Notas iniciais
Oi, gente. Me desculpe a demora pra postar aqui, mas sem crises, eu voltei com tudo pra história. Eii, você já viram que a capa é nova? Então, ela foi feita pela redlipstick, que tem um dom divino pra mexer com editor de fotos. Coisa que eu sou totalmente leiga 'Hehe Deem uma olhada lá. Agora, aproveitem o capítulo, pessoal.

“Aprendi que eu não posso exigir o amor de ninguém, posso apenas dar boas razões para que gostem de mim e ter paciência, para que a vida faça o resto.”

Percy Jackson

Eu estava sentado, de pernas abertas e bebendo uma coca, na poltrona da minha casa. Era mais um daqueles dias chatos em que eu servia como cobaia do meu querido (não tão querido assim) amigo, Nico Di Ângelo. Acho que eu tenho a obrigação de te explicar a minha situação. Então, vamos lá.

Todo adolescente que faz 18 anos e sai de um orfanato tem que passar por acompanhamento psicológico por pelo menos um ano e meio. Como os coordenadores daquele sanatório... merda, errei. É orfanato, gente, or-fa-na-to. Então, como os diretores daquele lugar me achavam doido, decidiram que eu teria que passar por acompanhamento por dois anos. Foi aí que eu conheci o Nico, um cara sinistro, dois anos mais velho que eu e que estudava psicologia.

Ele virou meu amigo e me dava atestados de graça. A gente só batia um papo de vez em quando, era algo bem simples e eu nem precisava pagá-lo. O que era uma maravilha porque eu sempre fui bolso furado mesmo. Então, lá estava ele, ouvindo sobre o meu mais recente drama.

–Eu não sei por que me sinto assim, caveirinha! –eu disse a ele.

–Não me chame assim. –Nico pediu.

–Mas você gosta de caveiras, morte, Dexter, Hanniball e essas coisas assustadoras.

–Só porque eu gosto dessas coisas, não quer dizer que eu seja um serial killer ou um filho do mundo inferior. –ele retrucou.

Era engraçado essa colocação. Nico parecia tanto um filho do mundo inferior que chega dava medo. Mas, ao que parecia, a vida não era o que aparentava ser. E a mulher por quem eu estava apaixonado, não estava tão afim de mim assim. E o céu não é azul porque é azul, tem haver com todos aqueles aspectos espaciais que eu ignorei nas aulas geografia. E talvez o céu seja azul só por ser azul.

–Ela veio morar aqui há três meses, Di Ângelo. E o que eu sinto por ela só aumenta. Ela não me dá bola, acha que eu só a quero na minha cama. Mas eu a quero pro resto da vida e nem sei por que sinto isso, pra falar a verdade. –eu desabafei.

–Isso é só um transtorno comum, Percy. Você apenas está obcecado por ela porque ela foi à única que não quis se tornar, como você disse, “mais uma na sua cama”. –Nico disse enquanto escrevia naquele caderno de psicólogo dele.

–Tudo bem, Di Ângelo, talvez seja. Mas e se não for? –eu perguntei temendo a resposta.

–Se não, você tem que conquistá-la. Simples assim. –Nico se levantou, guardando as suas coisas. –Até porque, ficar se lamentando enquanto bebe coca-cola, não vai resolver os seus problemas.

Aquele projeto de Lorde Voldermot tinha razão. Eu não poderia me entregar ao vitimismo e ficar lamentando o quanto as coisas não dão certo. Eu não estava nem tentando para falar a verdade, como poderia saber que as coisas não dariam certo?

Quando Nico já estava em frente a porta do meu apartamento, eu tive uma crise de inteligência (sim, ás vezes eu sou inteligente), eu perguntei:

–Nico, já que você é psicólogo e entende desses comportamentos humanos, o que eu poderia fazer para conquistá-la?

–Olha, é difícil dizer ao certo o que se fazer para conquistar uma mulher. Até porque, mulheres são seres incompreensíveis. –ele suspirou e balançou a cabeça confirmando. Devia ser frustrante para ele passar anos estudando psicologia e ainda sim não ter obtido nem um pouco de conhecimento do universo feminino. –Mas o ser humano, no geral, se atrai por ações que requerem esforço para agradar a outra pessoa. Como ver o filme preferido dela mesmo você não gostando, ir a alguma lugar que ela queira mesmo você não querendo... Esses pequenos sacrifícios diários.

–A Annabeth parece ser bem nerd. –eu observei. –Então, com certeza, nós temos muitos gostos diferentes. Talvez eu possa fazer alguns sacrifícios por ela.

–Ah, você também pode tentar entender de um assunto que ela goste e depois debater com ela sobre isso. Essa é uma técnica que nos psicólogos usamos para reaproximação de pais e filhos. Por exemplo: você gosta de esportes, se ela estivesse tentando te fazer feliz, ela pesquisaria sobre o assunto e depois falaria sobre aquilo com você. Isso tudo porque sabe que te faria feliz. –Nico acrescentou.

–É, me faria feliz mesmo ela comentar comigo que o Chicago Balls está uma bosta na NBA. E mesmo que ela falasse mal dos Lankers ou dos The New York Yankees, que são meus times preferidos, eu ainda assim ficaria feliz por ela ter pesquisado sobre o assunto para nós falarmos sobre algo que gosto.

–Viu, é uma ótima técnica. –Nico deu aquele sorrisinho de lado assustador dele. –Quase nunca falha. Agora adeus, Percy.

E ele saiu do meu apartamento me deixando pensativo sobre como poderia fazer para conquistá-la.

°°°°°

Eu iniciei o meu plano de tentar conquistar a Annabeth, mas não estava indo muito bem, já que eu poucas coisas sabia dela. Eu perguntava ao porteiro se ele sabia para onde ela saia as sextas à noite e ele sempre dizia que ela não saía, que ficava em casa. Eu fui perguntando várias coisas pro maluco, se ele sabia quantos anos ela tinha e quando fazia aniversário, se ele sabia se ela gostava de ir ao cinema e perguntei até se ele sabia a cor preferida dela. Parei quando me liguei que estava perguntando aquilo para a pessoa errada.

É óbvio que o cara não sabia de nada. E é óbvio que agora ele deve me achar um psicopata que está perseguindo a loira.

Talvez eu estivesse um pouco psicótico com isso mesmo. Todas as vezes que ela passava perto de mim nos corredores do prédio, eu ficava constrangido e até gaguejava. Eu ficava pensando nela antes de dormir. Ficava pensando em como deveria ser o cheiro das roupas dela toda vez que a via na lavanderia do prédio. Sempre que andava de na minha Bros 125, pensava em como seria ter ela segurando na minha cintura enquanto sorria no meu ouvido e aproveitava o vento que bagunçaria aquela cabeleira loira, enquanto eu aumentava a velocidade da moto.

Céus, eu nem conhecia verdadeiramente aquela garota e já estava caidinho por ela!

Eu precisava tomar uma atitude. Eu queria chamá-la pra jantar, mas pra isso precisava me mostrar um cara culto, seguir os conselhos de Nico sobre dominar os assuntos preferidos dela e saber conduzi-la em uma conversa agradável. E pra descobrir as coisas que ela gostava e um pouco do caráter dela, eu teria que perguntar a uma pessoa que realmente soubesse.

Você está pesando que eu vou perguntar a ela, não é? Que isso, brother. Tá’ louco? Sou corajoso, mas nem tanto.

Bati na porta do AP da Thalia. Desde que Annabeth viera morar lá, Thalia havia se tornado uma grande amiga dela. O que era curioso já que nenhuma das duas parecia ter algum em comum uma com a outra, mas aquela mulher morena também era assustadora, era a minha única esperança.

Por falar em pessoas assustadoras, acho que ela e o Nico dariam certo. Mas deixo essa vocação pra cupido pra depois. Um assunto de cada vez.

Quando aquela mulher de olhos azuis eletrizantes e postura assassina abriu a porta, eu quase corri de volta para o meu apartamento chamando a minha mãe. Mas eu não conhecia a minha mãe e eu não podia sair dali assim. Eu tenho a minha reputação de macho alfa a manter, não posso vacilar.

–O que você quer, Jackson? –perguntou ela.

Cara, se ela colocasse um bigodinho no rosto ficaria idêntica ao Adolf Hitler.

–Quero conversar com você, Grace. –eu me mantive firme e sustentei o olhar dela. –É algo sério. Então, não me olhe desse jeito, por favor.

–Ok. –ela revirou os olhos e fechou a porta do apartamento atrás de si. — Olha eu já estava de saída, então se pudermos conversar no seu apartamento, que fica mais próximo ao elevador, pra mim é melhor.

–Por mim, beleza. –eu disse. –Não pretendo tomar muito o seu tempo.

Quando ela entrou no meu AP e se sentou no sofá, eu relaxei um pouco. Ela não tinha me matado até aquele momento, então acho que não me mataria se eu contasse o motivo pelo qual a chamei ali.

–Tudo bem, Thalia. O negócio é o seguinte: eu estou apaixonado pela Annabeth. –eu disse tudo de uma vez.

A expressão no rosto dela foi algo indescritível. Eu acho que ela estava fazendo força para não sorrir. E mesmo que eu sentisse que ela queria possivelmente zombar de mim, eu me senti feliz por tê-la ali pra desabafar como fazíamos nos velhos tempos. O trabalho dela era árduo, e exigia que ela se concentrasse apenas nele. Nossos horários passaram a não bater mais e acabamos nos afastando.

Mas lá estava a minha velha amiga novamente. E agora, finalmente, ela estava rindo da minha cara.

–Ai ai... –ela sussurrou quando terminou de gargalhar. –Você às vezes não tem limites pra dar em cima de uma mulher. Sério, Percy? Querer inventar que está apaixonado por ela? Você nem ao menos a conhece direito!

–Eu sei, Thalia. Eu sei. –eu suspirei e passei as mãos nos meus cabelos. –Eu não sei por que me sinto assim, mas ela mexe comigo. Eu estou apaixonado, ou pelo menos eu acho, já que nunca me senti desse jeito.

–Percy, para de bobeira. Você não está apaixonado por ela. –Thalia balançou meus ombros para me chamar atenção. –Não adiantar inventar isso e tentar...

Eu segurei o rosto de Thalia nas mãos, interrompendo o discurso dela. Ela me olhou assustada como se tivesse medo de que eu fosse a beijar. Eu me limitei a olhava bem no fundo dos olhos e a proferir as palavras com o máximo de sinceridade que conseguia.

–Classifique o quê eu estou sentindo como quiser, Thalia. Mas quando digo que sinto algo por aquela loira maravilhosa, é porque sinto. –Eu soltei o rosto dela e continuei: — Você já me viu falar que ao menos gosto de alguma garota?

–Não, nunca. –ela respondeu.

–Isso porque eu nunca vi necessidade em fingir sentimentos somente para ficar com alguém. Eu gosto dela. Eu estou apaixonado por ela, daqueles tipos de paixão a primeira vista. Não quero apenas sexo. E eu nunca fui tão verdadeiro na minha vida — eu finalizei.

Thalia ficou me olhando como se estivesse procurando algum vestígio de mentira nas minhas palavras. Depois dos segundos de choque pelo o que eu falei, ela arregalou os olhos e cobriu a boca com as mãos.

–Deus do céu! –ela praticamente gritou. -Você está apaixonado mesmo. Dá pra ver isso nos seus olhos!

–Ah que droga. –eu murmurei. –O caso ficou tão sério que você nem ao menos acredita que eu estou mentindo. Eu estou doente, com alguma demência mental, só pode.

–Ah, Perseu. –Thalia se aproximou de mim e fez um carinho delicado no meu cabelo. –Isso não é doença. Isso é artimanha do coração e irônica do destino.

–Mas, Thalia, como eu posso estar apaixonado se eu...

–Percy, Percy –ela me chamou e interrompeu a minha fala. –Essas coisas acontecem sem que a gente queira e sem que a gente espere. Agora me diga o que posso fazer para te ajudar.

Eu contei todo o meu plano a ela. Disse que queria conhecer cada detalhe de Annabeth, todas as manias, todos os desejos, todos os sonhos. Thalia me ouvia com atenção, vez ou outra ela me olhava estranho, talvez estivesse assustada por depois de tanto tempo eu estar gostando de alguém.

Quando eu terminei de dizer todas essas coisas pra ela, ela me disse:

–Olha, Percy, eu adoraria ficar aqui para te dizer muitas coisas sobre ela. Mas tenho pouca paciência e tenho que trabalhar daqui a pouco. –Ela se levantou e foi andando até a porta. –Hoje a tarde, um pacote de compras que Annabeth fez na internet chegou. Ela comprou alguns livros e DVDs de séries que ela gosta. Como ela não estava em casa, pediu para que os pacotes fossem entregues no meu apartamento.

–E o que isso tem haver comigo? –perguntei, já que não estava entendendo nada.

–Céus, como você é lento! –Thalia revirou os olhos, abriu a porta do meu apartamento e me jogou um molho de chaves que eu peguei no ar. –Vá até a sala do meu apartamento, veja os nomes das coisas e pesquise sobre elas. Tente ver as séries que vê e ler os livros que ela lê. Se fizer isso, você poderá ter uma leve noção de como ela é. Além de adquirir coisas em comum que vocês gostem. –Ela piscou um olho pra mim e saiu.

Eu nem tive tempo de agradecer, já que ela saiu depressa. Mas eu tinha conseguido dar um passo importante para conquistar a única mulher de quem já gostei na vida. Fui até o meu quarto e peguei, nos confins do meu armário, um pequeno caderno que nunca usei. Arranjei uma caneta jogada no chão da minha sala também.

Sem esperar por mais nada, fui até o apartamento de Thalia.

Quando entrei lá, nem ao menos me preocupei em observar a decoração do lugar, meus olhos bateram logo nos pacotes de entrega que estavam ao lado do batente da porta. Abriu-os cuidadosamente, para que depois Thalia pudesse dar a desculpa de que eles apenas estavam abertos porque ela queria conferir se vieram os produtos certos.

Anotei o nome de todas as séries e livros que estavam ali. Sorri igual bobo a cada palavra que escrevia. Depois de ter tudo anotado, me levantei e sai tão ligeiro quanto entrei.

°°°°°

Fui à biblioteca do Brooklyn. Sim, a biblioteca. Descobri que os livros que Annabeth havia comprado eram clássicos. E quando fui à livraria ver os preços, eram tão caros que eu quase tive um infarto.

Se eu namorar essa mulher, será que terei que comprar livros para dar de presentes? Pelas cuecas de Netuno, eu iria ficar mais pobre do que já sou.

Então eu fui à biblioteca do bairro, porque já que se tratava de clássicos, talvez eu tivesse a sorte de encontrá-los ali. Eu entrei naquele local silencioso –provavelmente o único de todo o Brooklyn- e fui até a senhorinha que era a recepcionista.

–Olá, bom dia. –cumprimentei a mulher.

–O que você quer? –ela retrucou seca. Ela tinha os cabelos bem grisalhos e os óculos de grau estavam apoiados na ponta do nariz.

Resolvi ignorar a falta de educação alheia e prossegui em o meu pedido educadamente.

–Eu gostaria dos livros: Sonhos de uma noite de verão e Hamlet, de Shakespeare. De O homem de Frederick Niestzche e Os quatro amores de C.S Lewis.

A velha, que provavelmente devia ser aprendiz das fúrias do próprio Hades, se levantou e foi pegar os livros. Segundos depois ela voltou, com uma expressão daquelas que os policias usam pra fazer uma revista na pessoa.

–Você não vai roubar esses livros para depois vendê-los, não é? –ela me perguntou.

–Claro que não, senhora! – “sua velha caduca dos infernos, quem é você pra querer me intimidar com essa verruga parecendo um carrapato na sua testa?” eu completei mentalmente. Odeio quando as pessoas me tacham de delinqüente.

–Tudo bem. É que esses livros são edições novas. Custam uma fortuna. –ela sorriu mostrando os dentes amarelos e confirmando a minha ideia de que ela supostamente é uma múmia que foi possuída por um espírito maligno medieval que usava o corpo cadavérico para se vingar do mundo. –Perguntei só por precação.

Peguei os livros das mãos do ser e saí daquela merda.

Quando cheguei em casa, liguei o computador e comecei a ver uma das séries preferidas de Annabeth enquanto lia um dos livros. Comecei a ler o primeiro livro que agarrei. Era Hamlet de Shakespeare. Dei o play na série e ouvia o episódio enquanto lia o livro. E sim, eu consigo fazer os dois ao mesmo tempo, caso você esteja se perguntando. Derreta-se de inveja, pobre mortal.

A série que eu tinha colocado era Como eu conheci sua mãe. Depois de um tempo, a história se tornou tão interessante que eu deixei os escritos de Shakespeare de lado e prestei atenção somente no que via pela tela do computador. A história do personagem principal, Ted Mosby, era tão parecia com a minha que até me deixou emocionado.

Ele era um cara que sempre acreditou em amor verdadeiro e após os seus melhores amigos anunciarem que estavam noivos, Ted decide deixar a vida de mulherengo e procurar a mulher ideal pra casar. Na verdade toda a história é ele contando para os próprios filhos como foi a jornada para encontrar e conhecer a mãe deles, o que incluí como ele foi formando o seu caráter a partir dali.

Analisando a série, eu percebi que Annabeth talvez também acredite que se pode encontrar alguém ideal para se casar e ser feliz para o resto para vida. E eu descobri que ela gosta de filosofia também. E que os romances clássicos são o mais perto que ela chega de conhecer o amor, então talvez parecer com o Teseu de Sonhos de uma noite de verão possa ser boa ideia. Ou talvez apenas ser eu mesmo sirva. Descobri também que ela pode acreditar em uma divindade ou não, já que o Nietzche, um dos escritores dos livros, era um ateu convicto e o C.S Lewis fora um dos maiores religiosos do século passado. Ou talvez ela só absorva as melhores partes de se acreditar em algo maior que nos ou não. E eu sei que existem ambas as partes. De uma forma ou outra, eu acabei descobrindo algo sobre mim também.

Descobri que estava ficando cada vez mais apaixonado por ela.

°°°°°

Annabeth Chase

Eu estava digitando freneticamente no meu computador do escritório. Eu tinha conseguido uma matéria e estava a editando. O clima na editora estava calmo. Eu trabalho na edição do The New York Times, como cronista do jornal eletrônico, caso você tenha alguma dúvida de onde eu trabalho. E aquele era a edição do jornal. Eu nem sei como consegui um trabalho aqui, já que os meus rascunhos como escritora sempre eram rejeitados, mas parece que como jornalista eu dei certo.

E até que foi bom, já estava no terceiro ano da faculdade de jornalismo, um estagio numa empresa tão importante faria bem ao meu currículo.

Eu estava ali, bem no meu cantinho, tomando café. E por falar em tomar café, esse simples gesto sempre me faz lembrar do Jackson, o meu vizinho metido a pegador. Eu acho que ele está afim de mim, mas por algum motivo ele não tinha coragem de vir falar comigo. Todas as vezes que ele me via no corredor, perguntava se eu precisava de pó de café e começava a gaguejar. Ele até que era bonitinho e um fofo, pra falar a verdade. Mas o meu cérebro sempre entrava em alerta “perigo” quando eu pensava em dar uma chance pra ele caso ele quisesse. Era uma briga interna acirrada, contudo eu não me refreava na hora de olhá-lo e admirar a beleza dele.

–Olá, Annabeth. –disse alguém ao meu lado.

Eu acabei me assustando e derramei um pouco de café na minha blusa branca social. Eu limpei rapidamente o café dali e olhei para cima encarando dois olhos azuis.

–Oi, Luke. –eu o cumprimentei. –Você não pode ficar aparecendo como um fantasma assim. Quase me matou de susto!

Luke gargalhou e me empurrou um pouco na cadeira para se sentar ao meu lado. Ele era o filho do diretor do local e o pai ainda era de quebra, o financiador de jovens escritores e encaminhava vários para as editoras mais famosas de NY. Luke era meu amigo e era outro que também estava interessado em mim. Ele era um cara direito, com um futuro promissor e centrado, diferente do que o Jackson aparentava ser. Então, eu não o afastava, mas também não lhe dava falsas esperanças. Se rolar, rolou. Não é preciso forçar nada.

–Me desculpe por isso, Anna. –Luke se desculpou e ficou brincando com o meu boneco do Jack Sparrow em cima da mesa. –Sabe aquele encaminhamento que eu disse que iria fazer pra você?

–Aquele seu plano de dar o rascunho do meu livro para o seu pai? –eu perguntei incrédula.

–Esse mesmo. –Luke sorriu para mim. –Vou apresentar os escritos ao meu pai na semana que vem. E se tudo der certo o seu livro será publicado logo, loirinha.

–Ah, muito obrigada, Luke. –eu o abracei e sorri abertamente para ele. –Nem acredito que o meu sonho está tão perto de se realizar.

–Mas é claro que está! –Luke se levantou e ajeitou o terno. –Porém, agora eu preciso voltar ao trabalho senão meu pai me mata.

Ele se inclinou e me deu um beijo na bochecha e depois sussurrou no meu ouvido:

–Não pense que eu desisti daquele jantar que te propus na semana passada.

E sem nem esperar uma resposta sair dos meus lábios, Luke se fora. Ele havia me chamado para sair na semana passada, mas eu disse que estaria ocupada. Tudo bem que a minha ocupação era assistir os episódios da sétima temporada de The Big Bang Theory. De qualquer forma, eu acho que ele não iria desistir tão fácil assim do pedido.

Mas de uma hora para a outra os pensamentos sobre Luke foram embora. Isso porque eu olhei para o meu café em cima da mesa e me lembrei de Percy e aqueles olhos verdes mar. Ele me encantava sem nem mesmo dizer uma palavra. E todas as vezes que ele me oferecia um pouco de pó de café, eu desejava internamente que ele me chamasse pra sair.

Parei com a vagabundagem mental, bebi um pouco mais do meu café e terminei de escrever a minha matéria.

°°°°°

No final da tarde eu encontrei Percy no elevador do nosso prédio. Ele parecia não prestar atenção no mundo ao redor dele, já que estava concentrado no livro em suas mãos. Eu entrei do elevador e fiquei ao lado dele e o observei. Seus cabelos negros estavam como sempre bagunçados, a barba por fazer também se fazia presente, os olhos verdes percorriam as páginas do livro e suas sombracelhas grossas estavam franzidas, como se ele estivesse tentando entender as palavras contidas ali. Eu olhei a capa e via que se tratava de Hamlet, de Shakespeare. O engraçado é que eu havia encomendado esse mesmo livro para mim e ele havia chegado na tarde anterior. Eu já o li faz um tempo em um arquivo PDF, apenas encomendei para ter na minha coleção.

–A leitura está boa aí, Percy? –eu perguntei a ele.

Percy se assustou e quase deixou o livro cair, mas de última hora ele conseguiu pegá-lo no ar.

–A-Annabeth. –ele gaguejou o meu nome e logo depois abriu um daqueles lindos sorrisos dele. –Eu nem tinha visto você aí. Como vai?

–Vou bem, Percy – eu respondi e virei o livro nas mãos dele. –Você está lendo Hamlet, um dos meus livros favoritos. O que está achando?

–Acho um livro interessante. –ele me respondeu. –É uma história de terror meio louca, mas eu estou gostando.

Eu tive que segurar a minha vontade de rir. Ele ficava tão bonitinho animado falando sobre o livro, mas ele tinha cometido uma gafe imperdoável.

–Percy, Hamlet não é um livro de terror. –eu disse delicada. –É um livro de drama.

–Não é terror? –ele pareceu profundamente decepcionado com a sua interpretação do livro. –Mas ele ficava ouvindo o fantasma do pai e o velho ficava sussurrando para ele matar o tio.

–Eu sei. Mas ainda assim é um drama não terror.

As portas do elevador se abriram e fomos andando para os nossos apartamentos. Percy parecia envergonhado por achar Hamlet uma história de terror. Então eu decidi amenizar as coisas.

–Mas até que parece mesmo um livro de terror. A história é parecida com aquele filme... Premonição. É aquele filme é parecidíssimo com a história. –disse.

–Sério? Mas não me parece muito parecido não.

–Você tem problemas com spoilers?

–Acho que não.

–Então, é simples a semelhança. Todos morrem no final.

–Espera, todos? –os olhos dele estavam arregalados. –A mãe do Hamlet, a Ophelia, o Polônio, Laertes, Cláudio... Todo mundo?

–Todo mundo. –confirmei.

–Então é inútil eu ler um livro se todo mundo morre. –ele bufou, mas depois levantou uma das sombracelhas. –Se bem que eu vejo Game of Thrones e todo mundo morre também.

Eu gargalhei e ele sorriu também. Fora a nossa primeira conversa de verdade, sem ele ter me oferecido pó de café nem nada. E eu havia gostado de conversar com ele, além de ter ficado super feliz por ele gostar de algo que eu também gosto.

–Bem, foi bom conversar com você, Percy. –eu fiquei na ponta dos pés e dei um beijo no rosto dele. –Tchau, Percy.

–Tchau, Annabeth.

Dei um último aceno para ele antes de entrar no meu apartamento. Ele sorriu com os olhos brilhando e entrou também.

°°°°°

Naquela mesma noite, eu e Thalia estávamos dividindo uma pizza enquanto assistíamos os episódios de Como eu conheci sua mãe. Nós tínhamos nos tornado amigas nos três meses que eu estava morando ali. Quando um episodio terminou e eu ia colocar outro Thalia disse:

–Não sei que feitiço você jogou no Percy, mas ele está caidinho por você.

–Ah, Thalia. –eu suspirei. –Ele parece ser um cara legal, mas você mesma me disse que ele é apenas um pegador.

–Eu sei o quê eu disse. Porém o Percy é a pessoa mais verdadeira que conheci e ele me disse que está gostando de você. E se ele disse isso é porque é verdade.

Eu suspirei mais uma vez. Thalia e eu mudamos de assunto e engajamos em outra conversa. Quando ela foi ao banheiro eu fui até a janela da cozinha. Dali dava para ver a quadra de basquete do bairro. E todas as noites naquele mesmo horário, Percy estava lá dando aula para as crianças. Eu fiquei olhando ele com o apito na boca e apitando para que eles corressem entre os pneus colocados no chão. Ele sorria e fazia um High Five com todos os meninos e meninas que conseguiam terminar a corrida.

–Ele é professor de educação física. –Thalia disse ao meu lado. –Era o melhor na faculdade.

–Se ele é tão bom porque acabou dando aula pras crianças carentes do Brooklyn? –perguntei a ela.

–Porque Percy sabe o que é vir do nada e ter que evoluir a partir daí. Ele sempre repetia o discurso de que as crianças daqui precisam mais dele do que os mauricinhos de Cambridge, onde ele fora convidado para fazer um mestrado.

–Ele foi convidado para fazer um mestrado em Cambridge e não foi?

Thalia balançou a cabeça negando. E de repente a minha vontade de conhecer aquele homem bonito, quadruplicou.

–Thalia, eu vou lá conversar com ele. –disse decidida.

–Eu nem sei por que esperou tanto tempo. –Thalia revirou os olhos e sorriu me incentivando.

Eu nem mesmo esperei uma segunda sugestão. Saí de calça legging e regata verde clara, mesmo. E ia tropeçando nos meus chinelos. Apertei o botão no elevador e sorri esperançosa. Finalmente eu descobriria o que Percy Jackson esconde por trás da fama de pegador e daquele sorriso galante.

°°°°°

Quando cheguei à quadra, o treino tinha acabado de terminar. Percy estava guardando as bolas de basquete e futsal numa bolsa. Ele estava com bermuda larga, uma camiseta azul marinho e tênis de corrida. Às vezes parecia que Percy vivia no mundo da lua, já que ele quase nunca percebia a minha presença quando eu me aproximava.

Eu peguei uma das bolas de basquete do chão, uma que ele ainda não havia percebido, e atirei na cesta, fazendo um “chuá” perfeito. Percy pareceu finalmente me reparar ali. Ele olhou para a cesta e depois para mim, repetidas vezes. Ele sorriu e se aproximou da bola no chão e lançou para mim.

Eu sorriu de volta e comecei a quicar a bola no chão e ele veio para a minha frente tentar roubá-la.

–Eu nunca estou realmente preparado para as suas aparições. –ele disse enquanto suas mãos tentavam roubar a bola.

–Você deveria estar. Somos vizinhos, Percy. Vamos nos ver direto por aí. –eu vacilei e ele roubou a bola das minhas mãos.

–Estou me acostumando com isso também. –Percy jogou a bola do garrafão que bateu na tabela e depois entrou na cesta. –Já tinha jogado basquete antes?

–Eu jogava nas quadras de São Francisco. –respondi.

–Você é californiana? –ele arqueou as sombracelhas e prosseguiu: -Está explicado esse leve bronzeado na pele e a carinha de artista de Hollywood.

–Não força a barra, Percy. –eu o cortei. Eu sou mais branca do que o gasparzinho e com aquelas minhas olheiras, o único personagem com quem eu devo estar parecida é a noiva cadáver.

Ele piscou um olho pra mim e pegou a bola do chão, lançou para mim novamente e eu joguei-a em direção a cesta. Consegui uma cesta de três pontos, mas dessa vez a bola bateu na tabela e rodou no aro.

–Você é ótima nisso. –ele me disse. Depois ele coçou a cabeça parecendo um pouco envergonhado. –Eu devo ter parecido um babaca dizendo que Hamlet era um livro de terror.

–Não pareceu não. –menti. Ele pareceu um babaca mesmo, mas acho que essas coisas não se devem comentar.

–Eu me senti. –ele deu de ombros e ficou na minha frente olhando nos meus olhos. –Olha, eu não quero parecer um cara atirado, mas...

–Mas? –incentivei.

–Mas eu gostaria de saber se você quer sair comigo na sexta. –ele falou tudo de uma vez, atropelando as palavras. –Então, você quer?

–Vamos para casa, Percy. –disse, não respondendo a pergunta dele. — Já está tarde.

Percy fez uma carinha tão triste que chega deu pena. Eu sorri enquanto caminhava lentamente para fora da quadra. Não queria dar o fora nele e nem mesmo tinha respondido a pergunta. Ele pegou a bolsa que continha as bolas e carregou-a com uma alça repousada no ombro.

Ele pareceu se recuperar do choque e conversou sobre várias cosias comigo enquanto caminhávamos até o prédio. Os olhos dele estavam um pouco triste, mas ele conversava normalmente comigo. Eu acabei descobrindo que ele também gostava de assistir Como eu conheci sua mãe e indiquei The Big Bang Theory pra ele ver. Ele disse que veria.

Enquanto estávamos no elevador ele perguntou quais tipos de música que eu gostava. Eu falei o nome de alguns cantores e ele disse que gostava de Hip Hop. Fazia bem a cara dele. Quando eu estava abrindo a porta do meu apartamento, me virei para Percy e disse:

–Aceito.

–O-o quê? –ele pareceu confuso. –Aceita o quê, Annabeth?

–Aceito sair na sexta com você. –eu respondi.

Ele ficou me encarando de boca aberta, por um segundo eu jurei que ele fosse desmaiar. Mas ele se limitou apenas a sorrir e acenar concordando.

–Então, na sexta, às oito, eu venho te buscar aqui. –ele falou.

–Tudo bem. –eu disse e ele se inclinou e me deu um beijo na bochecha, o que ocasionou em cócegas feita pela sua barba curta. –Tchau, Percy.

–Tchau, Annabeth.

Quando já estava fechando a porta do apartamento, eu sussurrei para ele:

–Te vejo amanhã.

Eu pensei que ele não iria ouvir, mas depois de uns segundos eu ouvi a voz grave e suave dele retrucar:

–Te vejo amanhã.

Entrei no meu apartamento e encontrei Thalia dormindo no sofá enquanto a TV ainda estava ligada. Eu me sentei ao lado dela e me enrosquei no cobertor que estava ali. Não me lembro em que momento dormi, mas me lembro que dormi com um sorriso no rosto.

Notas finais
Lembrem-se que a hora de favoritar, recomendar e comentar é agora! rs Me digam se estão gostando da história e se vale a pena continuar. Fiquei tanto tempo sem escrevê-la que nem sei mais se devo continua-lá, apesar de amar-lá de todo o coração. Comentem aqui em baixo e deem sugestões, digam o que acharam do capítulo e me corrijam se acharem algum erro na escrita. Valeu? Falou. Até semana que vem =D