Tempestade
7 Capítulo seis: Reconhecido
A chuva forte me atingiu em cheio assim que comecei a caminhar para além dos portões da mansão dos Scouter. Respirei fundo afastando as gotas de chuva que escorriam pelo meu rosto. Meus pés escorregavam dentro das sandálias, mas não me incomodei. Continuei a caminhar sem querer olhar pra trás.
Meu coração batia em um ritmo acelerado, imitando os meus passos sobre o chão. Tum. Tum. Ele estava remoído dentro do peito. Com uma dor amargável e forte o apertando dentro de mim.
Tentei limpar a minha mente e não pensar em nada enquanto avançava para longe. Era melhor assim.
Se os Kyle me queriam, eles me teriam. Estava solitariamente do lado de fora. Tinha facilitado a minha rendição. Propositalmente, eu era um alvo fácil.
Nunca fui do tipo de garota que chora as amarguras da vida. Não, esse com certeza não era o meu estilo. Eu era aquela garota que as outras denominavam ser forte. Essa era eu. Aquela garota que gira nos calcanhares sacode a poeira da roupa e encara a morte dizendo: e aí, vamos nessa? Porque se eu fosse do tipo que para e lamenta a vida, ao invés de encarar as dificuldades, eu lamentaria demais. Porque eu tinha problemas demais. E lamentá-los, só os acumularia em demasiada quantidade.
E essa minha personalidade destemida, estava me arrastando para a morte.
No fim, seria como nos meus sonhos. Um término triste, doloroso e em vão.
Não sei por quanto tempo andei, mas foi o suficiente para me deixar encharcada e com os pés doloridos. Parei debaixo de uma marquise, arrancando as minhas sandálias. Se eles me queriam, eles me encontrariam. Sentei-me na calçada.
O barulho da chuva enchia a minha mente, impossibilitando-me de pensar. Fiquei grata por isso. Ultimamente, eu havia passado por situações que exigiam muito da minha cabeça, e eu estava feliz que por pelo menos alguns segundos eu poderia ficar sentada olhando para o horizonte, os ruídos enchendo meu subconsciente fértil e criativo, e eu podia ficar quieta e em silêncio. Sem nenhum pensamento inútil para me perseguir.
Abracei meu corpo, quando o vento investiu sem piedade contra mim. Olhei para o céu. Trovões e relâmpagos cortavam-no sem parar. Se minha mãe estivesse aqui, provavelmente me passaria um sermão por estar investindo contra o tempo frio. A ideia me fez revirar os olhos.
Bufei de frustração.
Minha tranquilidade foi interrompida. Ouvi barulhos de passos caminhando freneticamente contra a chuva. Não sei se foi apenas a minha mente, ou realmente o tempo de repente tinha ficado mais frio. Abracei-me com mais força, obrigando-me a não olhar pra trás.
Os passos cessaram. Bem atrás de mim. Apertei os lábios.
E fiquei assim por alguns minutos que pareceram uma eternidade. Até que finalmente criei coragem e me virei esperando encontrar Phelipe ou Penélope. Ou ambos.
Quando passei meus olhos estreitos pela área, vi uma figura a poucos metros de mim, escorado na porta de uma loja, com os braços cruzados sobre o peito, a mandíbula cerrada e os olhos serenos, junto à expressão lívida.
Não sabia quem era, mas ao mesmo tempo sabia. Aconteceu muito rápido. Em um segundo eu estava sentada no chão úmido, apertando meus dedos longos e esguios contra ele, e fitando o homem, e no minuto seguinte eu fui arrastada para dentro da minha mente lembrando-me de um dos meus sonhos. O sonho explodiu dentro de mim, com um milhão de cores e sons. Estava de novo presa em uma caixa de vidro, vendo a mim mesma, parada ofegante do outro lado do vidro com uma expressão assustada. E entre os rostos que estavam prestes a me atacar, – ou atacar a ela – junto à garota com uma chama de cabelos vermelhos que vinha me perseguindo mentalmente, desde então, lá está aquele rosto familiar que agora me lembrava. E que agora o via nitidamente no sonho, fato que antes eu não conseguia. Assim como via cada uma das outras pessoas. Inclusive Phelipe Kyle.
Pestanejei duas vezes, voltando ao momento presente.
Levantei e caminhei, reunindo toda a minha coragem dentro de mim, e segui andando para frente, sem olhar para o garoto, e sentindo os olhos dele queimarem em mim.
Eu sabia que ele me acompanharia, ainda assim torci para que ele não caminhasse; não me acompanhasse, e de forma alguma chegasse perto de mim. Que me deixasse simplesmente ir embora. Cruzei a rua, virando à direita, entrando praticamente na primeira rua que me apareceu. Meu coração bateu irregular no peito.
Rapidamente, ao cruzar a rua eu notei – com uma pontada de alivio, como alguém que ficou preso debaixo d’água e pode finalmente voltar à superfície – que o homem permaneceu imóvel no mesmo lugar, passando as mãos nos cabelos molhados pela chuva, distraidamente.
Mas, meu alivio se transformou em choque novamente, em menos de meio segundo. Assim que girei minha cabeça para frente, deparei-me com o mesmo garoto.
Ele estava parado, recostado contra a parede de outra loja, com a mesma expressão serena. Percebeu que o vi, e inclinou a cabeça na minha direção me cumprimentando. Comprimi os lábios, e não me movi. Fiquei quieta, em silêncio, evitando até respirar. O pânico cresceu pela minha garganta e um frio sobrenatural me acertou em cheio no estômago.
O garoto continuou sem se mexer. Passou o peso de uma perna para a outra, tornou a mexer nos cabelos molhados, e ficou olhando para o céu como se esperasse alguma coisa. Parecia estar extremamente entediado.
Pensei em recuar, voltar para a mesma rua anterior, ou apenas continuar caminhando e ignorar o garoto. Mas eu não conseguia me mexer, estava travada no mesmo lugar. Eu precisava terminar de cruzar a rua e ir logo de encontro á ele. Ficar esperando que alguém te ataque nunca seria a melhor opção. Contudo, eu não esbanjava mais tanta coragem assim para dar o primeiro passo.
Nem quando um carro parou atrás de mim, e buzinou freneticamente para que eu saísse do caminho, eu o fiz. Permaneci parada, sentindo minhas têmporas queimarem como fogo, assim como o que restou da minha coragem.
Percebi que o motorista continuou buzinando, e xingando alguns palavrões. Ele começou a piscar os faróis loucamente, e finalmente eu respirei fundo, decidida a me mover. Eu não podia fugir ou ignorar. Phelipe tinha deixado claro. Ou eu, ou os meus amigos. O que eu tinha que fazer, era atravessar a rua, e ir de encontro ao garoto. Ele provavelmente aguardava que eu fizesse isso. Que eu civilizadamente o acompanhasse. Tive medo de ignorá-lo, e eles se voltarem contra Annie, ou Izec, ou Jimmy. Mas meu corpo não estava convencido de que encará-lo era uma boa alternativa.
Que fosse eu ao invés deles. Minha vida não era tão fabulosa assim. De qualquer modo, se algo ocorresse com eles por minha culpa, eu também não sobreviveria.
Antes que eu me movesse, às luzes se apagaram, e tudo se escureceu sem que meus olhos conseguissem acompanhar.
Olhei a minha volta confirmando a falta de claridade. Lutei contra os fios molhados e embaraçados que grudavam nos meus olhos, na tentativa de enxergar alguma coisa. Mas, não havia nada para eu ver. Tudo era um breu, uma terrível escuridão. E eu me via perdida naquele escuro sombrio.
O motorista insistente tinha parado de piscar as luzes do farol e de buzinar loucamente. Esperei que descesse do carro e viesse pessoalmente me dizer todos os palavrões. Mas nada aconteceu. Fiquei parada em silêncio, esperando algum ruído vindo do carro ou do garoto. Nada.
As vozes da cidade se silenciaram completamente. Nenhum indicio de que houvesse uma viva alma ao meu redor. Os bares, lojas, restaurantes, todos os estabelecimentos comerciais da cidade, estavam mortos. Os prédios e casas, em silêncio absolutos ao meu redor. Algo estava terrivelmente errado.
Comecei a caminhar tropeçando em meus próprios pés. Era apenas um jeito que eu tinha encontrado, de não ficar parada.
Fiquei hesitante em que passasse um carro, enquanto eu caminhava aos tropeços debilmente pela rua. Mas não havia sinais de carros. Todos eles estavam paralisados na rua. Mal estacionados. Como se os motoristas tivessem desmaiado no volante.
Tropecei no meio-fio por muito pouco não desabando no chão. Minha mente girava pela escuridão. O vazio e o escuro me causavam arrepios. Meu corpo tremia de pânico e de frio. As gotas gélidas da chuva respingavam pelo meu corpo, congelando cada parte dele. Senti os dedos dos meus pés se retorcendo de frio, contra o chão gelado.
Foi então que eu ouvi. Clara e nitidamente, chegando aos meus ouvidos com um turbilhão de sons. Gritos. Estridentes. De dor e pavor. Eram apenas ecos difusos que chegavam até mim. Vinham de longe. Vinham da casa da Annie.
De repente me virei, e com toda força avancei de volta para o carro do motorista rabugento. Eu o expulsaria do carro se fosse preciso. Tudo que eu queria era dirigir de volta e tentar ajudar meus amigos.
Levei meus dedos à maçaneta da porta.
Antes que eu pudesse abri-la, algo ocorreu.
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