Tempestuoso
25 Lágrimas
Notas iniciais
O telefone residencial tocou no meio da madrugada da mesma noite, meu pai atendeu pelo aparelho no seu quarto. No mesmo instante que atendia, eu comecei a chorar, eu sabia o que viria, sabia quem ligava e exatamente o que estava dizendo, eu poderia ser ingênuo, mas não era bobo. Eu senti o meu mundo cair, existia um buraco negro no meu coração sugando tudo de dentro de mim, doía de uma forma que eu jamais havia sentido. Puxei um dos travesseiros na cama e o apertei, tentando me livrar daquela dor, porém o choro me consumia, roubando-me até o folego.
Não escutei a porta do meu quarto se abrir ou percebi quanto tempo se passara desde que eu começara a chorar, só notei que alguém entrara, quando essa me abraçou por trás.
— Eu sinto muito, Blake. – Vick sussurrou para mim, meu pai deveria ter lhe pedido para me contar e acalentar.
Afundei o rosto no travesseiro que segurava tentando abafar os sons dos gemidos que eu soltava. Chorava como uma criança, chorava como nos dias que sentia falta da minha mãe quando era pequeno.
— Eu sinto muito. – Ela voltou a falar para mim, na vã tentativa de me controlar. Abraçava-me com firmeza, mantendo sua cabeça do lado da minha, pude sentir suas lágrimas escorrerem sobre mim.
Me sentia culpado, deveria ser minha culpa as pessoas a minha volta sempre morrerem ou sofrerem, de alguma forma era uma maneira divina do criador me punir pelos meus atos, através dos meus queridos. Roguei a Deus por respostas, roguei a minha mãe por respostas, mas ninguém me respondia, me senti mais só do que nunca, mesmo estão nos braços de minha irmã.
— Tenta se acalmar. – Ela sussurrou novamente. – É sério, você sabe como papai é.
Eu sabia exatamente ao que ela se referia, não tinha sido por acaso ser ela a vir me confortar, meu pai não sabia lidar comigo emocionalmente instável. Lembrava-me com clareza das suas reações quando eu tinha crises de choro de saudades da nossa mãe e da sua agressividade. Ele era um homem que acreditava que demonstrações de sentimentos eram análogo a demonstração de fraqueza e homens jamais deveriam demonstrar fraqueza e consequentemente quando eu chorava, eu demonstrava fraqueza.
Aos poucos, fui recuperando o controle da respiração sob as caricias de Vick, era melhor segurar o choro, por mais impossível que parecesse, do que lidar com meu pai raivoso, naquele momento.
— O que exatamente aconteceu. – Minha voz saiu fraca e embargada quando tomei coragem para falar.
Desfizemos o abraço, mas mantivemos o contato com as mãos conforme nos ajeitávamos na cama, eu ainda segurava o travesseiro, de modo que ficássemos sentados um de frente para o outro.
— Ligaram do Hospital... – Era temerosa na escolha das palavras. – Aconteceram duas coisas...
— Pode falar, eu aguento. – Menti, olhando diretamente nos seus olhos quase idênticos aos meus, sem iluminação não podia ver qual cor estavam, porém poderia apostar que estavam mais para verdes, devido ao choro, assim como os meus...
— Emily.... Emily teve uma parada cardíaca. — Vick passou para respirar, estava sendo difícil para ela falar. — Ela ficou muito tempo sem voltar, parece que está em coma, não falaram muito, não se pode falar esse tipo de coisa pelo telefone, você sabe...
Eu voltei a chorar, era uma notícia ruim, mas eu conseguia achar dentro dela uma fagulha de esperança de que tudo ficaria bem no final, Emily estava mal, porém ainda viva. Por um momento realmente tive esperança para um final feliz.
— Não sabem se terá sequelas, os médicos acreditam que sim. — Vick completou.
Respirei fundo tentando ter força para perguntar o que deveria perguntar, pois eram duas notícias e ela só me contará uma.
— E Sam?
Ela desviou o olhar, mordi o travesseiro.
— Não falaram nada, apenas pediram para que o responsável por ela fosse com documentos em mãos ao hospital. – ELA NÃO MORREU GRITEI PARA MIM MESMO EM PENSAMENTO, ELA NÃO MORREU. – Mas você sabe o que isso quer dizer, que o que eles precisam dizer tem que ser dito pessoalmente. — Balancei a cabeça concordando, era antiético dar notícias de falecimento pelo telefone. – Eu sinto muito. – Ela me puxou para os seus braços sabendo como eu reagiria.
Novamente perdi o controle das minhas emoções, apertei minha irmã com toda força possível, tentando eliminar a dor interna que me consumia. Ela me abraçava com a mesma intensidade, enquanto afagava meu cabelo. Por mais que eu já soubesse o que tinha acontecido desde o primeiro toque do telefone naquela noite, a dor parecia aumentar conforme a notícia se tornava real, um fato.
Como em um clichê, uma tempestade começou a cair do lado de fora de casa, combinando com meu choro e com o velório que iria acontecer ainda no outro dia.
— Vai ficar tudo bem... – Vick sussurrava, aninhando-me como uma mãe faria com um filho. – Você é forte. – Balançava a cabeça.
Eu não era forte e não queria ser forte, só queria que as pessoas não me fossem tiradas. Mesmo ao som da tempestade, pude escutar o som do nosso pai saindo com o carro, indo para o hospital receber oficialmente a notícia.
Como era injusto Sam ir embora tão cedo, ela era tão linda, tão viva, tão alegre e boa, não merecia morrer ou ter sofrido o que sofrera. A memória dela sorrindo ia e vinha em minha cabeça, seu perfume de canela, igual ao da avó, fazia parecer que estava ao meu lado. Minha mente criava um cenário perfeito para aumentar o meu desespero.
Aos poucos meus soluços iam se sessando e eu ficava mais calmo, porém as lágrimas eram persistentes, chorava em silencio. Novamente, perdi a noção de tempo, não soube dizer o quanto tinha se passado até meu pai finalmente ligar para casa, novamente, fui poupado, ele ligou diretamente para o celular da minha irmã, assim evitando o risco de ter que lidar comigo. Ela o atendeu no seu quarto.
Ela não precisou dizer nada quando voltou para o meu quarto, eu a conhecia a quase dezesseis anos e foram poucas as vezes que ela me encarara daquela forma, com pena e complacência. Ela se sentou ao meu lado e voltou a me abraçar, dessa vez eu não perdi o controle, apenas continuei a chorar em silêncio.
A noite pareceu perdurar uma eternidade, senti Vick cochilar em alguns momentos, depois que pedira para ficarmos deitados, eu sabia que ela estava fazendo o seu melhor em resistir ao sono e permanecer ao meu lado. Eu, no entanto, estava completamente desperto e com uma dor de cabeça latejante depois de tanto chorar e sem forças para fazer qualquer outra coisa além disso.
O céu começou a clarear, apesar da chuva forte ainda persistir em cair.
— Precisamos avisar aos amigos dela.
— O quê? – Vick balbuciou grogue, deveria estar cochilando, mas atenta aos meus movimentos.
— Precisamos contar aos amigos. – Minha voz saiu rouca e baixa.
— Sim, mas não acha melhor dormir um pouco antes? O dia vai ser bem cansativo...
— Não, não consigo. – Limpei meu rosto com as mãos. — Mesmo que tentasse.
— Tudo bem, quem quer que eu ligue. – Falou solicita.
— Você pode ligar para alguém do clube do Coral e pedir para que ele avise os outros, eu vou ligar para os mais próximos.
— Você vai ligar para sua amiga ruiva? – Ela se referia a Beth. Balancei a cabeça em positivo. – Tudo bem… Tem certeza que quer fazer isso agora?
— Tenho. Se fosse qualquer outro na minha situação, ia querer que eles me contassem assim que acontecesse…
— Okay. – Eu sabia que a pergunta não tinha sido sobre a questão de ligar ou não, mas era sobre eu conseguir ligar ou não.
Ela se levantou da minha cama e foi para o seu quarto.
Tive que tomar um pouco de folego para conseguir ligar para Beth, faltava-me folego e sentia-me prestes a desabar novamente. Olhei para fora, se não fosse a pouca claridade e o horário, o dia poderia facilmente ainda ser noite, devido a intensidade da tempestade.
Naquele momento, entendi completamente a razão de não se dar aquele tipo de notícia por telefone, não existiam palavras apropriadas que transmitissem a mensagem sem soar inadequado ou errado, era insensível. Peguei meu celular e fui até os contatos e encarei o nome de Beth, reunindo coragem e palavras para dizer, não se aprendia isso na escola fundamental, como dar notícias trágicas aos seus amigos e se tivesse, eu gostaria de ser reprovado.
De forma quase sobrenatural, na tela apareceu a chamada de Beth, ela estava me ligando, prontamente atendi, porém, permaneci calado.
— Oi, Blake.
Silêncio.
— Você está aí?
— Estou.
— Desculpa te ligar tão cedo, mas tive um sonho muito ruim e precisava falar com alguém.
— Sim — “FALA PARA ELA” Gritei mentalmente.
— Eu geralmente ligaria para a Sam, mas ela não parecia tão bem ontem de tarde, não queria incomodar...
— O que você sonhou?
Silêncio. – Prefiro não falar em voz alta, para não atrair, sabe? Mas era algo bem ruim, até acendi alguns incensos para espantar o mal...
— Beth...
— Oi.
Silêncio.
— O pesadelo é real? – Ela perguntou.
— Sim. – Coloquei a mão e minha boca evitando que ela escutasse meu choro, não acho que tenha sido bem-sucedido.
— Okay. – Suspirou. – Se importa se eu desligar? – Sua voz estava embargada, ela estava segurando o choro.
— Não.
— Fique bem.
— Você também, eu te ligo mais tarde.
— Tudo bem.
O celular ficou mudo, eu sabia que no outro lado da linha minha amiga deveria estar desabando em lágrimas, porém eu precisava avisar mais duas pessoas: Maggie e Harry. A primeira eu sabia que Sam aprovaria, mas a segunda eu sentia que devia isso a ele, pelo modo que sempre se preocupou e a amou.
Não pensei muito para ligar para Maggie, apenas disquei seu número, deveria me aproveitar da adrenalina da coragem de ter ligado para Beth para fazer as outras duas ligações.
— Maggie?
— Alô, Blake?
— Eu estou te ligando porquê...
Era tão doloroso dizer, eu não conseguia, ainda não estava pronto para, torcia que Maggie entendesse sem que eu precisasse falar como fora com Beth.
— Acho que eu já sei…
Dei uma longa fungada.
— Você está bem? — Me perguntou.
— Não.
— Quer conversar?
— Não, muito obrigado, não agora. Preciso ligar para outras pessoas…
— Tudo bem, nos falamos mais tarde. Tchau.
— Tchau.
Suspirei, precisava de forças para falar somente com mais uma pessoa e poderia ficar calado por um bom tempo, era o que mais desejava naquele momento. Harry estava dormindo, como qualquer outra pessoa normal estaria, por isso, demorou um pouco para atender, acho que só atendeu porque era o meu número.
— Oi Blake, meio cedo.
Sua voz como imaginei era sonolenta. Minha garganta pareceu estar mais seca do que nunca, precisei pensar no que dizer antes de conseguir falar.
— É sobre a Sam, né? Só, por assim para você me ligar tão cedo.
— Sim, Harry é sobre a Sam...
Novamente, suspirei, dizendo para mim mesmo não se desesperar, como se isso fosse possível.
— Meu pai recebeu uma ligação do hospital de noite, era sobre o estado da Sam, chegando lá, eles falaram que ela...
A palavra “morreu” ficou presa na minha boca, simplesmente, eu não consegui dizê-la, novamente desejei que a pessoa que eu conversava fosse inteligente o bastante para entender o que eu queria dizer, sem ter que dizer, mas esse não era o caso.
— Ela, o quê, Blake?
— Harry, ela morreu.
Mordi minha mão para ele não ouvir os meus soluços, pois assim que falei a palavra tabu, desabei. Ele não tomou a mesma prudência, pude ouvi-lo chorar como uma criança no outro lado da linha, escutar o seu choro parecia alimentar o meu, por isso, acabei desligando sem me despedir para não ficar pior do que já estava. Torci para que Vick tivesse avisando as pessoas sobre o falecimento e mais tarde sobre as informações de velório e enterro, pois não tinha capacidade para aquilo.
Fiquei estático no quarto sem fazer nada, apenas esperando o tempo passar. Não sei o quanto tinha se passado quando Vick retornou.
— Hey, acho que você deveria comer e beber alguma coisa, se não, vai acabar desmaiando ou desidratado. — Ela falou do portal da porta.
Não lhe respondi imediatamente, o silencio não me causava uma exata sensação de reconforto, mas era melhor do que falar, parecia mais prudente.
— Estou falando com você. – Ela voltou a falar, soando mais séria.
Eu sabia que ela não desistiria até eu me movimentar.
— Tudo bem. – Lhe respondi baixo, levantando-me da cama, passando por ela e indo para a cozinha.
A cozinha era o pior lugar da casa para eu estar, lembrava diretamente da Emily, tive que me controlar para não voltar a chorar. Vick tinha me preparado uma tigela de cereal e deixado em cima da mesa, me sentei e olhei para o alimento sem a menor vontade de come-lo.
Eu tinha me levantado para beber um copo d’água quando escutei meu pai chegar, caminhei até a porta da cozinha para observá-lo no hall pelo corredor. Ele estava sério e pálido e pareceu nitidamente desconfortável ao me ver, nos encaramos por alguns segundos até minha irmã chegar a abraça-lo, o puxou para sala tirando-o do meu raio de visão.
Ele deveria estar explicando os detalhes de tudo que tinha acontecido, novamente iria me evitar e deixa-la fazer o serviço de contar. E como previsto, Vick foi até a cozinha me contar o que ele lhe contara logo depois.
— Papai vai dormir um pouco, foi uma longa noite para ele também. – Foi a primeira coisa que me falou.
— Tudo bem.
— Você não tomou café? – Ela me perguntou encarando a tigela intacta.
— Estou sem fome, Vick. Quando que vai ser o velório? – Fui direto ao assunto que ela parecia ter medo de me falar.
— Vai ser na igreja da cidade, amanhã de manhã.
— Obrigado.
— Papai falou também que Emily continua em coma, sem previsão de voltar. Ele quer manter ela ligada, tem esperanças, por isso, ele vai transferi-la para uma clínica particular voltada para isso.
A notícia não me pegou desprevenido, estava sendo sucessões de notícias ruins, essa parecia até amena se comparada com a morte.
— Ela tem chances de acordar?
— As mesma que tem de não.
Balancei a cabeça positivamente, estaria mentindo se dissesse que não queria chorar, porém já estava exausto disso.
Sem muitas cerimonias voltei para o meu quarto, o dia passou rápido, mesmo sem eu fazer absolutamente nada. Papai ficou a maior parte do tempo depois que acordou resolvendo os documentos e papeladas do enterro e da transferência de Emily, não nos falamos em momento algum. Vick vinha com frequência me oferecer comida e agua, eu negava na maior parte das vezes, até que me dei por vencido e aceitei um suco de laranja e duas maçãs no final da tarde.
Meu celular fervia de mensagens, as pessoas me perguntavam se eu estava bem e sobre quando seria o enterro, eu as ignorava, quem eu realmente poderia responder não me mandara mensagem. Acabei cedendo ao cansaço, sem perceber, no início da noite e só fui acordar pela manhã do dia seguinte quando Vick bateu na porta do meu quarto.
— Blake, está na hora. – Seu tom era calmo, diferente do imperativo habitual.
Abri meus olhos e olhei para o teto branco, aquele dia seria pior que o anterior e seria uma maratona fúnebre, meu peito apertava, a vontade de chorar tinha aparecido no mesmo instante que abri os olhos, mas deveria ser forte. Fui me arrumar no banheiro e o toque com a água estava ainda pior que o normal, mal aguentei lavar o rosto. Após um “banho”, procurei meu terno de enterros no fundo do armário, a última vez que o usara tinha sido no enterro da antiga diretora no St’Agnes, mais de seis meses atrás.
Eu não tinha parado para pensar que eu seria um dos primeiros a ver Sam no enterro até chegar a porta da igreja e ver o padre nos esperava. Meu coração acelerou quando eu vi a foto dela, do anuário escolar daquele ano, impresso no tamanho de uma folha A1 no espaço que ficaria seu caixão, o ambiente já estava lotado de flores, esperando somente a sua chegada.
Papai ficou conversando com padre, depois que eu e Vick o cumprimentamos e entramos na igreja.
— Tinha esquecido que iriamos recepciona-la. – Comentei baixinho.
— Se não estiver bem, pode ficar em algum lugar e quando estiver mais cheio eu te chamo. – Vick segurou na minha mão.
— Não precisa, eu estou bem. – Sorri de boca fechada.
Na foto, Sam estava com o cabelo já curto, ela sorria, lembro-me que o dia da foto tinha sido logo após ela ter enviado o seu histórico escolar para avalição das faculdades que queria, ela estava feliz, confiante e até um pouco aliviada, parecia ter acontecido anos atrás.
— Blake. – Vick me chamou, eu tinha me distraído com a foto. – O caixão chegou.
Olhei para trás e vi o pessoal da funerária entrando com o caixão pela porta da igreja, Vick e eu nos afastamos para eles puderem colocá-lo no seu devido lugar. Então, eu finalmente a vi.
Sam parecia estar dormindo, o pessoal da funerária ajeitava as flores de dentro do caixão, eram margaridas, o seu aroma inundou a igreja. Sua aparência estava bem melhor que no seu último dia no hospital, deviam ter a maquiado bem para conseguir disfarçar sua luta dos últimos dias.
— Você está bem? – Vick perguntou.
Balancei a cabeça positivamente.
Os funcionários da funerária, não demoraram muito e logo partiram para conversar com meu pai. O modo que Sam estava quase me fazia acreditar que tudo seria uma pegadinha e que no meio da cerimonia, ela levantaria do caixão rindo de todos nós que acreditamos na sua morte. Caminhei lentamente até o seu corpo para poder observá-la melhor, Vick não soltava minha mão em momento algum.
Quando cheguei finalmente ao lado do caixão, senti seu aroma de canela compartilhado com a avó misturado com o das margaridas, sua expressão era de paz, autenticando a veracidade dos seus sentimentos no último momento comigo.
— Você parece em paz. – Falei.
— Ela parece mesmo. – A voz de Vick estava embargada.
Por incrível que pareça Vick que chorara primeiro que eu.
— Ela queria isso, contou para mim anteontem, que só queria ficar em paz. Espero que ela tenha conseguido, espero não, tenho certeza.
— Ela era muito boa para você. – Vick me acariciou nas costas.
— Ela foi a primeira pessoa que eu conheci pessoalmente que eu senti gostar de mim de verdade, como alguém, não por pena ou criação. – Sorri. – Ela gostava de mim, acreditava em mim.
— Sabemos o quanto isso é difícil. – Ela sussurrou.
Balancei a cabeça concordando.
Estiquei a mão e acariciei o rosto de Sam, estava gelado, não tinha mais vida, procurei por suas mãos e estavam igualmente frias como o seu rosto.
— Eu vou sentir tanto, mais tanto a sua falta. – Falei, apertando a mão dela.
Nossa despedida já tinha acontecido anteontem, quando eu fui embora daquele hospital sabia que ela não resistira por muito mais tempo, mas quis me enganar ou não ser um realista pessimista.
Ter visto Sam, pareceu acelerar o tempo, logo os convidados foram chegando e se acomodando na Igreja, Vick e meu pai ficaram na porta para recepciona-los, era imensamente agradecido por ter sido dispensado para poder apenas esperar tudo aquilo logo acabar. Meus pensamentos iam para a dor da perda e para a injustiça que era não ter Emily ali, nenhum dos presentes eram de familiares dela, a única pessoa que era não estava.
— Oi. – Beth me assustou quando se sentou no banco atrás de mim.
— Oi. – A encarei.
Beth estava usando um vestido florido e colorido, bem contrastante com o luto católico preto de todos os presentes.
— Gostei do vestido. – Sorri fraco.
— Eu sei que é triste, mas não acho que era quereria que fosse triste. – Ela retribuiu o sorriso fraco.
— Entendo.
— Você não está bem, né. – Não perguntou, afirmou.
— Nenhum um pouco, eu estou sentindo tanta coisa que eu não consigo nem me expressar. Eu... – Fiquei sem palavras. – Apenas consigo chorar. – E como se estivesse as chamando, lágrimas brotaram do meu rosto. – Eu queria apenas parar de sofrer, por um instante.
Beth não me respondeu, ela estava tão mal quanto eu, a diferença era como encarávamos aquele sentimento, ela estava quase que radiante com o vestido, o rosto inchado quebrava o encanto, mas profundamente triste, eu, por outro lado estava com uma aura pesada.
Mais convidados foram chegando, não conhecia um terço deles, outro terço conhecia apenas de vista do meu bairro ou do St’Agnes.
— Todo mundo agora virou amigo. – Foi a primeira coisa que Maggie falou ao sentar ao lado de Beth.
— Vieram prestar solidariedade. – Respondi.
— Claro. – Ela revirou os olhos. Maggie deve ter reparado na tristeza no meu olhar, pois sua expressão logo mudou. – Você está bem?
Não lhe respondi diretamente, apenas dei de ombros como se isso fosse suficiente como resposta. Ela não me respondeu, se endireitou na cadeira e ficou amuada, em um primeiro momento, poderiam até lhe julgar expansiva, mas quando tinha que lidar com reais sentimentos e dramas internos, Maggie se fechava como uma muralha.
Depois disso a cerimonia não demorou muito tempo para começar, o padre início as rezas e o discurso de despedida, os presentes apenas acompanharam o ritmo dele. Admito não ter prestado muita atenção nessa parte, pois comecei a ficar ansioso e inquieto. Eu poderia ter chorado rios de lágrimas no último dia, mas somente naquele momento o fim da minha amiga começou a parecer real. Não sei exatamente quando comecei a chorar compulsivamente ou quando repararam que eu estava fazendo isso, subconscientemente tive o cuidado de não chorar alto, mas quando a Sra. Underwood tinha sumido ao palanque para fazer um discurso sobre Sam que senti ser arrasto por alguém para uma capela adjacente da igreja.
— Blake, você precisa se controlar. – Vick que tinha me arrastado. – Se você não aguenta, acho melhor você voltar para casa. – Ela não estava brava, mas preocupada.
— Não, eu... estou... bem. – Falei pausadamente limpando o meu rosto.
— Não está. – Ela me abraçou. – Não está, mas vai ficar.
Ficamos poucos minutos abraçados até ela retornar a nave principal da igreja e me deixar, me acalmando na capela. Ouvi por lá, outros subirem para discursar, quando o padre retornou ao palanque, tomei também coragem para voltar ao meu lugar na primeira fila.
— Alguém mais deseja se despedir da Srta. Samantha White?
Senti novamente uma sessão de ansiedade tomar conta de mim, eu deveria dizer alguma coisa, ela era minha melhor amiga e eu era o seu melhor amigo, tínhamos um forte laço, eu acima de ninguém ali, talvez não Beth, teria o que dizer de bom sobre ela. Percebi que minha família também estava ansiosa em relação a mim, estava prestes a ir a frente e tomar a palavra, mas desisti no último instante.
Depois disso, o padre não demorou muito logo encerrou o velório e encaminhou a todos para o cemitério nos fundos da igreja, a cidade era pequena, consequentemente o cemitério também.
A pior parte foi quando fechou o caixão definitivamente para sempre, nunca mais aquele corpo teria o contato com a luz do sol, era o momento para despedida final. Eu não fiz uma escanda-lo, mas não pude segurar as lágrimas após lhe acariciar o rosto pela última vez. Foram precisos seis homens para carregar o caixão até o logo do enterro, eu fui deles, poderia não ser forte, mas eu sentia que devia fazer aquilo, não bastasse os estranhos presentes, eles também não iriam fazer esse tipo de coisa sozinhos.
O corpo de Sam era pesado, mas era um peso mínimo se comparado a todo o significado que aquele gesto era para mim em relação a ela. Quando chegamos ao local, percebi que tinha mais flores que dentro da igreja durante o velório e que a cova não muito funda, acho que de pouco menos de um metro de profundidade e com o montinho de terra recém mexida úmida do lado.
Notei que alguns dos presentes da igreja tinham ido embora, não que fossem fazer falta, mas realmente o enterro não era para qualquer um, os ainda presentes, em maioria, seguravam uma flor branca e uma vela. Vick e Beth me abraçaram assim que depositei o caixão no chão com os outros homens, me levaram até aonde estava meu pai para encerrarmos tudo aquilo. Atrás de mim, muito próximo, senti Maggie com mais alguém, olhei para trás e era o Yerik. Ele estava com os olhos vermelhos e extremamente azuis devido ao choro, por intuição sentia que suas lágrimas eram verdadeiras e carregava consigo um par de flores copo de leite. Ao perceber que eu o observava, me encarou, foi uma troca de olhares de cumplicidade, sem qualquer malicia e com a maior delicadeza do mundo colocou uma das flores na minha mão, esbocei um fraco sorriso de agradecimento.
O padre voltou a falar, dessa vez foi bem mais breve e novamente perguntou se alguém queria se pronunciar, sua insistência me fez questionar se meu pai tinha fala alguma coisa ao homem de deus. Para minha surpresa, Maggie se manifestou.
— Eu gostaria de dedicar uma canção a ela, éramos do Coral, nos conhecemos lá. – Ela falou em bom tom para todos ouvirem. – A música de certa forma nos uniu e acho que ela iria aprovar essa.
O padre cedeu o espaço central para ela.
I fought for you
The hardest, it made me the strongest
So tell me your secrets
I just can't stand to see you leaving
But heaven couldn't wait for you
No, heaven couldn't wait for you
Heaven couldn't wait for you
No, heaven couldn't wait for you
So go on, go home
We laughed at the darkness
So scared that we lost it
We stood on the ceilings
You showed me love was all you needed
But heaven couldn't wait for you
No heaven couldn't wait for you
Heaven couldn't wait for you
No heaven couldn't wait for you
So go on, go home
But heaven couldn't wait for you
No heaven couldn't wait for you
Heaven couldn't wait for you
No heaven couldn't wait for you
So go on, go home
But heaven couldn't wait for you
No heaven couldn't wait for you
Heaven couldn't wait for you
No heaven couldn't wait for you
So go on, go home
So go on go home
Padre Nuestro
Que estas en el cielo
Santificado sea tu Nombre
Venga tu reino
Hagase tu voluntad
En la tierra como en el cielo
Amen
E pela primeira vez, Maggie fez uma apresentação em que o foco não era sobre ela, estavam expressando seus sentimentos da maneira mais pura que conseguia. A todo momento eu quis chorar, mas me mantive firme. Quando ela terminou todos bateram palmar, Maggie começou a chorar, Beth me soltou e foi ampara-la.
O padre agradeceu pela canção e novamente perguntou:
— Mais alguém? – Seu olhar obviamente se dirigiu a mim.
Era agora ou nunca, se fosse falar ou fazer alguma coisa era naquele momento, meu coração bateu tão forte que parecia que ia rasgar meu peito e pular para fora, nenhum dos presentes olhando para mim poderia imaginar que estaria naquele estado.
— Eu gostaria de dizer, de cantar uma última canção também. – Levantei a mão, ao falar por impulso.
Todos me encararam, novamente o padre cedeu o seu espaço, olhar para a cara de cada uma daquelas pessoas, no estado emocional que estava, era opressor, me sentia nervoso, mais que o normal.
We know full well there's just time
So is it wrong to toss this line?
If your heart was full of love
Could you give it up?
'Cause what about, what about angels?
They will come, they will go, make us special
Don't give me up
Don't give
Me up
How unfair, it's just our love
Found something real that's out of touch
But if you'd searched the whole wide world
Would you dare to let it go?
'Cause what about, what about angels?
They will come, they will go, make us special
Don't give me up
Don't give
Me up
'Cause what about, what about angels?
They will come, they will go, make us special
It's not, about not about angels, angels
A cada verso da música minha voz ficava mais instável, quando finalmente terminei a canção sabia exatamente o que viria a acontecer, porém não tinha forças o suficiente para evita-lo. Eu simplesmente caí, sentado no chão de grama em uma crise de choro, na frente de todos.
Vick foi a primeira a vir ao meu encalço, eu chorava compulsivamente, Marc teve que aparecer sei lá dá onde para me carregar de volta a igreja. Isso é tudo o que eu lembro daquele momento, antes de minha crise ficar mais forte e só tomar memoria novamente ao estar em casa, após o enterro ter definitivamente acabado.
—x-
— Você está melhor? – Beth foi a primeira pessoa a falar comigo, eu estava sentado no sofá da sala de estar de casa.
A extensão do velório após o enterro em casa era insuportável, não entendia o porquê dessa tradição, as pessoas não poderiam simplesmente deixar os familiares do falecido sofrer em paz, no conforto de suas casas, sem ninguém.... Não podiam. A maioria dos presentes eram amigos de Emily, ela era muito adorada pela vizinhança, eram longos anos de amizade com muitos, mas ninguém era realmente parente de Sam, isso me incomodava profundamente, só não mais que ausência de Emily. Do St’Agnes, tinham ficado menos pessoas que no enterro, ou seja, quase ninguém.
A crise de choro me deixava envergonhado, mas não era uma coisa que eu queria pensar naquele momento.
— Estou. – Respondi para ela, ao seu lado estavam sentados alguns membros do coral.
— Tem certeza, porque durante... – Abigail começou a falar.
— Estou bem. – A interrompi. – Não quero falar sobre isso. – Fui sincero.
A grosseria da minha resposta serviu de repelente para qualquer outro tentasse falar comigo, depois me arrependeria pela falta de educação com alguém tão amigável como a Abi. Passei um tempo olhando para o nada e tentando não pensar em nada, porém, não muito tempo depois de recordar os sentidos senti uma mão pesada sobre o meu ombro.
— Por favor, agora que se recuperou receba a todos em casa. – Meu pai falou ao passar por mim.
— Certo. – Lhe respondi.
Pelo seu tom, sabia o que esperava depois, a vergonha que eu o tinha feito passar, respirei lentamente, aquele definitivamente não estava sendo um dia ou já noite fácil.
Recebi a todos ao máximo que conseguia, conversei com meia dúzia de pessoas, ouvindo as mesmas coisas e lamúrias, eu sabia que era verdadeiro o sentimento delas, mas eu simplesmente não aguentava mais aquilo. Alguns perguntavam sobre meu estado emocional, eu sempre respondia que estava bem e desconversava.
Passado um tempo, avisei Vick e Beth que iria para o meu quarto e sem despedir de ninguém fui para o andar de cima. Os reflexos da minha crise começavam a me afetar. Pela janela, vi os convidados finalmente irem embora aos poucos, as lágrimas agora pareciam ser uma companheira de anos devido a sua regularidade, felizmente não eram de um surto.
Eu estava distraído quando alguém bateu na minha porta, esperava ser meu pai me repreendendo pela minha falta de educação e pelo acontecido, no entanto, era outra pessoa.
— Oi, Bleika. — Yerik me encarou nervoso.
— Oi.
— Sua irmã me falou que você tinha ido para o seu quarto, queria poder me despedir antes de ir embora... estava chorando novamente? – Ele mudou de assunto que viu meu rosto molhado.
— Um pouco. – Confessei, limpei o rosto com as costas da mão. – Mas não como da última vez, estou controlando a situação.
— Você deixou todos preocupado, quero dizer, eu fiquei bem preocupado com você. – Nos encarávamos, quando ele falou isso, desviou o olhar.
Ouve um pequeno momento constrangedor com ele parado na minha porta, sem ninguém dizer nada, até eu tomar coragem para convidá-lo:
— Quer entrar? – Lhe dei abertura para passar, senti que ele queria me falar alguma coisa, pois estava inquieto.
— Sim. – Ele entrou um pouco desconfortável, não era a sua primeira vez no meu quarto, mas agia como se fosse, até mais do que na primeira vez para ser sincero.
O silêncio, às vezes, pode comunicar ou significar algo melhor do que com palavras, e foi essa ideia que ele passou, após ele entrar no meu quarto e ficarmos em um silencio constrangedor. Ficamos em pés um olhando para a cara do outro, até eu sentar na minha cama e ele começar a falar.
— Sinto muito por tudo, principalmente por ter dificultado sua vida de alguma forma. – Ele estava nervoso, eu sentia isso, assim como estava muito difícil de entender o seu inglês. – Sinto muito por ter perdido sua melhor amiga.
— Obrigado, não que eu não esteja acostumado a perder as pessoas que amo. – Disse sincero com um sorriso fraco, uma lágrima solitária escorreu.
— Eu também queria dizer mais outra coisa.
Ele se sentou ao meu lado, bem próximo, limpando a gota com as mãos tremulas e me fazendo uma caricia suave. Eu fiquei tenso, como se precisasse controlar a minha respiração, a proximidade não me causava desconforto, mas me causava ansiedade. A sensação parecia ser compartilhada.
— Esse é um péssimo momento..., mas...
Eu o encarava atento a cada a palavra e o percebi se aproximar de mim quase que câmera lenta, poderia ter fugido, mas não.
Nossos lábios se tocaram levemente, minha boca estava seca comparada com a úmida dele, fizemos movimentos suaves sem pressa ou ansiedade, bem diferente de como estávamos antes, era o nosso primeiro beijo calmo e sincero. Toque era inicialmente áspero, mas aos poucos se suavizava.
Senti sua mão tocar na minha nuca, pressionando-me um pouco mais para ele e intensificando o beijo, nossas línguas pareciam dançar uma dança lenta, mas sensual.
Em um último momento de lucidez, coloquei a mão no seu peito e o empurrei.
— Não. – Falei me levantando de supetão e correndo para a janela. Meu coração batia acelerado, eu voltara a chorar e soluçar. – Eu não posso... não posso... – Falei sem olhar para ele.
Eu me segurava para não chorar vergonhosamente, eu queria tanto voltar a beijá-lo, mas não podia, era errado e o momento era inadequado. Cerrei meus punhos na tentativa de extravasar minha angustia naquele momento.
— Blake, você pode. – Ele falou se aproximando.
Neguei com a cabeça.
Ele segurou nas minhas mãos, eu evitava encara-lo.
— Eu te amo, Blake.
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