Tempest Point
1 No Colo da Tempestade.
Notas iniciais
Meu nome é Emiliana. Minha vida sempre foi um equilíbrio delicado entre rotina e paixão. Durante o dia eu era apenas mais uma estudante, carregando a mochila pelas ruas de paralelepípedos da cidade, com o barulho dos carros e a pressa do cotidiano me envolvendo. À noite, porém, eu me transformava: no dojô, com o quimono bem amarrado, praticava artes marciais. Cada golpe, cada movimento, era uma dança de força e precisão. Não eram apenas exercícios — eram minha válvula de escape, meu momento de liberdade. As medalhas que conquistei em torneios regionais brilhavam na estante do meu quarto, mas não era por elas que eu lutava. Era pelo amor à arte, pela sensação de estar viva, pelo coração que batia forte a cada kata executado.
Mas, em um instante, tudo o que eu conhecia desmoronou.
Era uma manhã comum, daquelas em que o sol mal aquece e o vento frio corta a pele. Caminhava para a escola, os fones de ouvido tocando uma música suave, enquanto esperava no cruzamento o sinal de pedestres abrir. Ao meu redor a cidade pulsava: pessoas apressadas, buzinas impacientes, cheiro de café vindo de algum lugar. Sentia-me parte daquele cenário, segura na previsibilidade do dia. Até que o mundo explodiu em caos.
Uma dor lancinante atravessou meu corpo como um raio. Antes que eu pudesse entender, senti-me sendo arremessada, como se uma força invisível me arrancasse do chão. Por um breve instante fui peso — apenas movimento — até que o impacto contra o asfalto trouxe uma segunda onda de dor, tão intensa que parecia rasgar minha alma. Gritos ecoaram ao meu redor, vozes misturadas em um borrão de pânico. Meus olhos captaram vultos correndo, pés apressados; o céu acima girava em tons de cinza.
— Moça! Moça, fica comigo! — a voz de um rapaz cortou o nevoeiro da minha mente. Ele ajoelhou-se ao meu lado, o rosto jovem marcado pela preocupação. Ao lado dele, uma moça segurava meu rosto com mãos trêmulas, olhos arregalados de medo. — Não dorme, por favor! Fica acordada, tá bem?!
As palavras vinham em ondas, abafadas pela dor que consumia cada pedaço de mim. Tentei responder, dizer que estava ali, mas minha voz era apenas um sussurro preso na garganta. O rapaz falava ao telefone, com voz urgente:
— Alô, 192? É uma emergência! Ela foi atropelada, está muito machucada! Venham rápido, por favor!
“Atropelada.” A palavra ecoou na minha cabeça, trazendo um peso esmagador. Queria mexer-me, lutar contra a escuridão que começava a me engolir, mas meu corpo não obedecia. A moça ao meu lado apertou minha mão com força, como se pudesse me ancorar à vida.
— Aguenta firme, moça. A ambulância tá chegando. Você vai ficar bem, eu prometo! — havia desespero em sua voz, mas também uma determinação que me fez querer acreditar.
A dor, porém, era maior. Cada respiração era um esforço hercúleo, e o mundo ao meu redor começou a dissolver-se em manchas escuras. A última coisa que ouvi foi a súplica dela, quase um grito:
— Não dorme! Fica comigo!
Então, tudo escureceu.
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Quando abri os olhos de novo, o mundo era um turbilhão de sons e sensações. Sirenes cortavam o ar, misturadas a vozes apressadas e ao bip incessante de máquinas. Eu estava numa ambulância, o teto branco e frio sobre mim. Rostos desconhecidos moviam-se rápido, pronunciando palavras que eu não conseguia decifrar. Uma máscara de oxigênio cobria meu rosto; cada tentativa de respirar reacendia a dor que queimava no peito, nas pernas, em cada fibra do meu ser.
— Pressão caindo! — gritou alguém. — Vamos, estabiliza ela!
Agarrei-me à consciência, mas ela escorregava como areia entre os dedos. Meus olhos cerraram-se novamente e mergulhei num abismo de escuridão.
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Quando acordei, uma dor lancinante se espalhava por todo o meu corpo, como se cada músculo tivesse sido esmagado em um acidente terrível. Meu coração acelerou com o pânico inicial. Imaginei que fosse resquício de um impacto violento — talvez um carro desgovernado, talvez uma queda brutal. Abri os olhos devagar, esperando o teto branco e estéril de um hospital, mas fui engolida por uma escuridão absoluta — opressiva, sem janelas, sem qualquer vislumbre de luz natural. O chão onde eu jazia era gelado como pedra úmida, enviando calafrios que se misturavam à agonia física. Meu peito apertou com um medo crescente. Onde diabos eu estava?
Aos poucos, minha visão se adaptou ao breu, revelando uma fraca luminosidade distante, delineando os contornos de um portão enferrujado. Com esforço hercúleo, levantei-me, ignorando a latejante dor de cabeça que me fazia ver estrelas e a tontura que ameaçava me derrubar novamente. Cada passo era uma batalha contra o corpo traidor, mas o instinto de sobrevivência me impulsionava adiante, até alcançar as grades frias e ásperas.
A luz tênue iluminava o que agora eu percebia como uma cela sombria, úmida e claustrofóbica. Confusão e terror se entrelaçaram em meu peito, sufocando-me — isso não podia ser real; não era um hospital, mas uma prisão medieval. Desesperada por mais claridade, comecei a escalar as grades trêmulas, meus dedos escorregando no metal úmido, o coração martelando como um tambor de guerra. Finalmente, alcancei a fonte: uma pequena esfera irregular, como uma pedra preciosa que pulsava com uma luminescência própria. Com as mãos trêmulas, peguei-a, sentindo um calor sutil emanar dela, e desci cautelosamente, o corpo protestando a cada movimento.
Examinando-a de perto, notei o brilho amarelado, hipnótico, que dançava como chamas contidas. Uma sensação de familiaridade me invadiu, um déjà-vu que cutucava as bordas da minha memória, mas escapava como fumaça, aumentando minha frustração e angústia. Por que isso parecia tão conhecido? Meu estômago revirou com o desconforto.
Foi então que reparei no tamanho das minhas mãos — menores, delicadas, como as de uma criança. Meu pulso acelerou ainda mais. Olhei para baixo e vi a roupa estranha que vestia: um vestido de corte antigo, elegante em sua essência medieval, azul-escuro com bordados brancos outrora refinados. Agora, porém, estava imundo, rasgado em farrapos e salpicado de manchas de sangue seco, que me fizeram engolir em seco. O pavor subiu pela garganta. Quem era eu aqui? O que aconteceu comigo?
A dor na cabeça se intensificou, uma pontada cruel que me fez gemer baixinho. Do fundo da cela, imerso no breu absoluto, veio um ruído sutil — sussurros, talvez movimentos furtivos. Meu instinto gritava para fugir, mas a curiosidade mórbida, misturada ao medo, me compeliu a avançar. Ergui a esfera como uma lanterna improvisada, seu brilho revelando formas vagas na escuridão.
Ao me aproximar, a luz iluminou duas crianças encolhidas, cobrindo os rostos com mãos pequenas. Uma delas tinha cabelos brancos como neve e olhos verde-orvalho, reluzentes de inocência e mistério; suas orelhas eram ligeiramente pontiagudas, evocando lendas antigas. Ao lado, uma garota com orelhas felpudas de raposa — e um rabo ondulante! Seus cabelos ruivos flamejavam sob a luz, e os olhos amarelo-ouro me fitavam com uma intensidade que me gelou a espinha. Meu coração parou por um instante; eu os conhecia... mas de onde? A memória teimava em falhar, deixando-me à beira do desespero.
Um novo movimento irrompeu, e uma voz infantil, trêmula e confusa, ecoou:
— O que está acontecendo? Onde eu estou?
Ali, entre as duas crianças, surgiu um garoto: cabelos preto-escuros como a noite e olhos vermelho-escarlate, profundos e penetrantes. No momento em que nossos olhares se cruzaram, o mundo pareceu congelar — uma conexão inexplicável, carregada de reconhecimento mútuo e confusão. Meu peito se contraiu com uma emoção avassaladora, um misto de alívio e terror. De repente, a dor na cabeça explodiu com uma pressão agonizante, como se algo dentro de mim tentasse romper barreiras. Gritei alto, caindo de joelhos no chão frio, a esfera escapando dos meus dedos enfraquecidos e rolando para longe, deixando-nos mergulhados em uma semi-escuridão pulsante.
De repente, imagens e memórias que eu não conhecia começaram a me invadir. No mesmo instante, o outro garoto gemeu de dor, assim como eu. As duas crianças, assustadas, se aproximaram de nós. Foi quando a lembrança me atingiu com força: meu nome naquele mundo era também Emiliana, mas meu sobrenome era Hoffiman — filha do Duque Hoffiman.
De repente, uma onda avassaladora de imagens e memórias, até então desconhecidas, invadiu minha mente como um furacão. Era como se minha cabeça estivesse sendo esmagada por fragmentos de uma vida que não era minha — ou será que era? No mesmo instante, ouvi um gemido de dor escapar do garoto ao meu lado. Ele também parecia perdido, tão atordoado quanto eu. As duas crianças à nossa frente, com olhos arregalados de medo e confusão, correram em nossa direção, suas vozes tremendo ao nos chamar.
Foi então que a verdade me atingiu como um raio. Meu nome, naquele mundo, era Emiliana Hoffiman, filha do poderoso Duque Hoffiman. Eu não estava apenas em qualquer lugar — eu estava dentro de Tempest Point, o jogo que eu conhecia tão bem. Mas, para meu horror, eu não era uma espectadora, nem mesmo a heroína. Eu era ela. A antagonista. A vilã da história, cujas ações oscilavam entre crueldade e bondade, uma figura complexa movida por paixões intensas e ciúmes destrutivos. Emiliana Hoffiman era apaixonada por Dietrich, o príncipe de olhos gentis e coração distante, e havia maltratado a própria irmã incontáveis vezes, convencida de que ela roubava o amor que julgava ser seu.
E, pior de tudo, eu estava na pior das rotas da vilã. A rota em que suas escolhas a levavam à ruína, onde cada passo era um erro, cada decisão um desastre. Meu coração disparou, e um grito de frustração quase escapou da minha garganta. Por que, entre todas as possibilidades, eu fui jogada na rota mais cruel e trágica de Emiliana? Se era para reencarnar, por que não na rota em que ela brilhava, onde sua redenção era possível?
— Mas que merda! — As palavras escaparam alto, cortando o ar antes que eu pudesse contê-las. Minha voz ecoou, carregada de raiva e desespero, e percebi os olhares surpresos das crianças fixos em mim.
O garoto de cabelos brancos, com um brilho de preocupação nos olhos, se aproximou hesitante.
— Vocês estão bem? — perguntou, sua voz suave, mas tingida de nervosismo.
Minha cabeça ainda latejava, como se aquelas memórias forçassem seu caminho para dentro de mim. Eu tinha cerca de 12 anos naquele corpo, jovem demais para carregar o peso de uma vilã condenada. Forcei um sorriso, tentando esconder o turbilhão de emoções que me consumia.
— Estou… só com dor de cabeça — respondi, minha voz vacilante, mas tentando soar confiante. — Levei uma surra daqueles caras, mas estou inteira. E vocês? Estão bem?
As duas crianças se entreolharam, hesitantes, antes de assentirem com timidez. Seus rostos ainda carregavam o susto, mas havia alívio em seus olhos ao verem que estávamos vivos. Dei a eles um sorriso mais genuíno, tentando acalmá-los, enquanto me abaixava para pegar a pedra luminosa no chão. Meu olhar então se voltou para o outro garoto, aquele cujo gemido de dor ecoara junto ao meu. Ele estava de pé, mas sua expressão era de pura confusão, como se também estivesse lutando contra uma enxurrada de memórias que não entendia.
— E você, Vossa Alteza? — perguntei, com um toque de ironia que não consegui evitar. — Como se sente?
Ele virou o rosto para mim, os olhos arregalados, uma mistura de surpresa e desconforto cruzando seu semblante. Por um momento, pareceu perdido, como se tentasse encaixar as peças de um quebra-cabeça impossível.
— Minha cabeça… — murmurou, a voz rouca, quase quebrada. — É como se ela fosse rachar com tanta informação. Não sei o que está acontecendo.
Eu sabia exatamente o que ele sentia: a dor, a confusão, o peso de uma vida que não escolhemos. Mas, enquanto olhava para ele, uma certeza cresceu em mim: eu não podia deixar essa rota me destruir. Emiliana Hoffiman podia ser a vilã, mas eu não era apenas ela. Eu era mais. E, de alguma forma, precisava mudar o destino dessa história.
Eu precisava mudar essa rota trágica, mas, antes de qualquer coisa, tínhamos que escapar daquele lugar sufocante. A claustrofobia do ambiente parecia esmagar meu peito, as paredes úmidas e escuras fechando-se ao nosso redor. Peguei a pedra luminosa que estava no chão, seu brilho fraco iluminando vagamente o espaço. Olhei em volta, desesperada por uma saída, mas o único caminho parecia ser o portão de ferro enferrujado à nossa frente. Meu coração batia rápido, a adrenalina misturada com medo. Virei-me para as outras crianças, tentando manter a calma apesar do pânico crescente.
— Qual é o nome de vocês? — perguntei, minha voz tremendo ligeiramente.
A menina demihumana, com orelhas pontudas e olhos grandes cheios de timidez, hesitou antes de responder.
— E-eu não tenho um nome… — murmurou, baixando o olhar.
— O meu é Leiftan — disse o garoto meio-elfo, sua voz firme, mas com um toque de cautela.
Forcei um sorriso, tentando transmitir confiança. — Prazer em conhecê-los. Eu sou Emiliana Hoffiman, mas podem me chamar só de Emiliana. E este aqui — apontei para o garoto ao meu lado, que me encarava com uma intensidade desconcertante — é o príncipe Ezra Belmonth.
Ele franziu o cenho e levantou a mão, interrompendo-me. — Chega de me chamar de Vossa Alteza ou príncipe. Só Ezra, por favor — disse, com um tom que misturava irritação e exaustão, me pegando de surpresa.
Olhei para a menina demihumana, que ainda mantinha a cabeça baixa, e uma ideia surgiu. — Olha, já que você não tem um nome, posso te dar um? — perguntei, tentando soar gentil.
Ela ergueu os olhos, surpresa, quase assustada. — Se me der um nome, serei vinculada a você pelo resto da vida… E demihumanos não são muito bem-vistos por aqui — respondeu, a voz carregada de tristeza, os olhos brilhando com lágrimas contidas.
Sem hesitar, sorri para ela. — Aili. Esse será o seu nome a partir de agora.
No instante em que pronunciei o nome, um brilho suave envolveu Aili. Sua aparência mudou diante dos nossos olhos: de uma criança frágil, ela se transformou em uma garota de cerca de 12 anos, com traços mais definidos e uma presença mais forte. Todos nós a encaramos, boquiabertos.
— Não sabia que dar um nome mudaria seu aspecto e características… — murmurei, fascinada. — Interessante. Você não foi vinculada, Aili. Só ganhou um nome e evoluiu para sua verdadeira idade. Agora pode crescer como qualquer um de nós.
Os outros me olharam, perplexos, mas antes que alguém pudesse dizer algo, o som de passos pesados ecoou além do portão. Meu coração disparou. Pessoas estavam se aproximando da nossa prisão. Eu não tinha armas, apenas a pedra luminosa na mão. Como iríamos escapar? Foi quando Ezra se levantou, seus olhos brilhando com determinação.
— Vamos usar magia. Você sabe fazer isso, pelo menos? — perguntou ele, com um tom sarcástico que me fez encará-lo com uma careta.
Revirei as memórias de Emiliana, e um lampejo de conhecimento veio à tona. Ela era habilidosa, não apenas com magia, mas com invenções. Uma delas era uma bolsa mágica, capaz de armazenar itens. Fechei os olhos por um instante, concentrando-me, e, ao pensar na bolsa, ela apareceu em minhas mãos, brilhando suavemente. Todos ao meu redor arfaram, surpresos.
— Emiliana inventava coisas… — murmurei, mais para mim mesma. Abri a bolsa e, para minha sorte, encontrei duas adagas reluzentes. Sem hesitar, joguei uma para Ezra, que a pegou com uma facilidade impressionante, um meio sorriso curvando seus lábios.
— Vamos fingir que ainda estamos desacordados — propus, minha voz baixa, mas firme. — Quando eles se aproximarem, podemos atacar. — Tirei mais duas adagas da bolsa e as entreguei a Aili e Leiftan, que as pegaram com mãos trêmulas, os olhos arregalados de medo e surpresa.
— Vamos fugir juntos, sim? — perguntei, tentando infundir coragem neles. Eles assentiram, hesitantes, mas determinados.
Nos deitamos no chão frio, fingindo inconsciência. Meu coração batia tão alto que temi que os captores o ouvissem. O portão rangeu ao ser aberto, e quatro homens encapuzados entraram. Um deles agarrou Ezra, outro veio em minha direção, e os outros dois pegaram Aili e Leiftan. Enquanto nos arrastavam para fora da cela, ouvi suas vozes, cheias de uma alegria cruel.
— Vamos poder realizar o sonho de reviver nosso rei hoje! — disse um deles, rindo.
— Sim, estou feliz. Finalmente teremos ele de volta e daremos um fim a esses seres repugnantes — respondeu outro, com um tom de satisfação que me fez estremecer.
Não pensei duas vezes. Minha mão apertou a adaga escondida na manga do vestido. Com um movimento rápido, mirei o ponto onde sabia que ficavam os rins e cravei a lâmina com toda a força. O homem soltou um grito abafado e caiu, o corpo pesado colidindo contra o chão. Desvencilhei-me dele antes que pudesse me arrastar em sua queda.
Os outros captores congelaram por um instante, chocados, mas logo reagiram. O homem que carregava Aili jogou-a ao chão com brutalidade e avançou em minha direção. Antes que ele pudesse me alcançar, Aili, com uma coragem que eu não esperava, repetiu meu gesto, cravando sua adaga no flanco do homem. Ele gritou, cambaleando. No mesmo instante, Ezra e Leiftan agiram, cada um esfaqueando seus captores com precisão surpreendente.
Os homens, tomados pela dor, soltaram os garotos. Aproveitei o momento de confusão. Com um grito, chutei a cabeça de um dos captores com toda a força que consegui reunir, fazendo-o cambalear. Os outros estavam desnorteados, e não hesitei. Cravei minha adaga em cada um deles, uma, duas, três vezes, até que parassem de se mover. O silêncio que se seguiu era pesado, quebrado apenas pela nossa respiração ofegante.
Olhei para Ezra, Aili e Leiftan, todos com os olhos arregalados, mas vivos. Estávamos fora da cela, mas a luta estava apenas começando. Eu não sabia o que nos aguardava, mas uma coisa era certa: eu não deixaria essa rota me derrotar.
O ar estava pesado, carregado com o cheiro de terra úmida e folhas secas. Meu coração batia descompassado, não só pela corrida desenfreada, mas pelo peso do que acabávamos de fazer. Eu ainda sentia o molho de chaves no bolso da minha calça, roubado dos corpos daqueles homens, um lembrete frio de que estávamos jogando um jogo perigoso. Meus olhos encontraram os de Ezra, Aili e Leiftan, todos ofegantes, os rostos marcados por uma mistura de medo e determinação. Estávamos juntos nisso, e essa certeza era o que me mantinha de pé.
Horas antes, eu havia revistado os bolsos daqueles homens caídos, meus dedos tremendo enquanto procurava qualquer coisa que pudesse nos salvar. Encontrei o molho de chaves, pesado e enferrujado, e o enfiei no bolso com um nó na garganta. Quando me levantei, os olhares perplexos dos outros me acertaram como um soco. Eles sabiam o que eu tinha feito — e o quão baixo havíamos descido. Mas não havia espaço para culpa. Não agora.
— Eu sei que é repugnante — comecei, minha voz firme, embora meu peito tremesse. — Mas é melhor que sejam eles a morrer do que nós. A vida de vocês vale mais do que a desses caras, que querem nos usar para sabe-se lá o quê! — Fiz uma pausa, encarando cada um deles. — Sei que estão com medo. Eu também estou. Mas precisamos sair vivos desse lugar, custe o que custar.
Por um momento, o silêncio foi ensurdecedor. Aili baixou os olhos, as orelhas de raposa tremendo levemente. Leiftan segurava o próprio braço, como se tentasse se ancorar à realidade. Mas Ezra ergueu o queixo, o olhar firme encontrando o meu.
— Emiliana está certa — disse ele, a voz cortando o ar como uma lâmina. — Antes eles do que nós. Vamos, levantem a cabeça! Precisamos nos focar em como sair daqui.
As palavras dele acenderam uma faísca. Aili e Leiftan ergueram os rostos, os olhos brilhando com uma determinação frágil, mas real. Eu forcei um sorriso, tentando transmitir confiança, mesmo que meu coração estivesse em pedaços. Juntos, subimos as escadas empoeiradas daquele lugar esquecido, nossos passos ecoando no silêncio opressivo.
No topo, encontramos uma porta velha, a madeira rachada e entreaberta, como se nos convidasse a um destino incerto. Eu a empurrei com cuidado, o ranger das dobradiças fazendo meu estômago revirar. Agucei os ouvidos, captando o som de passos distantes e vozes abafadas. Havia mais deles por aí — os homens que nos caçavam. Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, senti uma mão em meu ombro. Era Ezra, seu sussurro urgente cortando o ar:
— Esse lugar deve estar cheio desses caras. — Ele olhou para Aili, hesitando antes de continuar. — Aili, sei que é muito te pedir, mas... você consegue sentir quantas pessoas estão por perto?
Aili arregalou os olhos, surpresa, mas logo fechou-os, concentrando-se. Suas orelhas de raposa se moveram sutilmente, captando algo que nenhum de nós podia perceber. Quando abriu os olhos, o pavor em seu rosto era evidente.
— Tem pelo menos dez pessoas aqui em cima — disse ela, a voz tremendo. — Com os caras lá embaixo, daria uns catorze.
Ezra assentiu, o rosto sério. — Dez pessoas para despistar... Que tal uma armadilha? Eles vão estranhar que os outros não nos levaram até eles.
Leiftan, pálido, balbuciou: — M-mas como? Eu não sei usar magia... pelo menos, não as avançadas.
Eu me virei para ele, uma ideia tomando forma. — Você consegue falar com a natureza, não é? — Ele me olhou, surpreso, e eu continuei: — Todos os elfos têm esse dom, mesmo os meio-elfos. Você pode pedir ajuda aos espíritos da natureza com mais naturalidade do que imagina.
Caminhei até uma pequena janela, a moldura coberta de teias e poeira. Do lado de fora, uma floresta densa se estendia, suas copas balançando ao vento como se sussurrassem segredos. Um sorriso tímido cruzou meu rosto. — Podemos tentar fugir por aqui. Apagar nossos rastros e sumir na floresta.
— Mas eles vão nos perseguir — disse Aili, agora com um brilho de curiosidade nos olhos, como se estivesse começando a acreditar que podíamos vencer. — Como lidamos com isso?
Olhei para a floresta, uma certeza instintiva crescendo em mim. Algo me dizia que, se conseguíssemos chegar até lá, estaríamos um passo à frente deles. Meus olhos encontraram os de Ezra, e um entendimento silencioso passou entre nós. Ele assentiu, e eu abri a janela com cuidado. Era alta, mas não impossível de alcançar. Antes de subir, dei uma última olhada ao redor. O lugar era realmente um castelo abandonado — poeira cobria o chão, rachaduras serpenteavam pelas paredes, e partes do teto haviam cedido ao tempo. Estávamos no térreo, o que era uma pequena bênção.
Pulei primeiro, o impacto no solo macio reverberando em meus joelhos. Ezra veio logo depois, seguido por Leiftan e Aili, que pularam juntos, hesitantes, mas determinados. Sem olhar para trás, corremos para a floresta, nossos pés movendo-se em silêncio sobre a terra fofa. Corremos como se o próprio tempo estivesse nos perseguindo, o som dos nossos corações batendo mais alto que qualquer barulho ao redor. Eu mantinha os olhos nos outros, assegurando-me de que ninguém ficava para trás.
Depois do que pareceu uma eternidade, paramos para recuperar o fôlego, escondidos entre as árvores. O ar fresco da floresta encheu meus pulmões, e por um momento, fechei os olhos, deixando meus sentidos se expandirem. Era algo que eu fazia quando acampava com meus pais, fugindo do caos de São Paulo para encontrar paz na natureza. Aquele instinto de sobrevivência, afiado por anos de treinos de artes marciais e noites sob as estrelas, agora era nossa única arma.
— Eles ainda podem estar atrás de nós — sussurrou Ezra, quebrando o silêncio. — Precisamos apagar nossos rastros.
— Leiftan — chamei, minha voz baixa, mas firme. — Tente. Fale com a floresta. Peça que ela nos esconda.
Ele hesitou, os olhos arregalados, mas assentiu. Fechou os olhos, as mãos tremendo enquanto tocava o tronco de uma árvore próxima. Um murmúrio baixo escapou de seus lábios, quase inaudível, como se ele estivesse rezando. De repente, o vento mudou, e as folhas ao nosso redor começaram a se mover, cobrindo nossas pegadas com uma camada de musgo e galhos caídos. Aili arregalou os olhos, maravilhada, e até Ezra deixou escapar um sorriso.
— Funcionou — sussurrou Leiftan, quase sem acreditar.
Eu sorri, mas o alívio durou pouco. Um som distante — galhos quebrando, vozes abafadas — nos lembrou que o perigo ainda estava lá. Olhei para meus companheiros, o peso da responsabilidade caindo sobre mim. Não éramos apenas um grupo de jovens assustados. Éramos sobreviventes. E, enquanto a floresta nos abraçava, eu sabia que nossa luta estava apenas começando.
— Vamos — falei, minha voz carregada de determinação. — Não paramos até estarmos seguros.
E, com a floresta como nossa aliada, corremos novamente, rumo ao desconhecido.
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