Tempestuoso
34 Desatenção aos Detalhes
Notas iniciais
Minha pele estava supersensível ao mínimo contato dos seus dedos, era como se cada contato estivesse antecipando algo maior, o que não era verdade, pois tínhamos acabado de fazer amor naquela noite, digo, naquele dia, pois já era manhã. Eu estava deitado de bruços na cama e Yerik parcialmente sobre mim, deitava sua cabeça nas minhas costas enquanto dedilhava os dedos por ela. O orgasmo poderia ter me feito caminhar para o mundo dos anjos, mas novamente a atenção aos seus toques mantinha-me desperto.
— Estamos no paraíso? – Ele me perguntou ao beijar minha pele.
— Talvez nas portas dele.
A amanhã nascia pela janela escondida pelas cortinas cor pastel, que ondulavam com o vento, surpreendentemente, agradável de fevereiro. Estava tão relaxado e feliz, que jamais imaginei que conseguiria chegar a tal estado. Seria pedir muito sempre estar assim? Acho que sim, porque momentos como aqueles só existem porque servem de comparação com momentos ruins, sem nada ruim, seria apenas mais um momento.
— Então, já estou vendo um anjo. – Yerik sussurrou no meu ouvido.
Sorri, não corei, estava de olhos fechados.
— Eu posso senti-lo. – Lhe retribui o gracejo.
— Sentiu a noite toda. – Ele riu.
Dessa vez, não consegui evitar a timidez, balancei a cabeça negativamente.
— Você é um idiota. – Murmurei.
— Idiotamente apaixonado por você. – Me abraçou.
— Declarações de amor são um pouco brega.
— Eu gosto de ser brega.
— Eu gosto quando você é brega.
Apesar de estarmos nu, não havia cunho sexual no contato, ia de uma intimidade muito além da sexual, não sei explicar exatamente o que é era. Mas seria como se tudo que vivêssemos não significasse mais nada, pois estariam tão evoluídos que somente a presença e o mais simples toque significavam mais que qualquer coisa. Ele se deitou ao meu lado, virei-me para encará-lo, abrindo os olhos e agradecendo a proximidade para poder enxergar o seu rosto com detalhe, nossos pés estavam entrelaçados, assim como nossas pernas.
— Podemos ficar assim para sempre? – Murmurei.
— Claro que podemos, é só deixar a porta trancada. – Riu, me beijando.
Seus lábios tinha um leve gosto amargo de sangue, por minha culpa, que o mordera durante o amor, mas não tinha um pingo de arrependimento. O ato de amar, tinha assumido uma completa nova concepção dentro da minha mente, jamais diria isso em voz alta ou algo do tipo, mas ficaria feliz em realizá-lo sempre que possível, deveria ficar melhor e mais fácil com o tempo, esperava ansiosamente, pois tinha sido uma outra experiencia, completamente diferente da nossa primeira vez. Me questionei porque demorara tanto tempo para experimentar, apesar de já saber a resposta.
— Por que sinto que as coisas agora serão diferentes? – Murmurei enquanto nossos dedos se entrelaçavam no ar.
— Porque será. Você mudou muito e para melhorar, você era tipo uma plataforma de gelo agora encontrou a fusão e é um lindo lago de água cristalina. — Sorri, mas não pude deixar de fazer uma careta com a comparação. – Acho que foi uma péssima comparação para quem tem hidrofobia. – Se lamentou.
Balancei a cabeça positivamente, mas lhe dei um beijo rápido, o que valia era a intenção.
— Mas entendi o que você quis me dizer... Outra coisa, não deveríamos usar camisinha?
— Sim, sempre.
— Mas não usamos em nenhuma das vezes. – Falei preocupado.
— Eu não tenho nenhuma DST e você também não, então não é uma grande coisa, mas devemos evitar...
— Certo.
— Mas já que estávamos falando sobre água e tudo mais, seria muito cedo dizer que eu adoraria foder com você na piscina?
Suas palavras me pegaram de surpreso, devo ter ficado vermelho, era muito estranho ter vergonha de alguém que estava deitado nu ao seu lado e que horas atrás formava um só com você.
— Creio que sim.
— Mas existe a possibilidade? – Arqueou uma sobrancelha sugestivo.
— Acho meio improvável porque não conseguiria relaxar...
— Mas você não precisa ser o passivo. – Me interrompeu.
Eu não tinha pensado nisso, mas ainda essa não era a maior das questões, mas sim a água.
— Não seria só por isso, mas a água em si. – Não queria soar pessimista, mas devia ser honesto.
— Ahh, tudo bem. – Senti uma pontada de decepção na sua voz, me senti culpado. – Mas podemos aproveitar muito ainda em terra. – Sumiu sua mão por todo o meu corpo de forma provocante.
— Eu sinto uma paz tão grande em estar com você, além de tudo, é muito bom ter alguém com quem contar. – Minha fala cortou sua malicia.
— Como assim? – Pareceu confuso.
— Além do meu namorado, você é meu melhor amigo. Estar finalmente com o Mick nunca pareceu ser uma necessidade até descobrir que era você.
— Senti seu olhar vacilar. – Acho que talvez minha fala o tenha desnorteado, parecia querer chorar, porém conteve-se.
— Nunca mais vai se sentir sozinho. — Me puxou para junto de si e voltou a me beijar, queria ter permanecido junto dele por mais tempo, mas o mundo não congela por desejo de nosso bel prazer.
—x-
— Ainda não me desceu o que aconteceu no baile! – Georgina choraminga enquanto me ajudava no alongamento em uma das minhas aulas extras de dança.
Tinham se passado duas semanas desde o incidente da coroação, no entanto, ela ainda não havia superado. Para mim, era algo tão bobo, mas para ela algo tão grande, estava se tornando irritante sempre retornar ao mesmo ponto.
— Acho que já passou e terão outros bailes até a formatura. – Argumentava com a maior delicadeza possível para não a machucar.
Em resposta, pressionou ainda mais a abertura, fazendo-me perder o folego com o esforço, parecia até punitiva.
— Você tem razão e os próximos serão melhor, eu nem queria estar com o par que eu estava mesmo.
— Não gosta ainda de Yerik? – Lhe perguntei confuso, mas com um pouco expectativa para a resposta. Admito que sentia um pouco de ciúmes dela com ele, afinal, eram ex-namorados e eu não sabia se Yerik ainda também gostava de garotas.
— Não. – Ela fez uma careta. – Yerik é popular, só era bom para a campanha e conseguir votos. — Fiz uma expressão de surpresa. – A gente namorou ano passado e foi bem... decepcionante, na melhor das palavras para expressar. — Não pude evitar de sorrir. – Mas, eu gosto de outro garoto. – Soou misteriosa.
— E por que ainda não falou com ele? – Lhe perguntei, como se fosse uma atitude fácil de se fazer.
— Porque não tenho coragem. – Respondeu constrangida com um sorriso de canto.
— Deveria ter, é linda, qualquer garoto seria sortudo de estar com você. – Ela me encarava de forma estranha conforme falava isso.
— Não sei... – Soou desanimada. – Acho melhor mudarmos de assunto e continuarmos com os ensaios.
— Tudo bem, mas eu queria tentar algo com você antes.
— O quê? – Pareceu animada.
Em questão de minutos estávamos ensaiando uma sequencia de Jazz do número final do musical Chicago, era um dueto.
It's good, isn't it?
Grand, isn't it?
Great, isn't it?
Swell, isn't it?
Fun, isn't it?
Nowadays
There's men, everywhere
Jazz, everywhere
Booze, everywhere
Life, everywhere
Joy, everywhere
Nowadays
You can like the life you're livin'
You can live the life you like
You can even marry Harry
But mess around with Ike
And that's
Good, isn't it?
Grand, isn't it?
Great, isn't it?
Swell, isn't it?
Fun, isn't it...
But nothing stays
You can like the life you're livin'
You can live the life you like
You can even marry Harry
But mess around with Ike
And that's
Good, isn't it?
Grand, isn't it?
Great, isn't it?
Swell, isn't...
No final, caímos exaustos cansados no chão rindo.
— Obrigado por praticar comigo. – Falei ofegante.
— É um imenso prazer lhe ajudar a achar um dueto para a competição de Corais. – Riu.
Nossas risadas foram sessando restando apenas o som das nossas respirações ofegantes, senti seu olhar recair sobre mim, demoradamente. Lhe encarei também sorrindo, mas ela já não sorria mais, me olhava de maneira estranha.
— Eu gosto muito de você. – Fez um carinho na ponta do meu nariz.
— Eu também gosto muito de você. – Lhe retribui o afago, mas quebrando a troca de olhares, estava torna-se levemente desconfortável.
Não nos demoramos muito tempo no estúdio de dança, logo Georgina se despediu de mim e seguiu para a Ala Feminina, eu, no entanto, tinha um encontro marcado no meio do bosque. Não ouve tempo nem para um “oi” ou qualquer saudação do tipo, Yerik puxou-me para árvore mais próxima e devorou meus lábios, era uma necessidade emergencial de me ter e para mim, também não era tão diferente assim. Tentei acompanhá-lo, mas seu ritmo era frenético, assim como suas mãos que me apertavam o corpo.
— Calma... – Falei sem ar.
— Não, estou morrendo de tesão por você. – Falou mordendo meus lábios e controlador.
— Alguém pode nos ver. – Murmurei gemendo, pois com duas semanas de pratica, ele já sabia aonde eram meus pontos fracos.
— Eu não me importo e você também não deveria. – Virou meu pescoço para mordê-lo.
Não poderia ser desonesto se não admitisse que gostava desse seu jeito mais mandão quando as coisas ficavam quentes ou do seu fetiche em querer fazer amor em lugares inusitados pela instituição. Tirando nosso dormitório, sempre acabávamos fazendo no pequeno e apertado armário de vassoura e no bosque, como naquele momento e meu local favorito era o último, apesar de ser o mais arriscado, porém o mais bonito. O clima já estava mais ameno, por isso não morríamos de frio ao ficarmos nu. Tinham sido semanas intensas, Yerik parecia querer matar uma fome de cem anos e eu estava tão faminto quanto ele, surpreendendo-me sempre por ceder as suas investidas e por não ter tido nenhum incidente, além de pequenos sangramentos.
Quando dei por mim, estava sem as calças, ele com as deles arqueadas, com o corpo ainda apoiado na arvore, mas suspenso no ar, com as pernas em volta dele, sendo penetrado. Meu corpo estava se acostumando ao ele, pois não doía mais quando me penetrava, apesar de tomarmos sempre os cuidados necessários para facilitar a ação.
Se não o estivesse dentro de mim, estocando-me, poderia ficar excitado só com a cena do seu esforço em segurar-me ao mesmo tempo que me penetrava, o suor escorrendo pelo seu dorso, as veias do braço e sua expressão de descontrolada, os lábios vermelhos por estarem sendo mordidos, era tudo muito sexy.
— Geme para mim, Bleika.
O obedeci, gemia enquanto murmurava o seu nome, sabia que ia a loucura quando fazia isso.
Incrivelmente, parou de me apoiar com uma das mãos e jogou todo meu peso para o seu quadril, para poder puxar-me o cabelo e colar-nos os lábios, de maneira dominadora. Minha pele ficava tão sensível ao toque que era capaz de sentir cada detalhe, ondulações e irregularidades na casca do tronco da arvore atrás de mim.
Yerik derramou-se primeiro, dentro de mim, mas com camisinha, não demorei muito para acompanha-lo ao ter os mamilos mordidos por ele, sujando o chão da mata.
— Eu te amo. – Falou, beijando-me.
— Eu também te amo. – O abracei, sempre fazia isso após o gozo.
Só tinha um lado ruim, além da exposição, de fazer amor no bosque, era não poder aproveitar da sensação de relaxamento que o sexo causava depois, rapidamente nos arrumávamos e sentávamos no meu banco favorito. Não nos comunicávamos verbalmente, ficávamos minutos nos encarando como crianças que acabaram de aprontar, o que não era uma total mentira. Seu sorriso malicioso quase me fazia ter vontade de repetir o ato de minutos atrás, mas nunca me arriscaria a fazer em um mesmo local publico seguidamente, muito tempo de exposição.
— Por que sempre me olha assim? – Lhe perguntei, eu estava deitado no banco com as pernas apoiadas no seu colo.
— Como?
— Da forma que está fazendo agora.
— Ah, sei lá, estou te imaginando nu e estou ficando com tesão de novo.
— Por que ser tão vulgar? – Falei vermelho.
— Porque minha vulgaridade faz sair gemidos e múrmuros bem gostosos dessa boquinha aqui. – Se aproximou de mim e me deu um rápido beijo. Não lhe respondi, fiquei vermelho como um morango maduro. – Para um virgem, você é bem safado.
Lhe dei um chute como resposta.
— Hey. – Segurou o meu pé. – Como se não fosse verdade, não esperei que aceitasse fazer sexo em publico quando propus, mas agora, parece gostar mais do que eu.
— Mentira! – Tentei novamente lhe chutar, mas estava com os dois pés imobilizados.
— Se eu pedisse com jeitinho, você me deixaria te comer de novo, aqui agora?
— Não!
— No quarto?
— Teria que me pegar primeiro. – Falei me levantando de supetão e disparando em direção aos dormitórios.
—x-
— Você acha que Yerik ficaria comigo?
— O QUÊ?!
Maggie me perguntou isso na aula de Geopolítica na manhã do dia anterior, falei tão alto que todos os olhares da classe se voltaram para nós.
— Me desculpe. – Murmurei, logos os olhares voltaram de volta a lousa.
— Você é discreto com um elefante de tule em uma loja de cristais.
— Mas olha as coisas que você fala... – Falei contido, mas ainda alterado.
Era só o que me faltava, além, de Georgina e Louis, Maggie também dando em cima de Louis, no caso, a Georgina não mais.
— O quê? – Ela me olhou maliciosa. – Ele é gatinho e disponível.
— Ele não está disponível! – Novamente acabei falando mais alto do que devia, por sorte, ninguém olhou para nós.
— Para de gritar, doido, controla esse ciúmes! – Soltou um risinho irritante.
Fiquei vermelho.
— Não é ciúmes, eu sei que ele está com alguém...
— Eu só estou brincando. – Revirou os olhos. – Só queria jogar um verde e você caiu que nem um patinho.
— Do que está falando? – Lhe encarei nervoso.
— Para o bem da sua sanidade mental, não vou lhe dar uma resposta concreta, apenas um conselho: seja mais discreto! – Arregalei os olhos. – E não marque o pescoço dele. – Riu.
Não lhe respondi, pois, qualquer resposta que lhe desse só pioraria a situação, teria que torcer para que ela não continuasse acreditando naquilo e dizer para Yerik para tomarmos mais cuidado, principalmente eu, porque não era a primeira vez que minhas reações me entregavam.
Só encontrei com Yerik um pouco antes da aula do Coral.
— Está com uma carinha feia. – Falou quando me viu, estava esperando minha aula terminar no corredor.
— Maggie sabe da gente. – Falei em voz baixa.
— Você contou? – Começamos a caminhar, balancei a cabeça negativamente. – Como ela descobriu?
— Porque consigo ser discreto como um elefante de tule em uma loja de cristais.
— Que merda! – Ele soltou o ar dos pulmões apreensivo. – E você acha que isso é um problema?
— Não sei... – Lhe respondi com sinceridade. – Acho que só devemos ter mais cuidado...
— Quer ir para o armário de vassoura? Aposto que a Sra. Underwood não reclamaria do atraso.
— Você ouviu o que eu falei? Que temos que ser mais discretos e você quer me levar... – Não terminei a frase.
— Quero, ué. – Riu. – Também quer, igual ontem que saiu correndo sabendo que eu te pegaria.
— Eu tropecei. – O interrompi.
— No chão liso?
— Sou desastrado...
— Não.
— Mas é sério, devíamos nos limitar a fazer no quarto...
— E nas piscinas, de madrugada não tem ninguém.
— Deus me livre. – Minha resposta foi um balde de água fria nele, ficou nítido na cara de desanimo que fez. – Está ansioso para os duetos? – Mudei drasticamente de assunto.
— Estarei se minha dupla for você. – Sorriu dócil.
Lhe retribui o sorriso.
— Mas teríamos que escolher uma canção neutra...
— Infelizmente... Pois queria uma bem melosa, para poder me declarar para você igual fez no baile.
— Nem foi uma grande declaração.
— Mas vindo de você, é muito sim.
Não pude evitar de gargalhar.
—x-
— Vocês estão absolutamente proibidos de fazer qualquer comentário. – Yerik e Maggie se controlavam para não rir, a Sra. Underwood tinha acabado de fazer o sorteio das duplas, que fora completamente aleatório e sem separação de gênero. Os dois tinham ficado juntos, o que estaria tudo certo, Maggie obviamente não se interessava nele, mas o problema foi a minha dupla, não poderia ter sido um desastre maior, era Louis.
— Parece que vamos ter que dividir o mesmo espaço mais tempo. – Ele fez questão de caminhar até mim quando a dupla foi anunciada.
— Me diga o que eu fiz para merecer isso. – Murmurei baixo para ninguém ouvir.
— Isso vai ser interessante. – Maggie não se segurou e começou a rir.
— O que eu falei de comentários? – Lhe fiz uma careta.
Ela levantou as mãos rendidas. Louis passou o resto da aula ao meu lado, ouvindo as instruções de como seria o torneio em duplas que teria nada mais, nada menos como prêmio a certeza de serem os melhores vocalistas do grupo, ou seja, nada. A Sra. Underwood continuou divagando sobre a competição até a aula acabar.
— Vamos combinar a música e os ensaios? – Louis perguntou alegre.
— Pode ser, tem alguma em mente? – Perguntei.
— Tem uma música da Britney e Madonna que eu sempre quis cantar, mas precisava de um parceiro.
— Acho que eu sei qual é.
— Mas eu não sei, você teria que conseguir me acompanhar nos passos de dança. – Estava bom demais ficar sem uma cutucada.
— Pode ficar tranquilo, eu pratico todas as quartas e sextas dança, apesar de preferir cantar. Cada um valoriza o que tem de melhor... – Não foi um cutucada, mas poderia ter sido, porque eu tinha vocais melhores que os dele.
— Felizmente sou abençoado com ambas as qualidades...
— Pode me encontrar no estúdio 3 para ensaiarmos a coreografia, estou lá sempre as 17hrs dos dias que eu falei.
— Combinado. – Sorriu, seu sorriso era tão falso que temi o que ele poderia aprontar com esses ensaios. – Leve o seu amiguinho também nos ensaios. – Saiu saltitando.
Yerik e Maggie assistiram nossa conversa como uma plateia assisti uma peça de tragédia grega.
— Queria entender a rixa de vocês... – Maggie falou em um tom de quem sabia exatamente o motivo da nossa rixa, não era boba e naquele dia estava excepcionalmente boa em desvendar os segredos que me envolvia.
— Vai ficar querendo. – Bufei.
— Você vai voltar para o dormitório? – Yerik perguntou, seu tom era o tom que usava sempre que tinha segundas intenções.
— Não, preciso estudar na biblioteca, tenho o projeto de redação antes da pascoa.
Yerik fez uma careta e seguiu com Maggie até os dormitórios, eu segui até o primeiro andar, onde ficava a biblioteca e dentro de dez minutos encontraria com Alex. Em nunca sabia em que pé estava a nossa relação, pois ele sempre era muito volátil e misterioso, tinha dias que mal abria a boca e outros que parecia ter segundas e terceiras intenções comigo, eu sempre siga o seu ritmo, tentando ser o mais discreto possível e escondendo do meu namorado, que o detestava. Eu sabia que era errado esconder algo assim dele, mas era algo tão bobo que geraria nada demais em uma discussão besta, por isso, sempre omitia que o trabalho era em dupla.
— Você já está aqui? – Me surpreendi com sua presença em uma das salas de estudo que sempre reservávamos.
— Pensei adiantar um pouco, enquanto estava no Coral. – Soou amistoso, eu preferia quando estava assim, era mais fácil de se conversar, não seria como caminhar em ovos.
Estava com a aparência de sempre, pálido, com o cabelo loiro bagunçado, com as olheiras e hematomas costumeiros.
— Eu pensei que esse projeto seria mais fácil... – Falei ao me acomodar ao seu lado.
— Pelo menos passamos mais tempo juntos...
Não lhe respondi.
— O que você adiantou? – Ignorei sua ultima fala.
— Fiz alguns rascunhos do que seria o corpo do trabalho no meu notebook... Veja. – Me puxou para mais próximo dele para vermos juntos a tela do notebook.
Juro que eu tentei ler o que ele escrevera, mas fiquei atônito ao sentir sua mão na minha coxa, poderia ser um incidente ou algo aleatório, se ele não tivesse começado a me apertar. Não soube como reagir, queria impedi-lo de me tocar, ao mesmo tempo sua voz muito próxima do meu ouvido me arrepiava. Fiz menção de me afastar, mas seu toque se intensificou.
— Alex. – O interrompi na sua narrativa calma sobre o que escrevera.
— Sim? – Falou na maior tranquilidade, como se nada tivesse acontecendo.
— Pode parar? – Pedi.
Como resposta, Alex colou nossos lábios, não foi um beijo com língua, não conseguia me mexer o suficiente para permitir que sua língua invadisse minha boca.
— Vamos lá, Blake, facilite um pouco as coisas. – Apertou meu pescoço, com uma mão que eu não tinha percebido que tinha ido parar ali.
Não sei de onde consegui forças para parar, mas dei um impulso para trás, me derrubando da cadeira e interrompendo o contato.
— O QUE VOCÊ PENSA QUE ESTÁ FAZENDO? – Gritei, limpando os lábios.
— O que você acha? E pare de gritar, uma Irmã pode aparecer. – Ele riu da situação. – Vai dizer que não gostou? Você está até duro! – Apontou para minha calça.
Era verdade, estava e excitado, meu corpo me traia, mas minha mente e coração não. Era possível estar apaixonado e sentir atração por outro?
Não lhe respondi, peguei minhas coisas e sai correndo.
Eu ainda estava excitado quando parei na esquina do corredor, comecei a chorar. A culpa começou a dominar-me, eu tinha acabado de trair Yerik? Me questionava. Que tipo de pessoa eu era? Sentei no chão gelado e deixei-me ser levado pela confusão dos meus pensamentos. Com uma entrega tão obvia do meu corpo, era claro que sentia atração por Alex, mas eu não o queria, isso estava bem claro na minha mente, assim como também a muito tempo, que gostara dos beijos do passado.
Teria que contar para Yerik sobre o que acontecera e implorar o seu perdão, era o único jeito, mas isso o destruiria e ainda descobriria os meses de omissão. No final, ele sempre estivera certo, Alex não era confiável e no fundo eu deveria saber disso, mas por que ainda continuara em sua companhia? Seria algum desejo reprimido?
— Esperava que durasse por mais bastante tempo o romance secreto de vocês!
— O que? – Louis passou por mim me alfinetando, ele se referia a Alex ou a Yerik, por um momento, meu coração subiu até a boca com a possibilidade de ter toda a cena anterior assistida por alguém, porque se tinha alguém que poderia fazer um estrago com essa informação, era Louis.
— Eu sei que está com Yerik. – Completou, para meu aliviado
Quase pude suspirar aliviado, dei de ombros, levantei-me e andei como se nada tivesse acontecido, tinha problemas maiores que as cutucadas de Louis para lidar agora, porém não seria tão fácil assim se livrar dele.
— Ei, volta aqui! Não vai falar nada? – Obviamente estava procurando conflito, no entanto, eu não era a melhor pessoa para isso. – Não tem medo que eu espalhe para os outros?
Só parei de andar quando tive o braço puxado.
— Por favor, pode me soltar? – Lhe encarei, estava tentando ficar calmo, mas minha cabeça estava um caos, pude ainda sentir o gosto do outro na minha boca e a culpa me consumia tão rapidamente que poderia desabar em cinzas.
— Por favor, pode me soltar? – Fez uma imitação ridícula da minha voz. – Está chorando por que vocês terminaram?
Então era nisso que estava interessado.
Esbocei um fraco sorriso, desvencilhei-me dele e continuei minha caminhada para qualquer lugar que meus pés me guiassem.
Louis tentou novamente me puxar, mas desta vez gritei:
— TIRE SUAS MÃOS IMUNDAS DE CIMA DE MIM!
Minha reação o surpreendeu o suficiente para parar de me seguir, voltei a chorar e corri para o bosque. Estava quase anoitecendo, o clima se tornava frio apesar da proeminência da primavera e levemente assombroso. Fiquei lá por algumas horas, tentando arrumar uma forma de contar para alguém o que aconteceu, mas não sabia para quem contar, a única pessoa apta estava morta e outra era o meu namorado. Só fui embora, quando uma Irmã apareceu como uma alma penada no meu lado e obrigou-me a voltar.
Suava frio quando entrei no quarto, mas por sorte, Yerik já dormia, ele sempre dormia cedo quando fazia treino após o jantar, o que não era com frequência. Queria correr para seus braços e desabar em lagrimas, mas seria tão desonesto receber seu afeto e continuar mentindo e escondendo, não o merecia. Fui até a minha cama e virei-me para parede, dormir sozinho parecia estranho e solitário.
— Deixou de me amar? – Yerik me acordou cutucando meu quadril. Acordei desnorteado e com a cabeça latejando, às vezes, isso acontecia quando ia dormir com dor de cabeça, acabava acordando com a mesma. – Por que não dormir comigo?
Estava um pouco desnorteado por ser acordado daquele jeito, por isso, nem lhe respondi. Me levantei e caminhei ate o banheiro com uma escolta que ficou na porta até eu sair.
— Você estava dormindo tão calmo, não queria incomodar... – Falei assim que saí.
— Mentira.
— Você estava roncando, sempre ronca quando treina tarde. – Tentei arrumar outra justificativa.
— O que? Como eu posso roncar se pratico natação?
— Está aí uma boa pergunta. – Ri de nervoso.
Não sabia como agir com ele, mal conseguia encará-lo sem o drama que passaríamos pesar nos meus ombros.
— Fica pensativo não, estou brincando com você. – Me deu um beijo da bochecha antes de entrar no banheiro.
—x-
You're music to my eyes
I had to listen just to find you
I like for you to let me sing along
Give you a rhythm you feel
I wanna learn your every line
I wanna fill your empty spaces
I want to play the part, to reach your heart
Sing you a song that you feel, wo-oh
Love, let your music be mine
Sing while I harmonize
Let your melodies fly in my direction
Take me to your paradise
On a musical ride
I'm in love with your music, baby
You're music to my eyes
Your voice is quite a view
I heard a song and then I saw you
I learned the lyrics and knew you were mine
Danced the horizon with you
I wanna sing you a sunrise
And be the dawn I know will move you
I'd like to be the strings on your guitar
Touch me and play what you feel
Love, let your music be mine
Sing while I harmonize
Let your melodies fly in my direction
Take me to your paradise
On a musical ride
I'm in love with your music, baby
You're music to my eyes
Se passou uma semana desde o ocorrido com Alex e eu não contara nada para ninguém. Eu me esforçava em manter uma boa relação com Yerik, mas ele percebia que eu escondia alguma coisa e estava distante. Sofria em silencio e nem merecia empatia, era culpado da minha própria desgraça. Ele tinha acabado declaração em forma de dueto e ao invés de me sentir amado, mais a culpa me corroía.
— Essa música foi para você. – Ele surrou no meu ouvido ao voltar a sentar.
— Eu percebi. – Sorri sem graça. – Se fosse para Maggie acharia estranho.
— E você está certo, ela sabe de tudo, ficou me interrogando sobre a gente, mas não falei nada, acho melhor ficar ainda na negação com ela, uma hora, desencana.
— Próximos! – A Sra. Underwood falou.
Éramos Louis e Eu, estávamos vestidos com um terno preto e branco respectivamente. Desde o incidente no corredor, nunca mais me alfinetou, mesmo nos momentos durante o ensaio, diria que se comportava de maneira profissional, até aquele momento.
— Não devia esconder as coisas do Yerik. – Louis comentou baixo enquanto nos posicionávamos no centro da sala.
— Do que está falando?
— Deveria ser um pouco mais cuidadoso com as coisas que fala, não é difícil juntar um mais um e nem deveria confiar no inimigo.
— Tem uma carta anônima para o seu namorado na cadeira dele e ele está lendo ela agora, conteúdo: suas noites quentes com a o Smith na biblioteca.
Virei-me para ver Yerik, ele estava lendo um papel e olhava para mim, a cada palavra que lia, sua testa enrugava mais. Louis tinha tirando-me o direito de contar a verdade, a minha verdade para ele, mesmo que já se tivesse passado uma semana desde o acontecido, eu ainda estava esperando o momento certo.
— Espero que consigam passar essa crise bem.
Fiquei vermelho de raiva.
Ele puxou a música antes que pudesse reagir.
No one cares
It's whippin' my hair, it's pullin' my waist
To hell with stares
The sweat is drippin' all over my face
No one's there
I'm the only one dancin' up in this place
Tonight I'm here
Feel the beat of the drum, gotta keep it that bass
O acompanhei como uma segunda voz, começamos a dançar, não era uma dança naturalmente amistosa e eu estava espumando de raiva, queria voar em cima dele e esfregar sua cara no piso de madeira.
I'm up against the speaker, tryin' to take on the music
It's like a competition, me against the beat
I wanna get in the zone, I wanna get in the zone
If you really wanna battle, saddle up and get your rhythm
Tryin' to hit it chic-a-tah
In a minute I'm a take a you on, I'm a take a you on
Hey, hey, hey
A tensão estava tão grande que os outros alunos nos encarava assustados.
All my people on the floor
Let me see you dance
(Let me see ya)
All my people wantin' more
Let me see you dance
(I wanna see ya)
All my people round and round
Let me see you dance
(Let me see ya)
All my people in the crowd
Let me see you dance
(I wanna see ya)
So how would you like a friendly competition
Let's take on the song
(Let's take on the song)
It's you and me baby, we're the music
Time to party all night long
(All night long)
I'm feeling it bad and I can't explain
My soul is there
My hips all moving at a rapid pace
Can you feel it burn
From the tip of my toes, running through my veins
And now's your turn
Let me see what ya got, don't hesitate
I want to get stupid
Trying to take my music
It's like a competition
Me against the beat
I want to get in the zone
I want to get in the zone
If you really want to party
Settle up and get your rhythm
Try to hit, you could die
In a minute, I'ma take-a ya on, I'ma take-a ya on
Hey, hey, hey (here we go)
All my people on the floor let me see you dance
All my people up for more let me see you dance
All my people, 'round and 'round let me see you dance
All my people in the crowd, let me see you dance
I wanna see you
Eu sei que não deveria ter socado a cara dele, mas sei lá, as vezes é difícil e só precisamos do nariz de um tipo como o Louis para descontar toda a raiva. Mas, felizmente não fiz, foi por pouco, parei meu muque alguns centímetros da cara dele, antes de sair correndo e me trancar no armário de vassouras/cantinho do amor e destruir os materiais de limpeza.
Alguém bateu na porta poucos minutos depois que entrei, a abri e era Yerik, ele não falou nada e entrou no espaço minúsculo.
— Você me traiu? – Sua voz era calma e ao mesmo tempo descontrolado.
— Não. – A minha em comparação era totalmente descontrolada e falha.
— Então porque me deram essa carta falando que te viram aos beijos com o Smith, é mentira? – Senti sua respiração pesar.
— Não. – Me aproximei dele, tocando o seu rosto. – É verdade, mas não é simples.
— COMO NÃO É SIMPLES?
— Ele que me beijou, não foi eu!
— Mas você correspondeu?
— NÃO!
— MAS NÃO ME CONTOU! A quanto tempo estão fazendo um trabalho escondido?
— Algumas semanas. – Ele tirou minhas mãos do seu rosto. – Por favor, me perdoa. – Naquele momento, meu rosto estava tão molhado que eu poderia ter acabado de sair de uma chuva.
— Não.
— Por favor. – Tentei abraça-lo. – Me escuta ao menos.
— Não, Blake! – Ele segurou meu braço. Não o ouvir me chamar por Bleika, foi doloroso – Apenas me de espaço para pensar e absorver tudo que aconteceu, você mentiu para mim...
— Eu não...
— Omitiu que estava com Alex e que já tinham se beijado.
— Você também já tinha beijado Jessie e Louis...
— E eu te contei. Você não fez isso. – Apontou o dedo para mim. – Quantas oportunidades eu te dei para falar e você ficou em silencio.
— Me desculpa. – Tentei tocá-lo, mas novamente afastou meu toque.
— Não, não agora. Preciso pensar...
— Não me deixa...
— Blake, para com isso, eu preciso de espaço para respirar e você está me sufocando.
Dei um passo para trás.
Yerik abriu a porta do armário de vassouras e saiu, deixando-me sozinho. Fiquei chorando em silêncio, como pude ser tão idiota ao ponto de esconder tudo que acontecia dele, uma hora descobriria tudo, devia-lhe no mínimo honestidade. Mas a verdade o machucaria, uma verdade tão boba que ele poderia não saber nada que a única diferença seria só não sofrer.
Ele não dormiu no nosso dormitório naquele dia, só tive algum contato com ele quando escutei sua voz, um pouco antes do almoço no outro dia vindo de uma sala.
Now and then I think of when we were together
Like when you said you felt so happy you could die
Told myself that you were right for me
But felt so lonely in your company
But that was love and it's an ache I still remember
You can get addicted to a certain kind of sadness
Like resignation to the end, always the end
So when we found that we could not make sense
Well, you said that we would still be friends
But I'll admit that I was glad that it was over
But you didn't have to cut me off
Make out like it never happened and that we were nothing
And I don't even need your love
But you treat me like a stranger and that feels so rough
No, you didn't have to stoop so low
Have your friends collect your records and then change your number
I guess that I don't need that though
Now you're just somebody that I used to know
Now you're just somebody that I used to know
Now you're just somebody that I used to know
Now and then I think of all the times you screwed me over
But had me believing it was always something that I'd done
But I don't wanna live that way, reading into every word you say
You said that you could let it go
And I wouldn't catch you hung up on somebody that you used to know
But you didn't have to cut me off
Make out like it never happened and that we were nothing
And I don't even need your love
But you treat me like a stranger and that feels so rough
No, you didn't have to stoop so low
Have your friends collect your records and then change your number
I guess that I don't need that though
Now you're just somebody that I used to know
Somebody, I used to know
Somebody, now you're just somebody that I used to know
Somebody, I used to know
Somebody, now you're just somebody that I used to know
I used to know
That I used to know
I used to know
Somebody
Estava cantando com Louis e quando o vi abraça-lo no final da música, meu peito se apertou tanto que parecia que tinha sumido do peito e deixado um pequeno buraco negro.
Fale com o autor