Margarida foi à casa de seu filho para visitá-lo e saber como estava vivendo com sua mulher. Pediu para ver a decoração da casa. Betty passava pano no chão e havia deixado um balde no canto do sofá. Distraidamente, a senhora enfiou uma das pernas no balde.

A água estava fria.

—Ai!

—O que foi, mamãe? -perguntou Armando, virando-se

Betty arregalou os olhos já imaginando o que aconteceu.

—Ai, desculpe-me, dona Margarida. Até esqueci que deixei o balde aí quando fui atender a porta.

—Mamãe! -disse Armando debochado, pois nunca imaginou ver sua mãe nesta situação.

—Vai ficar aí rindo ao invés de me ajudar?

—Sim, mãe.

Roberto colocou a senhora sentada, enquanto Armando tirava o pé de dentro do balde.

—Isto é um absurdo.

—Mamãe não é para tanto.

—Como não? Este é um sapato italiano!

—E tem vários como esse!

—Mas este é especial, Roberto. E agora, vou ficar com o pé molhado?

Betty trouxe uma toalha macia para que secasse o pé, mas a senhora estava de meias e teve que tirá-las. Betty trouxe também um par de pantufas daquelas de rico que sabia que dona Margarida gostaria, vez que foi ela mesma que a presenteou. Assim, a sogra tirou as meias, secou os pés e as colocou, não sem antes reparar nas pantufas que Betty e Armando usavam de Piu-piu e Flajola. "Não, aquele não poderia ser seu filho." -pensou.

—Desculpe-me, dona Margarida! -disse Betty

—Não tem problema, Betty! -disse Roberto -Acidentes acontecem, se Margarida tivesse visto.

—Como se Margarida tivesse visto? -diz a senhora -Acha que ia imaginar que teria um balde no meio da sala? Que iria enfiar meus sapatos caros? E não digo nem pelos sapatos, mas é uma executiva. Logicamente, não está acostumada a fazer isso!

—Faxina? Ojojo. Sempre ajudei minha mãe, mesmo quando trabalhava a semana inteira na Ecomoda, também no banco e quando estudava. E como disse, agora tenho uma diarista que me ajuda e Armando, meu pai não ajudava, só arrastava os móveis e levava o lixo.

—Não importa! É a esposa de meu filho, uma Mendoza!

—Mas...

—Marcelinha jamais faria este tipo de coisa!

Betty respirou fundo para responder à Margarida, mas Armando olhou-a e se precipitou.

—Vamos, mamãe! Não quer ver a casa? -Armando dá Camilinha para Betty segurar.

—Mãe, esta é a cozinha.

—Não é americana?

—Não tradicional, mas muito bem equipada! Nas horas vagas gostamos de aprontar e experimentar pratos.

—Você, cozinhando?

—Como disse gosto de experimentar.

—Eu costumava cozinhar quando solteiro, antes de te conhecer Margarida.

—Eu só sei fazer doce.–disse margarida.

—Esta é a área com secadora, inclusive. –disse Armando, continuando a apresentara casa, todo orgulhoso.

Armando sobe as escadas, enquanto Betty segura Camila nos braços, estarrecida.

—Parece que sua vó não gosta mesmo de mim e não vai gostar nunca. O que podemos fazer, não é?

—Mamá! -acaricia o rosto de Betty, dando a entender que a apoia.

—Não dá para agradar a todos. -Betty dá um beijo na filha e a coloca deitada no sofá.

—Vou jogar esta água fora antes que ocorram mais acidentes. “ Marcelinha jamais faria isso.” -remeda a sogra — Como se dona Marcela precisou algum dia levantar um prato da mesa!

Enquanto isso, Armando mostra as dependências da casa. Apesar de ser um casarão no estilo antigo, seu Roberto gosta muito.

—Esta casa me lembra a de minha avó, simples, aconchegante, deve ser tranquilo morar aqui.

—Sim, bem simples.

—Gostamos de morar aqui, se não fosse tanto tempo gasto no trânsito para irmos à Ecomoda... –disse Armando.

—Não é por que é simples demais para o que está acostumado?

—Não. Até prefiro este bairro. Minha vida mudou, mamãe! E a respeito do que disse à Betty...

—Não disse nada demais! Ela é uma executiva importante, presidente de uma empresa de Modas, uma Mendoza e se chegam paparazzis aqui e tiram fotos? Viu como estava vestida?

—Margarida!

—Sei que ela não está acostumada, mas querendo ou não a vida dela mudou ao se tornar sua esposa. Sei que não pode exigir que saiba de uma hora para outra como ser uma dama de sociedade, mas pode aprender.

—Mamãe, estávamos em nossa casa, no fim de semana, acabamos de acordar.

—Não estavam fazendo faxina?

—De verdade, mamãe? Estávamos na cama, namorando, como os casais fazem quando nos telefonaram que estavam vindo para cá. Betty se desesperou e começou a arrumar tudo, disse que não precisava, mas ela quer agradá-la.

—Disse que era muito cedo, Margarida.

—Tenho a melhor das intenções. Nem acho que sua mulher tem que se preocupar com isso de limpeza, fim de semana uma senhora da sociedade deve descansar e não se preocupar com limpeza de casa. Betty não entendeu que a vida dela mudou.

—Margarida, é a vida do casal.

—Não, Roberto. Digo isto para o bem. Betty ou como queiram chamar, é Beatriz de Mendoza, uma senhora da sociedade, empresária e esposa de um dos maiores empresários do ramo têxtil. Disse que ela queria me agradar limpando a casa?

—Sim, mamãe, pois a diarista veio segunda e já está empoeirada. Ele queria que achasse a casa bonita e cheirosa.

—Creio que levei a mal. Mas ela não precisa fazer isso para me agradar.

Roberto e Armando sorriem satisfeitos, creem que Margarida finalmente entendeu, mas não é bem isso que Margarida quer dizer. Betty não precisava limpar a casa para agradá-la, tampouco quer uma dona-de-casa para seu filho, mas sim uma dama da sociedade como é Marcela.

—E este é o quarto de Camilinha! Não deu tempo de arrumar, acabei de trocá-la! Hum, está sujo!

—É sempre você que cuida de minha neta?

—Não, Betty, dona Júlia e temos a babá, mas no fim de semana dispensamos. Sei que quem cuidava de Camila e eu era Carmencita, mas preferíamos cuidar nós mesmos de nossa filha todo o tempo que dispomos.

—Quanto a isto, não tenho objeção.

—Não cuidamos tanto de vocês porque Ecomoda era um império em construção. –disse Roberto.

—E depois ainda tinham os Valência. -disse Armando, não sem ressentimento.

—Filho! -repreendeu-o Roberto.

—Desculpe! Este é o banheiro do quarto de Camilinha!

Armando passa à frente deles e pela primeira vez, no claro, Margarida tem a chance de reparar em suas costas.

—Filho! O que aconteceu? Que arranhões são estes?

—Arranhões? -Armando sabia muito bem do que se tratava.

—Parece arranhado de gato, mas que eu saiba, vocês não tem gato, tinha um cachorro.

—Ah, mãe, arranhei-me!

—É sério! Deixa ver se trouxe minha pomada!

—Não há necessidade!

—Sim. Pode infeccionar!

—Não, mãe! Não vai infeccionar! Isto não é nada!

—Como não é nada? Está todo arranhado! E se foi em algum parafuso?

—Não foi nada, mamãe! Não precisa se preocupar, sim? É de uma gatinha, como disse! Mas não é nada sério. -disse pegando a mão dela e tirando dele

—Deixa quieto aí, sim?

—Está bem, mas...

Armando olha para cima e vai até seu quarto pegar uma camiseta para que a mãe deixe suas costas quietas.
Roberto, pela risadinha parece perceber o que está acontecendo, mas não diz nada.

Ao descerem as escadas, Betty já havia arrumado tudo e estava com sua filhinha no colo, brincando. A nora havia secado os sapatos com o secador. Mesmo assim, ainda estava desarrumada.

—Bem, gostaria de convidá-los para almoçar. Poderíamos ir ao Lenoir ou o Baluarte.

—Não se incomode, querido, viemos visitá-los.

—Convidaria-os para comer, mas só temos congelados! Não sou tão habilidosa como minha mãe na cozinha. Ojojo

—Tampouco eu! –disse Margarida.

—Vamos lá na cozinha ver o que tem! –disse Armando.

—Mas Armando!

—Venha!

Betty deixa Camilinha brincando com suas coisas no chão.

—O que quer?

—Primeiro um beijinho que já sinto falta!

—Seus pais estão aí!

—E estou aqui sedento. –beijo

—É sério!

—Aqui também. Sobre a comida, podíamos encomendar destes restaurantes que citei, eles também entregam.

—Acha melhor?

—Sim. Assim, não precisaríamos sair de casa!

—Melhor coisa que ouvi hoje! Estou moidinha!

—É? Para mim, parece bem inteirinha, hein espertona!

—Seus pais estão aí!

—Vou pedir para entregar, então.

—Armando, estou nervosa!

—Não fique! Eles não vão ficar muito tempo.

—Viu o que sua mãe falou de dona Marcela.

—E o que me importa¿ Não estou casado com Marcela! Não me casaria com ela, sim¿ -beijo.

—Ânimo. –dá um soquinho no queixo dela. –Te amo!

—Também te amo.

Armando encomenda os pratos, a comida vem logo. Margarida olha Betty e fica imaginando-a com hábitos mais refinados, Betty sente-se incomodada com estes olhares.

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