Tecido E Pimenta
20 Capítulo 20: Encontros Pré-Destinados
Notas iniciais
AH e obviamente Feliz ano novo!
Voltando novamente para aquela época, na manhã do dia 29 de Fevereiro, após a grande catástrofe de Sapporo, uma pequena criança de cabelos loiros despertava.
“Ainda hoje, eu me pergunto se tudo aquilo era real, acordei sentindo uma coceira insuportável em minhas costas, rolei ainda sonolento para o lado e bati em alguma coisa dura, me esfreguei um pouco e logo senti algo pontiagudo me espetando, coloquei a mão dentro da minha blusa e retirei...um galho?”
– Hã? Porque tinha um galho dentro da minha roupa? Mama –
–“ Quando pensei em chamar pela minha mãe, senti um cheiro forte de carne podre, não demorou muito para eu perceber aonde estava, olhei para as ruas e me horrorizei, tudo estava destruído e soltando uma pequena fumaça preta, senti uma forte ânsia, mas me segurei para não vomitar, comecei a correr assustado procurando pela minha família e conforme o sangue ia circulando e subindo para a minha cabeça, as memórias da noite anterior se tornavam claras de novo, corri para longe dos corpos e parei no que parecia ser os restos de uma casa.”
– Por Kami, o que foi que aconteceu ontem à noite, acalme-se e tente se lembrar dattebayo!
“Eu dizia para mim mesmo tentando me acalmar e comecei a me auto narrar tudo o que me vinha a cabeça, contando os fatos com meus pequenos dedos”
– Ok, depois da competição nós fomos até um restaurante no centro para comemorar, o vovô queria dar prejuízo no lugar então nós comemos até quase estourar, depois no caminho de casa a mamãe reclamava que...
“ Foi como se, a minha cabeça tivesse recebido um grande choque, de repente varias imagens da noite anterior começaram a pipocar, eu via as primeiras explosões começando pouco a pouco a engolir a cidade, eu havia comido bastante por isso tinha bastante força para correr assim como meu pai me mandou fazer, no caminho do hotel a perna da vovó falhou e ela não conseguia mais correr, depois ouvi mais quatro explosões, meu pai olhou para o céu e rapidamente empurrou a mim e a mamãe pra longe, então minha mãe pegou meu braço e me jogou mais longe ainda, ela disse o meu nome e então...”
O pequeno não precisava mais pensar, a verdade é que não queria continuar pensando, se lembrou claramente do que houve em seguida, o barulho forte de concreto e metal se chocando contra o chão, a forte corrente de ar que lhe jogou ainda mais longe fazendo com que batesse a cabeça em algum lugar, finalmente havia percebido que não adiantava chamar por sua mãe e seu pai, pois eles não viriam, assim como seus avós e seus tios, então correu, correu o máximo que pôde, até que suas perninhas reclamassem de tanta dor, finas lagrimas de dar dó escorriam pelo rostinho abatido do pequeno loiro, sem forças para continuar se debruçou no cantinho de um beco qualquer e se pôs a chorar, não precisava se segurar, afinal era uma criança, passou todo aquele dia ali bem encolhidinho revivendo em sua cabecinha varias e varias vezes a cena da morte de sua família.
*****
No dia seguinte, 01 de Março.
Mais uma vez o dia havia amanhecido e o pequeno loiro continuava no mesmo lugar do dia anterior, esperava poder acordar, esperava que tudo aquilo fosse um sonho ruim, mas não era, ontem havia chorado até pegar no sono, estava com olheiras e os olhinhos vermelhos.
– Será que, ninguém vai vir me ajudar? – Se perguntou ele, por raios ele só tinha dez anos, o que poderia fazer sozinho!? Esperava que se ficasse paradinho no lugar alguém viria em seu socorro, mas ninguém veio, e aquela cidade parecia cada vez mais morta, estava pronto para voltar a se encolher quando um som familiar chamou sua atenção.
GRRRRR
– Que fome. – Sim, era o barulho de sua barriguinha, havia passado o dia anterior inteiro aos prantos era óbvio que alguma hora seu corpo reclamaria de fome, movido por sua necessidade se colocou de pé e passou a caminhar lentamente pelas ruas destruídas.
*****
Uma hora depois e o pequeno ainda estava caminhando, só não sabia se ainda tinha fome, pois a cada passo que dava se sentia ainda mais enjoado, os corpos com dois dias de decomposição estavam entupidos de vermes e moscas, só isso já era suficiente para revirar o estomago de qualquer um, as casas estavam todas destruídas com pouquíssimo teto ainda cobrindo algumas, pelo menos se chovesse teria algum cantinho para se abrigar, mas o pior de tudo mesmo era o cheiro, aquele pútrido odor de carniça estava deixando o pequeno quase doente de tão forte e nauseante.
– E agora o que eu faço? Pra todo lugar que eu olho só tem gente morta.
GRRRR
– Mesmo assim o meu estomago continua roncando, aaaaagh não da pra continuar andando sem rumo desse jeito, – Foi nessa hora que o pequeno loiro notou um pedaço de ferro meio retorcido jogado ao se lado – bem acho que posso usar isso de bengala e bastão ao mesmo tempo, já é um começo, — GRRRRR – mas eu preciso de comiiida!
Naruto estava pronto para se ajoelhar e pedir a Kami para que começasse a chover hambúrguer, quando o som de algo se chocando contra o chão chamou sua atenção.
TAM TAM TAM TAM!
??? – DROGA! Pare de tentar fugir!
Não pode ser. Será mesmo? Alguém além dele sobreviveu aquela noite infernal!? O pequeno reuniu as ultimas forças que tinha e começou a correr na direção da desconhecida voz.
Quando se aproximou de um monte de destroças notou que a voz ficava mais alta, mas outro som também se fez presente, era bem baixinho, porem veloz, difícil de descrever, era como se algo de porte pequeno estivesse tentando fugir de alguma coisa ou alguém, e antes mesmo que Naruto pudesse ponderar sobre aquilo ele viu algo pulando.
Na sua direção vinha em pleno ar o que parecia ser o maior roedor que o pequeno loiro já tinha visto, a boca da terrível “fera” espumava, seus dentes estavam todos a mostra e por Kami como eles pareciam grandes de perto, mas talvez o mais assustador fossem os olhos, aqueles terríveis olhos vermelhos que se aproximavam cada vez mais de seu rosto.
Devido a grande adrenalina do momento o pequeno loiro tirou forças sabe-se lá de onde para levantar seu recém-adquirido bastão de ferro e arrebentou a cabeça da asquerosa criatura com um balançar certeiro de seus bracinhos, demorou um pouco para assimilar o que acabara de acontecer, assim como também demorou para que seu coração voltasse a bater normalmente.
– Arf arf, que susto, o que era aquilo? – Se perguntava o loiro observando a “monstro” inerte no chão, e agora com a cabeça estourada.
De repente ele ouve mais um som vindo do alto dos destroços, temendo que fosse outro bicho como aquele o pequeno logo se colocou em posição de combate, erguendo novamente o bastão e preparando mais uma cacetada...
??? – Droga pra onde ele –
Parecia até que o tempo havia parado, do alto dos destroços um menino da mesma altura de Naruto surgiu do nada, roupas tão sujas e amarrotadas quanto as do loiro, cabelo negro como carvão e pele um tanto mais pálida do que o normal, mas aquilo poderia ser obra do frio também.
Ambos os jovens se encaravam como se fossem as criaturas mais interessantes do universo, logo o bastão erguido pelo pequeno loiro foi ao chão, libertando ambos de seu momento de espanto.
– Vivo – Disseram eles ao mesmo tempo – Tem mais alguém vivo aqui além de mim – Naruto quase foi as lagrimas ao ver o outro menino descer do barranco e ficar a sua frente.
– Ei, por favor, me diz que você não é um fantasma! – Pediu o loiro quase que como uma suplica.
– Hã? É claro que não, eu estou muito vivo obrigado.
– Hum – Ruminou Naruto analisando o moreno de cima a baixo – mas você não ta muito pálido pra alguém que diz estar vivo?
– É isso que acontece quando uma pessoa não come nada a mais de um dia, além disso, eu tenho a pele bem clara mesmo desde sempre.
– Entendi, que booom, já estava começando a achar que tinha ficado louco depois de ver tanto cadáver.
– O mesmo digo eu, andei por quase toda a cidade e não achei ninguém vivo, bom além de vo – Nesse momento o moreno parou para analisar melhor o menino loiro a sua frente, e sua memória pareceu voltar a trabalhar – AH você! Você não estava participando da competição de esculturas!?
– S-sim, mas como você...AH VOCÊ, você foi o cara que tirou o primeiro lugar!
– Hehe isso mesmo, eu me lembro do narrador gritando o seu sobrenome,Uzumaki certo?
– Isso ae, Uzumaki Naruto, eu também me lembro daquele cara escandaloso gritando o seu, era...hum eto, Uzina? Não não, era Esfiha.
– QUE ESFIHA O QUE!? É Uchiha, U-CHI-HA, Uchiha Sasuke não vá confundir de novo!
– Gomem gomem, depois de um dia inteiro sem comer a minha cabeça não pensa em outra coisa.
– Não que eu esteja muito melhor...AH É MESMO, ei você não viu um rato beeem grande passar por aqui? – Gesticulou Sasuke com as mãos.
– Se esta falando do monstro que eu estourei a cabeça sem querer ele ta ali ó. — Respondeu ele apontando para o bicho morto.
– Que sorte, eu achei que o havia perdido. – Suspirou o moreno em alivio indo até o animal de porte médio, olhando mais de perto aquilo definitivamente era uma ratazana e das bem gordas.
– Perdido? Olha vô avisando que se ele era de estimação eu –
– Ta maluco? Quem é que cria uma ratazana como bicho de estimação? Isso aqui é o meu almoço.
– ALMOÇO!?
GRRRR
– Gueeh, normalmente eu diria que isso é muito nojento, mas a fome já é tanta que eu comeria até pedra se colocassem sal.
– Hum, eu não acho que isso vá dar uma boa refeição, mas é melhor do que morrer de fome, além disso como foi você quem matou você decide o que fazer – Completou o Uchiha estendendo a criatura pelo rabo e a colocando na frente do loiro, que logo demonstrou uma enorme careta de desagrado.
– Eu só coloco as minhas mãos nesse bicho se for pra comer e olhe lá, se você souber como tornar essa coisa comestível, então agente divide meio a meio.
– Feito. – Concordou ele com um sorriso torto, na verdade Sasuke também não gostava de coisas nojentas como aquela. – Então mais uma vez – continuou ele estendendo a mão – eu sou Uchiha Sasuke, prazer.
– Uzumaki Naruto, acredite o prazer é muito meu Dattebayo! – respondeu ele apertando a mão de seu mais novo amigo, com ambos dando sinceros sorrisos, até que em fim haviam achado alguém para poder conversar e amenizar o terror que estavam sentindo naquela cidade.
– Bem primeiro de tudo nós vamos precisar de madeira e fogo pra assar esse bicho. – gesticulou o moreno.
– Isso é fácil, o que não falta agora nessa cidade é lugar pegando fogo, — Disse o Uzumaki já disparando para começar sua tarefa – eu vou cuidar de fazer uma fogueira, enquanto isso você vai limpando essa coisa! – E lá se foi ele correndo em meio aos destroços.
Agora só restava o pequeno Uchiha e seu futuro almoço no local, mas preparar aquela coisa horrenda seria uma tarefa muito mais desafiadora do que se demonstrava.
Por fim Sasuke suspirou alto sabendo que teria de começar.
– Dai-me forças pra não vomitar Kami-sama.
*****
Quase duas horas depois Naruto havia conseguido juntar madeira o suficiente para fazer uma fogueira descente, a tarefa que ele julgava ser fácil logo se mostrou mais difícil do que o esperado, a maior parte da madeira das casas já havia sido completamente queimada, e o fogo já não ardia alto nas construções, levou um bom tempo até as chamas cooperarem em ascender.
Nesse meio tempo Sasuke já havia “limpado” aquele rato gigante, mas só de olhar para o mesmo parecia que tinha sido virado do avesso, provocando dentro de ambos os jovens uma incrível luta de sensações para decidir o que era mais forte, a ânsia e a vontade de vomitar ou a fome.
– Sasuke tem certeza de que essa coisa ta limpa mesmo? Eu não to a fim de morrer de leptospirose.
– Não reclama tanto vai, foi o melhor que eu pude fazer, tinha muita coisa dentro dele que não dava pra aproveitar.
– É eu vi como você deixou o chão, parecia até a cena de um crime.
– Que seja, vamos botar essa coisa pra assar logo, e por via das duvidas deixar o mais bem passado possível, se tiver algo de ruim nisso aqui é melhor deixar que o fogo de conta do recado.
E assim foi feito, o bicho foi espetado em um graveto e vez ou outra girado para assar por igual, depois de mais uma hora parecia estar pronto.
– Bom parece que já deu, não tem como a gente cortar então cada um come de pouquinho em pouquinho ok? – Perguntou Sasuke para o Uzumaki que poderia estar ou não prestando atenção, já que praticamente babava por aquele pedaço de carne.
– Hum. – Foi tudo o que ele respondeu.
– Beleza, então vamos ver como ficou. – Com isso o moreno levou um pequeno pedaço da parte esquerda do bicho até sua boca, enquanto mastigava aos poucos o sabor começou a percorrer por sua língua, e então...
– COF COGH COF COF COFF.
Sasuke começou a ter um ataque de tosse muito forte, assustando o loiro bem ao seu lado, quando conseguiu se acalmar um pouco se virou para o amigo quase roxo.
– Cof cof, Naruto lembra cof sobre o que você me disse cogh , quanto a morrer de leptospirose?
– Uhum.
– Bem não se preocupe, o gosto disso aqui vai te matar antes de você ficar doente. – Finalizou Sasuke passando o “prato” em questão para o Uzumaki.
– Ta tão ruim assim?
– Se você quiser tirar a prova cof vai fundo, eu quero distância dessa coisa.
– Eu sou o tipo de pessoa que sempre pagou pra ver, não vai ser agora que vou mudar! – Afirmou Naruto abocanhando uma boa parte do bicho...se arrependendo amargamente logo em seguida. – Sasuke.
– Hum?
– Eu quero meu pagamento de volta.
– E eu quero a minha língua de volta, e ai qual foi a sensação?
– Algo entre o gosto de vomito e uma fruta que já passou do ponto UGH, — Respondeu ele colocando a mão na boca contendo o enjoo – eu não quero mais falar sobre isso.
– Nem eu, joga esse negócio fora, só de olhar pra ele ta me dando raiva.
– Não precisa nem pedir duas vezes. – Por fim Naruto tomou um bom impulso e arremessou para bem longe aquela intoxicação alimentar ambulante, voltando logo a se sentar.
*****
Agora não havia mais nada a se fazer, o sol já tinha se posto e o único lucro que tiveram do exaustivo dia foi uma pequena fogueira e uma sensação horrível na boca.
Sasuke suspirou alto por sua realidade tão frustrante.
– Droga, só de pensar que gastei minha manhã inteira perseguindo aquele rato me da raiva, não aconteceu uma única coisa boa hoje!
– E depois de todo o trabalho pra ascender à fogueira e preparar uma refeição que passa longe de ser descente, a nossa recompensa é ficar com gosto de esgoto na boca.
Suspiraram os dois mais uma vez.
– Cara que sede.
– Ééé, eu daria tudo pra tirar esse gosto da minha língua. – Afirmou o loiro estendendo a mesma. – A gente consegue encontrar um pouco de água?
– Claro, do esgoto tem um monte vazando. – Respondeu o moreno com a voz entediada.
– DROGA , SERÁ QUE ATÉ UM TANTINHO DE ÁGUA É PEDIR MUITO!?
Como se Deus tivesse escutado a indignação do pequeno loiro um grande trovão arrebentou nos céus, seguido por uma densa e grossa chuva, que apagou a fogueira dos garotos como se fosse um palito de fosforo, Sasuke olhou com no mínimo raiva para o Uzumaki ao seu lado.
– Assim ta bom pra você!?
– Olha...não precisava ser tanta...mas pensa pelo lado bom.
– Que lado bom?
– A gente mata a sede e ainda pode tomar banho, eu não sei você, mas eu tava todo suado.
– Pois é, e sabe o que mais essa chuva vai matar? Nós dois, com uma pneumonia das bravas, precisamos nos abrigar.
– Ta, mas aonde, tudo aqui ta caindo aos pedaços.
– Eu ainda não explorei aquela parte da cidade – Disse ele apontando para o noroeste — e você?
– Também não!
– Talvez nós encontremos algum pedaço de teto para nos abrigar, vamos!
E assim ambos os jovens correram desviando dos montes de entulho, e dos corpos que encontravam pelo caminho, a única coisa que não melhorava em nada era o cheiro de carniça, era até o contrario, agora o ar estava impregnado com o odor de algo pútrido e ensopado, vez ou outra ambos tinham de dar pequenos saltos para desviar dos grupos de roedores famintos que invadiram a cidade saindo dos esgotos, depois de meia hora finalmente encontraram um pedacinho de teto inteiro para se abrigar, ao que parecia era o que havia sobrado de uma pequena casa.
– Arf arf bom arf foi refrescante. – Afirmou o loiro.
– Você quis dizer congelante né? — Reclamou o pequeno Uchiha que tremia de tão gelado -Huughmm eu to morrendo de frio, não tem nada aqui pra gente se secar?
– Hum – Naruto vasculhou um pouco o lugar e voltou com alguma coisa no braço – achei uma cortina e toalhas de mesa.
– Pra mim serve – Sasuke tirou o casaco e a roupa molhada, sendo repetido pelo loiro, ambos penduraram suas vestes para secar e ficaram só de cueca, cada um fortemente enrolado com uma toalha de mesa e envoltos pela grande cortina.
*****
Depois de algumas horas nenhum deles conseguia dormir, o frio já não era tanto, mas ainda incomodava bastante, pelo menos a chuva já estava mais amena, sem ventar demais, ambos os garotos se encontravam imersos em seus próprios pensamentos...
– Sabe – Murmurou Sasuke para o loiro.
– Hum?
– Quando eu reclamei mais cedo, que nada de bem tinha acontecido hoje, eu...estava mentindo.
–...
– Quando eu acordei um dia atrás, e percebi que tinha perdido tudo, minha família, minha casa, minha cidade, eu entrei em desespero, é vergonhoso dizer isso, mas acho que eu passei quase todo aquele dia chorando, se não tivesse te encontrado, acho que eu iria enlouquecer.
–...
–...
– Eu também.
– Hã?
– A ultima vez que eu vi meus pais, meus avós e meus tios, todos eles estavam sendo esmagados por um prédio enorme...e só eu me salvei, graças ao meu pai e a minha mãe.
–...
– Eu também passei o dia seguinte inteiro chorando, eu pedia muito pra que tudo fosse um sonho ruim, que eu acordasse e pudesse abraçar bem forte a minha mãe...eu snif prometi a mim mesmo que não ia mais chora, mas snif ugh snif.
–...hoje de manhã eu só estava correndo atrás daquele rato para tentar me distrair, para tentar esquecer, não que eu não estivesse com fome também mas, cara quando subi naquele monte de entulho e achei mais alguém vivo, eu não sei como estava a minha cara, mas eu fiquei realmente feliz.
– Snif eu também – Naruto fungou e limpou suas lagrimas – desculpe por ter te chamado de fantasma.
– Sem problema, você tava parecendo um zumbi.
–...
–...
– Buff AHAHAHAHAHAhahahahaaahahaahaaaaa. – E os dois caíram em gargalhadas, talvez até um pouco forçadas, mas...
Aquele pequeno momento de descontração, serviu para afastar uma grande tristeza, abafando a dor em seus corações e os permitindo desfrutar de um momento de paz, quando o ataque de risos passou a chuva já estava quase extinta, e seus “cobertores” improvisados até pareciam mais quentes e reconfortantes.
Foi nesse momento, em que o barulho de água se apaziguou, que os garotos notaram um som muito diferente do da chuva.
??? – EEEEEEEEEEEEEI!
Assustados os garotos começaram a olhar para todos os lados estupefatos.
– Ei Sasuke isso de agora foi...
??? – EEEEEEEEEEEEEEEI ALGUÉM AIII!?
– Sim, sem duvida alguma.
Ambos se encararam.
– Tem mais alguém vivo! – Disseram eles em uni som, não precisaram trocar mais nenhuma palavra depois disso, vestiram suas roupas semi-secas e começar a correr na direção da desconhecida voz, mais alguns minutos cruzando o que costumava ser um quarteirão e ambos avistaram o terceiro sobrevivente.
– EEEEEEEI VOCÊ ESTA BEM? – Gritou Naruto.
??? — Hã? Eu não acredito ainda tem mesmo gente viva aqui, EU ESTOU PRESO ME AJUDEM POR FAVOR!
Dito isso ambos os garotos correram para socorrer o estranho, ao chegarem mais perto puderam notar melhor os traços dele, cabelos soltos e acinzentados, usava óculos, porem os mesmos estavam com uma lente quebrada, pela aparência devia ter menos de 25 com certeza, obviamente estava encharcado da chuva, e boa parte de sua roupa de aparência luxuosa já havia se transformado num pano de chão.
Eles também notaram o que impedia o homem de se mexer, uma de suas pernas estava sendo prensada no chão por uma pesada viga de ferro.
??? – Hã? Crianças? Bem que seja, é muito melhor do que nada, já estava achando que iria morrer aqui.
– O senhor consegue mexer os braços? – Perguntou Sasuke.
??? – Usando o pouco de força que me resta sim.
– Ótimo, você vai precisar deles, Naruto procure por uma barra de ferro, vamos levantar essa viga.
– Pode deixar!
Parando para notar, o homem preso respirava pausado e parecia estar apavorado.
– Esta doendo muito?
??? – Pior do que isso, eu não estou sentido mais a minha perna.
– A quanto tempo você esta preso?
??? — Algumas horas, quando a chuva começou essa porcaria caiu bem em cima de mim, DROGA eu não quero perder a minha perna!
– Se nos apressarmos ainda pode dar tempo de –
– SASUKE EU ENCONTREI!
– Ótimo, traz pra cá depressa.
Ambos ajeitaram a barra de ferro entre a viga e uma pedra e se preparam para empurrar.
– No três a gente empurra com toda a força.
– Beleza.
– OK 1, 2, 3! UUUUUUUUUUUUUGH!
– 3! UUUUUUUUUGH! ARF ARF DROGA! Não se move nem um maldito milímetro.
A viga se provou mais pesada do que parecia fora que os garotos estavam famintos e sem forças, precisavam de um novo plano e rápido.
– Bem arf sugestões? – Perguntou o moreno, o Uzumaki até ia abrir a boca para falar algo, mas o Uchiha foi mais rápido – Nada que envolva amputar a perna dele.
??? – É, a minha pessoa agradece pela consideração.
Ok esse seria o plano C caso o B falhasse, a questão agora era, qual seria o plano B? Naruto cruzou os bracinhos e se pôs a pensar, ficou encarando a viga e a barra de ferro por algum tempo, até que decidiu colocar sua ideia em palavras.
– Já sei! – Exclamou o loiro.
– Ué então fala, estamos ficando sem tempo.
??? – É o que eu diga – Completou o estranho entre os dentes.
– É o seguinte Sasuke, nós dois subimos na viga –
??? – Ah que ótimo, mais peso sobre a minha perna, GENIAL loirinho! – Disse o grisalho com claro sarcasmo.
– Me deixa terminar poxa! A gente sobe na viga e depois pulamos juntos na barra de ferro, o nosso peso vai levantar ela por uns segundos e ai esse cara rasteja ela pra fora de lá!
– Agora sim isso foi genial.
??? – Espera ai, e se não der certo?
– Bem ai então é bom que você goste de brincar de saci. – Respondeu Naruto num sorriso torto, fazendo o homem engolir em seco.
Os garotos subiram sem demora na viga observando se o estranho reclamaria de dor, mas como ele mesmo já havia afirmado, não sentia mais dor.
– Certo, vamos la, 1, 2, 3 PULA!
Ambos pularam ao mesmo tempo torcendo para acertar o lugar certo, já que a barra era meio fina e alguns centímetros de erro poderiam acarretar numa tremenda dor nas bolas, felizmente, nenhum deles errou e o impacto do pulo foi o suficiente para erguer a pesada viga por alguns segundos, o estranho aproveitou a oportunidade e rastejou para trás como pôde, nem meio segundo depois a barra de ferro começou a entortar devido ao grande peso da viga, e os garotos pularam meio que aos tropeços para fora dali, evitando que ela se partisse e acertasse alguém.
??? – AAAAAAH HAGH AAAAGGAHAAAA UFU UFU!
Por alguma razão momentos depois de solto o homem começou a gritar e urrar como se o mundo fosse acabar.
– E essa agora, o que há com ele? – Perguntou o loiro.
??? – UFU MINHA PERNA, minha peeeerna!
– Ta o que que tem a sua perna? Ela já ta solta.
– Não é isso Naruto, ela ficou muito tempo prensada e sem sangue circulando naquela região, agora ela esta voltando ao normal, mas o sangue passando por ali deve estar causando um formigamento infernal.
– Você até que entende bastante do assunto heim.
– A minha estudou um pouquinho de medicina, e como eu sempre estava perto dela decorei o básico.
– Huuum.
??? – EI se eu não estiver incomodando muito UGH, será que vocês podem fazer alguma coisa pra parar essa dor do caralho!?
– Ooo boquinha suja heim, Sasuke você é o mais perto de um médico que nós temos aqui, o que a gente faz?
– Hum, para formigamento... eto, ah minha mãe me disse que massagear o local ajuda a passa mais rápido.
– Beleza, eu pego a coxa e você o pé.
– Pera ai por que eu tenho de ficar com o pé?
??? – AAAAAAAAH!!!!!
– Quer mesmo discutir isso agora?
– Ta bom eu fico com o pé.
*****
Cerca de vinte minutos depois massageando a perna daquele homem, ele finalmente havia parado de gritar e agora arfava forte estirado no chão, sendo observado pelos dois garotos.
??? – ARF ARF arf arf, obrigado, muito obrigado.
– Não tem de que senhor. – Disse o loiro, enquanto Sasuke lavava suas mãos em um poça a sua frente.
??? – Hahaha, eu não sou assim tão velho para me chamarem de senhor, haha, muito prazer garotos, Yakushi Kabuto 24 anos. – Completou ele fazendo o sinal de paz.
– Uzumaki Naruto. – Disse apontando para si mesmo.
– Uchiha Sasuke, é um prazer também encontrar mais alguém vivo.
– Pode repetir essa, aaaaa que bom, por um momento pensei que meu destino era acabar aqui sendo comido pelos ratos.
– Ugh, por favor não fale em ratos. – Pediu Sasuke.
– Experiência ruim?
– Você não faz ideia. – Completou Naruto.
– Arf, garotos vocês não teriam nenhuma comida sobrando por ai?
– Sobrando!? Ta mais em falta do que fruta fora de época. – Gesticulou o loiro.
– Pior é que ele ta certo, ninguém como aqui a quase dois dias.
– Estamos no mesmo barco então. Sobreviventes?
– Sim, nós três! Já não ta de bom tamanho.
– É a pergunta foi meio retórica, e... o que pretendem fazer agora?
– Hã? – Questionaram os dois.
– A partir de agora, para onde vão e o que pretendem fazer?
Por um momento os dois se entre olharam e abaixaram as cabeças. E agora? Durante a tarde estavam apenas tentando se distrair para afastar a tristeza e conseguirem comida, mas parando para pensar, o que restava para eles? Não tinham casa, família, a dura verdade é que agora estavam, sozinhos.
– Talvez...esperar por ajuda? – Disse Naruto mais perguntando do que afirmando.
– E depois disso? Se não tiverem um responsável vão acabar num –
– Num orfanato – Completou Sasuke – é para esse tipo de lugar que eles vão nos mandar.
–... e como é la?
– Olha eu praticamente cresci em um orfanato, e sem querer te botar para baixo, mas a minha infância foi uma bela de uma merda, la eles acolhem qualquer tipo de criança que venha das ruas, não importa o quão filhos da puta elas possam ser, um dos meus melhores dias foi quando eu completei 16 e disse adeus aquele lugar. – Relatou Kabuto.
–...
–...
–...
– Garotos – Chamou ele – querem vir comigo?
– Hã?
– Depois que eu sai daquele lugar, a verdade é que eu ainda estava meio perdido e sem saber o que fazer da vida, mas uma pessoa reconheceu os meus talentos e deu um lugar onde eu era necessário, ele já ajudou muita gente como eu que não tinha para onde ir, e olhando bem para vocês – Ele analisou os dois de cima a baixo, reparando nos traços exóticos de cada um deles – eu tenho certeza de que nesse lugar vocês poderão recomeçar.
Depois disso os três se encararam por algum tempo, como se estivessem tendo uma conversa mental, os garotos estavam em duvida afinal acabaram de conhecer este homem que facilmente lhes estendia a mão, seria mesmo o correto aceitar tão facilmente? Bem, a verdade é que para eles aquilo pouco importava no momento, estavam cansados, com fome, frio, medo e perdidos, tudo o que mais desejavam era alguém que lhes oferecesse ajuda, e Kabuto naquela hora parecia um santo lhes concedendo um milagre.
– Eu vou.
– Eu também.
Nesse momento os olhos de Kabuto se estreitaram e um fino sorriso nasceu em seus lábios, por alguma razão ele pareceu nesse momento um tanto sinistro e falso, mas isso passou muito despercebido pelos dois jovens, que ainda desconheciam as malicias do mundo.
– Bem então vamos.
– Mas para onde? – Perguntou Sasuke.
– Para o sul, na direção de Chitose, as antenas daqui não funcionam mais, porem o meu celular ainda tem bateria e esta funcionando, eu só preciso de sinal para contatar o meu bem feitor e ele vira nos buscar.
– Bem feitor?
– Ele é a pessoa da qual eu falei, que reconheceu os meus talentos.
– Mas Chitose fica a quilômetros daqui. – Argumentou o loiro.
– Eu sei, mas se tivermos sorte conseguiremos sinal perto do rio Kitahiroshima, mesmo assim vamos ter de andar bastante, primeira lei da vida garotos, é preciso ter disposição para viver.
Eles se entreolharam mais uma vez e por fim assentiram.
– Mas, Kabuto-san você vai conseguir andar todo o caminho? Digo a sua perna ainda não deve estar boa. – Apontou Sasuke uma boa questão.
– Com um pedaço de ferro ou pau me servindo de apoio eu consigo sim, não sou uma pessoa assim tão mole.
– Falou o cara que não parava de gritar alguns minutos atrás. – Brincou Naruto sendo seguido por uma risada discreta de Sasuke e um Kabuto de sorriso amarelo, após acharem uma boa bengala para ele, o pequeno grupo começou a seguir o seu caminho.
– Muito bem garotos, vamos em frente!
– Espera só um pouco. — Pediu Sasuke.
– Hai?
– Você só disse qual caminho nós vamos tomar, mas qual é o nosso destino final.
– Hahaha, esta certo eu quase me esqueci, ok, eu vou complementar a minha frase...muito bem garotos, vamos em frente, nosso destino final é, Hokkaido!
*****
Seis horas depois.
Os garotos estavam esgotados, pararam algumas poucas vezes para descansar, mas não podiam perder o ritmo da caminhada, Sasuke aparentava estar com febre, resultado da chuva e da falta de comida, o estomago do Uzumaki era o que roncava mais forte, então depois de mais alguns metros...
– Pronto! Finalmente consegui sinal!
– Hããããã.
PAFT
Com essa afirmação os garotos tombaram no chão, Naruto estava morto de fome e Sasuke aparentemente havia desmaiado por causa da febre, antes de acudir os meninos Kabuto digitou rapidamente o primeiro número da discagem rápida e precisou esperar a linha tocar uma única vez antes de ser atendido.
??? – QUER ME MATAR DE SUSTO LIGANDO A ESSA HORA!? – Gritou a voz irada do outro lado da linha – Onde raios você esta? Já estava começando a achar que havia morrido!
– Bem, por um instante eu também achei senhor.
??? – Hã? Do que esta falando? Você foi derrotado?
– Quem dera eu tivesse tido chance de lutar. – Respondeu ele suspirando alto.
??? – Kabuto me diga que raios aconteceu naquela cidade!
– A história não é tão longa, mas a bateria do meu celular vai acabar, preciso que o senhor venha me buscar.
??? – O que aconteceu com a sua moto?
– Explodiu junto com a cidade. – Respondeu ele como se aquilo não fosse nada de mais.
??? – NANI? Como assim a cidade explodiu!?
– Por isso eu estou dizendo que não da para contar tudo por telefone, olha a minha perna esta me matando e eu não como nada a dois dias, pode vir me buscar ou não?
??? – Que seja, mas quero toda essa história passada a limpo no caminho de volta!
– Se eu não desmaiar de cansaço primeiro por mim tudo bem, nós estamos na estrada do rio Kitahiroshima, lado direito, sentido de ida para Chitose.
??? – Entendi, não saia dai eu já estou indo.
– “Eu não poderia sair mesmo se quisesse” Ah senhor, só mais uma coisa venha com a vã, não de Porsche.
??? – Por que? Esta trazendo alguma coisa com você?
– Sim – Afirmou Kabuto olhando para os garotos – espólios da guerra.
Continua...
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