Tempestade
4 Histórico ruim
Surpreendentemente, algumas risadas depois, Catherine percebeu que gostava de conversar com Fred. Ou era só o efeito do álcool em seu organismo. Eles estavam agachados atrás do balcão do bar. Valerie procurava-os.
— Já assistiu Estranha Obsessão? — Fred sussurrou. — É mais ou menos aquilo. Eu não estou brincando: ela é louca.
Catherine riu. Ela baixou os olhos para uma marca preta no antebraço dele. Uma tatuagem.
—– O que significa? –– Cathy tocou os números romanos com as pontas dos dedos.
Fred a encarou por um segundo, como se pensasse no que dizer.
—– Nada demais. –– Ele deu de ombros. –– Só alguns números idiotas.
Cathy pensou que ele estivesse zombando dela, mas seus olhos diziam o contrário. Ele olhava no fundo dos olhos dela. De repente, ele estava perto demais. Tanto que Catherine podia sentir sua respiração. Tudo que conseguia sentir era o cheiro dele. O mundo poderia cair ao redor que Cathy continuaria paralisada, olhando para Fred.
Ela estava tentando absorver tudo nele, seu cabelo escuro despenteado, como se ele tivesse acabado de acordar, o piercing na sobrancelha direita, uma cicatriz fina que brilhava em sua testa, a pele pálida e os olhos profundos emoldurados por compridos cílios.
Ele apoiou a mão na lateral do pescoço de Cathy, seus dedos estavam gelados, o que a fez estremecer. Puxou-a para si lentamente. Seus lábios estavam a centímetros de distância.
— Ah, finalmente achei vocês!
Fred xingou. Catherine se afastou dele, constrangida. Valerie estava acompanhada de três rapazes altos. Eles eram igualmente bonitos, mas tinham estilos completamente diferentes. Catherine tinha conversado com Peter mais cedo, quando falou com a garota chamada Ellie.
— Querido, eu os encontrei. — Valerie disse, orgulhosa.
Fred levantou, relutantemente.
— Cathy, esses são Spike, Jimmy e Peter. –– Fred apresentou, entediado. –– Eles são da banda.
— Cara, o que acontece? — O de cabelo azul falou. — Eu sem nenhuma e você com duas.
— Cale a boca, Jimmy. — Fred cruzou os braços.
— Não enche, Frederique — ele arqueou a sobrancelha. — Aliás, oi gata, eu sou o Jimmy.
— Acho que ela já percebeu. — Fred provocou.
— Eu já a conheço. — Peter comentou interrompendo as provações entre Fred e Jimmy.
— Como? — Fred franziu a testa.
— Ellie. — Peter respondeu, como se o nome fosse um código secreto.
A reação de Fred foi inesperada. Ele empalideceu e disse alguma coisa tão baixo que ela não conseguiu entender.
— Oi, eu sou o Spike. — O loiro falou, se apresentando.
— Oi. — Catherine sorriu para eles.
— Fred, onde você arranjou essa gracinha?
— Jimmy, se você não parar eu serei obrigado a socar sua cara. — Os olhos de Fred reluziram de raiva.
— Calma, garotão. — Jimmy riu.
— Pessoal, acabamos de computar os votos, rufem os tambores. — O apresentador disse. — O vencedor da VI Batalha de Bandas é: Gum in the Hair! Parabéns, garotos! Subam ao palco e peguem seu prêmio.
Os três saíram do lado de Catherine e foram até o palco, ao som de aplausos e gritos animados. O apresentador entregou a cada um deles um ursinho de pelúcia. Aquilo era sério?
— Obrigado pessoal e jurados. Isso significa muito para nós. — Jimmy agradeceu. — Cathy, meu anjo, eu vou escrever uma música para você agora!
Só podia ser brincadeira. O que aquele tal de Jimmy, o estranho de cabelo azul, estava querendo com ela?
Fred arrancou o microfone da mão dele.
— Não vai não, Jimmy — discordou. — Porque eu escrevo as músicas.
— Eu também sei escrever, cara!
— Com certeza, você rimaria gato com rato e seria o próximo John Lennon.
As pessoas na plateia riram. Catherine se alarmou. Fred e Jimmy iam mesmo começar uma discussão bem ali?
— Crianças, não briguem. — O apresentador apaziguou. — E você, meu rapaz, o que tem a dizer? — Ele perguntou ao garoto de cabelo platinado. Catherine tinha quase certeza que aquele era Spike, o baterista.
— Nada. — Realmente, ele não era de muitas palavras.
— Uau, que falante — o apresentador ironizou. — Então, meninos, vocês vão cantar outra para nós?
— Agora não, Bruce — Fred respondeu. — Mas nós nos vemos por aí.
Ele desceu do palco rapidamente, parecia irritado.
— Ei, Cathy! — Ellie apareceu atrás dela. — O que rolou entre você e o Fred?
— Absolutamente nada. O que poderia rolar? — Ela se fez de desentendida.
— Ah, vamos querida, eu vejo o jeito que vocês se olham.
— Você está vendo coisas, Ellie. — Catherine desviou o olhar, desconfortável.
— Catherine, vou te levar embora. — Fred surgiu ao lado delas.
— Frederique, que falta de educação — Ellie repreendeu como uma mãe implicante. — Cathy e eu estamos conversando. E ainda é cedo.
— Não enche, Elleanor. — Fred nem ao menos a olhou.
— O que aconteceu? – Ela perguntou.
— Vamos. — Fred pegou o braço de Catherine e a guiou para a saída.
— Espera aí! — Ellie protestou, mas eles já estavam longe, indo até o estacionamento.
— Solta meu braço. — Cathy exigiu.
Fred não soltou.
— Está machucando. — Ela insistiu.
Ele afrouxou o aperto.
— Entre. — Fred abriu a porta de uma van preta.
— O quê?
— Entre — repetiu. — Eu não vou te sequestrar.
Catherine entrou. Fred foi para o lado do motorista.
— O que você faz nas horas vagas? Transporte de crianças? — Ela ironizou.
— Acredite, você não vai querer saber. — Ele deu um sorriso malicioso.
— Bem, eu gostaria de saber considerando que estou pegando carona com você em uma cidade desconhecida.
Parecendo perceber a preocupação dela, Fred resolveu explicar.
— Essa van é do Spike, no momento estou pegando emprestada sem pedir.
— No meu mundo, isso se chama roubo. — Catherine provocou.
— No meu, isso se chama levar uma garota bonita para casa.
Ele sempre sabia o que dizer para deixá-la sem resposta.
— Então, o que aconteceu lá dentro? — Cathy mudou de assunto, querendo saber o motivo de ele ter se irritado, repentinamente.
— Eu não quero falar sobre isso. — Fred apertou o volante com força.
Catherine sentiu que estava correndo perigo. Não tinha sido uma boa ideia pegar carona com um cara que ela mal conhecia e que obviamente tinha problemas para controlar a raiva. Além disso, ela sentiu uma energia estranha emanar de Fred, algo perigoso, mas, ao mesmo tempo, magnético.
Ele estava dirigindo muito rápido, o que a deixava com medo, mas ela tinha mais medo ainda de pedir para ele reduzir.
— O prédio da minha mãe é perto da biblioteca.
Fred não respondeu. Parou a van. Catherine olhou pela janela. Eles já tinham chegado.
— Como você sabia...?
Cathy estava tentando perguntar como ele sabia onde era seu prédio, sem ela ter dito. Fred deu de ombros.
— Golpe de sorte? — Ele sorriu.
Deu a volta e abriu a porta para Catherine.
— É... parabéns pelo prêmio. — Ela felicitou, indecisa. — E obrigada por ter me trazido.
— Não foi nada.
Cathy se virou, andando em direção ao seu prédio.
— Catherine. — Fred a chamou.
Ela parou.
— O quê?
— A próxima vez que decidir sair à noite por aí, me chame. — Ele pediu.
Cathy ia responder, mas quando olhou para trás, Fred já tinha partido.
No prédio, entrou no elevador, apertou o número quatro e torceu para que sua mãe já estivesse dormindo. Assim, teria que encarar a fera só de manhã. Girou a maçaneta do apartamento trinta e seis, agradecendo mentalmente sua mãe por não tê-la deixado trancada para fora. Quando abriu a porta, pulou de susto. As luzes estavam acessas e havia policiais em todos os lugares da sala. Um homem sem uniforme estava sentado no sofá. Catherine deduziu que aquele era Aaron, o namorado de Thelma. Que ótima forma de ser apresentada à alguém “Aaron, essa é minha filha marginal, ela costuma fugir de casa e passar a noite fora“, ela pensou.
— O que está acontecendo aqui? — Cathy perguntou.
— Meu Deus! — Thelma exclamou, seus olhos estavam vermelhos. — Onde você esteve?
— Andando um pouco. — Deu de ombros.
— Até às quatro da manhã, Catherine?
— Já são quatro da manhã? — Ela franziu a testa, confusa.
— Sim. E você saiu daqui às onze.
— Caros policiais, estão dispensados por hoje. — Cathy riu, ignorando as interrogações de sua mãe.
— Você está brincando? Onde esteve? — Thelma insistiu.
— Eu me perdi.
— Isso é sério, Catherine. Eu pensei que tinha acontecido alguma coisa! — Sua mãe começou a gritar. — Você não pode fazer isso, nunca mais! E está de castigo pelo resto da sua vida.
— Certo. — Cathy assentiu.
— Pelo resto da sua vida! — Thelma repetiu.
— Eu já entendi.
— Agora, ou você me conta o que realmente aconteceu ou... — Ela ameaçou.
— Pelo amor, eu só quero dormir, mamãe. — Catherine franziu os lábios.
— Conte, então.
— Eu estava andando tranquilamente por aí, quando alguém começou a me perseguir. Eu corri e corri, e por sorte não morri. Mas, ele morreu. — Catherine contou a história cantando e rindo.
— Senhora, sua filha costuma beber? — Um policial alto e forte perguntou.
— Não, a última vez que eu fiz isso, uma coisa muito ruim aconteceu. — Catherine explicou. — Mas, você sabe como é, às vezes é difícil resistir.
— Sopre aqui. — O policial a entregou um bafômetro.
— Isso é sério? — Ela riu, mas pegou o bafômetro e soprou quando viu o olhar no rosto de sua mãe.
— Ela está bêbeda, senhora. Deve estar imaginando coisas.
— Eu não bebi tanto. E aquilo aconteceu antes de eu beber. — Catherine tentou se defender, mas quem acreditaria em uma garota que volta bêbada para casa às quatro da manhã? — Por favor, vocês têm que acreditar em mim. — Ela implorou.
— Obrigada, policiais. Vocês podem ir. Desculpem pelo transtorno. — Thelma estava extremamente constrangida.
Todos os policiais se retiraram do apartamento. Eles olhavam para Cathy e balançavam a cabeça, indignados, antes de passar pela porta.
— Aaron, querido, você também pode ir agora.
— Oi, Aaron. É um prazer enorme te conhecer. — Catherine sorriu. Thelma a fuzilou com os olhos.
— Oi, Cathy. — Ele acenou.
Tinha cabelos grisalhos e olhos gentis.
Aaron se levantou e andou até Thelma.
— Não brigue com ela. Tente entender antes. — Ele sussurrou.
— Desculpe por tudo isso. — Thelma balançou a cabeça.
— Tudo bem. — Aaron inclinou-se para beijá-la, mas mudou de ideia.
Catherine simpatizou com ele. Parecia empático e altruísta.
— Vá dormir. — Mandou Thelma.
— E o sermão? — Cathy questionou.
— No momento, eu não tenho energia nem para um sermão. Nós conversamos amanhã. — Sua mãe a encarou. — Se você não fugir de novo.
Thelma se retirou, deixando-a sozinha. Catherine foi até seu quarto. Tomou um banho rápido e colocou um pijama quente. Deitou-se na cama. Virou de lado e ouviu um barulho estranho. Tateou no escuro até encontrar o interruptor de luz. No claro, viu um pedaço de papel em seu travesseiro. Pegou–o e leu as palavras impressas:
“Que coisa, feia, Cathy. Uma menina do seu tipo, tão certinha, beber e chegar tarde. Se bem que você tem um histórico de fazer besteira quando bebe, não é? De qualquer forma, a próxima vez que for sair, ao menos deixe um bilhete. Não queremos que Thelma enfarte por sua causa, como seu papai.”
Naquela noite, Catherine não conseguiu dormir.
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