Tempestade
2 Presente de grego
Notas iniciais
Blue Sky, Minnesota. Dias atuais.
Ela sabia que era só mais um dia ruim, que levantaria amanhã e faria tudo de novo. As coisas melhorariam. Seu otimismo era quase cego, mas tinha que mantê-lo. Se o perdesse, acabaria morrendo.
Atravessou o bosque que ficava ao lado de sua casa. A ideia inicial era fazer um parque, para o lazer das pessoas, mas as árvores não cresciam graças ao clima frio e a terra estava sempre barrenta. O máximo que sobrevivia no lugar eram os pinheiros que se destacavam entre as árvores secas.
Naquela tarde cinzenta, a garota suspirou de alívio ao ver a grande e antiquada casa de dois andares. A última da rua, depois do bosque. Abriu o portão de grades enferrujadas que terminavam em pontiagudas flechas. Lembrava-se de ter sentido medo na primeira vez que entrou ali. Pensou que parecia um cenário de filme de terror. Depois de um tempo, acostumou-se e chegou a ver certo charme, principalmente depois de descobrir a história do lugar.
Seu bisavô materno tinha construído a casa, sozinho, como um presente para sua bisavó, assim que voltou da Segunda Guerra Mundial. Era bem diferente das outras casas de Blue Sky, em sua maioria, perfeitamente arquitetadas.
Atravessou o jardim mal tratado pelo clima frio da cidade, que estava cheio de ervas daninhas por entre as flores secas. Era o único lugar em que se sentia em paz, onde não lhe apontavam o dedo.
Sentada no sofá da sala de estar escura, checou seu celular. Havia uma nova mensagem na caixa postal.
—– Catherine Louise Bennett! É bom você me ligar logo ou vou chamar o FBI. –– Thelma falava estridentemente. –– Aconteceu alguma coisa?
Discou o número da mãe, pensando na desculpa que daria por não ter lhe ligado no dia anterior. A verdade é que Catherine tinha esquecido, mas sua mãe não gostaria de ouvir aquilo. Como estava constantemente trabalhando como comissária de bordo, Thelma passava a maior parte do tempo na sede da empresa em Saint Paul, então elas haviam combinado que Cathy mandaria notícia todos os dias.
—– Cathy! Eu já estava indo chamar a polícia –– uma Thelma histérica atendeu no segundo toque. –– Você está bem? Comeu? E a escola?
Como de costume, sua mãe bombardeou-a com perguntas. Catherine se sentiu reconfortada com a voz familiar. Não se importava com as muitas preocupações de Thelma.
—– Está tudo bem, mamãe –– ela revirou os olhos com sua própria infantilidade. –– Estou me alimentando e a escola está ótima.
Mentiu três vezes. Não valia a pena atormentar a mãe com seus dilemas. Thelma já tinha problemas suficientes. Precisava sustentar Catherine sozinha desde a morte de seu pai. Por ser Comissária de Bordo passava a maior parte do tempo no ar, raramente voltava para casa. Claro que sentia falta de sua mãe ,mas tinha dezesseis anos e conseguia sobreviver.
—– Querida, o avião já vai partir. Conversamos depois. –– Ela desligou.
Cathy ouviu um baixo miado. Lolla deitou em cima de seu pé.
—– Oi, meu bem. –– Ela cumprimentou a gatinha, se abaixando para acariciar seu pelo.
Depois foi até a lavanderia, despejou um pouco de ração no pote rosa. Lolla foi comer, saltitante. Para ela, era tão fácil ser feliz.
Catherine sentou-se no sofá e ligou a TV. As notícias falavam sobre o assunto do momento: uma onda de assassinatos. Dez corpos tinham sido encontrados com o sangue completamente drenado. A imprensa havia apelidado o serial killer de Sugador de Blue Sky. O FBI estava na cidade, a equipe de análise comportamental tinha sido chamada para ajudar.
Suspeitavam que o assassino tivesse algum tipo de fetiche por sangue. Catherine estremeceu. Que tipo de maníaco estava fazendo aquilo? Há dois meses os homicídios começaram e o número de vítimas não parava de subir. Preferiu não ver a notícia inteira, subiu as escadas até seu quarto.
Foi se arrumar para o trabalho. Pegou uma calça jeans escura e uma blusa vermelha com mangas e calçou seu all star preto.
Decepcionou-se ao olhar no espelho. Estava magra demais, com olheiras e seu cabelo claro parecia sem vida. Não havia nada que pudesse fazer, sua aparência refletia como ela se sentia por dentro. Passou um pouco de rímel e gloss e saiu do cômodo.
Quando foi certificar-se do horário, teve uma surpresa. Ela estava dez minutos atrasada. Tinha se distraído tanto com a TV? Não teria tempo de comer, pegou sua bolsa e as chaves do carro.
Catherine possuía um Subaru Justy prata de 1994. Foi tudo que deu para comprar com seu salário de ajudante no consultório odontológico da Sra. Linton. Enquanto dirigia, ela pensava no quanto odiava se atrasar e na bronca que levaria. Sua mãe havia pedido para sua amiga, a Sra. Linton lhe dar o emprego. Catherine tinha vontade de ter seu próprio dinheiro e precisava ajudar nas despesas, então elas uniram o útil ao agradável.
—– Srta. Mackenzie! Pensei que não viria mais. –– Robert, o estagiário que ficava na clínica no período da manhã a recepcionou. Ele estava no primeiro ano de odontologia.
—– Eu já pedi para você me chamar apenas de Catherine. –– Ela corrigiu pelo que parecia ser a milésima vez. –– Desculpe-me pelo atraso, eu me distraí. Espero não ter te atrapalhado. Não vai acontecer mais.
—– Tudo bem, foram apenas vinte minutos, Srta. Mackenzie. –– Catherine revirou os olhos. –– Só vou te chamar pelo seu primeiro nome se aceitar sair comigo no sábado.
Robert era um cara confiante. Ele a olhava como se fosse impossível uma recusa.
Catherine se assustou, há seis meses nenhum garoto a convidava para sair, não depois do que tinha acontecido. Robert era bonito, tinha olhos verdes e cabelos loiros perfeitamente penteados. Catherine ponderou por um instante e chegou à conclusão que ainda não estava preparada para sair com alguém.
—– Desculpe-me, Bob. Quem sabe outro dia?
—– Não tem problema. Eu espero. E, por favor, não me chame de Bob, eu me sinto um cachorro. –– Ele piscou e Catherine riu.
As horas se arrastavam na clínica, já que ao contrário de Robert, que podia ajudar com os pacientes, Cathy não fazia nada além de agendar horários. Com o tempo livre, aproveitou para ler os poemas de Emily Dickens.
—– Catherine, querida. –– A Sra. Linton a chamou.
—– Sim?
—– Você já pode ir embora. –– Ela deu um pequeno sorriso, rugas formando em volta dos seus olhos.
Cathy ficou surpresa. Faltava uma hora para o consultório fechar.
—– Por quê?
—– Não tenho mais pacientes hoje. Ninguém quer sair de casa agora que encontraram outro corpo. –– A Sra. Linton suspirou, parecia exausta. –– Às vezes, eu penso em deixar a cidade. Acho que essa é a melhor opção. Tem algo muito ruim acontecendo aqui.
—– Eu sinto falta de como as coisas eram antes. –– Catherine confessou.
—– Vai ficar tudo bem. Apenas vá para casa e descanse. Até amanhã.
—– Até. –– Cathy se despediu.
Na verdade, não sabia se veria a Sra. Linton no dia seguinte. Da forma tudo era estava acontecendo, era impossível saber.
A dentista estava certa, o melhor a se fazer era deixar Blue Sky. Talvez eles fossem loucos por ainda estar ali.
Na caixa de correio, estava um envelope rosa. Catherine deu um sorriso largo. Era de Melanie. Entrou em casa, subiu as escadas correndo, ansiosa para ler o que sua melhor amiga havia escrito. Deitada em sua cama, rasgou o envelope. Dentro dele, uma folha escrita com a letra desleixada de Melanie a saldava.
Cathy,
Estou escrevendo isso escondida, no meio da aula de Cálculo, então é provável que minha letra esteja um pouco mais feia que o normal. Se o Sr. Lewis ver, vai me matar. Eu acho que ele é um gêmeo perdido do Freddy Krueger, só que um pouco pior, porque o Sr. Lewis ensina matemática. Eu não tenho certeza de que aquelas contas gigantes são do nosso planeta.
Na última carta, você me perguntou se estou gostando de Londres e do internato. Eu nunca pensei que diria isso, mas estou sentindo falta de Blue Sky. Na verdade, eu não vi muito de Londres, fico o tempo todo trancada no internato e aqui é péssimo. Sem celular, sem roupas curtas, sem garotos, sem chocolate e refrigerante, sem absolutamente nada divertido.
Meu pai ligou ontem, pediu à diretora para falar comigo. Você poderia fazer o mesmo, diga que é minha mãe ou qualquer coisa assim. Estou desesperada para conversamos, Cathy. Essa coisa de escrever cartas não é para mim. Enfim, meu pai falou comigo, depois de seis meses, pediu desculpa e disse que logo me leva de volta pra casa. Eu não acredito, ele sempre quis se livrar de mim.
E as coisas por aí, tudo bem? Que pergunta idiota: é claro que não está tudo bem. Sabe, quando meu pai me tirar daqui, vou dar outra surra na Ridley e na amiguinha, Eliza também. Não me importa se eu voltar para o internato, ela merece. É sério que elas ainda estão te enchendo?
As meninas daqui são quase mais chatas que a Ridley. QUASE. E olham pra mim como se eu fosse uma delinquente. A maioria não fez nada de mal para estar aqui, só estão porque os papais querem uma educação rígida pra suas filhinhas.
Cathy, faz seis meses que estou aqui e não sei até quando vou aguentar. Eu só quero ir para casa.
Por favor, me conte uma notícia boa ou uma fofoca. Já prenderam o serial killer? Escreva rápido. Ou vou morrer de tédio.
Beijos,
Mel.
P.S. Boa sorte tentando entender minha letra.
P.S.P.S. Freddy Krueger está andando até mim. Socorro!
Catherine se sentiu completamente melancólica quando terminou de ler a carta. Não só por sentir tanta falta da amiga, mas porque aquela tinha sido diferente, mais triste. Normalmente Melanie era sempre tão otimista e feliz, mas estava se tornando mais sombria a cada carta. Nos cinco anos que a conhecia, nunca a tinha visto dizendo que não aguentaria algo ou que morreria de tédio. Cathy pegou uma folha de um caderno em cima de sua escrivaninha e começou a escrever uma resposta:
Querida Mel,
Eu tenho uma coisa para te contar. Não sei se é uma coisa boa ou ruim, portanto tire suas próprias conclusões: Robert, o carinha do consultório da Sra. Linton, perguntou se quero sair com ele no sábado. E eu disse não. Eu sei que você vai me xingar muito quando ler esta carta, mas simplesmente não parecia certo. Ou eu apenas fiquei traumatizada depois da história do Austin...Não sei, estou tentando superar. Já faz seis meses. Talvez eu até mude de ideia sobre o Robert. O que você acha?
Ainda não conseguiram pegar o serial killer. A contagem de corpos aumentou: agora são dez vítimas. Sinceramente, estou com medo. Todos estão.
Quero mudar de escola, mas não tenho certeza se é a coisa certa a se fazer. Eu teria que estudar em outra cidade e vou me sentir mal se fugir.
Ah, Mel, enquanto você é a delinquente do internato, eu sou a vadia de Blue Sky. Somos péssimas pessoas? Ou só injustiçadas?
Aguente firme. Logo você volta para cá. Nem que eu tenha que ir até a Inglaterra te buscar!
Beijos,
Cathy.
P.S. Pare de reclamar sobre escrever as cartas, sua preguiçosa. Ao menos eles não proibiram o papel. Ainda.
Cathy pegou dois chocolates e escondeu-os no envelope, torcendo para que a equipe do internato não lesse as cartas antes de entregá-las. Se sim, provavelmente a proibiriam de escrever outras, mas ela resolveu arriscar. Queria melhorar ao menos um pouco o dia da amiga. Afinal, se Mel estava lá, era em parte culpa dela.
Naquela noite, fazia frio e chovia fortemente. Cathy não conseguia dormir. Os trovões faziam barulho, que a faziam despertar quando ela estava quase pegando no sono. As notícias do serial killer a assustavam, fazendo-a imaginar coisas e ver sombras em seu quarto. Alguns pensamentos sobre Robert também a atormentavam.
Decidiu que precisava levantar da cama, tentar se acalmar antes de voltar a dormir. Desceu as escadas. Na cozinha, tomou água na tentativa de aliviar o estresse.
Foi quando viu.
Ali estava, no balcão da cozinha, uma coroa de flores vermelhas e brancas. Bem no meio, havia uma faixa branca com uma única palavra escrita em letras grandes: Catherine.
Ela empalideceu, a cabeça rodando. Pegou o envelope vermelho ao lado da coroa de flores e subiu as escadas com o coração na boca. Passou a chave várias vezes na fechadura, olhou em baixo da cama, atrás da cortina e dentro do closet. Quando não encontrou nada, sentou-se e abriu o pequeno envelope que tinha cheiro de perfume masculino. Dentro, havia um pedaço de papel com letras impressas dizendo:
“Vou te mandar mais flores se você não fizer exatamente o que eu mandar. Durma bem, Cathy”.
Catherine sentiu a cor se esvair de seu rosto.
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