Tempestuoso
22 Crianças Crescidas Choram
Notas iniciais
Sam ficou paralisada com a pergunta, eu e Beth automaticamente nos encaramos, se nossa amiga não respondesse, nossa reação responderia por ela.
— Você é soropositiva? Porque é isso que os todos os grupos estão dizendo. – Maggie continuou falando.
Voltamos a olhar para nossos celulares e vimos que o que ela afirmava era verdade.
— Beth... – Sam sussurrou.
Seus olhos estavam se inundando, a forma que ela chamara a outra parecia ser um pedido desesperado por ajuda.
— Então, você é ou não? – Maggie insistiu na pergunta.
— Maggie, pare de perguntar. – Sussurrei para ela.
— Mas ela tem que...
— Fica quieta por um segundo, por favor. – Acabei sendo rude, mas eficaz.
— Isso não pode estar acontecendo... – Sam sussurrava, era visível que ela estava entrando cada vez mais em desespero.
— Sei que não é a melhor coisa a se dizer, mas você precisa se acalmar. – Beth tentava conte-la conforme ficava cada vez mais agitada.
— Beth, não tem como eu ficar calma! – Gritou. – Isso não dá!
— Sam, ninguém pode provar nada sobre você.
— E desde quando isso importou por aqui? As pessoas só querem um pedaço das outras.
— É só negar...
— Eu não vou mentir como você!
Eu parei imediatamente com o tapa em forma de palavras que recebi, naquele momento minha amiga estava desesperada e, em consequência disso, dizendo coisas sem pensar claramente, jamais a julgaria por isso.
— Sam, acho melhor irmos... – Beth sugeriu.
Ela não nos esperou, apenas se levantou e saiu correndo pela saída mais próxima da biblioteca, em direção a ala dos dormitórios.
— Eu vou atrás dela. – Falei.
— Não, deixa que eu vou. – Beth se adiantou na minha frente. – Por favor, guardem as coisas.
Assisti ela sair pela mesma saída usada pela outra.
— Não quis piorar a situação. – Maggie falou.
Sorri sem dentes para ela.
— Não piorou, só é complicado. – Comecei a guardar o material de estudos, enquanto ela organizava os livros.
— Então, ela é soropositiva?
Balancei a cabeça em concordância.
— Desde quando?
— Nascimento...
— Ahh... – Ela perdeu a fala como eu imaginei que perderia.
O fato de a Sam ser soropositiva geraria histeria na escola, visto que eu ninguém pensaria nela, apenas se preocupariam em como, e de quem, ela contraiu; entretanto, o principal é mais importante questionamento seria se ela contaminou alguém.
— Eu poderia te contar mais sobre tudo isso, mas acho que não tenho esse direito. – Falei antes que o clima entre nós se tornasse mais estranho.
— Eu não ligo se ela tem HIV, ela me aceitou quando eu estava sozinha, isso não importa. – Maggie falou.
— Não mesmo.
— Quando ela se sentir confortável, estarei aqui para ouvi-la.
— Não acho que demore muito, ela vai precisar de amigos.
—x-
Desejei estar errado com aquela afirmação, mas os próximos dias me mostrariam exatamente o contrário.
— Sua amiga está bem? – Yerik me perguntou enquanto nos dirigíamos ao refeitório na manhã seguinte.
— Ainda não pude falar com ela. – Mordi minha bochecha internamente.
Assim que adentramos no recinto, todos imediatamente olharam para mim. Fiquei morrendo de vergonha, mesmo sabendo que não era exatamente para mim, mas para minha melhor amiga através de mim. Yerik se afastou de mim como de costume, por mais que não brigássemos mais, não éramos exatamente amigos e como eu bem sabia, antes mesmo dos escândalos, andar comigo não era o melhor para sua reputação de atleta.
Por sorte, Maggie sentava solitária na nossa mesa de costume, fui até ela sendo acompanhado pelos olhares, percebi que as mesas ao redor não estavam ocupadas.
— Oi. – A cumprimentei.
— Estamos de quarentena, as pessoas dessas escolas são muito burras e acham que se pega HIV pelo ar.
— O que?
— Olhe, temos um perímetro em volta. – Ela apontou ao redor, mostrando as mesas vazias.
— Você tem notícias de Sam? – Perguntei.
— Beth falou que ela não quis sair do quarto e que não vai para as aulas, pelo menos não hoje. – Fiquei em silêncio. – Eu não sei nem o que dizer, ela está com vergonha até de mim.
— Não é um assunto fácil de se falar.
— Pensei que éramos amigas...
— Maggie! – Chamei a atenção dela. – Não é uma coisa que você vá falar do nada, ela demorou meses para me contar, é um assunto muito delicado para ela.
— Você está certo, estou sendo egoísta. – Ela bufou.
Eu entendia completamente a razão de Sam fugir dos olhares daquelas pessoas. Não eram olhares de deboche, ou de qualquer coisa do tipo, eram olhares de puro nojo. Se eu conseguia perceber isso, nem imaginava como seria quando fosse ela. Ninguém no mundo merecia receber aquilo.
— Blake. – Mirna, ou Lucy, me chamou, atraindo minha atenção. Uma delas estava parada atrás de mim.
— Oi. – Respondi. – Lucy ou Mirna?
— Lucy. – Fiquei mais aliviado, Lucy costumava ser mais simpática que Mirna. – Faz muito tempo que não nos falamos. – Ela se distraia com frequência pelo o que eu lembrava.
— Verdade, mas você me chamou por quê? Minha irmã?
— Sim, sim, isso. Ela está te chamando na nossa mesa.
Olhei para mesa aonde ela costumava sentar e vi que ela olhava para mim, me chamando com as mãos, cercada por suas seguidoras.
— Vem. – Lucy me puxou.
— Quer que eu vá junto? – Maggie perguntou.
— Não, Vick chamou ele. – Lucy respondeu por mim.
— Blake? – Ela ignorou a outra.
— Não, está tudo bem. – Falei acompanhando Lucy.
Vick foi direta quando Lucy me empurrou para cadeira na frente da líder.
— Sam tem realmente AIDS? — Suas seguidoras me olhavam apreensivas pela resposta. Fiquei em silêncio. – Me responde logo. – Se mostrou impaciente.
— Vick, desculpe, mas não posso falar sobre algo que não diz respeito a mim. – Tentei contornar a situação, não queria ser mais outro espalhando o segredo de Sam.
Minha responda a pegou de surpresa, fazendo-a me encarar com suspeita.
— Não vai estar falando nada que todo mundo já não sabe.
— Desculpe, Vick. Não posso falar sobre isso.
— Acho que uma resposta assim, já responde à pergunta. – Mirna se manifestou, a irmã gêmea de Lucy.
— Sim. – Vick sorriu.
— É triste. – Murmurei, desapontado com a atitude dela.
Ela não era amiga de Sam, mas pensei que ela teria o mínimo de empatia por ela.
— É realmente muito triste. – Ela falou sem sorrir.
— Triste também vai ser para todo o pessoal que descobrir que está contaminado também por ter transado com ela e não saber sobre o Aids. – Camille falou, eu não tinha notado a sua presença.
Ela tinha mudado o corte do cabelo, antes de comprimento médio, estava Channel, na altura do maxilar.
— Eu te chamei aqui, porque queria ter a certeza por você pra poder te defender. – Vick falou.
A minha posição naquele grupo estava me incomodando cada vez mais, obviamente só tinha sido chamado para recolher informações.
— Me proteger?
— Claro, ou não acha que tudo mundo que ela já pegou ou o grupinho dela não ia ficar sobre suspeita também?
— O quê?! – Me desesperei. – As pessoas estão achando que eu tenho HIV?
— Suspeitam. – Ela voltou a rir. – Mas eu posso te defender e todo mundo acredita no que eu digo.
Cada palavra que ela falava me deixava mais decepcionado.
— Isso é muito ruim. – Sussurrei.
— Muito ruim. – Vick reforçou. – Só preciso que você me confirme ou não.
— Não. – Falei me levantando.
— Então, ela não tem? – Mirna perguntou.
— Não, não vou te falar. – Falei saindo de perto daquele grupo.
— Você vai se arrepender, porque quando o negócio explodir de verdade, todo mundo que está perto dela vai junto. – Sua fala prendeu minha atenção, me fazendo parar de andar.
— Explodir? – Perguntei.
— Está achando que os meninos estão felizes? Eles estão morrendo de medo, quando sua amiga aparecer de novo vai ser uma verdadeira caça às bruxas. – Eu não acreditava em como ela podia ser tão venenosa numa situação daquelas.
Terminado de falar, olhei para o grupo de meninos a minha frente, era o de Marc, estava com muito mais pessoas que de costume, eles pareciam ter uma discussão acalorada e pararam imediatamente quando me viram. Era cerca de uma dúzia de garotos, a maioria parecia pertencer alguma equipe esportiva da escola, pois todos usavam casacos de time. Do grupo, conhecia apenas Marc e Yerik, apenas um e outro era familiar e o resto não conhecia.
— Olha quem está aqui! – Um deles falou. – Cade a sua amiguinha? Acho que ela deve umas respostas para gente. – Soou agressivo.
Não fiquei parado para responder, tentei andar o mais apressado possível até a minha mesa, ou para a saída mais próxima, visto que eu já tinha passado por um interrogatório e não queria passar por outro.
— Hey, aonde pensa que vai? – Senti alguém de voz conhecida me segurar pelo ombro. – Meu amigo te fez uma pergunta, responda a ele. – Marc me impedi de andar.
— Eu-eu não sei. – Gaguejei.
Da mesa dela, Vick parecia olhar a cena com atenção.
— Sente-se com a gente, aposto que o pessoal tem mais perguntas.
Quis lhe responder com um grandioso não, mas a pressão de sua mão em meu ombro ao me guiar até a mesa deles, deixava claro que não fazia um pedido e que se eu fugisse seria pior. O grupo parecia se divertir com a cena. Não era à toa que eu tinha a teoria que os grupo de populares se alimentavam de opressão e humilhação.
— Onde ela está? – Foi o que me perguntaram quando Marc me empurrou para uma cadeira, bem diferente da delicadeza de Lucy.
— Eu não sei. – Respondi baixo.
A atmosfera me intimidava, tudo soava a passivo agressividade. Doze pares olhos me encaravam com raiva, estava claro que queriam fazer alguma coisa com Sam e como ela não estava lá, seria comigo. Olhei para Yerik, ele não parecia se encaixar com o grupo, não digo de aparência, pois os treinos de natação o tinha feito encorpar ainda mais, mas me referia ao seu olhar, não me olhava com raiva, mas com vergonha de estar ali. Por um mísero segundo pensei em encara-lo com a melhor expressão de pedido de socorro, mas a lembrança do suco afastou a ideia rapidamente, ele estava tão à mercê daquele grupo quanto eu.
— Fale mais alto. – Marc exigiu.
— Eu não sei, não a vi. – Tentei falar mais firme e sem medo, eu tinha lido recentemente que os animais sentiam o medo nas pessoas, pensava que o mesmo se aplicava a um grupo de valentões.
— Se ela tem AIDS, precisa falar com a gente. – Um outro cara falou gritando.
Eu fiquei calado.
— Mas você deve saber, se ela tem ou não? – Marc falou.
— Eu não sei de nada. – Respondi tentando levantar
— Senta aí. – Alguém apareceu atrás de mim e forçou meu ombro para baixo.
— Está mentindo. – Outro falou.
— Se eu fosse você falava.
— Ele não comentou nada, ontem? Stanilau? – O cara que falara comigo perguntou para Yerik.
—Ne — Respondeu em búlgaro. – Não nos falamos. – Seu sotaque estava mais carregado que o normal, talvez estivesse nervoso. – Não somos priyateli, digo, amigos.
Engoli em seco.
— Você mente muito mal, búlgaro. – Marc riu.
— Não somos amigos, só dividimos o dormitório. – Falei sério. – E não vou falar nada sobre a Sam.
— Se ela tiver AIDS e tiver passado para algum de nós, pode avisar que ela está morta. – O primeiro cara falou.
— Os babacas vão soltar o meu amigo, ou vou ter que dar na cara de alguém? – Maggie falou.
Me senti aliviado por ela ter chegado. Todos sem exceção começaram a rir.
— O que a magrela do ano-novo está nos ameaçando? – Um deles falou.
Em um único movimento rápido, Maggie pegou o copo mais próximo na mesa e tacou o conteúdo dele na cara do outro. Todos no refeitório olharam para cena.
— Quem vai ser o próximo? – Ela ameaçou.
O garoto levantou com fúria e fez menção de ir para cima dela, mas imediatamente foi impedido pelos outros. Nesses momentos que eu me perguntava aonde estariam as inspetoras do colégio, não que mulheres de cinquenta anos tivessem de ter força para deter um adolescente de dezoito anos, mas conseguiriam detê-lo pelo medo das consequências.
— Vai bater em uma garota, está maluco? – Marc, falou enquanto o segurava.
— Eu vou acabar com ela!
— Pau no seu cu, seu merda! Pode vir. – Maggie provocou.
As pessoas começaram a se aproximar e formar um círculo em volta e nenhum sinal das feiras.
— Você está certo. – O menino falou parecendo se acalmar, seu rosto estava sujo de suco, ele me encarou.
Quando eu percebi o que ele ia fazer, já era tarde demais.
O mundo sumiu dos meus olhos quando ele me socou no rosto, me nocauteando.
— Mas nele eu posso bater, mande lembranças para Sam por mim. – Foi a última coisa que escutei.
—x-
Tudo o que eu enxergava era branco, meu rosto no lado direito doía.
— Se eu fosse você, coloca esse gelo aí. – Alguém falou comigo. – Antes que piore.
Aos poucos fui me situando aonde estava, era a enfermaria do St’Agnes, um lugar que eu estava vendo com frequência. Procurei o dono da voz misteriosa e o localizei no leito a minha frente. Ele parecia ter minha idade, era quase tão branco quanto eu, os cabelos eram em um loiro claro e os olhos azuis, tinha um semblante que transmitia tranquilidade, ele era bem bonito e levemente familiar.
— Oi. – Ele acenou da sua cama. – Seu gelo, ali. – Apontou para a mesinha ao meu lado.
Peguei o gelo e coloquei no lado direito do meu rosto, imediatamente a pele sensível começou a arder em contato com o gelo, não pude evitar de arfar.
— A enfermeira acabou de sair. – Ele era falante. – Seu nome é Blake, certo? Amigo da Sam.
Eu ainda estava desnorteado, mas não pude deixar de fazer uma expressão feia quando citou o no nome de Sam, acho que estava adquirindo uma atitude mais defensiva toda vez que era citada.
— Sou. – Respondi. – Você é da minha turma, não é?
— Sou, acho que temos umas quatro aulas juntos, mas nunca nos falamos.
Fiquei envergonhado por não lembrar do nome dele, ele percebeu isso e se apresentou sorrindo.
— Meu nome é Mikael. — Seu nome me fez ter uma estranha sensação, acho que deveria ser devido a semelhança com o nome do meu amigo virtual. – Se me permite perguntar, quem te bateu? – Apontou para o meu hematoma.
— Não sei, não lembro o nome. – Respondi sincero.
— Você pelo visto não é muito bom em lembrar de nomes. – Não pude não ficar envergonhado com a alfinetada.
— Desculpe.
— Sem problemas, ser notado não é o meu forte e nem minha pretensão. – Ele sorriu.
— Você sabe como eu vim parar aqui?
— Yerik e Marc te carregaram acompanhados de Margaret e Victoire.
— Você sabe o nome de todo mundo?
— Sou um bom observador. – Ele sorriu.
Adorei esse comportamento dele, de sempre sorrir, isso lhe concedia um charme especial, seu sorriso parecia ter o poder de iluminar o ambiente como um pequeno sol.
Fiquei pensativo sobre a relação dos envolvidos em me trazer até a enfermaria, se Marc tinha me trazido, deveria ter sido a mando de Vick e Yerik ter me ajudado ainda era um mistério, talvez realmente me considerasse um amigo ou teria sido um outro lacaio a mando de Vick.
Mick me encarava feliz, aquilo não me assustava, mas também não me dava a melhor das sensações.
— E você, por que está aqui? – Puxei assunto
— Fisioterapia, todos os dias por uma hora. – Flexionou os joelhos. – Mas hoje eu acordei com dor acima do normal, então vim fazer mais cedo.
Falar em fisioterapia o resgatou em minha memória, ele era o manco da nossa turma.
— Agora, acho que você lembra. – Continuou sorrindo, devo ter me entregado pela minha expressão. – Sinto muito por sua amiga ter de enfrentar a ignorância e estupidez dessas pessoas...
Fui pego desprevenido pela última frase, fiquei em silencio.
— Vejo que já acordou, Sr. McCarthy. – A enfermeira responsável falou assim que entrou na enfermaria. – Eu já te examinei, é apenas uma pequena lesão, em uma semana sumirá... Bom, vejo que já pegou o gelo que coloquei em sua cabeceira, então, é só assinar alguns papéis, pegar alguns medicamentos para dor e já está liberado para as aulas.
A enfermeira era uma mulher afro-americana aparentando ter a idade que minha mãe teria se fosse viva, seus cabelos eram crespos e escuros, assim como os seus olhos.
— Certo. – Falei, me levantando e indo até a sua mesa.
— Arrumou briga com algum aluno? — Ela me perguntou desconfiada.
Somente após essa pergunta percebi que poderia estar encrencado pelo soco levado, além de apanhar poderia ainda ser punido por isso, não era o meu dia de sorte. Porém, pensar em Sam automaticamente me repreendia de reclamar, preferia ser expulso antes que ela passasse pelo que estava passando.
— Não exatamente.
— Sei... – Seu olhar se espreitava cada vez mais, como se estivesse procurando uma mentira muito bem escondida. – Homens e seus hormônios, sempre arrumam brigas, se eu levasse até as Irmãs cada menino agredido, elas não teriam tempo para rezas. – Sorriu quebrando o clima tenso.
— Obrigado. – Aquele obrigado não conseguia transmitir a gratidão que sentia por sua condescendência.
— Mantenha o gelo no rosto o dia inteiro, mas provavelmente vai ficar marcado por uns dias e as Irmãs lhe perguntarão sobre isso, diga que já foi na enfermaria que eu já tenho sua ficha registrada o ocorrido.
— Muito obrigado. – Agradeci novamente.
— Tem alguns alunos te esperando lá fora. E se for reincidente terei que delatá-lo, está entendido?
— Sim, senhora.
— Se sentir muita dor, pode voltar que eu te dou mais analgésicos. – Me entregou os remédios.
— Obrigado, novamente.
— Tenha um bom dia, Sr. McCarthy.
— Igualmente.
Me dirigi a porta, mas antes que fosse embora me despedi de Mikael, colocando como tarefa para mim, cumprimenta-lo todos os dias. Ele parecia saber de todo mundo e ninguém parecia notá-lo, por experiência própria, se sentir solitário era uma das piores sensações possíveis. Não sei se isso o lhe fez sentir melhor, porque o sorriso parecia ser permanente.
— Seu rosto está horrível. — Foi a primeira coisa que Maggie e Vick disseram juntas quando saí.
“Obrigado” — foi a primeira coisa que pensei.
Não era exatamente muitas pessoas que me esperavam no lado de fora, como a enfermeira fizera parecer, apenas as duas e o Yerik me esperavam.
— Você está bem? — Ele perguntou, parecendo preocupado.
Yerik novamente confundia meus sentimentos e minha confiança, a minutos atrás estava com o grupo, de forma passiva, que me intimidara e me agredira, e agora estava do lado de fora da enfermaria, me esperando preocupado. O que só confirmava o que eu senti nessas últimas semanas em paz com ele, que não era possível confiar nele totalmente e nem esper bravura.
— Como se você realmente se importasse com a resposta. — Maggie respondeu por mim. — Agora que você viu que ele não sofreu nenhum dano, além dessa cara rocha e feia, pode ir contar para os seus superiores. — Fez gestos para que ele se mandasse. — Anda logo. — Ela o expulsava, indo contra a inicial insistência dele.
Yerik foi embora, mas não antes de me lançar um último olhar de misto de culpa e pedido de desculpa, vi seus caninos pressionaram os lábios inferiores conforme sussurrava algo em búlgaro incompreensível. Imaginei que mesmo que tentasse fugir dele naquela noite, ele faria questão de falar comigo.
— Antes que você implore o meu perdão, eu te perdoei pelo refeitório. – Vick falou, fazendo-me parar de pensar em Yerik.
— Caraca, você é muito maluca. – Maggie comentou.
— Não vou deixar passar impune sua agressão. – Soou mais séria.
— Obrigado, eu acho. – Olho para o chão.
— Victoire, como sempre, muito adorável. – Maggie quebrou o silêncio.
— O que quer dizer?
Percebi a tensão crescente entre as duas.
— O que eu quero dizer é...
— Maggie, por favor, pare. Vamos para aula, já estamos atrasados. — Falei tentando interromper antes da discussão despontar.
— Você vai com essa cara? – Voltaram a falar juntas.
— Sim, a enfermeira já me liberou.
— Coragem... – Vick falou.
—x-
O dia se prolongou como uma eternidade no inferno, Deus que me perdoe, se não bastasse a ligação de amizade com Sam para atrair a atenção das pessoas pelos boatos, agora o olho roxo parecia ser um holofote de teatro apontado diretamente para a minha cara. Durante o almoço tomei precações para não encontrar o grupo de brutamontes novamente, não que duvidasse do poder da minha irmã naquela escola, mas eu preferia me precaver, por tanto almocei no limite do horário quando quase não tinha ninguém e iria fazer a mesma coisa quando fosse o jantar. Por sorte, não tive aulas com Yerik, mas por azar apenas uma com a Maggie, por isso, fiquei sozinho na maior parte do tempo, porém a última aula seria a do Coral, por tanto, os veria.
Fui o primeiro a chegar na sala, seria melhor encarar cada um por vez, do que ser o centro das atenções ao entrar por último e foi exatamente o que aconteceu, um a um, meus colegas foram chegando. Maggie fora uma das primeiras e prontamente ficou ao meu lado, Steve e Peter teriam me matado se isso fosse possível com o olhar. Yerik, Marc e Camille chegaram juntos, a loira logo começou a rir quando viu a marca no meu rosto, Marc não esboçou nenhuma expressão e Yerik novamente demonstrou-se desconfortável.
— Adorei a maquiagem. – Cami me provocou sentando-se perto de mim se afastando dos outros dois.
— Posso te garantir uma igual. – Maggie a ameaçou.
— Adoraria ver você tentar. – Camille a encarou em provocação.
Novamente antes que surgisse qualquer conflito maior, apartei a situação. Coloquei minhas mãos na de Maggie, tentando acalma-la e balançando a cabeça em negação, para indicar que não estava aprovando suas atitudes. Eu adorava a sua forma protetora comigo e com os amigos, porém ela tinha que ser menos explosivas para não gerar mais problemas.
— Não vale a pena. – Sussurrei só para ela.
— Não vale mesmo, pode deixar que as surras dela, a Vick mesmo dá, como aquela na festa. – Maggie não se aguentou e teve que provocar.
A conflito que se seguia, só parecia atrair a atenção de nós três, pois ninguém mais prestava atenção, o pessoal estava muito disperso em fofocar sobre os boatos do que prestar atenção em uma discussão, que nem parecia uma discussão devido ao tom de voz controlado de ambas as partes.
Camille ficou vermelha de raiva, mas antes que pudesse reagir a Sra. Underwood chegou, atrasada, atraindo a atenção de todos, pelo canto do olho pude ver o sorrisinho vitorioso de Maggie por ter saído vitoriosa.
— Solo, vamos precisar de um solista para as regionais.
A Sra. Underwood falou, animando a todos, visto que quem em um coral não gostaria de ter um solo? Imaginei o quão animadas minhas amigas ficariam, porém não estavam presentes, no fundo tinha cogitado que elas ao menos viriam para aquela aula. A fala dela também respondia às perguntas das últimas semanas sobre a parte ausente nos ensaios para as regionais em menos de duas semanas.
— Sei que pode parecer um pouco em cima da hora, mas esse ano o pessoal que organiza a competição soltou essa última regra agora, por tanto, além de obrigatoriamente ter um número seiscentista, também devermos ter um solo. – Voltou a falar. – E qual seria a melhor forma para achar o nosso solista?
— Uma competição. – Camille respondeu animada.
— Exatamente.
— Mas quem julgaria e escolheria o melhor? – Joanne interrompeu-a.
— Bom, da forma mais democrática possível, vocês mesmo escolheram quem será o solista.
— Ótimo... – Sussurrou Maggie irritada. – Aposto que será alguém de alguma panelinha.
— Todos poderão disputar o solo, porém apenas os formandos que poderão ser escolhidos.
Mais da metade dos presentes resmungaram.
— Do que adianta fazer a audição, se não adianta de nada. – Joanne gritou.
— A oportunidade de todos te ouvirem. – A Sra. Underwood sorriu, seus dentes eram manchados pelos cigarros. Ela parecia se divertir com a situação imagino que ela soubesse que esse pequeno detalhe fosse gerar reclamações. – Por tanto, apenas Peter, Steve, Harry, Olivie e Sam podem ganhar o solo, caso façam a audição.
Pelo canto do olho pude ver que Olivie comemorava, ela era uma das melhores cantoras do clube, deveria estar confiante com a vitória, ainda mais que sua única concorrente feminina era a Sam.
— Aonde está a Srta. White? E a Srta. Grant? – A Sra. Underwood perguntou pegando a todos desprevenidos.
A sala ficou em um completo silencio, devo ter transparecido o meu nervosismo, pois a professora começou a me encarar.
— Se escondendo. – Steve quebrou o gelo. – Como uma mentirosa que é, aidética do caralho. – A última parte falou olhando diretamente para mim, como se o olhar pudesse descontar raiva.
Suas palavras foram automáticas para deixar o clima tenso dentro da sala.
— Como Sr. Gonzáles? – A Sra. Underwood parecia perdida.
— Isso mesmo professora, Sam tem aids e não contou para ninguém. – Peter que respondeu.
— Do jeito que era não duvido nada que metade da escola também tenha. – Olivie sussurrou baixo, mas audível para mim.
Olhei para Maggie, ela deveria estar o exposto do que eu achava estar naquele momento, ela estava ficando vermelha de raiva, eu segurei a sua mão para acalma-la e evitar que explodisse.
— Sr. McCarthy, por favor, avise as Srtas. White e Grant para não faltarem nos ensaios, estamos a poucas semanas das regionais e se quiserem se apresentar para a audição do solo terão que comparecer nos próximos. – A Sra. Underwood falou séria, bem diferente do tom avoado habitual, estava com uma expressão séria também.
Por alguma razão, ela havia completamente ignorado o que os outros disseram, pensei que iniciaria um interrogatório comigo, como todos tentavam fazer, mas acho que era madura o suficiente para saber o que é adequado e inadequado, e fazer perguntas para um aluno se sua melhor amiga é soropositiva, com certeza, era algo inadequado.
— Não vai querer saber nada sobre isso? – Camille perguntou irritada, a indiferença da professora a incomodou. – Pensei que se preocupasse com seus alunos.
Todos se calaram ao ver a tensão entre as duas, a Sra. Underwood era uma pessoa muito calma e avoada, que exalava nicotina, porém não tolerava ser questionada de forma tão invasiva como aquela.
— Srta. Bernad gostaria que me falasse o que a vida pessoal de uma aluna tem a ver com o andamento da aula?
Camille parecia que ia explodir, não entendia toda sua raiva contra a Sam e a necessidade de falar sobre o assunto.
— O que tem a ver, é o fato dela poder ter infectado boa parte dos alunos com a doença dela sem contar a ninguém, só aqui ela já ficou com o Steve, Harry, Peter e esse daí. – Apontou para mim. – Isso que eu sei...
— Calada. – A mais velha a interrompeu. – Se acha que vai conseguir fazer um debate sobre a vida particular de uma colega durante a minha aula está muito enganada. Estamos aqui para fazer arte, evoluir como seres humanos e não para ficar falando sobre a vida de alguém, entendeu?
— Eu não acho justo...
— A Senhorita não tem que achar justo ou não, assunto encerrado. – Camille fez cara feia. – Se quiser, pode fazer cara feia lá fora da sala. – Apontou para porta.
Orgulhosa, a loira saiu batendo o pé e a porta ao sair.
— Mais alguém querendo falar da vida da Srta. White? Pode fazer companhia a Srta. Bernad lá fora. – Ninguém se manifestou, pude ver alguns olhares oscilares (Steve, Marc, Peter e Olivie) – Continuaremos com a aula, bom...
A Sra. Underwood deu prosseguimento a aula sem intervenções, como a de Camille, naquele dia ela deu dicas de música a quem pediu para as audições nos próximos dias e ensaiou o número das regionais. Eu estava morto de cansado quando no final da aula, Maggie falou comigo, ela era a pessoa mais dedicada aos ensaios, por isso nem chegava a conversar durante.
— Vou tentar o solo, o que acha? – Falou ao se aproximar.
— Acho muito bom, mas só os veteranos que poderão competir de verdade.
— Isso até me verem cantando de verdade. – Sorriu.
— Com certeza. – Ri.
— Vou tentar falar com Sam depois da aula. – Falou séria.
— Por favor, fale porque eu mandei mensagens para ela durante o dia inteiro e ela nem se quer visualizou.
— Eu também, mas deu na mesma, por isso vou ir lá.
— Espero que consiga falar com ela.
— Algum recado?
Pensei por um momento.
— Só diga para ela que ela é amada e que isso não é nada comparada com toda felicidade que ela terá e tem.
— Nossa que poético. – Ela riu. Fiz uma careta para ela. – Vai querer companhia no refeitório durante o jantar?
— Não, prefiro que você vá ver Sam, eu vou jantar mais tarde...
— Entendi...
Não demorou muito para Sra. Underwood nos liberar e encerrar a aula, Maggie seguiu sem mim, enrolei o máximo que podia. Com um lugar em mente para matar o tempo, não queria retornar ao quarto e ter que falar com Yerik, precisava ficar em paz antes de encará-lo, percebi que ele tentou se atrasar para voltar comigo, mas devido à demora seguiu sem. Existia um lugar especifico que me acalmava dentro do St’Agnes, que apesar de não parecer que combine muito comigo, sempre era um refúgio: o palco, no auditório.
Cheguei tranquilo no auditório, devido ao horário esperava que não tivesse ninguém, o que era bem provável já que o coral não o estava usando e não era temporada de teatro, porém para a minha surpresa encontrei uma pessoa que não via ou reparava a muito tempo: Georgina, a ex-namorada de Yerik e uma das estrelas do último musical.
Ela estava tocando piano enquanto cantava, sua voz era tão encantadora que não pude não deixar de observa-la.
You bring me hope when I can't breathe
You give me love, you're all I need
Slowly I'm holding you closely
You're wrapped in my arms and you're inside me
Tell you my fears, telling you everything
Telling the truth to you gives me wings
Free with my words, free as a bird
I am flying high, looking at you
Everything new, you are my life
You bring me hope when I can't breathe
You give me love, you're all I need
Slowly I'm holding you closely
So happy to carry you inside me
I'll feed you love, and I hope it's enough
To inspire you through suffering
Holding you up
You bring me hope when I can't breathe
You give me love, you're all I need
Slowly I'm holding you closely
You're wrapped in my arms and you're inside me
Dado um momento da música ela percebeu a minha presença e sorriu, deveria ter se lembrado de mim. Ao terminar bati palmas.
— Muito bom. – Falei me aproximando do palco.
— Obrigada. – Ela sorriu. – O que está fazendo aqui?
— Vim relaxar. – Respondi com sinceridade.
— Acho que tivemos a mesma ideia. – Continuou sorrindo.
Georgina estava do mesmo jeito que eu lembrava, parecendo uma boneca de porcelana com os fios loiros e a boquinha pequena avermelhada. Ela cantava lindamente. Em um relance rápido, me lembrei do dia que peguei ela e o Yerik juntos em um momento íntimo, não pude evitar o rubor pelas lembranças.
— Está vermelho? – Perguntou reparando no meu rubor.
— Não, nada. – Tentei controlar o rubor. – Faz tempo que não nos vemos, acho que desde quando você namorava o Yerik. – Tomei o rumo da conversa.
Caminhei até o palco e me sentei nele, ela fez o mesmo e se sentou ao meu lado.
— Muito tempo. – Ela suspirou. – Ele é seu colega de quarto, não é?
— Sim.
— Anda brigando? – Apontou para o meu rosto.
— Apanhando no caso. – Sorri de canto.
— Mas voltando a falar do meu ex, eu não guardo boas lembranças do nosso relacionamento, águas passadas.
— Ele foi mal para você? – Não pude segurar a curiosidade.
— Bom, não vou falar exatamente mal dele, mas você não parece ser do tipo fofoqueiro. Me promete não contar nada para ele.
— Não vou contar.
— Eu não guardo magoa, mas só que ele... – A cada palavra ela ficava mais vermelha.
— Como assim?
— Blake, ele não ficava... você sabe.
Fiquei sem entender, ela ficou me encarando por um tempo como se tivesse tentando mandar a frase que não tinha coragem de dizer pela mente. Passados alguns segundos, consegui entender o que ela queria dizer, devo ter ficado tão ou mais vermelho que ela.
— Ai meu deus. – Falei.
— Sim... – Voltou a suspirar. – Só não conte para ninguém, não estou falando por ressentimento.
— Ai meu deus.
— Eu acho que ele é gay. — Se tivesse um buraco no placo teria enviado minha cabeça nele como um avestruz. – Você viu como ele é amigo daquele Jessie.... Acho que por isso que nunca conseguiu...
— Georgina, por favor pare de falar isso.
— Você divide quarto com ele, nunca reparou nada suspeito?
— Nãooooo. – Neguei com veemência, com a voz um pouco mais aguda que o normal.
— Eu não teria preconceito, mas, sei lá. Acho que foi injusto da parte dele comigo. – Ela estava com uma expressão triste.
— Você gostava dele?
— Sim, mas era mais uma paixonite.
Ficamos um tempo em silêncio, a pergunta dela martelava na minha cabeça e a resposta dela sempre era a lembrança dos nossos beijos e do momento junto ao Jessie. Minha consciência voltava a me tortura como nunca e se solidarizava com o drama dela, de ter sido uma fachada.
— Me desculpe, Georgina. – Algo dentro de mim, insistia que eu deveria pedir desculpas a ela.
— Por que me pede desculpas? Fez alguma coisa para mim? – Pareceu desconfiada.
— Não, só senti que devia. – Ela permaneceu com a expressão. – Eu sempre me perguntei o porquê de uma pessoa tão talentosa como você nunca ter entrado no coral. – Mudei de assunto.
— Bom, acho que tem muita gente que não gosta de mim lá dentro, não iria me sentir confortável.
— Compreendo.
O que ela falava fazia sentido e até em alguns momentos sentia o que o mesmo, porém na maior parte das vezes, os melhores momentos que eu passava no St’Agnes era dentro da sala do Coral.
— É verdade que sua amiga tem AIDS?
Por um momento, tinha esquecido de toda essa confusão, tais falas trouxeram-me de volta a realidade de fora do auditório. Não lhe respondi, isso a fez perceber o quanto fora inconveniente.
— Me desculpe. – Ela falou.
— Tudo bem, só estou cansado desse assunto por hoje. – Suspirei.
— Certo... Bom, eu terminei a minha canção o auditório é todo seu agora.
— Obrigado. – Falei enquanto ela se levantava e sai acenando.
Esperei ela sair para finalmente ir até o centro do palco e me deitar nele, apenas um refletor estava ligado, não muito forte. Estar ali não implicava necessariamente em cantar para me acalmar, tinha mais a ver com o lugar ao todo e não com a ação nele. Suspirei, coçando os cabelos, os cachos estavam excepcionalmente grandes, fazia muito tempo que não os cortava. Aos poucos fui mergulhando em meus pensamentos e como a minha vida tinha sido feliz e infeliz nos últimos meses.
Eu tinha conhecido pessoas maravilhosas como Sam, Beth e mais recentemente me permitido conhecer Maggie e pessoas que me balançavam de uma forma que me fazia implorar por salvação, como Yerik, Alex e Jessie. As primeiras, me renderam os melhores momentos da minha vida; as segundas, momentos de conflito interno e culpa, não necessariamente achava tão ruim assim, deus que me perdoe. Ainda haviam as pessoas que me causavam desconforto em um sentido completamente ruim, como Camille e Marc, podendo acrescentar novamente Yerik. Ele poderia ser facilmente a pior parte desse tempo, se não tivesse algo que simplesmente não conseguia explicar que me fazia insistir nele e os recentes acontecimentos.
Não compreendia a necessidade das pessoas daquele lugar de serem tão más umas com as outras, como se alimentavam dos momentos de fraqueza ou aberturas das outras e no fim de tudo se sentirem bem. Como poderiam tratar alguém tão mal como estavam fazendo com a Sam, só pelo fato dela ter uma doença? Simplesmente não fazia sentido para mim.
Vick era outra pessoa muito importante dos últimos meses, não que mudara muito da nossa relação, mas suas ações se tornavam cada vez mais surpreendentes, além, é claro, de toda situação envolvendo o aborto. Eu poderia ter desistido dela, mas jamais conseguiria.
Não percebi o tempo passar, só fui lembrando que deveria ir jantar quando tocou o alarme, que eu programara. Devido à proximidade do toque de recolher e de ser estar na parte acadêmica não encontrei ninguém no meu caminho ao refeitório até a entrada dele.
Na porta do ambiente, Mirna, Lucy, Steve e Peter discutiam.
— Nós não vamos mais ficar com vocês, enquanto não estarem com os exames de negativo. – Quem eu julguei ser a Mirna falou.
— Mas... – Steve tentava argumentar.
Por sorte, estavam tão absurdos em sua discussão que nem repararam que eu passara por eles, agradeci a deus por isso. Eu sabia exatamente a que exame negativo elas deveriam estar pedido e ser amigo da culpada, segundo eles, de toda essa confusão, não seria a melhor pessoa a estar por perto.
Quando entrei no refeitório, ele só não estava completamente vazio por apenas mais três pessoas, peguei minha comida e sentei em uma mesa mais afastada do campo de visão, meus, não queria dar sorte ao azar.
— Dou até amanhã para as Irmãs começarem a surtar com o possível surto de HIV na escola. – Alex falou atrás de mim com a orelha roçando no meu ouvido.
Me assustei de modo que derramei meu copo de suco que escorreu pela mesa e molhou minha calça.
— Ei. – O repreendi. – Você me assustou.
— Não foi a minha intenção. – Sorriu amarelo. – Belo rosto.
— Nem me fale.
— Se eu tivesse por perto, teria de ajudado.
— Obrigado, mas acho que você só teria um olho roxo para combinar com o meu, de qualquer forma já foi.
Alex estava com a roupa levemente molhada e desajeitada semelhante ao estado do seu cabelo, parecia que tinha brigado com alguém, as olheiras estavam mais profundas e os olhos acinzentados mais acentuados e vermelhos. Ele puxou a cadeira ao meu lado e sentou, lindando com o próprio guardanapo a cadeira também suja de suco. Fiz menção de pegar o meu para me limpar, mas ele foi mais rápido.
— Eu te sujei, eu te limpo.
— Não precisa.
Ignorando-me, ele começou a passar o papel na região de minha coxa com uma pressão além da necessária, estava tendo a impressão de que ele queria me acariciar, olhei para sua mão em ação constrangido. Só consegui pará-lo ao sentir roçar a mão no meu pênis, devo admitir que quase tive um ataque com aquilo, mas consegui me controlar, apenas segurando sua mão.
— Por favor, não. – Sussurrei.
Ele se afastou sem dizer nada, com a mesma inexpressão de sempre. O clima ficou desconfortável entre nós, por um tempo ficamos sem nos comunicar, somente quando estava quase terminando de comer que puxei conversa.
— O que quis dizer com a primeira coisa que você falou quando chegou?
— O quê? – Soou frio.
Enruguei o rosto.
— Sobre as Irmãs e HIV.
— Minha tia voltou hoje, vai voltar a assumir a diretoria, falou comigo sobre a estudante soropositiva e o escândalo que se espalhou.
— Pode ser só um rumor.
— Não é só um rumor, ela sabe que sua amiga é soropositiva, na realidade, todas Irmãs sabem, a escola foi preparada para recebe-la, até com treinamento, caso ela se machucasse e o cuidado com o sangue. — Fiquei boquiaberto com todas aquelas informações. – A questão agora é como os pais dos alunos reagirão a coisa toda, sua amiga só confirmou a situação dela quando se ausentou o dia inteiro.
— E como você sabe de tudo isso?
— Eu sou muito observado meu caro e, também, a tia-avó diretora. – Ele me fez uma carícia no meu queixo e saiu, deixando-me sozinho. Conforme andava percebi que andava de forma estranha.
Todas as informações que ele falara, me pegaram de surpresa. Então, todas as Irmãs sabiam da situação de Sam, fazia sentido já que ela deveria pegar o seu coquetel de remédios na enfermaria. Deveria ser só questão de tempo até que todo mundo começasse a surtar com o medo de ter HIV, isso chegaria obviamente até os pais que cobrariam da escola, o que faria todos terem mais problemas para ela. Provavelmente, só deveriam estar esperando uma confirmação definitiva.
Terminei a minha refeição e fui para o meu dormitório, por sorte, nenhum dos casais estavam no caminho dessa vez. A situação me fez distraído, fiz o caminho no automático e só percebi o que me aguardava no quarto quando dei de frente com a porta do dormitório.
Como imaginei Yerik estava me esperando quando cheguei no quarto, ele já estava com roupa de dormir, um pijama de verão com um short super curto e folgado, meus olhos foram imediatamente para suas pernas quando entrei. Não nos falamos imediatamente, ficou um clima estranho até ele tomar coragem para falar conforme eu arrumava a cama para dormir.
— Você demorou... – Comentou, seu sotaque estava mais carregado que o comum, isso sempre acontecia quando ele estava nervoso.
Demorei para responde-lo e quando o fiz, não o encarei, mesmo sabendo que era observado a cada ação por ele.
— Sim, estava evitando os seus amigos o máximo possível.
Essa foi a vez dele de demorar a falar.
— Sobre hoje mais cedo.... Você pode olhar para mim enquanto falo com você? – Pediu assim que percebeu que eu afofava o travesseiro pela terceira vez.
Sem opções, sentei na cama e o encarei, como imaginei seus olhos azuis estavam pregados em mim.
— Eu só queria te pedir desculpas. – Falou sério, algo dentro de mim sentia sua sinceridade e outro suas mentiras.
O encarei por instantes.
— Tudo bem. – Lhe respondi enquanto ia para o banheiro escovar os dentes, a resposta pareceu lhe pegar com surpresa, pois ele não me seguiu.
Quando retornei ao quarto, ele estava parado no mesmo lugar que ficara.
— Assim? Tão fácil? – Perguntou nervoso.
— Sim.
Deitei na minha cama, apoiando as costas na cabeceira, enquanto ele sentava na cama dele em silêncio. Olhei no celular e tanto Beth quanto Sam tinham ignorado as minhas mensagens, havia apenas uma de Maggie.
M: “Encontrei elas, Sam ainda não está preparada para encarar a todos”
Y: “Tudo bem... Se vê-las novamente fale que estou aqui para tudo”
Não obtive resposta imediata, Maggie não estava online.
— Estamos bem? – Yerik voltou a falar comigo, me virei na cama para encará-lo e vi sua expressão confusa.
— Estamos.
— Mas... Bem mesmo? Você parece frio em suas respostas.
Ele estava certo, eu tinha dito que estava tudo bem, mas não que o tinha perdoado ou que éramos amigos. Uma das poucas coisas de aprendizado, além do acadêmico de quase um ano no St’Agnes era que as pessoas não eram confiáveis e tinha aprendido isso especialmente com ele.
— Posso te fazer uma pergunta? – Falei sem responder sua pergunta. Ele indicou com a cabeça que sim. – Por que insiste em parecer que se importa comigo, quando fica obvio que não?
A pergunta o pegou novamente de surpresa, devo confessar que nem eu acreditei naquele meu desabafo. O dia tinha sido difícil, havia apanhando e minha amiga lutava com um sentimento e uma dor que durariam até o fim de sua vida e naquele momento tinha que lidar com uma das pessoas mais voláteis que conhecia até então.
Ele não me respondeu, virou-se e encarou o teto.
— Você comigo aqui no quarto não combina com você lá fora, para mim não faz sentido, parecem duas pessoas diferentes. – Continuei falando. – Mas isso não importa, existem problemas maiores, do que alguém que tem vergonha de mim, já convivo a quase um ano com a Vick nesse colégio já estou quase me acostumando.
— Eu não tenho vergonha de você.
Suspirei, suas palavras novamente não condiziam com o seu comportamento.
— Yerik, eu tentei ser seu amigo, mas acho que temos amizades diferentes, podemos apenas conviver um com o outro, sem precisar fingir amizade?
— Pensei que era seu amigo...
— Maggie é minha amiga, Sam e Beth são minhas amigas, até Alex é meu amigo, mas você...
— Alex? – Ele pareceu incomodado. – O esquisito.
— Ele não é esquisito.
— É sim. E não sabia que conversava com ele.
Eu poderia começar uma discussão para defende-lo, mas preferi encerrar a conversa.
— Mas enfim, ele é meu amigo, frequentamos a missa juntos aos domingos.
Ele riu pelas narinas, percebi que estava se irritando.
— Missa. – Falou entredentes.
— Boa noite para você, Yerik.
Não quis prolongar mais a conversa, me virei na cama de modo que ficasse de costas a ele.
— Ainda vou te provar que também sou seu amigo. – Ele falou por fim.
No fundo do meu coração, eu queria acreditar no que ele dizia e que um dia realmente seria meu amigo, mas tudo parecia dizer o contrário. Adormeci em poucos minutos na cama, fui acordar no outro dia, não pelo alarme diário, mas pela voz melodiosa do meu companheiro de quarto, dedilhando um violão:
When you were here before
Couldn't look you in the eyes
You're just like an angel
Your skin makes me cry
You float like a feather
In a beautiful world
I wish I was special
You're so fucking special
But I'm a creep
I'm a weirdo
What the hell am I doing here?
I don't belong here
I don't care if it hurts
I wanna have control
I wanna a perfect body
I wanna a perfect soul
I want you to notice
When I'm not around
You're so fucking special
I wish I was special
But I'm a creep
I'm a weirdo
What the hell am I doing here?
I don't belong here
She's running out again
She's running out
She run, run, run, run
Run
Whatever makes you happy
Whatever you want
You're so fucking special
I wish I was special
But I'm a creep
I'm a weirdo
What the hell am I doing here?
I don't belong here
I don't belong here
Ele não notou quando eu acordei, o observei cantar e tocar quase até o fim da canção antes dele notar. Sua voz era hipnótica, aquecia-me por dentro e devo admitir que fazia-me querer beijá-lo, poderia ser sua plateia vitalícia e fiel.
— Desculpe, acabei te acordando.
— Tudo bem, não que seja ruim acordar assim... – Falei bocejando. – Que horas são? – Olhei para janela e não havia sinal de luz.
— Cedo ainda, pode voltar a dormir.
— Por que está cantando a essa hora?
— Porque estava com insônia e sempre que tenho insônia faço isso.
— Já fez antes? – Fiquei surpreso.
— Muitas vezes. – Admitiu. – Você tem o sono pesado, volte a dormir.
O obedeci e voltei a dormir enquanto ele cantarolava alguma canção em búlgaro.
O outro dia estava como Alex previra, as pessoas estavam mais histéricas com a força que os boatos tomavam, eu fazia companhia a Maggie e ela a mim, adotávamos uma estratégia de fuga e espreita, estávamos frequentando as aulas, que por sorte eram juntas, mas evitando o máximo ser vistos. A única interação que tive com alguém, além dela, foi com Mikael, quando o cumprimentei.
Sam e Beth, novamente, não fizeram contato durante o dia inteiro, até o horário do almoço, quando recebi a seguinte mensagem:
Beth: “Esteja cedo no refeitório durante o almoço”
Blake: “Claro, mas por quê?”
Beth: “Lá você saberá”
Estranhei a mensagem misteriosa, fui falar com Maggie e ela falou que recebera a mesma mensagem e assim as obedecemos.
— Gostaria que ela tivesse falado mais detalhes, sou impaciente. – Maggie falou assim que chegamos.
Como eu esperava todos nos olhavam com um misto de raiva ou desprezo.
— Odeio ser o centro das atenções.
— Eu adoro. – Ela fazia gesto obsceno em direção a todos que nos encarava.
— Pare com isso. – Falei.
— Não, hoje estou sem paciência. Falando nisso, cadê elas?
Como se as tivesse convocado, Beth e Sam entraram de mãos dadas pelo refeitório, não que eu tivesse olhando sempre naquela direção, mas decorrente da comoção generalizada tudo mundo olhou para lá. Ver minha amiga, após um dia completamente afastado era reconfortante e ao mesmo tempo desesperador, porque sabia o ódio que ela estaria recebendo por ter aparecido.
Ela estava acabada, podia ver que estava mais pálida e com olheiras profundas, até o cabelo castanho curto estava mais opaco. Beth não estava muito melhor, os cabelos estavam bem emaranhados e como Sam, também tinha olheiras profundas.
— Vejam só quem apareceu, se não é garota dst! – Alguém gritou.
Algumas pessoas começaram a cochichar gerando um falatório, não falavam coisas boas sobre Sam, eram humilhantes e cruéis, eu só conseguia pensar nela, me levantei e fui em sua direção.
— Vamos sair daqui, não precisa ouvir tudo isso. – Falei para ela, a abraçando.
Maggie chegou depois de mim.
— Não. – Sam sorriu. – Eu vim exatamente para isso.
Estranhei o que ela falou, não pude deixar de enrugar a testa, olhei para Beth e ela confirmou a motivação da outra.
— Não quero ninguém apanhando por mim, eu enfrento minhas próprias lutas. – Ela fez um carinho no meu olho machucado, o toque incomodava.
— Você me deve explicações. – Alguém gritou do grupo de Marc.
Reparei que eles não tiravam os olhos de nós, Sam sorriu para ele, era um sorriso irônico.
— Claro. – Sussurrou.
Ela caminhou até a mesa deles, nós a seguíamos. Abruptamente, ela empurrou o menino que a intimara da cadeira, pisando nela em seguida para subir na mesa do refeitório, se existia alguém ali que não estava prestando atenção nela desde sua chegada, agora era impossível.
— ESCUTEM TODOS AQUI! – Começou a gritar. – A QUATRO ANOS, EU VENHO SOFRENDO COM AS FOFOCAS DE VOCÊS FALANDO COISAS ABSURDAS DE MIM E SÃO TODAS VERDADES. EU REALMENTE PEGUEI TODO MUNDO QUE VOCÊS FALARAM, FIZ TUDO O QUE VOCÊS ACHAM QUE EU FIZ E NÃO ME ARREPENDO. SOU UMA VAGABUNDA MESMO, BISSEXUAL SIM. – Apontou para Beth. – E A MAIOR VERDADE DE TODAS É QUE NÃO VOU ME ABALAR COM A CRUELDADE DE VOCÊS! E PARA QUEM ACHA QUE SOU SOROPOSITIVA E TEM MEDO QUE TENHA SIDO CONTAMINADO, EU SÓ TENHO UMA RESPOSTA: VAI TOMAR NO CU E VÁ FAZER O EXAME!
Ninguém falou nada, todo mundo ficou chocado com a sua atitude, apenas Beth parecia saber que ela iria fazer aquilo.
— Ufa, bem mais aliviada. – Falou assim que desceu da mesa. – Vamos almoçar? – Soou como se não tivesse feito nada e fosse mais um dia comum.
—x-
I can’t explain, but I want to try
There’s this image of you and I
And it goes dancing by in the morning
And in the night time
There’s all these secrets that I can’t keep
Like in my heart there’s that hotel suite
And you lived there so long
It’s kinda strange now you’re gone
I’m not sure if I should show you what I’ve found
Has it gone for good?
Or is it coming back around?
Isn’t it hard to make up your mind?
When you’re losing and your fuse is fireside
There’s all those places we used to go
And I suspect you already know
But that place on memory lane you liked still looks the same, but something about it’s changed
I’m not sure if I should show you what I’ve found
Has it gone for good?
Or is it coming back around?
Isn’t it hard to make up your mind?
When you’re losing and your fuse is fireside
And I thought I was yours forever
Maybe I was mistaken
But I just cannot manage to make it through the day
Without thinking of you lately
I’m not sure if I should show you what I’ve found
Has it gone for good?
Or is it coming back around?
Isn’t it hard to make up your mind?
When you’re losing and your fuse is fireside
Steve acabara de se apresentar na audição para o solo, ele estava furioso o que necessariamente não combinava com a música, por causa de Sam. Ele tinha tentado confrontá-la, mas tinha sido completamente ignorado por ela, ação que se repetiu ao longo do dia a todos que não eram amigos dela e tentava falar com ela.
— Perdeu o solo porque não sabe interpretar. – Maggie falou com reprovação.
— Menos um. – Sam riu.
Sam realmente parecia mais leve depois de ter gritado no refeitório, no entanto, eu ainda conseguia ver a tristeza no seu olhar.
— Ainda não acredito no que você fez. – Sussurrei.
— Nem eu.
— Eu adorei, queria ter coragem de fazer o mesmo, meu desaforo vai até a página dois. – Maggie riu.
— Ainda estou preocupado com você. – Falei sério.
— Não precisa, estou bem.
Sua boca negava, mas eu sentia que ela não estava bem e que precisava de ajuda, esperava que ao menos estivesse se abrindo com Beth.
— Tenho uma pomada com ervas que podem ajudar no seu machucado. – A ruiva falou.
— Obrigado.
— Próximo a se apresentar! – A Sra. Underwood gritou, ela tomava notas no fundo da sala.
Olivie se levantou e se dirigiu ao centro da sala.
Odeio essa vaca. – Maggie falou, concordei em pensamento.E a sonoridade feminina? – Beth perguntou.
— Enfia no cu.
Não pude evitar de rir, Olivie deve ter pensado que eu estava rindo dela pois fez cara feia para mim um pouco antes de começar a cantar.
You're everything I thought you never were
And nothing like I thought you could've been
But still you live inside of me
So tell me how is that
You're the only one I wish I could forget
The only one I'd love to not forgive
And though you break my heart
You're the only one
And though there are times when I hate you
'Cause I can't erase
The times that you hurt me and put tears on my face
And even now when I hate you
It pains me to say
I know I'll be there at the end of the day
I don't wanna be without you, babe
I don't want a broken heart
Don't wanna take a breath without you, babe
I don't wanna play that part
I know that I love you but let me just say
I don't wanna love you in no kind of way, no, no
I don't want a broken heart
And I don't wanna play the broken-hearted girl
No, no, no broken-hearted girl
I'm no broken-hearted girl
There's something that I feel I need to say
But up 'till now I've always been afraid
That you would never come around
And still I wanna put this out
You say you got the most respect for me
But sometimes I feel you're not deserving me
And still you in my heart
But you're the only one
And yes, there are times when I hate you
But I don't complain
'Cause I've been afraid that you would walk away
Oh, but now I don't hate you
I'm happy to say
That I will be there at the end of the day
I don't wanna be without you, baby
I don't want a broken heart
Don't wanna take a breath without you, babe
I don't wanna play that part
I know that I love you but let me just say
I don't wanna love you in no kind of way, no, no
I don't want a broken heart
And I don't wanna play the broken-hearted girl
No, no, no broken-hearted girl
Now I'm at a place I thought I'd never be, ooh
I'm living in a world that's all about you and me
And, yeah, ain't gotta be afraid, my broken heart is free
To spread my wings and fly away, away with you
Yeah, yeah, yeah
I don't wanna be without my baby
I don't want a broken heart
Don't wanna take a breath without my babe
I don't wanna play that part
I know that I love you but let me just say
I don't wanna love you in no kind of way, no, no
I don't want a broken heart
I don't wanna play the broken-hearted girl
No, no, no broken-hearted girl
Broken-hearted girl, no, no
No broken-hearted girl
No broken-hearted girl
Olivie poderia não ser a pessoa mais agradável do mundo, mas cantava como ninguém. Todos aplaudimos quando ela terminou, era uma forte candidata a ganhar o solo.
— Droga, ela é boa, mas eu sou melhor, aposto que consigo o solo. – Maggie falou.
— Mas você não está competindo. – Beth a lembrou.
— Eu sei.
— Proximo! – A Sra. Underwood voltou a gritar.
— Minha fez, não me desejem sorte, porque eu já tenho, só torçam. – Maggie falou antes de levantar.
Beth e Sam não puderam evitar de revirar os olhos.
Minha amiga começou:
Tough girl
In the fast lane
No time for love
No time for hate
No drama
No time for games
Tough girl
Whose soul aches
I'm at home
On my own
Check my phone
Nothing, though
Act busy
Order in
Pay TV
It's agony
I may cry, ruining my makeup
Wash away all the things you've taken
I don't care if I don't look pretty
Big girls cry when their hearts are breaking
Big girls cry when their hearts are breaking
Big girls cry when their hearts are breaking
Tough girl
I'm in pain
It's lonely at the top
Blackouts and airplanes
I still pour you a glass of champagne
Tough girl
Whose soul aches
I'm at home
On my own
Check my phone
Nothing, though
Act busy
Order in
Pay TV
It's agony
I may cry, ruining my makeup
Wash away all the things you've taken
I don't care if I don't look pretty
Big girls cry when their hearts are breaking
Big girls cry when their hearts are breaking
Big girls cry when their hearts are breaking
I wake up, I wake up, I wake up, I wake up
I wake up, I wake up, I wake up, I wake up
I wake up, I wake up, I wake up, I wake up
I wake up, I wake up alone
O celular de Sam começou a tocar no meio da apresentação, por sorte, ela foi rápida o suficiente para pegá-lo e cancelar a ligação, no entanto, novamente tocou e novamente ela desligou. Na terceira tentativa, Maggie parecia que ia explodir, apesar de não ter parado um instante se quer de cantar.
— Atende, logo, é melhor. – Sussurrei, olhando para atrás.
A Sra. Underwood estava com uma expressão nada feliz.
Sam seguiu o meu conselho e correu para fora da sala e foi atende-lo, a observei pelo vidro da porta, ela parecia concentrada na ligação, em um momento começou a chorar.
I may cry, ruining my makeup
Wash away all the things you've taken
I don't care if I don't look pretty
Big girls cry when their hearts are breaking
Big girls cry when their hearts are breaking
Big girls cry when their hearts are breaking
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