Te Estranho
1 Capítulo 1 - O despertar.
Notas iniciais
Acordei numa sala branca, gelada e quase sem vida. O sol tentava entrar pela janela com grossas cortinas, eu estava deitada numa maca com muitos fios ligados no meu corpo semi coberto por um lençol, o silêncio era quase absoluto quebrado somente pelo barulho daquele monte de máquinas monitoras. Imóvel e quase não conseguindo me mexer, esforçando-me pra achar algo familiar naquele quarto, mas nem eu o era, sem agüentar mais adormeci novamente.
-Sofia, pode me ouvir? – perguntaram. Comecei ouvir lá de longe e foi ficando cada vez mais perto até que abri os olhos.
– Olá Sofia, como se sente? — Perguntou alguém de jaleco branco que deduzi ser um médico, lia-se Sergio em seu peito.
Não conseguia responder, não conseguia me mexer, parecia que tudo doía, como se um rolo compressor tivesse passado pelo meu corpo. Não!Não estava paraplégica ou tetraplégica, sentia como se meu corpo tivesse algumas partes adormecidas, outras formigavam e outras doíam mesmo. Minha boca estava seca, como desejei água naquele momento.
-Sofia você lembra o que aconteceu?- perguntou Sergio, o medico – Se não pisque uma vez e se sim pisque duas vezes, está bem? — Pisquei duas vezes pra informar que havia entendido sua explicação só não sabia como lhe informar que eu não sabia quem era Sofia. Na realidade não sabia quem era eu.
O médico me explicou que eu sofrera um trauma grave e estava internada a seis semanas, ficara em coma por duas delas e de acordo com o andamento da minha recuperação sairia do hospital em breve. Isso me dava certo medo porque não sabia aonde iria, quem me esperava lá fora, o que me esperava e será que existe alguém me esperando?
O médico me falou por quase uma hora, mas não conseguia me concentrar muito no que dizia, falava algo de recuperação, exames, fisioterapias e tratamentos. E só despertei quando mencionou a palavra visitas.
“Quem será?”pensei “ E se eu não me lembrar?Ficará chateado?” Eu não queria magoar ninguém mas não conseguia explicar o que me acontecia.
Entrou na sala um rapaz aparentando uns vinte e cinco anos, magro, olhos escuros, cabelos pretos quase cinzas ou sujos, rosto pálido e fisionomia triste.
-Oi Sofia. -falava pausadamente- O médico me disse q você ainda não lembra de algumas coisa...então...e...quero dizer...a Dani e o Julinho estão com saudades de você...seus amigos sempre ligam pra saber de você...vão ficar felizes com a sua melhora...eu também estou feliz, você parece melhor...- e continuava o rapaz triste dizendo coisas nas quais eu não entendia, eu buscava em minha memória mas não havia nada era como um livro vazio, assustei me.
-Sofia. — chamou o rapaz- Você se lembra de mim não é? Beto, seu irmão.
Pisquei lhe uma vez.
\\°°°°/
O tempo até que passou rápido naquelas semanas. Na primeira semana fiz muita fisioterapia e exercícios. Já na primeira semana consegui sentar e ficar em pé com ajuda é claro, mas só na segunda semana que consegui falar algo. Conheci por fim minha voz, nada mal pra uma ex mudinha.
Um dia com muito esforço fui até o banheiro sozinha, quase me arrastando com o auxílio de um andador, bem devagar, abri a porta e com cuidado segurei no lavabo, liguei a luz e vi o que tanto queria-“Eu”. Com cuidado e curiosidade, caucasiana como dizem, com o rosto redondo, olhos pequenos, nariz bem feito e levemente arrebitado, uma boca em formato de coração e bochechas rosadas, meu curto cabelo era castanho- “Prazer Sofia”- pensei. Tentei esboçar um sorriso só que saiu sem graça, desisti. Fiquei contemplando meu rosto por um tempo e fui com os passos lentos deitar-me novamente.
Meu último dia no hospital Maria Helena chegara ao fim. O Dr. Sergio veio ao meu encontro.
-Olá Sofia, como se sente hoje?- sua pergunta habitual.
-Bem, doutor. -respondi.
Hoje você vai pra casa. Você sabe?-perguntou Doutor
- Sim, eu sei. – respondi
- Mas você lembra algo dela?- Não... Acho que não. — Tudo bem é normal, no que aconteceu a você ter uma temporária perda de memória é bem comum. Mas com o contato com as coisas conhecidas, familiares e rotineiras você vai ver, tudo volta a sua cabecinha.- disse o Dr. Com o dedo encostado na minha cabeça e um leve sorriso no rosto. Retribui o sorriso.
-Bem, os tratamentos que fazes aqui continuarão e não falte porque são muito importantes nesta hora. Seu irmão Roberto chegará em breve pra levar você pra casa e tudo ficará bem.
Deu-me um aperto de mão e disse — Boa sorte Sofia e qualquer coisa estarei bem aqui. Despediu se.
Meu irmão vinha do fim do corredor com uma jovem e um menino pequeno. O casal sorriu pra mim numa mistura de constrangimento e felicidade. Sentaram se ao meu lado, um de cada lado, como se quisessem me proteger.
-Sofia, nos vamos te ajudar a voltar à vida normal. Já consultamos um psicólogo que nos orientou como proceder nestes casos. Ele é muito bom, o Dr. Augusto. Ele também vai orientar você, vai gostar. — sorriu o preocupado rapaz.
-Tudo bem. – foi só o que respondi.
O carro parou em frente a uma casa laranja com portas cerejeiras. O portão era branco como as janelas. Pequena, simples, mas me pareceu aconchegante. Beto abriu a porta e nos fez entrar.
- Eu limpei tudo- disse a linda moça- Mas não tirei nada do lugar, foi o que o Dr. Augusto nos disse.
– O Dr. Augusto disse que tudo deveria ser como antes de você...antes de você esquecer. Diz q iria ajudar você a recuperar a memória por isso q estamos aqui. Aqui é a sua casa.- completou Beto
“Minha casa” pensei. Comecei a olhar tudo, mas pra mim era tudo novo. Fotos, enfeites, CDs, moveis, não conseguia me lembrar de nada daquilo. -Não lembro- disse tristemente decepcionada.
- Tudo bem, isso leva tempo. Disse o Dr. Augusto — disse Beto.
-É, e eu gravei uns slides de fotos pra ajudar. Gravei naquele cd em cima da televisão – disse Dani apontando na direção do rack.
-Obrigada – respondi. Fiquei feliz naquele instante por saber que não estava sozinha.
Escutou-se um barulho de algo quebrando vindo da cozinha.
-J-u-l-i-n-h-o !!!! –gritou Dani, e em seguida saiu correndo.
-Pois é, este é teu sobrinho. -brincou Beto e pela primeira vez o vi sorrir, feliz.
/°°°°\\
A noite chegou sem percebermos. Ficamos a tarde toda vendo as fotos que Dani tinha preparado. Beto me nombrava todos os presentes nelas, mas eu não conseguia lembrar.
Beto parou o slide na foto de uma senhora de pele amarelada, parecia pálida, lábios finos, olhos redondos, cabelos curtos com mescla de loiro e grisalho. Então perguntou me:
-Lembra dela Sofia?
Olhei atenta, forçando a memória. “Deve ser alguém importante” pensei.
-Infelizmente não Beto, quem é? – perguntei triste.
-É a mamãe. – disse ele mencionando a palavra mamãe quase sem voz, contendo a tristeza.
-Minha mãe. – disse em voz alta. Pois é minha mãe, não se parecia nada comigo, mas muito com o Beto. Ela sorria na foto, parecia feliz. Cheguei bem perto da televisão e observei cada detalhe, buscando lá dentro da mente....mamãe, mamãe,mamãe, mas nada me vinha, nada.
- Cadê a mamãe Beto? – perguntei.
Ele me olhou bem nos olhos e os seus começaram a se encher de água e com um nó na garganta me respondeu:
- Ela morreu...
No momento estávamos só nós dois na sala. Dani ficou o tempo todo correndo atrás de Julinho.
Sem querer fixei meu olhar na televisão, na foto de minha mãe e não agüentei, desabei a chorar, não sabia explicar o porquê, mas isso me doía no peito. Por que não me lembro dela? A pessoa mais importante da minha vida, da vida de qualquer pessoa e ela se foi e eu sequer me lembro dela. Isso era cruel. Eu queria me lembrar de você mamãe.
Beto levantou-se e novamente me compreendeu sem eu dizer uma palavra sequer.
- Não se preocupe você vai lembrar-se dela. E apesar de não lembrar, sei que sente muito sua falta. Você a amava muito. –disse Beto abraçando-me carinhosamente.
Após eu parar de chorar e conversar mos mais um pouco, Dani apareceu.
-E ai pessoal, alguém está com fome? O jantar está na mesa. – avisou ela.
- Obá! – exclamou Beto – Já que perguntou estou faminto. Vamos lá Sofia, você vai redescobrir como minha querida esposa cozinha muito bem – disse me Beto.
- Vamos lá então – respondi me levantando e indo atrás de Beto na cozinha.
O jantar realmente estava divino, bem que qualquer coisa seria divina diante da comida do hospital que eu comera nos últimos dias.
Beto, Dani e Julinho se despediram com muitos beijos, abraços e muitas recomendações.
- A geladeira está cheia, a despesa também. Os telefones de todos nós, do Dr.Sérgio, do hospital, bombeiro, polícia estão colados na geladeira, qualquer coisa me liga no celular ou no trabalho, tá. – dizia a metralhadora Beto.
-Tudo bem, Beto- respondi rindo, era engraçado.
-Amanhã depois das seis vou dar uma passada aqui pra ver como você está ok. E se cuida. — continuava Beto.
-Tá bom, ela entendeu, agora vamos, tchau Sofia. – disse Dani- Diz tchau pra tia Sofia Julinho.
-Sau...disse Julinho.
-Tchau anjinho, tchau Dani e tchau Beto e até amanhã – me despedi.
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