Te Resta Pular
3 Culpa
– E o que você vê?
Katherine apertou os olhos e estremeceu.
– É uma sala escura, pouco dá para ver... Mas tem alguém chorando.
Trevor escrevia rápido sem tirar os olhos do rosto pálido da menina.
– E você consegue ver quem é?
Katherine balançou a cabeça negativamente. Trevor apertou os lábios.
– Continue andando.
– Tem uma janela... Mas está escuro lá fora.
– Concentre-se no choro, Katherine.
– Vem de um corredor. Tem uma porta no fim do corredor... A luz está acesa, mas a porta está fechada... Tentei abrir... Ela não cedeu.
Suas mãos se fecharam fortes nos braços da poltrona. Trevor abriu a boca.
– O choro parou.
O homem parou.
– Não tem mais som nenhum vindo do quarto. Consegui abrir a porta.
Katherine apertou mais os olhos, Trevor voltou a abrir a boca.
– Tem... Tem sangue por todo o lado... E a luz é forte, queima meus olhos. Tem alguns remédios caídos no chão e...
Katherine começou a chorar, um soluço escapou-lhe pelos lábios. Trevor a chamou.
– Ele está pendurado... Tem vigas de madeira no teto e tem uma... Tem uma corda.
Ela tentava conciliar as coisas entre os soluços, os olhos apertados quase que para não ver o que se passava em sua mente. Novamente ele a chamou, mas ela sacudiu a cabeça.
– Ele está longe do chão... Ele não está respirando... Ele não está respirando...
– Katherine.
Ele chamou, um pouco mais alto, e tocou a mão da menina. Katherine abriu os olhos, os soluços cessaram, Trevor sorriu reconfortante.
– Não é minha culpa.
– Não é tua culpa.
– Ele não estava bem... Ele precisava de ajuda... Mas ninguém o ajudou.
– Não é tua culpa, Katherine.
– Mas eu o vi pedir ajuda... Eu o vi ser ignorado...
– Katherine.
– Eu o segui até lá naquela noite.
Trevor parou.
– Eu entrei na casa depois dele, eu segui o sangue até o banheiro e depois até o quarto.
Trevor estremeceu.
– Eu o vi preparar a corda... EU O VI PULAR.
Katherine agarrou os joelhos e escondeu o rosto. Trevor desligou o gravador que estava em cima da mesa de vidro que separava a menina em crise e o psicólogo inútil. Ela havia contado tudo, pela primeira vez em quatro meses ela havia contado exatamente o que acontecera naquela noite.
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