Notas iniciais
Olá! Boa Leitura :)

Capítulo 4

♥ Loveless ♥

Josie

Alguém já mencionou o quão extremamente difícil é evitar uma pessoa que mora debaixo do mesmo teto que você? Não? Estou mencionando isso agora. É fodidamente desgastante.

Me chame de covarde, mas fugir dele foi a única maneira que eu encontrei de me fazer passar por isso. Já está tudo muito complicado e eu apenas cheguei hoje de manhã.

Ok, Josie. Você pode fazer isso! Me encorajo mentalmente.

Respiro fundo e desço a grande escadaria ostentosa que leva ao hall de entrada. Minha família está na lista das mais ricas e renomada dos Estados Unidos da América, e olha, eu não estou tentando me achar aqui, apenas passando uma informação. Eu tenho que agradecer a vida de privilégios que eu tive, mas meu coração deseja em seu amago que tivesse sido diferente. Eu tive tudo que o dinheiro pode comprar, mas aquilo que eu mais precisava, nunca fui capaz de obter.

Meus pais não podem ser considerados os piores pais, mas certamente não estão ganhando nenhum prêmio. Eu, particularmente, acho que a coisa toda de afeto é difícil para eles. Meu pai nunca sequer teve um exemplo, seus pais o criaram da mesma forma que ele nos criou, e assim fizeram os pais de seus pais antes deles. Minha mãe nem sempre foi rica, mas a vida simples e repleta de todas as futilidades que importam, ficou para trás faz muito tempo. Nem sequer se lembra mais como era, pois, a rotina teve seu preço sobre ela. E depois vem a questão do dinheiro, torna tudo muito cômodo, porque trocar a fralda do meu filho se posso pagar alguém para fazer?

Eu tento compreende-los da melhor forma, mas é difícil quando nem passando dois anos fora é questão suficiente que mereça sua atenção.

Eu paro na frente da enorme porta dupla de madeira entalhada da biblioteca, e bato duas vezes antes de chamar. — Mãe?

— Entre, Josie. — Sua voz vem do outro lado baixa e educada, mas firme.

Eu entro no grande salão que parece ter sido tirado de um filme. O teto alto é sustentado por quatro colunas alinhada perfeitamente. O piso é de madeira, mas as paredes e colunas são brancas, com rodapés e detalhes em dourado. De cada lado das portas ficam três andares de galerias repleto de livros que ela nunca vai chegar a ler. No centro, de frente a porta, fica a mesa de carvalho que ela usa como escritório, e na frente da mesa, sob a pintura renascentista no chão, duas poltronas estão viradas para ela. Marrons, como o resto do mobiliário.

— Sente-se. — Minha mãe mais ordena do que pede, ainda sentada em sua cadeira de couro marrom, que é idêntica as poltronas a sua frente, porem tem rodas de escritório. Eu amava me esgueirar até aquela cadeira e girar até ficar tonta quando ela não estava em casa e eu era uma menina se decepções aparentes.

— Ouvi dizer que queria falar comigo... — Início quando me sento na poltrona a sua esquerda.

— Sim. — Ela tira seu elegantes óculos de leitura e pousa sobre a mesa. — Eu queria discutir sua situação.

Eu levanto uma sobrancelha. — Minha situação?

Minha mãe revira os olhos. — Você sabe o que quero dizer Joseanne. Nada pode dar errado desta vez, não quero ter que encobrir nenhuma falha sua. Faça o que precisa, mas não chame atenção indevida e deixe seu irmão em paz.

Eu rio uma vez pelo nariz, de forma incrédula.

— É isto o que é mamãe?

— Ora, Josie, não vamos mais tolerar comportamentos imaturos vindos de você. Levou muito tempo para colocar as coisas no lugar da última vez. Jeremy está noivo da filha de um grande acionário e sócio do seu pai. Estamos investindo milhões neste relacionamento. Não. Estrague. Nossos. Esforços.

Eu estou mais chocada do que estive em anos, por isso demoro para acha minha voz. Fico lá apenas olhando para ela durante um tempo, até que eu caio em mim.

— Não se preocupe. Tenho apenas alguns shows em Seattle, até o final do próximo mês eu estarei longe. Suas vidas perfeitas podem continuar como estão, basta fingir que eu não estou aqui. Não deve ser difícil para você, tem aplicado a técnica toda a minha vida, não é mamãe?

Foi sua vez de me olhar em choque. Não dei-lhe tempo para um treplica, apenas me levantei e, condizente com minha educação de primeira, pedi licença e me virei para sair. Não sem antes olhar para ela por cima do ombro e fazer a única pergunta que gira em torno da minha mente por anos: — Jeremy e eu, somos apenas mais peões no seu jogo doentio, não é? Peças que completam sua jogada perfeita?

Ela chegou a abrir a boca para responder com sua expressão de quem nunca perde a compostura, mas eu a cortei levantando a minha mão. — Não se incomode mãe, nenhum argumento no mundo torna isso justificável.

Caminhei o resto do caminho até a porta e abri, mas antes de sair ouço sua voz: — A vida é um jogo de xadrez, Josie. Alguns sabem jogar melhor do que outros.

Eu não entendi aquilo na hora, e demorou muito tempo para eu entender seu momento de sabedoria filosófica, mas quando finalmente compreendi, era tarde demais...

Saí da biblioteca, passando pelo corredor que ostenta nossas fotos de família, molduradas e penduradas como se significassem algo além de sorrisos falsos e falsas pretensões. Faço uma breve pausa para observar uma em particular, eu estou com oito anos e vestida quase da mesma forma que minha mãe. Susan Gibson está lá, de pé atrás de sua filha, sorrindo como se ela fosse o maior presente que ganhou na vida. Esta foi a única vez em que eu recebi este sorriso, mas ele foi encenado para as câmeras, eu ganhei o prêmio de primeiro lugar no concurso de soletrar e ela foi me ver receber a medalha, conveniente que seu amigo fotografo de revista de fofoca foi também.

Mas o que me chama a atenção na foto não é sua história, e sim o fato de eu não parecer com ela em nada. Minha mãe é loira, de pele clara, alta, magra como uma modelo e tem olhos azuis. Deslumbrante mesmo a sua idade. Enquanto eu sou o completo oposto: meu cabelo é de um castanho tão profundo que chega a ser quase preto; minha pele é morena clara, mais como se eu estivesse sempre bronzeada; meus olhos são castanhos; meu um metro e sessenta chega apenas a altura de seu ombro; e eu tenho um corpo magro, mas possuo mais curvas do que qualquer pessoa na família de minha mãe. Não tem nada na nossa aparência que nos ligue.

E eu nunca estive mais feliz em perceber isso.

Notas finais
O que estão achando?