Tempestade
5 O muro.
Notas iniciais
Catherine acordou sobressaltada.
Não se lembrava de nada que tinha acontecido. Ao se olhar no espelho ficou ainda mais confusa, seu cabelo estava bagunçado e os olhos vermelhos.
— Mãe? — Ela chamou no corredor que levava à cozinha.
Não houve resposta. Catherine sentiu medo. Será que sua mãe tinha sido levada? Meu Deus, aquilo não fazia o menor sentido.
Ela relaxou quando viu a delicada caligrafia em um bilhete colado na porta da geladeira.
“Fui caminhar um pouco. Se arrume, quando eu voltar vamos à casa de uma amiga. – Mamãe“
Cathy despejou um pouco de leite e cereal em uma tigela. Esperava não ter que tomar café-da-manhã sozinha, como fazia todos os dias. Tinha estranhado a súbita saída de sua mãe. Elas tinham conversado sobre isso ontem à noite? Além disso, sua mãe não era o tipo de mulher que costuma fazer exercícios. Ela fugia deles tanto quanto Cathy.
Após comer, Catherine pegou um vestido tomara-que-caia florido de sua mala ainda feita e o vestiu. Colocou sapatilhas vermelhas. Prendeu seu cabelo em um rabo de cavalo alto, tentando disfarçar seu desgrenhamento. A garota loira sorriu para o espelho. Adorava Saint Paul. A cidade era apenas alguns graus mais quente que Blue Sky, mas ela aproveitou para usar uma roupa como aquela.
De repente, a cabeça de Catherine latejou. Sentia-se desnorteada e com um gosto ruim na boca. Era como uma ressaca, mas ela não lembrava de ter bebido. Na verdade, não se lembrava de nada da noite anterior. Quando forçava a mente, tudo que via era um borrão de preto.
Meia hora depois, Thelma conduzia a filha até a casa de Katrina Hernandez. Usava a visão periférica para vigiar Catherine. Ela parecia serena, então Thelma resolveu não tocar no assunto da noite anterior. Katrina a ajudaria.
— Onde estamos indo? — Perguntou Cathy, quebrando o silêncio.
— Na casa da minha amiga Katrina. Quero visitá-la. — Thelma não precisava mencionar o que sua amiga realmente era.
— Certo. E por que eu vou junto?
— Porque não quero te deixar sozinha. Além disso, você vai gostar de conhecê-la.
Thelma temia que algo ruim estivesse acontecendo com Catherine. Ela estava tendo comportamentos atípicos e, depois de tudo que aconteceu, talvez precisasse de ajuda. A verdade é que Thelma não conseguia lidar com Cathy. Ela não conseguia lidar com muitas coisas.
Catherine sentia que alguma coisa estava errada, mas não sabia o que. Sua mãe evitava olhá-la diretamente e parecia nervosa. Ela percebeu que estavam indo até um bairro rico, as casas ao seu redor eram incrivelmente bonitas e quase não haviam prédios. Nas ruas, estavam poucas pessoas, ao contrário do resto de Saint Paul, que tinha ruas sempre cheias de rostos apressados.
— Muito bem, é aqui. — Thelma estacionou em frente a uma grande casa branca.
Uma mulher elegante, de cabelos curtos e pele negra atendeu quando elas tocaram a campainha.
— Oi, Thelma. — Ela sorriu. — E você, deve ser a Catherine.
— Oi. — Cathy tentou sorrir.
Ela sentia-se estranhamente calma e era isso que a preocupava. Aquela mulher de meia-idade emanava um ar de paz e tranquilidade. Parecia simples demais, não condizendo com suas roupas caras e casa grandiosa.
Katrina as guiava até a sala. A arquitetura interior era ainda mais impressionante. Grossos tapetes cobriam o chão, o sofá era macio, com grandes almofadas. As paredes brancas tinham quadros que pareciam custar mais que o carro de Catherine. Mais do que tudo que ela tinha, na verdade.
Conversaram algumas banalidades até que Katrina perguntou como Cathy estava lidando com a morte de seu pai. Ela percebeu que a mulher se esforçou para fazer a pergunta soar natural, mas seu tom era calculado. Seus olhos não expressavam nada, como os de uma fria predadora. Catherine olhou para sua mãe e ergueu a sobrancelha. “Quem é ela?”, o gesto questionava.
— Cathy, a Katrina é uma ótima psicóloga. Talvez se você puder expor como se sente...
— Thelma, pode nos deixar a sós, por favor. — Katrina pediu. —Vá até a cozinha e peça para Aibileen preparar algo para você.
— Eu estou bem. — Catherine disse assim que sua mãe saiu da sala.
Ela estava gritando por dentro, furiosa com sua mãe por achar que seus problemas se resolveriam se falasse sobre eles. Cathy sabia que não era assim que funcionava. Não era tão simples.
— Sua mãe me disse que você vem tendo problemas de comportamento, ataques de raiva, notas baixas... Ontem mesmo teve uma crise.
— Tive? — Catherine arqueou a sobrancelha direita.
— Saiu e voltou de madrugada, bêbada.
— O quê? — Cathy olhou para ela com os olhos arregalados. — Ontem eu nem saí!
— Sua mãe me disse que vocês brigaram e depois você saiu...
— Não, nós brigamos e eu fui... acho que dormir.
— Tudo bem. Você deve ter esquecido por causa da bebida.
— Eu me lembraria de ao menos ter saído. — Catherine discordou.
— Então, por que você e sua mãe brigaram?
— Por que eu tenho que te dizer? — Ela questionou, bruscamente.
— Porque eu quero te ajudar.
— Bom, não tem como. Meus problemas são complicados de entender.
Conseguiria explicar os bilhetes e ameaças quando nem mesmo ela os compreendia?
Katrina a olhou por longos segundos, os pequenos olhos castanhos questionando-a. Cathy percebeu que não sairia dali até que falasse. Dando de ombros, se rendendo:
— Tudo bem. Um pouco dos meus problemas mundanos: odeio Blue Sky e a escola. Quero vir morar com minha mãe, mas ela não quer, porque vou atrapalhar seu namoro.
— Por que odeia a escola e a cidade?
— Na verdade, eu não as odeio, elas que me odeiam. Quero dizer, as pessoas, sabe? — Catherine tentou ser clara.
— Por quê?
— Meu Deus, você faz tantas perguntas! — Catherine reclamou. — Minha mãe não te contou o motivo?
— A história da foto?
Cathy assentiu, surpresa por sua mãe ter contado. Ela morria de vergonha do que tinha acontecido.
— Querida, aquilo não é motivo suficiente para as pessoas te odiarem. — Katrina a consolou.
— Cidade pequena. — Ela riu, depois soluçou. Era um som estranho. Desesperado.
— Como se sente sobre isso?
— Como acha que me sinto?
— Eu sei que é difícil falar, mas você pode tentar.
— Péssima? — Catherine passou as mãos pelos cabelos. — Não sei se essa palavra é ruim o suficiente. A pior parte é que eu realmente pensei que ele me amava. Eu era tão tonta!
— Você estava apaixonada.
— Sim, péssima ideia. O amor faz as pessoas serem idiotas.
— Catherine, o que aconteceu com você pode ser qualificado como estupro. — Katrina orientou-a.
— Não se você for filho do xerife. Eles dizem que a coisa toda foi consensual. Eu estava bêbada, mas deve ter sido mesmo. No dia seguinte, todos tinham aquela foto e riam de mim e, logo, meu pai enfartou. Mamãe nunca tinha trabalhado na vida, nós tivemos que mudar de casa e ela arranjou esse emprego que mal lhe dá tempo de respirar. — Catherine tentou conter as lágrimas que queriam cair.
— E então? — Katrina a motivou.
— Minhas amigas nunca mais falaram comigo. E o pai de Melanie, minha melhor amiga, a mandou para um internato na Inglaterra porque ela bateu em uma menina que riu de mim. Nós não conversamos há meses, ela não pode nem ao menos ter um celular. — Catherine sentia os olhos ardendo — Sabe, nunca fui muito próxima do meu pai. Nós vivíamos brigando porque ele traia minha mãe, mas ele não merecia morrer. Ainda mais por minha culpa. Tudo isso que está acontecendo é minha culpa.
— Nada disso é sua culpa. Você é a menos culpada dessa história. Só vai conseguir seguir em frente quando se perdoar, querida.
Uma lágrima deslizou por sua bochecha, Cathy a enxugou rapidamente.
— Austin voltou de Nova York hoje. Amanhã eu terei que vê-lo e não tenho a menor ideia de como isso será. — Confessou. —Ah, meu Deus, por que eu te disse tudo isso? Eu nem te conheço.
Catherine estava indignada com a facilidade que as palavras tinham saído de sua boca. Nunca tinha dito nada sobre isso, para ninguém, nem ao menos para Melanie.
— Você está ferida, Cathy. — A psicóloga disse, de repente. — Construiu um muro ao seu redor e não deixa ninguém passar por ele. Essa sua máscara de frieza é só uma maneira de não deixar as pessoas perceberem que, por baixo, você está assustada.
— O quê? — Catherine franziu a testa.
— Mostre para as pessoas que seguiu em frente. Mostre ao Austin que você está bem e que nada que ele, ou qualquer pessoa, faça vai te atingir. Seja forte, Catherine.
Cathy sorriu. Não era uma ideia ruim. Talvez se ela fingisse, se tornasse realidade.
— Ontem a noite, realmente não se lembra de nada?
— Não. Depois do que aconteceu, eu nunca mais bebi. É verdade.
— Eu acredito em você, querida.
Após Katrina dizer essas palavras, Cathy sentiu uma repentina e tentadora vontade de contar à ela sobre os bilhetes, as ameaças e ligações. Como se sentia com medo nas ruas de Blue Sky e como torcia para que o FBI pegasse logo o serial killer que estava aterrorizando a pequena cidade. Mas, se conteve. A psicóloga a acharia louca? Talvez fosse tudo uma brincadeira e o responsável já tivesse se cansado de assustá-la.
Katrina se levantou, andando em direção ao sofá que Catherine estava e sentou ao lado dela.
— Feche os olhos.
— Por quê?
— Apenas confie em mim.
Catherine fechou os olhos. Katrina encostou dois dedos na testa dela.
— O que você fez ontem à noite?
— Eu não...
—Não responda. — Katrina instruiu. — O que você fez ontem à noite? Onde esteve? Quem encontrou?
Depois de alguns segundos, Cathy sentiu uma insuportável dor de cabeça. Ela gritou. Katrina tirou os dedos da testa dela como se tivesse se queimado. Catherine abriu os olhos para ver a mulher com os olhos arregalados de terror.
— O que foi?
— Não tem nada de errado com você. Sua mãe deve ter imaginado coisas — Katrina deu um sorriso forçado. — Vamos, querida.
A psicóloga fez Cathy se levantar e a guiou para fora da sala. Na cozinha, Thelma conversava animadamente com Aibileen, uma senhora que fazia Catherine se lembrar de sua avó. Ambas tinham o mesmo cabelo cor de neve e olhos gentis.
— Thelma, nós conversamos e talvez seja melhor Catherine procurar uma psicóloga em Blue Sky.
Por algum motivo, sua mãe parecia assustada com o que Katrina tinha dito. A última olhava para Thelma como se dissesse algo com os olhos. Sua simpatia tinha desaparecido e parecia que ela estava desesperada para que as duas saíssem logo de sua casa. Ela andou rapidamente até a saída. No portão da casa, Thelma disse:
— Obrigada, Katrina. Nós conversamos depois.
— De nada, volte sempre que precisar. — Mas sua expressão dizia o contrário.
Enquanto sua mãe destravava o carro, Katrina agarrou o braço de Catherine e sussurrou:
— Tenha cuidado.
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