Teenage Kings.
23 I Always Do.
Notas iniciais
"Sad to see you go, sort of hoping that you'd saty, baby we both know that the nights were mainly made for saying things that we can't say tomorrow day"
– Guarde seus conselhos porque não vou ouvir. – avisei sem olhar para trás
Sabia que Thalia estava apoiada contra a soleira da porta com um olhar do tipo “eu te avisei” ou “você sabe que isso não é certo”. Realmente, eu não estava a fim de ouvir sermão de minha melhor amiga.
– Não vim dar conselho.
– Nem sermão. – contei as malas com o dedo e mordisquei a ponta da caneta – O que houve? O carro não foi entregue?
– Ah, não. O carro está aí. Preto e discreto como você pediu.
Assenti.
– Então, o que foi?
– Eu sei que você não queria despedidas. – ouvi os passos leves dela até mim
Observei seu vestido preto de bolinhas, a legging grossa que usava acompanhada por coturnos, ainda poderia ver a meia roxa que usava. Ela trazia um cachecol cinza ao redor do pescoço, como se tivesse acabado de chegar do lado de fora.
– E ainda não quero. – respondi ao vê-la segurar minha mão com força
Respirei fundo. Não iria chorar.
Quando Percy foi embora, eu o vi se remexer para que não me acordasse. Senti a cama afundando e supus que ele estivesse colocando os sapatos. A porta não se abriu por uns quinze minutos ou mais, e ainda continuei com os olhos fechados, fingindo que estava dormindo. Percy foi embora, no instante seguinte, eu só conseguia chorar e quando Thalia subiu para verificar se eu estava realmente dormindo, ela acabou afagando minha cabeça até eu dormir de verdade.
– É só que o babaca do meu primo avisou pro babaca do Nico e do Luke. Eles estão quase colocando a Beta a baixo. – ela deu uma risadinha
Sorri, jogando a caneta em cima de minha cama bem arrumada. Observei como a carta de despedida caia bem ali. Eu havia escrito uma carta com uma caligrafia feia para a próxima presidente – sem ser Thalia – queria deixar claro como as Betas pensavam e como nos orgulhávamos de ser gostosas e inteligentes. Recitei todas as ideias que eu tinha para aquela fraternidade e deixei claro que aquilo era minha família, deixei claro que ela deveria tratar a Betas como a maior e melhor família do mundo.
Tentei não chorar enquanto assinava meu nome.
Thalia passou um dos braços pelo meu ombro, acariciando meu braço coberto pelo casaco fino.
– Está tudo bem, Annie. Sabe que vou sentir sua falta, certo?
Virei-me para ela, assentindo. Segurei suas mãos com força, piscando para que as lágrimas fossem embora.
– Vai ser apenas seis meses, certo? E você vai morar comigo logo, logo. – disse com a voz firme – E... Thals, eu estou tão orgulhosa por você. Estou tão feliz por ter largado a droga desses demônios e não, me deixe falar, por favor. Você seguiu em frente e eu te amo por isso. Eu te amo por ser minha amiga e durante esses seis meses quero que cuide das Betas com todo seu coração e dedicação e... Sei que é capaz. Vai ser uma presidente melhor que eu, tenho certeza.
– Claro que vou. – ela revirou os olhos e rimos – Bem... – ela passou a mão pelos olhos, tentando não estragar sua maquiagem – Você disse que não queria ter uma despedida e se depender de mim, não terá. Eu te amo, Annie e pode ter certeza que eu estou orgulhosa por estar seguindo seus sonhos. Em alguns meses, estaremos colocando Nova York abaixo!
– Estou contando com isso.
– E Annie? – ela apertou meus dedos em suas mãos – Eu sei que você não quer vê-lo. Não quer nem pensar nele...
– Thalia, por favor, não.
– Agora você me ouça. O voo dele vai sair às três e quarenta. Sei que não quer se atrasar para pegar seu apartamento e que está ansiosa.
– Eu não vou lá. – rebati firme – Bem, eu vou precisar de algumas mãos, então vou descer e pedir para que eles levem a mala.
Thalia continuou me olhando por um tempo com as sobrancelhas arqueadas e os lábios crispados.
– Claro. Você vai querer um café antes de ir, certo? Podemos comprar cafés e ah... Algum sanduíche.
– Só vai ser uma hora e quarenta de viagem, Thals. – revirei os olhos
Peguei meu sobretudo marrom, calçando minhas botas antes de sair do quarto. Thalia me entregou meu cachecol vermelho enquanto descíamos as escadas comentando sobre o que eu poderia encontrar em uma hora e quarenta de viagem.
Não sei bem o que ouvi, no entanto quando atingi meu pé no térreo, todas gritaram um “sentirei sua falta” ou “melhor presidente ever”. Dessa vez, não consegui segurar minhas lágrimas, elas vieram como uma enxurrada.
Abracei tantas garotas que mal pude falar o nome de todas. Clarisse foi a última delas. Ela me apertou em seus braços musculosos, apoiei minha cabeça em seu ombro, deixando meu próprio corpo tremer.
– É melhor que me espere em Nova York, ok? Espero ir passar um final de semana por lá.
– Vou sentir sua falta, C. – apertei seu rosto em minhas mãos
Ela riu, beirando a uma gargalhada.
– Não tanto quanto sentirei falta de seu drama e de seu nome estampado no blog de Yale.
Dessa vez, eu ri.
– Não acredito que iria embora sem se despedir! – ouvi a voz de Nico, seu braço afastou Clarisse com um empurrão – Eu sou o melhor amigo! Sempre serei e você não me avisou que irá morar em Nova York?
Abri meus braços. Nico tinha o rosto vermelho, uma touca preta escondia seus cabelos e ele só usava um casaco fino preto, perguntei-me onde estaria sua jaqueta de inverno.
– Me abrace, garoto. – resmunguei
Nico afundou o rosto na curva do meu pescoço enquanto eu afagava suas costas.
– Eu vou sentir sua falta. Muito. – frisei – Me ligue. Por favor, todos os dias que puder. Me ligue.
– Por que não me disse nada?
– Eu não sabia o que estava acontecendo, minha vida estava uma confusão.
– Percy, ele...
Afastei seu corpo, segurando seu rosto entre minhas mãos. Seus olhos estavam marejados, no entanto se eu conhecesse Nico como achava que o conhecia, ele apenas piscaria até que aquela vontade de chorar fosse embora.
– Podemos conversar sobre ele depois? – pedi, engolindo em seco e sorri – Cuide de Thalia por mim, ok? Apareça aqui todos os dias.
Ele assentiu, firmemente.
– Você vai voltar?
– Daqui a duas semanas. Resolver o que deixei pendente. Depois, alô, Nova York.
– Eu vou te ligar, você vai enjoar de minha voz.
– Provavelmente, mas estou pronta pra testar. – segurei o queixo de Nico mais uma vez, grudando nossas testas – Cuide dela, entendido?
Ele assentiu antes de me abraçar forte mais uma vez.
Respirei seu perfume amadeirado, apreciando seu aperto. Nico era mais um amigo que eu deixaria para trás, embora eu soubesse que ele viria para perto de mim uma hora ou outra, assim como Thalia.
Dessa vez, Luke o empurrou para o lado e me encarou como um misto de raiva e tristeza.
– Em que você estava pensando quando ia partir assim, do nada, loira?
– Provavelmente em mim. – dei de ombros – Vai me ameaçar de novo ou vai se despedir?
Luke revirou os olhos, apertando meus ombros com força contra seu corpo. Busquei ar, tentando não rir de seu aperto.
– Não pense que irei chorar por você, loira. Ainda estou com raiva por ter sido tão egoísta.
– Costumo fazer isso de vez em quando. – dei duas batidinhas em seu braço – Verifique se eles vão ficar bem. – apontei para Thalia e Nico que conversavam baixinho atrás de nós – Por favor.
– Acha que vou ficar de babá por você? – ele encolheu os ombros ao encarar o teto – É claro que ficarei. Sempre fico.
Abracei-o novamente e respirei fundo, afastando-me para ver todos ali. Reunidos.
Clarisse enxugava o rosto com as mãos e um sorriso lindo no rosto. Silena com suas roupas lilás e rosas sorria, confiante e orgulhosa. Katie tinha os olhos marejados e aquele sorriso orgulhoso que a maioria segurava no rosto. Abri um sorriso choroso, sentindo mais lágrimas inundarem meu rosto.
Elas eram parte de mim. Parte de quem eu sou, assim como Percy era. Eu nunca esqueceria os anos que tive com aquelas meninas, lutando pelo que achávamos correto, gritando com todos por falarem de nossa fraternidade.
Eu sempre estaria ali. Viria gerações e mais gerações e eu estaria agarrada naquela fraternidade.
No começo, eu só queria meu nome como uma das maiores presidentes das Betas, talvez eu tivesse conseguido isso, talvez não. Se um dia, elas estivessem tricotando e falando para seus netos da época maravilhosa que vivemos, seria o suficiente para mim.
Engoli em seco mais um acesso de choro, pensando em palavras para me despedir.
– Obrigada. – balbuciei, enxuguei meu rosto com a manga do meu casaco – Obrigada por fazerem parte de um capítulo muito importante da minha vida. Isso não acabou, garotas. As cartas ainda estão na mesa e eu apostei todas as fichas em vocês. Me deixem orgulhosa, ok?
Todas assentiram, sorridentes.
– Destruam a Ômega. – dei um sorrisinho – Mentira, estou brincando. Cuidem de nosso novo aliado, os Alphas. Eles não vão conseguir sobreviver sem a gente.
– Ei! – Luke e Nico protestaram, nos fazendo rir
– Eu amo vocês. – sussurrei, embora soubesse que todas me escutariam – Eu sempre serei uma Beta. Sempre. – dei uma risada – Acho que chega disso, não é? Chega de lágrimas, chega disso tudo. Estou seguindo meus sonhos e acho que vocês, veteranas e calouras, deveriam seguir seus sonhos. Não deixem nada nem ninguém pararem vocês. Transformem seus sonhos em objetivo e quando ele se tornar real, faça de tudo para tê-los em mãos. – respirei fundo – É tudo que posso dizer para vocês, porque é tudo que aprendi nesses anos. Parece pouco, mas é o suficiente para mim.
– Está na hora de você ir, não é? – Thalia afagou meu cotovelo com os olhos marejados, uma parte de seu delineador estava borrado – Meninos, vocês podem pegar as malas da Annie, por favor?
Ambos assentiram, subindo as escadas.
– Thalia vai ser a presidente até a formatura. As calouras vão virar veteranas e uma de vocês virará a nova presidente. Eu aposto em Silena. – disse com um sorriso para os olhos assustados da garota – Veremos se ela será digna de tal coisa.
Acenei para todas com um sorriso até que Thalia estivesse me acompanhando até o carro.
Luke ajeitou todas as malas na parte de trás do carro alugado. Nico verificou se ele estava em boas condições para uma viagem curta, me deu instruções caso algo de ruim acontecesse e então, os três ficaram parados no meio fio enquanto eu entrava no carro.
Imaginei Percy do lado de Thalia com um sorriso orgulhoso e acenando. Acabei sorrindo e acenando para meus amigos, antes de começar a dirigir.
Em dez minutos, eu senti minha cabeça rodar. Sabia que estava fazendo algo de errado.
Parei no meio fio quando estava fora das quadras de Yale. Acionei o GPS, procurando o Aeroporto de New Haven. Soltei um suspiro ao ver que não demoraria mais de dez minutos para chegar ao aeroporto, se desse tempo eu poderia dar um adeus para ele.
Corri mais que o necessário. Deixei o carro estacionado de um jeito estranho, apertando minha touca em minha cabeça antes de correr pelo estacionamento escorregadio. O aeroporto não era tão grande já que só fazia voos domésticos. Encarei a tela procurando por um que saia três e quarenta.
Franzi o cenho ao ver que dois voos estavam previstos para sair esse horário. Um para Los Angeles e outro para Nova York. Balancei a cabeça, ele não iria para Nova York. Procurei o portão e corri até lá.
Era três e trinta quando eu o avistei. Ele estava com um boné em pé e uma mala pequena ao seu lado. Uma mulher, aparentemente de quarenta anos, beirando aos cinquenta, estava ao seu lado. Supus que fosse sua mãe, uma que eu não havia encontrado no aeroporto.
Percy me avistou assim que eu soltei um suspiro de alívio. Ele estava com as mãos enfiadas no bolso daquele jeito distraído. Um sorriso lento se abriu em seus lábios, apressei o passo sem querer chamar atenção. Ele não moveu um músculo até que eu estivesse a cinco passos de distância, corri-os como se fosse uma maratona e abracei seu pescoço, pressionando nossos lábios.
Ele apertou meu corpo contra o dele, soltando um murmúrio por baixo do beijo.
– Faça uma boa viagem. – sussurrei, afastando-me
– Não poderia ser melhor depois disso. – ele levou os dedos ao meu cabelo, brincando com alguns cachos – Tenha uma boa vida, Annie.
Afastei-me, enfiando minhas mãos no bolso do sobretudo e assenti com um sorriso grande.
– Você também, Percy. Tenha uma boa vida.
Percy balançou a cabeça.
– Eu terei. Obrigado por vir... Se despedir. Ah, de qualquer maneira, essa é minha mãe, Sally. Mamãe, essa é Annie, a garota que falei.
Ela tinha um sorriso sereno no rosto, meio nervoso e seus olhos estavam vermelhos, era visível que veio chorando por bastante tempo.
Ergui minha mão com um sorriso calmo enquanto ela me abraçava forte.
– Estou tão feliz por meu garoto ter achado uma garota tão bonita quanto você!
Percy revirou os olhos.
– Ignore isso, por favor. – ele soltou um suspiro cansado – Ali está Jake. Tenho que ir, mamãe. Mande um beijo pro pai por mim, ok? – ele beijou a cabeça dela, abaixando-se e dando um selinho demorado em mim – Você merece uma vida feliz.
Assenti.
– Vou sentir sua falta. – retruquei
Percy assentiu e nos deu as costas, seguindo para os portões onde Jake falava no telefone apressado. Observei quando ele deu batidinhas nas costas de seu empresário, ambos entrando juntos.
Sally fungou alto.
– Seis meses longe do meu filho. Isso será uma tortura.
Dei um sorriso acolhedor.
– Imagino, Sra. Jackson. Aliás, desculpe-me pela maneira que nos conhecemos.
– Não, está tudo bem. Eu estava tão estressada naquela exposição que acabei nem procurando a modelo. Você estava maravilhosa nas fotos. Percy ainda recolheu três painéis, sabia? Recusou-se a vender. Uma foto é um pouco comprometedora, mas você está linda em todas.
Corei, enfiando minhas unhas na palma de minha mão tentando não ter lembranças sobre as sessões no estúdio e chorar novamente. Decidi que era melhor manter distância da mãe dele.
– Bem, foi um prazer conhecer a senhora. Estou me mudando para Nova York agora, então... – ergui os ombros em um pedido silencioso de desculpas
– Ah! Sim, claro que está. – ela secou os olhos com um lenço que tirou do bolso do casaco – Meu filho adora você, sabe disso, não é?
Crispei os lábios.
– Eu adoro seu filho também.
Sally sorriu, feliz.
– Ele merece uma garota assim. Agora pode ir, se quiser, não se prenda pela educação. Sempre fico mais tempo do que o necessário em aeroportos.
Encarei seu rosto novamente, procurando algum traço de Percy nela. Nada além do nariz elegante, talvez o repuxar dos lábios para abrir em um sorriso. Procurei o rosto de Percy em meus pensamentos e tratei de deixa-lo lá, não queria esquecê-lo tão rápido.
Sally afagou meu cotovelo e sorriu.
– Ele gostava mesmo de você, menina.
Respirei fundo, afastando-me levemente e me arrependendo logo em seguida. Eu não queria que ela me tocasse, não queria chorar por causa de um toque em meu cotovelo.
– Eu sei, Sra. Jackson.
Ofereci-lhe mais um sorriso, andando com passos largos até meu carro.
Devo ter ficado meia hora com soluços altos, apoiando minha testa no volante.
A vida era uma caminhada longa, dura e cheia de buracos. Eu tinha que cair, sofrer e continuar andando. Eu tinha um sonho.
Repeti isso em minha cabeça.
Meu sonho virara realidade e nada me pararia agora.
Balancei a cabeça, afastei o rosto de Percy dos meus pensamentos, a textura de seus lábios e o jeito que ficamos abraçados na noite anterior.
Meu sonho virara meu objetivo. Fechei os olhos, sequei as lágrimas e voltei a andar.
O futuro era incerto, e eu estava abraçando-o, feliz da vida por seguir em frente.
Tenha uma boa viagem!, dizia a primeira placa da Interestadual.
Você está deixando New Haven.
E várias outras coisas também.
"...baby, I'm too busy being yours to fall for somebody new."
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