Tempestuoso
24 Cante Para Eu Dormi
Notas iniciais
Cante Para Eu Dormir
O fato que mais marcara a minha vida tinha sido a morte da minha mãe, toda a situação que me moldara como ser humano que eu era até naquele momento, meus traumas e minha vivencia tinham sido decorrentes disso. Tudo que eu fazia de certa forma tendia a me levar sempre para aquele momento, mas existem situações em especial que era como catalizadores para aquelas lembranças, percas ou momentos de crise em especial. Quando Beth falou: “Sam foi levada para o hospital, ela teve uma parada”, eu simplesmente desliguei.
Parecia que eu tinha cinco anos novamente, estava à deriva com o corpo semimorto da minha mãe enquanto olhava para o céu esperando por um milagre acontecer, a sensação da água do meu corpo era um misto nojo e angustia, como se estivesse nadando em ácido misturado com esgoto. Eu me agarrava ao corpo da minha mãe, era a única coisa que tinha, além do pedaço de madeira que ela segurava que nos ajudava a boiar em conjunto com os coletes salva-vidas.
— Acorda mamãe, está perdendo as estrelas.
Tinha virado o nosso ritual desde que naufragamos, olhar para as estrelas, era uma forma que ela tinha encontrado de me distrair.
— Mamãe! Mamãe
Ela apoiava a cabeça na madeira, eu a sacodia, mas ela não esboçava reação, já faziam horas que estava desse jeito, tinha pensado que ela só estava se protegendo do sol, porém, não tinha mais sol.
— BLAKE!
O grito de alguém me fez voltar a consciência, a cena era a mesma no meu quarto, Beth, Maggie e Yerik me encaravam.
— O que? – Minha voz saiu engasgada da minha garganta, na minha cabeça era como se Beth tivesse acabado de dizer. – Não, não, não!
— O que você teve? – Maggie perguntou.
— O que? – Yerik.
— Aonde está Sam? – Demorei para perceber que eu chorava. – O que aconteceu com ela?
— Blake, calma. – Maggie me encarou preocupada, sentando-se na minha cama. – Sam acordou com falta de ar, não conseguindo respirar...
— Ela está bem? – A interrompi para perguntar a Beth.
A ruiva estava parada em canto chorando, o cabelo emaranhado e as roupas indicavam que ela estava dormindo e viera direto ao meu quarto.
— Deixa eu terminar de falar. – Maggie que respondeu. – Não sabemos. – Sua voz soava tremula, percebi que estava se esforçando para parecer controlada. – Olivie viu que a Sam estava passando mal e chamou alguém na enfermaria, que chamou a ambulância e a levaram. Não sabemos de mais nada. – Na última frase, não conseguiu se controlar e deixou uma lagrimar cair.
— Ela vai morrer?! – Gritei.
— Céus! Não diga isso.
— Ela pode morrer?
— Não sei, Blake, sinto muito não sei. – Mais lágrimas caíram pelos olhos da minha amiga. – Você sabe, a responsável por ela está internada, então o St’Agnes assumiu a responsabilidade por ela, não são exatamente as pessoas mais comunicativas do mundo.
— Meu pai. Tenho que falar com meu pai, ele está cuidando de Emily, ela vai cuidar também de Sam.
Procurei por meu celular por todo quarto, até encontra-lo no lugar mais obvio que era minha mesinha de cabeceira. Disquei o número do meu pai e esperei ser atendido.
“Blake, já estou cuidando de Sam, fique calmo, logo te ligarei. ”
Ele não deixou eu nem ao menos falar, falou o que tinha que falar e desligou.
— Ele está cuidando dela. – Informei a todos, me sentando no chão.
Ficamos em silêncio por um tempo, de cinco em cinco minutos eu olhava para o telefone na esperança da ligação do meu pai falando que ela está bem e que tudo não passara de um susto. O tempo se arrastava, Beth e Maggie preferiram ficar no meu quarto e esperar por notícias pelo meu pai do que voltar para seus dormitórios, se acomodando na cama de Yerik que lhes tinha oferecido. O búlgaro sentou-se ao meu lado e me abraçou, em uma situação normal, o evitaria, mas dado o momento o seu toque parecia uma das melhores coisas que aconteciam, me acomodei no seu peito e esperei por exatas três horas até meu pai ligar.
Pai: “ Blake, ela está bem. Passou por uma cirurgia, está se recuperando no quarto. ”
Blake: “ Ela está realmente bem? ”
Pai: “ Você está chorando? Pare, homem não chora.
Blake: “ Estou tentando, me desculpe Pai. Mas o que aconteceu com ela? “
Pai: “Ela ainda está sendo diagnosticada, ainda não me informaram ao certo. Apenas, fique calmo e continue estudando que vai ficar tudo bem com ela. “
Blake: “ Mas ela está fora de perigo? Quando que vou poder vê-la e Emil? “
Pai: “Tudo no seu devido tempo, Blake, tudo no seu devido tempo. Te ligarei quando tiver mais detalhes sobre visitas e o estado mais detalhado dela. Mas enquanto isso, por favor, se controle e aja como o homem de fibra que eu lhe ensinei ser. “
Blake: “ Sim, senhor. “
Novamente, sem cerimonias ele desligou.
— Como ela está? – Maggie perguntou.
— Viva a respondi.
Todos presentes suspiraram aliviados, percebi Beth fazer alguns gestos e falar algumas coisas incompreensíveis para mim, em forma de agradecimento ao que ela acreditava ser Deus.
— Seu pai falou mais alguma coisa? – Yerik perguntou.
— Não, ele não sabe de muita coisa...
— Eles devem ter prestado os primeiros socorros emergenciais e vão fazer mais exames para ver o estado dela. – Maggie falou.
Concordei com a cabeça.
Olhei para janela e o dia estava quase clareando, tinha pouco mais de uma hora antes do toque de acordar.
— Acho melhor voltarmos para a nossa ala, se não, seremos suspensas. – Maggie voltou a falar.
Beth concordou.
— Nos informe sobre tudo que ficar sabendo por mensagem. – Ela falou.
— Claro. – Concordei.
— Querem ajuda para voltar? – Yerik se ofereceu.
— Não, se a gente se encrencar, se encrenca sozinha. – Beth respondeu antes de dar tchau e sair sorrateiramente com Maggie.
Yerik e eu ficamos sem nos falar, eu olhava para o nada enquanto o sentia me observar, ainda estávamos abraçados.
— Quer tentar dormir um pouco, acho que vai ser um longo dia.
Concordei com a cabeça, me levantando do chão e me acomodando na cama. Antes que Yerik se afastasse, por impulso e por toda sensação boa que o seu abraço tinha me causado, segurei sua mão. Não precisei falar nada, ele entendeu, deitou-se ao meu lado e voltar a me abraçar. Sei que eu me arrependeria por ter feito aquilo, dentro de mim eu já me julgava e fazia uma briga de argumentos e contra-argumentos sobre aquilo ser errado ou não, porém eu precisava do apoio dele.
Adormeci com ele fazendo carinho nos meus cabelos, porém logo acordei com o barulho do alarme indicando o começo do dia, agimos o restante do dia como se nada tivesse acontecido.
No St’Agnes tudo parecia completamente normal, mas era um dia completamente normal para todo mundo, exceto para quem se importava com Sam e sabia o que tinha acontecido. Por ser Olivie a socorre-la, pensei que todo mundo estaria comentando, porém não ouvi nada o dia todo. Olhava a tela do celular a cada dez minutos na expectativa do contato com o meu pai, porém nada de sinal.
— Ela está bem? – Foi a primeira coisa que Olivie me perguntou quando me viu no corredor entre as aulas.
— Está em recuperação, não sei o estado dela.
— Foi horrível. – Confessou. – Ela parecia que ir morrer, agonizando na cama.
— Por favor, detalhes não.
— Me desculpe. – Ela começou a chorar. – Me sinto tão idiota, por não falar com ela durante todos esses anos.
Toda aquela reação dela naquele momento me pegou desprevenido, fiquei sem reação.
— Às vezes acabamos agindo como tolos por nada.
— Verdade, me informe quando souber mais notícias sobre ela, estou tão preocupada.
Eu não sabia se aquela preocupação era genuína, não soava e nem parecia, mas preferia acreditar que sim, pois ela não tinha motivo para tal.
— Claro. – Lhe respondi.
— Até mais, preciso ir para aula.
E da mesma forma que apareceu do nada, foi-se embora.
— O que aconteceu para a estrelinha do coral estar tão empenhada na dramatização? — Alex apareceu atrás de mim, me assustando.
Alex era um grande amigo, eu tinha me segurado toda a parte da manhã, por causa do meu pai caso ligasse, mas vê-lo me fez perder o controle. Comecei a chorar de soluçar, algumas pessoas que passavam por perto olharam assustada, mas não fizeram nada.
— Ei, ei, ei. O que aconteceu? – Alex me puxou arrastando para um corredor mais deserto, sem o olhar alheio.
— Sam? – Chorava soluçando.
— Ela te fez algo? – Ele pareceu irritado.
— Não. — Balancei a cabeça.
— Ela está internada, quase morreu ontem.
— O que? É sério. – Balancei a cabeça concordando. – E você está bem?
— Não. Estou me controlando porque meu pai pediu, ele que está com ela, ele não gosta de me ver chorar, acha que me faz fraco.
— Ele está certo. Mas como aconteceu isso e quando?
— Ontem de madrugada, não dormi nada, Beth e Maggie vieram me contar correndo. Eu não sei quase nada sobre o que aconteceu. Eu me sinto culpado.
— Por que? – Ele arqueou a sobrancelha.
— Eu desconfiava que ela tinha parado de tomar os remédios do HIV, acho que é por isso que ela está assim.
— Isso é sério.
— Eu sei, eu me sinto horrível por causa disso. Poderia ter falado com ela antes e ter evitado tudo.
— Não fique assim, foi uma opção dela, sabia dos riscos.
— Eu não sei...- Limpei meu rosto, fungando.
— Sinto muito. – Ele pegou minha mão. – Se precisar de alguma coisa, pode contar comigo. – Ele me encarou, os olhos acinzentados estavam inexpressivos como sempre.
— Obrigado. – O abracei.
Foi um abraço rápido, pois tínhamos aula de redação logo em seguida. Como sempre, a aula do professor de redação foi carregada de deboche e provocações, esse era o estilo dele. Tomei o cuidado de sentar o mais afastado possível, para não ficar na sua mira.
Meu pai não me ligou, ele ligou para Vick como sempre fazia, pois ela tinha mais paciência para lidar com essas situações comigo. Eu estava sentado em uma escada isolada na área esportiva quando ela me encontrou, eu estava matando o tempo enquanto esperava o horário do jantar.
— Sabia que você iria estar evitando o mundo, é seu muro de proteção, você sempre faz isso. – Falou, se sentando ao meu lado.
— Por que esse tipo de coisa sempre acontece com a gente? Parece que sempre estamos perdendo alguém, mamãe, Emily e agora Sam... – Suspirei.
— Bom, só a mamãe que realmente morreu. – Ela me abraçou. – Elas ainda têm uma chance e não é o tipo de coisa que realmente temos o controle, elas simplesmente acontecem.
— Mas, eu sinto que as vezes podemos tentar evita-las. Eu sabia que a Sam estava mal e não fiz nada por muito tempo, até ser tarde demais...
— Sam sabe dos riscos, é culpa dela.
Fiquei em silêncio.
— Papai ligou, ele falou que a Samantha acordou da cirurgia, mas ainda está muito mal. Ela está no mesmo hospital que o da Emily, ele vai vir te buscar amanhã depois do almoço, já pediu sua dispensa das aulas da tarde.
— Queria que ele me ligasse e falasse tudo isso e não mandasse recado por você.
— Você sabe que ele não consegue lidar com sentimentalismo, ele é advogado, foi programado para ser frio.
— Mas eu sou filho dele.
— Mesmo assim... – Suspirei.
— Vamos jantar, vem. – Ela se levantou e me levou para o refeitório.
—x-
Ao todo na minha vida, até que fiz visitas frequentes a hospitais, fiquei por um tempo após regaste no mar me recuperando e depois para tratar meu sobrepeso e estresse pôs traumático, porém nenhuma dessas vezes tinha sido para visitar alguém doente. Como prometido, meu pai me buscou perto do horário do almoço do outro dia na entrada do St’Agnes, depois de já ter liberado minha saída previamente.
A escola era relativamente longe do hospital que Sam estava, que era em uma outra cidade maior que a nossa, por isso, foi um longo período sem muitos diálogos com o meu pai. Parecia que eu ter começado a estudar fora de casa nos distanciara, não que fossemos muito próximos antes, mas agora parecia ter todo um polo norte entre a gente.
— Como está a escola? – Ele me perguntou.
— Bem. – Lhe respondi, já fazia uns vinte minutos que tínhamos saído do St’Agnes. – Passamos para as Nacionais recentemente com o Coral, vai ser em Orlando.
— Legal, tem que aproveitar seu tempo na escola com essas bobagens porque depois da faculdade precisa estar cem por cento focado no seu futuro e carreira.
— Claro. – Concordei.
— E sua irmã?
— Acho que ela está bem também, não costumamos ficar muito juntos...
— Grupo de meninas, entendo. – Ele me interrompeu. – Elas são sempre barulhentas quando estão juntas, coisas de garotas mesmo, só dá para se aproximar quando se está interessado em alguma, não pega bem ficar no meio das garotas. Só existe um tipo de garoto que faz isso sem ter segundas intenções, os gays.
Essa última frase me deixou completamente desconfortável, não só pelo fato de eu pertencer a um grupo exclusivamente feminino, mas também por estar recentemente questionando minha sexualidade. Não queria nem imaginar qual seria sua reação se soubesse de tudo isso e se soubesse do que já tinha feito com outros garotos e nada com uma garota.
— Sim. – Concordei cabisbaixo.
— Mas como irmão, é sempre bom você ficar de olho nela em relação a garotos e os problemas que eles podem causar a ela.
Não acho que um dia a Vick fosse precisar de mim para lidar com um garoto, ela era autossuficiente para isso, porém sua fala novamente me fez ficar pensativo. Ele em nada sabia sobre o que ela tinha passado e sobre o aborto, novamente me questionei sobre qual seria sua reação se soubesse.
— Tenho uma boa notícia, Emily acordou, você vai poder visita-la também. – Falou.
— Sério? – Falei animado.
— Sim, mas ela está meio lenta então vai devagar, o mesmo vale para a Samantha. O estado dela é delicado, ela está com uma séria pneumonia, um começo de tuberculose e com a imunidade baixíssima. Todo o cuidado é pouco.
— Entendi.
— No hospital, eles iram te orientar melhor sobre como ter contato com elas.
Voltamos a ficar calados por meia hora até chegarmos ao hospital.
— Papai? – O chamei quando terminou de estacionar. — Emily sabe do estado de Sam?
Ele ficou pensativo.
— Não e acho melhor ela não ficar sabendo por enquanto, uma notícia dessa pode abalar ainda mais a saúde dela.
Concordei em silencio, eu não tinha certeza se concordava com aquilo, achava que Emily deveria saber do estado da neta, mas ao mesmo tempo concordava com os cuidados devido a sua debilidade.
Antes de sairmos do carro me lembrei de fazer uma coisa. Por impulso, abracei o meu pai, lhe agradecendo por cuidar das duas.
— Vamos Blake. – Ele dizia me dando tapinhas nos ombros. – Você tem que as ver.
Desfiz o trabalho e seguimos para o hospital. Eu já estava acostumado com a sua insensibilidade desfaçada, ele era assim, poderia não gostar de carinho explicito, mas demonstrava de outras formas seus sentimentos, como cuidado de todo tratamento de Emily e Sam ou quando chorava escondido, e eu via, no seu escritório, com saudades da mamãe. Ele só não gostava de demonstração de sentimentos.
No hospital, recebi orientações dos enfermeiros sobre como me portar com Sam e Emily, visitaria a primeira e teria que usar luvas e máscara de proteção para evitar ao máximo infecções. No caso de Emily, era menos rígido, só tinha que ter paciência e evitar estressa-la.
Cada uma tinha um quarto, era um do lado do outro. Entre no de Sam, ela estava pior de que eu me lembrava estar, cheia de fios e tubos, percebi que tinha a respiração controlada por um aparelho. De imediato ela não pareceu me reconhecer, mas após um tempo sorriu.
— Você pode me perdoar. – Foi a primeira coisa que ela falou quando me aproximei da sua cama.
— O que? – Meus olhos já estavam marejados, já quebrara a promessa que tinha feito para mim mesmo. – Não tenho o que te perdoar, não tem nada.
— Tenho sim. – Sua voz era tão fraca, que deixava nítida sua dependência dos aparelhos respiratórios. – Eu prometi que eu voltaria a tomar meus remédios e seguiria com a minha vida para a Califórnia.
— A gente não tem como controlar o nosso destino. – Fiz um carinho no seu rosto.
— Mas fazemos escolhas que determina ele.
— Sim, mas você vai se recuperar. – Segurei a sua mão com força, quase não dava para sentir seu aperto por causa da fraqueza.
— Eu não quero morrer. – Ela deixou as lágrimas escorrerem. – Mas eu sinto que eu estou.
Após ela dizer isso, não me controlei e as lagrimas simplesmente caíram como uma tempestade de sentimentos, me esforcei para chorar em silencio, abri a boca para evitar soluçar.
— Você não está morrendo. – Falei com a voz embargada. – Apenas está mal, mas vai se recuperar a tempo de começar ainda esse semestre a facul...
Ela balançou a cabeça discordando.
— Eu não vou. – Sorriu fraco. – Eu sei que não vou.
— Você vai sim. – Apertei sua mão. – Você tem que pensar positivo, se não atrai coisa ruim, como a Beth diria.
— Está certo, eu vou tentar. – Ela voltou a sorrir. – Aonde estão elas?
— Liberaram apenas a visita de familiares e como meu pai assumiu a sua responsabilidade, agora somos como irmãos.
Ela sorriu.
— Sempre soube que você era meu irmão mais novo. – Ela tossiu. – Eu sou a irmã mais velha boa e a Vick a má.
Eu ri.
— Eu sempre te considerei minha irmã.
— Você sabe quando poderei receber mais visitas?
— Papai falou que em breve, só precisamos que você fique mais forte
— Gostaria de me despedir das pessoas que amo.
— Não fale assim.
— Me desculpe.
— O pessoal do coral vai quer te ver.
— Pensei que só meia dúzia gostasse de mim.
— Acha que vai ver que está bem enganada.
— Acredito. – Ela soou sarcástica.
— Olivie está bem preocupada com você.
— Aposto que me ver agonizando deve ter pesado na consciência.
— Isso soou cruel, até mesmo para quem está no seu lugar.
— Me desculpe, novamente. – Ela tossiu.
— Harry também, aposto que deve estar mal.
— Ainda não acredito que ele está apaixonado por mim, gostaria que fosse recíproco, mas não é.
— Não mandamos no coração.
— Sim. – Ela concordou tossindo.
— Você está se esforçando muito, não quer parar e descansar um pouco.
A tosse denunciou o momento de parar, eu não queria força-la mais que o seu corpo doente aguentava. Ela concordou com a cabeça e relaxou na cama.
Eu estava saindo do quarto dela, quando falou comigo.
— Minha vó sabe de mim? – Neguei com a cabeça. – É melhor assim. – Falou antes de fechar os olhos.
Ver Sam naquele estado era como segurar uma rosa, me machucava ver sua debilidade, mas também me dava esperança para a sua recuperação.
A próxima parada era o quarto de Emily, aproveite para me livrar das luvas e da máscara, quando cheguei ela olhava pela janela, vendo algo que não era visível para mim. Seu estado parecia melhor que o de Sam, os cabelos brancos estavam soltos e seu cheiro de canela envolvia o ambiente, trazia-me uma sensação de acolhimento e aconchego.
— Emily. – A chamei, batendo na porta.
— Oi meu menino. – Ela falou assim que me viu estendendo os braços para um abraço.
Não pode evitar de correr para aperta-la.
— Senti sua falta. – Falei com meus olhos enchendo de lágrimas.
— Te preocupei foi? Não deveria se preocupar tanto com uma velha enrugada como eu. – Falou secando as minhas lagrimas após nos separarmos. – Senti sua falta também, meu querido, não chore.
Encarei aqueles doces olhos castanhos buscando o amor que me acolhera durante todos esses anos.
— Como você se sente? – Sentei na ponta da sua cama.
— Cansada. – Confessou sorrindo. – Mas a gente chega nessa idade e qualquer coisa deixa a gente cansada.
Eu ri.
— Mas você não está fazendo nada, está lutando contra um câncer.
— Verdade. Só um tumor mesmo para me fazer parar, queria era estar pelo menos cozinhando, a comida desse lugar não chega aos pés da minha.
— A comida é tão ruim assim?
— Não, mas estou acostumada com um nível de qualidade. – Gargalhou. – Mas e você, está bem? Parece estar escondendo alguma coisa.
Emily me lia como ninguém, nada sobre mim passava por ela, se eu comesse alguma coisa antes do jantar ela saberia, me conhecia como ninguém. Me deitei ao seu lado e me aconcheguei ao seu lado, tentando pensar em uma resposta que a convencesse.
— Eu estou bem, mais adaptado ao St’Agnes, com amigos e me dando bem com a Vick. Só me preocupo com meu pai...
— Como assim? – Ela pareceu interessada na desculpa que eu dava.
— Ele está enxergando um futuro para mim que não é exatamente o mesmo que estou imaginando.
— Qual futuro que você está imaginando?
— Eu gostaria de ser ator e quem sabe Broadway. – Falei sorrindo.
— Um futuro bem incerto, você sabe que seu pai não está errado de querer que você tenha uma carreira estável. Ele só quer o seu melhor.
Emily assim como meu pai eram bem conservadores nos seus pensamentos.
— Eu sei... Mas sei lá. – Suspirei.
Ela riu.
— Está tudo bem. – Acariciou meus cabelos. – Você está na idade de sonhar. Já contou desse seu desejo para o seu pai?
— Não. – Ri de nervoso. – A senhora sabe como ele é...
— Sei...
Ficamos por um tempo quietinhos, enquanto ela me afagava.
— Blake, onde está Samantha? – Emily me pegou totalmente desprevenido.
Tive que pensar rápido.
— Ela teve que ficar estudando. – Menti.
— E não pode me visitar? – Ela pareceu estar sentida.
— Não, não, não é isso. – Gaguejei. – É que ela passou na faculdade, com bolsa, precisa estudar para passar com a média alta para manter a bolsa.
— Ela passou na faculdade? – Pareceu encantada.
— Passou. – Afirmei com a cabeça.
— Aí, minha menina, sempre muito esforçada. – Seus olhos marejaram. – Sabia que ela conseguiria, as coisas sempre foram tão difíceis para ela, sempre teve que se esforçar muito, mas sempre conseguia. – Fungou.
— Ela não te ligou para contar porque queria contar pessoalmente.
— E porque você me contou? Estragou a surpresa. – Ela riu.
— Eu não queria que a senhora pensasse mal de sua neta. – Sorri.
Se por fora eu era pura felicidade, por dentro estava morrendo por mentir tão deslavadamente para ela, era desumano enganá-la desse jeito, mas precisava ser feito pela sua saúde, me culparia agora, mas depois que ela estivesse bem, saberia que valera a pena.
Permaneci com Emily por mais alguns minutos até meu pai aparecer e me levar de volta ao St’Agnes.
—x-
— Como ela está? – Olivie me perguntou.
Estávamos jantando, ela estava sentada com Beth e Sam na mesa ao lado a minha, regras de segregação de meninos e meninas, e desesperada para saber sobre o estado de saúde de Sam. Àquela altura, toda a escola já estava sabendo de sua internação, graças a Olivie, então tudo mundo só sabia comentar sobre isso. As outras duas meninas estavam nitidamente incomodadas com a aproximação da nipo-americana.
Me fazendo companhia na mesa dos “garotos” estavam Yerik e Harry, o primeiro de alguma forma não se importou de ser visto comigo e o segundo estava desesperado por informações sobre a minha amiga.
— Ela está okay, eu acho. Meu pai não contou muito do estado de saúde dela, mas eu pude conversar com ela, ela está com a respiração ruim.
— Coitadinha, eu me sinto tão mal por ter sido uma megera com ela todo esse tempo.
— Seria mais sincero se ela não precisasse morrer para você dizer isso. – Harry falou surpreendendo a todos.
Olivie ficou sem palavras, assim como Beth e eu, Yerik e Maggie riram.
— A gente era amigas no passado. – Ela o respondeu irritado.
— Em um passado distante. Mas Blake, o que você acha? – Harry voltou-se a mim. – Você acha que ela está bem.
— Eu acredito que ela vai ficar e acredito que Deus opera milagres. – Lhe respondi com sinceridade.
— Ela não merecia isso. – Seus olhos acinzentados marejaram. – Não merecia. – Repetiu.
— Emily não sabe sobre do estado dela? – Beth perguntou.
— Não, não sabe. – Lhe respondi.
— Imaginei que seria assim.
Maggie, Beth, Harry e Olivie passaram o restante da noite me interrogando sobre as mínimas informações possíveis que poderia ter tirado daquela visita e do estado da saúde de Sam.
— Quando que ela poderá receber visitas?
— Não sei.
— Mas se você não sabe, como que conseguiu visitá-la?
— Sou como se fosse da família, meu pai é o responsável por ela.
Esses foram os exemplos de perguntas que tive que responder para eles. Percebi também que do outro lado do refeitório, uma outra pessoa também parecia ser bastante solicitada. Vick contava sobre o estado de Sam para uma plateia, isso me irritou, ela enchia a boca para falar sobre o quanto nosso pai era caridoso em ajudar Sam e a sua avó, isso me irritou completamente. Ela até poderia estar certa sobre a generosidade de nosso pai, que nem era tanta coisa pois fazia um favor a uma pessoa que o ajudara no pior momento da sua vida, mas era extremamente errado de várias formas usar da doença de alguém como uma plataforma para se promover e era aquilo que minha adorável irmã estava fazendo.
Não sei o que deu em mim, quando tento lembrar desse momento ele parece acontecer muito rápido.
Ignorando o grupo que eu estava, me levantei, encarando o meu objetivo: Vick.
— QUAL O SEU PROBLEMA? – Gritei para ela na frente de todo mundo.
— O que? – Ela pareceu não entender a minha atitude ou estava surpresa demais com ela.
— QUAL É O SEU PROBLEMA? ISSO QUE EU QUERO SABER. – Repeti.
— Não estou te entendo, Blake. – Ela arqueou uma sobrancelha.
— O QUE VOCÊ NÃO ESTÁ ENTENDENDO? – Eu ri. – COMO ALGUÉM PODE SER TÃO MESQUINHO E BAIXO A ESSE PONTO VICK? — Ela ficou boquiaberta. – DE TODAS AS COISA IDIOTAS QUE VOCÊ FEZ, DESSA FEZ VOCÊ SE SUPEROU, USAR DO ESTADO DA SAM E DA EMILY PARA SE PROMOVER, ISSO É HORRIVEL.
Eu estava completamente fora de mim, acho que de certa forma descontava uma certa irritação crescente do mundo nela e naquele momento, era o meu momento de explosão.
— O que está dizendo, Blake?! – Ela pareceu se alterar. – Como ousa, não sabe...
— NÃO SEI?! – Eu ri. – EU TE CONHEÇO A QUINZE ANOS E SEI COMO VOCÊ É E DO QUE É CAPAZ. – A interrompi.
— EU NÃO ESTOU...
— ESTÁ SIM, NÃO SE FAÇA DE BOBA. – Lágrimas começaram a cair, percebi que chorava quando ficava muito nervoso. – EU ESTAVA TE OUVINDO E...
— Eu não estou acreditando que está falando tudo isso para mim. – Ela riu, era debochada, percebeu que eu estava descontrolado, não ia cair no meu jogo, ela que iria ditar as regras.
Antes que eu pudesse dizer mais coisas senti uma mão no meu braço e fui arrastado para fora do refeitório.
— O QUE VOCÊ ESTÁ FAZENDO? – Gritei com a pessoa que me arrastava. –
— Evitando que você passe do limite e se arrependa depois. Me preocupo com você, Bleika. — Yerik me respondeu sério.
Bufei e sai batendo o pé até o dormitório, ele me seguia. Conforme eu andava e adrenalina ia embora, o medo e a vergonha iam chegando. Quando finalmente cheguei no quarto, desabei a chorar na cama, chorei como uma criança de cinco anos.
Yerik se sentou na minha cama e ficou fazendo carinho nas costas.
— O que eu estou fazendo? – Falei com a voz abafada no travesseiro.
— Extravasando. – Ele me respondeu. – Isso é bom, você geralmente é muito contido.
O virei e o encarei, ele sorria, parecia se divertir com o meu desespero, os caninos pressionando os lábios era o seu charme especial.
— Não é engraçado.
— É engraçado sim, você gritar com a sua голяма сестра.
— O quê?
— Sua irmã mais velha.
— Não é só isso.
— O que mais?
— Nada. – Falei me levantando da cama e indo para o banheiro.
Ele me seguiu, fui escovar os dentes, ele fez o mesmo.
— Me conta. – Falou com a boca cheia de espuma.
Não lhe respondi imediatamente, escovei e limpei a boca antes.
— Não, você prefere achar engraçado, que fique por assim mesmo.
Fui até o armário de roupas e coloquei o pijama, ele fez o mesmo.
— Por favor, fale. Já te falei, me preocupo com você. – Tocou na minha cama quando lhe dei as costas.
Seu olhar pidão e o toque me convenceram a falar.
— Duas das pessoas mais importantes do mundo para mim estão morrendo e eu simplesmente não posso fazer nada, estou apavorado com ideia de perde-las, mas nem posso pensar nisso, porque é um pensamento ruim e pensamentos ruins atraem situações ruins. Tenho que me manter forte e positivo, mas está difícil. Eu não paro de mentir para as pessoas e eu detesto mentir. – Falei de uma vez só atrapalhado.
— ни! – Exclamou em búlgaro. – Não duvido agora porque surtou.
— E agora tem isso também. – Me livrei do seu toque e me deitei na minha cama. – Mas você só acha tudo isso engraçado.
— Me desculpe. – Falou com sotaque marcado, se agachando para me olhar nos olhos. – Mas é como eu te falei, você é tão contido que ver você gritando com a sua irmã no meio do refeitório, foi surpreendente.
— Vick vai me matar.
Ele riu.
— Não acho engraçado o que você está passando, mas você gritando com ela. – Ele completou. – Não lhe respondi. – Vou me deitar. – Avisou.
Novamente, antes que ele se afastasse segurei sua mão, ele me encarou e entendeu novamente o que eu pedia, deitou na minha cama e me abraço, não de maneira sexual, mas de modo fraternal.
— Vou acabar me acostumando. – Falou fechando os olhos. – É bom dormir perto de você.
— Me desculpe.
— Não, está tudo bem, se isso te faz se sentir melhor posso ficar dormindo com você.
— Obrigado.
Ele não me respondeu, apenas sorriu e beijou a minha testa. Da última vez que dormira com ele, eu tinha sentido uma sensação tão boa e naquele momento minha cabeça estava em tão caos que precisa repetir aquela sensação novamente, quis acreditar que não a repetiria novamente, mas estava enganado.
—x-
— Ela me mandou uma mensagem falando que está se sentimento cada vez melhor. – Beth falou para mim e para o grupo que agora nos acompanhava: Jessie, Abi, Charli, Harry e Olivie.
A internação e o susto que Sam dera, causou um efeito muito inusitado nessas pessoas, elas simplesmente se aproximaram de nós em busca de informações sobre o estado dela e passaram a nos acompanhar e todas horas livres comuns. Maggie dizia que era culpa pelo modo que a trataram durante todos aqueles anos e principalmente pelos últimos meses, eu e Beth preferíamos acreditar que as pessoas tinham se aproximado mais pela preocupação, do que por qualquer outra coisa como sentimento de culpa.
— Você acha que ela vai receber alta em breve? – Olivie perguntou.
Maggie revirava os olhos toda vez que a outra falava qualquer coisa.
— Eu sinceramente não sei. – Beth lhe respondeu.
— Acho que poderemos fazer uma visita em breve. – Falei, fazendo-os esboçar fracos sorrisos.
Já tinha se passado um mês desde que Sam fora internada, seu quadro parecia melhorar assim como o de Emily, isso me fazia me sentir esperançoso. Também fazia exatamente um mês que eu não falava diretamente com Vick, ela me repassava informações do papai por mensagem, mas nada além disso. Ela não me evitava, eu que fazia isso, tinha me decepcionado demais com a sua atitude no refeitório e estava lhe dando um gelo e como para ela não parecia fazer diferença a minha indiferença, mantinha a sua rotina normal sem mim.
Outra pessoa que se afastara tinha sido Alex, ele não gostava muito de pessoas e agora que parecia que estava sempre cercado por um grupo, isso parecia afastá-lo de mim, sentia sua falta. Em contrapartida, Yerik tinha se aproximado ainda mais de mim, ele fazia questão de estar comigo sempre, eu não sabia se era porque agora não era ruim ser visto comigo ou se era porque queria mesmo. Dormíamos todas noites juntos, eu agradecia mentalmente todos por não fazer piadas sobre aquilo ou por tentar ir além daquilo.
— Seria ótimo, acho que isso poderia ajudar ela a ficar mais alto-astral, imagino, é o tipo de coisa que eu iria querer. – Abigail comentou.
Acho que ela não poderia estar mais enganada, durante aquele mês, eu visitei Sam e Emily mais três vezes e ela era incisiva em não receber visitas além da minha, isso incomodara bastante Maggie e Beth. Estava ficando cada vez mais difícil mentir sobre Sam para Emily, eu usava sempre a mesma justificativa de estudo e faculdade, mas era torturante para mim mentir.
— Vou ver com ela e com o hospital se vai ser possível, talvez esse final de semana.
— Legal, ela respondeu.
— Legal é seu pai pagar a conta dela. – Harry comentou, ele se tornara um pouco mais falante que o normal. – Muito legal mesmo.
— Emily é como se fosse minha mãe e Sam minha irmã, ambas também são muito importantes para ele. – Comentei.
— Eu ainda acho muito estranho a avó dela ter te criado e somente aqui você encontrar ela. – Charli comentou, ela costumava ter uns comentários duvidosos, eu achava que era intencional devido ao que eu sabia sobre ela e sua culpa na depredação da ala masculina.
— Eu também acho. – Lhe respondi.
Estávamos nos dirigindo para a sala do coral, faltavam apenas uma semana para as nacionais e o final do ano letivo, nossa situação de ir ou não para as nacionais sem a Sam estava deixando o grupo conflituoso.
— Boa tarde pessoal. – A Sra. Underwood nos cumprimentou.
— Aí não me acostumei com o senhor popularidade. – Yerik sussurrou no meu ouvido, estava sentado ao meu lado e tinha me visto chegar em grupo.
— Eu não sou popular, as pessoas só querem saber de Sam e meu...
— Seu pai é quem envia notícias. Você já repetiu isso, acho que mil vezes. – Ele riu, caçoava sempre de mim com isso.
— E você também já falou isso, umas mil vezes e nenhuma teve graça. – Eu não gostava que ele disse isso, me fazia lembrar de Vick, quem realmente estava usando isso como plataforma.
— Como vocês sabem, estamos a poucos dias das nacionais e gostaria de fazer uma pergunta a todos, vocês querem seguir para as nacionais sem a Samantha? Ela era parte integral do coral dos últimos quatros, vão querer mesmo seguir sem ela? – A Sra. Underwood falou.
A pergunta pegou todo mundo desprevenido, todos ficaram em silencio, só era possível ouvir as respirações dos presentes. Ninguém parecia ter coragem para dizer nada, por mais que por dentro muitos não se importassem com esse questionamento.
— Não acho justo a gente decidir isso. – Marc foi o primeiro a falar, ele sempre assumia esse aspecto de líder do grupo.
— Não acha? Vocês são um time, precisam decidir como um time como prosseguir sem um membro. – A professora continuo falando. – Me encontro nesse impasse moral e se poderemos seguir depois que tomarmos essa decisão.
Novamente todos ficaram calados, era um silencio carregado de tensão e constrangimento.
— Por mim, seguiríamos. Não quero soar como uma completa vadia sem coração, mas o show tem que continuar. – Camille não se aguentou.
— Não acho que Sam, se incomodaria se fossemos sem ela. – Maggie falou, naquele momento, eu não sabia se ela falava com sinceridade ou se era apenas a sua necessidade de brilhar gritando.
Por mais que eu adorasse me apresentar e do coral, não acho que seria o mesmo as nacionais sem Sam, por mim, não iriamos sem ela, mesmo que isso significasse nossa desclassificação. Acho que a consideração pela minha amiga valia mais que qualquer título.
— O que acha, Blake? – Camille se dirigiu a mim. – Você é quem está acompanhando o caso dela, o que acha que decidiria se estivesse aqui?
De repente todos olhavam para mim, como se eu tivesse a resposta definitiva para os problemas de todo mundo.
— Não sei. – Balancei a cabeça com convicção. – Acho que seria melhor perguntar para ela.
— Boa ideia. – A Sra. Underwood falou. – Mas antes, eu gostaria de saber o posicionamento de vocês. — Naquele momento entendi o que ela estava fazendo, ela estava nos testando, querendo entender o senso ético de cada um. – Quem é a favor de continuarmos levante a mão. –
Apenas Harry, Yerik, Beth e Eu não levantamos a mão, a maioria concordava em continuar sem Sam.
— Interessante. – Voltou a comentar. – Agora Blake, Sam está em condições de receber ligações? – Perguntou.
Devida a melhora de Sam nos últimos dias, sua respiração tinha melhorada consideravelmente e consequentemente o seu folego, não vi problema em trocar meia dúzia de palavras com ela.
— Acho que sim.
— Poderia ligar para ela?
Peguei meu celular, disquei o número de Sam e entreguei o aparelho a Sra. Underwood, ela saiu da sala e foi conversar do lado de fora. Foi uma conversa rápida de no máximo quinze segundos, quando retornou à sala, pude perceber que tinham pessoas bastante ansiosas pela resposta.
— Ela concordou que devíamos continuar sem ela. – Finalizou.
Muitos comemoraram, achei bem desrespeitoso, mas cada um tinha o direito de lidar da sua forma. Meu desconforto deve ter sido perceptível, pois Yerik me encarou com a testa enrugada.
—x-
— Você fez uma cara super feia. – Yerik comentou enquanto voltávamos para o dormitório após o jantar.
— Fiz?
— Fez. – Ele fez o que pareceu ser uma imitação caricata da expressão que eu teria feito.
— Eu não fiz essa cara.
— Quase. – Ele riu.
— Mas não gostei, de ter que continuar sem ela.
— Sabia que não ia concordar, por isso, votei pelo não.
Parei de andar e o encarei.
— Por que fez isso? E qual é a sua opinião real?
— Porque você não iria gostar, para mim tanto faz o que decidissem.
— Que opinião forte. – Revirei os olhos e continuei a andar.
Nada de muito diferente aconteceu nos próximos dias, o ritmo dos ensaios para nacionais aumentaram e tiveram que ser adaptados as agendas de provas finais dos alunos. Eu conversava com Mick com frequência, ele sempre tentava me animar quando eu parecia desanimado, ele era um ótimo amigo. As coisas pareceram mudar no último dia de aula.
Eu estava na biblioteca, sozinho, devolvendo os livros que pegara para estudar durante a semana quando foi surpreendido por dois pares de mãos afiados.
— Olá bonitinho. – Mirna me cumprimentou, tinha aprendido que era sempre ela a primeira a falar.
— Quase não nos falamos mais. – Lucy completou.
— Não tenho falado muito com Vick. – Justifiquei, já que elas eram quase sombras da minha irmã. – E estado ocupado. – Não quis soar rude.
— Grosseiro. – Lucy fez uma cara de triste.
— Mas não estamos aqui para matar as saudades...- Mirna.
— Somos as garotas de recado. – Lucy.
— Sua irmã quer se encontrar com você e selar um acordo de paz. – Mirna
— Vick? – Falei alto, surpreso com aquela atitude. – Vick? Minha irmã, tem certeza?
— Mirna que falou, a lesa sou eu, então sim, Vick sua irmã. – Lucy respondeu sorrindo.
— Temos sim, ela está te esperando naquele banco que você costuma ficar.
— Como ela sabe que aonde eu fico? – Perguntei guardando o último livro.
— Por que ela tem olhos em tudo. – Lucy.
— Tudo bem.
Ficamos um encarando os outros.
— Agora, ela está te esperando agora. – Mirna pareceu impaciente. – Vai!
A obedeci, não que eu estivesse morrendo de vontade de fazer as pazes com a minha irmã, na verdade, eu estava. Mas eu queria conversar realmente com ela e pedir desculpas, e torcer para ouvir também um pedido de desculpas. Iriamos voltar para casa e não queria voltar sem falar com ela e outra que eu detestava ficar brigado com alguém, com exceção de Yerik talvez.
Como elas tinham dito, Vick me esperava no meu banco costumeiro no bosque. Era uma tarde quente de primavera, quase verão, a vida animal vibrava pelo bosque, com vários insetos e pequenas aves voando e fazendo barulho em todo canto. Ela não viu chegar, por isso a assustei quando sentei ao seu lado.
— QUE SUSTO, CARALHO! – Ela gritou colocando a mão no peito.
— Me desculpe. – Falei sorrindo sem dentes.
Nos encaramos por poucos segundo antes dela começar a falar.
— Estou aqui para ouvir o seu pedido de desculpas. – Nada surpreendente. – Como você não tomava a iniciativa, eu tomei ela por você, pode pedir.
Não pude evitar de rir, na verdade, de gargalhar.
— Você é inacreditável.
— Eu sei, e você está muito diferente de quando entrou aqui. – Ela respondeu sorrindo.
De repente, a tensão que rolava entre a gente nas últimas semanas parecia nunca ter existido.
— Estou? – Perguntei confuso.
— Um pouco mais Maduro e desbocado.
— Isso é ruim? – Enruguei a testa.
— Não, é bom.
— Fico feliz que tenha marcado esse encontro, porque realmente queria te pedir desculpas. – Falei. – E adoraria receber um pedido de desculpas, você sabe que o que estava fazendo era muito errado. – Fui incisivo na última palavra.
— Eu sei. – Ela fez uma careca ao parecer contrariada, não costumava ser. – Me desculpe por ser uma filha da puta, as vezes é difícil controlar.
— Me desculpe ter gritado com você, na frente de todo mundo, e pelo o que eu falei.
— Está perdoado. – Ela me puxou para um abraço.
A abracei com força. Era a primeira vez que ela me tratava de forma mais igual, de todas as nossas brigas anteriores, essa era a primeira que me pedia desculpas. Não pudemos ficar muito tempo abraçados pois logo seu celular vibrou e ela teve que atender. Não era possível ouvir o que a outra pessoa falava no outro lado da linha, mesmo estando próximos, o conteúdo da conversa parecia ser sério pois Vick apenas escutava enquanto pressionava a boca e enrugava cada vez mais a testa.
Logo ela encerrou a ligação e me encarou assustada.
— O que foi? – Perguntei.
— Merda. Como eu vou falar isso. – Ela se ajeitou no banco, de modo que ficasse de frente para mim. – Papai ligou.
As simples palavras fizeram meu coração palpitar mais rápido.
— O que aconteceu com a Sam? – Fiz diretamente a pergunta que me interessava.
— Ela não morreu. – Vick não era muito delicada. – Mas o estado dela piorou, ela contraiu um a infecção. – Com aquelas palavras, pareceu que o ambiente perdeu uns 30ºc. – Emily também, papai acha que foi uma bactéria hospital.
Eu não chorei ou me desesperei dessa vez, estava cansado, apenas me limitei a olhar para a copa das arvores.
— E como elas lidaram com a notícia?
— Papai não entrou em muitos detalhes, você sabe como ele é. Mas a infecção está séria, de verdade, ele falou que é melhor a gente ir no hospital nesse final de semana, caso precise... – Ela não completou.
— Se despedir? – Suspirei, minha garganta parecia seca e um buraco de asteroide parecia ter se formado no local que ficava meu coração, eu respirava profundamente para não me descontrolar. – Não vou ir para as nacionais com o coral. Acho que eu devo avisar as pessoas, seria o certo?
— Creio que sim. – Ela entortou o lábio, de modo que parecia que mordia a bochecha internamente. – Você está bem?
Balancei a cabeça em positivo, me levantei e caminhei em direção aos prédios. No caminho, liguei para Sam.
Sam: “ Seu pai já te contou...”
Blake: “ Uhun...”
Sam: “Não sei o que falar”
Blake: “Eu vou aí sábado. “
Sam: “Ótimo, já contou para alguém? ”
Blake: “Estava indo fazer isso agora...”
Sam: “Por favor, faça, quero me despedir de todo mundo. ”
Blake: “Certo. ”
Sam: “ Se alguém for cantar para mim, eu não quero músicas felizes não, eu só quero realmente me despedir de todo mundo e não criar falsa esperanças. “
Blake: “ Mas você acha que eles vão cantar? Como pode saber? “
Sam: “ Porque o pessoal sempre acha que está em um episódio de Glee e também porque é uma boa forma de despedir. “
Blake: “ Só você para me fazer rir em um momento como esse. “
Sam: “ Blake, eu vou desligar. “
Ela não esperou eu me despedir, apenas desligou. Eu admirava o bom humor de Sam, na verdade, não podia acreditar que alguém tivesse humor na situação que ela estava. Caminhando em direção ao auditório, teríamos mais um ensaio naquele dia, fui ficando cada vez mais deprimido, não queria pensar na perspectiva de perde-la, mas a eminência parecia me assombrar.
Cheguei discretamente no nosso local de ensaio, só que sentia minha falta notou a minha chega, eles já estavam ensaiando sem mim. Beth foi a primeira me ver, acho que minhas feições devem ter me denunciado, pois assim que cheguei perto dela, perguntou:
— Sam está bem?
Balancei a cabeça negativamente, olhei para o teto tentando evitar que chorasse, novamente não queria chorar, muito menos na frente de todo mundo, andava chorando com frequência.
— O que? – Maggie apareceu atrás de mim. – Blake, você está chorando?
Maggie não era uma pessoa que tinha a voz em um tom muito baixo, por isso acabou atraindo a atenção de todos, de repente todos me encaravam e viam minha tentativa falha de resistir ao choro.
— Aconteceu alguma coisa, Blake? – A Sra. Underwood me perguntou.
Respirei fundo e a encarei.
Abri a boca e nenhuma palavra saiu, na minha mente a frase estava formada e pronta para ser pronunciada, mas na minha boca não saía.
— S-s-am. – Gaguejei, segurava o choro com todas as minhas forças, parecia que a vontade de chorara aumentava quando tínhamos que dizer aquilo que estava quase nos fazendo chorar. – O estado dela piorou.
Todos ficaram calados.
— Eu não vou poder ir nas nacionais. – Minha voz estava um pouco mais aguda pelo nervosismo. – Porque eu preciso conversar com ela, porque... – Continuei falando até fazer uma pausa. – Porque ela quer se despedir, é isso. Me desculpe, mas eu não vou poder ir.
Sem cerimônia alguma sai correndo.
—x-
— Você acha que está pronto para conversar com ela? – Yerik terminava de se arrumar enquanto me perguntava isso.
— Preciso, é o mínimo. – Murmurei.
Eu estava completamente arrumado, sentado na minha cama esperando por ele. As aulas já tinham acabado, mas o pessoal do coral tinha optado em continuar no St’Agnes, antes por causa das nacionais, agora para se despedir de Sam. A Sra. Underwood tinha cancelado nossa participação no campeonato em função do estado da nossa amiga, todos íamos visita-la no hospital e como Sam preverá, iriamos cantar uma canção para ela.
Após ter corrido chorar em um armário perdido no St’Agnes após informar a todos do estado de Sam no auditório, no outro dia, contei a todos o seu pedido que se fossem cantar, que não fossem músicas felizes, mas músicas que lhe dessem uma sensação de despedida, porque esse era o seu último pedido. Tentei entrar em contato com ela, nesses últimos dias, mas acho que estava em uma situação tão ruim que nem podia tocar no aparelho.
— Sua babá também está mal? – Ele me perguntou.
Balancei a cabeça em positivo.
— Você é forte. – Ele me fez um carinho no queixo. – Vai conseguir se manter firme. Já decidiu o que vai cantar para ela?
— Não. – Lhe respondi com sinceridade. – Não faço a mínima ideia, acho que vou deixar surgir na hora.
— Entendi, vamos?
Após Yerik estar completamente vestido e arrumado, seguíamos para o ônibus escolar que nos levaria até o hospital, a escola tinha oferecido essa cortesia pela boa causa, até algumas Irmãs estava enviando para fazer uma reza pelo estado de saúde delas.
O clima no ônibus era completamente diferente do de quando fomos para as regionais, todo mundo estava sério ou deprimido, estava um lindo dia fora do ônibus, mas dentro parecia que estávamos em um dos piores dias de inverno. Ninguém falava ou sorria, a primeira palavra só foi falada quando o ônibus parou no estacionamento do hospital.
— Certo. – A Sra. Underwood começou a falar. – Hoje nós iremos fazer uma visita a Samantha e como a situação dela e da sua avó é bastante delicada, eu peço a todos muito cuidado com o que falaram ou a forma que agirem lá dentro, lembrando que é um hospital. E o mais importante, por mais que o clima esteja horrível, para elas está bem pior, então vamos tentar levar algo entre uma genuína felicidade e o que estamos sentido agora, elas não precisam de mais tristeza ou uma falsa felicidade, Sam foi bem direta sobre isso...
Um detalhe importante é que o estado de Emily estava bem pior que o da Sam, ele estava em coma induzido e tinha sido transferida para o quarto da neta, já que não iria acordar sem o consentimento médico.
— ... cantem para elas com o mesmo sentimento que cantariam se tivessem nas nacionais. – Percebi que a Sra. Underwood estava emocionada e continua as lágrimas. – Já está tudo certo no hospital, Blake?
— Sim.
Tínhamos avisados a administração sobre o que faríamos para poder receber a autorização de ter tanta gente entrando e saindo do quarto.
— Certo, então vamos.
Fomos para o hospital, no caminho, Beth pegou na minha mão, ela tinha sido forte, não a vi chorar nesses dias, mas ela estava começando a querer entrar em colapso. Na recepção fizemos todos os procedimentos necessários para poder entrar antes de seguirmos, meu pai e minha irmã estavam também lá, iriam me levar para casa depois disso, Vick já havia levado minhas coisas.
— Ela teve uma grande melhora. – Vick me informou, não pude deixar de esboçar um fraco sorriso. – Ela vai ficar feliz de receber todos vocês.
— E Emily? – Perguntei.
Ela negou com a cabeça.
Um enfermeiro apareceu e nos informou dos cuidados que teríamos que tomar para poder entrar no quarto: todos teriam que usar touca, luvas e mascaras hospitalar para evitar levar germes, bactérias ou vírus externos para o ambiente limpo e piorar ainda mais o estado delas. Ele no guiou pelo hospital e nos levou até o quarto, antes de entrarmos também passamos álcool gel.
Felizmente o quarto era grande o suficiente para receber todos, quase furei a minha luva ao morder minha mão ao tentar evitar chorar ao ver Emily inconsciente na cama, ligada a aparelhos. Sam realmente estava melhor que da última vez que eu a visitara, dava para perceber no seu rosto, parecia mais saudável, ela sorriu quando nos viu entrando.
— Samantha, obrigado por nos receber. – A Sra. Underwood foi a primeira a falar.
— Fico muito feliz que todos tenham vindo. – A voz dela estava fraca e rouca. – É muito importante para mim, de verdade. – Ela começou a chorar.
A Sra. Underwood imediatamente pegou a sua mão. Ver Sam chorando, quebrou qualquer resistência que tinha criado para não chorar, na iminência do meu lamento sai do quarto e comecei a chorar agachado no corredor.
Meu peito doía tanto, não era uma dor física, era uma dor emocional. Eu não conseguia pensar, toda vez que mentalizava algo era ruim que me impulsionava ainda mais a chorar. Me tremia por inteiro, apertava minha mão na tentativa de me fazer controlar.
— Você quer companhia? – Beth falou abrindo a porta atrás de mim, seu rosto estava molhado de lágrimas. – É muito bom, finalmente poder chorar, não que eu não estivesse lutando com as lagrimas, mas elas simplesmente não vinham, sabe? – Ela me encarava
Concordei de cabeça baixa.
Ficamos por um tempo parados lá, até termos força o suficiente para retornar ao quarto. Quando voltamos, a Sra. Underwood mais boa parte dos alunos estavam cantando, tinham acabado de começar a cantar.
Sam nos viu entrar e nos acompanhou com o olhar.
Never can say goodbye
No no no no, I
Never can say goodbye
Even though the pain and heartache
Seems to follow me wherever I go
Though I try and try to hide my feelings
They always seem to show
Then you try to say you're leaving me
And I always have to say no...
Tell me why
Is it so
That I
Never can say goodbye
No no no no, I
Never can say goodbye
Everytime I think I've had enough
I start heading for the door
There's a very strange vibration
piercin me right to the core
It says turn around you fool
You know you love her more and more
Tell me why
(tell me why)
Is it so
(is it so)
Don't wanna let you go!
I can never can say goodbye girl
(never can say goodbye girl)
ou ou baby
(don't wanna let you go girl)
I never can say goodbye
no no no no no no no no no no no
ou! oh!
I never can say goodbye girl
(never can say goodbye girl)
ouuuuuuuu ouuuuuuuuuu
never can say goodbye
no no no no no no no no no no no
I keep thinkin that our problems
Soon are all gonna work out
But there's that same unhappy feeling and there's that anguish,
there's that doubt
It's the same old did ya hang up
You carry with you all the time
Tell me why
Is it so
Don't wanna let you go
Tinha sido uma bela apresentação, quem não cantara bateu palmas quando o pessoal terminou, incluindo funcionários do hospital que tinham parado na janela para observar a cantoria.
— Muito obrigada. – A voz de Sam quase não era audível.
Eu queria me aproximar dela, mas tinha medo que me descontrolasse, por isso fiquei encostado na parede próximo a porta junto com Beth.
Algumas pessoas que tinham cantado choravam, Olivie, Camille e por incrível que pareça Marc, Abi e Harry eram os que não tinham cantado e choravam.
— Não é só a gente que está chorando. – Sussurrei para Beth.
— Bom. – Yerik começou a falar. – Eu e Abi, decidimos fazer um dueto para você, não sabemos se a escolha da música foi apropriada, mas minha mãe sempre ouve quando quer se lembrar do meu pai. – Sua voz estava com o sotaque extremamente marcado, percebi que ele estava nervoso, acho que a lembrança do pai deveria ter lhe abalado um pouco.
— Espero que você goste, é do fundo do coração. – Abi falou:
Abi:
If I die young bury me in satin
Lay me down on a bed of roses
Sink me in the river at dawn
Send me away with the words of a love song
Uh oh uh oh
Yerik:
Lord make me a rainbow, I'll shine down on my mother
She'll know I'm safe with you when
She stands under my colours, oh and
Life ain't always what you think it oughta be, no
Ain't even grey, but she buries her baby
Abi:
The sharp knife of a short life,
Well, I've had just enough time
Abi e Yerik:
If I die young bury me in satin.
Lay me down on a bed of roses
Sink me in the river at dawn
Send me away with the words of a love song
The sharp knife of a short life,
Well I've had just enough time
Yerik:
And I'll be wearing white when I come into your kingdom
I'm as green as the ring on my little cold finger
I've never known the lovin' of a man
But it sure felt nice when he was holding my hand
Abi e Yerik
There's a boy here in town says he'll love me forever
Who would have thought forever could be severed by
Abi:
The sharp knife of a short life,
Well I've had just enough time
Yerik:
So put on your best boys and I'll wear my pearls
What I never did is done
A penny for my thoughts, oh no I'll sell them for a dollar
They're worth so much more after I'm a goner
And maybe then you'll hear the words I been singin'
Funny when you're dead how people start listenin'
Abi e Yerik:
If I die young bury me in satin
Lay me down on a bed of roses
Sink me in the river at dawn
Send me away with the words of a love song
Uh oh (uh oh)
The ballad of a dove
Go with peace and love
Gather up your tears, keep 'em in your pocket
Save 'em for a time when your really gonna need 'em oh
The sharp knife of a short life,
Well I've had just enough time
So put on your best boys, and I'll wear my pearls
Novamente, todos bateram palmas, com exceção dos cantores. Yerik me encarou esperando algum tipo de aprovação, balancei a cabeça em positivo e ele parou de me encarar.
— Muito obrigada. – Sam estendeu a mão para segurar a mão deles.
Ela soltou a de Abi e puxou a que segurava a de Yerik, indicou sua intenção para que ele se aproximasse, sussurrou algo no ouvido dele e depois recebeu sua resposta também em sussurro. Ficamos todos observando curiosos com o conteúdo da conversa.
— Eu prometo. – Yerik falou alto antes de se afastar dela.
Ela tinha o feito prometer alguma coisa.
— Agora a minha vez. – Maggie fui até o lado da cama de Sam. – Você não sabe o quanto eu fui grata de ser amiga nesses últimos meses, de verdade, a forma que vocês me acolheram, eu nunca tive isso em toda a minha vida. – Seu tom era triste, mas ela não parecia propensa a falar. – Eu nunca tive amigos, e você junto com o Blake e Beth foram os primeiros que me enxergaram além da minha autoconfiança. Então, quando eu começar a cantar, eu me dediquei, a música é em italiano, eu não quero o seu obrigado ou qualquer agradecimento seu, porque eu já o recebi em todos esses meses.
Sam não tinha palavras para dizer, as lágrimas que escorriam pelo seu rosto já diziam o bastante.
— Harry quer falar alguma coisa? – Só depois que Maggie o chamou que percebi que eles fariam um dueto.
— Não. – Ele soou firme. – Ela já sabe exatamente tudo o que sinto por ela, não preciso repetir.
Sam balançou a cabeça concordando.
Eles se posicionaram e Maggie começou a cantar:
Quando sono solo
Sogno all'orizzonte
E mancan le parole
Sì lo so che non c'è luce
In una stanza quando manca il sole
Se non ci sei tu con me, con me
Su le finestre
Mostra a tutti il mio cuore
Che hai acceso
Chiudi dentro me
La luce che
Hai incontrato per strada
Time to say goodbye
Paesi che non ho mai
Veduto e vissuto con te
Adesso si li vivrò
Con te partirò
Su navi per mari
Che, io lo so
No, no, non esistono più
It's time to say goodbye
Harry:
Quando sei lontana
Sogno all'orizzonte
E mancan le parole
E io sì, lo so
Che sei con me, con me
Tu mia luna, tu sei qui con me
Mio sole, tu sei qui con me
Con me, con me, con me
Time to say goodbye
Paesi che non ho mai
Veduto e vissuto con te
Adesso sì li vivrò
Con te partirò
Su navi per mari
Che io lo so
No, no, non esistono più
Harry e Maggie:
Con te io li rivivrò
Con te partirò
Su navi per mari
Che, io lo so
No, no, non esistono più
Con te io li rivivrò
Con te partirò
Io con te
A apresentação deles foi a coisa mais bonita que eu já tinha visto, a cada estrofe eu me arrepiava cada vez mais, nunca imaginaria que a combinação as vozes deles fossem capazes de gerar algo tão impressionante. O choque inicial de todos com a performance fez com as palmas fossem tardias.
— Eu estou sem palavras. – Camille falou.
— Incrível. – Sam falou. – Não sei o que dizer.
— A melhor resposta pode ser a falta dela. – Maggie piscou para ela fazendo uma referência.
Harry pegou rapidamente na mão dela e se afastou, caminhando até mim, enquanto as pessoas começavam a conversar.
— Se acontecer alguma coisa a ela, por favor, me ligue avisando. – Ele praticamente me implorou.
— Claro. – Concordei.
— Alguém mais. – A Sra. Underwood falou olhando para mim e para Beth, ela se referia a cantar.
Sam nos observava, com gesto de mão falei que iria depois.
Microgrupos de conversa foram gerados e pouco mais de uma hora depois todos foram embora, não antes de darem adeus para Sam, ela que preferia assim, adeus. Alguns pediram desculpa por seu comportamento no passado, Sam simplesmente falava que as atitudes do passado estavam no passado e que ela estava em perfeita paz com todo mundo. Foi um momento emocional, Sam chorou algumas vezes, não me abalei tanto como quando a vi, mas fiquei tocado. Ela ficou um tempo a mais em especial com Olivie e Harry.
Não quer ver anúncios?
Com uma contribuição de R$29,90 você deixa de ver anúncios no +Fiction durante 1 ano, além de outros benefícios.
Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Por fim, todos foram embora, ficando apenas Beth e eu, a mãe dela a buscaria depois.
— Agora só a gente mesmo. – Sam sussurrou da sua cama.
Pela primeira vez naquele dia trocamos palavras diretas.
— Finalmente. – Sussurrei de volta, me aproximando da sua cama.
— Pensei que não falariam comigo. – Ela sorriu, seu olhar tinha o mesmo brilho que parecia ter sumido após o escândalo da sua saúde.
— Jamais, só queríamos um momento só nosso. – Beth justificou.
— Claro. – Sam riu. – Não tem a ver com a falta de controle emocional de vocês não. — Beth e eu gargalhamos. – Eu vi vocês saindo correndo, sinto muito fazerem vocês sofrer. – Seus olhos começaram a ficar marejados.
— Não. – Beth lhe fez um carinho no rosto. – Não perdoou. – Sorriu, também com os olhos marejados.
— Queria poder me despedir da minha avó, mas acho que isso a faria muito mal. – Sam confessou olhando para Emily.
Novamente uma fala despretensiosa me quebrou, tentei controlar novamente o choro, fazendo até a minha boca ficar tremula.
— Eu também. – Confessei.
— Deixe de verdade seus sentimentos fluírem, não vai te fazer bem não chorar. – Sam falou segurando minha mão.
E como se fosse uma ordem, as lágrimas caíram silenciosa pelo meu rosto.
— Bem melhor. – Ela sorriu.
— Blake. – Beth me chamou. – Se importa de ficar lá fora por um instante, gostaria de falar algumas coisas para Sam em particular.
— Claro. – Jamais iria me opor a isso.
— Obrigada. – Agradeceu. – Quando me escutar a cantar pode entrar.
— Eu já volto. – Falei antes de sair.
A conversa particular delas demorou, o tempo não me fazia bem, deixava-me cada vez mais nervoso. Desejei egoistamente que Emily estivesse bem para me dar apoio ou que Mick aparecesse a fizesse isso. Emily era outro ponto que me angustiava, por estar consciente só conseguia conversar com sua neta, se caso ela morresse jamais teria me despedido, queria que ela acordasse agora mais do que nunca.
Quando finalmente ouvi Beth começar a cantar, retornei ao quarto:
I always knew this day would come
We'd be standing one by one
With our future in our hands
So many dreams so many plans
Always knew after all these years
There'd be laughter there'd be tears
But never thought that I'd walk away
with so much joy but so much pain
And it's so hard to say goodbye
But yesterday's gone we gotta keep moving on
I'm so thankful for the moments so glad I got to know ya
The times that we had I'll keep like a photograph
And hold you in my heart forever
I'll always remember you
Nanananana
Another chapter in the book can't go back but you can look
And there we are on every page
Memories I'll always save
Up ahead on the open doors
Who knows what we're heading towards?
I wish you love I wish you luck
For you the world just opens up
But it's so hard to say goodbye
Yesterday's gone we gotta keep moving on
I'm so thankful for the moments so glad I got to know ya
The times that we had I'll keep like a photograph
And hold you in my heart forever
I'll always remember you
Everyday that we had all the good all the bad
I'll keep them here inside
All the times we shared every place everywhere
You touched my life
Yeah one day we'll look back we'll smile and we'll laugh
But right now we just cry
Cause it's so hard to say goodbye
Yesterday's gone we gotta keep moving on
I'm so thankful for the moments so glad I got to know ya
The times that we had I'll keep like a photograph
And hold you in my heart forever
I'll always remember you
Nanananana
I'll always remember you
I'll always remember you
Eu conhecia aquela música, era de uma serie teen infantil da Disney, naquele contexto jamais poderia imaginar uma origem tão antagônica ao momento. Ao entrar no quarto, me deparei com cena de Beth cantando abraçada a Sam, além da máscara, o abraço também lhe dificultava de cantar, por isso sua voz saía abafada.
No fim, ambas choravam muito enquanto eu era o único a bater palma.
— Eu te amo. – Uma repetiu para outra.
Ao se separarem ficaram ainda uma olhando para a outra, até Beth se afastar.
— Eu não vou te dar adeus. – Ela falou. – Até logo.
Beth sem muitas cerimonias ou se despedir de mim, saiu correndo do quarto.
Sam chorava muito, tive que esperar ela se recuperar para poder falar com ela.
— Eu espero que daqui algumas semanas tudo isso soe como algo bobo de ter feito, porque você recebeu alta. – Falei chorando, não me importando mais em contar as lágrimas.
Ela bateu na sua cama, indicando que era para eu me sentar. Seu sorriso era fraco, não pude deixar de retribuí-lo.
—Pensei que me deixaria sem uma canção. — Sua voz era tão baixa, rouca que se tornava quase incompreensível.
— Não mesmo. — Segurei em sua mão, que estava cheia de furos das agulhas das medicações e a apertei com carinho. — Só não sei exatamente o que cantar para você.
— Uma de adeus, já dei a dica. — Me observa com atenção.
— Por que te cantaria uma de adeus, se você logo melhorara e vai me visitar em casa, antes de se mudar para faculdade.
Seus olhos marejavam com minhas palavras, apesar de sua cabeça a negá-las.
— Eu sei que estou morrendo. — Falou tranquila. — Estou em paz.
— Você não vai morrer. — Devo ter soado desesperado. — Tenho fé e espero que você também tenha, que Deus realizará um milagre em você.
Ela ficou em silêncio.
— Eu amo a sua doçura, eu vou sentir sua falta. — Uma lágrima escorreu por sua bochecha enquanto erguia a mão e a afagava meus cabelos.
Não pude deixar de acompanhá-la no choro, mergulhei minha cabeça no seu colchão.
— Não quero que você morra, você tem tantos sonhos para realizar ainda.
— Às vezes, alguns sonhos não são feitos para a gente realizar, apenas para a gente sonhar. – Tossiu. – Você foi a melhor pessoa que eu já conheci, não deixe que minha morte acabe com você, é mais forte que isso.
Levantei a cabeça lentamente, Sam me olhava com um brilho fraco, mas acolhedor, podia sentir que aos poucos, suas forças iam embora.
— Eu estou bem. — Sussurrou. — Vou embora feliz de ter te conhecido.
Meu choro aumentava em medida das suas palavras, tive que respirar fundo para me controlar.
—Blake, cante comigo uma última canção. — Pediu antes de iniciasse sozinha
Sing me to sleep
Já no primeiro verso, o esforço de um dia conversando surtiu efeito, ela começou a tossir violentamente, mas antes que eu me desesperasse ou que uma enfermeira aparecesse, ela pegou uma máscara transparente colocou sobre a boca, apertou uns botões em uma máquina ao seu lado e começou a inalar oxigênio, consequentemente controlasse sua crise.
Passado o susto, ele gesticulou com as mãos um pedido para que eu continuasse a canção. Eu conhecia a música, era tão triste que eu não acreditava na minha capacidade de conseguir termina-la completamente.
Sing me to sleep
I'm tired and I
I want to go to bed
Sing me to sleep
Sing me to sleep
And then leave me alone
Don't try to wake me in the morning
'Cause I will be gone
Don't feel bad for me
I want you to know
Deep in the cell of my heart
I will feel so glad to go
Sing me to sleep
Sing me to sleep
I don't want to
Wake up on my own anymore
Sing to me
Sing to me
I don't want to
Wake up on my own anymore
Don't feel bad for me
I want you to know
Deep in the cell of my heart
I really want to go
There is another world
There is a better world
Well, there must be
Well, there must be
Well, there must be
Well, there must be
Well
Bye bye
Bye bye
Bye
Não percebi, mas conforme cantava a capela, fechei meus olhos e me deixei ser levado pelas emoções. Ao final dela, fui surpreendido por uma salva de palmas dos funcionários do hospital presentes naquele andar que pararam no quarto para me ouvir cantar, como tinham feito com o coral mais cedo, só que dessa vez em maior número e com a presença da minha família.
Sam riu da minha expressão de surpresa ao ser pego pela plateia improvisada, lhe retribui o sorriso, apesar do nervosismo. Novamente, ela levou a mão ao meu rosto, desta vez limpou as lágrimas, depois pegou a minha mão e a levou até seu coração como forma de gratidão pela canção e pela minha presença ali, mesmo que sendo para se despedir.
— Adeus. – Sussurrei.
Fale com o autor