Tempestade

8 Capítulo oito: Elétrico


–-- Não. – Eu consegui dizer. Mas minha voz era um sussurro inaudível, que falhou e morreu no silêncio que enchia o ar.

Fui jogada contra a lateral de um carro. Ergui as palmas das mãos para me defender, mas era um ato completamente idiota. Senti fisgadas em ambos os quadris. Talvez fossem lâminas, uma faca ou algo do gênero. Só uma lâmina poderia fazer um corte com aquela intensidade e precisão.

Porém eram muitas lâminas. Ou talvez fosse só uma. Mas parecia rasgar o meu corpo inteiro com muita rapidez.

Olhei para eles. Pareciam zumbis. Mortos-vivos, ou qualquer coisa que esteja além dessa vida. Eles se mexiam como robôs, lançando golpes afiados contra mim, enquanto eu desviava muitos deles com a mão. As roupas que eles usavam eram maltrapilhas. Havia duas mulheres no meio deles, com os olhos paralisados em mim, como se estivessem hipnotizadas. Assim como todos os outros. Eles cheiravam a esgoto, e carne estragada. Os dentes eram grandes, pretos e podres. Completamente sujos, de lixo e sangue. Eu só não sabia se era o meu sangue.

Tentei não encará-los. Tentei não sentir o cheiro deles. Mas era quase impossível. Meu estômago reclamava, meu corpo cedia ao cansaço, e eu estava quase me rendendo, quase entregando meu corpo fraco e débil para aqueles montes de lixos ambulantes, que pareciam querer devorar minha alma.

Quando ouvi uma voz diferente.

–-- Tá bom, já chega ! – A voz ecoou. “Sim”, eu pensei. “Já chega.”

Os monstros podres pararam de me furar. Fechei os olhos, e meu corpo automaticamente escorregou pela lateral do carro, até bater no chão.

O fogo se apoderou do meu corpo. Aquela chama abrasadora me engoliu com uma intensidade sufocante. Não sabia de onde vinha. Apenas me queimava viva e me fazia retorcer de dor no chão. Uma dor além dos limites imagináveis.

Acho que desmaiei. Não me lembro. Só sei que fiquei inconsciente. Quando voltei a abrir os olhos, não havia mais nada. Eu estava sozinha, deitada no asfalto. Não havia nada a minha volta. A chuva tinha cessado. Tudo tinha cessado. Exceto a dor, que inexplicavelmente conseguira se extinguir três vezes mais.

Tentei me levantar. Foi em vão. Eu não conseguia me mexer.

Ouvi alguém se aproximando. Entrei em pânico, tentando me levantar. Mal enxergava o asfalto sob mim. Chamas bruxuleavam nos meus olhos.

–-- Calma. Eu sou um amigo. – Era um garoto. O mesmo que dera as ordens para que os seis monstros parassem de me atacar. Sua voz era apenas um sussurro suave, muito baixo. Se ele não estivesse já estranhamente ao meu lado, — não sei se ele era terrivelmente rápido, ou eu era lenta e burra- eu jamais o teria ouvido.

Amigo. Meu amigo. Da ultima vez que ouvi isso, eu fui quase morta. Preferia não ter “amigos”.

O garoto envolveu os braços ao redor da minha cintura e me ajudou a levantar. Não tentei me debater, nem impedi-lo. Com certeza porque eu não tinha mais forças. E eu queria acreditar que ele realmente fosse me ajudar.

–-- Venha, eu vou tirar você daqui. Eles vão matá-la. – Ele continuava a sussurrar, olhando de ambos os lados da rua, enquanto com muita rapidez e naturalidade, ele me carregou em seu colo, como se eu pesasse apenas uns dois quilos. – A propósito Sophia, meu nome é Artur.

Tive vontade de perguntar a ele, como sabia meu nome. Mas não me dei ao trabalho. Ao que parecia, todo mundo sabia o meu nome.

–-- Porque está fazendo isso? – sussurrei. Não pelo fato de que Artur sussurrava, e sim pelo fato de que eu não tinha forças pra falar.

Artur ficou em silêncio por alguns minutos. O silêncio me incomodou. Eu gostava de ouvir a voz dele, preenchia o sigilo absoluto da noite. Ouvir qualquer ruído minúsculo que fosse me fazia sentir-me segura.

–-- Digamos que eu deva isso á alguém. –Mesmo no escuro, pude jurar que o vi sorrindo. – Alguém que realmente se importa com você.

De fato, era difícil acreditar. Como alguém que se importa comigo, me deixaria passar por tudo isso? Gemi. Meu cérebro estava queimando.

Rolei os olhos tentando me distrair da dor. Eu não conseguia ver Artur com nitidez, mas tentei ver o máximo que conseguia. Ele era forte. Os músculos se destacavam na camisa azul justa. Tinha cabelos cor de chocolate, cheios de cachos. Sua pele era de um tom claro, mas de um jeito diferente e bonito. Os traços do seu rosto eram delicados e gentis. Quase como se ele fosse um menino. Artur era bonito, mas um bonito de um jeito um tanto quanto diferente. Uma beleza mais exótica e delicada.

Ao ver que eu o olhava, ele desviou o rosto, e eu pensei ter visto sua mandíbula se contrair. Desviei os olhos em seguida, pousando-os em uma silhueta parada no escuro, bem ao lado de um poste. Ofeguei em silêncio. Notei que Artur olhava o mesmo que eu.

–-- O que está fazendo Artur? – Uma voz nasalada, nos repreendeu. A garota que estava escorada ao lado de um poste deu um passo na nossa direção. – Onde pensa que vai, com ela?

No inicio pensei que fosse a garota que estava com Fred na loja, mas quando ela caminhou e eu não ouvi o ruído que os seus saltos deveriam ter feito, eu percebi que não era ela. Então, meu cérebro em chamas conseguiu reconhecer aquela voz nasalada. Era Penélope.

O pânico subiu pelo meu corpo, tapando a minha garganta, e sufocando-me.

–-- Princesa, eu estou tentando ajudá-lo. Você mais do que ninguém deveria saber disso. – Fred parou, fitando a garota.

Eu não conseguia vê-la, graças ao escuro. E eu realmente não queria vê-la. Na verdade, eu queria gritar para que Artur começasse a correr, e me levasse pra longe daquela garota. Meu corpo começou a tremer involuntariamente, e não era de frio. Pelo contrário, eu estava em chamas.

A garota suspirou como se estivesse cansada de ter essa conversa.

–-- Ele não se importa, mas se você fizer isso vai deixa-lo confuso. Acredite, eu já considerei essa hipótese. – A voz dela era quase suplicante. – Ela vai fazer mal a ele. Não entende isso? Vai nos trazer problemas. Muitos problemas. – Penélope parou, e eu por um instante, pensei que ela estivesse chorando. – Olhe, dessa vez eu realmente acho que ele está de acordo com isso. Por favor, Artur, não torne as coisas mais difíceis pra nós.

Fogo. Tudo a minha volta tremeluzia como chamas.

Não entendia o que eles diziam. Imaginei que fosse ao meu respeito. Pouco importava. Eu só queria que a dor cessasse.

–-- Acredite princesa, ele não quer isso. Confie em mim. Eu sei o que ele quer. – Artur falou com uma voz distante e triste, como se tivesse se lembrado de algo.

Esperei que continuassem o assunto. Mas ambos se silenciaram. O único som que ouvia, era o meu coração batendo forte e irregular em meu peito, queimando a cada batida.

–-- Eles estão vindo. – Sussurrou Artur, com a voz em pânico. – Querem saber o que aconteceu com ela.

Meu coração bateu mais alto ainda. Eles estavam vindo. Isso significava que em alguns minutos eu estaria morta.

–-- Rápido. – Artur disse, e disparou em uma corrida, deixando a garota para trás.

Não sabia se estávamos correndo em uma velocidade extraordinária, ou se minha mente danificada estava criando essa situação. Mas pra mim, nós nos movíamos na velocidade da luz, as coisas a nossa volta, se movendo como borrões ininteligíveis.

De repente, ele parou de correr. E me colocou no chão delicadamente, apoiando-me em seu pescoço.

–-- O que está acontecendo? Eles vão me matar?- perguntei desesperada. O medo tomava conta de mim, fazendo com que meu corpo ficasse completamente dormente. Não sentia nada do pescoço pra baixo.

–-- Eles vão matar você. – Artur confirmou, com um tom sério. Não era a noticia que eu queria ouvir, mas era o que esperava, por causa das circunstancias. – Escute, você tem que fazer o que eu te pedir. Pode ser sua única chance.

Assenti. Concordaria em fazer qualquer coisa, qualquer coisa que me livrasse desse pesadelo.

–-- Eu faço qualquer coisa. – Tentei obrigar meus pés a se moverem, ignorando o fogo que insistia em dominá-lo.

Artur assentiu, tentando convencer a si mesmo de que daria certo.

–-- Escute, vista as minhas roupas. Isso vai confundi-los.

Não era uma ideia sensacional. Teria pensado em várias coisas primeiramente. Mas não me restava escolha, senão aceitar. Poderia ser minha única chance de sobreviver.

Ele se virou de costas pra mim, e tirou a camisa azul justa que usava. Rapidamente me entregou-a, e me ajudou a vesti-la. Tomei cuidado para não reparar nos meus machucados que se estendiam pelo meu braço, senão vomitaria bem ali. Em seguida ele tirou as calças e as entregou pra mim.

Senti-me desconfortável em saber que ele estava nu na minha frente. Mas, como era um caso de extrema urgência, precisavam ser feitas algumas extremidades. Vesti a calça por cima do meu vestido. Obviamente ela ficou gigantesca em mim, porém não protestei. Não era um momento adequado, para se fazer objeções de roupas. Segurei a calça com uma mão, para que ela não caísse.

Com um estranho terror, eu percebi um brilho prateado em volta do pescoço de Artur. Um colar. Igual ao meu.

–-- Corra Sophia. E não olhe pra trás. Também não pare, apenas corra. – Ele pediu se sentindo quase culpado por ter que me deixar ir. – Boa sorte.

Disse um: obrigada, por cima do ombro. Foi menos do que eu realmente devia dizer, mas estava tão desesperada que não conseguia pensar direito. Meu corpo inteiro latejava venenosamente, porém eu tentava a todo custo ignorar. Pensava em tudo, menos em dor, e menos ainda, que eu precisava correr pra salvar minha própria vida. Não adiantava muito, mas eu tentava.

Dobrei algumas esquinas, passei por algumas vielas, estava totalmente sem rumo. Apenas corria. E também não sabia como eu corria. Era tudo automático, como se eu não pensasse, só fizesse, e também não percebesse que estava fazendo. À medida que eu corria, o fogo ardia em minhas pernas mais e mais, fazendo ficar tão insuportável, que chegava a lacrimejar meus olhos.

Os meus cabelos estúpidos grudavam no meu rosto, ainda molhados devido à chuva, e isso fazia com que eu mal enxergasse onde pisava. Tropecei algumas vezes nas minhas pernas débeis e frágeis, mas sem deixar que isso fizesse com que eu perdesse o foco.

Quando pensei que estava longe o suficiente para não ser alcançada, eis que escuto passos correndo em minha direção. Pensei que talvez pudesse ser Artur, mas não parei pra saber se estava certa ou errada.

Continuei correndo mais e mais, me sentindo uma inútil estúpida e fraca. Não resisti ao impulso sedento de olhar pra trás. Quando olhei sobre o ombro, vi que alguém estava no meu encalce. Voltei os olhos pra frente, ciente de que não era Artur, e que eu precisava correr. Foi então que caí. Não sei se tropecei, ou se a dor fez com que minhas pernas cedessem. Eu apenas caí. O medo de ficar no chão, imóvel, foi tão grande, que eu girei o meu corpo, fazendo com que rolasse morro a baixo.

A dor se intensificou.

–-- Não. – Quem quer que fosse, que estivesse me seguindo, gritou exasperado.

Tentei me levantar do chão, apoiando-me em um poste de luz. Percebi naquele momento que havia perdido a calça de Artur, enquanto rolava morro abaixo. Ofegante, mal fiquei em pé, quando meu perseguidor me segurou pelo braço, forçando a encará-lo.

Mesmo no escuro, ele estava tão perto, que eu pude vê-lo com nitidez. Os traços perfeitos, que não deviam ser reais. Aqueles olhos elétricos e paralisantes perfurando os meus. Aquela boca vermelha e carnuda soprando um ar quente em meu rosto molhado.

Eu queria me esbofetear. Ele estava ali, para me matar, me torturar até o último fiapo de vida zarpar do meu corpo, e ao invés de lutar, ou implorar para que ele não me machucasse, — mesmo que em vão – eu estava ali paralisada, olhando fixamente dentro dos olhos dele, como se toda a minha vida de repente estivesse refletida nas suas pupilas. E o pior de tudo, eu estava achando o meu assassino, o homem mais perfeito que meus olhos já viram.

O aperto no meu braço se intensificou. Não a um nível abrasador, capaz de quebrar os meus ossos, mas eu estava tão frágil que talvez uma brisa fosse forte o suficiente para me derrubar.

–-- Por favor, não. – Eu sussurrei, para o meu espanto. Pensei que não fosse capaz de dizer nada.

Lágrimas escorriam pela minha bochecha. Não tentei lutar contra elas, nem contra ele. Até porque, eu sabia que não conseguiria. Tinha chegado ao meu limite. Estava plena e sensata, de que não conseguiria mais do que isso, não conseguiria ultrapassar o meu limite.

Desviei os meus olhos que eu esquecera pousado nos olhos dele. Mas assim que fiz isso, a minha mente oscilou e meu corpo vacilou, quase desabando no chão.

Suas mãos fortes seguraram-me com mais força em ambos os meus braços, impedindo-me de cair. Havia algo diferente em seus olhos. Algo mais eufórico, mais elétrico. Quase como se sorrissem.

–-- Não. – Eu disse novamente com a voz chorosa. – Por favor, não.

Tentei soltar-me de suas mãos, mas parecia que sua mão era feita de aço. Debati-me em seus braços, na esperança de poder me soltar. Porém tudo que eu fazia não adiantava. Ele era mais forte, e mais rápido também.

O meu progresso máximo foi de conseguir fazer com que ele recuasse três passos para trás, enquanto eu me debatia feito uma louca em seus braços. Ele permanecia sério, inexpressivo, como se tivesse tudo sob controle. E os seus olhos continuavam com aquele tom brilhante que me incomodava.

–-- Sophia pare. – Phelipe ordenou. Foi a primeira vez que ouvi sua voz com nitidez. Ela tinha um timbre rouco e adocicado. Um tom um pouco tímido e gentil. Parecia um pouco hipnótica, porque assim que a escutei, vi-me obrigada a parar de me debater em seus braços, e voltei meus olhos para ele. – Você não pode fugir de mim.

Com uma força aparentemente anormal, fui arremessada para trás, batendo as costas contra o poste de luz elétrica, desligado.

Seus braços estavam em ambos os meus lados, impossibilitando-me de qualquer tentativa que eu ousasse tomar para arriscar fugir. Phelipe tinha uma expressão feroz no rosto, uma expressão que me deu medo e fez os pêlos das minhas costas se eriçarem.

Meus olhos ardiam. O fogo ainda me consumia.

–-- Por quê? – a minha pergunta soou mais como um gemido de dor.

Fechei os olhos. Não queria fitá-lo novamente.

–-- Já que não é muito boa com palavras, não vejo outra forma, a não ser essa. – Ele rosnou.

Abri meus olhos, pronta pra encarar minha própria morte.

Mas ao contrário do que eu imaginava, ele me beijou. Sim, ele me beijou.

Talvez eu tenha me assustado um pouco no momento, mas depois eu me surpreendi ao me ver respondendo aquele beijo. Senti a sua língua contornando os meus lábios e adentrando a minha boca. Não sabia exatamente o que fazer, mas fiz. Não tinha tanta experiência assim em beijos. Nesses dezessete anos de minha vida, eu só havia beijado quatro garotos. Tentei me desligar de minha própria mente, e isso foi tremendamente fácil, porque talvez eu realmente quisesse me desligar dela.

Seus lábios eram urgentes. Eram carnudos, molhados, e terrivelmente doces. Perdi-me em sua língua, que fazia movimentos leves e suaves de encontro a minha, levando ondas de prazer e desejo ao meu cérebro. O seu hálito era forte, quente. Tinha um sabor exótico, como canela, misturado com algo doce, que eu não sabia dizer o que era. Mas era quase viciante.

A sua língua roçou de leve o céu da minha boca, e eu explodi. Explodi em uma onda de calor e de desejo frenético. Por um segundo eu não desejava mais aquele beijo, eu necessitava dele. Respondi com tanta urgência os seus lábios, que achei que ele fosse recuar e se afastar, mas ao contrário do que eu pensei, ele rapidamente se encaixou na minha urgência, roçando os dedos ao longo da minha coluna.

Assustei-me quando me vi com os dedos entrelaçados em seus cabelos negros. Eu estava prensada contra o poste, com o corpo colado no dele e os dedos entrelaçados em seu cabelo. A sensação de sentir os seus lábios era tão boa, que eu estava me movimentando sem ao menos perceber. Sentia-me dormente de novo, toda a dor havia de repente cessado. Como se não existisse mais nada além de nós dois. Nuvens de calor subiam pelas minhas costas, enquanto a sua mão a arranhava. A sua outra mão estava na minha nuca, desenhando círculos minúsculos nos pelos do pescoço. O seu desejo era animalesco.

Ele parou de me beijar. Seus olhos se projetaram para um ponto acima da minha cabeça.

Não consegui sentir medo, ao ver seus olhos aterrorizados e paralisados. Eu fiquei no mesmo lugar, aturdida demais. Eu tinha realmente o beijado? O quê? O que havia acontecido? Passei os dedos pelos meus lábios, sentindo-os dormentes e molhados.

Acertaria as contas comigo mais tarde.

De uma maneira nada gentil, e de uma forma que me deixou desconcertada, ele me arrastou e me lançou pra longe, fazendo com que eu cambaleasse. Suas mãos tinham apertado o ponto em que meu braço estava machucado.

Fechei meu punho, preparando para golpeá-lo.

–-- Droga. – Phelipe praguejou. – Eles estão vindo.

Isso foi o suficiente pra me fazer sentir medo. Eu estava tão vulnerável. Minhas emoções mudavam constantemente. Meus músculos relaxaram, e pareceram se dissolver.

Trocamos um olhar tenso. Ouvi passos vindos à nossa direção, e me virei rapidamente, com o coração na boca. Felizmente era apenas Artur, — e felizmente, outra vez — ele já havia arrumado calças e uma camisa pólo vermelha.

Artur descia o morro, com passos rápidos. Parecia assustado. Quando se aproximou de nós, virou-se para Phelipe, ignorando a minha presença completamente.

–-- Você tem que tirar ela daqui rápido. –Seus olhos fitaram Phelipe com urgência. – Se puserem as mãos nela...

Ele nem se deu ao luxo de terminar, já que nós três sabíamos o que aconteceria. Phelipe trincou a mandíbula, severamente. Seus olhos ferveram com ódio.

–-- Distraia-os. – Phelipe pediu. – Te encontro em poucos minutos.

Artur sacolejou a cabeça, como se a idéia o incomodasse.

–-- Tem certeza, Phelipe? Eu posso levá-la para...

–-- VÁ LOGO. – Phelipe gritou com ira evidente.

Virei-me pra ele, com os olhos assustados. Phelipe franziu o nariz, e voltou os olhos pra mim por menos de meio segundo.

–--Vou tirar essa coisa do caminho deles. – Seus lábios recuaram, como se a idéia o enjoasse.

Coisa? Novamente quis golpeá-lo. Eu não queria aceitar nenhuma ajuda vinda dele. Meu estomago se retraiu de repulsa. A mínima lembrança de tê-lo beijado tinha me deixado com nojo de mim mesma. Ele era uma coisa nojenta.

Eu preferia acompanhar Artur para onde quer que ele estivesse indo. Phelipe estendeu a mão para mim e por meio segundo, eu pensei que ele quisesse apenas me tocar. Ele me segurou novamente pelo braço, me apanhando como se eu fosse um animal. Sacudi meu corpo inteiro, puxando meu braço de volta pra mim e dando um passo à frente para me levar para longe dele.

Quando virei-me na direção onde estava Artur, ele já não estava mais lá. Franzi o cenho. Não me lembrava de tê-lo visto saindo.

–-- Meu carro está logo ali. – Phelipe apontou na direção de uma rua ao nosso lado. A escuridão impedia que eu visse as coisas com clareza. – Entre nele, e espere até eu voltar.

–-- Desde quando você quer me manter a salvo? – Perguntei, semicerrando os olhos.

Ele suspirou.

–-- Não é hora para bancar a teimosa, você não tem outra escolha, docinho.

Ouvi-lo me chamar de docinho, me despertou uma raiva crescente. Não confiava nele. Não gostava dele. Minha vontade era de ter algo pontudo para acertar seus olhos. A sua ironia, me deixou irritada.

–-- O que vocês fizeram com Annie? – Meu coração vacilou uma batida, com medo da resposta. Os gritos tornaram a encher minha cabeça em uma lembrança nítida.

–-- Ninguém encostou um dedo nela. – Garantiu. – É você, que eles querem.

Ele pegou as chaves do carro, no bolso, e me entregou. Praticamente fui arrastada na direção da rua. Suas mãos se fechavam trêmulas nos meus punhos, com força. Ele era grosseiro. De repente, parecia desesperado.

Trinquei os dentes fazendo corpo mole. Não adiantou. Ele continuou a me puxar, até pararmos na frente de um carro preto, que eu deduzi ser o dele. Phelipe me entregou as chaves do carro, e eu me apressei em lhe dar as costas e abrir a porta do carro.

Sabia que teria hematomas amanhã, também causados pelos apertos hostis que ele dera no meu braço.

–-- Sophia, — ele me chamou novamente, sua voz severa. – Só mais uma coisa.

–-- Diga. – Disse sem olhá-lo.

–-- Grite. O mais alto que puder.

Franzi o cenho. Que raio de pedido é esse?

–-- Claro que não. – Estava me sentindo uma criança pirracenta, e isso me incomodava também. A simples presença dele me deixava em uma posição muito desconfortável. Tudo que ele me dizia, por algum motivo eu tinha que discordar ou negar.

Ele me girou pelos ombros, pressionando-me contra o carro. Apertei minhas mãos, enquanto ele passava os dedos pela minha boca.

–-- Vou ter que beijar você de novo? Ou você é capaz de fazer isso? – Sua voz era tão rude e fria, que eu estremeci.

Apertei meus lábios.

–-- Se você ousar tentar me beijar novamente...

–-- Você não vai fazer nada. – Ele desdenhou revirando os olhos.

Novamente desejei ter uma faca na mão.

–-- Você é nojento. Não acredito que beijei você. – Torci para que isso fosse afetá-lo.

Mas ao contrário, ele sorriu. Seu sorriso se alargou, como se ele tivesse tendo uma piada particular em cima das minhas palavras.

Ergui meu punho fechado, mas antes que pudesse fazer qualquer coisa, ele pressionou minhas mãos atrás das minhas costas. Quase gemi de dor, mas decidi não lhe dar esse prazer.

Então gritei. Descarreguei toda a minha ira em um só grito.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.