Tanzaku

4 A terceira noite


Notas iniciais
Kalhens: Me perdoem pela demora, degustem o cap 98% Konan~

O choro da criança desconhecida deixava-o desnorteado. Abrindo os olhos confusos vagarosamente, Allen fora se adaptando ao ambiente que lhe era proporcionado. Escuro, vazio, úmido... Estranho. “Indefinido” parecia, ironicamente, a definição perfeita.


Mais do que doloroso, o amaldiçoado poderia classificá-lo como martirizador. O dono das lágrimas sofríveis dizia por meio dos sons desesperadores, acompanhados de soluços e súplicas incompreensíveis, que precisava se abrigo. De apego. De... Amor.


E ele não conseguia mais tentar ser indiferente. Queria, sim, ajudá-lo. Abraçar seu corpinho frio, fazer-lhe um carinho nos cabelos desajeitados e prometer, com um sorriso doce em meio as lágrimas sinceras que o acompanhariam, que ele não estava mais só. Que estavam juntos. Andando pela neve como novos pierrôs felizes.


Ao lado do túmulo de Mana Walker, Allen Walker estava.


Mas não sua versão de agora e sim, quando menor. Com o olhar desolado e sem futuro, os cabelos ainda castanhos bagunçados pelo vento frio. Observando-se, não pode deixar de esboçar um sorriso triste, acompanhado pelos olhos entregues à melancolia.


Aproximou-se passo a passo daquela figura banhada em piedade, abaixando-se enquanto via os traços que um dia foram seus. E então, sentindo-se aconchegado na cena conhecida, a idéia do que viria a seguir o surpreendeu.


Justamente por ter desencadeado uma sequência nova, abusiva, das memórias doces que carregava.


Atrás do pequeno Allen, surgia um ensanguentado Pierrô risonho pelas sombras dançantes. Com a maquiagem borrada e roupas largadas, modificava o cenário ao redor conforme sorria rasgando a própria pele fina. Irreal. Os braços deram passagem ao som dos berros agonizantes que se seguiu numa melodia desesperadora.


Berros conhecidos. Da Ordem Negra.


Amarrados, caídos, jogados, os corpos estavam. Ao som de uma grande caixa, onde a bailarina branca bailava em passos falsos. Seus olhos opacos encaravam Walker que, aturdido, não conseguia fazer nada além do que segurar as cordas vermelhas que cercavam a chorosa Lenalee.


Uma das poucas pessoas ainda vivas.


Ao longe, suspendidos por ganchos que rasgavam-lhe a pele, estavam empilhados alguns homens da Divisão de Ciências. Uns berravam em súplica, outros conversavam com Deus. Mas a verdade era que nenhum deles acreditava na salvação.


E, ao meio aos corpos caídos, arregalou os olhos em desespero.

A cabeça decomposta de Yuu Kanda proporcionava a visão mais aterrorizante até então.


Era o fim de suas esperanças quebradas.

Piscou.

... Certo. O que acontecera, afinal?


A luminosidade invadiu suas retinas, junto ao calor dos raios solares. Sozinhos, com parte da sala de alimentação destruída, os pedaços restantes das antigas cadeiras e mesas mesclavam-se ao grande... Buraco na parede que dava para a rua.


Kanda o encarou especialmente furioso. Segurando seu abdômen machucado a fim de estancar um possível ferimento, ou ao menos impedir que mais sangue sujasse o chão precário, deu-lhe um soco violento. Allen caiu confuso e o outro, subiu encima de si.


Com a mugen pressionando sua goela, aliás.

– ... K-ka-nnd-a... – Ao menos tentou falar, afinal. Não que tenha dado muito certo.


– Moyashi... Se me atrapalhar novamente... Te parto em três. – Para surpresa de Walker, ele não berrara. Mas ainda conseguiu ser mais assustador do que se o tivesse feito.


Com a voz sussurrante rouca, parecia escorrer um ódio insano de suas palavras. E pela força que aplicava na espada, pela primeira vez, Allen sentiu um medo real de que ele cumprisse seus dizeres.


Porém, não tinha tempo para pensar nisso. Ou melhor, cabeça. Estava tonto e perdido, além de terrivelmente enjoado, mas ver que nada daquilo acontecera o fez agir inconscientemente.


Sorrindo.


Se pudesse teria até agradecido por ter voltado à realidade mas, mais uma vez, Kanda não o deixou fazer nada. Outro soco. Seguido de tapas, empurrões, murros e xingamentos. É, ele deveria estar mesmo irritado.

Por reflexo começou a tentar se livrar do ataque de pelanca dele, devolvendo todos os gestos agressivos que recebia, mas claramente mais fracos. Urgh... O enjoou só piorava, junto das imagens que pairavam em sua mente.


O sentimento de inutilidade abraçava-lhe com força, sorrindo para si. Como se não houvesse escapatória.


E então, erguendo a perna, deu seu último golpe em Kanda. Uma joelhada. Depois do ousado ato, sentiu-se tonto novamente. Uma onda quente, estranha, subia-lhe pela garganta seca.


Vergonhosa, desfez-se pela boca de Allen, que até tentou controlar, mas o fluxo fora forte demais para si. E, sem nenhum aviso, acabou por libertá-la.


– VOCÊ VOMITOU EM MIM MOYASHI!

Pronto. Já era, iria morrer.


Kanda se levantou enjoado, expressando o quanto o cheiro o provocava ânsias. Relataria ao Komui, culpando-o pela idiotice que fez ao deixá-los juntos numa maldita missão. E, chutando o corpo albino com toda sua frustração pelo ocorrido, deixou o recinto bufando.


Não por Walker ter sido controlado como um boneco. Nem por terem perdido a chance de exterminarem o Willian, ou evitado o sequestro de Mika. Afinal, quem liga para Mika?


E sim porque, cada vez que estavam juntos, novos desastres aconteciam. Sempre fora assim. Como se ele e Allen não pudessem, jamais, estarem no mesmo lugar sem que algo desagradável decorre-se.


Desprezível.


Já Walker, largado no chão, se virou a fim de encontrar apoio. O cheiro de sangue e luta preencheu suas narinas, fazendo com que os olhos se enchessem de algo quente. Ele não ajudara em nada, certo? Ficou... Perdido naqueles berros. E esqueceu-se de seu dever como exorcista.


Trazer a salvação para as almas dos Akumas...

... Como poderia salvá-lo se não conseguia nem se levantar?


Mika fora levada. Willian continuaria buscando pela innocence. E se ele a encontrasse? Se a destruísse? Se continuasse matando mais e mais pessoas? Se... Se todos no QG, sua nova casa e família, soubessem que haviam falhado na missão por não ter agido quando fora preciso? Até Kanda se machucou. E ele, conseguiu nada mais do que chorar.


Exatamente como fazia agora.

Não vou parar Mana.


Esforçou-se para levantar, mantendo a cabeça baixa como sinônimo de vergonha. Forçando as pernas trêmulas, esgueirando-se e precisando das paredes para se movimentar, foi chorando enquanto andava em direção ao quarto. Seria julgado por Kanda se entrasse, mas seria julgado por si se continuasse estagnado.


Venceria Willian. Voltaria para a Ordem Negra e ofereceria sorridente sua vitória a Hevlaska.


Mais do que isso. Traria paz para a alma atormentada que viu presa pelas correntes cruéis do Conde, fadada a obedecê-lo. Caminhando arrastado pelo corredor, firmou essa certeza com toda sua vontade.


Os olhos confusos correram pela figura instigante que se despia a alguns passos de distância.


Allen ainda não conseguia ainda focar sua atenção em um ponto, mas também não deixava de encarar a bela vista que descobriu ao acaso, apenas por ter aberto a porta. Kanda retirou o colete vomitado, exibindo o abdômen mais definido do que pensara que ele teria.


Seus músculos marcados exerciam os movimentos desejados, mas coloriam o corpo do homem com sombras e formas... Tentadoras. Suas mãos, de certa forma, coçaram para prová-las. Seriam reais como pareciam? Firmes?


Allen entrou cambaleante e fechou a porta atrás de si, escorando-se novamente na parede ao lado. Mesmo que não fosse admitir, estava sim observando o show particular sem o mínimo respeito ou pudor.


Vendo-o terminar de retirar os sapatos sujos e se levantar, Allen impulsionou o corpo para frente de uma única vez, ainda meio tonto, no momento em que ele passava próximo de si.


Sua mão, agora, prendia o pulso de Kanda.


E em puro reflexo, o japonês empurrou-o, fazendo com que chocasse contra seu antigo apoio, a parede. Mas o uso da violência extrema e desnecessária fez Allen fechar os olhos e partir seus lábios em um gemido involuntário de desconforto, se projetando centímetros a frente. Para mais perto do tronco desnudo dele.


– D-desculpe... – Caso estivesse normal, jamais pediria desculpas ao mais velho por causa de um simples vômito. O problema era que, de fato, não estava... Bem.


A maior prova disso foi ter arregalado os olhos surpresos ao sentir o punho de Kanda acertar a parede ao lado de sua cabeça.

Não por ter ficado sem reação e sim, por ter reparado a garganta secar. Ele se aproximara mais de si, afinal.


E estava emanando a testosterona que envolvia o albino numa nova sensação. Calor.


Seu corpo respondia ao de Kanda, começando a alterar sua respiração aos poucos. As pupilas dilatando e lábios róseos pareciam convidativos, acompanhados do pouco rubor em suas bochechas claras.


– Não peça desculpas pela incompetência! Ela não trará a innocence as nossas mãos.


Sabia o que ele dizia com isso. “Não deseje por perdão, resolva o que errou.” Ou melhor, saberia.


Confessaria que não ouvira palavra alguma além de mãos, mas seus dedos gelados acabaram agindo antes de qualquer resposta que poderia dar. Subiu o braço descansado do japonês com delicadeza, tendo seus olhos ocupados em contornarem os lábios finos dele.


E diferente da mão ansiosa que vagava pelos traços abdominais de Kanda, encostou os lábios secos com tranquilidade aos seus.


Ainda não conseguia pensar com coerência ou dizer o que diabos estava fazendo, mas pode sentir a língua do japonês, violenta, o fazendo suspirar em desejo ao início de uma entrega inconsciente.


E talvez, indesejada.


Kanda partiu o contato se sentido perdido, enquanto os braços de Allen circulavam seu pescoço. Os olhos do amaldiçoado demonstravam uma entrega que não deveria estar ali e, concluindo o óbvio, acabou pensando que ainda seria efeito dos dotes de Willian.


Seria aquele akuma poderoso o suficiente para aturdir os sentimentos de um exorcista? Mas eles não foram afetados, seguindo pelas anotações que a Divisão de Ciência tinha...


O que estava acontecendo com o Moyashi, então?


Allen acomodou a própria cabeça em seu ombro, relaxando. Sentiu-se tenso repentinamente.


Poderia ter carregado o corpo quase desmaiado até a cama com delicadeza, compreensivo e amável. Poderia afagar-lhe os fios sem cor e prometer que tudo terminaria como deveria. Mas tinha um problema ali.

Ele era Kanda.


Afastou-se rápido, exigindo que o idiota voltasse a dominar suas faculdades mentais, deixando claro que ele não tinha nada a ver com essas confusões todas. O sacudiu com força, esperando alguma reação. Era o mais próximo que se aproximara de “Ooooooooi Allen? Acorda imbecil! Olha só o que está fazendo!”


Mas como o mesmo tentou grudar em si novamente, largou-o com a leveza que lhe era característica, caminhando a passos fundos até o banheiro. Fazendo o favor de trancar muito bem a porta.


– Tsc. Se deixando controlar tão fácil. É um imbecil mesmo.


Allen, por sua vez, escorregou até o chão. Sua mente turva não lhe dizia o que havia feito e sim, o que deixou de fazer. Os pedidos de salvação voltaram a assombrar seus pensamentos, mesclados ao gosto azedo dos lábios do japonês. Seria desprezo, talvez? Abraçou-se, sentindo frio.


Ele... Iria caminhar, sim. Mas antes, antes, quem sabe, fosse melhor dar uma descansada... Nee, Mana?


Quando Kanda saiu do banheiro estava devidamente vestido para evitar ataques surpresa sem sentido. Até mesmo os cabelos molhados estavam presos em um rabo de cavalo alto, decidido por não deixar margem alguma para os delírios do afetado.


Afetado este que se encontrava atirado no chão, dormindo, como se o mundo estivesse na mais perfeita ordem.


Tsc. Era um pirralho mesmo.


Segurando a mugen como se a usasse para apoio, saiu do quarto. Desceu as escadas velhas, observando o quanto o hall parecia abandonado na ausência daquela lá. É, talvez ela fosse importante. Para, sei lá, preencher os aposentos de madeira com sua determinação e alegria.


Pensamentos desnecessários, huh? Mortes eram comuns.


Com passos rígidos, alertas, fora caminhando em direção ao telefone público mais próximo. Ou seja, do outro lado da rua. Não estava em perfeitas condições, mas até que a cabine parecia firme. Entrando e discando a linha segura, pensava se a Ordem continuava como era.


E pela demora que o atenderam, sim, o quartel continuava exatamente como sempre.


– Moshi Moshiii! – Certo. Podia imaginá-lo feliz por ter atendido o telefonema, aproveitando a possível distração de Reever para desenhar.

– Komui.

– Oh, Kanda-kuuun! – Ok. Insira corações apaixonados aqui.

– Preste atenção, só falarei uma vez. Pelo que parece, tem uma innocence aqui. Enfrentamos o akuma denominado Willian, nível2, que controlou a mente do Moyashi e o fez de boneco. Ele acabou fugindo levando uma refém consigo, mas deixou a pista de que a noite, perto do comércio, fenômenos estranhos aconteciam. Irei verificar.

– Ohh! Quanta informação, Kanda! E o Allen-kun, como está?

–Tsc. – Virou a cara.


Komui sorriu.


– Ora, Kanda... Tenha paciência, sim? É vital que companheiros consigam lutar para o bem de todos! – Ele poderia apostar que enxergava a determinação de ferro do Supervisor, com o tal chorando e apertando o punho repleto de esperança, numa vã tentativa de encorajá-lo a continuar.

– Komui! Eu não suporto ele!

– Hmm. Certo, ahaam. Claro, claro. Estou anotando, por favor, prossiga. Oh, nooo. Como aconteceu? Sei. Sim, sim. Nossa! Oh, nooossa! Certo. Estarei avaliando seus dados. Logo entraremos em contato.


Bufou. Komui vagabundo.


Bateu o telefone no gancho, pensando no quanto a voz dele poderia ser irritante. E então, voltando a andar pelas ruas praticamente vazias, os pensamentos tomaram outro rumo.


Allen.

O beijo.

E a sensação que o dominou.


Na Ordem Negra, porém, uma reclamação murcha e cheia de sentimentos partidos preencheu a sala. Era Komui.


– Reeeveeeer! Ele desligou na minha cara, na minha cara! Kanda-kun é tão malvado... Como vou saber de Allen-kun agora?!


Jhonny pôs uma pilha de documentos na frente do Supervisor, pedindo-o que assinasse. Atrás dele veio o Encarregado, mandando-o trabalhar. Ele exigia que fosse cuidar do que lhe dizia respeito, em vez de usar os exorcistas como desculpa, mas Komui nada fazia além de dizer que eram todos muito cruéis consigo. Acompanhado do característico bico inconformado.


Mas não pode deixar de suspirar aliviado. Apesar dos pesares e ameaças de morte, Allen e Kanda faziam uma boa dupla. Sorriu, lembrando-se das discussões ilógicas a qual eles se entregavam todas as vezes. Doces crianças...


– Não fique assim, Supervisor! Yuu cuidará muito bem do Moyashi. – Anunciou Lavi, assustando a todos na sala. O Bookman Jr jamais largaria a mania de aparecer do nada nos lugares.


O que ninguém viu, mesmo ralhando com o ruivo pela atitude, fora o repuxar de lábios malicioso que ele dera. Cuidará muito bem... Tenho certeza disso.



De volta a cidade pacata, Willian oferecia seu sorriso a senhora que conversava. Ela lhe contava sobre uma garotinha, muito próxima de sua funcionária de nome Mika, que às vezes chamava pela mesma. Como irmãs, sempre estiveram juntas. E mais que isso... A garotinha salvara Mika com um estranho poder de uns ladrões.


Willian agradeceu, saindo com uma felicidade real e palpável agora.
Bingo!


Notas finais
HyuugaKonan: Estou estranhando eternamente a cena do beijo ~ que fique dito e registrado. :3 E saibam que a Kalhens é um amor, demoramos por minha causa e crises. ♥ Conversamos tanto, mudamos TANTO que... Enfim ~ espero que gostem ♥
Na verdade, corrigindo aqui. Estou estranhando tudo D:
Kalhens: Como adicionamos linguagem imprópria aos avisos, posso dizer sem rodeios que fiz porra nenhuma nesse cap, só o postei, haha. E na verdade, ele atrasou porque eu levei quase uma semana pra escrever minha parte antes de mudarmos tudo ~
No fim, esse capítulo é todinho da Konan.