Teenage Kings.
4 Now, you're dead.
Notas iniciais
"Touch me, yeah, I want you to touch me there, make me feel like I am breathing, feel like I am human again"
– Quais foram as fotos? – disse enquanto Thalia vagava por alguns aplicativos em seu celular
– Você não deveria estar na reunião?
– Thals, eu acabei de sair de uma aula super entediante de História e eu não sou obrigada a ir saber que Rick não teve nenhum progresso nessa merda que fizeram comigo.
Thalia sentou-se no gramado do campus enquanto eu colocava minha bolsa em meu colo, ao seu lado. Ela tirou uma pequena garrafa metálica e deu goles favoráveis.
– O que é? – perguntou ao perceber que eu a encarava
– Você não se cansa disso? Digo, você vai ficar um lixo.
Ela deu de ombros.
– Você quer as fotos ou não?
– Isso não vai me fazer parar de dizer que você está fodendo com seu fígado.
– Como se ele ligasse pra mim. – resmungou
Revirei os olhos, determinada a continuar essa conversa em outro momento. Peguei o celular das mãos de Thalia assim que ela atravessou a multimídia e me mostrou as fotos.
As primeiras eram apenas comidas. Um hambúrguer com várias fotos sobrepostas, a próxima era de um alface, mostrando seu apodrecimento. Vi algumas de entulhos enormes de lixo, crianças com rostos tristes e uma analogia clara ao McDonald’s. As próximas eram mais sensuais. A primeira era de uma mulher morena, os cabelos bagunçados em suas costas, deitadas na areia e as espumas do mar, tocando a lateral de seu corpo nu.
– Ele escolheu você ano passado. – Thalia disse, cutucando seus bolsos até tirar um Lucky Strike do maço, colocando-os entre seus lábios – Quando você estava saindo da piscina.
– Quê?
Ela me encarou, como se eu fosse a mais burra de todo o campus.
– Ele queria alguém natural, sabe, que não se preocupasse em ser profissional que... Só fosse... Sei lá, normal, não entendo essas coisas de fotografia.
– Ele já tinha pensado em mim antes? Então, todo esse acordo foi planejado?
– Só juntamos o útil com o agradável. Estávamos sem dinheiro, os Alphas precisavam de ajuda e ele precisava de você. Precisa, na verdade.
– Isso é sem noção. – entreguei seu celular de volta
– Não que eu queira que minha melhor amiga namore meu primo, mas... O que você vai perder com isso? No mínimo, vai ficar famosa e ser chamada para pousar para ilustres fotógrafos da atualidade.
– Dignidade? Eu irei me sentir humilhada se ficar nua na frente dele... Desse jeito.
– Isso é arte, Annabeth. E olha que eu nem sei sobre fotografia e essas viadagens.
– Você é prima dele. É o mínimo que você pode saber. – retruquei
– Não importa. O fato é que... Apoio se você disser não. Vamos continuar recebendo o dinheiro.
Mordi o lábio inferior, cruzando os braços.
– Você pode, por favor, parar de fumar?
– Não. – respondeu simples, exibindo a fumaça que saia de sua boca
Revirei os olhos, tentando ignorar sua presença e o forte cheio de cigarro.
– Então, pode, por favor, me ajudar?
– Em quê? A pousar para Percy? Digo, você está supondo pousar pra ele?
– É algo ruim? – arqueei a sobrancelha
– Não, tanto faz, não importará pra mim.
– Ótimo conselho.
Thalia deu de ombros e encarou o relógio de pulso.
– Tenho aula agora. Nos vemos em casa?
Mexi os ombros, entregando seu celular.
– Tanto faz.
– Até onde eu sei, você também tem aula.
– Não sabia que minha mãe tinha incorporado em você.
Thalia revirou os olhos e jogou o cigarro pela metade em cima da grama, pisando com a ponta do coturno.
– Olha, Annabeth, é o que eu disse: pousar ou não para ele não vai mudar o fato de estarmos ganhando dinheiro. O problema é seu e dele, e sabe de uma coisa? Eu não ligo se ele quer te ver nua porque é isso que ele quer...
– Na verdade, não.
Fechei os olhos ao ouvir aquela voz que eu estava tentando evitar. Percy inclinou-se sobre Thalia, beijando sua testa, ela se afastou em um pulo, os olhos azuis revoltos em uma briga interna.
– Se eu quisesse vê-la nua, pode apostar que eu teria ficado com aquele CD da festa.
Apoiei minha cabeça entre as mãos.
– Não precisa me lembrar dessa merda, Jackson.
– Percy. – ele corrigiu e cruzou os braços, sua camisa azul com as mangas dobradas deixando seus músculos avermelhados a mostra – De qualquer maneira, querida prima, eu não quero vê-la nua.
– Isso é que todos dizem, querido primo.
– Não. – ele levantou um dedo, um sorriso provocador crescendo em seus lábios – Isso é o que Luke e Nico te dizem.
Thalia bufou e me encarou, pedindo por ajuda. Encolhi os ombros, abaixando o olhar para a grama esverdeada abaixo das minhas sandálias.
– Tudo bem! Façam o que quiser, na verdade, mas depois não tentem me procurar quando precisarem de ajuda.
Soltei um suspiro e vi a mão de Percy rente ao meu rosto. Apoiei meu peso em seu corpo, levantando-me.
– Espero que não tenha sido influenciada pelos pensamentos de minha querida prima.
– Quando você parar de usar “querida” em cada três palavras, talvez eu tente mudar minha decisão.
– Então, suponho que você não quer ser minha modelo.
– Sua modelo. Isso é tão estranho, digo, você não se ouve?
– Estou me ouvindo, Annabeth. – ele respondeu, os lábios preso em uma linha reta – Talvez, você devesse se ouvir.
Continuamos andando juntos. Eu tinha aula de Matemática I, uma das únicas aulas que eu tinha que suportar o líder dos Alphas comigo. Nossos ombros estavam a centímetros de distancia e isso era o máximo que eu poderia aguentar, podia até sentir alguns olhares para cima de mim, tentei entender que era porquê eu estava próxima demais do líder dos Alphas, e não porque um vídeo ridículo tinha saído na última festa.
– Tem alguma noticia sobre, você sabe, o vídeo? – perguntei, cruzando os braços enquanto chegávamos as escadas
– Da última vez que chequei, Rick estava ocupado demais para me atender.
– Fico feliz que ele vem se empenhado tanto. – resmunguei, sarcástica
– Vai dar tudo certo. Então, posso te esperar sexta?
Deixei suas palavras martelarem. Eu queria ser modelo? O que me levava a ficar encarando-o tanto, pensando na suposição? A resposta era clara.
E por que... Qual motivo depois daquela reunião eu vinha cogitando passar mais tempo com Percy que o normal? Sua bondade, talvez? O jeito que tentou me proteger na reunião com Rick fora o suficiente para mim.
Eu sentia que devia algo para ele.
Era por isso que eu estava pensando em aceitar. Porque eu sentia que devia algo por ele ter me protegido e algo que eu vinha aprendido com a vida é que nunca deixe uma divida em aberto. Se puder pagá-la, pague agora.
– Onde vai ser?
Percy sorriu, tentando esconder os dentes brilhantes. Ele não me respondeu, entretanto. Abriu a porta de Matemática I, onde Sr. Jones repousava com um livro grosso em cima de sua mesa de mogno.
– Bom dia. – acenei com um sorriso ao passar pela sua mesa
– Srta. Chase. – seu sorriso aumentou gradativamente – Fico feliz em saber que está matriculada em minha classe novamente.
– Eu sei. Deveria estar mais avançada, só que eu fiquei sabendo que Sra. James estava em Introdução a Matemática, então tive que vir correndo pra cá. – ele riu, levantando-se de sua cadeira e vindo até mim
– Realmente fico feliz que esteja aqui.
– O mesmo, Sr. Jones.
– E eu? Não está feliz que eu esteja sua aula, Jones?
Meu professor revirou os olhos, levantando os óculos de ferro e encarando Percy de cima a baixo.
– Infelizmente, eu fiquei sabendo que minha fraternidade preferida se juntou a sua, Jackson e não vou dizer que estou muito feliz com isso.
– Devo me sentir ofendido? – Percy colocou uma mão no coração, fazendo um beicinho
– Óbvio que sim.
Percy sorriu e o abraçou, de surpresa.
– Também é um prazer rever o senhor, Sr. Jones.
Ele riu e acabou por revidar as batidinhas nas costas que Percy lhe deu. Acenei para ele antes de escolher uma das cadeiras na imensa sala que crescia como um miniteatro. Sentei na segunda fileira, vendo o fluxo de pessoas aumentarem. Em alguns minutos, a sala estava repleta de alunos. Perdi Percy de vista, apenas o vi com algum veterano Alpha que se perdeu atrás de mim.
Em alguns segundos, a cadeira ao meu lado balançou. Tirei meu notebook da bolsa, abrindo em uma das pastas que me levava as imensas equações de Introdução a Matemática Avançada, abrindo um novo documento.
Encarei a pessoa – especificamente, um garoto, que identifiquei como um calouro – mexendo-se, tirando um lápis e um notebook.
Ele me encarou. Seus olhos eram grandes e castanhos, sua boca era carnuda e seus cabelos estavam bagunçados, o típico jeito de colegial que me dizia “acabei de acordar”, tentando de um jeito falho continuar sexy. Ele só era... Bonito.
– Hm, Matt, prazer. – ele ergueu a mão em minha direção
Arqueei minha sobrancelha, encarando sua mão, tentando ignorar a parte de mim que implorava para eu parar de ser esnobe.
– Hm, perdão por estar atrapalhando...
– Annabeth e sim, desculpas aceita, agora se puder prestar atenção.
– Você quem manda, garota.
– Não me chame de garota. – resmunguei, revirando meus olhos para onde Jones abria um slide, começando a explicar sobre números complexos
– Sei. Você deve ser uma veterana, certo?
– Se você não quer aprender matemática, eu quero.
– Uau. Só tentei puxar assunto. Posso perguntar qual fraternidade?
– Líder das Betas, satisfeito? E se não estou enganada, você faz o perfil perfeito para um Alpha.
Ele sorriu.
– Então é você que saiu o vídeo...
Encarei-o, chocada.
– Não que eu me importe com isso. Só sinto muito que tenha acontecido com você.
– Não sinta. – reclamei
– Bem, eu sinto, então sinto muito. E sim, eu sou um calouro nos Alphas.
– Então estava na festa do fim de semana?
Ele deu um sorriso presunçoso, encarando o palco a nossa frente.
– De certa maneira, sim.
Mordi o lábio inferior, deixando meus olhos vagarem pelo seu rosto, em busca de uma informação que ele estava escondendo. Passei meus dedos pelos cabelos loiros, tentando ignorar a intensa curiosidade que crescia dentro de mim com voracidade.
Com êxito, ela se foi. Consegui me concentrar no Sr. Jones tempo suficiente até que a aula de duas horas tivesse acabado e eu tivesse que sair correndo para minha aula de desenho.
– Então, Annabeth... – ele sussurrou, como se aproveitasse o jeito de falar em sua boca – Nos vemos por aí.
– Provavelmente não. – retruquei, pegando minha bolsa e enfiando meu notebook de maneira despreocupada
– Tudo bem, então, garota.
– O que eu disse sobre...
Ele passou por mim, seu rosto a centímetros do meu.
– Não curto muito a ideia de seguir regras.
Revirei os olhos antes que ele passasse e abrisse caminho para várias pessoas passarem logo atrás dele, atrapalhando-me.
Cheguei ao corredor, vendo Luke ao meu lado.
– Amigo novo? – perguntou
– Não acredito que ficou me vigiando.
– Na verdade, acabei de ver. Nova isca?
– Na verdade, não. Apenas um calouro idiota, se achando o Alpha.
– Ele é um Alpha?
– Deveria saber já que é um vice-presidente.
– Não sou o único. – retrucou, passando o braço sobre meu ombro – E então, está aproveitando ser uma meia Alpha?
Empurrei-o assim que cheguei ao corredor onde várias pessoas empurravam umas as outras para chegar em suas aulas apressadas.
– Obviamente que não. – resmunguei antes de adentrar ao fluxo
Tentei evitar perto das pessoas. Principalmente das Ômegas. Vi Brian na aula de psicologia, ele estava conversando com Percy, o que foi totalmente esquisito e eu decidi ignorar.
A parte mais chata de se estudar em Yale era que você era cobrada. Tanto pela sua fraternidade quanto pelos seus estudos. Sem contar o fato de ter uma vida meio complicada, no entanto, eu nunca pensei que me meter com os Alphas fosse triplicar meus problemas.
Claro. Não sabia disso até chegar sexta.
Era como diziam: o primeiro passo é aceitar.
***
Deveria ser por volta das três da tarde quando Percy me ligou, pedindo para que eu ficasse em frente a minha casa.
Demorei o suficiente até trocar minha camisola por jeans e uma blusa folgada. Em alguns poucos minutos, Percy parou com um carro rente ao meio fio.
– Não me diga que você quer ir agora.
– Qual melhor momento seria?
– Todos, menos agora.
Thalia parou na calçada, ela vinha de uma de suas caminhadas, suas orelhas estavam cobertas por grandes fones de ouvido, usava leggings pretas e uma blusa cavada nos lados, mostrando parte de seu sutiã também negro.
Percy colocou a cabeça pra fora, apoiando um dos cotovelos na janela.
– Prima, tem um cigarro aí?
Ela lhe levantou o dedo do meio, tirando os fones e vindo em minha direção.
– Para onde vai?
– Devolver favores. – resmunguei, dando as costas para Percy
– Ei, onde você vai? – ele gritou atrás de mim
– Vou trocar de roupa, o que pensa que vou fazer?
– Está ótima. Vamos! Eu não quero que cheguemos à noite.
Virei-me, preparando uma ótima resposta e preparando argumentos para lhe dizer o porquê de não ir agora, no entanto Thalia já estava a sua frente de braços cruzados. Sua estatura não ajudava para combater com a altura de Percy, mas pela careta que ele fazia, suspeitei que ela tivesse fazendo o tipo de careta que deixa qualquer cara no chinelo, até seu primo.
Decidi que aquela era minha deixa, portanto, me coloquei dentro de casa, vendo a sala abandonada, como sempre acontecia nos finais de semana. Nós, da Beta, costumávamos ou estudar ou festejar. Hoje, elas estavam ensinando. Por exceção de Thalia que disse que não era obrigada a fazer nada que não quisesse e que não iria abdicar de suas tardes de corrida para ensinar marmanjos.
Não pude discordar dela, claro, embora soubesse que ela estava errada já que arranjou todo esse acordo.
Assim que cheguei ao terceiro andar, observei que eles ainda tinham uma conversa séria e dessa vez, Percy não parecia amedrontado pelo seu rosto já que ele estava de braços cruzados e tão sério quanto ela. Tive a impressão que a conversa iria demorar o bastante para que desse tempo de eu tomar um banho.
Foi rápido, de qualquer maneira. Voltei a colocar um vestido e sandálias gregas. Peguei minha bolsa, colocando uma certa quantia de dinheiro antes de descer as escadas.
Eles ainda conversavam.
– Sabe que não me importo e por que continua falando com isso? – Thalia retrucou
– Porque, felizmente ou não, não estou afim de preparar seu enterro, então antes de vir discutir comigo coisas que dizem respeito a mim, vamos fazer um pouco de justiça, o que acha?
– Acho que vocês devem parar com isso. – disse, apontando um dedo acusador para ambos – Não importa qual seja essa conversa importante demais, mas não quero chegar tarde demais, então, podemos ir? – meneei a mão, indiferente, para seu carro esportivo
– Não vamos demorar, de qualquer maneira. – Percy descruzou os braços e mandou um olhar duro para Thalia – Espero que esteja viva quando chegarmos e não se entupa de álcool.
Ela revirou os olhos, dando-nos as costas.
– Ela vai ficar bem. – assegurei-o – Sabe, ela realmente está tentando parar. Pediu para eu esconder todas as bebidas da casa e...
– Continua bebendo em festas e fumando. Sabia que pela probabilidade, ela acaba bebendo mais do que antes? Ela deixa de beber em dias uteis para beber o triplo em festas e...
Bufei, levantando meus olhos para o céu.
Estava cansada de ter a mesma conversa com mil e uma pessoas que se fingiam de preocupadas com Thalia. A única pessoa que tinha o direito de tentar me ajudar era meu melhor amigo, Nico, e ambos estávamos cansados de tentar ajuda-la. Sabia que iria me arrepender no futuro, mas agora, eu deveria focar em outra coisa além dos enormes problemas que minha amiga carregava consigo, mesmo que isso fosse, de certa maneira, egoísta.
Percy me encarou. Ele acariciou o antebraço antes de tirar os óculos escuros da gola da blusa verde e adentrar o carro. Imitei seu movimento, vendo-o arrastar o carro para fora do campus.
Passamos pela Sachem St, atravessamos a Whitney Ave com pressa, o fluxo de carros estava baixo, o que me deixou impressionada já que ultimamente tem-se vido a noticia de altos níveis de congestionamento nas proximidades de Yale.
Foram, no mínimo, quinze minutos até chegarmos Brewery St., uma curta rua no oeste de New Haven. O silêncio estava confortável, ótimo para falar a verdade.
Não tínhamos o que falar e eu não tinha ideia do que perguntar o que íamos fazer lá. Percy, de uma maneira ou de outra, continuava sendo um estranho que eu tinha uma maldita divida.
– Já foi no Frank Pepe? – perguntou-me enquanto procurava algo na rua com os olhos
Assenti, tentando parecer interessada no que ele dizia.
– Você não está a vontade, certo? – ele virou o rosto para mim, sem deixar-me ver suas íris verdes
– Deveria estar?
Percy deu um sorriso de canto ao manobrar o carro para estacioná-lo em frente a uma das casas de bairro.
– De acordo com minhas expectativas, sim.
– Então, você deveria diminuir suas expectativas, Jackson.
Percy me encarou, sorrindo e abriu a porta do carro. Fiz o mesmo. Percy apoiou as costas no carro enquanto eu apoiava meus braços sobre o teto do carro branco gelo.
– Sua casa? – perguntei, tentando não elevar minha voz
– Eu morei aqui com a Thalia antes de decidirmos entrar nas fraternidades.
– Devo supor que aqui é seu estúdio.
Seus ombros se mexeram, não identifiquei se seria um sorriso ou um modo de tirar o pesar que lhe penetrou.
Não me importei, ele apenas me mandou um sorriso, tirando os óculos escuros.
– Digamos que sim. Então, quer conhecer?
Retribuí seu sorriso, sentindo a curiosidade me preencher calmamente.
A casa tinha uma fachada de vidro. Estava no lado da sombra, portanto uma arquitetura inteligente. Tinha uma garagem enorme, talvez coubessem três carros tranquilamente. Ele abriu a pequena porta de vidro fosco, dando-me passagem para entrar. Uma escada de espaçamentos feita de mármore branco nos levava para o segundo andar, no entanto Percy atravessou a garagem. Acompanhei-o.
Ele abriu a porta de correr, transparente, me dando a visão de uma cozinha organizada sem nenhuma poeira.
– Você vem frequentemente para cá. – afirmei
– Quase todo final de semana.
– Achei que passava a maior parte do tempo com sua equipe.
– Passo tempo demais com eles. – disse e suspirou – Vou ter que te usar como uma... Ajudante, topa?
– Achei que só fosse tirar fotos.
Percy riu. A cozinha era dividida em uma mesa relativamente grande redonda onde cabia seis pessoas, toda o lugar era feito de vidros, facilitando a entrada do sol, podia ver ao longe, um jardim com flores coloridas desabrochando. Um balcão de mármore dividia a geladeira, fogão, micro-ondas e os eletrodomésticos funcionais da elegância da sala de jantar. Percy apoiou do outro lado enquanto apontava para uma pilha de caixas de papelão que estava pousado ali.
– São algumas roupas que trouxe da casa do meu pai e esqueci de levar para meu quarto. O que acha de me ajudar? E enquanto levamos, posso te contar sobre minhas ideias para a exposição. Pode me dar dicas, o que acha que deveríamos fazer. Isso é uma coisa em grupo, sabe? Preciso de sua imagem, mas também preciso de seus sentimentos, de suas expressões...
– Entendi. Você quer que criemos aquela relação que estava falando antes, certo?
– Seria ótimo.
– Tudo bem, podemos tentar. – mordi o lábio inferior, deixando minha bolsa em cima do balcão – Mãos em massa.
Percy colocou uma das caixas em cima do balcão. Abracei-a, esperando que ele me guiasse entre a casa. Continuei ali em pé, enquanto ele tirava uma câmara da Canon da segunda caixa. Ele apoiou os cotovelos no mármore, ajustando-se o que quer que fosse.
Ouvi um click, surpresa ao ver que a lente estava apontada para mim.
– Não gostei dessa ideia.
– Essa é a ideia. – ele riu, melodioso
Revirei os olhos.
– E então, onde deixamos isso?
Ele pegou a segunda caixa, indo a minha frente. Seus pés nos guiaram por um novo corredor na lateral da casa, perto do jardim, com o pé esquerdo, ele empurrou uma mesma porta de correr, adentrando-nos em um quarto claramente masculino.
As paredes eram de um azul bebê confortável. Na parede da cama, havia imensas fotos: de viagens, de família, fotos muito velhas e apenas retratos de alguns lugares, como uma mercearia e uma floricultura vintage. Do outro lado, uma pequena escrivaria segurava um notebook, álbuns de fotos e outra câmara, uma daquelas que se imprime na hora.
– Onde deixo a caixa?
– Pode deixar aí em cima. – disse, apontando para cama
Virei-me em torno do meu próprio eixo.
– Quarto bonito.
– Você não vai parar com isso? – perguntei
Percy estava inclinado sobre a câmara, provavelmente mexendo em uma de suas funções. Ele deu um pequeno sorriso e balançou a cabeça.
– É divertido. Agora... – ele levou a câmara até seus olhos e mais um click me fez estremecer – Você fica melhor assim. O que acha de pegarmos as outras caixas enquanto eu te faço te lembrar de mim em Palm Springs?
– Ah. – sussurrei, tímida enquanto saiamos do quarto lado a lado – Não me lembro de você. Éramos da mesma sala? Porque, provavelmente, eu devo ter te odiado desde o momento que te vi e decidi te ignorar.
Percy sorriu, os dedos longos mexendo nas funções de sua Canon.
Voltamos à cozinha.
– Quer um suco? – ele perguntou, abrindo a geladeira
Assenti enquanto ele enchia nossos copos com suco de laranja.
– Eu... Deveria ser um pouco mais magricelo, no máximo. – ele deu uma risadinha, apoiando o queixo na mão e o cotovelo no mármore
– Magricelo? – perguntei
– É, sabe, eu não tinha esses músculos aqui. – ele flexionou o braço, piscando
– Ridículo. – rebati, bebericando meu suco
– E eu deveria ter uma queda por você no tempo que você namorava... Aquele cara...
– Rob? – chutei
– É. Ele era ridículo.
Assenti, querendo mudar de assunto rapidamente.
– Então... – Percy tirou o cordão que segurava a câmara em seu pescoço, deixando-a de lado – Me parece que você não quer tocar nesse assunto?
– Passado está no passado, certo? E o que era isso? Você tinha uma queda por mim?
Ele riu.
– Acho que toda Palm Springs tinha uma queda por você. – ele balançou a mão, indiferente – Isso foi no passado. Eu percebi que você só era uma garota arrogante que adorava um pouquinho de atenção.
Abri a boca, surpresa.
– Isso não é verdade. – retruquei
– Claro que era. Ah, Annabeth foi eleita a garota mais bonita do colégio. – ele fez uma voz fina, tentando imitar quem quer que fosse – Annabeth passou em Yale, vamos todos louvar.
– Você também passou em Yale.
– Por que meu pai é um dos maiores patrocinadores? E ele é rico? E ele paga? – ele revirou os olhos
– Você faz administração, certo? – assentiu enquanto bebia longos goles do suco – E por que você expõe coisas, digo, você deveria fazer fotografia?
– É uma via de mão dupla. – ele explicou – Estudo para herdar a empresa Jackson, mas ainda posso fazer o que eu gosto.
– Fotografar. – completei
– E você? – perguntou – Você faz o que gosta?
– Absolutamente! Amo arquitetura. Sempre quis ser uma arquiteta famosa e coisas do tipo, sabe?
Percy riu, deixando seu copo na pia. Escorregou o braço até ter sua câmara de volta em mãos e sorriu.
– Você é bem fotogênica, Annabeth.
Arqueei a sobrancelha.
– Vou fingir que não acredito que deixou a câmara...
– No modo automático? Sim, eu deixei.
Revirei os olhos.
– Não achei que fosse tão fácil.
– Você se acostuma depois. Quer conhecer o resto da casa?
– É, seria legal.
Percy nos levou até a sala principal, não existia nenhuma porta além de arcos que dividia um cômodo do outro.
– Essa é a sala. – Percy disse, envolvendo todo o ambiente com a ponta do dedo – E lá em cima é o estúdio, mas não acho que vamos precisar usá-lo agora.
– Posso ver as fotos? – perguntei, aproximando-me dele – Digo, eu não vou apagar nem nada, só quero saber como ficou. Sabe, pessoas vão me ver e não quero parecer uma idiota assustada.
– Você não está parecendo uma idiota assustada. – riu – De qualquer maneira... Sente-se. Vamos ver juntos.
Sentamos no sofá branco de veludo que ficava em frente para a escada de vidro. Percy aproximou-se de mim, o suficiente para que as laterais do nosso corpo estivessem colados. A primeira imagem eu estava mexendo os braços, com um sorriso e de perfil. Ele continuou passando as imagens e elas tinham o mesmo aspecto: perfil, sorriso e surpresa. Depois dessa sequencia, havia uma minha de costas, carregando a caixa.
– Não acredito que fez isso. – resmunguei
– Foi irresistível. – retrucou
Revirei os olhos quando ele passou para as próximas. E por fim, a primeira foto: meus olhos esbugalhados, o reflexo dos olhos cinza dava para um infinito negro. Tive medo de mim mesma.
Percy virou o rosto para mim com um sorriso calmo, no mesmo momento que eu iria reclamar e implorar – melhor, obrigar – que Percy deletasse aquela foto imediatamente.
Seu sorriso diminuiu e seus olhos caíram sobre meus lábios. Não pude evitar fazer o mesmo, sua língua umedeceu seus lábios já vermelhos e seus olhos verdes parecia arrancar todo o ar entre nós.
Não pude evitar quando seu rosto se aproximou do meu, seu nariz roçando no meu levemente, em seguida, deslizando sobre minha bochecha enquanto sua mão direita subia até estar presa na base do meu pescoço. Não sabia o que fazer, falar ou sentir quando seus lábios tocaram o osso logo abaixo do meu pescoço, subindo suavemente até estar contra meus lábios.
Uma isca. Isso que você é.
Não me importei com meu subconsciente gritando contra mim. Implorando que eu saísse daquela armadilha para me ter, eu estava presa demais em sua pequena gravitação que me puxava cada vez mais contra seu corpo.
Finalmente, nossos lábios se tocaram.
Foi calmo, senti a língua de Percy deliciar-se sobre meu lábio inferior enquanto eu me inclinava ainda mais contra seu corpo, agarrando seus ombros e sua mão esquerda, rodeando minha cintura. O beijo se aprofundou, atingindo todo meu corpo com pequenas descargas elétricas. Deixe-me flutuar por alguns segundos até me dar conta da idiotice que estava fazendo.
Você é a errada.
– Parece que a queda não é tão passado assim. – brinquei, assim que seus lábios se separaram
Seus olhos ainda estavam fechados quando ele se separou. Ele voltou a lamber os lábios em um gesto rápido e me encarou.
– Desculpe por isso.
– Só espero que não se repita novamente. – sussurrei, tentando me recompor, jogando meu cabelo para o lado
– Não vai. Só... Esqueça. O que acha de uma pizza no Frank Pepe?
– Acho que não estou no clima de uma pizza.
– Um café no Starbucks?
– Eu realmente não tenho como negar. Então... – encarei meu relógio de pulso com a pulseira de couro – Vamos logo porque estamos atrasados.
Foi difícil perceber quando as palavras pularam da minha boca que eu não queria dizer aquilo.
Eu queria ficar ali e aquilo fez meu estômago revirar.
Saímos pelo lugar que entramos, pela porta de correr da cozinha. Percy a fechou, fazendo-a soltar um pequeno barulho, como um aviso que estava trancado. Saímos de volta para a rua. Ele trancou a porta da frente, guiando-me de volta para seu carro branco.
Chegamos ao Starbucks em meia hora. Passamos pelo drive, pedindo dois crossaints e dois cafés já que a aquela hora, o clima começava a ficar frio em New Haven.
– O que vai fazer amanhã? – Percy perguntou quando atravessamos um dos últimos prédios, em direção as alas das fraternidades
– Talvez estudar ou sair com Thalia, não sei ainda.
– Deveria aparecer lá. Sabe, na sede dos Alphas.
– O que eu iria fazer lá?
– Beber uma cerveja, conversar... Coisas desse tipo, sabe. União entre as fraternidades seria ótimo além de festas para que todos transem e não se lembrem disso no dia seguinte.
– Posso falar com elas.
– Legal. – Percy girou pela esquina, chegando a minha rua – Posso te esperar amanhã, então?
– Para outra sessão de fotos? – ele sorriu, erguendo as sobrancelhas
– Talvez.
– Vou levar isso como um não. – respondi, abrindo a porta do carro assim que ele parou
– Ei. – chamou-me – Foi legal, sabe... Hoje.
Dei de ombros.
Virei-lhe as costas, esperando encontrar a sala vazia, no entanto, ela estava abarrotada, todas as garotas com os olhos vidrados em mim.
– Aconteceu algo? – perguntei, deixando minha bolsa no pequeno vestíbulo
– Algo como você estar ficando com Percy Jackson, líder dos Alphas, nosso inimigo? – Clarisse disse alto
– Não estou ficando com Percy...
– Ela é modelo dele. – Thalia disse, na cozinha, debruçada sobre o balcão com uma tira de cenoura entre os lábios – Particularmente, não sei o que é pior.
– Não estou ficando com Percy e sim, estou sendo modelo dele porque ele me protegeu na reunião com Rick. Iria me sentir idiota se ele me pedisse isso e eu dissesse um simples não. Aliás, como foram as aulas?
– Particularmente? – Thalia arqueou a sobrancelha para mim, assenti – Boas. Não tão boas quanto sua tarde maravilhosa...
– Ah, se foda, Grace. – resmunguei
Ela riu.
– Ei, volte aqui! Nos conte como foi o beijinho de despedida.
– Não teve beijo de despedida, idiota, nem sequer nos tocamos! – gritei, indo em direção a escada
– Não acredito que vai nos esconder algo tão crucial quanto isso. – Clarisse retrucou
– Não existe nada de especial nisso! – gritei contra elas – Digo, desculpe. Vocês sabem o quanto eu odeio essa coisa... Relacionamento. Não importa. Ele nos convidou para uma festa particular na sede dos Alphas. Ninguém é obrigado a comparecer, só se quiser aproveitar de uma cerveja de graça e um bate-papo sem graça.
– Que obviamente você vai estar lá.
Tive vontade de socar Thalia, em vez isso, ignorei-a e subi as escadas em direção ao meu quarto.
Meus pensamentos se diluíram na suavidade dos beijos de Percy em meu pescoço.
Em que merda eu estava me afundando?
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