Tempestuoso

2 A Incrível Loja de Fantasias Sufjan


Notas iniciais
PROJETO POC REVISÃO - ESSE CAPÍTULO FOI REPOSTADO E REVISADO DIA 17/06/2018 Jessica! Um lindo e eterno bj para a minha beta Lara, se não fosse por ela vocês estariam lendo um monte de bosta. Nesse não tem música. Dois personagens muito importantes apareceram.

— Acorda, amorzinho.

Uma voz me chamou, seguido de um chacoalham.

— Acorda! – A dona daquela voz insistia em querer me acordar, ainda me chacoalhando.

Não resisti por muito tempo. As imagens daquele pesadelo ainda pairavam na minha mente e a melhor maneira de esquecê-lo seria abrindo os olhos.

— Já vou – respondi com os olhos semicerrados.

— Levanta! Quero sair cedo.

Ignorei-a, virando para o outro lado da cama. Impaciente, Vick puxou os meus lençóis, me expondo.

Abri meus olhos. Minha visão estava embaçada e tateei minha mão pela cômoda da cabeceira a sua procura.

— Está aqui – Vick me entregou.

Sentei-me na cama colocando os óculos. Agora enxergando com clareza, pude ver uma irmã mais velha impaciente com os braços cruzados, vestida com uma inadequada e apertada calça jeans clara e uma adequada camiseta larga lilás.

— O que foi? – ela me perguntou. Eu deveria estar abatido, não tinha dormido direito após as lembranças do dia do acidente e depois quando pegara no sono novamente, acabei por ter um pesadelo.

— Aconteceu de novo – sussurrei.

Ela sentou-se ao meu lado. Por mais egoísta que fosse, ainda possuía uma parte do código ético de irmã e companheira de tragédia em sua índole. Abracei-a, afundando a minha cabeça em seu pescoço. Ela possuía o mesmo aroma de nossa mãe.

— Com ela? Ou com o acidente?

— O acidente com ela e outro pesadelo com uma situação parecida. Eu estava me afogan...

— Não precisa dizer mais nada – Falou livrando-se do abraço. – Mas você deveria parar de ter tanto medo de água, acho que voltar a terapia poderia lhe ajudar, você nunca conseguiu superar de fato.

— Eu tento, mas você sabe como é difícil. – Encarei-a. Nós tínhamos os meus olhos amendoados, só que os delas eram mais puxados para a coloração castanha e os meus para a verde.

— Não adianta tentar, tem que querer. Como eu quis.

Fiquei em silêncio, ela estava certo, tinha funcionado também bem que era medalhista em natação. Mas eu não deixaria aqueles pesadelos ou meus problemas acabassem com o meu dia.

— Agora, se adianta – Falou, como se nada tivesse acontecido.

— Como assim? – Perguntei com falso desentendimento, sorrindo.

— Não me venha com esses sorrisinhos. Tem uma hora para se arrumar e tomar café. – Falou, ainda assim me retribuindo o sorriso e saindo do quarto.

[...]

Quando desci para tomar meu café, Vick já alimentava-se.

— Demorou. Ficou molhando o corpo em partes, ao invés, de molhar tudo de uma vez? – Seu tom era de ironia, mas ela sabia que eu seria capaz desse ato como método de amenizar o contato com a água. Não seria a primeira vez a criar meios criativos.

— Victoire como consegue ser tão desagradável com seu irmão logo cedo? – Emily se intrometeu.

Vick sorriu. Era um sorriso perigoso, usado especialmente quando iria falar alguma coisa particularmente desagradável, ofensiva ou ambas, e a encarou.

— Minha querida Emy, preocupe-se com os afazeres domésticos e não com a minha relação com o meu irmão. Mantenha-se no seu lugar de empregada, governanta ou a merda que for aqui dentro. — Como se tivesse acabado de dar “bom dia” para Emily voltou a atenção ao seu café da manhã, sorrindo.

— Não se importe com os comentários maldosos dela, sabe que é a parte mais importante dessa família. Bom dia, Emy. – Sorri para senhora, antes de agradá-la fortemente. – e não se preocupe, já estou acostumado com ela.

Emy” era a forma carinhosa que eu chamava a Sra. Emily White, uma idosa de quase oitenta anos que cuidava de casa, de mim, Vick e do papai desde o falecimento de nossa mãe. Ela trabalhava a décadas na minha família paterna, sendo contratada jovem para cuidar da minha avó, praticamente a criou, já que minha bisavó não se importava muito com o cuidado com os filhos. Depois foi trabalhar para minha avó quando esta se casou, ajudou a criar meu pai e ficou ao lado dela até a sua morte, retornando a trabalhar para família a pedido do meu pai. Morava conosco a dez anos e sei lá quanto vivia com a família, então, com toda certeza era a pessoa mais importante viva da família. Ela não tinha família, apenas uma neta que estudava na Sta. Agnes e quem tinha ido visitar no dia anterior.

— Eu nem escuto mais o que essa menina diz. Depois que ela foi para essa escola ela se transformou, na minha época não era assim. – Emy me respondeu, servindo-me o desjejum.

Agradeci-lhe e trocamos sorrisos. Minha irmã bufou e revirou os olhos. Fato curioso é que Emily tinha sido bolsista na Santa Agnes na juventude.

— Mas o que ela disse é verdade? – Ela sussurrou perguntando no meu ouvido.

Consente com a cabeça, envergonhado. Sempre que eu tinha esses pesadelos, a água parecia me incomodar ainda mais do que nos outros dias e era vergonhoso admitir que tomava um banho de gato quando acontecia.

— Não precisa se envergonhar, acontece...

— Eu tive dois pesadelos essa noite – interrompi-a, também sussurrando.

— Eu sei que são terríveis, mas você tem que aprender a separá-los da realidade. Seus sonhos não devem intervir tanto no seu dia-a-dia. – Ela fez um carinho no meu rosto. – Ou acabará transformando os sonhos em realidade. Ou melhor, os pesadelos em realidade.

Beijei a sua mão. Emily era tão carinhosa e atenciosa, cheirava a canela, ela era a minha pessoa favorita no mundo, não me via bem sem a sua companhia. O que era o oposto com Vick, a afirmação de Emy sobre a mudança dela depois de começar a frequentar a Santa Agnes era verdadeira, se antes minha irmã ao menos a respeitava, hoje em dia, nem isso. Eu tinha uma leve desconfiança de que ela tinha ciúmes da minha relação com Emily, mas deveria ser só coisa da minha cabeça.

— Eu sei. Eu tento, mas parece ser impossível – Lamentei-me.

— Sobre que conversam? – Vick nos interrompeu.

[...]

— Seu carro é o de uma menina malvada colegial. — Foi a primeira coisa que falei ao ver o veículo da minha irmã.

Vick me encarou, atônita.

— Não quero dizer que você é malvada, mas o modelo é igual aos que uma mean girl teria em um filme. – Tentei explicar-me.

— Esse seu comentário só mostra ainda mais como você é um idiota e que deveria continuar estudando em casa, porém preciso de você para poder sair. — Falou revirando os olhos. — Não ache que o ensino médio é como nos filmes, na realidade são bem piores.

— Não, é sério – Sorri, tentando quebrar o clima estranho entre nós. – É um New Beetle rosinha todo branco por dentro. — não que eu conhecesse de carros, mas aquele era um modelo marcante.

— É um clássico. Tem estilo e combina com a dona – Vangloriou-se, entrando no carro e esperando-me. — Eu mesma que escolhi quando papai me deixou ganhar no aniversário de 16 anos.

— Onde fica a loja? – Perguntei, entrando no carro e tentando não sujá-lo. O que era particularmente difícil por ter um interior tão limpo e branco.

— No centro, perto do fórum municipal e já fique avisado que não quero você falando comigo enquanto dirijo, porque odeio conversar e dirigir ao mesmo tempo.

— É muito para você? – Falei em tom de brincadeira.

— É muito sim e no seu caso, vai ser ainda mais difícil respirar quando eu quebrar o seu nariz, o que virou piadista? – Ameaçou-me.

Quando começou a realmente dirigir, calei-me. A direção de Vick era prudente e controlada, diferente da sua personalidade.

Vivíamos em uma pequena e pacata cidade no interior da Pensilvânia, que ao contrário da predominância nacional possuía uma população extremamente católica. O que não era para menos, porque o mais importante que se existia naquele lugar era o Internato Sta. Agnes, para onde eu iria daqui alguns dias e onde minha irmã estudava. O ruim de uma cidade pequena era que todo mundo ficava sabendo de tudo e que cada pequena deturpação acontecia além da normalidade pacata, se tornava uma grande coisa e assunto para as rodas de fofocas por dias. “A dos Carters, vai ser mãe”, esse era o tipo de assunto que o povo daquela cidade gostava de comentar e eu sabia disso através de Emily, a única até ao ingresso de Vick na Sta. Agnes, que fazia parte do ciclo social. Papai parecia detestar os outros moradores, por isso não fazia questão de se relacionar com ninguém, ele trabalhava em outra cidade próxima maior, por isso nem no ambiente de trabalho os encontrava diretamente. Vick e eu acreditávamos que existia mais nessa história que apenas aversão aos moradores, pois antes do acidente, fazíamos parte da vida social.

A vontade dele de mantermos afastados da sociedade da cidade deu certo até o momento em que Vick entrou na Santa Agnes e lá passou a conviver com a maioria dos filhos dos moradores locais. Papai agora dizia que a tinha perdido, que tinha mudado muito, eu temia que o mesmo acontecesse comigo, não queria decepcioná-lo como minha irmã segundo a sua visão. Ao contrário de mim, Vick tinha frequentado escolas antes do ensino médio, só que em cidades vizinhas.

Ao chegarmos ao centro da cidade, que não era muito longe, deparavamos com todas as opções de serviço, comércio e lazer que poderiam oferecer, o que não era muita coisa. A edificação de maior relevância era a Igreja na praça central dedicada a Santa Agnes, o restante se desenvolvia a partir da igreja.


— Não sabia que havia uma loja de fantasia na cidade. – Comentei, enquanto contornavamos a igreja, poucos moradores já andavam pela praça e frequentavam o comércio.

— Nem eu mesma sabia. Comentaram comigo na escola antes das férias.

— Já estamos chegando?

— Sim, é na próxima rua à direita.

Vick fez um pouco de ziguezague até parar em frente a uma loja, que qualquer um poderia jurar que estava fechada desde a queda do muro de Berlim. A vitrine era meio opaca, como se o vidro tivesse grudado tanta poeira ao longo dos anos e fosse impossível limpá-los para ter uma condição decente de nitidez. O letreiro estava em piores condições que vitrine, pintado a tinta estava na mais eufemista das palavras: gasto.


— Tem certeza que é aí? – Apontei para o lugar decrépito, enquanto saímos do veículo.

— Tenho sim, olha – Ela mostrou na tela do celular o endereço da loja que lhe tinham enviado e o trajeto que percorremos de casa até o local.

Vick foi atrás de uma parquímetro e eu fiquei parado observando os manequins na vitrine, ele estavam em posições ridículas e alguns com braços, pernas ou cabeça faltando, as fantasias que vestiam fazia justo ao conjunto da fachada.

— Imagino até o tipo de roupa que eles vendem, se for comparar com as da vitrine. — Comentei quando ela retornou.

— Não seja tão dramático. – Ela revirou os olhos.

O sol estava forte naquela manhã, no pouco tempo de exposição minha pele sensível já dava sinais de reação, avermelhando-se.

— Detesto sol! – Comentei, olhando para os meus braços.

— Eu amo. — Isso era nítido para qualquer um que a olhasse, com um bronzeado perfeito, que ela preservava com as frequências a piscina de casa durante todo verão.

— Ele incomoda, fico todo vermelho e ardido. Por mim, poderia pular o verão todo ano.

— Não mesmo! Por mim mudaríamos para a Flórida, perto do mar e de tudo mais, calor por mais.

— Deus me livre! Só de pensar no mar e no sol, minha pele arde ainda mais.

— Não posso fazer nada se você possui uma pele de boneca de porcelana. – Alfinetou-me, deixando escapar por entre os seus lábios um sorriso de escárnio.

Preferi manter-me calado, fazendo apenas uma expressão de desgosto enquanto ela se dirigia para a porta surrada de madeira que descascava sua tinta verde-musgo entre as vitrines.

— Ficou muxoxo, anjinho? – Perguntou-me ao perceber o azedo em minha face.

Não lhe respondi, limitei-me a segui-la e entrar na loja. A melhor expressão que poderia ser dita para o conjunto daquela loja seria: “Não julgue um livro pela capa.”, pois internamente era o completo oposto do exterior.

Internamente a loja parecia ser dividida em quatro grandes paralelepípedos, alinhado de forma não simétrica que lhes garantia movimento, como se tivessem deslocados. Cada um possuía um tom específico pastel, um era azul, outro verde, rosa e lilás. Seguiam de modo que setorizavam a sua área pela sua cor, o primeiro era o verde, depois o azul, lilás e por último o rosa. As fantasias ficavam espalhadas por essas áreas como nas lojas comuns.

— Uou! – Vick exclamou. – Por essa nem eu esperava.

— Parece até cenário de um filme ou clipe. – Falei abismado.

Cada detalhe na decoração parecia ter saído direto de um mundo pop, tinha quase certeza que uma Lady Gaga Ou Katy Perry apareceriam no meio das fantasias. O lugar se tornava ainda mais extraordinário se comparado com as lojas locais, onde tudo parecia ser sem graça e monocromático.

— Vamos – Vick puxou-me, tirando-me do estupor de admiração. – Parece que é bobo, admirando uma loja.

Eu poderia dizer que ela tinha ficado tão impressionada quanto eu, mas apenas deixe-me ser levado. Estávamos já no espaço verde, logo a frente ficava uma espécie de recepção amarela na mesma paleta das outras cores, uma mulher estava lá e foi ela que nos recebeu.

— Olá bom-dia, meu irmão e eu gostaríamos de comprar algumas fantasias. – Minha irmã cumprimentou-a com um tom formal e cortês, diferente, ou melhor, oposto ao seu habitual comigo.

— Bom-dia, sejam muito vindos a Incrível Loja de Fantasias Sufjan. – Ela parecia entusiasmada, nós poderíamos muito bem ser os primeiros clientes em dias. – Aqui vocês encontrarão a maior variedade de fantasias do estado, se possível, de toda a Costa Leste […] – O discurso parecia decorado, como o de padrão da loja, mas a empolgação era evidente. – [...] vocês agora poderão ser melhor guiados pela loja por uma de nossas vendedoras. – Ela continuou falando. — Annia, por favor, guie-os.

Olhamos para trás e vimos a jovem vendedora que deveria ser um pouco mais velha do que Vick, estando provavelmente na idade universitária. Suas feições eram parecidas com a da recepcionista, deveriam ser mãe e filha, pois compartilhavam os meus lábios finos, os meus olhos caramelados e a mesma pinta no extremo do olho esquerdo.

— Bom-dia, meu nome é Annia e em que poderia ajudá-los? – Até a sua voz era parecida com a da recepcionista.

— Eu e meu irmão queríamos comprar duas fantasias, uma para ele e outra para mim – Vick respondeu.

— Já possuem algum modelo em mente?

Abri minha boca para responder, só que minha irmã foi mais rápida.

— Eu pensei em algo marinho, aquático para nós dois.

O tema não poderia ser mais infeliz, não teria nada pior que se fantasiar com uma coisa relacionada ao meu maior medo. Não devo ter conseguido disfarçar minha expressão de descontentamento.


— Para os dois? – Annia voltou a perguntar ao notar a minha estupefação.

— Sim – Vick confirmou com um aceno de cabeça, ignorando-me.

A vendedora virou as costas para nós por alguns instantes enquanto pensava em onde poderia encontrar os modelos com essa temática até por se decidir olhar no mapa esquemático da loja.

— C-como? – Gaguejei perto do ouvido da minha irmã.

— Como, o quê? – Fez-se de sínica.

— Como pode querer que eu use algo com esse…

— Isso já foi a tanto tempo, você tem que superar, não consegue nem se fantasiar com algo relacionado ao mar. — Revirou os olhos.

— Vick, por favor, pelo menos considere...

— Pelo menos o quê? Sério, Blake. Sou a atleta de natação da escola, não acha que devo ir vestida com algo relacionado aquilo que sou melhor e levo fama?

— Mas no que isso eu tenho haver?

— Vai ir vestindo com o que e quero para passar uma primeira boa impressão e ser legal. — Usou o tom imperativo de sempre

Quando ia responder, Annia virou-se.

— Qual dos dois seria primeiro?

— A minha. – Vick respondeu.

— Por aqui, queiram, por favor, me seguir.- Ela nos guiou para o interior das lojas por entre as fileiras de fantasias, passamos por toda a área verde, azul até para no meio da rosa.– Aqui se encontra a maior parte dos modelos relacionados diretamente com essa temática feminino. Apesar de termos um grande estoque, as opções são um pouco limitadas – Falou, passando a mão por um conjunto de fantasias à nossa frente.

Vick iniciou uma busca incessante para a fantasia perfeita, a escolha mais óbvia e em maior quantidade seria a de uma sereia, porém ela se recusava convictamente, até de experimentar qualquer modelo que remetesse diretamente uma sereia.

— Não vou usar o que todos esperam... – Dizia, enquanto a vendedora tentava ajudá-la.

Os outros modelos não eram nada usáveis, segundo as concepções dela. Temi por minha fantasia – se era tão crítica com a sua, com a minha, com certeza, não seria diferente.

— Não acredito que vocês têm a coragem de vender ou alugar essa coisa... – Comentários como esses ela soltava esporadicamente, quando via algo considerado horrível por ela, deixando tanto Annia, quanto eu, constrangidos. Vick precisava reaprender a tratar melhor as pessoas.

Eu decididamente estava querendo desistir de ir naquela festa. Minha única e exclusiva razão de ir era para agradar e satisfazer as vontades da minha irmã, que não fazia o mínimo de esforço em ser legal.

— Hey! Estou falando com você! – Ela quase gritou no meu ouvido, a paciência não era um dos seu fortes.

— O que, Vick? – Perguntei com calma.

— Não se faça de sonso, detesto quando faz isso. Não escutou o que falei? Me ajude com a fantasia.

Até aquele momento, eu tinha me mantido indiferente à busca, mas com a sua convocação acabei por também revirar as fantasias femininas. Porém, acabei sendo dispensado dessa função após sugerir uma fantasia de lula.

— Já parou para pensar que o que procura pode não estar diretamente ligado ao seu tema? – Sugeri. — Vai encontrar os modelos masculino na seção azul e verde, especificamente seu tema entre as duas.

Ela me fulminou com os olhos, um aviso claro de que estava prestes a explodir. A vendedora também percebeu a iminência, por isso acabou sugerindo que eu já fosse escolher o meu modelo.

— Acho melhor você sair mesmo, já está me irritando, Blake. Mas saiba que qualquer modelo que escolher terá que passar por minha aprovação antes. – Vick falou enquanto distanciava-me.

Eu poderia muito bem me opor a essa vontade, entretanto o dinheiro estava com ela, então seria uma batalha incessante entre nossas vontades e no final a dela sempre prevaleceria, por isso preferia evitar o combate.

Aquelas centenas de fantasias me confundiam, passei por fileiras e mais fileiras dessas vestimentas tendo como única orientação as cores de cada área e a distância entre elas. Conforme andava distraído, pouco reparava no que acontecia ao meu redor, por isso, acabei trombando com alguém.


— Me desculpe. – Falei, após o contato entre os corpos fazerem meus óculos caírem.

— Olhe por onde anda – Uma voz rouca carregada de sotaque falou.

— Me desculpe, não foi minha intenção...

Parei de falar quando tentei enxergar o seu rosto e vi apenas borrões. Eu era praticamente cego sem óculos, por tanto, quando perdia-os ficava completamente desorientado. Sem outra alternativa, ajoelhei-me no chão, ficando de quatro,tateando por toda a sua extensão à procura dos óculos. Senti o farfalhar de roupas se movimentando.

— Por favor, pode me ajudar com os meus óculos? – Pedi ao desconhecido que trombara.

Ele soltou uma risada anasalada.

— Quer que eu te ajude? O cara que acabou de me dar um encontrão? – Percebi a ironia no sotaque.

— Sim, porque esse cara aqui é praticamente cego sem óculos e precisa de ajuda para achá-los – Minha voz saiu impaciente, o jeito daquele cara irritava-me.

Ele se manteve impassível. Continuei a engatinhar a procura até que toquei nos seus pés.

— Não estão aqui. – Falou debochado, estava se divertindo com a minha situação.

— Nem tinha percebido – Resmunguei irônico. – Pode pelo menos não atrapalhar? Tenha bons modos, céus!

— Dê meia volta e encontrará em poucas engatinhadas, os seus preciosos óculos – Falou afastando-se.

— Obrigado – Gritei.

Fiz o que ele mandou e encontrei-os. Assim que coloquei-os, Vick e Annia entraram no corredor.

— O que faz aqui? – Vick perguntou-me.

Uma pequena dor de cabeça latejava-me.

— Esbarrei em um mal-educado e deixei os óculos caírem – Expliquei.

— Ótimo! Agora pode tomar vergonha na cara, sair do chão e me deixar escolher a sua fantasia. — Ela ignorou o que falei, percebi que tinha escolhido a sua fantasia pois já estava embrulhada no tecido para viagem.

Annia ajudou-me a levantar e nos orientou até a seção masculina aquática. No trajeto, descobri que minha irmã tinha desapegado um pouco da temática e estava sendo mais flexível a outras opções.

— Graças a Deus! – Agradeci, quando a vendedora terminou de me contar.

— A fantasia que sua irmã escolheu é mais associado ao vintage, fantasia de época, do que necessariamente com algo aquático. — Comentava baixo para Vick não ouvir, esta estava um pouco a nossa frente.

Ainda no trajeto passamos por outra vendedora com um cliente, suspeitei que fosse o mesmo que eu esbarrara, pois não lembrava de ter qualquer pessoa quando chegara até o encontrão.

— Blake, eu vou usar uma espécie de maiô de vedete, então nossa fantasia vai ser mais de época. – Vick esclareceu-me o que já sabia.

Senti um par de olhos nos observarem.

— Sim – Respondi animado, ignorando o telespectador.

— Não fique animadinho porque não fiz por você. O modelo que vi, era perfeito, então eu tive que comprá-lo. independentemente de ter mudado de ideia ou não, o maiô por si só, já remete ao que eu queria. – Ela dificilmente reconheceria que mudara de ideia.

Arqueei uma sobrancelha, deixando claro que não acreditava naquela desculpa.

— Não me faça essa expressão – Sua voz possuía um tom de diversão, a sua fantasia deveria ser mesmo incrível para deixá-la afável.

Censurei-lhe com o olhar e comecei a analisar as fantasias. Vick não me deteve, deveria ser uma forma de recompensar pela grosseria mais cedo. Ao contrário dela, não me demorei muito na escolha, uma fantasia em especial chamou-me a atenção, logo tratei de pegá-la, porém fui surpreendido quando outro par de mãos também a segurou.

Olhei para o dono daquele par de mãos e era o mesmo garoto que estava sendo atendido pela outra vendedora próximo de nós, mas agora estava ao meu lado.

— Poderia soltar, por favor? – Pedi sorrindo, tentando ser o mais cordial possível.

Vick, Annia e a outra vendedora estavam entretidas em uma conversa e não prestavam atenção no embate que acontecia.

— Não. — Pelo o seu “não” identifiquei que era a mesma pessoa que eu trombara, um sotaque inconfundível. Na expressão parecia estar divertindo-se.

— Não? — Meu tom de voz deu uma leve descontrolada.

— Não. — Sorriu, impondo-se, era consideravelmente mais alto que eu.

Ficamos nos encarando por um tempo, pude tomar mais detalhe das suas feições. Ele era branco, menos do que eu, seus olhos eram azuis e profundos, como um céu pouco antes de escurecer. Seu sorriso era bonito, mesmo que provocativo, percebi que seus caninos eram levemente salientes e marcavam-lhe os lábios, que eram grossos e combinativos ao rosto de maxilar marcado. Acreditava que ele não deveria ser muito mais velho do que eu.

— Não, não é uma opção. — Falei com calma, puxando levemente a fantasia para mais próximo de mim.

Ele fez o mesmo, a tensão ficou maior, fulminamos um ao outro, chamando a atenção dos demais. O seu sorriso cínico, irritava-me ainda mais.

— Algum problema, senhores? – Perguntaram as duas vendedoras um pouco aflitas.

— Estamos em um impasse, senhoras — Ele respondeu charmoso, sem desviar ou aliviar a força sobre a peça que segurávamos.

— Blake! – Vick, chamava a minha atenção – Por que briga com esse moço tão… Novo? — Olhei-a incrédulo, ela parecia impressionada com a aparência do meu rival, deveria ficar do meu lado, não dele, mesmo ele sendo bonitão. — Larga isso aí, escolhe outra coisa e para de implicar com ele. — Inacreditavelmente ela estava flertando com o desconhecido na minha frente.

— Não! – Respondi com veemência – Ele que está implicando comigo, não querendo largar a fantasia que eu peguei primeiro.

— Por que não escolhe outra? – Ela sugeriu ainda olhando de modo sedutor para o desconhecido, na verdade não desviava a atenção dele.

— Porque eu a peguei primeiro – Respondi, segurando a fantasia com mais força. Vick não estar do meu lado, fazia-me ficar com mais raiva do desconhecido.

— Tecnicamente nós a pegamos juntos. — Ele falou.

Balancei a cabeça em negação.

— Blake – Senti as mãos de Vick nos meus ombros. – Deixe-o ficar com essa e escolha outra, não vê que ele deve ser novo na cidade e você está dando uma péssima impressão sobre os moradores?

Descaradamente, ela deu-lhe uma piscadela, que foi retribuído com um sorriso.

— Sim, ele realmente está passando uma péssima impressão dos moradores daqui. — O garoto retribuiu o flerte.

— Então, você realmente é um forasteiro? E qual seria o nome desse forasteiro?

— O forasteiro se chama Yerik, me mudei essa semana com a minha mãe, ela morou aqui na infância. — Eles começaram a conversar como se nada tivesse acontecido.

— Nome interessante, diferente, gostei. Sou Vick, a irmã da criança aqui. Vai estudar no Sta. Agnes? Pelo nome e sotaque você não é do país, não é?

— Sim, acabei de mudar com a minha mãe da Bulgária, ela é americana, meu pai era búlgaro. Estou matriculado nesse internato que você falou, no primeiro ano.

— Primeiro ano? – Senti um pouco de decepção na sua voz. – Mas com o seu porte, vai fazer parte de alguma equipe de esporte? Digo olha o seu tamanho, tem o quê quinze? — Vick era ligeiramente invasiva, mas não estava errada em relação a ele, ele tinha a altura dela.

— Eu pretendo entrar na equipe de natação, praticava antes no meu país e eu ainda tenho catorze.

A idade dele pegou até eu de surpresa, eu era mais velho do que ele, mesmo a aparentando exatamente o contrário. Conforme conversavam, sua mão ia afrouxando.

— Então, será meu companheiro de equipe – Sua voz transpareceu um pouco de entusiasmo. — Sou a capitã da equipe de natação.

— É capitã? E todo mundo na sua equipe é bonita como você, ou apenas mérito próprio?

Aquele flerte era “nojento”, mas me foi último para poder puxar a fantasia para mim, livrando-se das mãos dele.

— Que falta de educação – Vick censurou-me.

“Aprendi com minha irmã”, pensei.

— Sabe, Bleika, eu poderia tomar-te a fantasia, mas como tem uma irmã adorável pode ficar com ela.

— Não lhe agradeço, porque já era minha de qualquer forma e meu nome é BLAKE. — Falei meu nome pausadamente.

— Não ligue para meu irmão. — Vick falou sorrindo, sem desviar os olhos dele.

— Querem ajuda? – Pela primeira vez as vendedoras manifestaram-se. Ao meu ver, nenhuma das duas mereciam receber a qualificação de “funcionária do mês” por sua passividade com a situação.

Cutuquei Vick e lhe mostrei a fantasia, ela analisou por alguns instantes e falou:

— Não gostei, Yerik pode ficar com ela. — Dito isso, para minha total indignação e humilhação, entregou ao meu rival o objeto de nossa disputa.

Atônito, fiquei sem saber o que falar.

— Obrigado, gracinha. Nos vemos na Sta. Agnes. — Yerik saiu, acompanhado de sua vendedora, com a minha fantasia, sorrindo. — Até lá também, Bleika. — Ele riu de mim.

— Tome, essa aqui. – Vick pegou uma fantasia qualquer no mostruário e jogou nos meus braços. — Já tinha escolhido essa para você. — Completou.

— Não acredito que você fez isso comigo! – Sussurrei-lhe, indignado, não ia fazer um escândalo no meio da loja.

— Pare de ser dramático e de agir como uma criança. – Ralhou comigo. — Veja a ótima fantasia que escolhi para você. — Ela olhava ainda por onde Yerik tinha ido.

— Se fosse comigo...

— Shhiii!

— Ainda ficou flertando com ele.

— Ele é bonito, porém é muito mais novo.

— Ele tem a minha idade.

— Como eu disse, bem mais novo.

— Vick, por que você sempre faz isso comigo?

— Isso o quê? Sou uma ótima irmã.

— Tem quem não ache. – Falei inaudível o suficiente para não escutar-me.

— Já parou para pensar que vocês podem acabar dividindo o dormitório? — Eu estava olhando a fantasia escolhida por ela quando escutei isso.

— O quê? Não, jamais! Não mereço esse castigo – Na Sta. Agnes os dormitórios eram divididos por uma dupla do mesmo gênero. — E eu gostei da fantasia.

— Ótimo, então já podemos fechar a compra. — A vendedora que nos escutava, interrompeu-nos.

[...]


Estávamos voltando para casa quando arrisquei-me puxar conversa com a Vick dirigindo, coisa que ela já tinha deixado claro que detestava.

— Você não tinha alguém no Sta.Agnes? – Perguntei-lhe.


Não que eu fosse fofoqueiro ou nada do tipo,mas eu já havia a escutado conversando com um mesmo cara várias vezes.

— Tenho, mas é sempre bom manter as opções em aberto, além do mais, Yerik não lhe oferece perigo, se está perguntando isso porque paquerei o menino.

— Você gosta dele?

Ela não me respondeu, foi a primeira vez que a vi ficar calada, nem sobre o acidente era assim. Manteve os olhos na estrada e não falou nada.

— Qual o nome dele?

— Marc.

— Ele é do seu mesmo ano?

— Sim.

— Namoram?

— Mais ou menos, nada muito certo. Mas por que esse interrogatório? – Tinha perdido a paciência.

— Nada, Vick. Só quero lhe conhecer melhor.

— Sei... Você é estranho, sabia?!

— Isso é bom ou ruim?

— Ruim, ninguém quer ser amigo ou acha as pessoas estranhas legais e exatamente por isso que vai fazer o que eu mandar na festa. — Voltou a reiterar.

— Sim... — Fiquei por alguns segundos em silêncio até decidir abrir uma insegurança com ela. — Você acha que eles gostarão de mim?

— Com as minhas dicas, sim. E outra, você é adorável. Quem seria louco ao ponto de não gostar de você? – Sorriu-me, dando uma piscadela complacente. — Mas agora, cala boca que eu estou dirigindo.

Notas finais
Só sonhamos com pessoas que já vimos. Quero saber a opinião de vcs sobre a minha doce Vick. PROJETO POC REVISÃO