Tanzaku
2 A primeira noite
Notas iniciais
Dois dias depois, lugar desconhecido. Noite.
A neve preenchia os detalhes esquecidos do vilarejo, pintando de branco a esperança dos namorados de se encontrarem, dos doentes de saírem de casa, das pessoas de trabalharem com disposição. Era a época que mais divertia as crianças, vestidas com suas roupas gordas e aconchegantes, que saíam pelos caminhos de gelo acumulado para ir brincar.
Mas isso de nada importava para o exorcista negro.
Os passos rígidos ignoravam o chão escorregadio, acompanhados da expressão irritada do moreno com longos fios rebeldes que dançavam com o vento. Logo atrás dele podia-se ver um rapaz mais baixo andando igualmente apressado, com fios sem cor e olhos claros. Ele berrava para o maior palavras como “BaKanda”, “missão” e “responsabilidade” demonstrando toda sua... Determinação para tentar aguentar a pessoa que o ouvia.
Ouvia, mas não respondia.
Você é insuportável! Podia pelo menos se esforçar para terminar logo essa missão e voltar para a Ordem. Grande besteira minha acreditar na sua responsabilidade e compromisso, BaKanda!
Com um chute desnecessário a porta abriu violenta, encontrando a parede mal acabada na forma de um estrondo. Naquilo que geralmente chamam de recepção uma moça acordou assustada, arrumando os óculos de grau enquanto torcia para que ninguém de importante tivesse a pego no flagra, dormindo em pleno expediente.
- Cala a boca, seu Moyashi irritante! Gente como você deveria estar morta, dava menos trabalho.
- É Allen! É por isso que me colocaram para fazer essa missão contigo, Kanda. Você não consegue nem memorizar um nome, quem dirá ser útil.
- Oe, me dá a chave. – a voz rígida de seu predileto a fez arrepiar-se. Disfarçou, vendo que ele nem depositou de fato os olhos frios em sua pessoa, muito concentrado em ranger os dentes e não bater a cabeça do menor na parede até matá-lo.
Uma vermelhidão curiosa apossou-se de suas bochechas grandes quando, ao olhar em frente, pode ver dois bonitos rapazes. Ela preferia o mais alto, com toda sua virilidade transparente, mas o albino amável parecia um verdadeiro cavalheiro. Apesar de estar reclamando com o outro sobre coisas das quais ela não conseguia compreender.
— S-sim, m-mas a cama é de c-casa-casal e... — Embolou-se toda. Podia sentir o suor começar a se acumular nas mãos pequenas.
A reação que se seguiu surpreendeu-a mais do que o chute na porta de madeira.
Com um soco o moreno demonstrou sua mais pura e concentrada raiva contra o balcão, a olhando nos olhos enfim. Colocou a chave ao lado da mão masculina, cheia de receio do que poderia acontecer entre os dois novos hóspedes quando estivessem sozinhos no quarto pequeno. Ela pensava em muitas coisas, mas seu maior medo era ter os estragos do cômodo descontados de seu salário miserável.
Allen se virou para oferecer seu sorriso mais cortez, ignorando a falta de modos do outro. Pedia graciosas desculpas pelos atos rudes. Na escada que dava para os quartos, pode ver Kanda pisando fundo enquanto o familiar som irritadiço saia de seus lábios finos, como que fazendo questão de ser ouvido.
Tsc.
Colocou a mão no ombro dolorido, fazendo movimentos circulares na tentativa de melhorá-lo um pouco. Kanda parecia fazer questão de andar na sua frente, como se mostrasse com isso quem mandava ali, o que na opinião do albino era apenas crise de existência e idiotice.
Segui-o até vê-lo abrir a porta do quarto, deparando-se com um cômodo pequeno e jeitoso. Havia um armário ao lado da porta, outra porta que parecia levar a um banheiro, cortinas brancas na única janela e... Realmente, estava ali. A cama de casal que traria problemas aos dois.
Seu primeiro pensamento foi fazer uma aposta com Kanda e quem perdesse teria que dormir no chão. E então, era só ele ganhar e ficar com a cama inteira para si, descansando enfim na mais completa paz. Jogariam poker.
Mas pelo visto Kanda seria sempre o mesmo estraga-prazeres intragável.
Antes que o jovem amaldiçoado pudesse sequer sugerir algo, com as mãos já pousadas no baralho que sempre carregava consigo, o desembainhar da Mugem se fez ouvir. Uma coisa era certa, o moreno até que era... Prático.
- Eu fico com esse lado.
Com um simples corte, o problema de só haver uma cama parecia estar solucionado. Kanda chutou sua parte da cama, fazendo-a chocar na parede da cortina. Danos materiais? Ilegalidade? Apelação? Grosseria?
Até parece.
- Você não deveria fazer isso, vamos ter que pagar uma cama nova!
- Komui paga. Se não estiver satisfeito, pode dormir no chão mesmo. Eu não ligo.
Viu o moreno deitar sua espada, agora devidamente guardada, na cama e seguir em direção ao banheiro, trancando-se lá sem a mínima cerimônia. Só pode suspirar, impressionado com a personalidade que, acreditara ele, jamais iria se acostumar.
Ou aceitar. BaKanda.
Arrumou sua parte na outra parede, ouvindo o som do chuveiro sendo ligado. Podia simplesmente esperar o irritadinho sair do banho com cara de poucos amigos, ou podia seguir a melhor idéia que teve na noite. Procurar por comida.
Não era preciso considerar as opções por muito tempo. Ficar no quarto esperando um Kanda sair molhado do chuveiro apenas para encarar aquela sua cara ou arranjar algo de gostoso. Talvez fizessem dangos ali...
Bem, a escolha era óbvia.
Bateu a porta com uma força desnecessária. Infantilidade? Não, convivência mesmo. E talvez uma dose de mal criação, mas muito da justificada!
- Ah b-boa noite!- podia ver a moça da recepção tremendo. Kanda só dava trabalho mesmo!- e-estão satisfeitos com o quarto?
Allen lhe dirigiu um de seus muitos sorrisos, ganhando alguns pontinhos com a moça, antes de perguntar onde poderia comer, a fala entrecortada por pedidos de desculpa e justificativas como ''ele é assim mesmo''.
- Ah. Sinto muito, mas o restaurante já está fechado.
- Sério!? Mas não tem nada ai mesmo?
- Sinto muito mesmo, mas não. A cozinha e despensa ficam trancadas à noite para evitar problemas... Talvez encontre alguma loja aberta mas...
Allen compreendeu as palavras subtendidas. Mas, bem, não custava nada tentar. Meia hora de caminhada pela cidade deserta o fez mudar de idéia. Como assim? Já estava tudo fechado! Tá que já eram onze e pouco da noite, a cidade era pequena e tudo mais, mas nem um bar? Nem uma taverna? Nem uma casa de strip?
Os pensamentos podiam parecer estranhos, mas as vezes um garoto precisa aprender a sobreviver como dá.
Voltou mais morto do que vivo pro hotel, os braços pendendo ao lado do corpo. Podia sentir o estomago vazio protestando furiosamente. Subiu as escadas lentamente, a tal da moça sem nome o olhando preocupada.
Deveria perguntar o nome dela depois...
Abriu a porta apenas para dar de cara com sua metade da cama mais do que socada no canto da parede, como se fosse possível aumentar a distância. Não sabia onde Kanda estava e nem queria saber!
Certo, querer até que queria. Bem ou mal, eles estavam juntos na missão. Mas não tinha forças para perder pensando naquele idiota.
Jogou-se no colchão do jeito que estava. Esperava que o serviço de quarto não viesse... A Moça não ficará nada feliz de ver o que ele fez com a cama, mas também, quem ficaria? Esse quarto possuía o bônus da cama de casal, que ora pois, seria para um casal descansar sem ter que se separar, dormir no chão ou juntar duas camas de solteiro, o que os deixaria desconfortáveis com o vão entre ambas.
Talvez até existissem casais que só se hospedavam no hotel, em especial nesse quarto, por causa da bendita cama que Kanda fizera questão de partir.
Um tempo depois, Allen acordou com seu companheiro de quarto fechando a porta de madeira acabada. Podia ser paranóica sua, ou especialidade, mas jurava que sentiu um cheiro diferente impregnado no Kanda. Cheiro... De comida!
- Você comeu? – perguntou aflito, pondo a mão na barriga que roncava.
- Te importa?
- Como arranjou comida?! Eu rodei essa cidade toda e nem conse...
- Não me interessa. – Interrompido. Uma das coisas que mais irritavam Allen era ser interrompido, a outra era ser Kanda. Kanda o interrompendo quando estava com fome, então, conseguia superar qualquer estimativa.
- Você não consegue nem ter educação! Assim é muito difícil conviver, sabia?! – Virou para a parede, decidindo dormir mesmo. Iria falar com Komui assim que chegasse, não tinha a mínima chance de voltar a fazer missões com Kanda.
- Não pedi para conviver comigo, Moyashi. Vá para outro lugar. — O moreno deitou também, deixando sua espada ao lado da cama. Amanhã seria o dia que, finalmente, dariam o próprio sangue para terminar logo com o que lhe foi mandado, voltar para a Ordem e torcer para que não se encontrassem tão cedo nos corredores de lá.
Iria respondê-lo a altura, mas seu estômago reclamou. No início, o som do seu ronco era desconfortável já que o atrapalhava a descansar, mas sabendo que Kanda possuía um sono mais leve que o seu Allen teve que sorrir malicioso.
Vingança.
- Oe, Moyashi! Controle seu estômago!
- Mas Kaaaanda... Estou com foooome... Não dá para controlar, sabe? Você sabe, até porque, você também é humano e fica com fome e tem um estômago que deve roncar e
- MOYASHI! – Se virou rindo, Kanda sentou mais do que irritado. – Cala essa boca e vai dormir de uma vez! – os cabelos soltos do moreno davam a ele uma aparência mais demoníaca ainda, que combinava perfeitamente com a possível veia na testa que deveria estar pulsando.
- Mas Kaaaanda...
O viu se levantar enfim, quase bufando de raiva. Chamou-o para descer junto consigo, enquanto abria a porta e fechava em um estrondo atrás de si.
Essa porta aguenta até nossa missão acabar?
- Ei, Kanda! Vista sua blusa, a moça não tem culpa alguma pelo seu mau humor! – Tarde demais, o japonês já desaparecera do corredor. Onde diabos ele arranjou comida mesmo? Correu, descendo as escadas animado com a possibilidade de finalmente matar sua fome.
Chegando ao térreo, Allen não pode deixar de achar a cena... Curiosa. Kanda estava quase caindo encima da moça da recepção, que ficava perdida sem saber bem para onde olhar. Os músculos definidos, mas não exagerados junto com a tatuagem negra e longos fios charmosos espalhados coloriam a cena de forma que era possível entender, completamente, os sentimentos da moça acuada.
Uma vez Kanda, para sempre Kanda.
- Oe, arranje algo para esse moyashi! – Rosnou.
- M-m-ma-mas Senhor K-Ka-kanda a co-co-cozinha já fe-fechou, p-por fa-favor entenda... Só te-temos restos a-agora...
- Me dá a chave.
- N-não t-tenho autoriza...
Antes que ela terminasse, o exorcista passou para o outro lado do balcão, procurando furiosamente o que parecesse com a chave da maldita cozinha. Na parede atrás da moça pode vê-la, quase arrancando o arranjo de flores junto ao pegá-la.
A moça tapou os lábios grossos com as mãos pequenas, assustada.
- P-por favor, e-eu pego algo par-para ele c-como f-fiz para vo-você! M-ma-mas n-não entre lá, S-senhor!
Ele parou, olhando-a. Arqueou uma sobrancelha, desconfiado, mas acabou entregando-lhe a chave em silêncio. Allen observava a cena atônito, pensando que ela não o ofereceu nada, mas alimentou Kanda! Absurdo!
A garota foi agarrada a chave, com suas bochechas coradas, muito nervosa fazer o que disse. Nos lábios um sorriso tímido pairava, enquanto pensava no belo sorriso que o hóspede a ofereceu. Não foi bem um sorriso completo, diria, e até tinha um ar meio ameaçador e macabro nele, mas mesmo assim...
Que lindo.
Mal sabia ela que o sorriso não fora bem para si e sim, para sua vitória conseguida. O infeliz ganharia alguns restos e ele poderia dormir enfim.
- Kanda! Ei, Kanda! – Era só o que faltava. Deu as costas ao amaldiçoado, voltando para as escadas. Não perderia tempo conversando, muito menos porque eles jamais conversariam.
A moça voltou com um sorriso... Amarelo, diria Allen. Sua expressão era de vergonha, mas não pelo que viu ou por si própria e sim, pelo que carregava em mãos. Uma forma com um bolo desconhecido com restos do tal ainda dentro.
Se fosse qualquer outro, provavelmente teria pensado que era melhor nem receber nada do que aquela... Sobra. Da sobra. Mas Allen aprendera da pior maneira a tirar proveito de tudo o que fosse possível, afinal.
De pierro andante para aprendiz do Mestre. Aquilo era até mesmo um luxo, mas sentia-se... Irritado? Algo entre isso e magoado pela moça não ter lhe dado nada quando pediu...
Isso! Atende ao pedido do idiota que corta a sua cama de casal, mas me deixa passando fome.
Sinceramente, o que esse povo via num mesquinho egoísta, cabeça, dura, grosseiro, mal-humorado, desagradável, irritante, anti-social...
- M-me desculpe. Posso...Tentar conseguir um pouco de...Manteiga, é, manteiga, se o senhor quiser...
- Não, está bom, obrigado — seus modos puxaram-lhe a orelha pela resposta dura a uma dama, mas ela bem que estava merecendo!
Subiu as escadas lançando um olhar desconfiado ao suposto bolo. Um Akuma parecia mais apetitoso.
No balcão a moça olhava suas costas se afastarem. Até que ele ficava bem com aquela cara de sério.
Um suspiro débil foi sufocado pela porta se fechando, sem nenhum grande estrondo dessa vez.
Comera as coisas enquanto subia a escada, para não dar o prazer à Kanda de o ver naquela situação, mas aquilo teria volta. Vingança não é um sentimento muito agradável, e de certo modo sequer combinava com sua pessoa.
Mas ao observar o corpo do exorcista deitado na cama tendo o brilho da lua banhar-lhe as costas nuas desenhando os músculos, perfeitamente acompanhados com a expressão de tranquilidade e leveza enquanto os fios negros se espalhavam aconchegantes não conseguiu resistir a um sorriso maligno.
É ele também podia jogar aquele jogo.
E com certeza, daria um jeito de ganhar.
Notas finais
De certo modo, é aqui que as coisas começam.
Seja lá o que elas forem.
Leiam com carinho e não se esqueçam dos revieeews~
Não sei onde moram, mas posso descobrir :D~~
HyuugaKonan aqui ~
Reviewwwwws ~ ♥
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