Teenage Kings.
18 Waistline.
Notas iniciais
"Baby, I know places we won't be found"
A informação me pegou desprevenida. E embora eu não conseguisse – simplesmente não podia – desconfiar de Percy, eu fiquei surpresa por vários minutos.
– Annie. Annabeth. Você está bem?
Balancei a cabeça, vagamente, concordando, acho. E do nada, as lágrimas surgiram.
Eu chorava de raiva porque havia confiado nele. Chorava de tristeza por estar relembrando daqueles malditos momentos. E chorava de ódio de mim mesma por ter desconfiado de Percy quando todos a minha volta admitiam que ele não conseguiria fazer algo do tipo.
Mas Rob podia.
O problema era: por quê?
Limpei a névoa de raiva que encobria meus pensamentos e solucei:
– Nós precisamos avisar Rick... E ele pode enviar... Sei lá, alguém para procurar alguma coisa no quarto dele.
– Shhh. – Percy afagou meu rosto, os lábios franzidos e os olhos cobertos de tristeza e preocupação – Podemos dar conta disso depois. Vem. Vamos dormir.
– M-mas...
– Annie. – a voz dele foi firme – Vamos cuidar disso amanhã. Só... Céus, pare de chorar, por favor.
Busquei todo o ar possível, forçando minhas lágrimas a não saírem. Enxuguei minhas bochechas com as costas das mãos enquanto eu ajudava Percy a se deitar confortavelmente, o que não adiantou muito já que eu acabei deitando em seu peito, buscando por algum de proteção.
– O que ele disse? – fechei os olhos, deixando o seu aroma amadeirado inflar minhas narinas
– É só isso que precisa saber. – decidiu
– Só me diga isso.
– Não. – mais uma vez, ele foi firme – Eu não vou dizer e dessa vez, não importa quantas vezes ou como me peça, entendido? É isso e pronto. Só precisamos de uma prova.
– Não sei como ele pode... Céus, por que ele fez isso?
Percy beijou minha cabeça, afagando meu ombro.
– Está tudo bem agora. Só durma.
Fechei os olhos e adormeci.
***
–...de ontem, duas importantes personalidades de Yale foram encontrados em uma situação decadente. – Thalia deslizou o dedo sobre seu Ipad enquanto falava em voz alta na sala de jantar das Betas, Percy enfiava um pedaço de pão enquanto pressionava gelo em seu olho pela terceira vez na manhã, Nico estava apoiado na soleira observando Thalia com um pequeno sorriso, Luke estava brincando com um gelo derretendo na mesa, fiquei agradecida por nenhuma das Betas estarem animadas para tomar café – Robert Rogers...
– Por que ele falou o nome dele primeiro? – Percy resmungou de boca cheia – Minha letra vem primeiro que a dele e...
– Cale a boca. – vociferei, apertando a compressa de gelo contra seu olho
Ele gemeu, voltando a ficar calado.
– Certo. Sem interrupções. – Thalia voltou a andar pela sala – Robert Rogers, o garoto prodígio que foi estudar em Oxford com tudo bancado pela empresa Jackson’s e o líder de uma das maiores (se não maior) fraternidade de Yale, Percy Jackson. Ambos foram encontrados aos socos, como uma luta livre, uma situação bastante ridícula para dois homens como esses.
– Homens. – Luke soltou uma risadinha
– De onde é isso? – Nico perguntou, confuso
– De um blog. Calem a boca agora. – pedi
– Algumas testemunhas disseram vê-lo ainda no começo da festa. – Thalia franziu o cenho – Os depoimentos. – ela afinou a voz, enojada – Eu estava bebendo e dançando quando os vi gritando, eles estavam se xingando sobre algo. Próximo! Eles estavam discutindo sobre algum vídeo, também citaram Annabeth. – Thalia franziu o cenho, continuando o texto logo em seguida – E claro, a líder das Betas não poderia estar de fora. Desde que a aliança entre os Alphas e as Betas sabíamos que ia trazer muita coisa, como essas brigas e desavenças. No entanto, ainda não sabemos o principal motivo da briga entre Rob e Percy. Essa autora opina que seja a cachinhos dourados, chamada de Annabeth, os homens costumam brigar por ela, não é? Enfim, apenas ela foi o motivo para que a briga se desse fim. Logo abaixo podemos ver a foto do beijo mais esperado durante esses meses de união entre as duas fraternidades mais poderosas de Yale. Eu shippo esse novo casal! Na verdade, quem não shippa? Fim. – Thalia balançou o Ipad no ar e sentou-se, completando a mesa
– Uau. – Percy me encarou, deixando a compressa na mesa – Quem não nos shippa?
Dei um sorriso, revirando os olhos.
– Cale a boca.
– Bom. – Thalia suspirou – Acho que é só isso. Temos a suspeita que Rob tenha participado do seu vídeo...
– E Rick já foi avisado. – Luke disse, dessa vez, sério
– Acho que até o fim do dia, nós teremos alguma informação se foi encontrado algo na casa dele ou não. – Nico encerrou
– Espero que tenhamos. – Percy falou, afastando os fios de seu cabelo para o lado – Acho que é a hora de irmos, não é? – levantou-se
Luke e Nico reviraram os olhos.
– Você pode dormir na casa das Betas. Nós não podemos nem tomar café da manhã.
– Porque ele namora uma Beta! – Thalia respondeu, como se fosse óbvio
Luke e Nico se entreolharam, soltaram uma risadinha e foram em direção a ela.
– Não. – gritei, ficando de pé prontamente – Obrigada pela a ajuda, rapazes, vocês podem ir embora agora. E não, eu não estou namorando com ninguém. – respondi assim que os vi abrindo a boca
– E o que está acontecendo entre vocês dois? – Luke franziu o cenho, intercalando o olhar entre a gente
Percy deu de ombros com um sorriso pequeno.
– Vocês vão embora agora ou vamos ter que ouvi-las resmungar?
Ambos reviraram os olhos, andando para a porta. Percy se aproximou de mim com agilidade. Depositou um beijo rápido e lento em meus lábios.
– Posso te ligar mais tarde? – ele murmurou
Abri os olhos, desnorteada com o acesso rápido que ele teve a mim sem se importar com Thalia ou com ninguém, além dos sentimentos que ele conseguiu depositar em mim aquela hora da manhã com um beijo.
Pisquei, assentindo.
– Ótimo. Preciso falar com você depois. Será... Deixa, eu te ligo. Tchau, Thals! Estou orgulhoso de você, garota.
– Vai se foder. – ela sorriu quando falou
Desabei na cadeira com os olhos arregalados, a boca entreaberta e o coração palpitando. Virei-me para Thalia com o cenho franzido diante da revelação que minha mente obrigou-me a ouvir.
– Eu acho que estou apaixonada.
Minha amiga sorriu, batendo em meu ombro.
– Nada menos do que eu pensei que aconteceria caso vocês ficassem juntos por muito tempo. Agora, precisamos procurar uma roupa para o aniversário de sua mãe, não é?
Fechei os olhos, assentindo.
– Isso. Você vai comigo, certo?
– Sempre vou. Por que não iria dessa vez?
Depois do almoço, minha mãe já havia me mandado quinze mensagens, confirmando minha presença. Eu estava em pé, trançando os fios negros de Thalia em uma trança de lado. Ela teclava furiosamente em seu celular, os olhos vidrados.
– Saiu mais alguma notícia no blog de Yale?
– Hã? Ah! Não. Percy está pedindo para te avisar que hoje vai ter uma sessão.
Arqueei as sobrancelhas, encarando seus cabelos.
– Diga a ele que estarei na casa da minha mãe.
– E ele está perguntando se pode conhecer a sogra dele.
– Bem, nós não somos namorados.
– Não é isso o que ele pensa.
Revirei os olhos.
– Aqui. Está pronto. Podemos ir?
– Teremos um carro e não pagaremos um táxi. E eu ainda posso passar na casa dele e ver o que ele está fazendo naquele lugar.
Cruzei os braços, confusa.
– Sabe que Silena está morando lá, certo?
– Se ela estiver em meu quarto... – assenti, confirmando suas suspeitas – Não! Como ele pôde?
– Nós podemos dormir no quarto dele. Tem um divã incrível no estúdio. É bem confortável para falar a verdade.
Thalia balançou a cabeça.
– Não quero nem pensar o que você fez naquele divã, Annabeth. E então, ele pode ir?
Dei de ombros.
– Acho que não seria uma boa ideia. Você sabe. Não estou no melhor momento com minha mãe e-
– Ele já está vindo. – Thalia ergueu os olhos para mim – Meus olhos estavam muito vermelhos ontem. Tomei um chá e passou... Será que sempre que eu quiser beber vou ficar assim?
Pensei em gritar um “não mude de assunto!” que ficou preso em minha garganta enquanto eu assentia.
– Acho que chá deve funcionar. Já procurou um especialista?
– Nico já marcou.
– Ele vai te acompanhar ou prefere que eu vá?
As bochechas de Thalia ficaram vermelhas quando ela mordeu o lábio inferior.
– Não é que eu prefira...
Sorri, afaguei seu ombro e beijei sua bochecha.
– Não se preocupe comigo. – disse, por fim
Descemos as escadas, parando para falar com Clarisse sobre as provas finais, sobre o trabalho nas férias. Coloquei um casaco sobre meus ombros, verificando o céu aberto. Não faria tanto frio quanto estava fazendo ultimamente.
Esperamos cerca de dez minutos até a campainha tocar. Havia, no mínimo, quinze Betas espalhadas pela cozinha e sala. Todas ergueram o pescoço.
– É o namorada da Annie? – uma perguntou
– Nunca pensei que teríamos um Alpha perambulando por aqui.
– Um Alpha! – outra bufou, ultrajada
– Ele é muito gostoso. Pelo menos isso.
– E parece ser inteligente.
– Ele é fotógrafo, não é? Quando vai sair a exposição?
– Ah, a exposição!
Revirei os olhos com um sorrisinho. Eu adorava aquelas garotas.
– Vocês deveriam procurar um namorado também. – pisquei, abrindo a porta
– Então quer dizer que eu sou namorado agora?
Meu sorriso aumentou. Percy estava inclinado em minha direção, as mãos enfiadas nos bolsos dianteiros. Ele usava um casaco azul escuro, jeans pretos e tênis, além do sorriso debochado que carregava com facilidade.
– Até Thalia pode estar saindo com um Alpha.
– Não estou saindo com ninguém! – exclamou (para si e para todas pessoas presentes)
– Verdade? – Percy franziu o cenho, deu um passo para frente e abriu um sorriso enorme – Olá, Betas queridas!
Todas soltaram grunhidos, resmungos e algumas responderam com um “boa tarde” educado.
– Bem, acho que suas filhas gostam de mim. Isso é um começo, né?
– Céus. Um Alpha é muito irritante. – Clarisse resmungou, se escondendo na cozinha
– Nem tanto! Não sou tão irritante, sou? – Percy virou-se para mim
– Um pouco, talvez. – segurei seu queixo, depositando um beijo leve em seus lábios – Podemos ir?
– Para o seu quarto ou o meu?
– Percy!
Ele bufou, segurando minha cintura enquanto me colocava para fora. Thalia já abria a porta do carro, parecendo impaciente.
– Sou seu namorado mesmo?
– Não houve um pedido oficial e eu ainda estou pensando seriamente sobre... O que sinto por você.
Percy franziu o cenho e não me olhou.
– Melhor pensar logo. Estou me intitulando seu namorado sempre que me perguntam. – deu de ombros
Entrei no carro, ocupando o lugar do passageiro. Percy ligou o som, uma música dos Beatles encheu minha mente calorosamente.
– Eu falei com Rick antes de vir para cá. – avisou
Thalia se colocou entre os dois bancos, curiosa.
– E o que ele disse? Está sabendo de algo?
Mexi-me desconfortável no banco. Percy acariciou meu joelho descoberto, mantendo a mão lá, imóvel.
– Disse que avisou a polícia da faculdade e que vão vasculhar a casa dele. Quando fizeram a patrulha pelas fraternidades, não encontraram nada... Espero que tenhamos uma pista.
– Não quero falar sobre isso. – murmurei
Ainda não me sentia confortável. Eu havia tentado esquecer aquilo e colocado um ponto final, mas eu ainda não conseguia imaginar um porquê do Rob fazer aquilo, nem queria saber, na verdade. Por mim, aquilo poderia explodir. Foi um momento de minha vida que não queria relembrar.
– Vamos ter que continuar falando sobre isso durante algumas semanas ainda. Então, vá se acostumando. – Thalia retrucou
– Podemos parar de falar sobre isso agora, se não se sente confortável. – Percy me olhou de esguelha quando saímos do perímetro de Yale – Mas concordo com Thalia, você vai ter que ouvir muito sobre isso, então... A melhor maneira é se acostumar.
– Annabeth não pode estar curiosa sobre o que Rob te disse ou o que você ouviu sobre aquilo... – Thalia inclinou os lábios de forma inocente ainda inclinada sobre os dois bancos – Só que eu quero saber.
– Thalia, eu só vou falar quando estiver diante de um policial. – Percy sorriu, calmo e a encarou pelo retrovisor – Você não é uma, é?
Thalia bufou, sentando-se pesadamente no banco de trás.
Ajudei Percy no volante até que estivéssemos parados diante da casa média de minha mãe. Não era nenhuma mansão.
Tinha um jardim elegante na frente, uma cerca de meio metro de madeira branca que rondava a casa, em seguida uma pequena passarela que nos levava a dois curtos degraus até chegar a casa. No segundo toque da campainha, minha mãe apareceu diante da porta. Ela tinha um sorriso enorme, como bem podia me lembrar.
Seus olhos cinzentos e tempestuosos estavam alegres, seu cabelo loiro havia sido preso em uma trança volumosa repleta de flores rosadas, combinando com seu vestido rosa pastel.
– Annie! Céus, como eu sentia sua falta, filha. – ela me abraçou com força, murmurei algo em resposta – E você trouxe Thalia! Minha segunda filha. Entre aqui, querida.
Thalia sorriu, abraçando minha mãe com mais vontade enquanto Percy ficava atrás de nós.
– E ele ali? É um amigo?
– Hã... – tentei formar uma frase coerente diante dela, só que nenhuma palavra me veio
Percy me olhou com aquele sorriso calmo, ofereceu uma mão para minha mãe, educado.
– Eu sou o namorado da Annie. Acho que ela ainda não te falou sobre mim. Sou Percy Jackson.
Minha mãe me mandou um olhar, desconfiado.
– Percy Jackson. – ela saboreou o nome em sua boca, partindo para um abraço
– Hã... – Percy deu algumas batidinhas em suas costas – Eu queria me desculpar por não trazer nenhum presente para a senhora, mas é que eu fui avisado de última hora. Prometo que da próxima vez que nos encontramos eu trago algo, Sra. Chase. Aliás, feliz aniversário.
– Ah, não se preocupe com presentes. Onde eu estou com a cabeça? Entrem, por favor. A festa é lá atrás e Percy, certo? Não se preocupe com isso. Você faz minha filha feliz? – ela perguntou, como se perguntasse as horas do dia
Thalia sorriu enquanto adentrava a casa como uma velha conhecida. Percy me encarou de esguelha, voltando a dar aquele sorriso calmo de sempre.
– Bem, acho que sim.
Atena avaliou meu rosto meticulosamente.
– Mãe? Podemos ir?
Minha mãe sorriu, segurando meu ombro.
– Qual é seu nome mesmo? Percy Jackson? Eu tenho um amigo chamado Poseidon Jackson, será que vocês tem algo em comum, além do sobrenome?
Percy parou de andar imediatamente. Ele hesitou antes de voltar a sorrir, dessa vez hesitante para nós.
– Como é o nome dele?
Minha mãe sorriu para mim, voltando-se para ele, em seguida.
– Poseidon. Vocês são da mesma família?
Engoli em seco. A pior coisa de se afastar de sua mãe por muito tempo, é que eu ficava “meio” por fora de sua vida social.
– Por que você não me contou? – Percy virou-se para mim com o cenho franzido
Arqueei uma das sobrancelhas.
– Mãe? Posso te encontrar lá fora?
Atena nos encarou, confusa e assentiu.
– Claro! Vou separar o melhor vinho para minha única filha e o seu namorado! Sabe quem eu vi...? – ela nos encarou, confusa – Vejo vocês lá no fundo, então.
Esperei minha mãe sair pelas portas que nos levava para o quintal e encarei Percy.
– Eu não sabia que minha mãe conhecia seu pai. Eu nem falo com ela desde... Bem, faz muito tempo que eu não falo com ela.
– Não. – ele deu um sorriso falho, aproximando-se de mim – Tudo bem. Eu só fiquei atordoado. Eu... Bem, não esperava que meu pai estivesse aqui. Tem muita gente? – ele inclinou-se sobre meu ombro – O suficiente para eu apenas trocar uma palavra com ele?
– Umas vinte pessoas, no máximo.
– Porra.
– Vamos embora cedo. Só vamos ficar até os parabéns e vamos embora, ok?
Percy me encarou por alguns segundos. Seus lábios tocaram os meus com leveza, quase como uma carícia discreta.
– Não se preocupe comigo. É o aniversário de sua mãe. Eu dou um jeito em meu pai.
– Não foi isso que rolou da última vez.
– Espero que ele se comporte.
Dei duas batidinhas em seu cotovelo e me afastei.
– Pode ter certeza que ele vai. – confirmei com um sorriso encorajador.
Percy sorriu novamente, beijando minha testa enquanto apertava minha cintura contra seu corpo. Suspirei, apreciando o toque em minha pele e agarrando sua mão.
– Acho que meu avô vai estar aqui. Ele não é o cara mais... Quieto do mundo. – pisquei enquanto o arrastava para dentro
Percy reprimiu uma gargalhada infantil até que alcançamos ao quintal.
Estava totalmente decorado, como minha mãe gostava de fazer. Havia uma grande mesa de madeira – que mais parecia um tronco de árvore –, cadeiras do mesmo tipo e uma árvore enorme que fazia uma sombra do lado esquerdo onde Thalia estava sentada, conversando com uma das amigas de minha mãe. Ela não parecia entediada, até parecia gostar da conversa com um sorriso tímido e gesticulando as mãos, vez ou outra. Decidi que a deixaria ali até ela dar o sinal de precisar ser salva.
– Ah! Sente-se aqui, querida. Podemos falar depois sobre sua faculdade, certo? Falta pouco tempo para se formar, deve estar ansiosa.
– Um pouco, sim. Obrigada. – sentei-me na cadeira que ela me indicou
– Está se saindo bem?
– Melhor que ela? – Percy bufou, sentando-se ao meu lado – Impossível, Sra. Chase. Sua filha é uma das melhores alunas que Yale teve o prazer de receber.
Atena sorriu. Feliz, quase pulando em sua cadeira.
Notei como a mesa estava arrumada. Vários velhos amigos estavam conversando alto, carregando uma taça de vinho ou uma garrafa de cerveja. Conhecia a maioria deles. Casais risonhos com filhos morando fora do país, cheio de carreira consolidadas. De repente, consegui me lembrar da cara desgostosa que minha mãe fez quando Rob anunciou que iria para Oxford e eu ficaria... Aqui.
Mexi-me, desconfortável, na cadeira. Percy passou um dos braços pelo meu ombro, comentando o quão eu era maravilhosa.
– Ela é como uma mãezona para todas nas Betas. As garotas a respeitam, idolatram a Annie, como um exemplo a ser seguido.
– Sério? Isso é maravilhoso!
Percy assentiu. Alguém havia colocado duas taças a nossa frente, ele bebericou uma com um sorriso grande no rosto.
– Eu tenho muito orgulho de ser amigo dela. – ele me encarou, os olhos verdes brilhando, então soltou uma risadinha e olhou para minha mãe – E namorado.
– É recente, não é? Na verdade, esses dias, eu estava no mercado e vi o Rob. Você sabe quem é? É o ex dela. Garoto inteligente.
Pude ver Percy se remexendo do mesmo jeito que eu e assentiu.
– Aham.
– Bom, você parece um ótimo garoto também, Percy. Ficaria feliz se Annie te trouxesse para cá em um jantar mais intimo. Até poderíamos falar com Frederick, querida, para ele conhecer Percy.
– Não é como se eu fosse me casar com ele, mãe. – resmunguei dando um grande gole em minha bebida
Percy assentiu, meio distraído.
– Podemos marcar algo depois.
– Bem. – minha mãe juntou as mãos com um imenso sorriso – Eu volto aqui em alguns minutos. Preciso conversar com os outros.
Fechei os olhos, apoiando meu corpo na cadeira. Percy se aproximou de mim, sua mão acariciando a ponta de meu ombro enquanto sentia seus lábios em minha cabeça.
– Ela não parece ser tão pirada. – ele riu – O que houve?
– Nada. Só... Nada. Minha mãe tem essa mania infernal de comparar tudo e a todos. Ela não se cansa. Será que vai demorar para ela trazer o bolo? – perguntei a ninguém em especial
– Quer que eu chame Thalia? Ela parece irritada.
Virei os olhos para minha amiga que agora falava com um senhor de cabelos grisalhos e um bigode estranho. Assenti, dando um sorriso para Percy que foi salvá-la com um algum outro papo estranho já que o senhor franziu o cenho e se afastou.
No minuto seguinte, eu havia jogado tudo das taças de vinho no canto do quintal, enfiei as taças embaixo de uma roseira aos pés de uma árvore. Tudo certo. Thalia sentou-se no lugar a minha frente enquanto Percy voltava a sua posição anterior.
– Vocês estão realmente namorando? – ela perguntou, o cenho franzido – Não aconteceu... Bem, rápido demais?
Dei de ombros.
– Acho que você escolheu o lugar e a hora errada para falar sobre isso.
Percy concordou, cruzando o tornozelo em cima do joelho e dando um sorriso despreocupado.
– Vamos seguir em frente com isso. Estamos namorando e ponto. Não precisamos de um porquê. E bem, acho que se eu ou você fizer isso, ela pode acabar desistindo e eu saio ferrado nessa história.
Mesmo sem querer, acompanhei o riso de minha melhor amiga. Virei o rosto apenas para ver o mesmo sorriso de Percy e beijei o seu queixo, o único lugar que eu conseguia alcançar com facilidade.
Thalia tinha um sorriso confortável no rosto, apoiou o queixo em sua mão, ainda com aquela cara de satisfeita.
– Vocês até que fazem um bonito casal.
Percy sorriu, como se estivesse prestes a dizer uma piada e gargalhar logo em seguida. Um sentimento estranho se apossou de mim por saber o que ele poderia fazer, no segundo seguinte, percebi que não me importava com isso e até gostava de saber. De repente, acabei me lembrando o que eu havia me dado conta: eu poderia estar apaixonada por Percy.
Aquele sentimento me incomodou. Tratei de colocar toda aquela baboseira em um canto intocável de minha mente, aproveitando o máximo a carícia discreta que ele fazia no canto do meu ombro. Em alguns segundos, seus dedos ao invés de despejarem carícias em minha pele, afundaram as unhas.
Franzi o cenho.
– Percy... – balancei seu joelho, tentando procurar seu olhar rapidamente – Percy, está doendo. – murmurei
Thalia estava inclinada, buscando alguns docinhos no canto da mesa e não parecia se dar conta. Ele se afastou abruptamente.
– Me desculpe, eu... Eu te machuquei? – ele piscou, inclinando-se em minha direção
Passei a mão por cima do ombro, afastando-me o suficiente para observar sua expressão desesperada.
– Não. Está tudo bem. O que houve?
Ele soltou um suspiro pesado, mexendo o rosto em direção a porta que ligava a casa com o quintal.
Prendi a respiração ao ver Poseidon parado lá sem terno. Apenas com jeans e uma blusa verde. Minha mãe e ele pareciam velhos amigos enquanto conversavam. Ele trazia um grande presente em mãos, ela depositou um beijo em sua bochecha, deixando o presente em uma das mesas de plástico. Pude vê-la apresentando-o para alguns amigos, demorando em mais algumas rodas. Poderia ter se passado uma hora e eu só estava com os olhos focados na pele bronzeada dele, em como seu sorriso calmo se aparentava muito com o de Percy e os olhos verdes eram calorosos quando virados para minha mãe.
– Será que eles são amigos há muito tempo? – Thalia perguntou, empurrando mais um docinho para sua boca
– Parece que sim. – murmurei de volta
– Eles parecem longos amigos.
Arqueei as sobrancelhas.
– O que quer dizer com isso?
– Por que está falando baixinho? – Thalia contrabateu
Bufei, virando os olhos para Percy e exigindo por respostas.
– Não sei. Olha como ele fica com ela... Como sua mãe não sai de perto dele.
– Eles são amigos, oras. E ele parece não conhecer ninguém além dela.
Percy assentiu, deu de ombros e desviou o olhar.
– Quanto mais tempo temos que ficar aqui?
Thalia nos observou atentamente.
– Posso falar com ela e dizer que é melhor adiantarmos os parabéns.
– Não... Não faça isso. – Percy interveio rapidamente – Não por mim, pelo menos. Vamos esperar mais um pouco. Posso dar conta do meu pai. Ele não vai te insultar na frente de sua mãe.
– Só se ele não souber que minha mãe é minha mãe. – abri um sorriso
Minha melhor amiga balançou a cabeça, escondendo o mesmo sorriso que o meu.
– Por que... Ah. – os cantos dos lábios de Percy se esticaram – Será que ele seria tão rude a esse ponto?
– Vamos ver. – encolhi os ombros – Pode me passar aquele docinho branco? É de coco?
– É gostoso. – Thalia pegou três docinhos com uma única mão – Não sei do que é.
– Você não sente o gosto? – Percy perguntou, confuso
– Sinto. Só não sei do que é. Por isso que eu disse que é gostoso, oras.
Soltei uma risadinha, colocando o doce em minha boca. De fato, era extremamente delicioso. Gemi baixinho, fingindo ser um chef italiano. Percy se remexeu ao meu lado, sorrindo.
– Ah, e essa é minha filha.
Revirei os olhos ao ver nosso plano ir por água abaixo quando minha mãe se aproximou de nós.
– Annabeth, esse é Poseidon. – Atena tinha um sorriso enorme no rosto e perguntei-me como eles se conheceram ou qual o grande favor que Poseidon fizera a ela – Poseidon Jackson, lembra? Eu acho que disse sobre ele...
– Você disse, mãe. – tentei não parecer entediada quando me levantei, deslizando a mão pela minha roupa (provavelmente amassada) – Acho que não fomos apresentados de uma maneira... Bem, decente. Sou Annabeth Chase. – apertei sua mão com um sorriso educado
Poseidon imitou o movimento. Seu sorriso era calmo, quase com um quê de sedução.
– Lembro-me vagamente de você, senhorita. Provavelmente uma namorada de meu filho?
Percy levantou-se logo em seguida. Ele deu um sorriso debochado para o pai.
– A única que eu tive nos últimos anos, pai.
Minha mãe se surpreendeu quando Percy falou. Ele encarou Poseidon com o cenho franzido, passando os olhos para Percy e por fim, para mim, como se eu fosse a culpada de ter trazido dois Jacksons para sua festa de aniversário. Como se fosse minha culpa por ter namorado um Jackson. Como se fosse minha culpa ter nascido.
Não encolhi os ombros, como normalmente fazia. Apenas mantive meu queixo erguido, tentando fazer com que minhas pernas não tremessem tanto quanto eu sabia que iriam.
– Ah. Como pude esquecer? A sua nova modelo, certo?
– Modelo? Você está sendo modelo, filha?
Thalia soltou um suspiro cansado.
– Por que não se sentam? A história é longa. Ah, oi, tio, é um prazer te ver por aqui.
Poseidon afagou sua cabeça antes de ocupar o lugar ao seu lado.
– Eu tenho meio que um hobby. Fotografia. Eu já fiz algumas exposições e pretendo fazer uma antes de encerrar meu curso de administração em Yale.
– E eu sou a modelo dele. – encerrei, tentando imitar seu sorriso calmo, o que não deve ter funcionado muito bem – E é maravilhoso ser modelo de um fotógrafo tão... Espetacular quanto Percy.
Poseidon soltou uma risada repleta de escárnio.
– Verdade. Meu filho é muito bom no que faz. – a frase, no entanto, estava cheia de segundos sentidos – Tive acesso a algumas fotos – senti minhas bochechas queimarem e desviei o olhar dele -, aliás ficaram muito boas. Você deveria deixar um convite para Atena, então ela poderá ver seu talento, filho.
Fechei os olhos por segundo, tentando afundar a vergonha que seria minha ver as fotos. Pelo menos, algumas delas.
Não. Aquele era o trabalho de Percy e caso ele quisesse colocar todas elas em sua exposição, eu não teria nada a ver com aquilo, até porque todas estavam muito boas.
– Claro. – Percy virou-se para minha mãe – Eu deixarei um para a senhora. Tenho certeza que irá adorar.
– Concordo. – Poseidon disse, me encarando
– Você vai gostar, mãe. – afaguei seu cotovelo, vendo seus olhos se suavizarem – As fotos estão belíssimas. Já tem uma ideia de quando vai ser a exposição, Percy?
Percy inclinou a cabeça.
– Acho que antes do Natal. No começo de dezembro, provavelmente. Só falta mais uma sessão e posso terminar as edições. É. Começo de dezembro, amor.
Um sentimento quente percorreu todo meu corpo quando ele disse aquilo. Desviei meus olhos dele e sorri para minha mãe.
– Começo de dezembro, então.
Thalia pigarreou.
– Atena? Não acha que é a hora de cantar os parabéns?
– Ah! Claro! Vou pedir para me ajudarem com o bolo. Só um segundo. Sinta-se a vontade, Poseidon!
Ele assentiu, focado em nós dois. Assim que minha mãe saiu da mesa, ele virou as atenções para Percy.
– Fiquei sabendo sobre o incidente com Rob.
Percy respirou fundo.
– Ele admitiu, pai. Não tem como você protege-lo.
– Não estou protegendo ninguém. Se forem encontradas provas do que ele fez com a garota do vídeo, quero que ele pague devidamente e que fique fora da Jackson’s. Isso acarretaria uma péssima imagem.
Thalia pareceu interessada, inclinou-se na direção do tio com o cenho franzido.
– Mas você até pagou para ele estudar fora. Como fica isso?
– É regra da empresa. – Percy respondeu – Eles sempre tem que bancar alguns alunos em potencias.
– Rogers era um grande administrador. Se daria muito bem no mercado. E então... – ele se virou para mim com um sorriso imenso – Ela é a garota da foto, então.
Percebi que ele não sabia quem era a garota do vídeo e decidi que, se fosse por mim, ele continuaria sem saber.
Engoli em seco e assenti.
– Se você vai insultá-la e ser um tremendo idiota como você foi da última vez, pai, pode parar por aqui.
– Bem, eu não sabia que você iria progredir tanto roubando a namorada...
– Eu não roubei ninguém. – ele grunhiu de volta
– Eu não estava namorando ninguém quando... Ficamos juntos. – disse, sem pensar e então, encarei Percy que retribuía o olhar – Enfim eu estou namorando seu filho e ele não me roubou de ninguém, senhor.
Poseidon me encarou. Analisou. Avaliou. Verificou. Fez um exame completo, senti que ele poderia ler minha mente, cada pensamento errado que eu tive em minha vida. Perguntei-me se a mãe de Percy também tinha esse talento e decidi que poderia esperar mais um pouco para conhecer o resto da família dele.
– Isso é bom.
– Pai, você pode parar com isso agora. É ridículo. No dia que você pode conversar com ela como uma pessoa normal, você fodeu com tudo.
– Cortei sua mesada. Só me lembro disso.
– Você a insultou.
O pai de Percy pensou por um segundo e entreabriu os lábios.
– Ah, sim. Não sabia que ela era filha de Atena. Ela diz que você é uma garota inteligente e doce. Uma mulher que fica escondida ouvindo a conversa, bem, não me parece inteligente.
Engoli em seco.
– O senhor... – tentei falar
– E namorar meu filho não é uma boa ideia.
– Pai!
Poseidon sorriu.
– É um ato de coragem, na verdade. E eu admiro isso nas pessoas. Annabeth, certo? Você é uma garota bonita, se for mesmo inteligente...
– Pai, pare agora.
– Eu não vou me afastar dele só porque você quer.
Poseidon deu um sorriso presunçoso, relaxando em sua cadeira. Thalia o avaliou por um segundo e soltou uma risada. Percy pareceu mais relaxado também, senti-me fora de uma bolha que eles haviam construído.
– Claro que não. – Poseidon concordou, olhou por cima do ombro e soltou um sorriso – Ah, ali vem sua mãe. Ela está muito bonita, não é? Você sabe dizer qual o restaurante preferido dela?
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