia com os dedos no desenho do seu maxilar até chegar perto dos cabelos, onde parei a mão.

Somente nos separamos ao escutar o som áspero de garganta emitido pela Sra. Underwood. Fiquei instantaneamente vermelho, nunca sentira tamanha vergonha, nem com a humilhação do dia anterior. Todos batiam palmas calorosas, menos quatro pessoas: Steve, Peter, Harry e Yerik, a deles parecia só ser por educação, não entendi o motivo daquilo.

— Hormônios a flor da pele. – A professora falou, enquanto voltávamos para os nossos lugares.

Se pudesse correr dali sem parecer um louco teria corrido.

A aula seguiu sem outros acontecimentos marcantes como este. Pude descobrir o nome da garota que participara da performance mais cedo, Joanne. Irmã adotiva do também adotado e participante do clube, Zach. Facilmente poderiam se passar por irmãos de sangue, apesar dele possuir tons mais escuros na pele e no cabelo.

Os outros membros que não conhecia era a Abigail e a Charlotte, porém essa preferia ser referida como Charlie.

Os aspectos de sua personalidade e corpo eram bem antagônicos. Charlie era um pouco masculinizada, nem usava saia, preferia por uma calça mais marcada, mas esta não deixava seu corpo esguio e magro sensualizado e sua personalidade era um tanto bruta. Abi, apelido que Joanne sua melhor amiga lhe dera, era doce e roliça. A essência da garota feminina que todos imaginamos, inclusive usava até uma coroa de flores nos cabelos ondulados castanhos.

— Sua irmã também foi punida. – Camille veio até mim.

— Pelo o que? – Ainda estava longe e perdido pelo beijo.

— Por ontem e eu sinto muito. – Falou rápido.

— Ela mereceu. – Joanne se aproximara. – Sou Joanne, prazer em conhecê-lo McCarthy. – Se apresentou oficialmente.

— O que acontecerá com ela? – Fiquei um pouco preocupado.

— Ficou com a lavanderia nos finais de semana durante um mês. – Cami respondeu.

Pensei que seria mais sério, deixei a pequena preocupação se esvair.

— E vocês? – Perguntei.

— Comigo nada, graças a Deus e a Santa Agnes. – Joanne fez um sinal religioso de proteção. – Só dancei mesmo, não merecia. Mas Cami terá que frequentar a cozinha também durante um mês, lavando a louça. Imagine o estado das unhas depois. – Mostrou as suas, muito bem cuidadas e pintadas com pequenos detalhes rosa e branco.

Olhei para Camille, ela revirou os olhos com um sorriso estranho. No outro lado da sala Sam parecia discutir com Steve, fiz menção de ir até lá, mas fui arrastado em outra direção por Beth.

— Aonde me leva? – Lhe perguntei, um pouco contrariado.

— Calma aí, garanhão.

— Não sou garanhão.

— Eu sei, é só vênus passando por câncer.

— O que? – Seus papos de signo e planetas me confundiam.

— Nada, nunca me entenderia. Vai ser uma pena quando Marte chegar...

— O que? – Perguntei de novo.

— Nada.

Me arrastou até Jesse, o garoto quieto dos olhos azuis-esverdeado que conheci na festa. Ele era muito introspectivo, podendo ser o mais do grupo, perdendo talvez somente para Harry ou Zach.

Beth buscou desenrolar uma conversa com ele, mas como mostrado a sua introspecção era um imenso empecilho. Considerei a hipótese dela estar romanticamente interessada, porém não possuía malicia suficiente para julgar.

Ainda no outro lado da sala, Sam discutia. Agora com Peter, ele parecia mais enérgico que Steve. Não entendia o motivo daqueles dois irem indagar com Sam. Mal sabia que o próximo seria Harry, no entanto, esse se demonstrou mais reservado e menos raivoso que os outros.

Próximo de mim estavam as pessoas por quem nutria a maior antipatia do grupo. Yerik e Marc conversavam, não os imaginava se dando bem a primeiro momento, pois disputavam de uma rivalidade por uma garota. Porém, estavam em uma conversa animada. Gente ruim se dá bem com gente ruim. Junto a eles estava á arrogante Maggie.

A Sra. Underwood deu um último aviso antes de nos liberar, este era o último período do dia com aula.

— Bom. Em parceria com a Srta. Margot, nesse ano todos os alunos do coral estão obrigados a participar de uma audição para o musical da escola. – O descontentamento foi visível e generalizado. – Ou deverão participar da parte técnica do espetáculo.

— Por que isso agora? – Marc perguntou. Por sua descendência estrangeira sua fala do inglês era um tanto incomum.

— Porque no ano passado o musical teve que ser cancelado por falta de pessoal e se o desse ano não der certo a área de artes da escola sofrerá redução de orçamento e isso nos afeta. Além da Srta. Bovary ter me pedido por vocês.

— E se eu me recusar? – Yerik que falou. Todos o encaram perplexos.

— Simplesmente pedirei que saia do clube, simples assim. – A Sra. Underwood esboçou um sorriso que julguei ser perigoso. – Aos interessados e obrigados, as audições começam amanhã nos últimos dois períodos...

— E qual seria o musical desse ano? – Camille a perguntou, interrompendo.

— Os Miseráveis.

Muitos olhos brilharam iluminados. Eu conhecia a obra, já havia lido, era um livro muito bom e repleto de questões sociais. O musical já era mais difícil, algumas das suas canções exigiam de um controle vocal muito difícil.

— Ótimo, já sei que papel quero ter e o terei. O da Cosette é mais do que perfeito. — Falou Cami sonhadora. – E Marc poderá fazer Marius.

— Está mais para Eponine do que para Cosette. – Peter soltou.

Cami lhe encarou com uma expressão mortífera.

No espetáculo, na terceira parte da história. Cosette e Marius formavam um casal e ele se tornava a paixão não correspondida de uma prostituta, Eponine.

— Já você não tem papel nesse musical. Quando me lembrar de um espetáculo com um personagem trocado e chifrudo, eu te aviso. – Retrucou venenosa.

— Não importa os papeis que conseguiram, mas todos, sem exceção, terão que comparecer lá amanhã. E todos estão dispensados por hoje. – A Sra. Underwood tentou apaziguar as tensões.

—x-

— Estão mortos! – O treinador gritava.

Era aula dupla de Educação Física, após o almoço do dia seguinte. Com sorte, conseguira evitar meu companheiro de quarto durante todo esse período, apesar de estar compartilhando essa aula com ele.

Logo depois do Coral no dia anterior, eu fora convocado a ir à diretoria relatar o incidente do primeiro dia. Fiquei indeciso entre acobertar Vick ou dizer a verdade completa, optei por um meio termo. A poupei de algumas partes, mas a mantive em outras, o que não fiz com Yerik. Sobre ele não poupei palavras ou detalhes, merecia ser castigado.

Ao terminar com o relato a Irmã Marie, a diretora, se compadeceu comigo, chegando a pegar minhas mãos tentando me confortar. Falou que a minha irmã já sabia das suas punições pelos atos e que Yerik também saberia dos seus castigos, ainda naquele dia. E insistiu em dizer várias vezes que nunca mais se repetiria um ato como aquele no St’Agnes.

Antes do almoço havia sido aula de Escrita, felizmente, ela fora inteiramente dele falando. Consegui trocar poucas palavras com Alex também.

— Corram seus molengas! – O treinador voltara a gritar.

Ele era um homem corpulento e baixo. Possui uma barba volumosa e negra, contrastante com a sua calvície escondida pelo boné vermelho. A roupa esportiva era ligeiramente apertada e constantemente assoprava um irritante apito.

Somente cerca de um terço dos alunos do gênero masculino participava.

Já havíamos corrido umas dez vezes pelo perímetro do ginásio, mas o Sr. Turner, o treinador, insistia em querer pelo menos cinquenta. A maioria demostrava cansaço, menos Yerik, ele possuía o vigor de um atleta de natação experiente.

A minha respiração era descompensada e tinha certeza de que estava vermelho e com o suor proeminente.

Depois que julguei ser vigésima quinta volta, o treinador nos permitiu descansar. Ele carrega uma caderneta com as fichas dos alunos, nelas continham informações sobre os promissores em determinados esportes. Eu não era em nenhum.

— Alguém é muito sedentário. – Alex diminuiu o ritmo das passadas para me acompanhar. Só não era pior do Mikael, o manco.

— Um pouco. – Assumi. – E você pratica algum esporte?

— Não, só corro mesmo. Nada profissional para integra a equipe de atletismo, porém o suficiente para manter a forma.

Estranhei a aproximação dele. Do pouco que me havia demonstrado, a receptividade não era um dos seus fortes. Os cabelos estavam desarrumados, um emaranhado de fios loiros e os olhos continuavam a transmitir frivolidade.

— Se continuar assim, provavelmente entre na equipe de atletismo. – Comentei.

— Improvável, antes disso acontecer falo com a minha tia.

— Sua tia?

— Minha tia-avó, Irmã Nancy.

Meu primeiro pensamento foi compaixão por ter como parente uma mulher tão chata, quase soltei um lamento, porém, me contive. Seria indelicado falar mal dela para ele.

Nossa conversa não se prolongou mais, tivemos que fazer mais algumas séries de exercícios, quando ele nos liberou para os vestiários meus músculos pareciam ter sido triturados. Eu tinha que admitir, possuía uma rotina sedentária. Nos vestiários, o Sr. Turner chamava os alunos promissores e os indicava para os seus qualificados.

Tomar banho estava decididamente fora de questão, ainda mais cercado por um bando de garotos. Furtivamente escapei para o meu dormitório, onde poderia tomar um banho dos meus padrões de adequado. O compartilhamento de um ambiente, nu, com outras pessoas nuas era desconfortante, só não menos do que tomar o próprio banho.

Somente haviam mais duas aulas, seriam as de desenho, porém como informado no Coral, deveríamos nos apresentar no teatro. O mais rápido possível me arrumei para não chegar atrasado, fracassando.

A aula era administrada no auditório. Entrei pela parte mais alta e pude constatar a presença de todos, os membros do coral e mais outras vinte cinco pessoas. No palco a professora discursava. Com certa dificuldade localizei Beth e me sentei ao seu lado.

— Está atrasado. — Ela me acusou.

— Problemas com o banho. — Lhe respondi sincero.

A mestra era a Srta. Margot. Uma mulher muito esguia e magra, parecida com um avestruz. Os cabelos negros malhado de grisalho estavam presos em um coque firme e as sobrancelhas grossas lhe davam olhar sério e carrancudo. Havia sido atriz de musical profissional na Broadway. Cometera algum deslize, ou segundo as más línguas, um show de estrelismo durante um espetáculo é concubinato no seu naufrágio artístico e desde então lecionava no St'Agnes.

— Agora que estamos completos podemos dar início. — A Srta. Margot olhava diretamente para mim, muitos olhares alheios fizeram o mesmo.

Inevitavelmente fiquei rubro.

— Aos presentes que se propuseram a participar do espetáculo, os meus sinceros agradecimentos. — Deu continuidade. — Apesar de ser uma peça grande, não haverá papéis para todos. Por isso, passarei uma folha para que assinem seus nomes e o do respectivo personagem para quem farão audição.

Ela prosseguiu com um discurso monótono que ressaltava a importância da disciplina. Em quanto isso a folhinha circulava entre os alunos. O musical era dos Miseráveis. Achei que seria muito egocentrismo me nomear como o "mocinho" da obra, mas decidi me arriscar. Assinei meu nome e em seguida Marius.

— Ela é uma carrasca, essa mulher. Vem me ignorando há quatro anos. Faço testes para protagonista é nunca me escolhe. — Sam se acomodou ao meu lado. Lhe recebi com um sorriso.

Antes ela estava distante sentada ao lado de Olive e dos descontentes Peter, Steve e Harry.

— Vai tentar qual papel? — Beth lhe perguntou.

— Fantine. — Falou decisiva. — Acho a sua carga emocional a mais pesada. — Tossiu. — Até doente como ela eu estou.

— E você, Blake?

— Marius. — Eu disse inseguro.

Ambas arregalaram os olhos, não me espantei. O personagem possuía um tipo de personalidade que eu não tinha. O perfil de herói revolucionário e poderoso estava longe de ser o meu biótipo, no entanto, ainda tinha o talento para representá-lo, supus. A arte era transformadora, sempre mudando, para conseguir esse papel não via motivos para eu não modificar o posicionamento.

— Não se parece muito com o seu perfil. — Uma voz arrastada disse atrás de mim, Yerik.

Ignorei-a, porém Sam não.

— O que faz aqui? — Lhe perguntou ríspida.

— Cumprido com o meu dever no coro, como vocês. — Ele estava sentado atrás de mim.

— Eu sei idiota. Eu quero saber, o que faz perto da gente?

— Gosto desse assento. — Respondeu. Eu não o via, no entanto, poderia julgar como certo o seu sorriso presunçoso estampado em sua face.

— Não gostamos de você. — Beth falou.

— Unanimidade esse julgamento? — Ele perguntou.

— Pode ter como certo. — Sam provocou.

Me mantive em silêncio e imóvel.

— Até você, Blake? — Sua respiração era próxima ao meu pescoço.

Não lhe ia dar o prazer da resposta oral. Me levantei, pegando nas mãos de minhas amigas e caminhei para mais próximo do palco e longe dele.

Quando a folha retornou as mãos da Srta. Margot, ela nos separou em dois grupos, os artistas e técnicos, pessoal da parte produtiva da peça. Dois terços foram para o primeiro grupo e o restante para o outro. Observei a tentativa de Jesse, Zach e Harry de irem para a parte técnica, são os mais tímidos, mas foram impedidos pela mestra. Nenhum membro do coral podia ir para a técnica.

— Srta. Margot, por favor, deixe-me ficar com o cenário – Falou Jesse

— Eu com a sonoplastia. – Harry.

— Iluminação! – Zach falou decidido.

— Não, não. Não desperdiçarei talentos nos bastidores enquanto podem estar brilhando nos holofotes. – Ela dizia.

Separou os artistas pelos papeis que queriam, formando filas de concorrentes. As mais extensas eram as do Jean Valjean, Cosette e Marius. A professora deixou essas por último enquanto organizava as menos concorridas. Seriam duas fazes de processo seletivo. A primeira e agora, seria avaliada pela sua potência vocal, teria que cantar algumas notas. O segundo e último, seria uma apresentação mais complexa e trabalhada, com doses de atuação, passos de dança e canto das músicas do musical.

O primeiro personagem a ser definido foi o da Eponine. Maggie simplesmente massacrou as suas concorrentes desafinadas com os seus graves triunfantes e ficou com o papel. Os seguintes foram de menor relevância, a maior parte para os membros do coral. A escolha mais surpreendente fora Zach, com o seu timbre incomum conseguiu ficar com o personagem Javert.

Javert poderia ser considerado muitas vezes o vilã da história, era um inspetor muito devotado ao seu dever, impiedoso. É a sina de Jean Valjean, porém ainda cruzando com outros personagens de maneira pouco amistosa.

— Eu falei que o senhor atrás das cortinas seria um desperdício. – Srta. Margot parecia mais feliz consigo mesma por tê-lo supostamente descoberto.

A concentração feminina conseguiu ser reduzida para disputas duplas, tanto para Cosette quanto para Fantine. Para primeira, ficou o duelo entre Cami e Georgina, que surpreendentemente era uma excelente soprano, eu nem sabia que ela cantava. Para a segunda, o papel de Sam, ficou ela e Joanne. Seria uma concorrência acirrada, ambas com timbres parecidos. O critério decisivo com certeza seria pela presença de palco, por isso temi por Sam.

— Parabéns. – Fui agraciar minha amiga.

— Obrigada, mas ainda não consegui o papel. – Tossiu um pouco, deveria estar querendo ficar resfriada.

— Se fizer bem igual fez no coral, ontem. Tenho certeza que ele será seu.

Ela ficou corada.

— Estarei competindo com a Jo. – Soou pessimista.

— Ainda bem que sabe. – Joanne apareceu atrás de nós sorrindo.

Ela não possuía malicia, simplesmente se achava boa o suficiente para conseguir o personagem, exalava autoconfiança. Transmitia imponência, mas de maneira delicada. Parecia também um pouco fútil.

— Então você tem que se lembrar com quem está competindo. – Falei, fazendo com que a expressão de Sam ilumina-se.

— Eu lembro, porém eu quero esse papel. – Joanne se mantinha inabalável.

— Pois terá que fazer melhor do que eu. – Sam a cutucou.

— Sempre faço o melhor.

Para Jean Valjean ficaram Steve e outros três garotos desconhecidos para competir. Este Marc também queria, porém ele foi transferido para o papel do Sr. Thénardier, um golpista, lhe causando relutância.

Outro mudado foi Jesse. Ele disputaria comigo e Yerik por Marius. Em minha audição fiquei nervoso e quase errei algumas notas, esperava ser eliminado como os outros cinco que foram dispensados. A Srta. Margot se mostrou inexpressiva ao me observar, causando-me ainda mais aflição, só aquietei-me depois de ter o nome anunciado.

— Não acredito que o irmãozinho da Vick vai concorrer pelo Marius. – Escutei Marc reclamar para Cami.

— Obviamente ele tem talento, mas deve ter também o peso da irmã.

— Ele conseguiu pelo talento. – Yerik me defendeu. – Não pela irmã, se fosse assim você teria conseguindo o Jean Valjean porque namora ela.

Não fiquei muito agradecido pela defesa.

— O defende por quê? – Marc perguntou. – Você vai ter que ajudar a lustrar os troféus nos finais de semana até o Halloween por culpa dele.

— Estou só falando a verdade, não quer dizer que eu ainda não o ache um porre. E a punição foi por Vick, foi ela que me mandou fazer aquilo.

— Típico, foi ridículo como ela. – Cami comentou.

— Você fez o mesmo e ainda por ele. – Marc a provocou. O “ele” era eu.

— Não, na realidade. Fiz o mesmo porque não podia perder a oportunidade de jogar alguma coisa na cara dela e por gosto de fazer apresentações. – Ela sorria com um falso sorriso inocente.

— Meus parabéns. – Sam me abraçou por trás, tirando-me do estupor da conversa alheia.

—x-

Já estava preparado para dormir quando Yerik voltou a me abordar.

— Está me evitando? Me ignora a dois dias. — Ele perguntou.

Não respondi, ajoelhei-me ao lado da cama na pretensão da reza.

— Vou considerar esse silêncio como um sim.

Fechei os olhos e rezei. Quando os abri, levei um susto. Yerik estava sentado ao meu lado e encarava-me. Não consegui evitar fazer a expressão de espanto, arruinando a inexpressiva que usava só com ele.

— Não tínhamos combinado de sermos amigos? — Perguntou sério.

Tentei lhe fazer a melhor, ou pior, reação de desgosto com tais palavras. Ficamos nos encarando por tempo até que fiz menção de ir para cama e ele me deteve.

— Não seja infantil. Fique com raiva por outra coisa não por aquilo... — Não sabia se referia-se ao beijo ou refeitório.

O silêncio novamente pairou. Ele também estava vestido para se recolher. Usava um pijama azulado, que realçavam os seus olhos, com aspecto macio.

— Não. — Respondi ao me levantar, ele me acompanhou.

— Voltou a falar? — Indagou.

— Não.

— Olha, em minha defesa digo que só segui o que a sua irmã mandou...

— Deixe-a fora disso.

— Mas ela está envolvida nisso...

— Não foi ela que me beijou! — Exaltei-me.

Por um milésimo de segundo, percebi que ele ficou apreensivo, porém soube disfarçar bem.

— Do que fala? — Fez-se desentendido.

Fiquei vermelho de raiva. Ele ainda mantinha a feição impassível, isso me irritava. Além de tudo queria me fazer de idiota.

— Sabe do que falo. — Tentei soar controlado, falhando horrivelmente.

— Sinceramente, não faço à menor ideia ao que se refere. — Um sorriso nos lábios despontou. Sabia que se divertia com a situação.

— Você me beijou e foi há dois dias atrás na mesma noite em que me derrubou o suco. – Cuspi as palavras.

Ele sorriu, pressionando os caninos proeminentes nos lábios, ocasionando uma vermelhidão.

— Você está bem?

— O quê!? – Perdia cada vez mais o controle com a sua dissimulação.

— Anda abusando de substancias ilícitas?

— O que está dizendo?

— Estou dizendo que para você dizer isso deve estar chapado.

— EU NÃO USO DROGAS! – Gritei.

— Imagina as coisas, então?

— NÃO IMAGINO NADA!

— Nunca te beijei.

— Beijou sim!

— Beijei não.

— Beijou sim!

— Parece que na realidade você quer que eu te beije, mas isso não vai acontecer, cara. Já aviso.

Eu estava no auge da minha irritação, andava de um lado para o outro no quarto, segurando fortemente meus cabelos, de modo, que doía.

— Para de mentir! – O acusei.

— Não anda imaginando coisas? Vick me contou do seu histórico. – De repente, outra coisa se tornou mais importante.

— O que ela falou da minha história? – Perguntei mais calmo.

— Que perdeu sua mãe em um acidente de barco onde estava presente com a família e como isso acarretou muita coisa, como: seu descontrole emocional e psicológico, tendência a ilusão e criação de situações, distúrbio alimentar e outra coisa que ela não entrou em detalhes...

— Não tinha esse direito. – O interrompi.

— Claro que ela tinha, assim como o fez. Também acrescentou que você necessita ser constantemente o centro das atenções com problemas. Por isso, digo, esse beijo deve ter sido fruto de um desses problemas...

— Estou controlado há muito tempo!

— Mas ainda tem... Controlado? Porém você inventou o beijo...

— Não inven...

— Eu sinto muito que tenha que passar por isso. Eu te perdoou pela acusação sem fundamento e seguimos em frente.

Comecei a duvidar do beijo, seria minha mente pregando peças como antigamente?

— Bleika, você tem que se cuidar. Da pra perceber um descontrole inicial. Tenho a impressão de que você engordou. – Ele continuou.

— Eu engordei? – Perguntei solicito.

Ele entortou a boca e acenou positivamente. Mil e um pensamentos voltaram a minha mente, os ignorei e os coloquei em segundo plano, mais tarde lidaria com eles. Meu foco era outro.

— Ainda vou te evitar pelo suco. – Falei.

— Se imaginou um beijo entre nós e por que no fundo quer de verdade? – Ele pareceu me ignorar.

— Não! Claro que não. – Fiquei automaticamente afogueado.

— Não é o que parece...

— Você que está imaginando coisas agora.

Eu estava no meio do quarto quando ele começou a se aproximar. Ao ultrapassar o limite confortável de distância, percebi que estava me enganando.

— Mentiroso. – Falei.

Foi a vez dele de me ignorar, somente se aproximou mais. Conforme se aproximava, eu me afastava.

— O que está fazendo? – Perguntei ao sentir as paredes em minhas costas.

— Lembre-se bem dessa vez.

Sem escapatória, ele se aproximou e colou nossos lábios. Sua língua foi intrusa, explorando minha boca, tinha indícios do sabor de menta do creme dental. Senti o roçar da sua mão em minha face, ele estava me fazendo um carinho?

No último beijo, eu havia sido pego desprevenido e demorei para tomar uma reação, mas desta vez fui rápido. Fechei minha boca na sua língua, gravando-a, pude sentir o sabor do seu sangue. Ele gritou e eu o empurrei. Correu para o banheiro, eu receoso o acompanhei. No espelho ele estirou para fora da boca a língua ensanguentada e inchada. Me senti um pouco culpado e satisfeito.

— Nunca mais me beije. – Falei baixo.

Olhou-me, fulminando.

—Fo... só... um... bei... jo. – Falou com dificuldades.

— Nem todo mundo encara beijos dessa forma...

— O que? – Conseguiu dizer.

— Sinto muito por ter mordido sua língua, mas ainda acho que você vai pro inferno e está também tentando me levar junto. – Observava-me incrédulo.

Em resposta balançou a cabeça em negação.

— Fique longe de mim. Não sou gay e não estou interessado em seus beijos. – Avisei.

— Também não sou. – A fala soava estranha, mas ainda compreensível. – Estou namorando com Georgina.

Sua fala me deixou duplamente abasbacado.

— Como? – Não consegui me segurar.

— O que? Georgina?

— Então por que me beija?

— Eu não sei... – Me pareceu sincero, porém não me enganei.

— Georgina merece alguém melhor...

Ele se aproximou.

— Sou legal com ela. Desta vez não vai sair correndo?

— Vai continuar sendo um pecado, vou encará-lo domingo na igreja, me confessando, cumprindo a penitencia e me mantendo longe de você.

— Não vai falar comigo?

— Não. – Virei de costas e fui para minha cama.

Queria poder conversar com Mick, ele saberia como me aconselhar nesse momento, porém, não era a melhor pessoa para a situação. Sentia sua falta, mas como dizia meu pai: Fiquemos próximos de quem nos faz bem. No entanto, como saber quem é que te faz bem e o que é te fazer bem.

Esperei o sono me levar, enquanto meu coração palpitava forte no peito e a mente fervilhava com os problemas.

Notas finais
Comecei a gostar de Carnaval com a possibilidade de poder biscatear nos dias de festa, me desejem sorte pois não vou dar, eu vou... Quem está com preguiça de pesquisar sobre Os Miseráveis e tem curiosidade pode me mandar MP que falo sobre a obra. Os personagens importantes terminaram de ser apresentados. Quem tá afim de ver Vick sofrer? Tenho um ask, se quiserem perguntar algo: http://ask.fm/BjsInimig Reviews? uauauau