Notas iniciais
Boa leituuura~

– NÃO!


O grito escapou, cortando a rua, junto a silhueta negra que aos poucos tornava-se alva.


Mas apenas uma pessoa o ouviu.


A única que precisava, aliás.


Allen ainda corria.


Correu mais.


Via o Akuma caindo sobre uma menina. Sentia a Crown Clown se esticando por seu corpo enquanto o puro movimento jogava seus cabelos para trás. Esticou a mão onde os dedos já se mostravam afiados e longos.


E então, o impacto.


A cena merecia ser narrada lentamente, mas ninguém a vira por inteiro.

Any só viu o demônio indo a sua direção, a baba fedorenta pingando em seu rosto. As presas cada vez mais próximas até que foi envolvida, e tudo sumiu.


Willian antecipava o deleite da morte de uma criança humana de tal modo que se o fabricante lhe tivesse dado um coração, esse estaria à beira de um enfarte de tanta alegria. Mas antes que pudesse lhe alcançar, dois vultos se mesclaram. Um negro e um branco.


Allen viu as botas de Kanda tomando impulso na parede e pode sorrir o sorriso que dizia que tudo ficaria bem para os olhos que sequer o encaravam. Abraçou o corpo pequeno estático e Crown Clown os envolveu, os cinturões dando apoio ao moreno.


Kanda sentiu o tecido do manto quase que fazendo resistência a seus movimentos. Hunf! Ele que não se atrevesse! A energia pulsava em seus músculos e culminou com a espada empalando o Akuma. Não era uma cena bonita. Mas era maravilhoso poder olhar naqueles olhos de máquina com o seu melhor sorriso estampado e ver o terror neles escurecendo entre gemidos e resto se desfazendo em suas mãos.


Estava acabado.


Em meio ao negrume que criara, o amaldiçoado podia sentir o Akuma sendo sublimado, e seu coração bateu mais leve algumas vezes, sentindo as engrenagens caindo sobre sua proteção, destruídas. Mesmo ali, conseguiu sorrir para a alma de uma mulher de rosto duro, mas aliviado, que se desfazia.


– Tsc. Como sempre, só aparecendo na última hora, Moyashi imprestável.


Allen, com a criança em seu colo, se deu ao direito de responder.


– Nunca ouviu que heróis sempre se atrasam, BaKanda?


Faíscas começaram a se formar, mas o contato visual foi quebrado antes que aquilo realmente se tornasse um incêndio.


Matar um akuma nível dois sem sofrer nenhum arranhão era brincadeira de Finders, praticamente. Mas nenhum treinamento preparara Kanda para o caso de uma mulher se atirar com tudo em seu pescoço.


Estupefato, Allen ficou igualmente sem reação, ao ponto de quase deixar a garotinha, desmaiada, cair ao chão.


Mika estava, em termos bem práticos, montada em cima de Kanda. Lágrimas de, supunha, alívio e alegria escorriam sem pudores pelo rosto enquanto o espadachim apenas a encarava com uma estranheza palpável. Pela situação, proximidade e por ele sempre demonstrar uma careta dessas, também.


As coxas grossas ladeavam o corpo esguio e então os dois exorcistas compartilharam de um mesmo sentimento quando as mãos, trêmulas, agarraram o rosto de Kanda, tragando-o para um beijo bem... Molhado. Por assim dizer.


Povo sem experiência já é complicado de descrever. Três deles então, a coisa fica complexa. Mas o fio de saliva, a boca ansiosa, as mãos necessitadas e o corpo todo em sincronia com o movimento eram coisas que deixavam mais do que claro a intensidade do ato.


Ao menos de um dos lados.


Mika poderia se considerar uma pessoa de sorte. Não só havia conseguido roubar um beijo de Kanda, como Allen a tirara de cima do mesmo antes que a Mugen se alojasse em seu pescoço.


– M-me d-d-d-d-d-- a palavra não saia, como que barrada pela vermelhidão intensa que tomara seu rosto. Chegava a ser... Preocupante? Assustador. — V-v-v-ocê — por fim, cobriu o rosto com as mãos, e disse lenta e suavemente — Obrigada.


Allen olhou de maneira firme para Kanda, que já estava de pé em posição de batalha, quase que exigindo que ele se controlasse. Alisou as costas de Mika enquanto a outra menina jazia em seus ombros.


O gesto era sincero, mas não conseguia se livrar da sensação amarga que a ousadia dela lhe deixara.


Preferindo por ignorar tal incômodo, forçou uma conversa simples com Mika e combinaram de irem ao hotel descansar. Não por ele, claro, mas as duas senhoritas estavam claramente esgotadas.


Nos olhos da mais velha, Allen poderia jurar que conseguia ver os cacos de sua consciência se quebrando a cada suspiro melancólico.


Caminhando vagarosamente, tendo como o cenário do renascer um final de tarde com cores quentes, os protagonistas seguiam o rumo já previsto com pensamentos envolvendo-os em seus próprios mundos.


Mika só desejava proteger Any. Kanda queria arrancar-lhe logo a porcaria da pedra. E Allen... Bem, não sabia nem o que pensar. Talvez até não o quisesse fazê-lo.



Kanda acordou vagarosamente, acostumando-se a luz da lua misteriosa. Sentando-se folgadamente na cama, tendo o apoio a parede que tinha atrás de si, mexeu nos cabelos com uma leve expressão de irritação. Dor de cabeça.

E então, Allen saiu do banheiro.


– ... Kanda!


Estranhamente, desde quando a missão começou, cenas como esta pareciam comuns. Mas quem exibia sexy appeal por aí era o moreno arrogante de traços belos, não o cavalheiro gentil, mas pirralho.


Um pirralho apaixonante, que ficasse mais do que claro! Pena que a Mika não pensava o mesmo... Quem diria, um beijo no espadachim!


Ela tinha coragem, afinal. Ou desistiu da vida.


Mas não era sobre milagres que Allen pensava. E sim, porque Kanda acordou.

– Se vista Moyashi! – E a clássica veia pulsante na testa.


– Me descu... Hmm! Kanda, porque tanto estresse? Geralmente eu aguento suas cenas narcisistas sem reclamar.


Pois é. Allen saiu do banho com apenas duas peças, toalhas. Brancas e felpudas, uma na cintura, firme, retendo as gotas d’água e outra nos fios, com o intuito de secá-los.


A cena em si não incomodaria Kanda. Um Moyashi semi-nu á sua frente, recém-saído do banho. Grande porcaria.


O que lhe irritava particularmente no momento, eram os pensamentos que lhe cutucavam de maneira prepotente conforme o olhar percorria o corpo daquele maldito imbecil imprestável.


Nem precisava ser muito observador ou ter uma alma muito romântica para notar os detalhes. Um Kanda mesmo servia para o serviço de observar o vapor atraente e macio, sufocante, que parecia envolver o corpo tão alvo.


Poderia até dizer que as formas eram delicadas, frágeis, mas a mancha negra que era o braço esquerdo naquela silhueta tão pura o lembrava de que ali, a sua frente, seus olhos o traiam, trazendo maciez aos músculos e sussurrando um pedido quase mortal em marcar a brancura sutil...


Ainda mais com ele, tão... Apetitoso, logo a sua frente.



...



... Mas o QUÊ?!


– Você observa porque quer Moyashi. O beijo não te deixa mentir.


Pausa. Os olhos de Allen se arregalando. Pela lembrança repentina e... Pela certa vergonha que apoderou de si, mesclando-se ao outro contato que Kanda tivera horas antes com Mika, que ainda o perturbava discretamente.


– Ora, que beijo? Aquilo? Ah, foi mal...


Kanda encarou-o. Hã?


–... É que te confundi com uma mulher! Você sabe, traços parecidos e esse cabelinho longo... – Disfarçando a timidez que lhe consumiu, sorriu um sorriso gozador, permitindo que seu lado negro domasse suas falas.


– MOYASHI! – Viu Kanda se aproximar irado, rápido e preciso. Pena que já havia previsto uma reação do tipo.


– Quer subir encima de mim de novo, é? Então você gostou do beijo! Quer mais, Kanda-chaaan?


Os dedos do moreno acertaram, finalmente, a bochecha do amaldiçoado. Soco dado, Allen virou o rosto, amargo.


– Mulher é sua vó, Moyashi! Se quisesse outro beijo seu, poderia roubá-lo a força em qualquer momento!


– Não seja convencido, Kanda. Faz mal para sua cabeça afetada.


– Tsc. Você acha que não consigo?


– Óbvio. Mulheres são mais fracas, não é o que dizem por aí?


Kanda pegou-o pelos cabeços claros, jogando Allen de toalha e tudo encima da cama. Ouvindo-a ranger, subiu por sobre ele encarando-o sóbrio, fazendo com que os fios longos caíssem pelo lençol claro.


Allen se sentiu tenso. Engolindo em seco e murmurando meias frases como “C-claro que você não v-vai fazer isso né...” e “era brincadeira, K-kanda...”, teve seu corpo molhado coberto pelo seco dele. E, levemente vermelho pela aproximação, seus lábios foram tomados.


Aquele seria o segundo beijo deles, é isso? Kanda era esquentado, mas nunca imaginou que ele levaria tal afronta a sério. Também não pensou que o corresponderia.


Sentindo a mão do espadachim subir pela perna macia com ânsia, Allen se permitia beijar e ser beijado. Trocando fluídos e brigando sem palavras, os dois compartilhavam da mesma sede, acompanhada do notável desejo por dominância.

Seus dedos embrenharam pelos cabelos de Kanda, circulando os braços no pescoço do mesmo. E quando o oxigênio se fez necessário, quebraram o contato. Levemente ofegantes, levemente envergonhados. Mas ainda sim, covardes o suficiente para disfarçarem as sensações que os invadiam.


Notas finais
Konan para Kalhens. "Eu sou fã desses dois momentos do capítulo. Seu beijo Mika desesperada a lá Tenjou Tenge feelings e minha cena pós-tensão Mika do Allen chamando Kanda de mulher, o que inclusive vai contra a sua cena again e *loop*"
Kalhens. Título alternativo- ''sem-pudores'' //apanha.
Tenjou Tenge feelings. SE ALGUÉM ENCONTRAR VOLUME 20 NAS BANCAS COMPRA PRA MIM!PAGO O SELO O/
Espero que gostem, realmente. ♥ Amamos esse cap. ♥