Tempestuoso

12 Dois Enfermos, Um Funeral e Uma Competição


Notas iniciais
Primeiramente Boa Noite a todos. Como prometido em duas semanas um novo cap. Um beijo especial para os que comentaram no cap. anterior após tanto tempo: Srta Tracy, Lin e Night Dream. Brummy, sabe que mora no meu coração. Capítulo cheio de emoções. Whitney Hudson (feat. Mariah Carey) - When You Believe. Maroon 5 - Misery. Ellie Goulding - Anything Could Happen. Crowded House - Don't Dream It's Over.

Devastada, era a palavra que melhor cabia em descrever o estado de Emy quando voltei para casa e a vi. Eu a encontrei chorando no seu quarto, era silenciosa como sempre. Conseguia se passar despercebida quando queria e naquele momento chorava silenciosamente para não incomodar ninguém.

Quando chegamos em casa, Vick estava tão perdida no limbo dos seus pensamentos e na digestão dos últimos acontecimentos que seguiu como um zumbi diretamente para o seu quarto, onde se trancou e não fez mais barulho. Eu quis bater na sua porta e lhe implorar para que me deixasse entrar para ajudá-la, lhe dizer que não estava sozinha, porém sabia que não era o adequado e mesmo se tentasse seria barrado. Ela merecia um tempo consigo mesma.

Sozinho, em um final de sábado cinzento e frio, procurei pela outra única pessoa em casa, Emy, e foi quando me deparei com a situação dela. Inicialmente não pude enxerga-la, porque o quarto estava escuro, a luz apagada e as cortinas da janela fechada. Silenciosamente aproximei-me e sentei-me ao lado do seu corpo, ela estava de costas a mim.

– Emily, está tudo bem? – Fiz uma pergunta estupida, obviamente não estava.

Somente balançou a cabeça negativamente, seus cabelos perolados estavam desalinhados assim como a roupa abarrotada. Por sua idade, meu pai havia colocado um interruptor perto da sua cama para facilitar a seu dia-a-dia, usando dessa possibilidade ela acendeu a luz.

– Eu sabia... – Falou mais rouca do que o comum. – Eu sabia... – Repetiu mais para si mesma do que para mim.

– O que você já sabia? – Tentava ser o mais delicado possível. Piscava para meus olhos se adaptarem a nova iluminação.

Vê-la frágil daquela maneira era algo novo. Emy sempre fora bem sentimental, chorava assistindo um filme dramático ou até em uma cena de novela mexicana brega na TV. Porém as emoções eram diferentes, a intensidade era outra.

– Que eu a perderia. – Virou-se para mim. Seus olhos de cor de canela brilhavam com um excesso anormal de umidade indicando que as proeminentes lágrimas cairiam.

– Quem se foi? Ele ou ela vai poder voltar, viagens nunca são definitivas na maioria das vezes. – Hoje pergunto-me como foi tão ingênuo em acreditar que se tratava da perda física de alguém por mudança ou viagem.

– Ninguém se mudou, não da forma que imagina. – Com dificuldade tentava se levantar, facilitando o processo lhe ajudei. – Meu menino, perdi alguém para morte. Minha amiga se mudou para o lado de Deus.

Arrepiei-me todo. Isso sempre nos acontece quando nos deparamos com a morte, acredito que aconteça até quando a conhecemos definitivamente. As intensidades desses arrepios são referentes ao grau de importância da pessoa que perdemos.

– Quem? – Perguntei.

– Marie, Irmã Marie.

Como dito, é dependente do grau da relação. Naquela época aquele foi o meu segundo arrepio consciente. Tinha presenciado até então a morte de apenas três pessoas, minha avó materna aos dois anos, pela pouca idade nem me lembrava; da minha mãe, aos cinco; e a da Irmã, agora.

– Eu sinto muito. – Sei que eram as palavras de consolo menos consoláveis que o homem já tinha inventado, porém sempre continuaremos a usar na tentativa de mostrar algum apoio ou solidariedade.

– Não sinta, foi melhor para ela. Descansou e está em um lugar melhor que o nosso.

Uma coisa que eu não entendia era essa expressão “descansou” ou “está em um lugar melhor”. Se a morte fosse tão boa porque era pecado o suicídio? Não seria mais fácil todos desistirmos da vida e “vivermos” neste lugar melhor e de descanso? Perguntei isso um dia para o meu pai, ele simplesmente falou que era errado pensar nisso e me mandou fazer outra coisa.

– Quando aconteceu?

– Hoje pela manhã. Decretaram uma semana de luto na sua escola, o velório será durante a noite e o enterro a meia-noite na própria escola. Foi desejo dela, sabe? – Lágrimas escorreram pela bochecha enrugada. – Desde nossa época de menina queria fazer parte do clero e cuidar das próximas Irmãs, sempre muito dedicada.

Estiquei a mão e lhe sequei a face.

– Por que ainda estamos aqui? – Perguntei.

– Não sei. – Ela me abraçou.

Era tão frágil como uma folha de papel envelhecida. Fiz o com que meu corpo jovem lhe desse calor, abraçando-lhe com mais intensidade. Minhas memórias foram traiçoeiras e com a sensação de déjà vu que aquele abraço causou-me, levou-me diretamente até o meu segundo encontro com a morte.

–x-

“Emily, a antiga babá da minha mãe tinha acabado de me abraçar. Já a tinha visto algumas vezes nos feriados de final de ano. Me visitava no hospital. Supunha ser um hospital porque encontrava-me em uma sala toda branca e com alguns aparelhos de sons esquisitos iguais aos filmes que assistia.

– Olá, Emily. – Lhe cumprimentei abobado.

A senhora nem tinha me cumprimentado antes de me abraçar. Achei meio indelicado da parte dela, meus pais tinham me ensinado boas maneiras e entrar de supetão em um quarto sem cumprimentar os presentes não era uma.

– Como está, pequeno?

– Meio zonzo.

– Logo vai passar, como o pior que já passou. — Falou misteriosa.

– Deve estar ainda sobre o efeito dos medicamentos. – Escutei uma voz conhecida que me surpreendeu-me, supunha estar só, antes da chegada de Emy. – Estava desidratado e com insolação.

– Pobrezinho, ainda mais agora... – Emy continuava misteriosa enquanto afagava meu cabelo.

– Foi aniversário dele e da Irmã. – Tentava lembrar de quem era essa voz.

– Onde ela está?

– Atrás da porta provavelmente. A deixei no corredor com a minha mãe, mas como a conhece deve estar nos observando por alguma frecha da porta.

Automaticamente meus olhos foram para porta, ela possuía uma abertura quadrada de vidro a uma altura considerável do chão. Por essa abertura vi alguns dedos saltitarem como se alguém baixinho estivesse pulando no outro lado. Só vi Vick quando minha avó a pegou no colo e levantou para que pudesse ver pelo vidro. Vick não mudara nada, estava mais bronzeada pelo dia no barco, mas tirando isso, nada de diferente. Continuava com os mesmos cachinhos loiros e os olhos castanho-esverdeado. Ela acenou pra mim.

– Ela já sabe da Suzana? – Emy perguntou para a voz familiar, chamando minha atenção.

– Não. – Finalmente reconheci a voz, era meu pai.

O nome da minha mãe despertou-me um imenso sentimento de falta, ou melhor, de saudade. Por isso, perguntei por ela.

– Onde está minha mãe?

Queria que estivesse ao meu lado. Parecia-se outro mundo, diferente do que deixara antes de tudo escurecer e depois mudar. Minha antiga realidade era literalmente um mar, lembrava-me de estar inerte no vasto azul com ela atrás de mim.

Aquela havia se tornado a nossa realidade logo depois também de outro apagão. Em um pedaço de madeira de algum lugar da nossa antiga embarcação, apoiávamos. O seu tamanho era tão pequeno que nem o meu minúsculo corpo da época conseguia suportar por inteiro, porém não podíamos reclamar. Ele era a nossa única possibilidade de salvação e descanso em todos os três dias que havíamos passado à deriva. Em nenhum deles havia aparecido alguns sinal se quer de terra firme ou de outra embarcação.

Nunca três dias foram tão cruéis comigo como aqueles foram. Ao contrário do dia em que destruiu o nosso barco, o céu nunca mais voltou a escurecer, de certa forma, era bom porque não duraríamos nada em outra tempestade. No entanto, a falta de água doce nos desidratava cada vez mais.

Outro problema com o céu límpido era o sol litorâneo, acentuado pela estação: verão. A sua radiação queimou nossas peles, principalmente a minha, levando a uma agonizante ardência banhada ao sal. Mamãe fazia o que podia para poupar-me ao máximo, porém os raios solares eram mais potentes e sempre lhe conseguia vencer. O segundo dia foi o pior, meus braços, costas e pescoço arderam como carne viva e pareciam assar com ainda mais com a nova insolação. O terceiro nem foi tão ruim, a pele queimada dos outros dias já estava mais acostumada com o tormento.

O balanço sem fim, enjoava-me. Era o inferno na terra. Queria chorar, mas nem podia, ia acelerar o processo de desidratação. Minha mãe alertou-me logo no primeiro dia que devíamos nos poupar ao máximo.

Tentando acalmar-me ela cantava para mim, apesar disso lhe acelerar a perca d’agua, já que tinha que umedecer os lábios para cansar e sua boca deveria estar seca e salgada. Eu sabia que estava assim, porque a minha também estava. A sonoridade parecia acompanhar o movimento das águas. Suave, porém ao contrário dessa que enjoava-me, a canção envolvia-me em bem-estar.

– Estou tão cansado. – Lamentei.

– Aguente firme, meu menino. Logo nos encontrarão. – Parou de cantar ao ouvir minha lamúria.

Devido a nossas posições e por ter perdido os óculos, eu não a enxergava. Meus olhos ardiam pela salinidade acumulada em seu contorno. Pontinhos negros dançavam em contrastes com a luz branca solar na minha visão.

– Deixe-me dormir, mamãe. É só um minutinho. – Fiz menção de adormecer.

Ela não tinha me deixado dormir nem uma hora inteira sequer por dia durante todo esse tempo, temia que eu nunca mais despertasse.

– Não pode! – Exaltou-se, balançando o meu corpo fazendo com que a sonolência fosse embora por um instante.

– Por favor. – Falei manhoso e baixinho.

Eu não era desobediente, não queria desagradar a mamãe, mas meu corpo estava tão pesado, só não mais que minhas pálpebras, e já não seguia mais meus comandos. Tinha vontade própria e minha mente tão enevoada contribuía para essa independência. Pisquei algumas vezes antes de me deixar levar pela escuridão.

– NÃO DURMA. – Foi o grito da minha mãe, foi o meu último resquício de contato com aquele mundo antes de me mudar para um outro mar, o de escuridão e depois para o branco da ofuscante luz hospitalar que era agora o meu quarto.

– Sua mãe está longe agora. – Emy parecia tão refreada e cautelosa ao responder-me, consequentemente tirando-me da última lembrança com mamãe.

– Blake, acho melhor você descansar. Afinal, ainda deve estar cansado de tudo o que passou. – Meu pai ordenou. Ele não sugeria, somente mandava.

Era a segunda vez que interagia comigo desde que despertara. Foi a primeira pessoa que eu vi ao despertar. Foi também nessa única vez que seus olhos transmitiram tanto amor e carinho ao me ver. Não se conteve em me abraçar, tirando-me o ar e beijando sucessivamente o meu rosto.

– Eu te amo tanto, meu filho. Não vou te perder nunca mais. Nunca mais vou te perder. – Repetiu por alguns instantes antes de se recuperar do choque inicial.

O que eu creio que tenha retrazido sua compostura foi o que falei em seguida:

– Também te amo, papai.

Podia ter jurado ver uma lágrima escapar de seus olhos, se aconteceu, ele conseguiu disfarçar bem. Logo deixou-me, retornando com uma tropa de enfermeiras que fizeram-me um monte de coisas que me levaram a novamente adormecer. Quando acordei estava sozinho, supus até escutar a voz do meu pai quando Emy chegou.

– Não estou com sono! Estou cansado de dormir. Só venho fazendo isso. – Protestei.

– Não seja mal criado. – Olhou-me severo.

– Sua mãe está longe... – Emily voltou a falar, mais olhando para o meu pai do que para mim.

– Aonde está minha mamãe? – Voltei a perguntar.

Silencio, somente o som dos aparelhos inúteis conectados ao meu corpo soaram no quarto. Emily e meu pai voltaram a trocar olhares de cumplicidade, por fim, ele cedeu.

– Conte logo de uma vez. – Trovejou, saindo do quarto e batendo na porta no processo.

– Onde está a minha mãe? – Voltei a perguntei.

– Distante como as nuvens e perto como a lua. Sua mãe está no céu.”

–x-

– Blake. – A mesma voz me chamou.

Era Emy, havíamos desfeito o abraço e ela encarava-me.

– Enterros me trazem lembranças ruins. – As lágrimas caiaram pelo meu rosto.

– Sempre trazem. – Voltamos a nos abraçar. – A todos trazem.

– Vou chamar um táxi. – Desfiz o abraço depois de alguns segundos. Não permitiriam ser o mais afetado por essa morte, precisava ser forte por Emily e outra ela nem me afetava tanto assim, mal conhecia a diretora.

– Victoire não pode dirigir? – Emy perguntou.

– Não, passou mal durante minha consulta. – A mentira literalmente pulou e se formulou na minha mente.

– Eu pago pela viagem.

Não era um bom mentiroso, mas St’Agnes estava me transformando em um. Fui analisado sob um olhar de suspeita, a dona do olhar me conhecia bem. Quando a senti relaxar, sai do seu quarto.

Após chamar o táxi pelo telefone, subi até os quartos para notificar Vick.

– Vick, se apresse. Precisamos voltar para escola agora. Irmã Marie morreu, o velório é agora de noite. – Falei alto ao bater na porta do quarto dela antes de entrar no meu.

Peguei as poucas coisas que tinha tirado da mochila, as coloquei de volta e desci para Sala de Estar. Em um papel escrevi o que tinha acontecido, deixando-o em cima da mesinha de centro para quando meu pai chegasse o lê-se e não achasse que a empregada tinha abandonado o emprego.

Em menos de dez minutos a buzina de automóvel anunciou a chegada do táxi. Surgindo quase que do nada, Emy apareceu toda vestida de preto. Vestia-se com um vestido rendado de mangas compridas, acompanhada de luvas e um chapéu simples. Não era discreta em demonstrar o seu luto. Fazendo jus ao que iriamos fazer, Vick descia as escadas em uma marcha quase fúnebre, carregava a mochila em um dos ombros e um cobertor de lã, muito gasto e antigo no outro. Sua expressão era sombria e sem sentimentos, como uma escultura.

– Vamos. – Falei abrindo a porta para que passassem.

Na metade do caminho, Vick nos lembrou de comprar flores e fomos para cidade. Por sorte, havia uma floricultura perto do cemitério aberta e conseguimos comprar dois buques de flores, um de rosas brancas e outro de lírios rosados, e voltamos a tomar caminho para a escola.

Incomodamente e frivolamente silencioso foi como foi o nosso percurso até a escola. De noite, a estrada até lá se tornava medonha, as sombras das árvores formavam formas macabras. Ao chegarmos na escola, o clima pesado não mudou. O prédio Principal que se empunha na frente estava totalmente desprovido de luz, deixando assim toda a responsabilidade de iluminação para os solitários postes de luz dispersos pelos vastos terrenos

Enquanto pagava uma quantia razoável ao taxista, apenas Emy me esperou. Vick seguiu para o colégio desaparecendo na escuridão. Ofereci meu braço a Emy, ela aceitou e caminhamos até o prédio mais próximo.

– Estranho. – Murmurei.

– A escola sente. Solo sagrado. – Emy respondeu como se minha fala fosse uma pergunta.

– Quer qual buque?

– Eu gosto mais das rosas. – Lhe entreguei este e ela automaticamente os cheirou.

– Aonde vamos? – Perguntei.

– Se nada mudou e continua como na minha época, devem estar anunciando como a velarão no auditório. Sempre é uma comoção quando uma Irmã morre, para reunir as próprias freiras é necessário utilizar do auditório. Imagine Mari que era diretora, até os familiares dos alunos deverão estar presentes.

Não demoramos para chegar no auditório e constatar que ela estava certa. O local estava com boa parte da sua capacidade ocupada, além da presença maciça das freiras e alunos, muitos familiares também estavam presentes. Não era apenas alguns membros, eram famílias inteiras. A Irmã Maire deveria ter sido muito amada, pela idade, trabalhara com gerações de alunos e famílias, St’Agnes era conhecido por isso.

No palco, meia dúzia de Irmãs tentavam instalar uma ordem no caos de conversas que estava. Ninguém exatamente gritava, mas todos os burburinhos aliados a arquitetura do auditório contribuía para que o som se elevasse e nada se entendesse.

– Ordem! Ordem! – Ouvi a Irmã Nancy gritar.

Busquei um lugar para que eu e Emy sentássemos, porém por sorte, Sam já guardara dois para nós. Emily ainda não deveria ter lhe contado sobre o falecimento, mas como deveria conhecer a amizade de longa data da avó, supôs que com certeza ela estaria lá. Minha amiga também vestia-se de luto, com meias grossas de lã, saia e blazer negros. Ela acenou para nós, sua localização era em um ponto mais elevado e distante do palco, isso possibilitava uma visão de boa parte da plateia a baixo.

– Como está, vovó? – Sam a abraçou.

Emy não respondeu, limitou-se a ser abraçada. Balancei a cabeça convictamente negativamente para que minha amiga entendesse a resposta. Sam afagou os cabelos presos em um coque da avó.

– Tudo vai ficar bem.

– Já está bem... – Falou rouca.

– Um ciclo se encerra.

– Com certeza. – Emy enfatizou ao se sentar e limpar o rosto com um lenço de tecido branco.

Sam veio até mim e me abraçou.

– Sabia que a iria trazer...

– Não poderia deixa-la lá. Se fosse com você, eu também iria querer estar junto.

– Mesmo assim... Obrigada. – Esboçou um sorriso charmoso sem dentes para mim, lhe retribui com um igual.

Acomodei-me na minha poltrona e observei mais atentamente as freiras no palco. Reconhecia somente duas das seis, as Irmãs Nancy e Florence. Sendo que a primeira adotava uma postura de liderança perante as outras, como sempre, muito autoritária.

– Ordem! Ordem! – A Irmã Nancy trovejou novamente desta vez surgindo resultado.

Quem estava em pé, se sentou e quem estava conversando, se calou. Pensei que por ser ela a pedir ordem seria a primeira a falar, mas contradizendo tal pensamento quem tomou a fala foi a Irmã Florence. Parecia a mais abatida de todas as Irmãs presentes.

– Como sabem é com grande pesar que comunico oficialmente o falecimento da nossa Irmã Marie, uma grande e nobre mulher, de coração gigante, íntegra e sem sombras de dúvidas uma grande devota do nosso Senhor.

– O velório irá começar daqui uma hora na nossa Capela que se encontra aqui mesmo nos terrenos, ao norte e que os devidos alunos frequentam todos os domingos. Os convido para que deem uma última despedida a nossa tão honrada Irmã, que fez um excelente trabalho durante todos os seus anos administrativos aqui na escola, sem contar a sua beneficência com as Irmãs. O enterro será perto da Capela, no nosso cemitério particular onde muitas de outras tão valorosas Irmãs que perdemos ao longo da nossa história também estão enterrados. Isso foi um desejo da própria e devidamente iremos respeitá-lo. – A Irmã Nancy interrompeu-a.

– Quem será a diretora? – Alguém gritou.

– Como medida imediata seria o adequado da vice-diretora assumir o cargo da diretora, mas infelizmente a Irmã Mariah está adoentada e impossibilitada de assumir suas próprias funções, quanto mais um novo cargo. Por isso e seguindo a cadeia hierárquica administrativa da escola, a próxima para a sucessão é a Irmã Nancy e esta aceitou de bom coração cumprir as funções até as devidas eleições que escolheram a nova diretora. – Respondeu a Irmã Florence.

Ouve um ovação de descontentamento generalizado.

– Ordem. – Voltou a exigir a Irmã Nancy. – Não é o momento para balburdias administrativas, sendo que até mesmo a opinião estudantil é irrelevante deste assunto. – As vaias era de maioria vinda dos alunos e estas sessaram após essa fala. — O momento é para realizarmos os devidos ritos funerários para com a nossa ex-diretora. Como dito, a cerimonia vai começar daqui uma hora na Capela ao norte e a presença de todos é bem-vinda. Temos por encerrada a reunião. Boa noite.

A Irmã Nancy foi a primeira a sair, possuía uma expressão amarga como de costume.

– Alguma pergunta? – A Irmã Florence foi mais solicita.

Como esperado alguns pais se levantaram e caminharam até perto do palco para evitar uma atenção geral das suas falas.

– Está certa. – Emy comentou.

– O que? – Sam perguntou.

– Nancy está certa em falar isso, não é o momento para se discutir questões administrativas. Mas para o se ver quem o quer discutir, esses sim são perigosos.

– Não estou entendendo, vovó.

Vi Emy pegar no rosto da neta.

– Samantha, você entendera tudo daqui alguns meses. Por sorte, só tem mais alguns meses aqui. As coisas mudaram...

Pensei e repensei sobre que mudanças poderiam ser, não consegui a chegar a nenhuma conclusão.

– Eu vou me trocar. – As avisei, deixando meu buque no colo de Sam.

O restante da escola permanecia acompanhar o clima do seu lado exterior, inóspito e sombrio. O que realmente me assombrou não foi nenhuma sombra ou animal, foi Beth. A encontrei descalça com uma roupa de tecido fino, colorido e brilhante. Seus cabelos estavam soltos e um pouco armados, dançavam no ar conforme pulava. Carregava em mãos um mesmo objeto que o padre usava na missa, um turíbulo só que o seu tinha um forte cheiro de incenso de lavanda.

– O que está fazendo? – Lhe perguntei curioso.

– Ajudando na passagem. – Respondeu sem se quer me olhar.

Olhei mais atentamente ao seu rosto, ele estava contornado com uma espécie de tinta cor de terra avermelhada. Em todos os seus dedos da mão até a metade da sua extensão também estavam cobertos por essa tinta.

– Que passagem?

A forma que dançava em círculos estava me causando tontura.

– A passagem para o próximo ou outro plano.

– De quem? – Papo sobre as crendices dela me confundia.

– Eu estou fazendo um rito funerário que minha família costumava fazer quando um ente querido morre, ajuda na passagem. Transmite ao espirito que sentiremos falta dele, mas que é necessário que ele siga em frente.

– Qual é a sua religião afinal?

– Não sei... Depende do clima.

Conclui que era melhor deixá-la só com o seu ritual estranho, do que insistir em uma conversa que me atrasaria para o funeral. Corri para o meu dormitório, parando em frente a porta para procurar minhas chaves quando percebi que esquecera meu molho em casa. Teria que pedir para Emy me trazer quando trouxesse meu óculos novo. Sem outra opção tive que bater na porta na esperança de que meu companheiro de quarto estivesse dentro, ao invés de no auditório.

Por sorte, soube que ele estava lá dentro pelo barulho de movimentação apressada que aconteceu lá dentro. Depois de um minuto, Yerik abriu a porta. Umas gotas de suor escorria pelo seu rosto, o que era incomum pois estava previsto para gear na madrugada, também estava vermelho e só abriu parcialmente a porta, colocando só a cabeça pra fora. Sua expressão foi impagável, demonstrou claramente um nervosismo ao me ver.

– Esqueci minhas chaves, desculpe incomodar. – Falei antes que dissesse qualquer coisa e fazendo menção para entrar.

– Não. – Ele me impediu, seu sotaque estava especialmente carregado. Sabia que ficava assim quando estava muito nervoso.

– Preciso me trocar. – Falei empurrando a porta, porém ele era mais forte e me conteve.

– Um momento. – Fechou a porta na minha cara.

Dessa fez demorou-se menos tempo que antes e logo abriu a porta. O quarto não parecia nenhum pouco anormal, como pensei que estaria pelo seu nervosismo. Minha cama estava arrumada como deixei, somente a dele que parecia ter passado um furacão. Fui diretamente para o armário de roupa e escolhi algumas peças quentes e negras para o frio. Yerik que parecia mais desarrumado do que o dormitório, os cabelos estavam um ninho de rato e vestia uma roupa toda abarrotada, sendo que a camiseta estava do avesso e muito justa. Ao fazer menção de ir para o banheiro, Yerik me segurou.

– Não pode ir. – Sua fala estava tão carregada que tornava quase impossível sua compreensão.

– Por que não? – Estranhei, olhando diretamente para a mão que me tocava.

Ele acompanhou meu olhar e logo me soltou.

– Não vai gostar da situação do banheiro, está todo sujo.

– Não me importo, só preciso trocar de roupa.

– Não, está impossível fazer isso. Vai se sujar, o banheiro está cheio de lama que eu trouxe hoje. Brinquei de lama com os caras.

– Isso é muito estranho. – Comentei. – Não tem problema desde que limpe mais tarde. Só que agora realmente preciso me trocar para um funeral. Sei ser cuidadoso, não vou me sujar.

Estava quase na porta quando ele passou por mim e parou em frente a ela, impossibilitando minha passagem.

– Não quer me dizer aonde esteve antes... Como conseguiu sair?

Sua insistência em me impedir de entrar no banheiro só aumentou minha vontade de entrar.

– Não quero conversar com você, temos um acordo de indiferença mutua. – Fui grosseiro. – Agora, me dê licença.

– Vai ficar muito bravo se ver tudo, sabe que o tenho com muita estima.

– Não me importo com essa estima e não vou falar nada. Por favor, licença.

– Vai ter que passar por cima de mim.

Aproximei-me dele, invadindo o seu espaço pessoal.

– Com licença. – Voltei a pedir, minha respiração bateu no seu queixo.

No momento que ele foi falar qualquer coisa, girei meu corpo no dele de modo que trocássemos de lugar e abruptamente abri a porta do banheiro. O grito em búlgaro me acompanhou.

Esperei encontrar a pior coisa possível no meu banheiro, porém foi nada. Absolutamente nada estava diferente ou anormal. Relaxei o corpo que estava tencionado, a pessoa atrás de mim fez o mesmo.

– Cadê a lama? – Não resisti em perguntar.

– Eu menti.

Eu ainda estava no batente da porta.

– Percebi... Agora vou me trocar em paz. – Entrei no banheiro e comecei a girar a porta.

Ele voltou a falar em búlgaro, ou melhor, a gritar em búlgaro, algo que deveria ser parecido com o “espera” em inglês, segurando a porta.

– A verdade é mais vergonhosa.

– O que foi? – Parei segurando a porta. Essa loucura dele estava me irritando.

– Entupi a privada.

Devo ter feito uma careta, pois não consegui processar aquilo direito.

– O que? – Pensei não ter ouvido direito.

– Entupi a privada e você precisa ver como está.

A privada estava tampada, mas não por muito tempo. Senti Yerik me arrastar até ela.

– Que nojo, Yerik. Não preciso ver suas intimidades...

– Não, só olhe.

– Me solta...

Fui interrompido com o barulho metálico da chave da porta do banheiro caindo no chão. Automaticamente olhei para trás, um pensamento passou rapidamente pela minha cabeça, supus ser o espirito de Marie fazendo a passagem. Nota mental de nunca me envolver nesses aspectos com Beth. Porém a ideia me abandonou ao ver uma loira conhecida parada atrás da porta. Seu corpo estava envolto por um lençol, tirando isso estaria completamente nua. Ela era bonita, não lembrava o seu nome, era líder de torcida do segundo ano.

Não foi preciso refletir muito para juntar as coisas.

– Blake... – Yerik começou a falar.

– Oi. – Ignorei-o e falei com a loira.

Ela acenou com a mão que não segurava o lençol.

– Desculpe-me ter quer lhe fazer passar por essa situação. Mas acho melhor e certo você se vestir, depois se trocar e ir prestar luto a nossa falecida diretora.

– Também acho. – Falou séria olhando para Yerik. – Você é um fofo. – Passou as unhas compridas nas minhas bochechas e saiu do banheiro.

– O nome dela é Danielle... – Yerik me falou. Com o nome associei a sua companhia com as seguidoras de Vick.

– Saia! – Mandei.

Sem falar nada ele saiu. Tranquei o banheiro e conferi a privada, felizmente estava normal, ele mentira novamente. Troquei de roupa e sai do banheiro.

– Blake, eu nem sei como começar a me desculpar... – Yerik falou assim que eu sai, estava me esperando ao lado da porta.

Olhei para quarto na expectativa de encontrar a loira, ela já tinha saído. Vi novamente a cama e um sentimento de raiva me tomou.

– Não namorava com a Georgina?

– Namorava, mas ela terminou comigo. Eu tenho...

– Você traiu ela? – O impedia de falar completamente.

– Mais ou menos.

– Você me enoja. E qualquer desculpa que tenha me preparado, guarde-a.

Sem delongas sai do quarto fechando a porta no processo. Me proibi de pensar nesse assunto e meu pensamento logo voltou para o funeral.

A capela ficava tão distante dos outros prédios, caminhar pelo bosque do St’Agnes arrepiava-me. Perder-me, eu não me perderia. Era nítido mesmo que na escuridão a trilha recém feita na neve da massa que caminhara até a igreja. Os animais noturnos não ajudaram em nada a me acalmar. Um pio ou outro de coruja, fazia-me acelerar os passos. Não haviam lobos nos bosques do St’Agnes, no máximo uma ou duas raposas solitárias, só que o uivo de um lobo além dos terrenos me arrepiou tanto que devo admitir que corri.

Não havia ninguém do lado de fora da Capela, olhei no meu celular e ainda era 20h:00, porém a escuridão dizia que já era madrugada, essa época do ano costumava enganar. Somente uma porta da dupla de madeira estava aberta, deveriam estar querendo se proteger do frio. Ao entrar fiz o sinal da cruz e vi que a luz da Capela provinha das muitas velas espalhadas pelo recinto. Achei inacreditável não haver energia elétrica na Capela, era tão antiquado e as velas davam uma sensação sinistra com a sua luz bruxuleante amarelada. Parei de pensar isso logo que me deparei com o caixão.

Ele estava próximo do altar, o Padre o velava vestido de preto. Era irmão gêmeo da Irmã Nancy, Alex que me contara, o que fazia dele tio do Alex. O lembrava de certa forma, os mesmo olhos frios acinzentados. Era no mínimo estranho ter um padre com olhos frívolos dando missas todos os dias. Refleti sobre o quanto a família do Alex tinha vocação para religiosidade, seria possível ele também se tornar padre? Não seria de se admirar.

Caminhei até o caixão passando pelas fileiras de banco de madeira onde as pessoas se acomodavam. Além do Padre a outra única pessoa que velava a Irmã Marie era Emy e Sam, sabia que a segunda só estava em pé para apoiar a vó. Ambas estavam em um canto mais afastado para não chamar atenção. Antes de me dirigir até elas fui ver a ex-diretora.

Parecia dormir, levemente mais pálida pela maquiagem somente a falta do rosado nas maçãs do rosto indicavam o seu falecimento. Usava um hábito todo branco. O fundo do caixão era de veludo dourado, no espaço que não era preenchido pelo corpo colocaram uma grande variedade de flores das quais muitas eu nem conhecia.

Fui ao lado de Emy e Sam e permaneci assim durante todo o velório. Ocasionalmente alguém se aproximava do caixão e olhava para a freira, a maioria das pessoas que se aproximavam era Irmãs. Demoraria quatro horas até o enterro, por tanto, não demorou muito tempo para que o silencio fosse quebrado por sussurros de conversas paralelas.

Faltando pouco menos de uma hora as Irmãs iniciaram o canto de algumas músicas religiosas, ao terminarem o Padre começou uma breve missa fúnebre. Foi uma sensação especialmente desagradável ver o caixão ser tampado quando o padre terminou a missa, consequentemente tampando a face da Irmã Marie para o mundo, e vê-lo ser alçado por alguns pais mais em forma. Mesmo que estivesse frágil como uma flor seca, foi necessário pelo menos meia dúzia de homens para carregá-la. Eles foram os primeiros a sair da igreja, os aguardamos chegar na porta para todos os acompanharem na marcha fúnebre.

Era um curto percurso da igreja até os cemitério das freiras, o que complicava era o terreno e o frio. Naquela noite a temperatura estava consideravelmente abaixo de zero, de modo, que a pouco pele que eu tinha exposta ao ar queimava-se e rosava-se. O solo por si só não era completamente plano, possuía uma singela inclinação e para dificultar ainda mais, as raízes das muitas arvores serviam de armadilha para pés atrapalhados. Não foi incomum ver uma ou outra pessoa tropeçar, por sorte, não foi nenhum dos homens que carregava o caixão.

Perguntei-me se meu pai carregara o da minha mãe, provavelmente sim, eu não presenciara o seu enterro. Meu pai alegou que eu era muito pequeno e não entenderia o que aconteceria, não concordava que eu não entenderia, mas agradecia por não ter me deixado ir. Assim preservei a imagem intacta e com vida dela. Vick também fora proibida de ir, papai lhe conseguira convencer de que precisava ficar comigo para cuidar de mim.

Era fácil saber quando se chegava no cemitério das Irmãs, o caminho se tornava bem mais amplo. A quantidade de árvores caía significativamente. A ordem das lapides estava por ordem de falecimento, ou seja, as lapides mais antigas estavam no começo e as mais novas no final, consequentemente tivemos que atravessa-lo por inteiro. Não era a minha primeira vez no cemitério, eu frequentava o municipal pelo menos cinco vezes todos os anos, no aniversário de vida e morte de minha mãe, no dia das mães, finados e natal. Daquela fez era diferente, era noite e estava indo enterrar alguém.

Olhando as primeiras lápides, vi datas de falecimento datadas da metade do século repassado e de nascimento do outro século. Essas primeiras eram tão desgastadas pelo tempo e com a neve por cima dificultava a identificação. Conforme avançávamos as datas e a qualidade de conservação também. Perto de uma arvore desnuda estava a cova, ao seu lado um misto de terra e neve misturado lhe cobriria. Colocaram o caixão ao lado do buraco e os coveiros fizeram o restante do serviço, somente dois foram necessários para posicionar duas grossas cordas embaixo do caixão e o levá-lo para o interior da cova.

Um silencio se instalou até que a Irmã Nancy o quebrou.

– Alguém gostaria de tomar a palavra e proferir as últimas palavras a Irmã Marie antes do pronunciamento final do padre?

Algumas freiras demonstraram interesse, porém foram poucas as que realmente falaram. Seus discursos foram parecidos, agradeceram pelas boas ações feita pela Irmã com elas, ressaltaram alguns outros exemplos com outra freiras e exemplificaram sua participação no clero e na administração da escola.

– Mais alguém? – A Irmã Nancy voltou a perguntar.

– Eu gostaria. – Emy levantou a mão.

Me entregou os buques, incluindo o meu e caminhou até uma das extremidades da cova com o papel que tanto escrevera durante o velório. Isso não surpreendeu-me, o que me surpreendeu fora não ter sido a primeira a falar. Torceu a garganta como se liberasse de um pigarro e começou a discursar.

– Eu preparei um pequeno e improvisado discurso durante o velório, dado ao modo que ela partiu tão rápido e como tudo foi feito às pressas não pude elaborar algo melhor e digno a sua memória. Mas pelo o que conhecíamos dela, iria falar até que esse discurso simplório está elaborado demais. – Começou a chorar, algumas freiras sussurraram e outras também começaram a chorar. – Irmã Marie, a conheci quando era só Marie. Uma garota magricela, desdentada. – Alguns esboçaram um fraco sorriso. – filha caçula de dez irmãos. Isso foi a tanto tempo que até o St’Agnes era diferente, somente garotas estudavam aqui e era ensino religioso, uma escola de freiras. Foi antes da Segunda Grande Guerra. Poderia me demorar em falar de todas as suas contribuições com as Irmãs e a escola, porém prefiro falar dela como ser humano. Muito antes de ser uma freira ou diretora. Foi minha melhor amiga por quase noventa anos, sabia tudo sobre mim. Era tão boa, poderia ter ficado por muito mais tempo, mas Deus sabe o que faz, ele é unanime. Preferia que partíssemos juntas, que dessem a notícia de que tanto a Emy e a Marie, últimas da sua geração de 37, morreram na mesma noite no leito de suas camas dormindo. Só que nem sempre é como queremos. Hoje me despeço de você, minha amiga. Espere por mim, também não me demorarei muito aqui sem você. Sei que estará no reino de Deus, pois ele é destinado aos bons e justos e tais adjetivos não poderiam descrever melhor pessoa do que você. Não lhe dou um Adeus, apenas um até breve.

Puxei a salva de palmas, ele perdurou por um tempo. Emy se aconchegou na neta e eu lhe entreguei o seu buque. O padre começou a falar e um a um foi colocar seus respectivos ramalhetes de flores sobre o caixão, fiz menção de fazer o mesmo só que Emy me impediu.

– Não, espere.

A obedeci, os único que permaneceram com flores era os com as coroas, Emily e eu. Os coveiros começaram a jogar a mistura de terra e gelo e os lamentos aumentaram, olhei para a minha babá e as lágrimas escorriam incessantemente. Pouco a pouco, o caixão ia se cobrindo, o olhei mais atentamente e percebi que possuía um crucifico com um mini Jesus na tampa escura, tive a estranha sensação de estar sendo medido por esse Jesus, como se julgasse todos os meus pecados. Arrepiei-me. Demorou cerca de cinco minutos para terminar aquele processo e o padre encerrar sua oração e discurso com um “Amém”.

Colocaram as quatro coroas de flores sobre o chão de terra mexida, seria triste pensar que na próxima forte geada tudo murcharia, a beleza iria embora e só sobraria a neve por cima. Uma lapide seria colocada mais tarde, provavelmente com uma foto como as mais recentes estavam. Olhei para o tumulo mais recente, era de uma noviça, morrera de câncer na garganta, na sua foto toda a seriedade do habito era quebrado com o seu sorriso sincero. Sua morte datava da última páscoa.

– Acabou... – Escutei alguns falando.

– Aos presentes que quiserem passar o domingo com os seus filhos são bem-vindos. – A Irmã Florence falou limpando o rosto.

Alguns concordaram em ficar e outros fingiram nem ouvir o convite, porém, quase todos começaram a se afastar no novo tumulo, quase como se tivesse feito um acordo para que quando encerrasse a cerimonia se afastassem o mais rápido possível.

Foram poucos os que ficaram, sendo boa parte freiras. A Irmã Florence que havia feito o convite a todos era uma dessas. Assustei-me ao sentir uma respiração no meu pescoço, já ia dar uma cotovelada pensando ser Yerik, mesmo que não o tivesse visto em nenhum momento no funeral, só que mudei de ideia ao escutar outra voz.

– Blake, quer que fique aqui com você? – Era uma voz que costumava carregar frivolidade, só que dessa vez, essa característica estava ausente. Podia sentir uma certa compaixão e o contato com a minha pele me esquentava.

– Não precisa, mas se quiser nos fazer companhia... – Lhe sussurrei de volta, observei a fumaça da minha voz se elevar.

Ficamos em silencio enquanto os poucos remanescentes partiam, cada um ao seu tempo. Emily tocou na minha mão para chamar minha atenção.

– Marie e Eu tínhamos o costume de em todo enterro comprarmos flores, mesmo que a pessoa não fosse tão importante para nós. Colocávamos os nossos buquê por último e sempre levamos conosco uma flor desse buquê, era uma superstição de que assim o morto não nos atormentaria. Se lembraria da nossa homenagem póstuma ao sentir o aroma da flor no nosso quarto. É bobo, mas eu gostaria que partilhasse comigo hoje. – Ela sussurrou, além de mim, Sam e Alex também prestavam atenção.

Após restar somente nós, caminhamos até o tumulo. Dei uma cheirada no meu ramalhete, o aroma era estonteante. Observei Emy fazer o mesmo e tirar uma rosa do ramalhete antes de colocá-lo na frente das coroas. Eu a imitei e fui seguido por Sam e Alex, com os seus buques de flores do campo e cravos. Mais tarde, me perguntei aonde teriam comprado aquelas flores.

Emy observou que intencionalmente tinha conseguido outro dois alunos, pude ver um sorriso escapar por seus lábios. Na volta, Emy e Sam foram na minha frente abraçadas, além do apoio emocional deveriam estar com frios, suas roupas não era as melhores em reter o calor e bloquear o frio. Alex caminhava ao meu lado, não nos falávamos, mas em algum momento, que não me lembro quando, ele pegou em minha mão. O toque foi reconfortante e aquecedor. Procurei motivos para que eu pudesse condenar aquela ação, mas não encontrei nenhum. Não havia malícia, pelo menos da minha parte, não era devasto. Imaginei que ele quisesse me transmitir algum tipo de apoio, mesmo que fosse desnecessário. Por isso caminhamos de mãos dadas até nos aproximarmos da área esportiva, foi quando ele soltou.

–X-

A semana passou rápida, a Irmã Nancy não esperou nem que o corpo da sua antecessora esfriasse para que tomasse medidas extremistas na escola. Começou a instalar uma administração autoritária e rígida. Era nítido que a sua antipatia era compartilhada com os professores e algumas Irmãs insatisfeitas, não sendo exclusividade dos alunos como pensávamos.

Tinha sido proibido qualquer interação entre aluno e aluna fora do período escolar, ou seja, só seria possível conversar com as garotas durante as aulas ou por mensagem. Essa medida acabou diretamente me afetando, no meu tempo comum ou de refeição sempre passava em companhia de garotas, Sam e Beth. Com a segunda conseguia conversar durante as aulas em comum, mas com a primeira só durante o Coral, durante o Teatro era impossível. Por tanto, passei a me alimentar sozinho, até que na quarta-feira Alex sentou no meu lado.

– Boa tarde. – Ele falou ao se sentar.

– Boa tarde. – Falei de boca cheia.

– Posso me sentar aqui. – Falou já sentado.

– Já sentou. – Sorri.

– Só queria me certificar que não me expulsaria. Acho que minha tia fez com que ficássemos sozinhos.

– Você almoçava com a Maggie, não é?

– Sim.

– Ela não está fazendo regras muito populares. – Deixei escapar. Ele riu, era a primeira vez que o via sorrir. – Desculpe. – Falei em seguida, chupando o macarrão que estava na metade da minha boca.

– Tá sujo. – Ele falou antes de se aproximar de mim, pegar o seu próprio guardanapo e limpar o canto da minha boca.

Assustei-me deixando o garfo cair no prato, porém mantendo-me estático.

– Não está sendo fácil. – Ele voltou a falar ao terminar de me limpar.

– Ficar longe da Maggie?

– Isso também, mas aguentar todo mundo.

– O que quer dizer?

– Descobriram que eu sou sobrinho neto da Irmã Nancy e de certa forma estão descontando o que não podem nela em mim.

– Deveria contar para ela.

– Não, eu prefiro resolver meus problemas sozinhos. – Falou duro. – E outra isso só me traria antipatia.

Preferi voltar a atenção ao meu almoço do que ser cortado novamente. No refeitório, um canto ficou reservado para as garotas e outro para os garotos. De longe pude ver Sam e Beth dividindo a mesa com Abigail e Charlotte, sorriam. Aparentemente tinham lidado melhor com a nova regra do que eu.

No lado dos garotos existia dois extremos, as mesas lotadas de garotos bagunceiros e as solitárias dos garotos que andavam com as namoradas ou amigas. Um desses solitários era o Jesse, ele lia enquanto alguns garotos da mesa vizinha e o Marc lhe tacavam macarrão. Observei o quanto ele era indiferente mantendo a sua tensão quase que forçado a leitura, mesmo com gente lhe xingando e chamando. Também observei o quanto Marc era onipotente a situação, o achei mais babaca por isso.

– As seccionais são no sábado? – Alex chamou minha atenção.

– São, vai ir torcer por nós? – Sorri, olhando para ele.

– Não sei, talvez eu vá. Maggie me pediu.

– Precisamos passar, por outra medida da sua tia. Ela falou que vai encerrar com os próximos clubes que perderem em suas respectivas competições. Consequentemente isso é preocupante. – Murmurei a última parte mordendo os lábios.

Alex me encarou, acabei ficando constrangido.

– Maggie me garantiu que ganhariam. – Percebi que olhava para o lábio que eu mordia.

– Ela é muito autoconfiante, eu sou mais prudente. – Parei de morder o lábio.

– Ela é no mínimo arrogante para não dizer o pior.

Ele esticou o braço e vi na mão sua mão direita um anel prateado.

– Quando começou a namorar? – Perguntei ainda rubro, tentando continuar a conversa.

– Há uma semana.

– Entendi...

– Maggie?

– Sim.

Fiquei em silencio, voltando a comer.

– Mudou os óculos? – Perguntou de repente, assustando-me.

Balancei a cabeça positivamente, pois estava com a boca cheia. Emy ainda muito abatida tinha me trazido na terça-feira os óculos novos e meu molho de chaves, nem cheguei a vê-la, mas sabia do seu estado porque a conhecia. Quem me entregara fora a Irmã Florence, sob a alegação de que a Irmã Nancy proibira a entrega direta por ser horário e dia letivo. Outra medida instalada, era a proibição de deturpações de aulas.

Alex me olhou estranho, não conversamos mais.

Na quinta-feira, durante o Coral. A Sra. Underwood teve a brilhante e arriscada ideia de colocar mais um número na nossa apresentação nas Seccionais no próximo sábado. Seria um tributo a Irmã Marie e seria inicialmente de uma solista. A maioria das garotas do coro ficaram entusiasmadas com essa possibilidade. A música já tinha sido escolhida pela própria professora, consequentemente as candidatas só precisaram cantar na hora.

Todas sem exceção cantaram, algumas foram terríveis, outra razoáveis e pouquíssimas bem. Quem surpreendera foi Olive, sempre discreta, despontou com a voz potente. Sam torceu o nariz quando ela foi escolhida para uma segunda e definitiva chamada, a antipatia surgira quando Olive abandonou Sam após o rolo com os garotos. Eram amigas desde o primeiro ano, Sam alegou que Olive sempre tivera uma queda por Harry e por isso aproveitou a oportunidade de ficar ao lado dele, fazendo o papel de amiga consoladora. As outras duas escolhidas fora Maggie, essa era sempre muito técnica quando cantava e Beth, sua voz era bem suave, porém ficara super bem com a canção.

Após a segunda chamada foi definido que não seria mais um solo, mas sim, um dueto. Beth e Olivie foram escolhidas para o desgosto de Sam e Maggie. A segunda, particularmente deu um show de imaturidade ao falar que Sra. Underwood estava errada e que se saíra melhor que as outras duas. A Sra. Underwood a ignorou e foi falar com Beth e Olive. Sam não gostou, pois, após me confidenciar, ficara com medo de Olive lhe roubar a amizade de Sam. Lhe garanti que tais temores eram sem fundamentos.

Os ensaios foram prorrogados para a sexta à noite e no sábado antes do amanhecer partimos da escola para Harrisburgo em um ônibus da própria escola. Em Harrisburgo fomos para um hotel que tínhamos reservado quartos até o horário da competição, eram dois grandes quartos, sendo um masculino e outro feminino.

As 16h:30 fomos para o teatro da cidade. Ele era relativamente grande, muito se comparado com o da escola e pouco se comparado aos de cidades maiores. Ele não estava tão cheio, coral não era uma modalidade competitiva tão aclamada pelo público, apesar de ter conseguido certa popularidade nos últimos anos, devido a uma série musical e alguns filmes do gênero. Ao todo seriam três corais se apresentando, pela ordem o nosso seria o segundo.

Como de praxe seriam três jurados, personalidades do estado: o Sr. Waack, dono da maior franquia de pizzarias do Estado; Sr. Hathaway, dono da maior empresa concessionária de carros da costa leste; Sra. Brown, já uma conhecida minha, dona da maior loja de fantasias do Estado. Nenhum deles tinha conhecimentos para julgar a competição, mas tinham sido escolhidos por patrocinarem o evento.

Nos vestíamos de preto, em luto a nossa diretora. Mudamos a cor de nossa vestimenta às pressas, mas nada que um banho de água quente com tonalizante para tecido negro não resolvesse. As garotas estavam com os seus cabelos bem penteados presos em um penteado simplista e com vestido rodado. Os garotos eram ainda mais simples, apenas uma camisa e calça social.

Nas coxias esperávamos apreensivos o início da competição. Vimos o próprio jurado Sr. Waack tomar a frente e se tornar o apresentador. Era um homem de meia-idade de já ralos cabelos ruivos. Fez um discurso comum para uma competição e apresentou a si mesmo e os jurados antes de chamar o primeiro grupo.

Eram de uma escola pública, possuíam a quantidade mínima de alunos para participar. Apesar da minoria, eram sincronizados e harmoniosos. Ficamos ainda mais apreensivos ao termino da sua apresentação. Era um adversário considerável.

– Essa vai ser difícil. – Escutei Peter comentar.

– Ano passado foi pior e nem por isso perdemos. – Steve rebateu.

– Ainda não vimos o outro grupo, não podemos ter certeza disso.

– Já viram eles? Como estão?

Automaticamente procurei pelo outro grupo, os localizei na plateia. Assim como nós proviam de uma escola católica, só que ao contrário de nós eles eram muito mais tradicionalistas. A roupa era a mais formal possível, tinha até a sensação que os cantos seriam católicos. Pensei também na possibilidade de tornarmos iguais a eles sob a administração da Irmã Nancy. No entanto, o pensamento logo me abandonou ao lembrar que nossa professora era a Sra. Underwood e ela jamais permitiria algo do tipo.

– Todos aqui. – A Sra. Underwood nos chamou. – Sei que hoje é a estreia para alguns e o início da despedida para outros. Apesar de serem apenas as Seccionais, eu tenho confiança em vocês e de que irão passar por essa etapa sem muita dificuldade, não se esqueçam de cantar com o coração. Demonstrar toda as suas emoções e sentimento em suas vozes. E o principal, darem o melhor de si, porque é somente dando o melhor de si é que se consegue aquilo que quer. Agora não sejamos iguais aos outros grupos que levantam as mãos juntos em sinal de união, damos um abraço um no outro.

Obedecendo ao pedido dela e fizemos um abraço grupal. Foi uma sensação interessante se sentir em grupo, parte de uma equipe. Todos sorriam enquanto se posicionavam para entrar no palco. A nossa apresentação começava com um dueto da Olivie e Beth prestando uma homenagem a Irmã Marie, só depois que o coral completo entraria.

Olivie e Beth entraram cada uma por uma extremidade do palco e com os holofotes focados em si. As vozes delas se completavam, bem antagônicas uma era grave e a outra aguda.

Olivie:

Many nights we prayed, with no proof anyone could hear
In our hearts a hopeful song, we barely understood
Now we are not afraid, although we know there's much to fear
We were moving mountains long, before we knew we could

There can be miracles, when you believe
Though hope is frail, It's hard to kill
Who knows what miracles, you can achieve
When you believe, somehow you will
You will when you believe

Beth:

In this time of fear, when prayer so often proves in vain
Hope seems like the summer birds, too swiftly flown away
Yet now I'm standing here, my heart so full I can't explain
Seeking faith and speaking words, I'd never thought I'd say

Olivie e Beth:

There can be miracles, When you believe (When you believe)
Though hope is frail, It's hard to kill
Who knows what miracles, You can achieve (You can achieve)
When you believe, somehow you will
You will when you believe

They don't always happen when you ask
And it's easy to give in to your fear
But when you're blinded by your pain
Can't see you way clear through the rain
A small but still resilient voice
Says help is very near

Essa era a deixa para todo o coral entrar:

There can be miracles (miracles)
When you believe (When you believe)
Though hope is frail
It's hard to kill
Who knows what miracles
You can achieve (You can achieve)
When you believe
Somehow you will
Somehow you will
You will when you believe
You will when you, you will when you believe
Just believe, just believe
You will when you believe

Toda a iluminação do teatro diminuiu nessa parte. As garotas saíram e só permaneceram parte dos garotos, excluindo-me. A coreografia era baseada em passos simples, que consistiam em jogos simplórios de pés como as bandas pop de masculinas costumavam fazer.

Marc:

Oh yeah
Oh yeah
So scared of breaking it
That you won't let it bend
And I wrote two hundred letters
I will never send
Somehow it is cut so much
Deeper then they seem
You'd rather cover up
I'd rather let them be

Garotos:

So let me be
And I'll set you free

I am in misery
There ain't nobody
Who can comfort me
Why won't you answer me?
The silence is slowly killing me
Girl you really got me bad
You really got me bad
Now I'm gonna get you back
Gonna get you back

Steve:

Your salty skin and how it mixes in with mine
The way it feels to be completely intertwined
Not that I didn't care, it's that I didn't know
It's not what I didn't feel, it's what I didn't show
So let me be and I'll set you free

Garotos:

I am in misery there ain't nobody who can comfort me
Oh, yeah
Why won't you answer me? The silence is slowly killing me
Oh, yeah
Girl you really got me bad, you really got me bad
I'm gonna get you back, I'm gonna get you back

Peter:

You say your faith is shakin' you may be mistaken
You keep me wide awake and waiting for the sun
I'm desperate and confused, so far away from you
I'm getting there, I don't care where I have to run

Yerik:

Why do you do what you do to me yeah
Why won't you answer me, answer me yeah
Why do you do what you do to me yeah
Why won't you answer me, answer me yeah

Garotos:

I am in misery there ain't nobody who can comfort me
Oh, yeah
Why won't you answer me? Your silence is slowly killing me
Oh, yeah
Girl, you really got me bad, you really got me bad
I'm gonna get you back, I'm gonna get you back

Eu voltei ao palco acompanhado por algumas garotas e garotos, alguns outros permaneceram. A música era mais agitada, fizemos alguns passos de dança simples em par, o meu era a Beth. Ninguém era muito talentoso com a dança, por isso preferíamos não arriscar muito nesse meio.

Charlotte:

Stripped to the waist
We fall into the river
Cover your eyes
So you don't know the secret

Beth:

I've been trying to hide

Beth e Sam:

We held our breath
To see our names are written
On the wreck of '86
That was the year
I knew the panic was over

Cami:

Yes since we found out
Since we found out
That anything could happen

Todos:

Anything could happen (5x)
Anything could

Jesse:

After the war

We said we'd fight together

I guess we thought

That's just what humans do

Me:

Letting darkness grow

As if we need it's palette

And we need its colour

Jesse e Me:

But now I've seen it through

And now I know the truth

Todos:

That anything could happen

Anything could happen (3x)

Anything could

Harry:

Baby, I'll give you everything you need

I'll give you everything you need

Oh, I'll give you everything you need

But I don't think I need you

Todos que saíram voltaram e cantaram conosco.

I knowit'sgonnabe

Era a vez da nossa última música. Todos voltaram ao palco, nessa performance não era necessário dança, se mostraríamos a emoção ao cantar.

Zach:

There is freedom within, there is freedom without

Try to catch the deluge in a paper cup

There's a battle ahead, many battles are lost

But you'll never see the end of the road

While you're traveling with me


Todos:

Hey now, hey now

Don't dream it's over

Hey now, hey now

When the world comes in

They come, they come

To build a wall between us

We know they won't win


Zach e Cami:

Now I'm towing my car, there's a hole in the roof

My possessions are causing me suspicion but there's no proof

In the paper today tales of war and of waste

But you turn right over to the T. V. page


Todos:

Hey now, hey now

Don't dream it's over

Hey now, hey now

When the world comes in

They come, they come

To build a wall between us

We know they won't win

Hey now, hey now

Don't dream it's over


Zach:

Now I'm walking again to the beat of a drum

Zach e Cami:

And I'm counting the steps to the door of your heart

Only shadows ahead barely clearing the roof

Get to know the feeling of liberation and relief

Todos:

Hey now, hey now

Don't dream it's over

Hey now, hey now

Whenthe world comes in

Sempre ao término de uma apresentação existe uma ansiedade para ver a reação do público que muitas vezes já indica a sua opinião no decorrer dela. Por se tratar de uma competição, eu acho que essa ansiedade aumenta na potência de um milhão. Demoraram exatos três segundos para o pouco público digerisse tudo que assistira e esboçassem alguma emoção e para minha felicidade foram gritos e palmas.

Agradecemos ao público e logo saímos para arrumação do palco para o outro coral adversário que se apresentaria em seguida. Ficamos satisfeitos com nosso trabalho, apesar de um ou outro ficar se lamentando por uma nota não alcançada ou por uma desafinação. Mal notamos quando o outro grupo encerrou apresentação até eles passarem por nós.

Demoraram mais vinte minutos para os jurados se reunissem e decidissem as colocações e o vencedor que passaria para as Regionais. Fomos convocados para retornar ao palco quando eles retornaram. O espaço ficou apertado, não tinha sido preparado para comportar confortavelmente três corais e outras pessoas sobressalentes. Quem anunciaria seria o Sr. Waack, que já assumira a posição de apresentador naquela noite, ele pegou um microfone e começou a falar.

– Após reunirmos, decidimos pelos seguintes colocados... – Falou o nome da primeira escola que se apresentou e que eu não lembrava.

Eu estava de mãos dadas a Sam e Beth, elas a Harry e Yerik respectivamente, que também estava ligados a outros e assim suscetivelmente até formarmos com todos membros do coral uma corrente.

– Em primeiro lugar... – Voltei a prestar atenção no locutor. – Os Imaculados do Internato Imaculada Santa Agnes.

Todos gritaram ao mesmo tempo causando-me uma perda da audição, fui levado para frente com a massa que pulava e se abraçava. Pelo canto do olho, observei quando Harry ao puxar Sam para um abraço também lhe roubou um beijo. As únicas outras duas coisas que consegui ver antes de ser tomado pelos braços por alguém foi, a Sra. Underwood correndo para nós e Marc se autoproclamando líder do Coral e buscando o troféu das mãos do Sr. Waack.

A pessoa que me abraçou gritava e era mais alta do que eu, não consegui lhe identificar pela voz porque seus gritos se misturavam aos demais. O que traiu o seu anonimato foi o seu perfume. Assim que o identifique, automaticamente tentei livrar-me dele. Empurrei-o com o antebraço, só que este não notava devido a agitação do nosso entorno. Yerik me apertou com mais força tirando-me o ar, aproveitei uma oportunidade e escapei por debaixo dos seus braços.

Outra pessoa me pegou para um abraço, esta não me deixava mais receptivo, porém era melhor do que Yerik. Cami abraçou-me, creio que sem notar minha identidade. Logo que escapei também dela, tomei o cuidado de ficar pulando assim evitando os abraços indesejados.

A felicidade era tanta que o sorriso não abandonava o meu rosto, era minha primeira vitória. Na confusão de pessoas, Sam me achou e pulou em mim. Mal percebi quanto beijou meus lábios com vontade, tentei lhe retribuir na mesma intensidade enquanto nossos amigos gritavam.

No outro dia, já no St’Agnes a vitória ainda embalava os meus sonhos. Ela foi interrompida com o toque do meu lugar indicando que alguém me ligava. Devo ter despertado rápido, no primeiro toque, pois meu colega de quarto ainda permanecia imune a poluição sonora que acontecia. Ele não procurou conversar comigo depois do funeral durante a semana, fiquei estranhamente incomodado com isso. Atendi o celular antes que o despertasse, mas vendo que me ligava. Sam.

“Bom dia.” – falei sussurrei sonolento bocejando.

“Blake preciso de você” – soou chorosa.

Meu corpo se alarmou, ao ponto de ajeitar-me melhor na cama.

“Aconteceu alguma coisa?” – sempre cometemos os erros clichês. Se alguém te liga de manhã e diz que precisa de você, obviamente aconteceu alguma coisa.

“Aconteceu sim, por isso preciso de você. Te contar o que aconteceu.”

“Já estou indo. Onde está?” – Levantei-me abruptamente da cama causando um certo ruído.

“Não, se arrume primeiro e depois venha me encontrar. Correr agora não vai mudar nada.” – Parecia mais frágil a cada palavra.

Do pouco que conhecia da Sam, eu já a julgava ser uma pessoa forte e senti-la tão frágil era um choque. Era a garota da má fama, porém também do psicológico inabalável.

“Em menos de cinco minutos, eu estou descendo. Onde quer que eu te encontre. Quer que eu vá até o seu dormitório?”– Encontrava-me no banheiro em frente ao espelho.

“Só me encontre na bifurcação para as Alas, já estou aqui. Até breve.” – Desligou.

Olhei-me no espelho, meus cabelos estavam grandes e meu rosto mais redondo, eu tinha engordado. Ainda admirando pelo reflexo, olhei para janela avaliando o clima. Estava tudo muito branco. Caminhei até ela, olhando pelo vidro. Tudo era um mar regular de branco, tinha nevado e com intensidade. Retornei a pia, abrindo o registro de água quente e recolhendo uma mínima quantidade dela, limpei o meu rosto. Fiz o restante de higiene matinal em menos de três minutos, rumei até o meu armário de roupas, coloquei uma roupa que melhor me adaptasse e desse conforto ao clima externo e disparei para encontrar Sam.

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Como havia avisado, Sam já me esperava quando eu cheguei na bifurcação das alas. Pelo frio, sua pele estava rosada, mesmo sendo amorenada. A pontinha do seu nariz e olhos estavam anormalmente vermelhos e brilhosos, indicando que tinha chorado. Não dei indicação de chegada, apenas a abracei por trás.

Pude quase ver sua expressão de surpresa que rapidamente fui substituída pela de pura tristeza.

– O que aconteceu? – Demonstrei toda a minha preocupação.

– Não aqui. – Falou firme.

Sem outras explicações começou a andar, Sam caminhava sempre na minha frente como se a distância pudesse tardar aquilo que me queria contar. Saímos do prédio Dormitório e fomos para os terrenos perto da aera esportiva. Como eu tinha visto pela janela do banheiro, a madrugada havia nos proporcionado uma forte nevasca, ao ponto que ao caminhar na neve constatamos que esta estava na altura dos nossos tornozelos. Com esse fator retardatário demoraríamos e cansaríamos mais até chegar aonde ela queria chegar.

Olhando o céu perolado, pensei nas flores no tumulo da Irmã Marie. Agora realmente deveriam ter sido engolidas pelo frio, fazia-se exatamente uma semana que morrera.

As árvores desnudas davam um ar sinistro a nossa caminhada. Descobri aonde íamos quando pegamos uma trilha conhecida. Ela parou exatamente onde eu imaginei que pararia, ao lado de um banco de madeira muito antigo e que agora acumulava uma espessa camada de neve branquíssima. Adiantei-me quando percebi que ia começar a limpar a neve para se sentar, lhe impedi e fiz o trabalho. Ao terminar meus braços estavam ligeiramente úmidos e muito gélidos, não me importei. Ela sentou-se e eu a acompanhei.

– Então... – Comecei.

– Minha vó passou mal. – Falou agora mais calma e olhando para o distante.

– Emy... – Meu coração disparou em um frenesi, porém quis manter a calma. Já bastava uma pessoa instável. – Como está?

– Nada bem. — Não sei se era pelo frio, mas meus olhos começaram a arder e proeminentes lágrimas se formaram. – Já não estava mais bem desde que a Irmã Marie morreu.

– E...

– Sentiu dor. Seu pai a levou para emergência. – Sua voz começou a ficar fraca.

– O que era?

– O diagnóstico foi câncer. – Sam desabou chorando no meu colo, enquanto as lágrimas faziam o mesmo no meu rosto.

Não sabia o que dizer, mas poderia jurar que a escuridão voltaria a minha vida.

Notas finais
Review?!