Notas iniciais
Espero que tenham gostado do capítulo anterior e que esse também, logo, logo irei trazer o capítulo 3 o quatro já está em andamento. Obrigada e curtam!!ˆˆ

Escondíamos nossos rastros, mas os sons dos perseguidores ainda ecoavam ao longe — galhos quebrando, vozes abafadas, botas pesadas afundando na lama. O alívio de tê-los despistado durou menos que um suspiro. Estávamos vivos, sim… mas por um fio. Relaxar seria assinar nossa sentença de morte.

Olhei em volta, o peito arfando, e então ela veio: uma faísca de ideia, afiada como lâmina.

— Esperem! — minha voz saiu rouca, quase um sussurro roufenho. — Eu tive uma ideia.

Ezra girou para mim, o rosto suado e marcado de terra, os olhos selvagens de quem já correu demais.

— Se não sairmos agora, eles nos alcançam! — ele cuspiu as palavras, o ar chiando entre os dentes.

A dor explodiu em cada músculo meu quando ouvi aquilo. Meu corpo gritava para desabar, mas eu engoli o gemido e forcei os olhos para a floresta adiante. Senti eles. Estavam perto. Muito perto.

Ajoelhei-me na lama fria. As pegadas eram monstruosas — maiores que as de qualquer urso ou lobo. Humanoides, mas colossais, afundando o solo como se a terra tivesse medo delas. E não era só uma. Eram várias.

Um sorriso torto nasceu nos meus lábios, meio louco, meio aliviado.

— Estamos na Floresta dos Pesadelos… — murmurei. — Estamos rodeados de monstros.

Os olhares deles se cruzaram com o meu. Ninguém precisou explicar. Todos entenderam.

Levantei devagar, cada passo cuidadoso, o coração martelando nas costelas. Então veio o rugido — grave, gutural, tão próximo que senti a vibração no peito. Ogros. Estávamos praticamente pisando nas sombras deles.

E os perseguidores? Também vinham. Mais rápidos. Mais próximos.

Ezra agarrou minha mão com força, os dedos trêmulos de exaustão e urgência.

— **Corram!** — berrou para Leiftan e Aili. — O mais rápido que conseguirem!

Disparamos. As pernas ardiam, o ar queimava a garganta, mas corremos. Na correria, Ezra tentou falar algo, mas quando virei o rosto, o pavor me engoliu: ogros surgiam entre as árvores, enormes, babando, os olhos vermelhos fixos em nós. E logo atrás deles… nossos caçadores. Os dois grupos se chocaram.

Gritos. Metal contra carne. Carnificina.

— **Pulem!** — Ezra gritou.

Não pensei. Só obedeci.

Caí. O impacto arrancou todo o ar dos meus pulmões. Fiquei segundos sem respirar, o mundo girando em escuridão e dor. Quando o ar finalmente voltou, foi em golfadas doloridas.

Levantei devagar. Tudo doía. Tudo tremia.

Olhei para cima. A luz fraca do buraco ainda entrava, um círculo pálido e distante.

*Se ao menos isso se fechasse…* pensei, quase implorando. *Se ninguém — nem eles, nem os ogros — pudesse nos achar…*

E então… o chão obedeceu.

A terra se fechou acima de nós com um som grave, como um caixão se lacrando. Meu coração disparou. Medo. Maravilha. Confusão. Não entendia o que tinha acabado de acontecer… mas não era hora de questionar.

— Ezra? Aili? Leiftan? — chamei, a voz frágil.

Grunhidos de dor responderam. Alívio me inundou como água morna.

Tateei a bolsa. No instante em que pensei nela, ela surgiu na minha frente. Peguei a pedra luminosa. A luz azulada revelou rostos sujos, machucados, mas vivos.

— Estão feridos? Conseguem andar? — perguntei, a voz tremendo.

— Só dolorida… — Aili se ergueu devagar, tentando sorrir.

— Tô inteiro — Ezra respondeu, mas a voz saiu fraca.

— Eu também… mais ou menos — Leiftan murmurou, ofegante.

Ajudei Ezra a se levantar. Iluminei o entorno. Era um túnel antigo, estalactites negras como ônix pendiam do teto. Havia névoa rastejante, entalhes meio apagados nas paredes, restos de coisas que um dia foram importantes. E, ao longe… uma claridade tímida.

— Onde diabos estamos? — Leiftan perguntou, a voz carregada de cansaço.

— Não faço ideia — Ezra respondeu, deixando-se escorregar até a parede e sentando ao meu lado. — Vamos descansar. Depois a gente descobre como sair.

Aili e Leiftan simplesmente desabaram no chão.

Sentei-me também. Foi aí que senti: o cansaço era uma âncora puxando meu corpo para baixo. E a fome… a fome era uma faca revirando meu estômago. Quando foi a última vez que comi? Nem lembrava.

Meu estômago ronronou alto. Depois o de Aili. Depois o de Ezra. Até Leiftan riu, um riso curto e sem força.

— Acho que somos um coral agora — brinquei, tímida.

Rimos baixo. Foi o som mais humano que fizemos em horas.

Encostei na parede fria, nos pedaços de pedra ao lado, e o sono me levou como uma onda.

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**CLANK!**

Acordei sobressaltada, o coração na garganta. Algo se movia. Rápido. Perto.

Olhei para os outros — ainda dormiam. O pânico subiu pela minha espinha. Rastejei até eles e sacudi-os com urgência.

— Acorda! Tem alguma coisa vindo! — sussurrei, a voz quase sumindo.

Eles acordaram em sobressalto, olhos arregalados.

Silêncio tenso. Depois… mais barulhos. Passos. Muitos.

Aili apontou com a mão trêmula.

Uma aranha. Enorme. O corpo reluzindo como ônix polido, olhos múltiplos brilhando na penumbra.

Ezra reagiu primeiro.

— **Abaixem!** — gritou. — **Agnis Ardens!**

Nos jogamos no chão. Um dragão de fogo vermelho rasgou o ar e atingiu a criatura em cheio. O grito dela foi horrível — agudo, desesperado. As chamas a consumiram em segundos.

Mas não era só uma.

Mais vinham. Corredor adentro.

Não pensei. Só agi.

— **AGNIS ARDENS!**

Senti a energia rasgar meu peito e sair em forma de raposa azul flamejante. Ela colidiu contra as aranhas com fúria viva. Ezra lançou outra rajada ao meu lado. Gritos. Cheiro de carne queimada. E então… silêncio.

Uma janela flutuante surgiu diante de mim:

**Subiu de Nível**

Pisquei, atordoada.

— Status — murmurei.

A tela se abriu.

**Emiliana Hoffman**

**Nível: 06**

**Raça: Humana / Desconhecido**

**Idade: 11 anos**

**HP: 100/100**

**MP: 999/1000**

Quando a adrenalina baixou, levei a pedra luminosa até os corpos. Alguns ainda fumegavam. Eram aranhas… mas aranhas de pesadelo.

Uma nova janela surgiu sobre um cadáver:

**Aranha-de-Rede-Dura**

*Uma aranha mutante adaptada às profundezas. Teia dura como ferro. Exoesqueleto de ônix quase impenetrável. Bolsas de veneno, se separadas com cuidado e cozidas, têm sabor defumado e concedem agilidade temporária.*

Aili se aproximou, com a faca na mão, e começou a cortar.

Leiftan empalideceu.

— O que você tá fazendo?!

Ela ergueu o rosto manchado de um sangue quase preto, os olhos duros.

— São comestíveis. Se tirarmos as bolsas de veneno com cuidado, o resto vira comida. O veneno serve pra poções. Na minha vila… a gente precisava saber sobreviver. Monstros atacavam toda semana. Carne de monstro era o que mantinha a gente vivo.

Ezra engoliu em seco. Eu também.

Leiftan fez careta.

— Vamos mesmo comer isso?

— Ou isso… ou a fome nos mata primeiro — Ezra respondeu, a voz baixa, enojada, mas firme.

Olhei para a carcaça. Nojento. Repulsivo. Mas entre virar comida de aranha ou morrer de inanição… engoli o nojo.

Enquanto Aili trabalhava, senti a garganta seca. Vasculhei a memória — e veio: um feitiço simples de água. Quente, familiar, como se sempre tivesse estado lá.

Pensei na bolsa. Ela apareceu. Dentro, uma garrafa de vidro azul-escura, ornamentada com rosas e espinhos negros. Linda. E cheia. Sempre cheia.

Abri. Bebi. A água era fresca, doce, milagrosa.

Ezra arregalou os olhos.

— Você tem de tudo nessa bolsa?!

Passei a garrafa pra ele. Ele bebeu com gratidão visível.

— Teve um ano que me perdi… quase morri de sede. Então criei isso. Um feitiço simples. Água que nunca acaba.

— Você é um gênio — Leiftan disse, sorrindo pela primeira vez em horas.

A garrafa passou de mão em mão. Aili lavou as mãos sujas de sangue escuro e bebeu também.

Leiftan, ainda relutante, acabou ajudando Aili.

— Como vamos cozinhar sem panela? Tem mais alguma coisa aí?

Ezra riu baixo.

— Do jeito que você veio preparada, não me surpreende mais nada.

Sorri sem jeito e tirei o kit básico de cozinha da bolsa — panela pequena, talheres, pederneiras. Todos me olharam como se eu fosse de outro mundo.

— Melhor prevenir… — murmurei.

Acendemos o fogo com gravetos secos e pedras. Aili começou a cozinhar a carne, o cheiro estranho enchendo o túnel.

— Sem sal, infelizmente — ela avisou. — Perdão se ficar ruim.

— Não tem problema — Leiftan respondeu, tentando soar animado.

Ezra olhou para nós, sério.

— Vocês sabem magia?

Aili baixou os olhos.

— Minha tribo não usa magia exatamente… usamos mana no corpo. Nos fortalece. Luta corpo a corpo.

Leiftan se encolheu.

— Eu sei só o básico… orbe de luz, cura leve, entender animais. Minha tribo foi destruída antes que eu aprendesse mais.

Ezra sorriu de leve.

— Já é muito bom.

Eu me animei.

— Aili, você manipula aura, mas tem potencial pra mana também. Se treinar as duas…

Ezra continuou, desenhando no ar com fiapos de luz para explicar:

— Mana e aura. Duas forças. A maioria nasce pra uma só. Magos têm mana, mas corpo frágil. Guerreiros têm aura, velocidade e força brutas, mas quase nunca manipulam mana. Quem domina as duas… vira algo raro. Algo devastador.

Ele olhou para Aili.

— Você pode ser assim. Veloz como o vento com aura… e conjurando fogo ou água com mana.

Aili piscou, surpresa.

— Sério?

— Sério — respondi, sorrindo. — E você, Leiftan… mesmo magro, dá pra ver que seu corpo ainda lembra como lutar. Seus pais te deram os dois lados. Só precisa reacender.

Ele baixou o olhar, a voz embargada.

— Meu pai era bom no corpo a corpo… minha mãe, na magia. Mas não deu tempo.

Ezra colocou a mão no ombro dele.

— Agora dá.

O fogo crepitava. A carne assava, estranha, mas quente. Pela primeira vez em muito tempo, senti algo parecido com esperança.

Não estávamos salvos.

Mas estávamos juntos.

E vivos.

E isso, por enquanto, bastava.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.