Temos Que Conversar Sobre O Kevin
3 Capítulo 3
Notas iniciais
- Ok, meu pai ainda não chegou, então acho que podemos simplesmente entrar e esperar. – Stiles ponderou, ao notar que o carro do pai não se encontrava na garagem da casa.
- Mas ele não vai assustar quando chegar e ver o bando reunido aqui? — Cora falou, levando em conta tudo o que o cunhado sempre falava sobre a saúde do xerife.
- Bom, a gente pode ficar no meu quarto, quando ele chegar eu desço e converso com ele e depois vocês aparecem.
- Ótimo, dá o Kevin aqui! — Isaac esticou os braços e pegou o rapazinho, subindo as escadas para o quarto de Stiles, com os outros atrás.
Stiles ainda permaneceu na sala, em pé, olhando para a porta, organizando as ideias e escolhendo as palavras para explicar toda a situação a seu pai. Derek ficou junto dele, sentado no sofá, sem dizer uma palavra. Quando se permitiu chegar perto o suficiente para segurar sua mão, a porta da frente se abriu e o xerife entrou, parando de supetão ao ver os dois ali na sala quase na penumbra.
- Oi filho! Derek. — ele cumprimentou os dois e jogou as chaves de casa e do carro sobre uma bancada ao lado da porta.
Ia sair para a cozinha, mas percebeu o clima estranho e voltou para a sala, sentando numa poltrona escura e, esfregando as têmporas, falou:
- Tenho a ligeira impressão que vocês não vieram aqui para me chamar para comer uma pizza. O que está acontecendo?
Os dois se entreolharam e Stiles ia começar a falar quando um choro agudo foi ouvido no andar de cima e Derek saltou, subindo os degraus de dois em dois, Stiles em seu encalço. O xerife ficou atônito, sem saber o que fazer. Quando decidiu subir as escadas também, parou no meio do caminho, observando Derek sair do quarto de seu filho com uma criança pequena no colo.
- O que aconteceu? – a voz de Stiles era ouvida mesmo no andar de baixo e ele parecia furioso.
- Ele caiu, não foi culpa nossa. — Isaac respondeu, magoado — Tentou ficar de pé, apoiado na cama e deu dois passinhos na direção da Cora, mas desequilibrou e caiu. E aí começou a chorar.
Kevin, apesar de já estar mais calmo, ainda soluçava e suspirava magoado. Derek sussurrava perto do ouvido da criança, falando alguma coisa que soava como “já passou, está tudo bem, foi só um susto”.
- Ele tentou andar? – a raiva de Stiles começou a dar lugar a um sentimento parecido com orgulho.
- Tentou! – Ethan respondeu, fazendo força para esconder o sorriso – O campeão aí tentou andar e conseguiu dar dois passos. DOIS!
- Alguém pode me dizer o que está acontecendo e quem é essa criança? Mais ainda, de quem é esse bebê?
O xerife estava parado na porta do quarto agora, observando a conversa e notando que Derek envolvia a criança com um dos braços, como se quisesse protege-lo do mundo.
Stiles ainda tentou ficar sério depois de ouvir a voz do pai, mas ainda pensava nos dois passos que Kevin dera no quarto e ele perdera a cena. Por fim, balançou a cabeça e foi para o lado de Derek, esticando os braços para a criança que se jogou em seu colo, abraçando seu pescoço com força.
- Calma aí, campeão! – Stiles riu e ficou de frente para o xerife – Então pai, ah... você perguntou lá embaixo qual era o problema. Aqui está. Este é o Kevin.
Ele virou o menino de frente para o xerife, mas não esperava a reação que seu pai teve no instante em que viu o rosto do menino, ainda úmido das lágrimas.
- Jesus! – o xerife exclamou e sentiu uma dor aguda, levando a mão na altura do coração e desabotoando a camisa do uniforme para respirar melhor. Fechou os olhos com força e se encostou a parede sentindo as pernas fracas.
Aquilo não podia estar acontecendo. Era impossível! Ele aceitava a existência de lobisomens, de bruxas-zumbis, de super-gêmeos que entravam um no outro e se transformavam em um gigante. Ele podia aceitar que vampiros existissem, druidas e banshees. Até se lhe dissessem que Derek tinha uma criação de hipogrifos no sul do estado, ele seria capaz de acreditar. Mas aquilo... Aquele menino... Só podia ter saído de alguma máquina no tempo, que voltou há 17 anos e lhe trouxe seu pequeno Stiles de volta. E máquinas do tempo não existem.
A mão agora apertava o peito com mais força e ele olhava a criança quase com lágrimas nos olhos, os lábios crispados, sobrancelhas franzidas e no olhar uma espécie de saudade dolorida.
- Derek, faz alguma coisa. Meu pai... – Stiles ficou apavorado vendo o pai passar mal.
Mas antes de Derek reagir, Ethan e Aidan cercaram o xerife e cada um segurou um de seus pulsos, puxando para si a dor que o xerife sentia. Logo o homem respirava com mais facilidade e se permitiu ser guiado para que sentasse na cama de Stiles. Depois de alguns segundos, ele ergueu os olhos e perguntou:
- Quem é a mãe, Stiles? Pode me dizer? – a voz do xerife era uma mistura de emoção e pesar – Olha, nunca conversamos muito sobre seus relacionamentos. Isso foi... Uma falha minha, não prestar atenção. Mas era sempre Lydia, e depois dela veio o Derek. E não sei se teve outra pessoa no meio do caminho. Mas seja lá quem for a mãe do meu neto, pode me dizer.
- Neto? – Derek e Stiles falaram ao mesmo tempo.
O resto do bando ficou boquiaberto, ouvindo as palavras do xerife.
- Pai, eu não... Não é isso... O Kevin é...
- Kevin! – o xerife sorriu um pouco mais aberto – Kevin é um belo nome. Era o seu amigo imaginário, né?
- Pai! – o rapaz chamou mais alto – Não sou pai dele. Ele não é seu neto. Nós não sabemos de onde ele apareceu.
- Filho, pode falar a verdade. Quer dizer, a mãe não quer mais ele e deixou para você criar? A gente dá um jeito nisso. Mas vamos precisar arrumar os papéis e o registro dele.
- Pai, você não me ouviu? O Kevin não é meu filho!
- Stiles, deixa disso. Ele é a sua cara! – o xerife levantou e foi para perto do menino, que agora descansava a cabeça no ombro de Stiles. – O mesmo cabelo, as mesmas bochechas e... – ele arfou ao ver o menino colocar o dedo mínimo na boca – e o mesmo jeito de morder a ponta do dedinho.
Agora todos os olhares se voltaram para Stiles, observando se ele parecia mesmo com Kevin.
- O contorno da boca é parecido... – Isaac murmurou, olhando para Kevin com mais atenção.
- E o nariz é o mesmo! – Ethan reparou.
- É, olhando assim, a cor do cabelo dos dois é idêntica. – Cora tinha os olhos arregalados. Ela que havia sido a primeira a pensar que Kevin era filho de seu irmão, agora se sentia confusa com tudo aquilo.
- Vocês não podem estar falando sério! – Stiles suspirou.
- Vou pegar uma foto. Espere aí! – xerife praticamente ordenou, mas nem precisava, todos queriam esperar e ver a foto de Stiles quando criança.
E o espanto de todos foi ainda maior, já que a foto que o xerife trouxe, de Stiles em sua festa de aniversário de um ano vestido com um macacão azul escuro e uma camiseta listrada de amarelo e branco, parecia ter sido tirada de Kevin, naquele momento. A única diferença entre eles eram os olhos, que de Kevin tinham o brilho esverdeado iguais aos olhos de Derek e as sobrancelhas expressivas iguais as do lobisomem.
- Stiles... – Derek murmurou, não para chamar atenção do namorado, mas para entender o que estava acontecendo ali. Então, Stiles não era virgem como havia dito, e agora era pai. Seria por isso que estava tão estranho em seu apartamento algumas horas mais cedo?
- Isso não faz o menor sentido. – Stiles ria de nervoso.
- Filho, olha, sei que ser pai a essa altura pode te assustar por causa dos planos para a faculdade, mas acho que...
- Será que ninguém aqui pode me escutar? — ele falou alto, mas depois baixou a voz para não perturbar Kevin — Eu não sou pai dele, ok? E vocês — ele apontou para cada um dos amigos — deveriam saber muito bem disso, por razões que vão além da minha virgindade. Como eu poderia ser pai de um lobisomem?
- O quê? — xerife ergueu uma sobrancelha, tentando compreender o que o filho tinha acabado de dizer.
- É isso aí, pai. Nós achamos o Kevin ontem a noite, durante a tempestade. Mas ele não era uma criança, era um lobo.
- Nós pensamos que poderia se tratar de tráfico de animais, já que aqui na Califórnia não existem lobos. — explicou Isaac, ganhando um olhar irônico do pai de Stiles.
- Com certeza, e você é um unicórnio!
- Lobos naturais, xerife! — Cora explicou, indo para o lado do irmão que ainda encarava Stiles com ar desconfiado. — Nós sentimos o cheiro dele ontem, não parecia ser um de nós.
O xerife se levantou da cama, andando cauteloso até Stiles e parou a alguns centímetros, com uma expressão quase tímida no rosto:
- Eu posso? — ele fez um gesto apontando para Kevin.
O rapaz acenou com a cabeça e passou o menino que a princípio olhou meio desconfiado para o xerife. Depois, já no colo do homem, aproximou o rosto da bochecha dele e inspirou, soltando um gritinho feliz depois disso e abraçando-o pelo pescoço.
- Rá, um verdadeiro Stilinski! — o xerife exclamou, com um sorriso rasgando o rosto.
- Stilinski? O senhor enlouqueceu? O Kevin acabou de lhe farejar! Tá na cara que ele é filho do Derek. — Isaac deixou escapar e o quarto caiu num silêncio incômodo.
Stiles abaixou a cabeça, o xerife encarou o lobisomem que parecia ter levado um choque, a boca aberta sem saber o que dizer. Até que o pai do Stiles deu de ombros e explicou:
- Ele não me farejou. Ele sentiu cheiro de açúcar no meu rosto. Stiles fazia isso quando pequeno. E os primos dele, filhos do meu irmão James, também faziam a mesma coisa. Para os Stilinski toda boa pessoa tem o cheiro doce.
- Não vou nem questionar o porquê de ter açúcar no seu rosto, pai. E por hora não faz diferença se o Kevin é um Stilinski ou um Hale. — ele tentava não olhar para Derek — Mas temos que descobrir de onde o Kevin veio. Por isso pensamos que você poderia nos ajuda. Sabe, coisas como rastrear se houve queixa de criança desaparecida ou algo assim.
O xerife suspirou, aconchegando o pequeno ao colo, virando-o de um jeito que ele costumava fazer com o filho e que era o truque certo para que Stiles dormisse. Não precisou embalar Kevin mais que dois minutos e o menino já ressonava, tranquilo. Ele estufou o peito, orgulhoso de ainda se lembrar de cada pequeno detalhe a respeito de como cuidar de um bebê, ou melhor, de como cuidar de Stiles novamente.
- Olha, eu posso sim ajudar vocês a conseguirem mais informações. Mas só amanhã cedo, quando voltar para a delegacia. Se for lá agora, podem desconfiar e acho que não precisamos de mais gente sabendo sobre o Kevin, por enquanto.
O grupo ali reunido deu de ombros. Não sabiam se queriam descobrir de onde o menininho tinha vindo, porque isso significava que teriam que devolvê-lo a seu lugar de origem.
- Posso dar uma sugestão? – o xerife perguntou, em voz baixa, ainda embalando a criança – Considerando que o Kevin não é mesmo meu neto... Bom, ainda é suspeito que ele tenha aparecido alguns dias após Stiles ser encontrado por vocês. Não conseguimos descobrir nada sobre seu sequestro, talvez as duas coisas estejam, de um modo bem obscuro, interligadas.
Todos se entreolharam, pensando que aquilo fazia sentido. As emoções de encontrarem Kevin tinham sido tão intensas que o sequestro de Stiles havia sido varrido de suas mentes quase por completo.
- É um ponto de partida. – Aidan comentou em voz baixa – Scott deve saber chegar até o local onde encontrou Stiles. Podemos checar o perímetro, procurar qualquer sinal que seja.
- Vou ligar para ele. – Isaac se prontificou, saindo para o corredor já com o celular em mãos.
Alguns minutos depois, eles se organizavam para sair. Stiles tinha decidido ficar em casa, junto do pai e de Kevin, já que não tinha nenhuma das habilidades necessárias para rastrear o que quer que seja.
Antes de sair, Derek se aproximou do rapaz e o encarou, o semblante sério, quase entristecido. Falou que buscaria as coisas do Kevin antes de sair com os outros.
- Pensei que pudesse ficar aqui com a gente. – Stiles falou, o tom de voz quase um pedido. – Acho que não vão faltar focinhos para farejar a cidade inteira se for preciso.
O lobisomem pareceu indeciso, mas acabou desviando o olhar e disse, meio áspero:
- Não quero me intrometer em assuntos de família.
O queixo de Stiles caiu com aquela sentença que mais parecia uma acusação. Derek não poderia estar falando sério.
- O que... – ele coçou a nuca, balançando o corpo – O que quer dizer? Não, espera. O que acha que está acontecendo aqui?
- Seu pai deixou claro, Stiles. E a sua foto confirmando...
- Confirmando, o quê? – ele se exasperou e o xerife saiu de perto, com a desculpa de arrumar um lugar confortável para Kevin dormir, deixando os dois a sós, já que o resto do bando também saiu rapidamente da casa dos Stilinski – Confirmando que uma criança sobrenatural se parece comigo. Ótimo! Você acha mesmo que eu, olha pra mim – ele fez um gesto com as mãos, como se exibisse todo o corpo – eu, Stiles Stilinski, ia ser pai de alguma coisa?
Pelos olhos de Derek uma sombra de dúvida começava a se formar.
- Mais fácil que o Kevin seja seu filho. Sabe como é, você não costuma escolher bem as fêmeas com quem resolve cruzar e uma dessas loucas pode muito bem ter abandonado o Kevin no meio do nada.
- Não sou pai do Kevin, Stiles. Não “cruzei” com ninguém assim como você disse. Só acho que você ficou abalado demais com a criança e por isso...
- Eu fiquei abalado porque ele tem os seus olhos, seu idiota. E porque você de repente virou a super Nanny, com ele no colo toda hora, completamente encantado com o Kevin. – ele respirava pesadamente, passando as mãos pelos cabelos e os puxando para cima, irritado – E mesmo que houvesse a mais remota possibilidade do Kevin ser meu filho, e isso aqui ter virado uma coisa de família, a troco de quê você queria se afastar? Você é minha família também, poxa!
Eles ficaram se encarando por um tempo, até que Derek suspirou e puxou Stiles para um abraço apertado.
- Sou um idiota. – ele murmurou, os lábios encostados na cabeça do rapaz.
- Eu sei. Fico me perguntando por que é que eu te amo? – ele sorria, feliz por terem se entendido.
Eles ainda ficaram abraçados por um tempo, até que Stiles reparou:
- Está tudo muito quieto, não acha?
Andaram pela casa e acharam o xerife sentado numa poltrona no quarto, Kevin em seu colo ainda dormindo e ele falando baixo, contando coisas da época em que Stiles tinha a idade do menino e sorrindo. Sorrindo como Stiles há muito não via.
- E quer saber? – a voz do xerife era carregada de carinho – Se você continuar tão parecido com o meu Stiles, vou fazer de tudo para manter você com a gente, combinado? Ele deu tanto trabalho, mas é o meu orgulho, sabe? E vou ter orgulho de você também.
Stiles sentiu um nó se formar em sua garganta e deu um passo para trás, encostando em Derek que passou os braços ao redor dele, apertando-o em um abraço e ficaram os dois ali, observando Kevin dormir no colo do xerife. Mesmo que Kevin não fosse de nenhum dos dois, já era tarde demais. Agora, ele era de todos e ele formavam, de fato, uma família.
Notas finais
Aguardo os comentários de vcs!
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