Tempesta

4 Capítulo 4 - Neblina


Notas iniciais
opa, mais um capítulo! Espero que tenham gostado do Octávio pequenininho, porque esse é o último capítulo dele! No próximo capítulo teremos um time skip! Boa leitura!

???, 16 de abril de 1985

Octávio foi guiado por Ozzy para fora do prédio e os dois andaram por umas duas quadras até chegar em um prédio igual a todos os outros, menos no andar térreo: as portas de vidro eram grandes e estavam escancaradas, e lá dentro o garoto conseguia ver um balcão e mesas.

— Essa é uma das cantinas do complexo. — Ozzy comentou quando entraram. — a maioria dos alunos não come nelas porque precisa pagar pela comida, mas tem vários refeitórios espalhados por aí pros alunos usarem de graça.

Octávio olhou em volta. Parecia uma padaria. Algumas mesas para um lado, um balcão com algumas comidas à mostra na “vitrine” na frente de uma chapa que um dos funcionários estava usando para preparar um sanduíche, e um caixa um pouco mais para o lado do balcão.

— Eu não tenho dinheiro pra pagar. — o menino murmurou, incomodado. Será que eu vou ficar sem comer até conseguir ir nesse refeitório que ele falou?

— É claro que não tem, eu que vou pagar. Só escolhe o que quer comer. — Ozzy colocou um cardápio de plástico na mão do menino.

Octávio pensou em discutir; sua mãe o tinha ensinado a não incomodar os outros e não deixar que as pessoas saíssem comprando coisas para ele, mas estava com fome e achou melhor aproveitar a chance enquanto ela ainda existia. Dada a experiência do menino na própria casa, não era sempre que alguém estava disposto a arranjar comida para ele. Rapidamente se decidiu por mais um misto-quente e uma garrafa de água; Ozzy pediu, pagou, os dois pegaram seus sanduíches e o homem conduziu Octávio até uma das mesas.

O garoto não tinha reparado até então, mas algumas outras pessoas comendo ali estavam encarando-o estranhamente. Octávio não gostava daquela sensação. Ele se encolheu um pouco na cadeira e voltou sua atenção para a mesa e o adulto à sua frente.

— Ozzy?

— Hm? — Ozzy encarou o menino. Ele parecia tranquilo.

— As pessoas tão olhando… — Octávio quase sussurrou. Por causa dos seus poderes o garoto sempre tentou chamar o mínimo de atenção possível para si mesmo. Todos aqueles olhos nele eram extremamente desconfortáveis, especialmente porque eram de adultos.

O homem olhou em volta. Alguns dos adultos desviaram o olhar quando a vista de Ozzy passou por eles, mas outros se mantiveram encarando o garoto e cochichando entre si.

— Tão mesmo. — Ozzy deu de ombros. — não precisa se preocupar, eles só não tão acostumados a ver alunos por aqui, especialmente sem uniforme. Nenhum deles vai te fazer mal.

— Ok. — o menino tentou soar mais confiante do que se sentia, mas a sensação ainda era muito incômoda e seu corpo permanecia tentando se encolher, se esconder, contra a sua vontade.

Ozzy pareceu perceber o desconforto do menino e se levantou. Octávio observou, confuso, enquanto o homem foi até o balcão e voltou com duas pequenas caixas de isopor como as que ele tinha trazido o sanduíche da última vez, e entregou uma ao garoto enquanto tirava seu próprio sanduíche do prato e colocava dentro da caixinha. Quando percebeu que Octávio continuou parado, Ozzy voltou sua atenção para o menino.

— Vem, vamos lá pra fora. Esses caras são todos uns chatos mesmo.

Alívio inundou o peito do garoto e ele rapidamente pegou seu sanduíche também e saiu atrás de Ozzy.

§

Octávio observou mais um pequeno ônibus cinza passar na rua à frente deles. Agora são quatro. Dois cinzas e dois pretos.

Ele e Ozzy estavam sentados na beira calçada em frente à cantina, terminando de comer. Nenhum dos dois tinha falado mais nada desde que sentaram ali, mas o silêncio entre eles não era desconfortável. Porém, o garoto estava curioso e resolveu quebra-lo:

— O que são esses ônibus que ficam passando? — Octávio encarou o adulto ao seu lado enquanto esperava a resposta.

— Só ônibus normais. — Ozzy retrucou ainda olhando para a rua. — essa unidade do Hospital é enorme, e ir pros lugares andando as vezes demora muito, então têm alguns ônibus. Os pretos são pros humanos e os cinzas são pros nomans.

— Pra quê os humanos precisam de ônibus separado?

— Sei lá. Acho que eles são metidos e querem ter algumas coisas só pra eles.

Octávio riu. Ozzy não agia tanto como os adultos que o garoto conhecia; era muito mais fácil de conversar com ele.

— Você anda nos pretos ou nos cinzas?

— Nos cinzas. Sou um noman que nem você, esqueceu?

— Mas você trabalha aqui!

— E todos os nomans que trabalham aqui, que por sinal não são muitos, pegam os ônibus cinzas. Amanhã eu te explico melhor isso. Já acabou de comer? — Octávio assentiu e Ozzy se levantou, incentivando o menino a fazer o mesmo. — vou te mostrar os alojamentos então.

Os dois atravessaram a rua andaram por um tempo pela avenida e logo Ozzy parou na frente de um dos prédios. Não era diferente dos outros, mas Ozzy apontou para os números pretos logo acima da porta. 88.

— Esse é o lugar que você vai ficar. Os alojamentos são quartos onde os alunos podem dormir e descansar. — Ozzy empurrou as portas de vidro e entrou pelo salão vazio até um dos elevadores do lado direito, com Octávio em seu encalço. — o lado direito é onde os meninos ficam, o esquerdo é o das meninas.

Os dois entraram no elevador e Ozzy apertou o botão do primeiro andar; as portas do elevador logo se abriram em um corredor igualmente vazio com a exceção de algumas portas. As paredes e chão brancos lembravam Octávio de um hospital de verdade. O menino contou cinco portas enquanto caminhavam até a última delas no fim do corredor. Ozzy puxou uma espécie de cartão do bolso e o encostou em um visor logo acima da maçaneta, e o som da fechadura se destrancando sinalizou que eles poderiam entrar.

O quarto era simples; uma cama com uma muda de roupa cuidadosamente dobrada em cima, uma pequena mesa e cadeira de madeira e uma outra porta.

— Aquele é o banheiro. Você pode tomar um banho se quiser. — O homem abriu a porta, mostrando um pequeno banheiro que provavelmente seria apertado demais para um adulto, mas para Octávio serviria bem. — esse aqui é um quarto temporário, só por hoje. Amanhã eu vou te mostrar o resto do campus e o quarto que você realmente vai ficar.

O garoto olhou o quarto em silêncio, sentindo o medo comprimindo seu estômago. Nunca tinha dormido fora de casa antes. Agora, mais do que nunca, a mente do menino estava realmente entendendo o que “não voltar mais para casa” implicava.

— Fica a vontade, dorme um pouco e amanhã cedo eu te busco aqui de novo, ok? — Ozzy já se virava para sair do quarto e o pânico atravessou o menino como um raio.

— Espera! — Octávio exclamou, quase gritando. Ozzy se virou de volta, encarando o garoto, que permaneceu em silêncio.

O que eu falo?

Tudo que Octávio sabia é que não queria ficar sozinho. Novamente o rosto da sua mãe veio à mente e sua visão ficou embaçada com lágrimas. Seu pai sempre dizia que um homem de verdade não chora, e muito menos diz que tem com medo. Mas então o que eu faço?

O aperto que Octávio sentia no peito piorava cada vez mais e sua voz não saía. Todo aquele lugar subitamente parecia errado; aquela não era sua casa, ou sua cama, e todo o peso daquele dia se derramou sobre o garoto como um balde de água fria. Eu não vou pra casa eu tô com saudade eu quero minha casa eu quero minha mãe eu não quero ficar sozinho eu não quero eu não quero eu não quero...

Ozzy pareceu perceber que o menino estava em alguma espécie de conflito e se ajoelhou para ficar na sua altura.

— Tá tudo bem? — os olhos azuis analisavam o rosto do garoto com um foco quase intimidador.

Após um momento, Octávio sacudiu a cabeça. Não.

— Você tá com medo?

O garoto assentiu. Sim.

— Ninguém aqui vai te fazer mal, Octávio. Eu sei que é um lugar novo e que você não chegou aqui de um jeito bom mas ninguém vai te machucar-

— Não é isso. — Octávio interrompeu, falando tão baixo que uma pessoa à um metro deles não teria ouvido. O garoto não estava com medo do Hospital. Por mais que sua professora tivesse dito que eles eram maus e algumas pessoas aqui fossem muito bravas, o Hospital tinha o Ozzy, e o Ozzy era bom. Ele era calmo e gentil e parecia querer ajudar. Ficou bravo quando os homens que trouxeram Octávio não estavam o tratando bem. Deixou ele dormir no sofá e comprou comida e fez piadas. Um lugar de gente malvada não teria uma pessoa boa trabalhando para eles, certo? Não faria sentido.

— Então qual é o problema?

— Eu… Eu nunca dormi fora de casa… — Octávio admitiu.

O olhar atento de Ozzy pareceu relaxar e o canto da sua boca subiu em um pequeno sorriso.

— Sério mesmo? — Ozzy perguntou, sem nenhum traço de surpresa na voz, mas Octávio estava ocupado demais respondendo a pergunta para detectar a expressão divertida do homem.

— Sim... eu nunca fui chamado pra dormir na casa de amigo mas mesmo se eu fosse minha mãe nunca ia deixar porque ela tem medo que as pessoas vejam meu olho brilhar, e eu também nunca fui dormir na casa da minha avó porque ela odeia meu pai então a gente quase não vê ela e…

O garoto continuou tagarelando quase sem parar para respirar, falando mais do que tinha falado o dia todo, sem nem perceber o que estava fazendo, mas Ozzy percebeu: primeiro de tudo, o garoto estava nervoso; mas mais importante que isso, a súbita enxurrada de palavras era uma forma de não deixá-lo ir embora, quer Octávio soubesse disso ou não. Ozzy não pode evitar achar a atitude fofa.

— Vamos fazer uma coisa então. — Ozzy interrompeu o tagarelar do garoto e se levantou. Ao ver a expressão assustada do menino ao achar que ele iria embora, completou rapidamente o resto da frase. — Você toma um banho, e enquanto isso eu vou até meu escritório pegar um livro, volto aqui e fico lendo ali na cadeira te fazendo companhia um pouco até você dormir, que tal?

Ele não conseguiria deixar o garoto sozinho e com medo; talvez os outros supervisores fizessem isso com as crianças recém chegadas, mas ele não era propriamente um supervisor. Nunca tinha sido responsável por nenhuma das crianças que passaram por ele; nem ao menos conversou com a maioria delas. Agora, se perguntava se deveria ter conversado. Se todas estavam assustadas da mesma forma que esse garoto, ele deixou de ajudar muitas delas. Ele lidaria com as consequências depois.

Octávio semicerrou os olhos, desconfiado. Ozzy não parecia incomodado com a própria sugestão e encarou Octávio de volta, esperando calmamente uma resposta. E se ele só fosse embora?

— De verdade? — o menino perguntou, tentando soar o mais indiferente possível.

— Eu prometi que não ia mentir, não prometi? — Ozzy levantou as mãos da mesma forma que tinha feito mais cedo para que Octávio pudesse vê-las com uma expressão debochada. — Só passou algumas horas e a promessa já não tá valendo mais?

O aperto no peito de Octávio diminuiu imensamente e o pânico desapareceu; o menino não conteve um sorriso.

— Claro que tá valendo! — o garoto correu até a cama e agarrou a muda de roupas e se virou novamente para Ozzy, que o observava com um olhar intrigado. — A gente andou um tempo da sua sala até aqui, então vai demorar um pouco pra você ir e voltar, e eu vou demorar um pouco pra tomar banho. Vamos ver quem termina primeiro! Quem perder tem que comprar misto-quente pro outro!

A expressão de Ozzy passou por uma sequência de pequenas alterações; primeiro era uma expressão intrigada, em seguida mudou para confusa, surpresa e por fim o homem deu uma gargalhada. O som era agradável, mas estranhamente alto, mesmo para uma risada. Octávio moveu a cabeça involuntariamente para o lado por causa do som, seu corpo tentando escapar do barulho. No que Ozzy percebeu o movimento a gargalhada foi interrompida de forma quase agressiva e se transformou em um pigarro, o rosto do homem se contorcendo em uma pequena careta. Antes que Octávio pudesse ao menos pensar no que tinha visto a careta já tinha desaparecido, substituída por um sorriso suave; Ozzy se encaminhou para a porta.

— É bom você correr então, porque eu vou querer dois mistos e você não tem dinheiro. — ele riu.

Com um sobressalto Octávio correu até o banheiro enquanto Ozzy saiu e fechou a porta. Octávio tomou banho em uma velocidade que teria deixado sua mãe orgulhosa e vestiu a muda de roupas brancas que pareciam pijamas, mas estavam grandes demais para ele; ele estava tropeçando na barra da calça o tempo todo e a camiseta ia até quase seu joelho. Sem saber o que fazer, ele abriu a porta do banheiro — se certificando que Ozzy não tinha voltado ainda e que o menino tinha vencido — e saiu andando arrastando os pés no chão para tentar não tropeçar nas calças.

Eu pareço um pinguim.

A porta se abriu subitamente e Octávio quis se virar, mas um dos seus pés se enroscou no outro e o garoto desabou no chão como um saco de batatas.

— ... Octávio?

— Ai.

Ozzy se aproximou e percebeu as roupas compridas. Ele se abaixou enquanto Octávio começava a levantar, pegou uma parte de tecido sobressalente de uma das pernas da calça e dobrou algumas vezes para que Octávio não tropeçasse nele, e depois fez a mesma coisa com a outra perna. O menino aguardou em silêncio, sem saber exatamente o que fazer. Ninguém além da sua mãe tinha feito algo assim para ele; era um pouco estranho, mas não causava uma sensação ruim.

— Essa roupa com certeza não é pra você. — Ozzy sorriu. — amanhã vou arranjar um uniforme decente pra você.

Octávio assentiu em silêncio, ainda um pouco desconcertado, se levantou e sentou na cama. Ozzy foi até a cadeira no canto do quarto, acendeu a pequena lâmpada da mesa e apagou a do quarto e se acomodou ali, abrindo o livro sem mais nenhuma palavra. Octávio se colocou por baixo das cobertas e observou o homem lendo pelo canto da vista por alguns minutos. A presença serena dele acalmava Octávio mas ao mesmo tempo o deixava confuso. Porque ele ficou aqui comigo e não ficou bravo comigo? Meu pai ia brigar e a mamãe também ia falar pra eu não ser medroso... ele não parece um adulto normal as vezes mas ele é legal então acho que tudo bem e ele me ajudou também… eu acho que eu tenho que falar alguma coisa a mamãe me ensinou a ser educado...

— Ozzy? — Octávio murmurou, começando a sentir sono.

— Hm? — olhos azuis abandonaram o livro e focaram no menino. Estar no foco daqueles olhos ainda era um pouco inquietante mas Octávio estava começando a se acostumar.

— Obrigado por… por não me deixar sozinho.

A expressão de Ozzy não mudou, mas acenou com a cabeça reconhecendo o agradecimento do menino. Para Octávio isso foi suficiente; o garoto fechou os olhos e se ajeitou na cama e em questão de minutos estava dormindo.

§

Octávio entreabriu os olhos. Suas pálpebras estavam pesadas com o sono e sua mente demorou um pouco para compreender onde estava. A luz do dia entrava pela brecha da cortina, mas não tinha como o menino saber que horas eram; Octávio sentou e coçou os olhos, sua mente ainda lutando para acordar. A cadeira onde Ozzy tinha se sentado na noite anterior estava encostada de volta na mesa e a lâmpada estava apagada.

As observações sonolentas do menino foram interrompidas por vozes; Octávio podia ouvir várias delas do lado de fora. Se levantou e foi até a janela, espiando pela brecha da cortina, e observou algumas crianças e adolescentes de uniforme branco — todos com golas vermelhas — saindo do prédio e indo em direção à rua em fila indiana, acompanhadas por dois guardas também de branco. Elas conversavam animadamente entre si e não pareciam nem um pouco afetadas com os guardas guiando a fila, e Octávio às observou até que a fila virou na rua e desapareceu de vista. Eles não perceberam que os homens têm armas?

Os devaneios do garoto foram interrompidos pelo som de duas batidas na porta. Octávio saiu da janela e deu de cara com Ozzy, que já tinha aberto a porta e se colocado para dentro do quarto.

— Bom dia. — antes que Octávio pudesse responder alguma coisa, o homem empurrou uma nova muda de roupa nas mãos do garoto. — pode colocar isso e me encontrar lá em baixo? Essas aqui devem ser do seu tamanho.

Octávio assentiu e Ozzy se retirou sem mais nenhuma palavra.

Ele tá bravo? O que eu fiz? Será que ele mudou de ideia e vai me entregar pro homem que ele disse que não gostava eu não quero ir eu me comportei eu-

Octávio sacudiu a cabeça para tentar afastar os pensamentos. Ele prometeu que não ia me machucar. O garoto voltou sua atenção para as roupas. Eram brancas, e a camisa tinha a gola vermelha como as das crianças que ele viu. Agora que ele estava vendo mais de perto, reparou que a camisa tinha um bolso frontal com a borda também vermelha, e a calça tinha uma linha vermelha que ia da barra até a cintura. Enquanto abotoava a camisa Octávio decidiu perguntar sobre as cores dos uniformes para Ozzy depois.

A camisa serviu bem e a calça ficou ligeiramente larga, mas tinha um cinto junto. Octávio se olhou no espelho no canto do quarto. Ele realmente parecia um aluno de uma escola. Uma escola chique. A minha só tinha camiseta que pinicava e calça moletom. A mamãe ia gostar de me ver arrumado.

Octávio sentiu um aperto no peito ao lembrar do sorriso da mãe. O garoto sacudiu a cabeça mais uma vez e saiu pela porta.

§

Ozzy estava na entrada do prédio observando a rua. Octávio se aproximou em silêncio, mas o homem não foi pego de surpresa, olhos logo se voltando para o garoto.

Octávio continuou em silêncio, apreensivo. Ozzy foi legal até agora e Octávio não acha que o homem é uma pessoa ruim, mas Octávio não é bobo. Alguma coisa estava diferente de ontem, e enquanto não soubesse o que era, o garoto continuaria atento.

— Dormiu bem? — Ozzy perguntou, diplomático. Octávio assentiu e o canto da boca do homem se ergueu num sorriso despreocupado. — Que bom. Pronto para conhecer o resto do Hospital?

Octávio assentiu de novo, ainda sem dizer nada. Aqueles olhos azuis pareceram olhá-lo duas vezes, como quando alguém lê duas vezes a mesma linha de um livro. A expressão de Ozzy não mudou mas Octávio sabia que agora o homem estava tentando decifrá-lo.

— Você tá bem? — Ozzy perguntou. Octávio assentiu de novo. Ele se sentia mais alerta do que com medo, mas não queria correr o risco da sua voz tremer e entregar nada. A expressão do homem permaneceu impassível e Octávio não conseguia adivinhar o que ele estava pensando.

Ozzy voltou seu corpo inteiro para o garoto ao invés de apenas a cabeça. O garoto não tinha certeza, mas pensou ter visto Ozzy mover os olhos rapidamente olhando a área em volta deles antes de agachar para ficar à altura dos olhos de Octávio.

— Você lembra que eu prometi não te machucar nem mentir, né? — Octávio balançou a cabeça mais uma vez. — então qual é o problema?

Octávio permaneceu em silêncio, ponderando o que fazer em seguida. E se eu perguntar e ele ficar bravo? Ele disse que não vai me machucar mas e se ele fizer outra coisa e se ele descumprir a promessa e se ele tiver bebido-

Octávio fechou os olhos com força. Não.

— Octávio?

Ele não é o papai.

Octávio abriu os olhos lentamente e piscou. A expressão neutra de Ozzy tinha se dissolvido e agora ele parecia algo entre preocupado e confuso.

Perguntar não poderia ser tão ruim.

— Você tá... diferente?

— Diferente como?

— Que nem… que nem os outros adultos daqui. Eles são bravos ou só passam fazendo cara séria e não te olham muito nem falam com você. Você não tava assim ontem.

A expressão de Ozzy suavizou.

— Octávio, eu trabalho aqui. Tem algumas regras... que eu e todos os outros que trabalham aqui temos que obedecer pra não sermos demitidos. Isso inclui manter uma certa distância dos alunos. Nós somos funcionários, não seus... colegas. Ontem eu quebrei algumas regras pra você não ficar tão assustado, mas tem algumas coisas que eu não posso fazer, sabe? — Octávio assentiu, um pouco desapontado. — O conselho provavelmente vai me chamar pra uma reunião e me dar uma bronca nos próximos dias. Eu não quero o seu mal e vou te ajudar, mas vai ter que ser de acordo com as regras, ok?

— Ok. — Octávio respondeu, ainda sem saber exatamente o que pensar. Ele provavelmente teria que esperar o desenrolar dos próximos dias para decidir o que isso significava para ele. Mas pelo menos agora Octávio sabia que Ozzy não estava bravo e que estava tudo bem, ao menos por enquanto, e o menino se permitiu relaxar.

Ozzy se levantou e dessa vez ele não foi discreto ao olhar em volta antes de bagunçar os cabelos já desorganizados do menino. Octávio já tinha visto fazerem isso em um filme. A sensação era estranha, mas agradável, e ele não pode evitar abrir um pequeno sorriso.

Ozzy se virou e saiu andando em direção a rua. Quando percebeu que Octávio não estava vindo junto, virou a cabeça e exclamou:

— Vai ficar aí? Você tem um monte de coisa pra ver hoje!

O sorriso tímido de antes se tornou maior e Octávio correu para alcançar Ozzy, que já estava olhando para frente novamente, focado no que estava por vir.

Notas finais
E aí, o que acham que vem pela frente?