Notas iniciais
Boa leituuura ~

Passos ecoavam. Compunham a sinfonia que se derramava pelos ladrilhos mal-colocados do ‘’comércio’’ da cidade.


Não é que fosse pobre, ah não. Variedade até que tinha. Quantidade também, verduras murchas transbordando de pedaços de madeira que faziam às vezes de barraca. O problema mesmo era a desordem.

Galinhas soltavam-se para irem atacar o primeiro saco de grãos que conseguiam encontrar enquanto vendedores batiam boca aos gritos, tentando se fazer ouvir entre o passar de caixas, pesar de mercadorias e pechinchar de clientes.

Fora elas. Aquelas criaturinhas imundas e desagradáveis que aproveitavam a baderna, que muitas vezes elas mesmas causavam com facas improvisadas e bombinhas barulhentas, para pegar uma ou duas maçãs antes de voltarem às sombras onde viviam.


Mas para o Akuma, aquilo não tinha importância.


Seus sapatos lustrosos esmagam o lixo que mais tarde muitos recolheriam para alimentar-se sem remorsos. Chegou mesmo a puxar a aba do chapéu mais para baixo, temendo que sua excitação o traísse e permitisse que o pentágono negro se revelasse, orgulhoso.

Um grito em forma de nome lançado ao alto lhe deu a certeza.

Estava perto.

Os olhos negros afiaram-se, como uma lâmina sedenta por sangue, enquanto o corpo se envolvia na brisa gélida que marcava o início da tarde decisiva.

Sexto sentido. Intuição. Premonição. Instinto. O nome não faria a menor diferença quando o maldito Akuma estivesse retalhado e a Innocence fosse coletada.

Ele apenas sabia para onde devia ir. Aquele maldito com certeza estava lá, talvez até mesmo esperando-o ou se preparando para fugir como o bom e velho covarde que deve ser.

Bom, quando conseguisse fatiá-lo com a Mugen nada disso teria importância.



Muitas vezes, acontece de o que não ser importante para si ser vital para outrem. Como acontecia naquele momento com duas vidas.

Alguns instantes antes, as batidas eram leves. O reencontro entre Mika e Any lhes trouxera esperanças, memórias. Desejos puros que não iam muito além da felicidade.

Os olhos de Mika pareciam maiores do que o normal por trás das lentes, iluminados pelo alívio tão curto em ver aquela pequena querida, com seu inseparável cordão precioso.

A boquinha de Any se transformara numa risada enquanto o nome da sua quase irmã era gritada aos céus, agradecida.


Mas agora era diferente.

Estavam com medo.

O vulto conhecido surgia na boca do beco onde haviam se enfiado.


O Senhor Willian.

O Akuma.


Por um instante, tudo parou. Queriam até que parasse. Se morressem, talvez fossem poupadas da dor e tortura juradas nos olhos implacáveis.

Corações batiam juntos, acelerados. O sangue circulava rápido, mas as faces estavam pálidas, aterrorizadas.

A energia acumulada se perdia entre os corpos, tremendo, apertados.

Os dedos entrelaçados, num laço sutil e impotente diante do sorriso belo de dentes alvos que ele lhes dirigia.

Mas as lágrimas que logo escorreram pelas lentes grossas tinham o pedido de todo humano.


Queria viver. Queria poder proteger aquela pobre menina.

Queria... Poder fazer qualquer coisa além de chorar.


Já Willian admirava a cena. Não fora difícil encontrá-las. O nome da imprestável jogado aos ventos fora de grande ajuda, também. Duas inúteis. O Conde não se interessaria nelas, ele então, muito menos. O negrume do pentáculo em sua testa pareceu ficar ainda mais escuro quando o sorriso rasgou-se em palavras, desafiador e envolvente.


– Mika, seja uma boa menina e me dê o cordão dessa garotinha.


Os dedinhos sujos chegaram a ter a pele rompida, permitindo que poucas gotas vermelhas surgissem ousadas, marcando tamanha força aplicada na vã vontade de proteger a pedrinha guardada com tanto afinco.

– V-v-v-v-v-oceê n-n-n-não é o Senhor Wil-l-Ian! — A bravura que pretendera foi quebrada a duros golpes pelas silabas covardes — Saia daqui!

Desgosto. A máscara que ele vestia sequer caiu, foi é arrancada com gosto em poder finalmente mostrar o desprezo que deveras sentia por aquele monte de carne e gordura estúpido.


Realmente, detestava aquela mulherzinha atirada.


A gargalhada explodiu pela garganta, enlouquecida, vibrante.

O grito de pavor sequer saiu quando a cabeça rolou pelo chão, deixando o pescoço livre para que serpentes jorrassem pela carne retalhada, as línguas agitadas com gosto. Mas mesmo elas tronaram-se reles vermes quando o tronco bem trajado deu lugar a uma boca ferina de dentes de mármore. Infernais. A saliva formava poças pelo chão imundo enquanto as lágrimas escorriam pelo rosto paralisado.

Demônio...

Akuma.



– Com licença, a senhora pode me dizer se viu um cara de preto, cabelo grande e possivelmente com uma espada na mão com cara de machão irritado?


A senhora, que ajeitava seus cabelos inutilmente, estando ela toda em plena desordem, bufou. A cidade não era lá aquelas coisas de organizada e pacata quando estava no berço comercial em plena sexta-feira, mas ah, esses turistas abusados sempre conseguem bagunçar tudo por onde passam. Até os cabelos, agora desgrenhados, dela.


– Ora, como não? O infeliz acaba de atropelar-me...

– Poderia me dizer em que direção ele foi, por favor?


Antes mesmo de o dedo ter terminado de apontar, o jovem de cabelo estranho já estava correndo com um pontinho amarelo voando em seu encalço.

Alinhou o xale que trazia sob os ombros, erguendo uma sobrancelha de desprezo.


Viajantes imundos.



Tudo pareceu ficar mais escuro. Hora via o rosto de seu admirado patrão, hora via apenas o inferno trajado naquela silhueta que jamais deveria existir.

As imagens se fundiam, com a única certeza de que aquilo estampado, no que desejava e esperava com todas suas forças ser ainda um rosto, era um sorriso.

Parecia um leão. Parecia serpente. Parecia quase que algo de forma humana. Era maligno, era errado, era maldito.


Era real.


Gritou. Gritou tão alto quanto jamais pensara poder. Sentia que suas cordas vocais poderiam estourar a qualquer instante e nem se importava.


Até que algo realmente se quebrou.


Não viu o que lhe acertou, mas o impacto com a parede fez um som doentio de coisa deslocada. A dor no ombro era tão imensa, que quase agradeceu por senti-la.

Gritou mais, mais forte, mais alto. Alguém tinha que ouvir!


– Então você está ai, Mika.


Calou-se. Não tinha mais demônio. Não tinha mais beco. Não tinha mais dor.

Mas nada disso importava.

Ali a sua frente estava sua mãe, com uma cesta de roupas no braço e um olhar enfezado no rosto mal-definido.


– Anda, menina, vem me ajudar. Logo o Senhor Willian e sua esposa estarão aqui e a mesa de jantar não vai se por sozinha, sabia?


Sempre em prontidão, levantou-se espanando a poeira da saia longa e correu em direção ao sonho, sem nem perceber que ainda havia Any.


– Tenho que agradecer — a voz zombeteira saia de algum lugar. Só não sabia de onde. Ele era inteiro aquele sorriso estático e horrendo — ao menos ela calou a boca.


Com uma coragem que simplesmente não possuía, o encarou. De frente.

Ou quase.


Tudo o que pode ver foi o vulto disforme erguer-se nos céus, dando lugar a uma silhueta tão negra quanto, mas que empunhava uma lâmina brilhante.


– Realmente. A voz dela só não é tão irritante quanto a sua.

Um homem todo de preto. Outro deles... Com aquela mesma cruz esquisita e cheia de pontas que para ela não significavam nada.


Ainda.


Agarrou a pedrinha, olhando Mika caída no chão, os olhos vagos, a boca entreaberta.


Respirou fundo, resistindo. Dessa vez, não tinha opção.

Teria que ter fé e confiar.


– Só um Nível Dois... Que bando de incompetentes.

Resmungava consigo mesmo, mas não via mal em se deixar ouvir.

Sinceramente! Tantos finders e mesmo exorcistas na enfermaria do QG por causa de uma porcaria de um Nível Dois?! Imprestáveis. Se Komui dependesse apenas desses inúteis para manter a Ordem, seria fácil concluir a quase óbvia vitória do Conde em um futuro próximo.


– Haha, olá, Exorcista. — podia sentir a satisfação escorrendo pelas palavras. Decerto, ansiava rasgar-lhe as tripas e escrever palavras insinuantes com seus restos, ou qualquer uma dessas coisas idiotas que Akumas adoram — Fico feliz em te ver novamente.


Coraçõezinhos rodeavam a fala. Corações negros e putrefatos.

Por um instante, sentiu a vista mudando. Escombros. Buracos no chão. Corpos. Penas.

Tsc.


O Nível Dois emitiu um som. Poderia ser um grito, quem sabe, pedindo por piedade. Que se foda.

Não conseguira retalhá-lo, ainda. Mas ficou satisfeito ao ver pedaços daquela pele asquerosa presos em sua espada.


– Não pense que eu sou tão fraco quanto aquele Moyashi ou aqueles exorcistas miseráveis.


Sacudiu a lâmina com firmeza fazendo com que partes da máquina de matar caíssem no chão, impotentes, tendo seus últimos movimentos em espasmos débeis.


– Eu invoco o tormento...


O sorriso tomou forma e aumentou demoníaco, coberto por promessas mortais.


Ver Kanda sorrindo nunca era muito simpático.

Principalmente se você é um Akuma.


Nessa peculiar situação, os olhos excitados transbordavam de uma crueldade palpável que lhe escorria aos lábios, forçando-os a se manifestarem em um abraço sádico, como se pequenos e negros dedos infantis puxassem cada pedaço de carne em sincronia. E Kanda conseguia completar a cena de forma horripilante... Deixando sua carga assassina praticamente pingar pelo sorriso maquiavélico.



Os olhos estavam quase se jogando das órbitas de tão arregalados.

Certo. Ele não era como todos aqueles outros homens de branco.

Nem mesmo como os de preto!


– Segunda Ilusão! Louva-a-Deus da flor de oito pétalas!


Ela não sabia definir o que era aquilo! Só sabia que era BEM forte. O tal de Nível Dois, infelizmente, também era BEM rápido. E tinha certeza de que ele usava poderes, bem parecidos com os da sua pedrinha por sinal, para fazer o cara de preto errar.


Mas mesmo assim... Era incrível.


O sorriso de Willian chegou a cintilar. Aquele Kanda não era tudo aquilo afinal, mesmo que não desse muitas brechas. Se ao menos o outro estivesse por ali, poderia se divertir mais. Haha. Tinha sido realmente delicioso ver o sangue imundo jorrando quando ele finalmente notou que o grisalho estava em seu poder.

Uma pena, mas não era hora de brincadeiras. De fato, seria um belo de um bônus levar o corpo daquele maldito exorcista para o Conde, mas não estava a fim de correr riscos demais.


Estava ali para pegar a pedrinha que a infeliz tanto segurava.


Por outro lado... Por mais que a Innocence da garota o anulasse, o que era sinceramente bem irritante e só fazia dificultar seu trabalho, não adiantaria nada se a cabeça da vagabundazinha estivesse separada do corpo.


Pelos céus. Como não pensara naquilo antes?

A velha máxima dos akumas, que unia o útil ao agradável: Sem compatível, não tem innocence.


A língua passeou pelos caninos, ansiosa. Jogou-se do prédio que o ataque do Exorcista atingira com as serpentes rodopiando na queda livre enquanto as garras se esticavam.


Virou-se a tempo apenas de ver a bolha escura caindo. A Innocence! Sentiu os músculos da perna se retesando quando mudou bruscamente de direção. O sobretudo rodopiou ao sabor do vento antes de toda a força potencial transformar-se em pura cinética e ele lançar-se ao alto.


A cabeça de Any se ergueu, e os olhos nem podiam arregalar-se mais com o pesadelo que crescia conforme se aproximava de si.

Uma pequena e cintilante lágrima escorreu pelo canto da face vazia.


Que estranho...


Nunca pensara que estaria tão calma quando fosse morrer.


Notas finais
Konan here. Capítulo 80, ou 90%, Kalhens. Se duvidar só mudei e coloquei algumas palavras, inclui frases nas descrições do Kanda e exagerei no sorrisão macabro dele. Fim. D:
Kalhens here. A Konan tirou meu Allen vomitando no meio da rua D: Mas tudo bem. Ela que não duvide do que minha imaginação maníaca pode fazer com o Kanda S2