Tempestuoso
35 Desabrochar da Primavera
Notas iniciais
Eu estava tão triste que não conseguia nem chorar, apenas sentei-me em uma das soleiras das grandes janelas da sala comum da Ala masculina e observei a natureza que renascia ao final de mais um inverno. Um vento gelado batia-me no rosto, tentando levar consigo meus sentimentos, ficaria feliz se fosse bem-sucedido, no entanto, mantinha as emoções tão presas dentro de mim que seria necessário um tornado para leva-las. Queria ficar só, sem o barulho dos outros garotos, mas seria pedir demais isso em pleno fim do dia.
— Se ficar aí por muito tempo pegará um resfriado. – A voz de uma das últimas pessoas que queria ouvir apareceu na outra janela ao meu lado. Encarei aqueles olhos acinzentados com ressentimento, queria gritar com ele, mas não era capaz.
Alex estava também sentado na soleira da janela, mas felizmente a um metro de alvenaria de distância. Sua fala transparecia uma certa preocupação, apesar de o seu olhar como sempre não dizer nada.
Não lhe respondi e ele não falou mais nada por um tempo, então um desagradável silencio se instalou.
— Deveria... – Ele começou a falar olhando sem um ponto especifico também para paisagem.
— Você. – O interrompi, atraindo sua atenção. – Deveria me deixar só.
Não ouve drama, cerimonias ou necessidade de ser repetitivo. Alex se levantou, fechou a janela com toda calma e se afastou, não vi para onde foi, mas pude percebe-lo ir para além da sala comum. Suspirei aliviado, mas não por muito tempo.
— De todas as pessoas daqui, você seria a última que eu consideraria ser uma safada. – Louis falou ao sentar ao meu lado na soleira, sem receber qualquer convite.
Estava radiante, como se estivesse voltado de uma bela tarde primaveril no parque e poderia imaginar o porquê.
— O que você está falando?
— Boa tarde, primeiramente. – Sorriu, era um sorriso maldoso, me preparei para o que viria, mesmo já sabendo sobre o que falaria e sobre o que contaria vitória. Ver sua cara de satisfação era análogo a ver comida estragada.
Não lhe retribui a saudação.
— Esperava que você fosse mais educado, perguntasse como eu estou, me desse boa noite e perguntasse como foi meu dia. – Debochou. – Os bons meninos da igreja não são assim? Pelos menos quando não estão se pegando escondido atrás do altar ou sendo abusado pelo padre?
Fiquei vermelho de raiva e vergonha com as coisas que dizia, deveria ser ofensiva para pelo menos umas milhares de pessoas.
— Seria educado também perceber quando se é bem-vindo no mesmo espaço com outra pessoa. – Lhe devolvi.
— Concordo, mas se foi para mim a alfinetada, eu realmente não sou nenhum pouco educado. Mass... vamos a novidade, meu querido colega de dança e coral tenho algo refrescante para você! – Sorria, seu sorriso era a pior parte, era um sádico por satisfazer com algo que machucar-me-ia.
Tranquei minha mandíbula para segurar-me o máximo em minhas reações para o que viria, apertei tão forte meus lábios que provavelmente sumi com eles, só não conseguia controlar os olhos, que o fuzilavam como os aliados fuzilaram nazifascistas na Segunda Guerra.
— Tive uma adorável tarde com o Sr. Stanilau e ele me contou absolutamente tudo sobre você. – Arquei as sobrancelhas, legitimamente surpreso com a informação. – Nos mínimos detalhes... – Foi incisivo.
— Não sei o que saber da minha vida, agregaria na sua ou o motivo para se sentir tão satisfeito com tais informações.
— Aí que está, está completamente enganado no seu foco, não é sobre saber sobre você que é o importante, mas como e quem me contou sobre você, seu ex-namorado. — “Ex-namorado”, essa palavra retumbou na minha cabeça. – Nem tente negar que vocês namoravam, porque seria muito cansativo essa ladainha. — Revirei os olhos – Deveria estar um pouco mais humilde para um adultero.
Finalmente foi ao ponto que imaginei que iria desde a princípio.
— Não vai dizer nada em sua defesa?
— Por que deveria lhe dizer algo? – Cuspi com raiva.
— Gosto de fazer o advogado do diabo, fiz isso enquanto Yerik ficava inconsolável nos meus braços.
— Não me surpreendeu, se achou que iria.
Isso o fez perdeu a linha de raciocínio, percebi pela sua careta.
— Mas enfim, deveria cuidar melhor dele, vai acabar perdendo-o e eu estou pronto para quando isso acontecer, devo dizer, se já não aconteceu.
— Agradeço o conselho, mas eu também tenho um para você, cale a boca.
— Eu sei, é muito difícil perceber que simplesmente deixamos a oportunidade passar ou as jogamos no lixo, por isso nunca desisti do Yerik, vejo muito potencial nele e no pau dele. Conte-me, valeu a pena o outro? Por que você mal começou a transar e ....
— Você não cansa? – O interrompi, falara tantas coisas invasivas que as últimas horas que tentei ficar o menos emotivo possível forma por água abaixo. – Não cansa de ser desagradável comigo?! Eu nunca fiz nada para você!
— Você não me recebeu com abraços também.
— Você tem dado em cima do meu namorado desde sempre, mesmo sabendo que estamos juntos e quer que seja receptivo com você? Você interpretou uma situação e acabou com meu relacionado sem eu ter tempo de me defender?
— Não, realmente não! Só quero tirar você do caminho, odeio concorrência. – Não entendi se assumiu
— É um inferno isso! – Estava quase gritando, tremia.
— É divertido ver alguém surtando como você. – Louis riu.
— Como se eu fosse o único surtado! – Bufei. — Quer ser tão incrível, mas está completamente sozinho! – Comecei a ataca-lo.
— Mostrando as garras? – Gargalhou. – Isso vais ser divertido... Estou sozinho, mas olhe ao seu redor, não vejo ninguém.
— Posso estar sozinho agora, mas tenho pessoas com quem contar. – Tentei falar com segurança, mas se fosse questionado demoraria para responder quais. – Você só tem a sua prima, que deve ser obrigada a ter que aturar o seu fardo e uma pessoa que mal te conheceu nas férias para esquecer a outra. Me fale mais sobre suas grandes pessoas!
— Pode estar certo, porém, pelo menos eu não estou enterrando nenhum deles como você costuma fazer.
Foi automático, minha mão bateu tão forte na cara dele que ficou ardida com o impacto. Deus sabe o quanto me controlei no último encontro para não o acertá-lo, mas dessa vez foi impossível me controlar. Eu estava sendo testado a muito tempo e Louis passara de todos os limites ao fazer referência a Sam.
— Fale mais uma vez de Sam, que esse tapa vai ser a coisa que mais vai desejar sentir depois de ver o que farei com você. – Cuspi as palavras na sua cara.
Ele ficou tão chocado com minha atitude que não soube como reagir, ficou acariciando a região atingida, amaciando o impacto, com os olhos esbugalhados, esperei com o rosto duro a retribuição do golpe, o que não ocorreu. Louis levantou e saiu correndo, deixando-me sobre o olhar de todos os outros garotos que observaram a cena. Não era meu perfil bater em ninguém ou tentar ser cruel com as palavras, o que eu estava me tornando? O reflexo do quê ou de quem?
Fugi como um criminoso foge da cena de um crime, aqueles olhares me acompanhavam se me censuravam ou me parabenizavam pouco me importava, eu já tirara minha própria opinião e julgamento sobre os meus atos, não precisa saber da de ninguém. Quando bati a porta do dormitório não esperava encontrar ninguém.
— Você bateu nele? – Foi a primeira coisa que Yerik me falou em dias.
Fiquei vermelho, queria pular pela janela ou abrir a porta que acabara de fechar e fugir, mas seria pior, tudo piorava com muita facilidade e a prova disso eram os últimos minutos.
Yerik o estava defendendo? Foi a única coisa que meu cérebro perturbado conseguiu discernir e inflamara raiva que ainda queimava o meu coração.
— O que você tem a ver com isso? – Grunhi agressivo, sem coragem de encará-lo.
— Louis acabou de me ligar chorando...
— Não quero saber! Se eu bati nele, não preciso saber o que aconteceu porque eu estava lá.
Passei por ele, ainda sem encará-lo, caminhando para o banheiro. Estava ofegante pela adrenalina e pelo esforço de correr até o quarto.
— Não esperava isso de você. – Ele entrou no banheiro, odiei que fez isso, seria tão mais fácil conversar quando eu estivesse mais calmo e como eu queria conversar com ele, após tanto tempo de silencio e indiferença, mas não naquele momento.
— Aí que está o seu problema, você nunca espera muita coisa de mim. – Finalmente o encarei pelo reflexo do espelho.
— Quem é você? — Questionou-me.
— Você tira quaisquer opiniões sem saber nada e foge, agora vem defender o maior culpado disso tudo! – Apertei a porcelana branca da pia com força.
— Pare de misturar as coisas, Louis, não estava no meio do seu beijo com o Alex.
— Não, realmente não estava! Estava nos seus braços! – Soltei uma risada, não me divertia, apenas estava desesperado.
— Eu... -
— Não sou idiota e muito menos completamente cego. Foi um pouco rápido para alguém tão ressentido, superar? – Não conseguia segurar minha língua, virei-me para encará-lo diretamente e sem piscar. – Acho um pouco hipócrita alguém vir falar de um tapa quando ano passado virou um copo de suco na minha cabeça! Talvez tenha se esquecido o que fez para estar na sua zona confortável de privilegio de atleta na hierarquia escolar, pois eu não!
Yerik levantou as mãos completamente rendido pelas palavras.
— Pensei que tínhamos superado o que aconteceu com o suco, mas isso não muda os fatos...
— Apenas saia do meu banheiro. – O interrompi com firmeza.
— Pensei que me amasse, que fosse bondoso...
— Sai da porra do banheiro e volta pros braços do seu novo amante! – Chorei de raiva, o empurrando para fora, em seguida, batendo a porta.
Queria que ele não tivesse me deixado fazer aquilo.
—x-
This world can hurt you
It cuts you deep and leaves a scar
Things fall apart, but nothing breaks like a heart
And nothing breaks like a heart
I heard you on the phone last night
We live and die by pretty lies
You know it, oh, we both know it
These silver bullet cigarettes
This burning house, there's nothing left
It's smoking, we both know it
We got all night to fall in love
But just like that we fall apart
We're broken, we're broken
Mmm, well nothing, nothing, nothing gon' save us now
Well, there's broken silence
By thunder crashing in the dark (crash in the dark)
And this broken record
Spin endless circles in the bar (spin 'round in the bar)
This world can hurt you
It cuts you deep and leaves a scar
Things fall apart, but nothing breaks like a heart
Mhmm, and nothing breaks like a heart
— Vocês brigaram? – Foi a primeira coisa que Maggie falou ao me ver no jantar. – Foi alguma coisa na apresentação, não foi?
Assistíamos à apresentação acústica de Yerik no meio do refeitório no outro dia, ele tinha um publico cativo predominantemente feminino, alguns dos seus colegas de equipe o incentivavam, felizmente Louis não estava ali, não estaria, não seria de bom para nenhum dos dois uma associação tão explicita.
— Por que? – Eu estava irritado, para variar, mais comigo do que com o outro, o que era pior.
— Porque ele não está sentado aqui e acabou de cantar uma música sobre ter o coração partido praticamente disfarçando obviamente que olhava para você. – Maggie respondeu tranquila.
— Não faço a mínima ideia...
— Falo a sério, eu não briguei com ele e depois da cena toda no coral...
— Não quero falar sobre isso. – Lhe respondi emburrado.
— Deveria falar com ele, agora que eu shippo vocês...
— Nunca estivemos juntos.
— E eu não sou a melhor cantora e dançarina desse colégio, vamos parar de mentir. Conte-me o que aconteceu, aposto que quer desabafar com alguém. – Segurou minha mão, tentava me confortar.
Senti um debate interno acontecer, deveria lhe contar tudo ou não? Era muita coisa em risco, mas talvez não existe nada para ser escondido naquela altura do campeonato. Optei por contar parte dos fatos, sem falar do principal.
— Dei um tapa na cara do Louis e Yerik ficou do lado dele. – As palavras saíram atravessadas dos meus lábios.
— O que? Como assim? – A informação pareceu lhe empolgar como uma criança no dia de natal. – Conte mais, por que bateu dele?
— Porque ele é mal, é uma má pessoa. – Suspirei, aliviando-me. – Foi ontem, antes do jantar na nossa sala comum.
— E porque não foi suspenso?
— Acho que ele não fez uma denuncia e ninguém me delatou.
— Mas por que ele foi te atazanar? – Seus olhos me encaravam em expectativa, ela queria saber detalhes que eu ainda não estava disposto a revelar. – Não vai me falar?
— Não posso...
Desviei o olhar, encarando o búlgaro a pouco metros de mim que recebia uma chuva de aplausos e abraços dos fãs. Seria muito ruim desejar que ele levasse uma chamada de atenção de uma das Irmãs pela apresentação/cutucada que dava indiretamente a mim? Nossos olhos por um instante se encontraram, estávamos cientes um do outro, sempre estávamos quando dividíamos o mesmo ambiente, assim como o sentimento que transmitíamos um ao outro. Da mesma forma que nos encaramos, desviamos o olhar, percebi que fizera uma careta.
— Você deveria disfarçar mais ou tentar se acertar com ele, se foi só porque estapeou um chato...
— Não foi só isso...
— Não? – Ela falou um pouco maliciosa.
— Mas não vou te contar...
— Então, por que diz que não foi só isso para não dizer nada em seguida? Quer me torturar, palhaço?
Não consegui segurar a risada com fala.
— Digamos que tenho uma grande parcela de culpa na situação, mas ele não me escuta.
— Já tentou mesmo falar com ele? Ou tem sido esquivo?
— Você me conhece tão bem. – Ri.
— Se ele é importante para você, o que vocês têm, tem que tomar a atitude do pedido de desculpas.
Fiquei pensativo, ela estava certa, já sabia que deveria fazer isso, mas entre o saber e o agir existia uma imensa diferença e coragem, a qual eu não possuía ou estava pronto para ter.
— Eu poderia saber sobre tudo e te dar um conselho mais eficiente. – Sugeriu.
— Quem sabe um dia.
— Enfia o seu mistério no cu!
—x-
Naquela noite eu tive um pesadelo, não me lembro especificamente sobre o que sonhara, mas acordei ofegante e pingando de suor. Levantei-me da cama, caminhei até o banheiro e enxuguei o corpo com uma toalha. Encarei-me no espelho, pelo reflexo dava para ver as camas, Yerik novamente não dormira no quarto. Sua ausência parecia fazer o ambiente multiplicar-se dez vezes em área, estava tudo grande demais, sozinho demais. Desejei ter seus braços para me aninhar e acalmar dos sonhos ruins como fazia, mesmo quando não éramos nada além de colegas de quarto com um amor secreto, ou que pudesse lhe mandar mensagens e ser entretido com bobagens que em nada mudariam minha vida, mas que afastariam os pensamentos como na época que vivia uma falsa identidade.
Olhar-se no espelho no meio da noite poderia ser sinistro, porém, causava-me mais solidão que qualquer outro sentimento, abracei-me e deixei que as lágrimas caíssem e pingassem na pia. Eu era um idiota, um completo imbecil por não fazer nada e ter raiva de sua reação, deveria fazer o esforço de acertar as coisas, tudo deveria estar nebuloso em sua mente e em nada que fazia para lhe clarear.
Voltei ao quarto e deitei-me na sua cama, ainda tinha o seu cheiro, aninhei-me em seu lençol esperando ser embalado pelo sono, que não veio. Quanto mais tempo acordado, mais eu ficava culpado e presos na minha mente, precisava dormir teria provas durante o dia todo. Yerik provavelmente estaria dormindo, estava se aproximando o campeonato de natação.
Fiz a única coisa que poderia fazer-me relaxar e fugir dos pensamentos, levantei-me, acendendo apenas o abajur, peguei meu celular e bem baixo deixei uma música tocando enquanto me alongava e cantarolava.
Didn't I do it for you?
Why don't I do it for you?
Why won't you do it for me
When all I do is for you?
Minha flexibilidade melhorara consideravelmente com o tempo, assim como a minha técnica. Era tão mais fácil focar no seu corpo e nos movimentos que ele fazia, do que nos problemas reais.
They want to see us, want to see us alone
They want to see us, want to see us apart
They want to see us, want to see us alone
They want to see us, want to see us apart
And I just want to feel you're there
And I don't want to have to share our love
I try, but I get overwhelmed
When you're gone, I have no one to tell
And I just want to feel you're there
And I don't want to have to share our love
I try, but I get overwhelmed
All wrapped in cellophane the feelings that we had
Fechei os olhos, o espaço era limitado e tinha que ser cuidadoso com os movimentos, leve para não acordar ninguém ou ser barulhento.
And didn't I do it for you?
Why don't I do it for you?
Why won't you do it for me
When all I do is for you?
And didn't I do it for you?
Why won't I do it for you?
Why won't you do it for me
When all I do is for you?
But I just want to feel you're there
And I don't want to have to share our love
I try, but I get overwhelmed
When you're gone, I have no one to tell
Eu não escutei a porta ser aberta ou percebi que estava sendo observado, quem entraria ou abriria a porta do quarto trancada no meio da madrugada.
They're waiting
They're watching
They're watching us
They're hating
They're waiting
And hoping
I'm not enough
Quando parei de dançar estava ofegante, teria que tomar um banho para minha infelicidade. Absorvei o sentimento e sensação dos últimos movimento, até ficar despir sem qualquer pudor ou vergonha. Só fui perceber que era observado, após virar-me na direção da porta, ele estava parado e inexpressivo, sua presença me assustou, não soube como reagir e nem precisei, pois quem tomara a atitude fora ele. Em um rápido movimento, seu aproximou de mim e pegou-me em seus braços, beijando-me. Foi um beijo tão intenso, mas tão rápido que quando se afastou e fui embora, deixando-me tão desnorteado que não soube dizer se tudo fora invenção, sonho ou realmente acontecera. Apenas teria a certeza, que a saudade no meu peito estava tão grande que me consumia aos poucos.
Pensei que seria impossível voltar a dormir, mas por incrível que pareça o sono chegou quando eu estava no meu palmo de água na banheira. Acordei com frio, com o corpo enrugado e pelo menos duas aulas atrasado com a alguém batendo na porta, era uma das freiras verificando o motivo da minha ausência. Como consequência, recebi o castigo de ajudar com a limpeza dos jardins durante um mês durante todo o mês.
O dia seguiu como se o atraso tivesse desorganizado toda a minha rotina, deixando-me de péssimo humor, situação frequente nos últimos dias. Fiquei um tempão com fome, por perder o horário do café e almocei sozinho, pois Maggie simplesmente desaparecera. Felizmente, as provas eram depois do almoço e por isso não perdi nenhuma, o que não fez muita diferente, porque fui incrivelmente péssimo em todas elas, aquele dia com certeza não era o meu dia de sorte.
Não tinha visto Yerik o dia inteiro, até minhas obrigações de relatório com a equipe de natação ao final do dia, os relatórios ficavam cada vez mais por exigência do treinador, queria mais e mais detalhes dos seus atletas com a eminencia do campeonato.
Era no mínimo sempre impactante vê-lo de sunga, principalmente após conhece-lo completamente sem ela, ele estava ótimo como sempre, pelo menos de aparência física, porque não disfarçava a cara de poucos amigos quando recaía o olhar sobre mim. Devo confessar que fiquei encarando-o mais do que o recomendado para garotos encararem outros garotos de sunga, reparando aonde não deveria reparar, tanto por desejo, como por medo de vê-lo com alguma marca provocada por terceiros, torci para que ninguém reparasse na minha pequena obsessão e felizmente, a única marca que possuía era o sinal em formato da Austrália no começo da nádega.
O treino seguiu como sempre seguia, eu fazia algumas anotações dos tempos que apareciam no telão, especificando os de cada atleta, ninguém reparava muito em mim, o que era ótimo, mesmo Yerik antes da briga, pois quando estava na água, seu foco era totalmente no seu desempenho. Poderia não ser o melhor da equipe, mas era o que apresentava a melhor evolução a curto tempo, a longo prazo, poderia se tornar o melhor da equipe, eu dizia isso não só porque o amava, mas porque eu era o cara dos relatórios. Ele tinha um futuro promissor no esporte, porém, estava lento e desleixado naquele treino.
— STANILAU! FOCO! – O treinador gritou.
Fiquei me sentindo ainda mais culpado, Yerik estava desfocado e eu sabia que era por causa da minha presença ou no mínimo por causa da nossa situação.
— Ei, como você está? – Vick me cutucou, tirando-me o foco do búlgaro.
Estava tão acostumado com a companhia do outro que eu quase esquecera que minha irmã também fazia parte da equipe.
— Estou bem. – Respondi meio mal-humorado, de maneira automática.
— Está chato, pelo visto. – Olhei para ela, estava molhada por ter recém-saído da piscina, desprendia a toca da cabeça e soltava os cabelos. — Você está com uma cara péssima, parece até que está prestes a ser jogado nas piscinas...
A última frase me arrepiou, o quão horrível poderia ser, se isso acontecesse, não queria nem imaginar a eminencia de um incidente como esse, seria a cereja do bolo. Ela não estava errada na sua afirmação, eu estava um caco e com uma cara de poucos amigos.
— Acho que eu morreria se isso acontecesse. – Resmunguei.
— Vai me falar o que fez você ficar com essa cara? Ou terei que adivinhar. – Se sentou ao meu lado, quase me molhando.
A situação era tão estranha, Vick se importar com algo que me incomodasse, perceber que estou incomodado, o quão atípico de sua personalidade poderia ser? A um ano atrás, eu poderia ter chorado só pela sua mínima demonstração de atenção, de sentir que se importava comigo, obviamente sabia que se importava, mas não de forma tão explicita e insistente, como estava denotava naquele momento. Porém, não éramos mais os mesmos, eu não mendigava mais o seu afeto, não precisava mais ser tão participativo de sua vida ou ter sua presença na minha. Ela foi a pessoa que eu mais confiei, admirei e venerei por muito tempo, mas, no entanto, tanto já havia acontecido entre nós e conosco, que mentir sobre o meu estado emocional seria o melhor a ser feito,
era quase como se tivesse virado uma estranha, com quem não confiaria nem o mínimo.
O que me deixa mal, ou melhor, um pouco incomodado, é que a situação toda não me deixava desconfortável, como deveria ser. Vick era a minha irmã, se não confiasse dela ou pudesse desabafar com ela, com quem mais poderia? A resposta veio automática na minha mente, nomes de pessoas que não estavam mais presentes tanto em vida, quanto em presença no internato e de pessoas que mal me encaravam.
— Não sei do que você está falando... – Lhe respondi, tentando ser o mais calmo possível.
— É sério... Você pode me contar tudo... – Tocou no meu ombro, bagunçando meus cabelos. Lhe fiz uma careta. – O que foi?
— Qual o seu interesse com isso? – Fui direto ao ponto.
— Que interesse?
— Qual o seu interesse em saber dos meus problemas? O que pretende ganhar ou usar com isso.
— Você tem uma péssima impressão de mim...
— Não vamos ser ingênuos, você tem o seu histórico. – A interrompi.
— Mas eu ainda sou sua irmã e percebo quando meu irmão mais novo está mal. – Ela pareceu desconfortável
— Eu entendi isso, mas você nunca me ajudou antes. Soa malicioso.
— Vai me contar, por que está mal? – Voltou a questão.
— Não! – Virei para frente, tentando encerrar a conversa.
— Ei, fala comigo. – Me cutucou.
— Já parou para pensar que eu não quero conversar com você? – Acho que nunca foi tão rude com ela, como fui naquele momento. Me arrependi da forma que falei, assim que as palavras saíram da minha boca.
No final de tudo, ela só estava querendo me ajudar, talvez presa demais nos seus métodos, mas ainda com intuito bom e eu simplesmente lhe respondi com uma grosseria gratuita, eu poderia não ser mais cego, mas não era maldoso. Ver seus olhos vacilaram por um momento, enquanto recompunha a sua falsa muralha de segurança e indiferença, foi o suficiente para eu perceber que a ferira.
— Seja como você quiser. – Só eu poderia perceber o quão afetada ficara, apesar da voz segura.
— Obrigado.
Eu deveria ter pedido ao menos desculpas, mas..., eu simplesmente não quis e não o fiz. A vi ir para os vestiários enquanto o espaço ficava desconfortavelmente silencioso, a não ser pela voz da culpa na minha cabeça, parabenizando-me por magoar mais uma pessoa que me amava.
Fui até a sala do treinador, entreguei o relatório e fui embora. Não sabia para onde ir, o quarto lembrava-me Yerik e minha companhia estava tão enfadonha que seria um castigo sujeita-la a alguém. Na perspectiva de ficar sem rumo, meus pés conheciam um destino certo para tranquilizar-me, o banco no meio do bosque.
Cheguei lá, sem ao menos perceber, estava solitário como sempre e a natureza sempre um deleite aos olhos, não poderia enumerar a quantidade de vezes que vi muda-la em decorrência das estações. Naquela época, os arbustos já ganhavam vida, assim como a folhagem das árvores, em poucos pontos, também era possível encontrar algum botão ou flor desabrochando. Alguns pensaria que ficar sozinho e em calma poderia ser o terreno perfeito para a mente fervilhar com as inseguranças e paranoias, mas comigo era diferente, era como se desligasse e só focasse em ficar em paz.
Olhei para os céus, era o final de um dia de céu intensamente azul, por mais que tenha me afastado da igreja, nunca deixaria de tentar buscar respostas com Deus. Porém, nossa comunicação estava cada vez mais distante e minha vontade de reforçá-la cada vez menor. Sem que eu percebesse, comecei a chorar, eram acho que lágrima de angústia, de estresse, não estava triste e muito menos feliz, aliviado. Chorar tornava-se mais fácil sem plateia, não queria ser ainda mais interpretado como alguém fraco.
— Se eu pedisse, você cantaria uma música para mim? Poderia ser qualquer uma que quisesse. – Vick falou ao se sentar ao meu lado.
Eu não percebi quando ela se aproximou ou de onde veio, ela simplesmente apareceu e se sentou ao meu lado, como se não tivesse acontecido nada a poucos minutos atrás.
— Por quê? – Lhe perguntei com calma, bem diferente de antes.
Não limpei o rosto e nem lhe encarei, fiquei agradecido por fazer o mesmo.
— Sua voz me acalma, é sempre como voltar para casa em segurança. – Suspirou olhando para paisagem. – Sei que te acalma também.
— Desculpe-me por ser rude mais cedo. – Lhe encarei.
— Normal, sempre somos rudes com quem amamos, está na graça de poder mostrar o nosso pior sem perder a pessoa.
— Eu não sou assim. – Argumentei.
— Às vezes é necessário, não de forma gratuita como foi, mas às vezes é, e eu tenho certeza que teve inúmeras vezes que você deveria ter sido e não foi. – Ela me encarou. – Eu me importo com você, mais do que costumo demonstrar, mas realmente me importo.
— Eu sei. – Suspirei, estava me tornando um mentiroso convincente.
Realizei o seu pedido, comecei a cantar minha música favorita, da minha cantora favorita, estava lhe escutando com frequência.
Baby really hurt me
Crying in the taxi
He don't wanna know me
Says he made the big mistake of dancing in my storm
Says it was poison
So I guess I'll go home
Into the arms of the girl that I love
The only love I haven't screwed up
She's so hard to please
But she's a forest fire
I do my best to meet her demands
Play at romance, we slow dance
In the living room, but all that a stranger would see
Is one girl swaying alone
Stroking her cheek
They say, "You're a little much for me
You're a liability
You're a little much for me"
So they pull back, make other plans
I understand, I'm a liability
Get you wild, make you leave
I'm a little much for
E-a-na-na-na, everyone
The truth is I am a toy that people enjoy
'Til all of the tricks don't work anymore
And then they are bored of me
I know that it's exciting
Running through the night, but
Every perfect summer's
Eating me alive until you're gone
Better on my own
They say, "You're a little much for me
You're a liability
You're a little much for me"
So they pull back, make other plans
I understand, I'm a liability
Get you wild, make you leave
I'm a little much for
E-a-na-na-na, everyone
They're gonna watch me
Disappear into the sun
You're all gonna watch me
Disappear into the sun
— Sua voz é sempre um deleite aos meus ouvidos. – Vick falou.
— É tão estranho ouvir um elogio de você, mas pode continuar, é bom de ouvir.
Ela gargalhou.
— Ficaria mais fácil te ajudar se eu soubesse exatamente o que está acontecendo. – Se por um momento pensei que o clima ficaria leve, enganei-me redondamente.
Pensei por alguns segundos, tentado a lhe contar ao mesmo tempo inseguro para não. Optei por um meio termo.
— Posso ter estragado as coisas com alguém que eu gosto muito...
— Está falando de mim? Porque se for, estamos bem...
— Não é sobre você. – A interrompi.
— Eu sei, estou zoando com você. – Me deu uma “ombrada”. – Estou impressionada que você está se relacionando finalmente com uma garota, até cheguei a pensar que você era gay. — Eu poderia tê-la corrigido, porém fiquei tão constrangido que só deixei com que a situação seguisse. – Mas o que aconteceu?
— Bom... – Suspirei. – Meio que me avisou sobre uma situação, eu caí nela e omiti, ficou sabendo da pior forma possível e agora não estamos nos falando.
Vick ouvia atentamente tudo o que eu falava, percebi que julgava um pouco.
— Você a traiu?
— Não exatamente, eu fui beijado...
— Você queria beijar outra?
— Sim e não. – Minha resposta me surpreendeu. – Eu tenho um pouco de desejo por quem me beijou, mas apenas isso. Meu coração pertence a outra pessoa e quero estar somente com ela, é tão complicado... – Cocei a cabeça.
— Olha, eu tenho muita experiencia com relacionamentos complicados. – Riu da própria desgraça. – Mas, nunca me arrependi pelo o que eu não fiz ou lutei. Você já tentou conversar com ela, esclarecer as coisas e pedir desculpas?
— Eu... Tudo só vem piorando. – Lembrei do Louis.
— Me conte mais detalhes! – Praticamente exigiu.
— Não, não posso.
— Tudo bem. – Sua reação foi completamente oposta à sua fala. – Preciso ir descanar, mas vou deixar meu último conselho: lute, apenas isso.
Não esperou minha resposta, beijou o meu rosto e da mesma forma furtiva que chegou, foi embora. Ela estava certa, não acontecia muito com frequência, apesar de na sua cabeça ser sempre, às vezes, acertava. Eu devia correr atrás dele, quanto tempo ele correu atrás de mim e outra, eu tinha feito a sujeira, tinha mentido e até batido em alguém, não que me arrependa desse último feito. Porém, entre ter se ciência dos fatos e tomar uma atitude, existia um grande abismo de distância.
Não tive a intenção de ficar até tarde no bosque, quando dei por mim até o horário de recolher já havia dado. Não sentia fome ou cansaço, era apenas eu e minha mente reunindo coragem para fazer a coisa certa e encontrar respostas para algumas dúvidas, como por exemplo, ter no fundo gostado do beijo de Alex. Ele era tão misterioso e obviamente atraía-se por mim, estar com ele era como estar sempre em uma linha de tensão, como fazer amor em lugares escondidos, um pouco de adrenalina, porém, eu não o amava. Nada poderia evoluir daquilo, sem o amor, além de que, da mesma forma que sua aura misteriosa me atraía, também me causava receio, não conhecia os seus limites e reais intenções. Com Yerik, era completamente diferente, era seguro, por mais confuso que fosse no passado, naquela época poderia contar com o seu conforto emocional e físico, com seus abraços e carinhos antes de dormir. Eu nunca tivera isso com ninguém, essa intimidade que vai além do sexo, não queria perder isso, fora um sacrifício aceitar, precisava mantê-lo, fazia parte de algo vital e essencial dentro de mim.
Tive que ser bem cuidadoso na hora da volta, pela hora tardia, se uma das freiras me encontrassem aumentariam consideravelmente meu castigo, se tivessem de bom humor, no pior dos casos, seria até suspenso. Eu não voltava para o quarto, formulava uma ideia de onde Yerik poderia estar, a ideia de estar no quarto de Louis fazia-me ter vontade de vomitar, porém tinha um bom palpite, por isso optei por ele, torcendo para estar certo. A temporada de natação estava se aproximando, lembrava vagamente da sua dedicação no ano anterior pois coincidira com o adoecimento de Sam; focado do jeito que ele era, provavelmente estaria treinando em uma das piscinas.
Era a primeira noite realmente agradável naquele ano, o suficiente para andar no meio dos bosques e sentir-se confortável, considerei o clima agradável como um bom sinal para o que iria fazer. O complexo esportivo estava completamente vazio, mas muito iluminado, era assim para expor qualquer um que não deveria estar ali fora da hora, felizmente não fui notado. Entrei na parte das piscinas com a delicadeza de um gato cego, o lugar era tão grande que nem com todo o cuidado do mundo, consegui evitar que o eco da porta se propagasse. Por sorte, não era tão iluminado quanto a parte de fora, só parcialmente de suas luzes estavam acesas.
Sobre meu palpite, não poderia estar mais certo, Yerik nadava concentrado em das piscinas olímpicas, nem reparara na minha presença. Incrivelmente calmo, para quem andava entre piscinas de profundidade considerável, fui até as arquibancadas mais próxima, onde estava suas roupas e toalha e fiquei a observá-lo.
Não demorou muito e logo fui notado.
Sua saída da piscina não poderia ser menos triunfal, um deleite aos olhos, acho que só não temia a água quando esta escorria pelo seu corpo. A situação não era para aquilo, mas não pude evitar de ficar com a calça apertada, ao vê-lo com a sunga tão pequena e apertada. Conhecia algumas reações que aquele corpo tinha e gerava em mim, somente com a memória, causava-me rubor. Se o seu corpo me excitava, sua inexpressividade era como um balde de água fria, quase que literalmente no meu caso. Aproximou-se de mim, não me encarou, pegou sua toalha e sentou na beira da mesma piscina que acabara de sair.
Ficamos em um silêncio constrangedor, até ele quebrá-lo.
— Pensei o quanto tempo você demoraria até vir aqui. – Yerik soou frio e distante. – Demorou muito. – Completou.
Seus olhos estavam focados nas profundezas daquelas águas, se fizesse o mesmo que ele teria vertigem.
— Por favor, não diga que é tarde demais. – Falei ao me levantar e ir até o seu lado. — Sinto sua falta. – Ajoelhei-me ao seu lado, quase implorando por sua atenção e seu olhar, porém, ainda alheio a proximidade da piscina.
— Não sei... – Senti a sinceridade de suas palavras, ainda não me encarava. – Você me magoou.
A situação era tão angustiante, queria gritar para ele me perdoar, escutar tudo o que eu tinha para dizer e assim vivermos felizes para sempre, mas o mundo real não era assim, existiam milhões de variáveis o problema.
— Eu sei. – Murmurei, mordendo internamente a bochecha. Queria tocá-lo, no entanto, não atrevia-me ao ato.
— E me fez esperar como um tolo, envolvido por orgulho até que você me procurasse. – Completou.
— Me desculpe demorar tanto.
— Isso vai depender, do que vai me contar... – Finalmente me encarou.
Seus olhos pareciam tão profundos quanto a água que banhava os seus pés, os encarei por minutos na esperança de encontrar resquícios do carinho que sempre carregava ao me encarar, porém não consegui decifra-los, não conseguia perceber se o afeto ainda estava ali ou não.
— Alex começou a investir em mim na mesma época que você. – Suspirei, cortando o contato visual e olhando para o nada na cobertura do complexo, seria mais fácil assim.
— Desde do final do ano passado ou antes? – Pareceu curioso.
— Acho, que desde de antes. – Revi na memória os momentos que tive com o Sr. Smith antes do nosso primeiro beijo e como ele já era subjetivo em suas insinuações. – Mas nunca foi nada demais, era tão confuso para ele quanto era para mim.
— Quantas vezes vocês se beijaram?
— Acho que não mais que três ou quatro vezes.
Ficou mudo, acho que não esperava essa resposta, seria uma surpresa para qualquer um, os mais íntimos. Esse meu lado, eu guardava em um lugarzinho que evitava ao máximo visitar, era o mesmo lugar que guardava o momento que tivera com Yerik e Jessie no baile, se eu não lembrasse, não teria que lidar.
— Eu tentava te conquistar, enquanto beijava outro. – Sua pergunta não soou como uma pergunta. – Me sinto um completo idiota...
— Não é como se eu sentisse alguma coisa quando nos beijamos, só era muito confuso aquela época para mim, você sabia disso e geralmente eram apenas beijos roubados e nada além disso, preferia não me importar para não pirar. – O interrompi
— E quantas vezes desde que começamos a namorar? Vocês se beijaram? – Percebi que tentava se controlar, balançava as pernas com raiva como se quisesse emanar sua energia com a ação. – Por que me traiu com ele? Se já sabia das insinuações e desejos dele, por que começar a namorar comigo para me trair? – A veia do seu pescoço estava saltada.
Seu penúltimo questionamento, era uma boa pergunta, durante a tarde me questionara justamente sobre isso e achava ter encontrado talvez uma resposta. Torcia para me controlar e conseguir explicar com clareza.
— Porque... Eu nunca o amei e nunca te traí, diretamente pelo menos, indiretamente por ter sido beijado, sim. – Minha intenção de ser claro morreu assim que comecei a ficar descontrolado. Quis chorar, tentava focar no nada, mas isso parecia tornar ainda mais fácil o choro, então, voltei a imensidão azul que tanto amava. – Eu jamais te trairia, nunca! – Limpei meu rosto com uma das mãos, depois colocando-a próxima a sua, minha vontade e intenções não poderiam ser mais claras.
— O quê? Ele que te beijou e por que não me contou? O que estava fazendo com ele? Eu te avisei e pedi que não o visse mais. – Sua fala parecia uma suplica, como se tivesse o poder de mudar o passado e minhas decisões.
— Porque... Eu não queria te machucar e nem ele... — Funguei o nariz, sua expressão era confusa. — Você não o conhece e agora tem direito de odiá-lo, mas ele é mais parecido comigo, do que imagina. Tem coisas que eu não entendo dele e quero ajudá-lo, como amigo. – Lembrei das marcas que sempre apreciam em seu corpo.
Alex estava mais sozinho do que eu jamais estive na minha vida, possuíam segredos obscuros e não tinha ninguém para compartilhá-lo.
— Parece que o ama. – Soou ciumento.
— Talvez o ame, mas como um amigo. Você não entende o que é estar só e não ter ninguém para com quem dividir seus demônios, lutar todos os dias com ideias que te pregam o fogo eterno e o desejo por uma sensação que é o próprio paraíso, você não sabe o que é isso. Eu sei e ele vive isso, não conseguiria deixa-lo só. Mal consegui passar por isso. – Falei lembrando do sentimento ruim que as vezes me abatia.
— Ele tem dezesseis anos, não é uma criança! – Yerik gritou.
— Você não parece ser a pessoa que eu conheci anos atrás e que estava tão só quanto eu. – Ele ficou constrangido.
Essa fala o pegou desprevenido, Yerik deveria entender pelo menos um pouco como era a sensação de estar só, fora assim que pelo menos criara Mick e toda sua mentira para conversar comigo. Meu amigo do passado, teria empatia por alguém em situação semelhante.
— Você defende um cara que te beijou a força e ainda não justifica suas mentiras para mim!
— Eu não queria te magoar, eu fazia um trabalho com ele, não seria nada demais.
— MAS TEVE ALGO A MAIS! – Tremia de raiva.
— Como poderia prever?
— Você mesmo falou que ele era alguém malicioso. — Fiquei em silencio. – Por que não me contou do beijo? Você gostou?! – Ele estava quase histérico, alguém poderia aparecer ali a qualquer momento.
— Porque tive vergonha e medo da sua reação... – Obviamente não lhe respondia a segunda pergunta, não tinha estomago para lhe contar a verdade, com risco de magoá-lo e perde-lo para sempre.
— Sou seu namorado, deveria confiar em mim, seu receio me machuca.
— Sua reação demonstrou exatamente o que eu temia... – Não consegui segurar a língua, cortando nosso olhar.
— O quê? – Pareceu confuso com minha reação.
— Nada.
— Fale.
— Nada.
— Por favor, Bleika. – Demonstrou-se mais ameno.
— Você fugiu e me julgou, tirou suas opiniões sem conversar comigo e foi para os braços de Louis, como imaginei e temia que talvez faria. Por isso que demorei para te procurar...
Minha fala o deixou tão reação que sua boca ficou branca.
— Me desculpe, por ainda não conseguir conquistar sua confiança. – Percebi que começou a chorar e meu peito apertou como se uma máquina a vácuo, tivesse sugado meu coração. – E por ser previsível a suas inseguranças...
— Eu confio em você, mas sou inseguro. – Toquei na sua mão, felizmente, tive o toque retribuído, apesar do olhar distante. – E não devia se desculpar, eu que vim aqui para isso. Não tem um minuto se quer desde que Alex me beijou que eu não me arrependa por ter feito dupla com ele e não ter te contado e se ainda não ficou claro, eu não tenho menor interesse no Alex ou em qualquer outro.
— Isso é muito bom de se ouvir. – Pela primeira em muito tempo, recebi um sorriso e foi quase como se a noite virasse sol, como se tudo tivesse se iluminado e fizesse sentido.
— Eu te amo. – Falei, recebendo um aperto na minha mão. – Mas eu estou inseguro com o que vi, você e Louis. Você preferiu ficar do lado dele na primeira oportunidade e não esperou nem um dia para ficar com ele e Jessie.
— Eu... eu... eu... – Gaguejou. – Não aconteceu nada.
— Eu vi! – O que pareceu ser o começo de uma reconciliação tomou outro rumo.
Por alguns minutos o búlgaro ficou em silêncio.
— Você bateu nele? – Perguntou neutro.
— Sim.
Percebi que segurou o riso, não pude evitar de deixar escapar um dos meus lábios.
— Não imaginaria que isso fosse do seu perfil.
— Nem eu...
— Por que bateu ele?
— Porque alguém não bateria nele? Por tripudiar em cima da nossa desgraça, por causa-la?
— Causá-la?
— Quem você acha que escreveu aquela maldita carta falando sobre mim?
— Não foi ele.
— Tenho certeza que não foi.
— Eu tenho certeza que sim, ele praticamente confessou que sim, antes de estapeá-lo.
— Eu conheço ele, só falou para te pirraçar e eu perguntei pra ele, me garantiu que não.
— Você é muito ingênuo. – O acusei, quase que imediatamente rindo.
— O quão estranho isso pode soar vindo de você? – Riu.
— Eu sei!
— Mas eu te garanto, que não foi ele que escreveu, o conheço.
— Igual eu conheço Alex?
— Voltou de novo a ele?
— Eu não confio em Louis.
— Se eu bater em Alex ficamos quietes?
— NÃO!
— Foi o que eu pensei...
— Ainda acho que foi ele.
— Mas não muda o que aconteceu...
— Se eu tivesse contado.
— Mas não contou.
— Está certo... – Falei cabisbaixo, não poderia colocar o peso de minhas ações nos outros.
— Não importa mais, já passou. – Soltou a minha mão e pós a sua no meu rosto. – Eu te perdoou. No entanto, não vai gostar do que vai ouvir, mas preciso contar o que aconteceu. – Se a morte acontecesse por antecipação, eu já estaria morto. Se por um instante pensei que tudo ficaria bem, estava redondamente enganado. – Acabamos nos beijando, eu e Louis.
Foi como se um balde de água fria caísse sobre mim ou se alguém me empurrasse naquela piscina, meu coração acelerou tanto que parecia querer sair do meu peito, faltou ar no meu peito. Bruscamente, tirei sua mão do meu rosto, virei de lado e comecei a chorar, não conseguia evitar, mas não lhe daria o gosto da visão.
— Ei! – Ele tentou puxar meu rosto. – Fala comigo.
Sua voz, era como uma lança me perfurando em todas as partes no meu corpo, balancei a cabeça negativamente, tentava impedir que as lágrimas estupidas molhassem meu rosto, mas não conseguia.
— Ei! Não chore. – Voltou a falar, parecia tão calmo e sem arrependimentos, o que era pior.
Coloquei a mão da boca, para abafar o gemido que emergia das minhas entranhas, eu precisava me controlar.
— Sério, preciso que você olhe para mim. – Tentava alisar meu braço, enquanto eu o repudiava.
— Me deixa chorar, caramba! – Gritei com ele. Foi um erro, por dois motivos, perdi qualquer controle que fingia ter e lhe deu abertura.
Empurrou-me de forma não muito delicada no chão molhado, montando-se sobre mim, dominando-me, nas costas podia sentir a roupa se molhar. Tentei me contorcer, mas ele era mais forte.
— Eu estou brincando. – Falou segurando meu queixo, tentando algum contato visual, pois mesmo dominado, eu o evitava. – Eu nunca, jamais beijaria outro, não por vontade, talvez por vingança. – Devaneou.
— Quê? – Cuspi.
— Isso mesmo, eu estou zoando com a sua cara. – Aproveitou do meu minuto de atenção e me deu um selinho.
Minha irritação com a brincadeira não se comparou com o alivio que sentiu no meu peito ao saber que tudo era uma mentira. Juro que quase voltei a chorar e nem conseguia ficar bravo.
— Imbecil! – Gritei, empurrando-o de cima de mim e lhe acertando as partes íntimas.
— Pensei que quem pedisse desculpas, a última coisa que faria seria xingar ou me agredir. – Falou com falta de ar ao meu lado.
— Não teve a menor graça. – Falei fingindo irritação rindo.
— Eu achei.
— Eu fiquei me sentindo horrível.
— Então, sentiu mais ou menos o que tenho sentido nos últimos dias com a meia história que sabia. – Contraí a sobrancelha, ainda irritado, mas com remorso e culpa. – Mas, vamos superar isso? Não vamos?
Ele estava tão perto de mim, que conseguia sentir o calor do seu corpo, todos os pelos do meu corpo se arrepiavam com a eminencia de um toque desejado.
— Vamos. – Falei relaxando ao seu lado.
Assim que voltei a deitar, tive o corpo puxado junto ao dele. Acho que abraçar ao amor, seria o único comparativo ao que senti ao tê-lo nos meus braços.
— Também senti tanta sua falta, meu Bleika.— Roçou seu nariz próximo ao meu rosto, queria seus lábios. – Você me deixou passar frio todas as noites. – Beijou a ponta do meu nariz. – É um malvado.
— Prometo-lhe nunca mais deixar-lhe passar frio. – Passei os dedos pelo caminho de seu maxilar.
— Promete?
Balancei a cabeça positivamente enquanto não resistia a pouca distancia dos nossos corpos e a extinguia. Seus lábios eram como água depois de dias perdido no deserto, como sua comida favorita depois de dias de fome, como o abraço de um amigo distante, como o carinho de minha mãe. Preenchia-me tão intensamente que seria capaz de explodir.
Yerik simplesmente devorou meus lábios enquanto suas mãos devoravam o meu corpo, comandava o meu quadril com as mãos de modo que nossos corpos roçassem nossas intimidades em intensidade semelhante ao beijo. Quando busquei por ar, foi a deixa perfeita para morder-me a boca e atacar-me o pescoço, sua parte favorita.
— É muito injusto, eu estar quase pelado e você todo vestido. – Falou enquanto beijava-me e mordia o torço.
— Então, tira elas.
Ele me encarou surpreso, porém, não foi preciso que eu repetisse, suas mãos apressadas quase estouraram os botões da camisa e calça. Quando percebi, estava descabelado com os óculos quase caindo do meu rosto, apenas de meia e cueca.
— Vamos fazer isso aqui? – Ele perguntou animado, podia dizer que seus olhos brilhavam.
Algo dentro de mim gritou: “Não! Vocês estão malucos! Vão ser pegos!”, no entanto, uma maior falou: “Apenas transem logo! Você adora fazer em público, realize a fantasia do seu namorado!”. Não preciso dizer qual venceu.
Como respostas, o puxei até mim, beijando-o e tocando sua ereção. Não sabia mais como conseguiria assistir seus treinos sem imaginá-lo excitado com aquela sunga. A melhor parte sempre era os toques, como nossos corpos faziam uma dança própria e trocávamos a energia.
Me estremeci todo ao toque da água gelada nas minhas costas, Yerik foi gentil o suficiente para colocar suas mãos atrás de mim, evitando um contato maior.
— Queria tentar uma coisa diferente. – Ele falou entre nossos rápidos beijos, porém algum barulho atraiu nossa atenção.
— Acho que alguém está vindo. – Falei receoso.
— Espera um pouco. – Ficamos atento aos ruídos por alguns minutos, mas tudo permaneceu silencioso. – Acho que só foi o ar condicionado.
— Não sei...
— Sabe que foi sim. – Mordeu meu pescoço. – Se fosse alguém já teria feito mais barulho ou pedido para participar.
— O quê?
— Somos muitos gostosos para ficarem só olhando enquanto fodemos.
— Que vulgar! E diga apenas por si, que concordo.
— Vulgaridades é o que mais desejo fazer com você nesse momento. – Lambeu meus lábios. – Me acha gostoso? – Murmurou no meu ouvido, fazendo-me arrepiar todos os pelos do meu corpo.
— Acho. – Falei constrangido.
— Então repete. – Continuou murmurando no meu ouvido. – Repete, por favor. – Pediu novamente devido a minha resistência.
— Você é gostoso, Yerik. – Quase não consegui dizer.
— Quero te comer.
— O que?
— Quero que me coma também.
— O que? – Fiquei nervoso com a forma que falava.
— Sobre o que queria tentar hoje, acha que consegue ser ativo também?
A pergunta me pegou de surpresa, eu nunca tinha imaginado mudar de posição com Yerik, na realidade até evitava em pensar muito sobre sexo por conta da culpa que sempre sentia depois ao lembrar de nossos momentos. Era tão bom o que já fazíamos, que nem imaginei que pudesse ter outra maneira de fazer.
— Não sei. – Falei inseguro.
— Você será ótimo. – Me incentivou, beijando-me. – Nosso sexo é ótimo, não vai ser diferente.
— Tudo bem. – Falei, apesar de sentir o contrário.
Acho que ele percebeu meu nervosismo, pois foi bem delicado nos toques em seguida, com calma. Aos poucos, voltei a relaxar a pensar somente em lhe fazer carinho. Subi no seu colo e beijei seu torço, como gostava de fazer comigo, o deitei no piso e fui descendo os beijos pelo seu tronco até encostar no volume da sunga. Não precisei, tira-la, ele mesmo o fez. Envolvi-o com a minha boca, essa parte sempre era mais intensa a conexão, por mais que nunca admitisse, amava vê-lo à mercê de minha ação, como conseguia controla-lo com tão pouco e como rendia-se, mas principalmente quando assumia o controle e guiava-me na velocidade que queria. No entanto, daquela vez não me vez ir mais rápido, apenas me guiou para baixo, logo percebi o que queria.
Eu amava quando ele fazia aquilo em mim, então tentei fazer da forma que fazia, desci a língua por seu perímetro até o ponto que queria. Aumentava o vigor conforme subia cada vez mais suas pernas, expondo-se. Ele era tão quente, tanto por dentro como pela sua expressão, os lábios molhados e abertos, mas com voz fraca e perdida, emergido em prazer. Yerik se afastou de mim e ficou de quatro, eu permaneci de joelhos enquanto ele tirava minha cueca e me colocava na sua boca. O contato visual era chave de tudo, não conseguia nem piscar, acariciando seu cabelo ao vê-lo me chupar.
Ele sabia como fazer e quando parar, estava quase entregando-me em sua boca quando parou.
— Pega na minha toalha, tem lubrificante e camisinha.
— Por que você está com lubrificante e camisinhas aqui? – Perguntei desconfiado.
— Porque no fundo torcia para você vir aqui, fazermos as pazes e depois amor.
Enrolado na toalha, realmente estava o que falara.
— Isso é meio prepotente, não acha? – Perguntei.
— Esperançoso.
Ele pegou um preservativo, o abriu e não sei como, o colocou em mim com a boca, era apertado e dava uma sensação estranha, apesar de preservar toda sensibilidade, pelo menos, a maior parte dela.
— Nervoso? – Perguntei, sendo que eu provavelmente estava mais que ele, Yerik sempre transparecia segurança.
— Um pouco. – Ele admitiu sorrindo. – E você?
— Não sei consigo.
— Consegue sim. – Me beijou. — Apenas relaxe e vá com calma, sou virgem aí.
Balancei a cabeça positivamente, Yerik pegou o lubrificante, passou nos seus próprios dedos e nos meus. Com a sua mão, guiou-me até o seu ânus. Ele ficou deitado no chão, com suas pernas envoltas do meu corpo, nos beijávamos enquanto tentávamos vencer a sua resistência, parecia impossível, com a demora, comecei a perder a ereção, fiquei ainda mais nervoso.
Devo ter transparecido ainda mais nervosismo, pois ele começou a me beijar com calma.
Minha ereção voltou a ganhar vida, quando ele começou a me masturbar e consegui penetrá-lo com um dedo, sua expressão de dor era excitante, e por dentro, excitantemente quente. Iniciei a penetra-lo com o dedo, que deslizava sem muito esforço devido ao lubrificante até chegarmos na mesma sincronia de movimento. Após o segundo dedo e com o pênis latejando, decidi penetrá-lo para valer.
Fui com calma, Yerik estava tenso, apesar de não oferecer muita resistência para passagem do meu pênis, o suor escorria por todo o seu corpo. Beijava aonde conseguia sem precisar me mover e lhe causar desconforto. Não me movi, até a atitude partir dele, com as mãos apertou-me a bunda, puxando-me contra ele e consequentemente entrando mais nele.
Depois disso, nossos corpos sabiam o que fazer, foi fácil.
— Eu te amo. – Gritei, ao sentir gozar no seu abdômen, sujando-o.
Pensei ter envolvido novamente um barulho esquisito, mas deveria ser apenas o eco que os nossos corpos vaziam como contato da pele. Tínhamos voltado a nossas posições tradicionais e eu cavalgava em cima dele, seu grunhido, o apertão na minha bunda e o liquido quente dentro de mim, sinalizara que ele também chegara ao seu limite. Nos peitos ardiam pelo esforço, continuei em cima dele, mesmo após senti-lo escorregar para fora de mim.
Fale com o autor