Tempesta
5 Capítulo 5 - Calmaria
???, 21 de janeiro de 1987 — Dois anos depois
Octávio encarou a folha de exercícios e soltou um suspiro incomodado. Tudo aquilo era muito fácil. As contas não apresentavam dificuldade nenhuma, matemática não apresentava dificuldade nenhuma, assim como todas as outras matérias que o garoto vinha cursando.
Empurrou a folha para longe e apoiou a testa na mesa, resmungando.
—Octávio? — Ozzy levantou os olhos do computador que ele tinha passado a última hora encarando e digitando; Octávio não tinha certeza se ele tinha ao menos piscado nesse período. — qual é o problema?
— É muito fácil! Eu consigo fazer essa folha toda em cinco minutos! — o garoto reclamou. Ozzy manteve a expressão vazia e Octávio sabia agora que isso indicava que o homem não estava levando Octávio a sério.
— Então porque ainda não fez? Se você é tão esperto... — Ozzy sabia cutucar o ego do garoto como ninguém.
— Ozzyyyy... — Octávio jogou o corpo para trás e se apoiou no sofá atrás dele e resmungou ainda mais. — você sabe que eu consigo. Você até me tirou das turmas normais porque eu tava muito na frente!
— Você já está fazendo atividades avançadas que os seus tutores recomendaram pro novo ano escolar. Você tá pulando vários anos, Octávio.
— Eu tô pulando porque eu consigo! A culpa não é minha que eu cresço mais rápido!
O garoto não estava errado. Dois anos atrás, quando Octávio chegou ao hospital, foram necessários apenas alguns testes pedagógicos nos dias que se seguiram a chegada do garoto para definir que seu lugar de fato não era em uma turma da sua idade biológica; mesmo com cinco anos, Octávio tinha a capacidade mental e física claramente superior à de outras crianças desta idade.
Após essa conclusão, uma nova bateria de testes foi conduzida — tanto no nível mental quanto físico — para entender porque Octávio crescia tão rapidamente. A conclusão foi que além do poder de controle climático, o garoto possuía também crescimento acelerado, cerca de 1,5 vezes mais rápido que o normal. Octávio rapidamente se tornou mais alto e forte até mesmo em relação às crianças de sete e oito anos — a mesma faixa etária de alunos com quem ele estudava na escola.
Depois dessa descoberta, ele foi afastado temporariamente das turmas formais do Hospital e recebeu um programa individual de estudo preparando-o para se juntar a uma turma mais avançada; no presente momento, a idade biológica de Octávio é de sete anos, mas seu corpo e mentalidade são equivalentes ao de uma criança de aproximadamente onze anos.
Durante os dois anos de preparação, Octávio nunca teve muita companhia e não foi apresentado a outros alunos do Hospital, por mais que visse vários deles passando de relance; quando não estava nas aulas particulares, passava a maior parte do tempo no seu quarto no alojamento ou na biblioteca acessível aos alunos da unidade, mas quando se sentia muito solitário — o que acontecia com frequência — acabava indo para o escritório de Ozzy. O homem não o tinha expulsado até hoje, o que levava Octávio a crer que ele não se incomodava com as visitas.
— Sim, você cresce rápido e é extremamente inteligente. — Ozzy reconheceu. Octávio não pode deixar de sentir uma onda de orgulho encher seu peito. Por mais que Ozzy sempre desse apoio ao garoto, elogios não eram frequentes, o que tornava as vezes que Octávio de fato recebia elogios ainda mais significativas. — Mas esses últimos dois anos afastado das turmas formais foram justamente pra te preparar pra uma turma avançada. Você vai entrar numa turma com alunos que têm praticamente o dobro da sua idade biológica. O conteúdo escolar desse ano vai ser o suficiente pra te manter ocupado, e todos os alunos vão estar na sua frente nos treinos físicos; você vai ter que trabalhar duro. Não tenta correr mais do que suas pernas conseguem aguentar.
— Eu sei, mas... — Octávio não manteve a linha de raciocínio; não sabia como continuar. A menção de novos colegas com o dobro da sua idade foram o suficiente para esfriar os ânimos do garoto, que não sentia a mínima vontade de ser ridicularizado por sua idade de novo. É um saco como ele consegue estar certo o tempo todo.
— As aulas recomeçam em duas semanas, e você está pronto. Não precisa se adiantar ainda mais. Vai ter exercícios novos quando as aulas começarem.
— Ok... — Octávio suspirou desanimado, voltando a encarar o papel, fazendo os cálculos rapidamente. Ele ainda sentia o olhar de Ozzy sobre si, mas não quis olhar de volta.
Ozzy se levantou da cadeira e se espreguiçou, chamando a atenção do garoto.
— Eu acho que eu preciso de uma pausa. Vem, eu compro alguma coisa pra você comer.
— Se você continuar comprando comida pra mim eu nunca vou conseguir te pagar de volta quando eu crescer. — Octávio resmungou, fingindo irritação, mas podia sentir o canto da sua boca se erguendo num sorriso. Ozzy já conhecia as manias do garoto e nem ao menos hesitou diante da reclamação; apenas piscou para Octávio e saiu pela porta, sabendo que o garoto o seguiria.
— Você nunca vai conseguir pagar, eu tô cobrando juros.
— Juros?!
§
As duas semanas sem atividades escolares restantes passaram rapidamente; a pedido de Ozzy, Octávio não pediu exercícios mais complicados para seus tutores e tentou gastar o tempo restante com treinos físicos para aumentar sua resistência e não se cansar tão rápido.
Nos últimos dois anos, Octávio aprendeu a manter seus poderes sob controle e não ativá-los sem motivo, mas nada mais que isso. O Hospital não tinha como treinar os poderes do garoto separadamente já que todos os professores estavam ocupados com suas próprias turmas e tutelados.
Mas a partir de hoje isso mudaria.
Octávio desligou o pequeno rádio relógio que ficava ao lado da sua cama e se levantou, o sono já completamente esquecido e o peito apertado. Ao mesmo tempo que estava animado para começar seu treino físico e a ter aulas propriamente ditas, Octávio ainda não se sentia confortável com a ideia de novos colegas. Não é como se sua experiência com salas de aula tivesse sido boa até então.
Já tinha preparado sua mochila no dia anterior — uma mochila genérica preta que o Hospital oferecia aos alunos junto com outros itens como uniformes e cadernos. Vestiu a camisa com a gola vermelha — indicativa de um noman com poderes de natureza elemental — e o resto do uniforme e se encarou no espelho por um momento. O uniforme não era algo novo, mas hoje Octávio se sentia diferente; o fato de ter ficado mais alto parecia mais proeminente, e seus cabelos pareciam ficar mais distantes do tom loiro de alguns anos atrás e mais claros a cada dia: Ozzy dizia que Octávio teria o cabelo completamente branco antes de chegar à idade adulta, embora ninguém tivesse certeza se isso era por causa do seu crescimento acelerado ou alguma outra coisa. Será que seus novos colegas achariam estranho?
Melhor não pensar nisso agora. Vou fazer hoje dar certo.
O som do sino que chamava os estudantes soou no térreo; os funcionários vieram escoltá-los até o café da manhã e em seguida suas respectivas aulas. Octávio passou dois anos ouvindo aquele som e ignorando-o; parecia estranho obedecer agora. O garoto deu uma última olhada no seu quarto: se tudo desse certo, seria a última vez que usaria aquele cômodo, pois seria finalmente realocado para um quarto no andar dos seus novos colegas; quando chegou ao Hospital, o quarto deveria ter sido temporário, mas como não se encaixava em nenhuma das turmas Octávio não pôde ser transferido para nenhum dos outros dormitórios.
Suas roupas já estavam dentro de uma sacola que seria levada ao novo quarto e qualquer outra coisa que Octávio poderia chamar de pertence pessoal estava na sua mochila. Ele nunca precisou de muitas coisas morando no Hospital.
Fechou a porta com um suspiro e seguiu pelo corredor até as escadas, ignorando o elevador; já podia ouvir algumas vozes conversando animadamente no térreo, e hesitou por um momento antes de sair das escadas em direção ao meio do hall.
Octávio logo deu de cara com alguns alunos, aparentemente separados em grupos, de acordo com a sua idade. Por um momento, o garoto se perguntou se deveria se juntar aos menores, já que eram os mais próximos da sua própria idade, mas descartou a ideia rapidamente — ele entraria em uma turma mais avançada com alunos mais velhos, não com alunos próximos da sua idade — infelizmente isso significava que ficaria parado no meio do hall, sozinho.
Os outros estavam começando a notar sua presença e pararam de conversar entre si para encarar o rosto novo entre eles. Octávio já tinha visto aquelas pessoas de relance várias vezes, mas duvidava que elas tivessem prestado atenção de volta. Mas agora que estava no meio delas, todas pareciam notar que não o conheciam. Octávio permaneceu no lugar, sem saber muito o que fazer; chamar a atenção era a última coisa que queria no momento.
— Ei, você é o menino novo? — uma voz surgiu de repente, vinda de trás de Octávio.
Virando-se rapidamente com o susto, Octávio deu de cara com uma menina. Ela era ligeiramente mais alta que ele e vestia um uniforme com golas vermelhas também, mas diferente de Octávio, sua pele era negra e o cabelo era escuro e bem cacheado, embora estivesse cortado quase rente ao couro cabeludo; a garota sorria como se encontrar com ele fosse o melhor momento do seu dia.
Octávio olhou em volta por um momento, mas ela não parecia estar se dirigindo a outra pessoa e ninguém parecia inclinado a se aproximar dos dois; voltou-se novamente para ela e assentiu. Seu estômago parecia querer saltar para fora do corpo.
Se ela resolver fazer alguma piada de mim agora, já sei que vai ser igual a quando eu tava na escola.
— Nosso professor avisou que você ia chegar. Eu me chamo Helena. Qual é o seu nome? Quantos anos você tem? Qual é a sua classe? Qual é o seu pod-
O turbilhão de perguntas de Helena foi interrompido por uma mão cobrindo delicadamente a boca da garota, para que ela parasse de falar.
— Nena, uma pergunta de cada vez, não sufoca o moleque. — uma voz grave riu. Helena empurrou a mão para longe de seu rosto, mas não parecia irritada.
Octávio ergueu os olhos do rosto da menina para encarar o dono da voz. De certa forma, ele e Helena eram parecidos: mesmo tom de pele e cabelos cacheados e curtos, assim como os lábios cheios; mas enquanto os olhos de Helena eram escuros, os olhos do rapaz eram completamente prateados, exatamente como os olhos de Octávio ficam quando seus poderes estão ativos.
O rapaz era alto, bem mais alto que Octávio, e aqueles olhos pareciam estar vendo algo dentro dele. Octávio sentiu uma súbita e estranha vontade de se cobrir. Ou talvez se esconder. Algo na sua expressão provavelmente alertou o rapaz, porque ele abriu um pequeno sorriso.
— Não precisa ter medo. Eu sei que meus olhos são meio estranhos, mas eu não tô fazendo nada com você... meu poder só não tem um botão de desliga como o da maioria de vocês. — o rapaz explicou calmamente, como se já tivesse dito isso várias vezes. — Meu nome é Renan.
Por um momento, Octávio achou que sua voz não ia sair, mas pigarreou e forçou-se a falar.
— Octávio. Prazer em conhecer vocês.
— Você já tá por aqui faz um tempo, não? Aqui no Hospital. — Renan perguntou. — eu já te vi andando por aí várias vezes.
Octávio assentiu, mas não fez nenhuma tentativa de explicar a situação. Renan pareceu satisfeito mesmo assim.
— Isso é bom, você não vai ficar tão perdido nos primeiros dias. A maioria dos novatos que chega aqui não sabe onde fica nada. Mesmo assim, pode vir falar comigo se tiver alguma dúvida, beleza? Por sinal, deixa eu aproveitar e já te dar sua primeira dica de sobrevivência...
Renan abaixou um pouco o corpo para se aproximar mais de Octávio, e o garoto conteve a vontade de dar um passo para trás. Renan não parecia ameaçador, mas os olhos constantemente prateados ainda eram desconcertantes; a vontade de se cobrir ainda não tinha passado.
Renan colocou a mão aberta perto da boca, como se fosse cochichar um segredo, mas falou em alto e bom som:
— Não precisa escutar tudo que a Helena fala. Ela só adora ouvir a própria voz.
— Renan! — Helena o empurrou, rindo. — para de ser idiota, assim ele vai pensar que eu sou uma chata.
Renan riu e bagunçou os cabelos dela. Em seguida fez a mesma coisa com Octávio, como se sempre tivesse feito aquilo. O único que tinha feito isso com Octávio antes foi Ozzy, com quem Octávio já estava acostumado; mesmo assim o gesto estranho não foi assustador ou incômodo como esperado. A naturalidade com que Renan fazia as coisas deixava a atitude reconfortante. Octávio sentiu o canto da sua boca se erguendo suavemente em um sorriso. Os dois pareciam boas pessoas.
— De qualquer forma, bem vindo ao Hospital! Você vai ficar na nossa turma, certo? É bom que você já conheceu a Helena. Você parece um cara quietinho, ela pode te apresentar pra todo mundo e você não tem que se preocupar. — Helena sorriu para Octávio, assentindo. Renan ergueu o punho fechado e deu um soquinho na mão também fechada dela. — Tô contando contigo.
Renan sorriu para os dois e foi para o outro lado do salão falar com dois alunos mais velhos; assim como Renan, pareciam ter por volta de dezesseis anos.
— Bom, — Helena se posicionou ao lado de Octávio, chamando sua atenção novamente. — você já conheceu o Renan. Ele é o mais velho da nossa turma, ele acabou de fazer dezesseis anos. É o último ano dele no nosso módulo. Depois ele vai se juntar com os bichos ali.
— Bichos? — Octávio perguntou, confuso. Nenhum deles parecia ter alguma característica animal.
— É como os Agentes chamam os candidatos. Eu não sei porquê, mas pelo visto significa "novatos". — ela riu e apontou para um garoto com o cabelo raspado com quem Renan conversava. — aquele é o Marcos. Ele voa. E aquela do lado dele é a Clarice, ela controla plantas. Os dois são mais velhos e vão fazer a prova de Agente daqui uns meses.
Ozzy tinha explicado sobre os Agentes. Muitos dos nomans do Hospital eram Agentes — pessoas que usavam seus poderes para proteger, recrutar e lutar pelo Hospital, embora Octávio não entendesse o que havia para lutar. Nomans como Ozzy, que começavam a trabalhar para o Hospital já mais velhos ou que estavam na área de pesquisa são raros; a maioria se torna uma espécie de soldado que é extremamente respeitado dentro da hierarquia do Hospital. Octávio via alguns por aí, usando casacos com o H do Hospital gravado no peito e comandando times de soldados humanos fora do Hospital. Os Agentes são os únicos que entram e saem do complexo quando querem, e ocasionalmente Octávio os viu parar para falar com os alunos sobre "o mundo lá fora". As conversas provavelmente eram interessantes, mas Octávio tinha Ozzy para conversar, então não se sentia tão excluído.
— E eu — Helena continuou, apontando para o próprio peito. — tenho treze anos, e meu poder é combustão espontânea.
Octávio quase engasgou com a própria saliva.
— Você pega fogo?! — Octávio virou o corpo inteiramente na direção da garota, seus olhos procurando algum sinal de que ela poderia subitamente explodir em chamas.
— Hm-hm. — Ela confirmou, parecendo orgulhosa. — Mas eu controlo bem, não precisa se preocupar. Octávio seu nome, né? Posso te chamar de Otto? Nosso professor disse que você é um prodígio, então você é mais novo que a gente? O que você faz?
Octávio quase riu quando Helena entrou novamente em uma enxurrada de perguntas, mas não pode evitar a tensão súbita que tomou conta dos seus músculos quando ela perguntou da sua idade.
Tudo bem, você só precisa falar. Se ela rir de você, você pode virar as costas e não falar mais com ela. Vai ficar tudo bem, vai ficar tudo bem...
— Otto? Acho... Acho que não tem problema. Nunca me deram um apelido antes. Eu não... hm... não sou um prodígio, eu só... meio que... cresço rápido demais. Tenho sete anos.
Helena abriu a boca em um formato de "o", claramente surpresa. Octávio não sabia o que esperar e permaneceu em silêncio, tenso, até que Helena pareceu lembrar de dizer algo:
— Sete?! Que incrível! — Octávio não conseguia sentir nenhum tipo de deboche vindo dela, mas ainda assim não estava tranquilo. — Você tem praticamente a minha altura! Você deve ser muito inteligente também pra entrar num módulo duas vezes na frente do seu!
Octávio sentiu seu rosto ficar quente.
— Eu não sei...
— Com certeza é! Já sei pra quem eu vou pedir ajuda quando eu tiver dúvida na lição de casa. — ela riu. — O Renan também é muito inteligente mas ele... bem... ele não é muito bom em ensinar as coisas pros outros. Tem o Diego também, mas ele é tímido e não gosta de falar. Ele não tá aqui ainda, mas depois te mostro ele.
Ela falava com tanta naturalidade, como se ele fosse normal. Octávio não pode evitar o sentimento de que algo estava fora do lugar.
— Você não me acha estranho?
O que você tá fazendo?
— Por que acharia? — Helena cruzou os braços, confusa.
— Eu sou muito mais novo, mas pareço muito mais velho. As pessoas sempre me acham estranho.
Para de falar! Idiota!
Helena jogou a cabeça para trás e deixou escapar uma risada. Octávio se encolheu involuntariamente.
— Otto, — Helena o encarou com uma expressão divertida. — Eu pego fogo. Minha colega de quarto absorve eletricidade e já explodiu aparelhos eletrônicos dentro do nosso quarto mais vezes do que eu consigo contar. Ninguém aqui tem o direito de achar ninguém estranho.
Ah. Faz sentido.
De repente, toda aquela sala cheia de gente não parecia mais ameaçadora, e os medos de Octávio pareciam meio idiotas. Ele respirou fundo pelo que parecia a primeira vez em horas.
— Falando em poderes — Helena continuou. — o que você faz?
Octávio hesitou novamente. Por não ter muita prática com os seus poderes, não sabia exatamente o que podia ou não fazer de fato.
— E... meu supervisor disse que meu poder se chama atmocinese. É tipo... controle de coisas da atmosfera? Tipo vento e chuva. Eu fiz um raio cair uma vez.
— Caramba! Isso deve ser forte! Você deve ser tipo um C2, eu também sou!
— Me disseram que eu sou C1, na verdade.
Helena parou por um momento, com os olhos arregalados. Em seguida abriu o maior sorriso que Octávio tinha visto nela até então.
— Outro C1! Que incrível! Agora o Rafa finalmente vai ter competição! Mal posso esperar pra ver as partidas de vocês... Vem comigo, eu te apresento ele.
Helena agarrou a mão de Octávio e começou a puxá-lo pelo hall até localizar um garoto baixinho encostado sozinho em uma das paredes. Ninguém parecia estar fazendo um esforço para falar com ele e o garoto parecia satisfeito sozinho. Os olhos amendoados logo se fixaram em Helena e Octávio, que se aproximavam, mas o garoto não se moveu, permanecendo de braços cruzados e em silêncio.
Helena parou diante do garoto e, estranhamente, não disse nada. Apenas acenou para ele em silêncio e pareceu aguardar por alguma coisa.
O garoto encarou os dois por mais um momento, mas por fim descruzou os braços e levou a mão direita à orelha. Só então Octávio reparou que havia uma coisa cinza presa na orelha, ocupando toda a parte de trás do lóbulo. Dela saía um fio que por sua vez parecia conectado com a cabeça do garoto. Olhando com atenção Octávio percebeu que o outro lado da cabeça também tinha um fio, e ambos estavam realmente presos em meio aos cabelos escuros. O que eram aquelas coisas?
Ele mexeu em algo no aparelho atrás da orelha e abaixou a mão novamente. Após mais um momento de silêncio, finalmente se pronunciou:
— Pronto.
Helena não pareceu achar a atitude estranha, e começou a falar como se nada tivesse acontecido.
— Rafa, esse é o Octávio, ele começa hoje. — Os olhos puxados fitaram Octávio de cima a baixo com um olhar claramente desinteressado, mas fez um breve cumprimento com a cabeça. — Otto, esse é o Rafael. Ele é o único outro C1 com poder elemental do Hospital.
Aquilo sim chamou a atenção de Rafael, que desencostou da parede e deu um passo na direção dos dois, olhando para Octávio como se nunca tivesse o visto antes.
— Outro? Você é C1 também?
— Foi o que me disseram. — Octávio murmurou, tentando não olhar muito para o aparelho na orelha de Rafael.
Rafael fez uma careta.
— Vai ter que falar mais alto se quiser que eu te entenda, loirinho. — Diante do olhar confuso de Octávio, abriu um sorriso debochado. — O quê... Nunca viu um surdo antes?
— Rafa, não enche o saco dele, ele acabou de chegar. Ele nunca deve ter visto um implante, ninguém lá fora usa. — Helena reclamou, se voltando para Octávio. — Não liga, ele gosta de incomodar os alunos novos. Esses negócios na orelha dele ajudam ele a ouvir, é só não falar muito baixo que ele vai te entender bem.
Rafael continuou sorrindo como se achasse toda aquela cena ridícula. Sentindo uma pontada de irritação, Octávio tentou novamente:
— Me disseram que eu sou C1.
— Interessante. Quem é o seu supervisor?
— Ozzy Mandigold.
A resposta pareceu confundir não só Rafael como Helena também.
— O cara da trava? Ele é supervisor? — Helena perguntou.
— Eu acho que eu sou o único que ele supervisiona.
— Você ao menos é travado? — Rafael perguntou. — Ele não tá te dando nenhuma vantagem, tá?
Vantagem? Que vantagem?
— Eu sou travado, ele me travou no meu primeiro dia aqui.
— Parabéns, assim como todo mundo. — Rafael resmungou, sarcástico. — Mas ele continua podendo te dar alguma vantagem em relação à gente nas partidas.
— Do que-
O segundo sino interrompeu Octávio e todos os alunos começaram a se organizar em filas para sair.
— Vem, temos que ir pro lugar. — Helena começou a puxar o braço de Octávio, indo na direção da fila.
Rafael passou pelos dois e bateu com o próprio ombro em Octávio, claramente de propósito, enquanto passava. Virou o rosto na direção de Octávio e abriu um sorriso de escárnio.
— É bom eu não descobrir que você tem alguma muleta nos teus poderes, loirinho. Se isso acontecer, vou fazer um esforço especial pra acabar com a tua raça. — Virou-se para frente novamente e ergueu a mão para mexer no implante na sua orelha.
— Meu nome não é loirinho! — Octávio exclamou, incomodado. — E não tenho muleta nenhuma!
— Tarde demais. — Helena resmungou, puxando Octávio com ela na direção da fila. — Ele já desligou o implante. O Rafa odeia o barulho dos sinos e de todo mundo conversando logo cedo, então até entrar na aula ele geralmente deixa desligado. Desculpa, se eu soubesse que ele ia agir assim não tinha apresentado vocês.
— Ele consegue ligar e desligar a audição? — Octávio perguntou, surpreso.
Os dois entraram na fila atrás de um garoto de luvas.
— Esse implante que ele usa é conectado diretamente no sistema auditivo dele, ele tem eles desde pequeno. Eu não sei bem como funciona. É uma invenção meio nova, as pessoas lá fora não usam isso ainda. Precisa de cirurgia. O modelo que ele usa aparentemente é um dos mais avançados que tem.
— O Hospital que tratou dos ouvidos dele?
— Sim. Dizem que gastaram um monte de dinheiro inclusive. Como ele é C1, o esforço vale a pena.
— Como assim?
— Os C1 são sempre os melhores Agentes, então funciona como um investimento.
A fila começou a andar, e Helena ficou em silêncio por um tempo.
Octávio não entendia como uma escala de poder de um a cinco seria capaz de determinar a capacidade de uma pessoa como Agente, mas pelo visto era uma forma muito boa de previsão, se o Hospital chegou ao ponto de fazer uma máquina que permite um menino surdo ouvir de novo. Parece coisa de filme de ficção científica.
Helena cutucou Octávio e apresentou-o para o menino na frente deles, tal de Diego que ela tinha comentado antes. Ele parecia mais assustado que Octávio ao ser apresentado a uma pessoa nova e parecia estar tentando manter as mãos enluvadas o mais longe possível de qualquer contato físico. Á frente deles, Rafael caminhava em silêncio, completamente indiferente à presença de outras pessoas em volta dele.
É um pouco estranho, Octávio pensou consigo mesmo, refletindo sobre tudo que aconteceu e quem ele conheceu nos últimos minutos; mas não parece que vai ser tão ruim.
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