Tempestuoso
26 Sob a Água
Notas iniciais
Aquele verão em especial pareceu durar uma eternidade, eu não fiz absolutamente nada além de existir e esperar que algo acontecesse. Foram dias difíceis e solitários, não teve um dia se quer que eu não pensasse em Emily e Sam, estar em casa era ainda pior para lembrar da minha antiga babá, eu nunca havia estado ali sem a sua presença, desde que eu me entendia por gente.
Emily tinha sido levada para a casa de repouso que cuidaria do seu estado de maneira mais dedicada do que no hospital, um mês após o enterro de sua neta. Eu não fui vê-la no dia que a transferiram, seu estado permanecia o mesmo desde então. Meu pai aos poucos foi voltando para a sua rotina normal de trabalho e Vick também, aos poucos, foi me deixando sozinho em minha aura de luto e tristeza para sair com seus amigos, suspeitava que ela poderia estar se relacionando com um novo cara.
Evitei ao máximo todos os meus amigos, não queria conversar com eles, apenas mantinha o contato com o meu amigo mais antigo, Mick. Porém, nossa relação não parecia ser mais a mesma, ele não parecia ser mais a mesma pessoa e eu também não era mais o mesmo. Conversávamos, todos os dias até o dia em que fui extremamente grosseiro com ele e ficamos sem se falar desde então, eu queria pedir desculpas, mas ao mesmo tempo não tinha força de vontade para fazer.
Outra pessoa que eu não falara mais, era Yerik, acho que ele tinha desistido de mim depois do modo que agi após ele dizer que me amava. Eu simplesmente paralisei com a declaração e não falei absolutamente nada, ele implorou para que dissesse algo, mas eu fiquei calado, o vi partir decepcionado, sem fazer nada. Não sabia como reagiria quando o visse novamente, dividíamos o mesmo quarto. E foi com esse pensamento que cheguei no St’Agnes no primeiro dia de aula oficial.
A escola não estava diferente do normal, a única coisa nova eram os rostos novos dos novatos, passei tranquilamente pela fila deles na entrada, recordando do meu primeiro dia e seguindo para o meu tão conhecido dormitório. No caminho, reparei nos olhares que me acompanhavam, tinha se passado três meses desde a morte de Sam, mas ainda era um assunto muito vivo nas rodas de conversa, já que quando ela morrera já tinha acabado as aulas. A outra razão do falatório poderia ser meu peso, eu tinha engordado treze quilos durante as férias, quando falei que não fazia nada, menti, eu comia na maior parte do tempo.
— Não acredito que você não respondeu minhas mensagens, o verão inteiro. – Escutei a voz da Maggie escoar pelo corredor.
Me virei para encara-la, ela estava exatamente igual a três meses atrás.
— Oi, Maggie. – Lhe respondi, sorrindo fraco.
Ela correu na minha direção e me abraçou fortemente, retribui a intensidade do abraço. Temi que minha aura de solidão e tristeza lhe contaminasse.
— Senti sua falta. – Sussurrou no meu ouvido.
— Eu também senti a sua. – Falei ao desfazer o abraço.
— Por favor, só não some mais, eu fiquei completamente desesperada. – Ela falava muito rápido e alto. – Eu quase fui na sua casa ver se você estava vivo, mas Beth não deixou, ela falou que você deveria querer ficar sozinho por um tempo.
— Ela estava certa. – Respondi sozinho. – Mas agora eu estou bem, acho que indo devagarzinho.
— É isso aí. – Beth me incentivou. — Um passo de cada vez.
Acho que durante as férias, Beth tinha ficado tão mal quanto eu, a diferença era como ela lidava com a morte, acreditava em ser apenas mais um rito de passagem que todo mundo inevitavelmente teria que passar. Eu, no entanto, não sabia mais no que acreditar, se existia um céu após anos de sofrimento em terra ou era apenas o fim.
— Eu estou muito animada com o musical esse ano, eu vou ser a protagonista. – Maggie parecia em êxtases.
“Sam morreu faz três meses e a coisa mais importante para você, parece ser o musical”, uma vozinha falou na minha cabeça ao ouvir Maggie falando. Essa vozinha parecia toda vez que alguém parecia estar seguindo com a vida. Por sorte, conseguia conte-la na minha mente.
— Distância. – Uma Irmã falou ao nos ver.
Com o novo parecia que a diretora carrasca, também tia de Alex deveria ter voltado e com ela, os rígidos decretos de segregação de gênero. Para evitar atrito ou uma possível punição logo no primeiro dia letivo, me afastei das meninas.
— Mas como você já sabe qual musical vai ser?
— Porque eu vi no cronograma da professora de teatro hoje, eu sou muito espiã. — Ela riu.
— Você é sorrateira. – Beth a encarou.
— Olha quem fala, mas é melhor eu estar preparada...
— Qual vai ser o musical? – Perguntei.
— Cabaret! Tem alguém mais Sally do que eu? Já estou afiadíssima em “Maybe This Time”. – Olhou para o horizonte, como se já estivesse visualizando a noite de estreia, não era nem a audição, porque ela já era convicta do papel.
— Realmente não vejo outra pessoa sendo a Sally melhor do que você.
Sally era uma personagem sonhadora, de grande personalidade e que almeja o estrelato, muito parecia com a Maggie.
— Vocês não foram a festa de iniciação, perderam os calouros que entraram no Coral, eles são bons, mas nada comparado com a nossa leva do ano passado. – Maggie falou mudando completamente de assunto. — Mas, poderão ver hoje.
— Quantas pessoas entraram? – Perguntei.
— Três, duas meninas e um menino. O menino e a menina são primos e a outra menina é estrangeira.
— Ela fala nossa língua? – Beth perguntou.
— Sim, mas com um sotaque fortíssimo, ela é de algum país muçulmano ou coisa assim, ela é uma refugiada.
— Que interessante. – Beth comentou. – Talvez ela precise de ajuda para se adaptar a uma escola católica, sendo muçulmana.
— Mas ela veio de um país muçulmano, não quer dizer que ela seja. – Comentei.
— Ela usa o pano cobrindo o cabelo, ela é muçulmana. – Maggie esclareceu.
Nós ficamos conversando por um tempo, até eu decidir ir para o dormitório guardar minha mochila e encontrar com elas mais tarde para passearmos no bosque. O restante do colégio estava perfeitamente igual a antes, nada de diferente, incluindo a Ala masculina, que estava um caos, após um ano percorrendo aquele lugar, minhas pernas seguiam um caminho automaticamente. Meu quarto era o mesmo, fiquei apreensivo em encontrar meu colega de quarto e ter que encarar a situação que estávamos um com o outro, seria no mínimo, constrangedor.
Assim que eu abri a porta, Yerik me encarou, percebi que sua expressão mudara assim que me vira, ficou com o semblante sério.
— Olá. – O cumprimentei, entrando no quarto. – Como foram as suas férias?
Eu tentava agir de maneira cordial, como se nunca tivesse acontecido nenhuma declaração ou tivesse qualquer histórico dramático entre nós. Não acredito ter sido a melhor das ideias a ser adotada em um primeiro momento.
— Boas. – Ele respondeu ríspido, saindo do quarto sem cerimonias.
Não queria me ver ou conversar comigo, não podia culpá-lo, eu simplesmente ignorei os seus sentimentos, qualquer pessoa ficaria com raiva. Seria um ano difícil entre nós e a culpa era toda minha, mas por que ele tinha que se declarar justamente após o enterro de Sam, eu não tinha qualquer emocional para lidar com aquilo, isso se um dia tivesse para lidar com o fato de um garoto me amar. Não estava preparado para aquilo, mas eu devia ter lhe dito pelo menos alguma coisa, mas não o fiz.
—x-
Os dois primeiros dias em St. Agnes seguiram na maior tranquilidade possível que eu conhecia para aquele lugar, basicamente as pessoas só sabiam fofocar, falar das mudanças uma das outras, sejam na aparecia ou no status de relacionamento, elas agiam como se tivessem ficado três meses sem o menor contato uma com as outras, o que não era verdade pois se viam ou conversavam nas redes sócias a todo momento. Eu queria voltar a ser semi-invisível, como no começo do ano anterior, porém além da sombra de ser irmão de Victoire McCarthy, tinha o fato do ganho de peso, meus meses de reclusão e a morte da melhor amiga, ou seja, eu era um grande e literal alvo para as rodas de fofoca. Conforme passava, as pessoas cochichavam sobre mim, felizmente não conseguia ouvir nada, porque temia que seu eu ouvisse algo, não saberia qual seria a minha reação.
As regras da antiga nova diretora modificariam significativamente minhas dinâmicas diárias, não eram tão rígidas como na primeira vez que foram implantadas, porém, não conseguia ficar mais próximas das minhas amigas, como antigamente, então passava a maior parte do tempo sozinho, o que não era nada bom para o meu estado atual.
— Sinto muito por sua perda. – Foi a primeira coisa que Alex me falou, ao me assustar no corredor, na volta para as aulas após o almoço. Eu andava pelos corredores de modo anestesiado, para evitar ouvir algum comentário improprio.
— Oi! Que susto! – Falei desnorteado com a chegada repentina. – Obrigado.
Ele apenas acenou com a cabeça, não tinha mudado muito nos últimos três meses, continuava com a mesma inexpressão, olhos marcados de olheiras e aspecto frio. Ele não havia tentado nenhum tipo de contato comigo nas férias, muito diferente da maioria das pessoas que tive que ignorar.
— Como você está? – Lhe perguntei enquanto acompanhava-me para nossa aula de redação avançada, era a primeira aula após o almoço.
— Bem. – Monossilábico.
— Como foram as férias?
Ele ficou um pouco pensativo antes de responder, até parando de andar.
— Normais, acredito que essa seja a melhor resposta. – Soou misterioso como sempre, reparei que nas suas mãos haviam algumas cicatrizes recentes, fiquei tentado a lhe perguntar sobre a sua procedência.
— Legal. – Sorri, continuei andando.
Em outras circunstâncias eu tentaria puxar assunto, mas tudo naquela escola estava me incomodando, como se algo estivesse errado, eu guardei esse sentimento comigo nos últimos dois dias, porém estava começando a me sufocar. Conversar com Alex estava deixando-me tenso, como se ele estivesse medindo exatamente cada palavra que eu dizia, se antes, ele me gerava curiosidade, atualmente, estranhava-me.
— Você engordou. – Ele comentou baixo ao meu lado.
Eu não era exatamente uma pessoa frágil em relação a minha aparência e existiam poucas coisas que me desestabilizavam, falar do meu peso era uma dessas coisa. Quando Alex falou que eu engordara, foi como tivesse me dado um balde de água fria e me jogado em um poço profundo e sem fim, aonde eu ficaria caindo pela eternidade. Meu corpo inteiro se arrepiou, desejando ter uma armadura para poder esconder-se.
— Sim. – Essa única palavra lutou arduamente para sair da minha garganta, pois tinha perdido qualquer controle sobre mim além de continuar andando.
Inevitavelmente, corei, suspirei e cerrei os punhos, tinha que controlar para não me perder. Era só um simples comentário, repeti para minha algumas vezes, antes de finalmente reiterar completamente o controle.
— Você não está feio. – Ele voltou a falar, não sei se percebera o meu desconforto e falara para melhorar a situação ou se achava realmente aquilo. Não lhe respondi, apenas lhe observei pelo canto do olho. – Eu queria lhe perguntar outra coisa. – Fiquei levemente intrigado.
De supetão, puxou-me pelo pulso para uma pequena saliência entre os armários do corredor que dava acesso a um armário de vassouras desativado, rapidamente abriu a porta e nos entoucou lá dentro. O lugar fedia a mofo, estava vazio, se não contasse as inúmeras teias de aranha e poeira, não havia iluminação além da que vinha pelas frechas da porta.
— O que você está fazendo? – Lhe perguntei assustado.
O espaço era tão pequeno que as costas deles tocavam ao fundo do cômodo e as minhas a porta e ainda assim estávamos extremamente próximos um do outro.
— Apenas quero manter a privacidade para o que quero perguntar. – Senti sua respiração bater do meu rosto, o lugar estava ficando abafado.
— Pergunte! – Quase gritei.
— Fale baixo, eu não estou te violando! – Ralhou entre os dentes.
Ele tinha razão, eu estava a um tom de estar histérico, mas estava assustado com a sua abordagem. Com o tempo, fui me acalmando e me acostumando com o lugar, apesar do abafado só piorar.
— Me desculpe. – Falei em um suspiro.
—Ok, eu só queria saber como você está lidando com aquele nosso pequeno demônio interno em comum? – Foi direto ao assunto.
— O quê? – Não compreendia ao que ele se referia, seus lábios me distraiam, eram finos, mas rosados.
— Falo do nosso pequeno pecado de desejo de deitar com outro homem. – Soou impaciente.
Fiquei vermelho, imediatamente a declaração de Yerik assombrou a minha mente, eu tinha ignorado essa questão da minha vida no tempo de luto, não tinha espaço para lidar com essa culpa. Mas com a pergunta de Alex, ela voltou com tudo dando-me uma bofetada de “olá”. Eu tinha que lidar com esse sentimento tão errado, mas tão bom e com meu conflito com Yerik, eu quase conseguia me aceitar como alguém não comum de sexualidade, mas ainda era difícil. Lembrei-me de quando contara para as minhas amigas sobre a situação de Alex e de como elas desaprovaram o seu comportamento, isso vez um pequeno sinal de alerta acender no meu subconsciente naquele momento.
— Eu não estou lidando. – Lhe respondi com sinceridade. – Simplesmente não penso nisso. – Menti.
— Entendi. – Seus olhos acinzentados pareciam analisar a veracidade das minhas falas. – Eu estou namorando, Georgina, acho que ela namorou com o seu colega de quarto. – Seu tom soou quase como provocador, não entendia aonde ele queria chegar.
Fiquei surpreso com o que falara, da mesma forma que ficara quando ele namorara Maggie. Alex não parecia ser um cara namorador, nem o tipo de cara que namoraria a perfeita Georgina. Outro pensamento que me ocorreu fora do seu abandono a Maggie quando ela mais precisara dele e do modo que ela confessara que ele era distante na relação.
— Legal. – Sorri, lhe encarando.
Georgina estava pegando o costume de se relacionar com os garotos que de alguma tinham uma relação estranha comigo, cogitei a possibilidade dela ser o Mick e fazer disso como algum jogo psicológico doentio, pois ele era a única pessoa com quem eu conseguia, na maioria das vezes, confessar meus sentimentos e situações vividas. Porém, da mesma forma que essa loucura passara pela minha cabeça, eu a espantei.
— Mas se quiser, nós podemos... – Sua postura mudara radicalmente, aproximou-se de mim, tocando-me o rosto. – Nos encontrar e... – Deixou subentendido.
Observei em câmera lenta, ele se aproximar de mim e colocar nos lábios em um rápido beijo, se possível, senti o local ficar ainda mais quente. Eu tinha desejado beijá-lo em um primeiro momento naquele armário de vassouras, mas não estava mais com vontade, sentia-me estranho.
— Senti sua falta, mesmo que agora você tenha engordado. – Ele falou assim que parou de me beijar, mas sem se afastar.
Falar, novamente, do meu peso foi como um estalo para me despertar da situação. O empurrei delicadamente para trás, tentado arrumar algum espaço.
— Alex, você me pegou... completamente... desprevenido. — Tentei formular alguma coisa para lhe dizer. – Mas... – Fiquei um pouco hesitante. – Declino de sua oferta, não acho que seria uma coisa certa de se fazer, eu sinto muito.
Enquanto eu falava, minha mão se posicionava na porta atrás de mim para uma saída abrupta e estratégica, e foi exatamente o que eu fiz assim que terminei de falar. Escutei ele gritar pelo o meu nome, mas segui correndo pelo corredor, felizmente lotado de pessoas para conseguir despistá-lo, mesmo que a próxima aula fosse em comum com ele.
—X-
A aula de redação avançada foi tensa, pelo menos aparentemente para mim, quando o Alex chegou na sala, eu havia chegado primeiro, ignorou-me completamente como fazia com os demais alunos, senti-me aliviado por isso, porém não o suficiente para prestar total atenção na aula. Percebi que talvez Alex tivesse um posicionamento parecido com o meu para lidar com os problemas, os ignorava o máximo possível até eles explodirem nas nossas cabeças, não era a melhor das estratégias, mas seria boa para ambos naquele caso.
Por sorte, as aulas subsequentes não eram em comum com ele, por isso, conseguiu me distrair um pouco, esquecer do acontecimento de mais cedo e animar-me para o primeiro encontro do Coral. Minha animação durou até o exato momento que entrei na sala do Coro, inevitavelmente a imagem da minha falecida amiga veio-me à mente, subconscientemente eu deveria estar esperando encontra-la para desabafar, mas isso nunca mais aconteceria.
Fiquei parado na porta por alguns instantes, observando os rostos conhecidos, os novos rostos e os ausentes. Peter, Steve, Olivie e Harry tinham se formado no último ano, por isso, além de Sam, que também teria se formado no ano anterior, tínhamos cinco pessoas a menos.
— Finalmente você chegou! – Maggie falou comigo, puxando-me do caminho da porta. – Sai do caminho, aí. Você preparou o seu número de abertura? Eu estou pensando em já cantar Maybe This Time para a Sra. Underwood já ver o meu potencial! – Ela não parava de falar, estava animada demais.
— Eu acredito no seu potencial, acho que a Sra. Underwood também, acho melhor você preservar a música para as audições e assim surpreender lá. – Sorri.
Ela ficou pensativa.
— Acho que você tem razão, pode acabar já saturando a música. Graças a mim, eu tenho uma segunda opção! E você, preparou alguma coisa?
— O quê?
— O solo de voltas as aulas, não preparou nada?
— Não.
— Boa sorte, meu querido. Porque eu venho ensaiando a quase duas semanas as minhas duas opções e as músicas de Cabaret, nos últimos dois dias incessantemente.
Uma coisa a mais a se preocupar, meu número de volta as aulas, tinha totalmente me abstraído disso nos últimos tempos, teria que improvisar algo, caso fosse chamado para cantar. Estava acessando minha playlist no celular quando me distrai com a chegada de um dos meus problemas, Yerik, ele estava conversando com um menino novo.
— Quem é aquele menino com o Yerik? – Perguntei de canto para Maggie, que ensaiava em sussurros sua canção.
— Por que? Interessado. – Ela me sorriu maliciosa.
— Não! – Lhe fiz cara feia.
— Não está reconhecendo? Acho que você precisa de óculos novos...
— É o Jessie, ele só tirou os óculos. – Beth a interrompeu, com uma chegada estratégica.
“Só tirou os óculos”, era muito eufemismo para o que tinha acontecido com o Jessie, ele estava completamente mudado, não parecia mais o garoto tímido de antes, parecia com um dos atletas. Sua postura mudara, parecia mais confiante, as roupas mais apertadas acentuavam os músculos nos ombros e braços.
— É o novo velho gato da escola. – Maggie o analisou descaradamente.
Ver a evolução de Jessie me deixou inseguro, eu tinha sofrido o processo inverso ao dele nas férias, tinha “enfeiado” e ele virado o mais novo galã. Será que ele e Yerik ainda se envolviam? Questionei-me, obviamente que sim, estavam juntos e se Yerik reparara nele quando era um patinho feio, imagina agora, mas isso não me interessava. Eles perceberam que eu olhava para eles e começaram a me encarar.
— Como foi o dia de vocês? – Perguntei nervoso para elas, quebrando a ligação visual constrangedora.
— Ótimo!
— Conheci a novata do coral. – Beth falou, abrindo espaço para uma garota entrar no nosso círculo de conversa. – Pessoal, essa é a Aisha.
— Olá. – A menina nos cumprimentou extremamente tímida.
Aisha era bem baixinha, usava um hiyab lilás que escondia seu cabelo, seus olhos eram verdes vivo, muito bonito, sua pele era escura, tinha clara ascendência arábica.
— Oi. – Sorri.
— Oi novata, eu sou a Maggie e esse é o Blake. – Maggie não sorriu. – A primeira regra que você precisa saber é que novatos não tem solos, então nem ouse...
— Ela está brincando com você. – Beth lhe interrompeu.
— Não estou não! – Maggie pareceu alterado.
Aisha pareceu desconfortável, eu compreendia bem essa sensação, estava sentindo isso naquele exato momento, tudo parecia errado.
— Pode ficar tranquila, ela não está te ameaçando. – Tentei deixar a garota mais tranquila.
— Pode ficar tranquila, que eu não estou interessada em solos, apenas em me enturmar. – Aisha pareceu tentar desculpar-se.
— Não, se você quiser pode tentar os solos sim! – Beth estava irritada. – Maggie! – Censurou a amiga.
— Claro que pode, mas não irá conseguir quando estiver competindo comigo. – Maggie sorriu. Balancei a cabeça em negação, lhe censurado. – Está bem, só estou brincando. – Sorriu. – Estão vendo, estou sorrindo, uma piada. – Apontou para a própria boca.
— Ótima, primeira impressão. – Beth revirou os olhos. – Vem. – Puxou-me e Aisha pelos braços afastando-se de Maggie.
— Aonde vocês vão? – Ela perguntou.
— Para bem longe do seu espirito competitivo.
— Ata, tanto faz, eu vou ficar aqui treinando.
Para minha infelicidade, Beth nos levou para o canto aonde estavam Yerik, Jessie e mais um grupinho do coral.
— Não a leve a sério. – Me dirigi a Aisha.
— Ela só é muito competitiva. – Beth completou.
Aisha sorriu, seu sorriso era muito bonito.
— Eu não quero causar problemas com a sua amiga, como eu falei, só quero me enturmar. Meus pais mandaram eu encontrar um clube e como falaram que eu cantava bem e era tímida demais para o teatro, sugeriram o teatro.
— Ótima sugestão a deles. – Sorri. – Maggie só está nervosa com a talvez apresentação de hoje, geralmente ela não é assim.
— Não é tanto assim. – Beth riu. – Não sei como viramos amigos dela, mas pode ficar tranquila, estamos bem, só as vezes precisamos de mais espaço, pois o ego dela fica imenso.
Não pude segurar a risada, acabei gargalhando e atraindo a atenção do grupo ao lado.
— Blake, não o tinha o visto, vejo que está bem mudado. – Uma voz feminina conhecida e não tão agradável se dirigiu a mim.
— Olá, Camille. – A cumprimentei com a cabeça.
Além Yerik e Jessie, o seu grupo estava com os outros dois novatos e seus primos, Joanne e Zach, inclusive Camille segurava a mão dele. Pelo visto, não era apenas os cabelos de Cami que mudaram, estavam mais curtos e repicados, ela estava se relacionando com o próprio primo, não eram obviamente de sangue, já que ela era adotada, mas mesmo assim, deviam possuir uma relação de parentesco, era estranho observá-los como casal. Fora que a personalidade reservada de Zach em nada tinha a ver com a expansiva dela.
— Você engordou. – Ela arqueou uma sobrancelha, como uma boa menina malvada de colégio sabia usar sua passiva agressividade.
— Eu sei. – Lhe respondi, tentando transparecer o menos possível o quanto suas palavras me afetaram.
— Olá a todos! – A Sra. Underwood entrou na sala impedindo-a de fazer qualquer outro comentário. – Desculpe pelo atraso, a Irmã Nancy decidiu fazer uma rápida reunião comigo antes da aula. – Ela sorriu amarelo. – Primeiramente, quero desejar uma boa vindas a todos, em especial aos novatos. – Ela encarou-os. – Aqui no Coral encontram um espaço para fazer uma família e expressar seus sentimentos, apesar de que agora será um pouco mais monitorada.
— Como assim? – Marc a interrompeu, era a primeira vez que o via desde o afastamento com a minha irmã, não estava diferente do de sempre, apesar de parecer mais isolado dos outros.
— Em outras palavras, talvez seremos monitorados mais veementemente pelas Irmãs, mas nada que seja muito rígido, espero. – A Sra. Underwood respondeu, ela parecia desconfortável com a ideia, não parecia ser do seu feitio um controle criativo.
Eu e Beth nos entreolhamos, as coisas seriam ainda mais diferentes do que imaginamos sem Sam, fiquei imaginando qual seria a reação dela se isso acontecesse na sua presença, no mínimo protestaria.
— Enquanto estamos livres, por que não começamos os solos de volta as aulas? – A professora sugeriu. – Como temos pouco tempo, os novatos se apresentam e depois eu escolho mais um de vocês. – Falou sentando-se em uma cadeira e lendo a lista dos alunos inscritos no clube. – Podemos começar com Danielle Earth.
Danielle era uma das novatas no grupo de Cami, ela usava óculos escuros, o que não fazia muito sentido em um ambiente fechado e seus cabelos eram longos, lisos e escuros. Ela caminhou para o centro da sala sem parecer muito intimidada.
I’m a bitch
Eu sou uma vadia
I'm a loser, baby, maybe I should quit
Eu sou uma perdedora, baby, talvez eu devesse desistir
I'm a jerk
Eu sou uma idiota
Wish I had the money but I can't find work
Queria ter dinheiro mas não consigo achar emprego
I'm a brat
Eu sou uma peste
I'm a selfish punk, I really should be smacked
Eu sou uma punk egoísta, eu realmente deveria ser espancada
My parents tried
Meus pais tentaram
Till they got divorced 'cause I ruined their lives
Até que se divorciaram porque estraguei a vida deles
I'm a bad kid
Eu sou uma sou uma criança má
And I'll survive
E iriei sobreviver
Oh, I'm a bad kid
Oh eu sou uma criança má
Don't know wrong from right
Não diferencio o certo do errado
I'm a bad kid
Eu sou uma criança má
And this is my life
E essa é a minha vida
One of the bad kids
Uma dessas crianças má
Don't know wrong from right
Não diferencio o certo do errado
(This is my life)
(Essa é a minha vida)
Danielle tinha uma personalidade extremamente parecida com a letra da música que cantava, pelo menos durante a apresentação. Se mexia e agia como uma verdadeira rockstar, muito animada e cheia de energia, quase fiquei zonzo com a velocidade que balançava seus cabelos. Teve um dado momento, com tanta agitação que seus óculos caíram revelando olhos perolados, ela era cega. Automaticamente me senti culpado pelo pensamento inicial do uso dos óculos.
— Uau! – A Sra. Underwood batia palmas animada. – Isso é o que eu chamo de uma apresentação de boas-vindas. Parabéns Danielle!
Um outro novato levantou-se, pegou os óculos dela, lhe entregou e a guiou de volta ao seu grupo original.
— Próximo, Aisha Ahmedi!
Mesmo sem saber quem era, todo mundo olhou para Aisha, acho que o hijab e o sobrenome lhe entregavam.
— Arrasa! – Beth falou.
Aisha balançou a cabeça positivamente, suas feições não transmitiam nervosismos, mas reparei que suas mãos estavam suadas e tremulas.
In my room, staying up late
No meu quarto, fico acordada até tarde
And I'm planning my escape
E estou planejando minha fuga
Cause I know I can't stay
Porque eu sei que não posso ficar
In my veins I got the feeling
Nas minhas veias, eu tenho a sensação
Like there must be something more
Como deve haver algo a mais
I've never been so sure
Eu nunca estive tão certa
All night and day
Durante toda a noite e dia
I dream of a place
Eu sonho com um lugar
Somewhere far, far away
Em algum lugar longe, muito longe
Beyond the crowded city lives
Além das vidas lotadas da cidade
I wanna open up my eyes
Eu quero abrir meus olhos
And see you on the other side
E vê-lo do outro lado
These streets aren't easy
Essas ruas não são fáceis
And I need your handle
E eu preciso de sua alça
So I'm not alone
Então, eu não estou sozinha
And I hear all these voices
E eu ouço todas essas vozes
Know they try to slow me down
Sei que eles tentam me abrandar
I can tune them out
Eu posso ajustá-los
All night and day
Durante toda a noite e dia
I dream of a place
Eu sonho com um lugar
Somewhere far, far away
Em algum lugar longe, muito longe
Beyond the crowded city lives
Além das vidas lotadas da cidade
Out of the darkness we can shine
Fora da escuridão, nós podemos brilhar
So I'm packing my bags
Portanto, estou arrumando minhas malas
I'm gonna leave it all behind
Vou deixar tudo para trás
I wanna open up my eyes
Eu quero abrir meus olhos
And see you on the other side
E vê-lo do outro lado
Ao contrário de Danielle, Aisha fez uma apresentação mais intimista, entregando apenas alma e voz, foi extremamente bonito, sua voz era doce e levemente rouca. Ao terminar, todos bateram palmas de pé, incluindo Maggie, o que deixou Aisha muito constrangida.
— Obrigada. – Quase não era possível ouvir sua voz.
— Eu acho que adquirimos ótimos novos membros! – Sra. Underwood falou. – Fantástico!
— Você foi ótima. – Falei para ela, assim que voltou ao seu lugar.
— Obrigada, eu estava tão nervosa, não sei como consegui cantar.
— O importante é que você cantou e cantou muito bem. – Beth falou.
— Louis Earth! – A Sra. Underwood chamou o novato que ajudara Danielle.
— Earth? – Perguntei só para o meu grupo.
— Ele é primo da Danielle. – Aisha me informou.
Eles eram parecidos, o mesmo tom de pele e cabelo escuro, seus olhos eram castanho chocolate e no seu rosto haviam bastante sardas.
— A quem ficou em dúvida, sim eu e Danielle somos parentes e sim, ela é deficiente visual. – Foi a primeira coisa que ele falou ao ir ao centro da sala, pensei que ele tivesse lendo meus pensamentos nesse tempo todo.
Louis tinha um jeito gay, eu não sabia o que era, mas era muito nítido a sua sexualidade, acho que era pela forma que andava e se expressava com o corpo ou talvez, fosse devido a escolha da música e a forma que se apresentara em seguida.
Confidence is a must
Confiança é uma obrigação
Cockiness is a plus
Vaidade é uma vantagem
Edginess is a rush
Provocação é uma adrenalina
Edges, I like 'em rough
Margens, gosto delas bem definidas
A man with a Midas touch
Um homem com um toque de Midas
Intoxicate me, I'm a lush
Intoxique-me, sou exuberante
Stop, you're making me blush
Pare, você está me deixando com vergonha
People are looking at us
As pessoas estão olhando para nós
I don't think you know, know
Eu não acho que você saiba, saiba
I'm checking you so hot, so hot
Estou te secando tanto, tanto
Wonder if you know
Me pergunto se você sabe que
You're on my radar, on my radar
Está no meu radar, no meu radar
On my radar, on my radar
No meu radar, no meu radar
And, yep, I notice you, I know it's you
E, sim, eu te noto, eu sei que é você
I choose you, don't wanna lose it
Escolho você, não quero perdê-lo
You're on my radar, on my radar
Está no meu radar, no meu radar
On my radar, on my radar
No meu radar, no meu radar
Louis encarou cada um dos garotos presentes na sala, exceto por mim. Todos pareceram levar numa boa, as meninas riam da forma descarada que ele deixava clara suas intenções para os garotos. Eu fiquei roxo de vergonha alheia, ele não parecia ter o mínimo de noção. Yerik e Marc chegaram a gargalhar com a situação.
— Que apresentação reveladora! – Cami falou sorrindo que ele terminou.
— Sim, sou gay. – Louis falou quase em um tom provocador.
— Como não tivéssemos percebido. – Marc falou.
— Sempre bom deixa tudo cem por cento as claras. – Percebi que ele encarou Yerik, que fez cara de paisagem, achei no mínimo suspeito.
— Ótima apresentação. – A Sra. Underwood elogiou como sempre, eu não tinha achado nada ótimo dele, tinha sido a pior até então. – Caros, estamos quase acabando, então temos que ser rápido, infelizmente só um dos veteranos vai cantar hoje. – Ela falou enquanto o menino retornava ao seu lugar ao lado da prima.
— Posso ir, se ninguém quiser. – Maggie sugeriu.
— Não, vai ser na sorte. – A Sra. Underwood falou ao fechar os olhos e mover o dedo pelos nomes na lista, quando ela parou, encarou-me e sorriu, sabia que eu tinha sido o felizardo da vez. – Blake McCarthy.
— Merda! – Escutei Maggie falando.
De repente, todo mundo estava me encarando, me senti tão grande quanto uma larva no meio da floresta amazônica, acho que estava para nascer o dia que eu me acostumasse a ser o centro das atenções, sem ser nos palcos, e lidar com isso de forma positiva. Eu não tinha problema em me apresentar, na realidade era o único momento que não me sentia verdadeiramente tímido e deixava-me levar, porém aquela situação era diferente. Pior que me apresentar, seria recusar me apresentar, por isso, sem opção, levantei-me e fui para o centro da sala.
— Boa sorte. – Aisha falou assim que me levantei.
Depois disso ninguém falou mais nada, no silencio ficava muita coisa subentendia como um imenso elefante branco, acho que era esse sentimento que eu estava causando nas pessoas. Eu nunca fora ensaiar muito em apresentações como aquela, sempre deixava-me levar pela canção que tocasse meu coração no momento e foi isso que eu fiz.
Under the water we can't breathe, we can't breathe
Sob a água não conseguimos respirar, não conseguimos respirar
Under the water we die
Sob a água nós morremos
Under the water there's no one watching
Sob a água não há ninguém nos vendo
Under the water we are alone
Sob a água estamos sozinhos
Then why do we jump in?
Então, por que nós saltamos?
Why do we jump in?
Por que nós saltamos?
Under the water we die
Sob a água nós morremos
So many souls, that lost control
Tantas almas que perderam o controle
Where did they fall?
Onde é que elas caem?
Into the deep, what do they seek?
Lá no fundo, o que elas procuram?
Where did they fall?
Onde é que elas caem?
Where did they fall?
Onde é que elas caem?
Hearts will dream again
Corações vão sonhar novamente
Lungs will breathe in
Pulmões irão respirar
Wash away the sin
Lave o pecado
It's where it begins
É onde começa
Feet won't fail you now
Pés não lhe falharão agora
Arms won't let you down
Braços não vão te deixar cair
Wash away the sin
Lave o pecado
Under the water we can't be together
Sob a água não podemos ficar juntos
Under the water we die
Sob a água nós morremos
Then why do we jump in?
Então, por que nós saltamos?
Why do we jump in?
Por que nós saltamos?
Under the water we die
Sob a água nós morremos
Quando eu terminei de cantar ninguém bateu palmas, eu tinha fechado os olhos e permaneci assim mesmo após terminar. Antes que alguém falasse alguma coisa, o sinal tocou indicando que a aula havia acabado e sem esperar por ninguém, sai correndo. Eu tinha liberado tanta emoção cantando aquela canção, algo tão pessoal, que tive vergonha.
Durante o restante da semana eu permaneci evitando tudo e todos, incluindo minhas amigas, fiz horários diferentes propositalmente para não as encarar, nem com Mick eu conservara, incrivelmente ele agora conseguia saber de tudo, mesmo sem eu contar nada. Essa estratégia durou até o final da semana, quando Beth me esperou na porta após minha última aula.
— Precisamos conversar. – Foi a primeira coisa que ela falou. – Me siga.
Pensei em fugir novamente, mas isso seria tão infantil, por isso, optei por segui-la.
Beth levou-me para um lugar diferente, não era desconhecido ou misterioso, mas completamente diferente do meu local especial, o banco no meio do bosque. Ela me levara para o jardim de entrada, cada pessoa deveria ter um localzinho especial no Instituto, seria ingenuidade minha acreditar que só eu fazia isso, em meio as mais diversas, aromáticas e belas flores do final da estação, em um banco tão velho quanto o meu. Sentamos em uma distância respeitável um do outro, para não atrair a atenção de nenhuma Irmã.
— Por que me trouxe aqui? — Lhe perguntei delicado, não queria soar rude.
— Porque acredito que devemos conversar. — Ela olhou para o céu, uma ação muito comum dela praticar. — Precisamos conversar sobre Sam, sei que você viveu o seu luto assim como eu e sei também que precisa de ajuda para conseguir seguir em frente. — Foi direta e honesta. – Isso está te sufocando e isolando da vida.
Olhei para o jardim, evitando encará-la ou suas palavras, temi que aquele dia chegasse, o momento que alguém me confrontaria, inevitavelmente aconteceria, mas temia por ele. Eu não sabia lidar com o luto, digo o luto por pessoas próximas, como fora no caso da minha mãe e agora com Sam.
— Eu não quero falar sobre isso. — Sussurrei ainda sem encará-la. Tentava fugir do assunto.
— Pois eu quero e sei que você precisa disso, pois vai afundar em um buraco mais fundo que será mais difícil de sair, do que o luto. — Beth soava séria.
Lhe encarei, sua expressão confirmava seu tom de voz.
— Não sei se eu consigo. — Lhe respondi sincero.
— Por isso você tem um grupo de apoio chamado de amigos que estão aqui para isso. — Ela pegou na minha mão e sorriu. — Sei que é mais forte, do que pensa.
— Como pode saber de tantas coisas?
— Intuição?! — Ela riu. — Preciso que seja sincero sobre seus sentimentos comigo agora, o que está sentindo?
A pergunta não me pegou de surpresa, porém fiquei apreensivo. Respirei fundo, foi minha vez de olhar para o céu colorido de final de tarde. Eu não era a melhor pessoa para demonstrar meus sentimentos mais íntimos, Yerik estar com raiva de mim era o maior exemplo disso. Tentei olhar para mim e procurar respostas em palavras para aquilo que ela me indagara. Beth não era impaciente, parecia curiosa com a minha busca interna, pois demorei um tempo para lhe responder.
— Me sinto culpado e ao mesmo tempo vazio. — Eu sabia que ela não me julgaria, acredito que talvez seja por isso que tenha conseguido finalmente dizer algo. — Sinto que falho com todos a minha volta e odeio o modo em que todo mundo segue suas vidas como Sam não fosse importante. – Segurei as lágrimas. – Parece que tudo está um desastre e eu não sei lidar com isso. – Meu peito doía.
— Você sabe que ela era importante para mim.
— Eu sei. – Apertei a mão de Beth. – Mas entre saber e sentir são coisas completamente diferentes.
— Não queria que fosse tão difícil para você, Sam também não queria.
Abaixei a cabeça.
— Tem outras coisas acontecendo, mas não sei se consigo falar agora. – Falei pensando em Yerik e Alex.
— Tudo bem, você não precisa falar sobre tudo, mas não se sufoque com isso, não se permita isso. — Balancei a cabeça positivamente. – Blake, não tem um dia, se quer, que eu não pense nela e não fique ao menos triste. O que me conforta é saber que agora ela está bem, em paz.
Apenas acenei com a cabeça.
— Sr. McCarthy! — Escutei alguém me chamar, automaticamente endireitei a postura, ciente de que deveria ser uma freira antes de vê-la, já que viera da direção oposta à minha visão.
— Nós estamos na distância tolerável. — Beth começou a falar.
— Não é esse o caso, Srta. Grant. — Virei-me para encarar a Irmã.
— Sim, Irmã? — Tentei lhe transmitir tranquilidade, não era sábio e nem respeitoso ser mal-educado com uma freira, enquanto organizava a confusões de pensamentos que era a minha cabeça.
— A Irmã Nancy solicita a sua presença na sala da direção imediatamente. — Seu tom sério me arrepio, o que eu deveria já ter feito para ser chamado a diretoria.
— Ele fez alguma coisa? — Beth não conseguiu segurar a curiosidade, assim como eu, ela não estava entendo a solicitação.
— Srta. Grant, acredito que o assunto que a Irmã Nancy deseja tratar é particular entre ela e o Sr. McCarthy, que nem eu sei. — A Irmã respondeu quase que ríspida. — Por favor, queira me acompanhar. — Pediu para mim.
— Claro. — Levantei-me do banco. — Até mais Beth, nos falamos mais tarde.
De modo corrido, me despedi de minha amiga, ela apenas acenou, sabia que eu lhe contaria tudo sobre o encontro. A Irmã não me esperara, seguia tranquilamente na minha frente, como se flutuasse com o hábito sobre o piso gasto. No trajeto, um milhão de possibilidades passavam pela minha cabeça sobre o motivo do encontro, seria algo sobre Mick? Sobre a minha estranha relação com Yerik? Ou algo sobre Sam? Tantas possibilidades, mas nenhuma parecia ser lógica ou certa o suficiente para ser considerada ou descartada. Fiquei mais ansioso ao chegarmos na sala de espera da sala da direção.
Eu fiquei calado, enquanto a Irmã bati na porta e era autorizada, apenas lhe segui como uma sombra. A sala, além da “agradável” diretora Irmã Nancy também estava presente o treinador da equipe de natação, eu o conhecia dos jogos de Vick, sua presença deixava-me ainda mais confuso. Ele era um senhor de quase meia idade em ótima forma, com olhos brilhantes escuros, cabelo e barba ralos e grisalhos. Não tivera um futuro tão promissor na carreira esportiva, mas já havia lançado algumas estrelas nacionais do circuito de natação.
— Boa tarde, Sr. McCarthy. — Irmã Nancy me cumprimentou.
— Boa tarde, Irmã Nancy e…? — Eu não lembrava o nome do treinador.
— Deixe-me apresentá-lo formalmente ao treinador Roosevelt, chefe da equipe de natação.
— Prazer em conhecê-lo, filho. — Ele me cumprimentou com um aperto forte de mãos.
— Igualmente. — Eu não sorria, estava nervoso, ansioso e confuso para isso.
— Irmã Patrícia, por favor, queira nos dar licença para iniciarmos a nossa reunião. — A diretora falou com a freira que me trouxera.
Como pedido, ela saiu e deixando apenas nós três.
— Irmã Nancy se eu já fiz alguma coisa de errado, logo no primeiro dia, eu já peço desculpas. — Não consegui segura minha boca.
Poderia dizer que a Diretoria quase rira do meu desespero, se não fosse, por sua cara totalmente inexpressiva, semelhante ao do sobrinho neto, Alex.
— Ser humilde e aprender com seus erros é uma grande virtude, Sr. McCarthy, mas essa reunião não é sobre suas atitudes dentro dos terrenos desse internato, mas ao seu comportamento fora dele. — Meus olhos arregalaram, culpa súbita, mas sem qualquer embasamento para tê-la. — Por favor, queira se sentar.
Ofereceu a cadeira a frente a sua escrivaninha, sentando-se na sua. Eu lhe acompanhei, o treinador continuou em pé, a Irmã Nancy não pediu para que sentasse, mesmo tendo uma cadeira ao meu lado.
— Eu não compreendi muito bem o que a senhora quer dizer. — Falei assim que me acomodei.
— Sr. McCarthy, eu sou uma diretora que reparo muito bem em cada um dos meus alunos, sem qualquer exceção. Eu já era assim, desde os meus tempos de monitora de corredores e não seria diferente ao assumir o cargo de direção. Identifico as mais singelas mudanças conforme os anos passam e vocês crescem, às mais evidentes como a mudança de peso, após um período conturbado de férias.
Após essa última fala, comecei a compreender vagamente aonde ela queria chegar ou sobre o que queria falar, isso deixou-me ainda mais desconfortável. A Irmã Nancy e o Treinador Roosevelt estavam, com certeza no final da minha lista de pessoas que queria desabafar sobre meus sentimentos sobre a morte de Sam, na realidade nem tinha mais vontade de fazer isso após a conversa com Beth.
— Eu ainda não compreendi. — Me fiz de desentendido.
— Sr. McCarthy, eu lhe chamei até a minha sala para lhe informar do plano que fiz em conjunto com seu pai e o Treinador Roosevelt sobre o seu expressivo ganho de peso, nos últimos três meses. — Suas palavras me pegaram tão desprevenido quanto um soco no estômago, fiquei sem palavras, apenas com uma absurda vergonha. — Seu pai entrou em contato, um pouco antes do final das férias, para explicar a sua situação física, explicou que o senhor tem um histórico com descontrole alimentar e solicitou um plano, em conjunto, para controlar sua compulsão e restaurar o seu peso normal nesse ano letivo e é por isso motivo que o treinador Roosevelt concordou em nos ajudar nessa ação.
Eu estava completamente pasmo com o que ouvia, o Internato estava intervindo no meu peso, por uma solicitação do meu pai. Não era mentira o meu histórico de descontrole, eu havia quase ficado obeso durante alguns meses após o falecimento da minha mãe, porém não achava que estava nem perto dessa situação naquele momento. Sim, eu tinha engordado muito em pouco tempo, isso era verdade, mas eu estava deprimido e estagnado, porém, depois da conversa com Beth sentia-me revigorado e pronto para um recomeço, não precisava desse tal plano em conjunto.
— Eu acho que eu não preciso de um plano tão sério para voltar ao eixo. — Falei baixo.
— Querido, isso não está aberto a discussão, está apenas sendo comunicado. — A Irmã Nancy sorriu amarelo. — Seu pai nos deu carta branca para seguir nas medidas que acharmos cabíveis ao seu caso, até estar com o corpo saudável.
— Mas existem outros alunos acima do peso. — Argumentei, na realidade, não eram muitos. O internato parecia exercer um certo padrão de corpos para os seus alunos, que eu não reparara até então, por estar no peso padrão.
— No caso desses alunos, seus pais não solicitaram uma intervenção ou não concordaram com uma. Pode ficar tranquilo, como expliquei, seu caso está completamente autorizado. — Engoli em seco. — Começaremos com sua dieta, terá um cardápio adaptado por tempo indeterminado com menos calorias e fará parte de uma equipe esportiva para a recuperação do corpo, mais especificamente da equipe de natação.
“N-A-T-A-Ç-Ã-O”, essa palavra deixou-me completamente tonto, eu deveria ter entendido errado, eu não faria parte da equipe de natação.
— O quê?
— O senhor terá a dieta rigidamente controlada, na sua próxima refeição uma das Irmãs lhe entregará um cronograma alimentar e fará parte da equipe de natação.
— Eu não posso! — Aumentei o meu tom de voz. — Eu simplesmente não posso. — Levantei-me da cadeira.
— Sr. McCarthy, acalme-se. — O Treinador falou.
— Eu não consigo ficar calmo. – Falei desesperado.
Fale com o autor