Tempestade
4 Bella - Encontro
Notas iniciais
— Vamos Alec! Eu preciso ir! — Eu grito da sala, terminando de ajeitar meu material para mais uma segunda feira. Alec está demorando como toda segunda em que ele tem que ir comigo para a escola.
Acontece que, como sou professora, preciso chegar um poco mais cedo para organizar a sala e a aula do dia, mas Alec odeia este fato, pois detesta acordar mais cedo do que deveria.
— Alec, você ouviu a Bella? Vamos logo com isso! — Riley grita bem chateado, já com a cara enfiada no notebook verificando emails na bancada da cozinha. — Merda, o chefe vai está uma fera hoje! — Ele exclama e toma um gole de café enquanto eu ajeito a gola de minha blusa azul escura da farda.
— Se estressando tão cedo Riley! — Eu digo irônica e reviro os olhos. Ele me olha com cara de pouco amigos.
Nosso domingo foi péssimo. Primeiro, Alec não quis fazer nenhuma das programações que Riley propôs, só queria ficar no Xbox o dia inteiro. Segundo, ele ficou com uma dor de cabeça forte depois de discutir por horas com o menino. Terceiro, nós brigamos no fim do dia.
Eu disse ao Riley que estava pensando em parar com o ACO (anticoncepcional oral) devido a alguns mal estares que venho sentindo ( não é tudo mentira, de fato, tenho sentindo algumas coisas, mas o intuito maior é convencê-lo a termos um filho) e ele se irritou muito. Me mandou procurar outro meio de evitar um filho e tal, porque ele detesta usar camisinha (na verdade ele tem preguiça de parar a coisa para colocar a bendita, tenho certeza que foi assim que Alec veio ao mundo).
— Tive um fim de semana difícil e minha esposa ao invés de me ajudar a relaxar, só piorou as coisas fechando as pernas para mim. — Ele diz incisivo.
— Epa, eu não fechei as pernas para você. Só lhe disse que parei a pílula. Você que ficou com preguiça de ir comprar uma camisinha na farmácia, querido. — Eu digo irônica e bebo dois goles do meu café com creme.
— Bella, eu já disse que agora não dá! Não preciso de outro Alec na minha vida! — Ele exclama e as lágrimas enchem meus olhos. Eu o encaro e ele percebe que falou merda. — Não, não foi isso que eu quis dizer... quer dizer... nós vamos ter um filho... um dia!
— Para Riley! — Eu digo tentando me recuperar do baque de suas palavras – O problema aqui não é o nosso possível filho. O problema é que você está destruindo cada plano que nós, eu e você, fizemos quando nos casamos, por causa de seus problemas. — Eu respiro fundo – Alec já existia quando você me prometeu que teríamos a nossa família juntos. Já fazem 3 anos que eu vejo você adiar nossos planos, Riley, e eu sempre estou do seu lado. Mas chega uma hora que a corda arrebenta de tanto ser puxada. — Eu fito seu olhar confuso – Eu tô cansada do ritmo que as coisas estão por aqui. — Eu digo incisiva e me viro para colocar a caneca na pia. — Estou atrasada já, leve você o seu filho para a escola antes de ir para o trabalho. — Eu digo e vou para sala pegar minhas coisas.
— Bella! Isabella! — Ele me chama, mas eu sigo meu caminho firme. Saiu do apartamento, desço pela escada e entro no meu carro com uma sensação de liberdade repentina.
Riley e eu sempre fomos um casal que conversava sobre tudo, mas com o passar do tempo, ele parou de levar o que eu penso ou o que eu quero em conta na hora de decidir coisas sobre nossa vida. Pode até parecer besteira, mas eu não gostei, por exemplo, dele ter escolhido o destino da última viagem que fizemos. Ele nem me sondou para saber se eu gostaria de ir para o Canadá. Ele simplesmente chegou com as passagens compradas e avisou o dia da viagem.
Isso é só para dar um exemplo de como tenho aguentado algumas coisas a mais do que deveria por aqui. Eu suspiro baixo enquanto o sinal abre e eu viro uma esquina. Será que eu estou sendo egoísta ou estou certa? Essa dúvida vive me corroendo por dentro a cada vez que nós brigamos. Mas eu sei que o que eu estou pedindo dele é somente aquilo que ele me prometeu, aquilo que sempre quisemos juntos. Ou eu acho que ele também queria, já nem sei mais.
Estaciono na área reservada aos professores e me encaminho para a secretaria. Pego algumas orientações da semana, converso um pouco e vou para a sala dos professores. Deixo as provas corrigidas da semana anterior no meu mezanino e vou para a minha sala. Enquanto abro as janelas, observo a pequena Alice chegar com um homem diferente. Conheço os pais dela, pois ambos já conversaram comigo, mas aquele senhor não parecia ser um estranho, pelo contrário, Alice parecia muito confortável com ele. Eles adentram o portão e eu fico imaginando porque os pais da menina não a trouxeram hoje, o que me faz lembrar do que ela me contou e de como os exames dela foram abaixo do padrão.
Eu suspiro e vou para a minha mesa para aguardar o sinal bater. Não demora muito para eu ouvir a voz de Alice da porta.
— Tia Bella, bom dia! — Ela diz com uma voz forçadamente alegre. O que está acontecendo? Eu me pergunto. Ao lado dela está o homem desconhecido. Eles entram e se aproximam da minha mesa. Eu me levanto. — Este é o meu tio Ed, ele quer falar com a senhora. — Ele complementa meio triste.
Eu me inclino para ela e lhe dou um beijo de bom dia. Ela sai para o pátio para aproveitar os últimos minutos antes da aula.
— Bom dia! Sou Edward Cullen, tio e padrinho da Alice. — O homem se apresenta formalmente com uma voz grave e aveludada. Ele tem um olhar firme e penetrante. Olhos verdes intensos e cabelos acobreados. Lindo.
— Bom dia! — Eu respondo e aceito sua mão estendida. Ele me surpreende me dando um beijo no dorso na minha mão ao invés de só apertá-la. Eu coro levemente – Eu sou Isabella Biers, a tia Bella. Nós sorrimos.
— Certo, srta Biers... — Ele começa.
— É Sra Biers – eu digo constrangida e ele fita minha mão esquerda – Mas me chame somente de Bella.
— Oh me desculpe! Você me parece tão jovem, não imaginei que já fosse casada. — Ele se corrige.
— Não se preocupe. Não é a primeira pessoa que me diz isso. De fato, casei um pouco mais cedo que a maioria. Mas não sou tão jovem assim como pensa. — Eu respondo e ele me olha enigmático. Senhor, que olhar penetrante que este homem tem! Me deixa desconfortavelmente aquecida.
— Bom. — Ele diz parecendo retomar a consciência do porquê está aqui – Eu gostaria de falar com você sobre a Alice. — Ele começa e suspira. — Ela passou o final de semana em minha casa pois os pais tiveram uma briga feia no sábado e o pai dela, meu irmão, saiu de casa. — Ele diz e eu ficou chocada.
— Oh meu Deus! — Eu digo e coloco a mão no peito – Pobre Alice! Sabe, na sexta feira eu conversei com ela, pois notei uma mudança nela durante a semana. Primeiro eu achei que fosse por conta dos exames que tivemos durante a semana, mas depois vi que não era. Ela falou que os pais tem brigado muito e ela estava muito triste com isso. Eu sugeri que ela contasse aos pais como se sente e que os chamasse para fazer algo legal no sábado.
— Bom, meu irmão e minha cunhada têm realmente brigado muito nos últimos tempos. Não é a primeira vez que eu tenho que tirar a Alice de lá para que ela não fique no meio do fogo cruzado. — Ele diz meio derrotado – Detesto ver minha sobrinha sofrendo. E o pior é que vai ser inevitável, pelo que percebi desta vez é definitivo. Eles vão se divorciar. — Ele conclui e eu sinto meus olhos marejarem.
Não me julguem. Sou professora a tempo suficiente para saber dos estragos que um divórcio pode causar numa criança, fora que eu mesma tive que sobreviver ao divórcio dos meus pais aos 10 anos.
— Tadinha da Alice! — Eu digo encostando no quadro negro. — Ela vai sentir muito essa separação. Ela adora os pais! — Eu digo e ele confirma com a cabeça.
— Sim, ela vai. Por isso preciso de sua ajuda. — Ele diz e eu foco minha atenção nele – Alice adora você. Ela sempre fala em como a professora deste ano é fantástica e tudo mais. — Ele diz e eu coro levemente – e agora, que te conheço, devo concordar com minha sobrinha. Você é realmente encantadora Bella e parece levar a sério o compromisso com sua profissão. — Fico aquecida demais com seu olhar sobre mim e acabo desviando – Minha esposa é madrinha de Alice, mas sei que ela não conseguirá dar o suporte feminino que Alice precisa. Meus pais moram um pouco afastados da cidade e trabalham bastante. Sei que você tem outros alunos, mas gostaria muito que me ajudasse a ajudar a Alice a passar por isso.
— Não tenha dúvidas de que ajudarei. Ela não é minha primeira aluna que passar por isso, mas eu conheço Alice o suficiente para saber que ela vai precisar de um apoio maior. — Eu digo voltando a fitá-lo – Fico muito feliz dela te ter como padrinho e tio. É importante que a família se empenhe em fazer essa fase ser o menos dolorosa possível.
Ele sorri torto e se aproxima um pouco de onde estou. Ele pega minha mão.
— Muito obrigada Bella! Saber que posso contar com sua ajuda é muito bom. — Ele suspira – Minha esposa não sabe lidar muito bem com estas questões complicadas de família. — Ele conclui contrariado.
Céus, é claro que um homem desse tinha que ser casado, né? Ei! Que merda foi essa que eu pensei agora? Eu sou casada!
— Fique tranquilo, no que eu puder ajudar, estarei aqui. Dentro e fora da escola. — Eu digo e me vejo fazendo algo que quase nunca faço. Pego um papel e anoto meu número de telefone celular. — Aqui está o meu número, caso precise se comunicar comigo. — Eu estendo o papel a ele que me sorri.
— Obrigada. — Ele diz e nessa hora o sinal bate. — Bom, vou indo. Até mais, Bella!
— Até mais, senhor Cullen! — Eu respondo acenando.
— Apenas Edward, por favor! — ele diz e tira um cartão do bolso de sua camisa. — Meus contatos. — Ele diz e vai embora.
Eu aceno e olho o cartão. Cirurgião geral e pediátrico. Claro, ele tinha que ter uma profissão firme e altruísta mesmo. Eu guardo o cartão no meu bolso e começo a cumprimentar os primeiros alunos que adentram a minha sala.
O dia passa tranquilo. Durante o intervalo do almoço eu converso um pouco com Alice e percebo sua tristeza. Anoto, então, em seu diário, para que ambos os pais dela venham até a escola o mais breve possível. No fim da aula, me despeço como sempre de meus alunos e faço minhas anotações finais no relatório diário.
Fico pensando em Riley e no possível mal humor que ele deve estar esta noite. Estou sem paciência para ele e suas reclamações. Também estou sem vontade de cozinhar. Decido então dar uma volta depois do trabalho e acabo numa Starbucks, onde peço um cappuccino e um docinho. Mando uma mensagem para Riley avisando que vou chegar tarde para ele jantar pela rua. Pego um livro da minha bolsa e começo a ler aproveitando a calmaria do ambiente.
Não sei quanto tempo passa, mas sei que já anoiteceu quando sinto alguém se aproximando. Eu não desvio minha atenção o livro está muito bom. Porém quando ele fala comigo não tem como não encará-lo.
— Bella!? — Edward Cullen pergunta bem na minha frente. Ele veste a mesma roupa, porém seu semblante está bem cansado. Nossos olhos se conectam e por mais desconhecidos que possamos ser, eu sinto uma estranha sensação de familiaridade ali.
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