Te Resta Pular
2 Quando toda a dor voltar
O relógio despertador da mesinha de cabeceira começou com aquele som irritante e ela socou-o até ele se calar. A dor já se esvaia. Aos poucos seus órgãos paravam de queimar e ela conseguia voltar a respirar. Era sempre assim. A dor vinha do nada. A dor ia do nada. E quando tudo ia bem... A dor voltava.
Pensou que talvez devesse se levantar, caso contrário se atrasaria para a aula. Ao inferno com a escola. Deu as costas para o relógio e fechou os olhos com força. Venha novamente, sonho bom, venha novamente.
Não houve tempo o suficiente, os pensamentos passavam com pressa até encontrar o rosto desejado, mas o celular atrapalhou tudo. Não olhou a tela, não enxergou o número, não sorriu para o nome, apenas levou-o a orelha e suspirou.
– Estou na frente da porta, seria bom se não fizesse com que nós nos atrasemos.
Ele sorria do outro lado da linha. Era fácil saber quando sorria. Difícil era saber quando não sorria. Ela desligou e suspirou novamente. Ao inferno com o horário. Ao inferno com você. Sorriu. Para qualquer lugar com você. Não viu seus passos, mas soube rápido o que fazia. Arremessou o pijama para o outro lado do quarto e colocou qualquer roupa que encontrara pela frente, escovou os dentes e acendeu um cigarro, só para ironizar. Quando alcançou a porta ficou cega, por alguns segundos, pela luz do sol.
Ele sorria. Difícil quando não sorria. Sorria tanto que seu sorriso não era a melhor coisa do mundo. Seu não sorriso era.
– Se continuar a fumar assim você não dura até a formatura.
Hipócrita. Puxou o cigarro de suas mãos e tragou.
– Vamos, estamos atrasados. De novo.
– Não sei por que o tom de surpresa.
Ela arqueou uma sobrancelha e ele crispou os lábios. Katherine não faria o mínimo esforço para andar mais rápido, onde estava a novidade? Josh puxou-a.
– Eu gostaria de assistir a primeira aula.
Comentou para não perder o costume.
– E quando você não quer?
Josh riu e puxou-a pela mão fazendo-a correr. O cigarro ficara perdido no meio fio de alguma rua paralela.
Coçou o braço esquerdo por cima do casaco assim que pisou no corredor da escola, rostos desconhecidos passando rápido enquanto Josh a puxava em direção à sala dois. A classe se silenciou, a dor invadiu. Os rostos penosos, os olhos chorosos... E a dor. Dois passos para trás. Alguém gritou. Tinha sangue. Ela correu.
– Katherine.
Não houve tempo. Não houve reação. Só havia dor.
Os soluços escapavam por seus lábios semicerrados, alguém a chamou da porta do banheiro. Tentou se calar. A dor gritou. Annabeth escancarou a porta, a pena em seu rosto era evidente.
– Saia daqui, saia daqui.
Pena era a última coisa que Katherine queria que sentissem por ela... Agora mais do que nunca. Chutou a porta, Annabeth era mais forte. Ultimamente todos eram mais fortes. Sentiu os braços a envolverem carinhosos. Cuidadosos. Mas havia pena ainda. Estremeceu. Chorou. Desabou.
– Não é minha culpa. Não é minha culpa.
Ouviu Annabeth soluçar.
– Não é minha culpa.
Não estava pronta para aquele lugar. Para lugar nenhum. Empurrou Annabeth.
– NÃO É MINHA CULPA.
Gritou. Correu. Fugiu. Mesmo que não soubesse para onde ia. Apenas correu. Correu das lembranças, correu das imagens... Correu do sangue... Correu da morte. Correu da culpa.
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