Tempestuoso

1 Bem-Vindo a Residência dos McCarthy


Notas iniciais
PROJETO POC REVISÃO - ESSE CAPÍTULO FOI REVISADO E ALTERADO 16/06/2018 Meu primeiro, sejam gentis. Agradeço ao povo do Skype que leu primeiro. Um beijo especial para a Jeeh, Ju e Letícia.Vai ter muita música no primeiro arco, se quiser pode pular. (Pode não) Trecho da música: COMATOSE - MIKKY EKKO

— Eu não o quero comigo! – A garota de olhos amendoados encarava-me com uma expressão felina e era incisiva em suas palavras.

— Isto não está em discussão, ou é com ele ou é em casa, você que decide. – Meu pai respondeu sem muito entusiasmo, estava mais interessado no conteúdo do jornal que lia a mesa.

Antes de mais nada, deixe-me apresentar-me e contextualizá-los sobre aquela discussão. Meu nome é Blake McCarthy, eu era um recém admitido no ensino médio, para ser exato, um recém admitido em uma escola, no Internato Santa Agnes, o mesmo internato que minha irmã estudava fazia dois anos. Seria minha primeira vez estudando em uma escola de verdade, eu era educado em casa por um tutor particular desde o incidente do meu quinto aniversário e sétimo de Vick. Victoire McCarthy era o nome da minha irmã mais velha e quem me encarava com raiva naquele momento.

Todo ano, o Internato Santa Agnes organizava, no penúltimo final de semanas de férias em agosto, uma festa chamada de Integração. Era uma confraternização entre os alunos já residentes e os recém chegados, como eu, no intuito de desenvolverem uma certa amizade antes de iniciarem oficialmente as aulas, uma espécie de adaptação. Teoricamente deveria ser uma festa voltada para os calouros, ou seja, para mim, era para eu estar animado com a sua proeminente chegada nesse final de semana, mas quem estava era Vick.


— Mas ele nem quer ir! – Minha irmã voltou a protestar.


Ela estava certa, uma quadra de esportes cheia de outros adolescente suados dançando, não parecia ser o melhor dos cenário de adaptação para alguém como eu. Mas a questão nem era isso, eu nem tinha comentado com ela sobre essa a versão a festa, ela só não queria a companhia do irmão mais novo e esquisito.

— Então, você também não vai. – Meu pai era extremamente inflexível nas suas decisões, não era atoa que era tão bem sucedido no ramo da advocacia.

O que me surpreendia daquela situação, era como ela estava se alongando por toda semana, desde segunda-feira que Vick insistia no assunto e recebia o mesmo posicionamento do nosso pai. Para mim, era admirável a paciência de ambos, já que não eram conhecidos por tê-la.

— É uma tradição escolar! Eu sou a atleta modelo! Os últimos dois anos não precisava dele. — Apontou para mim.

Esse argumento era super válido, eu também não entendia a insistência do meu pai em querer que eu fosse com ela, sendo que no passado esse era um fator nulo para a ida dela.

Eu sabia que meu pai tinha chegado no seu limite, quando bruscamente dobrou o seu jornal e encarou Vick, tanto eu, quanto ela sabíamos que depois daquilo não existiria mais argumentação.

— Minha querida, Victoire. — Ele iniciou com o seu tom passivo agressivo. — Pelo meu poder como seu guardião legal, eu tenho o livre direito de lhe impor regras e condições sobre as mais variáveis situações da sua vida como menor legal, por isso, não preciso me justificar de fato sobre minhas razões. Apenas siga as condições impostas ou fique dentro de casa. E lhe deixou sobre o aviso de que sua insistência pode lhe causar maiores indulgências, como nem ir nem com a companhia do seu irmão.

Eu podia ver a fumaça de raiva saindo pelos ouvidos da minha irmã. Durante este debates, eu sempre tentava passar o mais despercebido possível, mesmo sendo citado com frequência, era uma boa tática para se manter livre de Vick. Porém, naquela vez nem com uma capa de invisibilidade a impediria de me colocar no meio.


— Blake, você tem fantasia? – Ela me perguntou com a voz controlada.

— Não e por quê? — Me fiz de desentendido.

Eu já suspeitava do que viria a seguir, mesmo que falasse que não para a Integração, Vick me levaria, nem que fosse amarrado na sola do seu sapato e tivesse que pisar em mim durante toda a noite, o que aposto não seria um problema para ela.

— Ótimo, porque amanhã nós iremos a loja de fantasias na cidade, alugar as fantasias.

Engasguei-me com a comida. Com ela era assim, tudo no imperativo e de acordo com suas vontades, menos com nosso pai. Se antes, ela não cogitava a minha ida, agora, eu era presença indispensável, mesmo que contra minha vontade.

— Como?

— Você tem o dever de ir.

Novamente, o tom imperativo deixa claro que não era um pedido.

— Eu não vou. – Respondi encarando-a, seus olhos tentando me intimidar.

— Você vai. É novato, tem que ir.

— Não necessariamente. — Não sei porque eu tentava contrária-lá, já tinha perdido essa luta.

Um traço muito importante da personalidade da minha irmã era como ela era temperamental, principalmente após ser contrariada e perder uma disputa para o nosso pai. Isso ficava mais claro, com ela me chutando na canela debaixo da mesa, queria que eu a obedecesse.

— Pai! — Ela chamou-o, ele tinha voltado ao jornal após dizer aquelas últimas palavras a Vick.

— O que foi? – Ele perguntou sem dar muita atenção.

— Blake quer dizer uma coisa. – Vick falou, dando-me um chute mais forte que os últimos.

— Eu… Eu… Vou. – Gaguejei, sob a mira do olhar e dos pés de Vick. Minha canela doía, controlava-me para não gemer de dor

Meu pai pareceu um pouco contrariado, seus olhos azuis analisaram os meus e depois os de Vick, eu e ela compartilhavamos a mesma coloração, isso se manteve por alguns segundos até ele soltar um suspiro, transparecendo o seu consentimento.

— Bom, você conseguiu o que tanto queria Victoire, poderá me deixar em paz por um tempo. Mas não se esqueça, que não está passível das outras regras, vai ter que respeitar como sempre, ou então, já sabe… — Papai se dirigiu a Vick. — Blake, agora que vai começar a sair como a sua irmã, as regras também são válidas a você. E como Emily está de folga hoje, espero que não se importe de cuidador da sujeira do jantar.

— Não, papai…

Esse era o preço a se pagar por ter ficado do lado de Vick, involuntariamente, eu sabia que papai estava punindo-me quando passou-me uma tarefa doméstica. Digamos que ele era um homem mais tradicional, era contra homens fazerem esse tipo de tarefa dentro de casa, então para ele, era um ótimo método para me diminuir ou punir. Não que ele fosse contra realizar serviços em casa, mas que fosse de acordo com o seu gênero. Eu não me sentia diminuído por isso.

Ele ficou encarando-me, esperando que eu falasse alguma coisa ou protestasse, mas eu jamais fazia esse tipo de coisa com ninguém, na maioria das vezes, o caso com Vick tinha sido uma exceção. Terminamos nosso jantar em silêncio, papai foi o primeiro a sair da mesa, despedindo-se apenas com um singelo “boa noite”.


— Papai deve ter ficado com raiva, ele não queria que você fosse – Falei para Vick, assim que ele passou pelo portal da porta e sumiu do meu campo de visão.

— Pouco me importa, que ele ficou com raiva ou não, o importante é que eu vou e você já falou que vai. — Disse, levantando-se. — E não se esqueça que amanhã iremos cedo para loja de fantasia. — E sem ao menos agradecer ou se despedir, seguiu pelo mesmo caminho do nosso pai.

Olhei para o teto e suspirei, com quinze anos de convivência com aqueles dois já estava acostumado com os seus jeitos. Levantei-me da mesa e fui limpar a louça na cozinha, não era muita coisa, papai tinha comprado comida pronta, já que Emily estava de folga. Ao contrário do que meu pai achava, eu gostava de ajudar nas tarefas domésticas, inclusive fazia isso junto com Emily. Estudar em casa às vezes, não, na maioria das vezes deixava-me com um grande tempo livre, que eu gastava na companhia de Emily.

Limpando os pratos, fiquei pensando em como seria a festa com minha irmã e como ela me controlaria lá. Segundo ela, a Integração serviria para abrir e fechar muitas portas dentro da escola nos próximos anos, tudo isso dependeria da impressão que você passasse e é claro que ela não deixaria que eu passasse uma impressão ruim, porque isso refletia diretamente nela. Vick era extremamente ligada na sua aparência e reputação com os outros, não era seria surpresa para mim se ela fosse a abelha rainha na escola, porque ela tinha capacidade e vocação para isso. Bem estereótipo de garota americana.

Dos dois anos que ela já morava e estudava na Santa Agnes, não teve um reencontro que ela não disse que eu era uma presa fácil para aquele colégio, o que não era mentira, eu tinha uma experiência quase nula com relações interpessoais com pessoas fora do meu âmbito familiar. Não que eu fosse uma daquelas crianças com instintos animais nos países de terceiro mundo, mas eu tinha uma dificuldade razoável para me enturmar. Só tinha uma coisa que me fazia enfrentar e ultrapassar qualquer barreira interna, cantar e me apresentar em público, não que tivesse feito isso muitas vezes. Mas em todas, eu tinha me sentido incrível, o que era bastante irônico para alguém tímido como eu, no entanto, no palco era como se não tivesse ninguém e nem nada, como se minha mãe estivesse comigo.

Sempre que eu estava fazendo alguma coisa não tão estimulante, como lavar louças, acabava por cantar:

I lost my head out in the cold

(Perdi a cabeça para fora no frio)
Pins and needles always waiting

(Alfinetes e agulhas sempre à espera)
You lost your nerve and all control

(Você perdeu seu nervo e todo o controle)
I can feel it, I can feel it and it feels like waiting

(Eu posso sentir isso, eu posso sentir isso e parece que espera)


Push and pull, revolving doors

(Empurrar e puxar, portas giratórias)
We end up where we were before, right there at the scene

(Acabamos onde estávamos antes, ali mesmo na cena do crime)


Like an open door to an empty room

(Como uma porta aberta para uma sala vazia)
It's still a part of me needing part of you

(Ainda é uma parte de mim que precisam parte de você)
In another life we could work it out

(Em outra vida que poderíamos trabalhar com isso)
But we never speak, so it's hard to

(Mas nunca falamos, por isso é difícil)
Do we really want to live this way?

(Será que realmente quer viver dessa maneira?)”


— Você canta bem – Escutei uma voz feminina no meu ombro, fiquei tão distraído cantarolando que nem percebi o retorno de Vick.

— Obrigado, Vick. Mas... Pelo o que eu te conheço, o que quer?

— Eu gosto um pouco de você só pela sua percepção rápida das coisas. — Ela falou sorrindo.

— Como o topo da pirâmide social da escola, eu tenho o dever de zelar por uma boa reputação e por isso digo que durante essa festa só fale com quem eu disser que você deve falar. Não diga besteiras e aja como um ser humano normal. — Sutil como uma faca cega.

— Você se preocupa tanto com isso...

— Quando você for a uma escola verá que isso é de se preocupar.

Fiquei em silêncio.

— Você tem vergonha de mim? – Perguntei.

— Em casa não, mas provavelmente terei na Santa Agnes. — Respondeu com sinceridade.

Existe-se uma linha tênue na sinceridade entre o bom senso e a crueldade, boa parte das vezes, Vick seguia por essa linha, mas às vezes ela tendia pela crueldade, como foi o que senti naquele momento. Eu não sabia se Vick realmente gostava de mim ou se era apenas a sua personalidade, a sentia ser cruel comigo sem necessidade e poucas vezes era genuinamente legal e eu me esforçava sempre para tentar agradá-la, mas nada parecia ser suficiente.

Geralmente ficava calado sobre suas grosserias, mas naquele dia eu estava inspirado.

— Eu te fiz um favor e você, em troca, me coloca imposições. – Resmunguei.

— Amor, eu sou sincera. – Ela dobrou os braços em cima das minhas costas.

— Por Deus, como você é baixinho! – Empurrou a minha cabeça para baixo, ela gostava desse tipo de provocações

— Estou na altura média, você que é alta demais. – A cutuquei com o cotovelo, fazendo-a se afastar de perto de mim.

— É verdade, sou acima da média em muitos quesitos. – Ela se vangloriou.

Nisso eu não podia discordar. Vick poderia se gabar à vontade, ela era a estrela atleta da escola e medalhista de bronze da competição nacional de natação, coisa que ela não me deixava esquecer. Suas notas eram boas e em quesito beleza, eu particularmente a achava a garota mais bonita que eu já tinha visto.

— Menos em um – Disse.

— E qual seria? – Ela perguntou interessada.

— Humildade – Falei, virando-me após término da louça e sujando o nariz dela com espuma.

— Você está certo, mas quem precisa ser humilde quando se é bonito? – Ela jogou o cabelo para trás do ombro, levantando levemente a cabeça e limpando o nariz.

— Humildade é nobre – A censurei.

— E ser nobre é coisa que gente feia invents porque não consegue deixar de ser feia – Ela revirou os olhos.

Sequei as minhas mãos.

— Olhe-se – Ela pegou uma bandeja metálica no armário e a colocou de frente para mim. – Você também é bonito. Aposto que consegue ficar com quem quiser na festa – Me incentivou.

— Não, não sou nem um pouco bonito. – Abaixei a bandeja. — E não me interesso por isso.

Ela me segurou e obrigou-me a fitar meu reflexo novamente na bandeja.

— Você é bem parecido comigo, os mesmos olhos verdes…

— Castanhos – A corrigi.

— Verdes!

— Castanhos.

— Amendoados, que seja. – Ela detestava ser contrariada. Eu sorri. – Os cabelos loiros, as sardinhas que são uma graça. – Tocou minha face onde ficavam as minhas sardas. – A pele é mais clara e sensível. – Dito isso fiquei rubro. – O único problema é a altura. Muito nanico. – Ela riu. Eu sabia que não me elogiaria sem me alfinetar.

— Só é alta porque faz natação – A menosprezei, pegando a bandeja de suas mãos e a guardando de volta no seu lugar.

— Deveria fazer também, nem ao menos sabe nadar.

— Não consigo nem chegar perto, só de pensar… – Um calafrio percorreu o meu corpo.

— Não sabe o que está perdendo.

— Sei sim. E digo que não estou perdendo nada.

Muito pelo contrário, eu estava me poupando não tendo aulas de natação, nada no mundo parecia ser pior do que isso, talvez ir na praia ou ser empurrado em um piscina. Eu tinha repulsa a água, era pior durante a infância depois do acidente, agora depois de muito tratamento já estava melhor, conseguia fazer tarefas que envolviam água sem muitos problemas, pior mesmo era para tomar banho,mas ainda sim conseguia fazê-lo.

Me despedi de Vick e caminhei para o meu quarto, no caminho vi que meu pai estava no seu escritório, como sempre, revendo e revendo os seus casos em aberto. Domingo à noite era rotina dele fazer isso, como se durante o final fosse ser diferente do restante da semana e ele achasse um detalhe perdido ou a solução que faltava, fato que nunca se concretizou, mas que ele insistia na rotina. Não o incomodei, ele detestava quando isso acontecia e tolerava apenas em casos de emergências extremas. Lembro-me da única e última vez que cometi esses erros. Digamos que fiquei uma semana sem poder ouvir direito ou sentar sem que minhas pernas doerem, papai era a favor de castigos físicos.

Segui para meu quarto e tomei um rápido banho, sempre deixava essa parte para antes de dormir e abri meu notebook para falar com o meu único amigo além da minha família e de Emily, o Mick.

Eu o conhecia há dois anos em uma sala de bate papo sobre Harry Potter e nunca o tinha visto pessoalmente ou sabia qual era a sua aparência. Ele morava muito longe para um encontro e se negava a mandar uma foto, mesmo eu dizendo que mandaria uma minha em resposta, cheguei até realmente mandar. Várias vezes cheguei a duvidar da sua identidade, poderia ser facilmente um pedófilo fingindo ser um adolescente de catorze anos, porém em nenhum momento deu indícios concretos de que mentia. Nós conversávamos sobre tudo: livros, músicas, filmes, séries e sonhos. De certa forma confiava nele mais do que nos membros da minha família. O mais importante era que ele era doente, terrivelmente doente e não queria que eu me apegasse a ele ou que tivesse pena da sua aparência, essa era sua justificativa para o anonimato. Eu cheguei a pesquisar sobre algumas doenças, mas era mais amplo procurar por algo sem nenhum rumo, por isso, uma vez consegui com que ele dissesse que era uma doença degenerativa. Basicamente ele dizia que em breve iria morrer e não queria outras pessoas sofrendo, além dos seus pais, porém, mesmo com todos os seus empecilhos, conseguimos criar uma grande amizade.

Mick:

Oi

Uma mensagem dele já me esperava, havíamos decorados os horários um do outro. Acomodei-me na minha cama e comecei a costumeira conversa com ele.

Blake McCarthy:

Oi, quanto tempo.

Está tudo bem?

Mick:

Estou bem na medida do possível

E você?


Blake McCarthy:

Estou bem, a cada novo dia pareço melhorar.

Mas você realmente está bem?

Mick:

Sim, estou bem. A última crise foi na virada de ano, agora estamos na espera da nova crise que pelo histórico pode acontecer a qualquer momento.

Quando começam as suas aulas?

Blake McCarthy:

Daqui oito dias. Só para avisar, nosso contato será menor. O Internato Santa Agnes limita muito o acesso à internet. Apenas nos finais de semana será possível conversar de verdade.

Mick:

E agora? Com quem eu irei conversar?

Blake McCarthy:

Comigo, oras! Não te abandonei!

Mick:

Eu sei! Só queria pesar na sua consciência. Mas de qualquer forma nós temos essa semana para poder descontar o tempo que iremos ficar sem nos falar.

Blake McCarthy:

Sim, sim, eu ia te sugerir isso mesmo. Mas então, alguma novidade?

Mick:

Vou me mudar para a Pensilvânia, para uma cidadezinha do interior. Acho que só isso de novo.

Blake McCarthy:

Como assim? Só isso de novo? Por favor, isso é uma grande novidade. Desde quando você está sabendo disso?

Mick:

Bem, meus pais só me contaram hoje pela manhã, eu dei uma leve pirada e disseram que partiríamos hoje à meia-noite.

Parece que mamãe foi transferida… Logo todos teremos que mudar.

Blake McCarthy:

Então você já está de saída? Você sabe que eu moro nesse Estado, será que é o destino querendo que a gente se conheça?

Mick:

Quantas cidades existem no Estado da Pensilvânia? Cem, duzentas ou mais? Pouco provável que isso aconteça, prefiro assim. Não quero ser mais um trauma na sua vida.

Blake McCarthy:

Você é muito pessimista, quem disse que você seria um trauma? Na verdade você seria um amigo acessível, às vezes eu penso que meu pai errou ao me educar em casa.

Mick:

Blake, eu gosto da nossa relação baseada no anonimato. Quero deixar o menor número de pessoas sofrendo por mim quando eu morrer, já bastando demais a minha família.

Aproveite agora que está livre para conhecer as pessoas e para poder trabalhar os seus medos.


Blake McCarthy:

Qual é o nome da cidade que você vai morar? E a escola?

Mick:

Não sei praticamente nada sobre a nova cidade ou sobre a nova escola. Meus pais só disseram que terá uma festa, da escola, amanhã e se eu estiver bem, eu poderei ir… Como se eu quisesse...

Blake McCarthy:

Agora sim eu vejo a possibilidade real de você vir para cá. Também tenho uma festa da escola amanhã.

Mick:

Não se anima não, essas festas são bem comuns nas escolas…

Blake McCarthy:

Você como sempre é um poço de esperança e negativismo. Mas, continuando, o tema da minha é fantasia. Qual é o tema da sua?

Mick:

Papai comprou uma fantasia, então acho que deve ser igual a sua.

Blake McCarthy:

Preciso dizer mais alguma coisa? Está tudo combinando… Graças a Deus.

Mick:

É um tema bem comum de festa, caso você não saiba.

Blake McCarthy:

Como você é chato! Qual será a sua fantasia?

Mick:

Eu não vi os detalhes, só sei que deve ser alguma coisa relacionada ao universo do horror, meus pais sabem bem dos meus gostos, sabem bem até demais. Então, eu ainda não vi a fantasia, mas sei que existe uma fantasia.

E você? Já decidiu a sua fantasia? Ainda não acredito em você indo para uma festa.

Blake McCarthy:

Vick é controladora, só estou indo para agradá-la. O mais provável é que ela escolha por mim, não sou muito ligado nessas coisas. Desculpa perguntar, mas como é esse tipo de festa?

Mick:

Acho que você deveria pedir alguma coisa em troca, sua irmã não é boazinha com você. É uma festa normal.

Blake McCarthy:

Como assim normal?

Mick:

Normal. Como é em uma escola, então não deve ter bebida, as pessoas vão ficar dançando e tentando conquistar as outras. Bem normal.

Blake McCarthy:

Você não ajudou muito. Caso tenha esquecido, eu nunca fui a uma festa antes. Na verdade, nunca fui nem a uma escola.

Mick:

É muito estranho, conhecer uma pessoa que nunca foi a uma escola…

Blake McCarthy:

Eu acho normal. Mas mudando um pouco de assunto…

Você bem que poderia me enviar uma foto, para o caso de ser a mesma festa para nos reconhecermos.

Mick:

Não estou pronto para isso, já te falei! Mas eu posso te contar qual será a minha fantasia assim que descobrir e se você vir alguém vestido igual poderá tentar algum contato, aí poderá ser eu ou não.

Blake McCarthy:

Seria muito mais fácil uma foto, mas se quer assim…

Mick:

Desculpa Blake, mas eu vou ter que sair. Minha mãe está me chamando, está na hora de partirmos. Mas ainda amanhã eu te aviso sobre a minha fantasia. Tchau.

Blake McCarthy:

Boa viagem, eu desejo de verdade que você se mude para cá. Também te aviso sobre a minha. Tchau.

Com Mick era assim, nada muito fácil de se conseguir, mas muito bom de se conversar. Ainda tinha esperanças de que nos encontraríamos e seríamos melhores amigos reais. Logo após terminar a conversa acabei adormecendo.

“[...] Acordei sentindo o carinho de mãos femininas sobre o meu rosto, era as mãos de minha mãe, mesmo com os olhos fechados eu sabia reconhecer suas carícias e seus toques.

— Acorde, meu pequeno. Não pude dormir sob o sol, se não vai ficar vermelhinho. — Sua voz era calma e paciente.

Eu não quero sair daqui, mamãe. — Eu respondi.

Eu sei, mas você precisa aproveitar o dia, é o seu aniversário e o da sua irmã. Olhe para o céu como está bonito.

Eu a obedeci, o céu estava absurdamente claro e limpo, sem nenhuma nuvem. Minha visão estava um pouco embaçada devido a ausência dos óculos, que logo foi consertada quando a minha mãe os colocou em mim. Olhei para ela, agora com nitidez e sorri.

Mamãe era linda, tinha olhos castanhos cor de chocolate e cabelos escuros, ela também sorria para mim.

— Mãe! Vamos nadar. — Vick gritou por ela.

— Já vou, querida. — Ela respondeu, antes de me beijar e levantar. — Vamos mocinho, estamos te esperando na água.

Dito isso ela começou a correr para longe de mim, estávamos em um barco branco, quanto mais ela corria, maior parecia ser o barco. E sem explicação alguma tudo começou a girar e uma sucessão de cenas começaram a passar rápido pelos meus olhos e ouvidos. Ouvi Vick chorar, papai e mamãe gritarem, ela chamar pelo meu nome, vários feixes de luz, muitas água, barulho de mar e trovões, algo se partindo, mais água e mais água [...]”

Acordei ensopado de suor, eu tinha sonhado de novo com o acidente, entendi como se fosse uma mau presságio para o que viria a seguir.

Notas finais
Gente, postei na véspera do meu aniversário. Um presentinho. Comentários? CAPÍTULO REVISADO