Talvez Seja Amor
33 Capítulo 33
Notas iniciais
Cap 33
“A ausência diminui o pequeno amor e aumenta os grandes, como o vento sopra a vela e explode a fogueira.”
François de la Rouchefoucauld
POV BELLA
Acordei um pouco depois das oito da manhã. Com movimentos robóticos, levantei-me da cama e caminhei em passos lentos até o banheiro, onde fiz minha higiene matinal. Não tivera mais febre desde ontem e o aspecto de doente havia ido embora. Contudo, sentia-me um pouco indisposta e tinha uma mancha abaixo dos olhos, devido à noite mal dormida. Mas eu sabia que nada tinha a ver com o fato de eu ter ficado doente após o mergulho na água gelada.
O motivo de ter tido uma terrível noite de sono era o mesmo pelo qual não iria hoje à escola. Chegara o dia que eu gostaria que nunca chegasse. E se eu tivesse o poder, faria com que ele não existisse.
Após tomar banho e vestir o primeiro jeans e blusa que meus olhos encontraram no closet, desci as escadas, sentindo o cheiro de café forte, fazendo-me torcer o nariz e meu estômago embrulhar.
– Bom dia filha. – cumprimentou-me minha mãe, sorrindo, quando entrei à cozinha. – E então, está melhor?
Dei de ombros, indo até a geladeira para pegar a caixa de leite.
– Dormiu bem? – perguntou, o sorriso esmaecendo.
– Não. – respondi enquanto enchia o copo com o líquido.
– Eu vejo. – disse, estudando meu rosto com uma expressão preocupada.
– Não vai trabalhar hoje? – perguntei, encostando-me no batente da pia enquanto bebia o leite.
– Sim, vou. E estou um pouco atrasada, já que preciso comprar alguns materiais antes de ir, e Lucy não irá hoje. A pobrezinha da mãe dela está no hospital.
– Angela me disse ontem por telefone.
Minha mãe parou e ficou me olhando. Eu sabia o que ela estava fazendo, então desviei os olhos longe dela.
– Oh-oh. Você não está bem.
– Não estou mais doente. – falei, colocando o copo na pia.
– Não é sobre isso que estou falando. – disse ela suavemente, embora eu também soubesse que não era sobre a doença que ela estava falando.
Coloquei as duas mãos na borda da pia, e fechei os olhos. Suspirei e preparei-me para me virar. Mas antes senti a mão da minha mãe em meu ombro. Senti o nó na garganta, enquanto segurava as lágrimas. Renée me puxou em um abraço, e quando afundei meu rosto em seu peito, desabei no choro.
– Shhh meu bem. Eu sei, eu sei. – dizia enquanto afagava minhas costas em meio a meus soluços altos.
Durante toda a semana me segurei, tentando ser forte, mas desde ontem não conseguia fazer outra coisa que não fosse chorar pela partida de Edward. Mesmo ontem, quando ficamos abraçadinhos em minha cama, com ele fazendo carinho em meu cabelo e dizendo que esses dias passariam rápido, eu não conseguia parar.
Eu sabia que não passaria rápido. Não para mim, que ficaria nessa cidade fazendo as mesmas coisas, como ir à escola e ao teatro, estar nos lugares onde estávamos sempre juntos como sua casa e minha casa, onde tudo me lembraria ele, especialmente o meu quarto, onde ontem quase fizemos amor.
– E-ele v-vai embora. – falei em meio aos soluços.
– Ele não vai embora, meu bem. Ele está indo trabalhar. – disse minha mãe, tentando me confortar.
– D-do outro lado do oceano.
– Eu sei que das outras vezes que ele viajou para trabalhar, fez de tudo para encontrar você toda semana, mesmo que fosse por apenas um dia, e que dessa vez ele não poderá fazer isso. Mas filha, os dias passam rápido e logo vocês estarão juntos. E poderão se comunicar durante esse tempo pelo telefone, e-mail.
– N-não é a mesma coisa. – comentei, afrouxando-me de seu abraço.
– Eu não disse que seria. – falou, limpando as lágrimas do meu rosto.
– Mãe, são oito horas de diferença. Quando eu estiver indo dormir, ele vai estar acordando.
– Uma ótima hora para vocês se falarem pelo telefone. – ela sorriu. – Assim ele terá um ótimo dia e você vai dormir como um anjo.
– Você fala como se fosse fácil. – eu disse, sentando-me na cadeira.
Minha mãe puxou uma cadeira e a colocou perto da minha, se sentando e segurando minhas mãos com a dela.
– Não é fácil. Mas sabe, filha, um longo período assim de distância não é tão ruim. – franzi a testa para ela, que continuou em seguida. – Não é. – ela repetiu. – Não para duas pessoas que se amam. E eu sei que você e Edward são loucos pelo outro. – ela sorriu. – Mesmo a pessoa mais distraída perceberia.
Eu ri, fraco, abaixando a cabeça e olhando nossas mãos.
– Vocês são tão intensos. A maneira como se olham, que Edward olha para você. Ele é tão protetor, cuidadoso. E você o olha como se ele fosse o centro do seu mundo.
– Isso é ruim? – questionei, mordendo meu lábio inferior.
Minha mãe sorriu novamente.
– Sabe, no início eu achei que era apenas pela novidade de ter um novo namorado. Edward é um rapaz doce, e é bonito, agradável. Qual menina da sua idade não se encantaria por ele? – perguntou retoricamente. – Mas confesso que quando percebi o quão sério era o relacionamento de vocês, me preocupei um pouco. Porque embora você seja madura e responsável, você só tem dezessete anos para estar tão envolvida assim.
– E... você ainda pensa assim? – perguntei com cautela.
– Não. – ela rira novamente. – Você cresceu, Bella. Embora ainda seja minha menina, e será assim sempre, você não é mais aquela garotinha de quatorze, quinze anos, que brigava constantemente com a irmã e tentava chamar a atenção minha e de seu pai.
Fiz uma careta.
– Tenho vergonha dessa época.
– Não tenha. – suas mãos afagavam as minhas. – Foi apenas uma fase. A maioria dos adolescentes passa por um período de revolta. Sua irmã também passou por isso. Inclusive eu.
– Sério?
– Sim. E olha que o meu período de revolta adolescente durou bem mais tempo que o seu.
Sorri.
– Como eu estava dizendo, não me preocupo mais. O que ambos, você e Edward sentem um pelo outro é genuíno, é sincero, é muito real. E não importa se você tem dezessete ou trinta e sete anos, não há idade para o amor. Eu só quero que você seja feliz, e é o que você tem demonstrado desde que ele entrou em sua vida. Nunca a vi tão radiante, o brilho em seus olhos sempre que Edward entra pela porta. Me dói ver você nessa profunda tristeza.
– Eu não entendo como você pode dizer que passar um período longe de quem a gente ama não é tão ruim. – disse em voz baixa, sentindo meus olhos se encherem de lágrimas novamente.
– Porque às vezes é bom sentir saudades de quem a gente ama, filha. Ruim é não ter alguém para sentir. Será uma separação de corpos, não de corações. E a ausência faz o amor crescer e fortalecer. A vontade de ver, de estar junto, de ouvir a voz, a ansiedade pelo reencontro... só ajudam a superar o tempo longe. Eu sei que dói, mas vocês verão o quão forte estarão quando ele retornar.
Minha mãe levou uma de suas mãos até meu rosto, e afagou minha bochecha.
– Edward sabe o que Esme conversou com você ontem à noite pelo telefone?
– Não. – falei, enxugando uma lágrima que escapou de um dos meus olhos.
– Bom. – disse ela.
– Eu preciso ir. – disse, me levantando.
– Gostaria muito de ir ao aeroporto.
– Você já se despediu dele ontem, mãe. Você, o papai e Alice.
– Eu sei. Mas gostaria de acompanhar você.
– Rosalie está indo com Emmett, ela vai voltar comigo.
– Certo.
– Diga a Edward que mandei um beijo e que ele volte logo. – ela sorriu e me abraçou.
Subi novamente para o meu quarto, lavei o rosto e escovei os dentes. Peguei a chave do carro e a edição de ‘O Mercador de Veneza’ que comprara na terça passada para Edward, junto com a edição de ‘A Viagem’ que comprara para mim, depois do anúncio da adaptação deste livro para a nova peça no Espejo. Desci, despedi-me da minha mãe e dirigi até a casa de Edward.
Parei o carro na frente da casa dos Cullens, e peguei o pacote embrulhado no banco ao meu lado. Suspirei e sai do carro, caminhando até a porta de entrada. Assim que toquei a campainha, Esme apareceu para abrir para mim.
– Bella. – cumprimentou-me, me abraçando em seguida.
Retribuí o abraço e entrei junto com ela.
– Edward está no quarto, terminando de arrumar suas coisas. Desde que acordou ele faz isso e parece não ter fim. – ela sorriu.
Assenti com a cabeça.
– Você está bem, querida? – perguntou-me em voz baixa com uma preocupação evidente.
Antes que eu respondesse, Edward surgiu pelas escadas.
– Eu te liguei, mas você não respondeu minhas chamadas. – disse ao se aproximar, dando-me um abraço e beijando o topo da minha cabeça. – Bom dia.
– Eu... não sei onde coloquei o meu celular. – o informei, o que era verdade. Quando Esme me ligou na noite passada, logo após Edward chegar em casa ao sair da minha, eu não fazia idéia de onde o tinha colocado.
Edward soltou-me do abraço e analisou o meu rosto.
– Oh, Bella... – ele disse, me abraçando novamente.
– Eu... vou para cozinha. – disse Esme.
Assim que estávamos a sós, deixei novamente as lágrimas rolarem livremente, molhando a camisa de Edward enquanto ele me abraçava apertado, afagava minhas costas e depositava beijos suaves em meu cabelo.
– Desculpa. – falei chorosa. – Eu sei que eu disse que hoje eu não iria chorar.
– Não se desculpe. – sussurrou. – Eu quem tenho que me desculpar, por estar causando tanta dor em você, em nós dois. Se eu não tivesse aceitado...
– Não. – me afastei do seu peito e o encarei com o rosto inchado e os olhos vermelhos de chorar. – Conversamos sobre isso ontem. Você não tem que se lamentar. Esse trabalho vai ser bom para a sua carreira. – falei com a voz embargada pelo choro.
– Mas eu prometi, Bella. Prometi que não ia mais viajar. – eu podia vir em seus olhos que ele estava prestes a quebrar.
– Isso foi depois de você ter aceitado esse trabalho, Edward. – lembrei a ele.
Ele suspirou e acariciou o meu rosto.
– Eu juro, essa é a última vez. Eu não vou mais sair de perto de você. Nunca mais.
– Eu sei. – eu sorri, colocando minha mão por cima da dele.
– Eu te amo. – ele disse, colocando a outra mão no meu rosto.
– Eu também te amo.
Edward puxou o meu rosto e juntou nossos lábios, beijando-me suavemente.
– Eu trouxe isso para você. – falei quando nos afastamos.
– Um livro? – ele sorriu, pegando o pacote da minha mão.
– É. – dei de ombros, limpando o meu rosto. – Eu sei que você não terá muito tempo para ler, mas... não sei...
– Oh! ‘O Mercador de Veneza’. – ele me olhou. – Você sabe, ainda não vi o filme porque gostaria de ler o livro antes.
– Você disse isso outro dia. E-eu espero que goste.
Ele sorriu.
– Obrigado. – disse me olhando nos olhos, depois jogou um braço no meu ombro e me puxou para perto. Coloquei meus braços ao redor da sua cintura e ficamos assim, abraçados.
Minutos depois, nos afastamos e Edward sorriu para mim, pegando a minha mão para irmos até seu quarto. Silenciosamente e com um nó na garganta, ajudei-o a terminar de arrumar as malas. Esbocei um sorriso quando o vi colocar em sua mochila o meu casaco, que ele fez questão de levar para sentir o meu cheiro ao dormir e ao acordar, e o penduricalho que lhe dei no dia em que completamos dois meses de namoro.
– Eu posso ficar com essa? – perguntei quando peguei uma de suas camisas. Era a mesma que ele usara na primeira noite que dormimos juntos, em Long Beach.
Ele sorriu e afagou meu rosto.
– Claro.
No mesmo tempo em que terminamos, Esme apareceu na porta do quarto e nos chamou para almoçar, avisando que as pizzas haviam chegado. Descemos os três, e ao chegarmos à sala de jantar, encontramos todos lá. Carlisle, Jasper, Emmett, que havia sido dispensado do trabalho, e minha irmã com o seu pé engessado. Emmett, com suas costumeiras brincadeiras não permitiu que o clima de despedida se instalasse durante a refeição, que fluiu com uma conversa animada, arrancando risadas de todos.
Quando chegara hora de ir ao aeroporto senti meus olhos lacrimejarem mais uma vez quando Edward desceu as escadas, ajudado por Jasper, com as duas pequenas malas e a mochila nas costas. Deixei uma lágrima escapar quando Irina chegara para se despedir de Edward no momento em que estávamos saindo da casa. Depois de meses trabalhando para os Cullens, ela havia desenvolvido carinho pela família.
Na divisão dos carros, Carlisle e Esme seguiram sozinhos na Mercedes, Emmett e Rosalie no Jeep Wrangler, com Jasper no banco de trás, e Edward e eu no meu carro, com ele dirigindo, contudo suas malas foram no carro de Carlisle.
Quando saímos da propriedade dos Cullens, um carro atrás do outro, Edward perguntou-me se eu queria ouvir música, mas eu o informei que não havia nenhum CD no carro. Ele ligou o rádio, sintonizando numa estação que tocava ‘Sweet Disposition’, do The Temper Trap. Edward continuou dirigindo, e vez em quando acariciava a minha mão que estava em minha coxa. Duas músicas depois, começou a tocar ‘I Will Miss You’, do Ronan Keating. Ambos ficamos em silêncio, enquanto a música rolava, ouvindo atentamente. De repente comecei a sentir o nó na garganta de novo, e percebi que Edward segurava com força o volante. Antes da música terminar, mudei de estação. Tocava agora ‘How You Remind Me’, do Nickelback. Mas logo a tensão voltara quando a próxima música tocou, ‘I’ll Be Missing You’, do Puffy Daddy. Fiquei olhando a janela, ouvindo a letra e sentindo o meu estômago revirar. E quando o refrão começara a tocar pela segunda vez, Edward desligou o rádio, fazendo-me suspirar de alívio. E o resto do caminho foi feito em silêncio.
No aeroporto, Edward estacionou o carro ao lado da Mercedes e Emmett parou ao lado do meu. Abri o lado da minha porta e Edward veio ao meu encontro, entregando-me a chave e segurando a minha mão. Ele sorriu, e eu lhe sorri de volta, tentando parecer forte, embora estivesse um caos por dentro. Edward jogou a mochila em um ombro, e o seu pai colocou suas malas no carrinho, e então seguimos para o interior do aeroporto.
Ficamos do lado do outro o tempo todo e não conseguíamos tirar os olhos do outro por nenhum minuto. Ora nos abraçávamos, trocávamos carinho, seus dedos corriam suavemente pelo meu rosto, pelos meus braços, seus lábios beijavam minha testa e minha cabeça a todo instante.
Nos braços de Edward, tinha perdido a noção do tempo quando Carlisle se pronunciou.
– Está na hora, filho.
Meu corpo ficara dormente de repente e Edward respirou fundo, olhando em seguida para mim.
– Eu tenho que ir. – disse ele lentamente.
– Eu sei. – minha voz era só um sussurro.
Edward me soltou e foi se despedir dos irmãos e dos pais. Quando Esme o abraçou e começou a chorar, senti as lágrimas caindo fluidamente pelo meu rosto. Ouvi Edward dizer aos pais que os amava, enquanto eles diziam o mesmo de volta, dizendo-lhe para se cuidar e que o veriam no mês que vem. Rosalie o abraçou e desejou boa viagem.
Edward se virou e voltou, parando na minha frente, não consegui abafar os soluços quando vi uma lágrima caindo dos seus olhos.
– Bella. – ele pronunciou num tom baixo enquanto nos encarávamos.
Joguei meus braços em volta do seu pescoço e Edward pôs os braços ao redor da minha cintura, me apertando contra o seu peito.
Ficamos durante longos minutos abraçados em silêncio, sem nos importarmos com a platéia que nos assistia. Eu não queria soltá-lo, e pelo que parecia, ele muito menos. Ouvimos o vôo de Edward para Los Angeles ser anunciado, onde ele faria uma conexão, para em seguida pegar um vôo direto para Londres.
– Vou sentir tanto sua falta. – murmurou enquanto nos afastávamos vagarosamente.
Suas mãos seguraram o meu rosto.
– Vai passar rápido. – ele sorriu fraco, embora os seus olhos só demonstrassem tristeza. – Quando menos esperar, estarei de volta. Vou te mandar e-mails e te ligar todos os dias. Você nem vai sentir minha falta.
– Impossível. – tentei sorrir.
– Você instalou o skype no computador?
Assenti com a cabeça.
– Você me promete que vai ficar bem? – ele pediu, olhando-me com toda intensidade.
Olhei para baixo. Eu não conseguia falar.
– Por favor, Bella. – suplicou, erguendo o meu queixo.
– Eu vou ficar bem. – murmurei, com um nó na garganta.
– Eu te amo. – ele disse, secando as lágrimas das minhas bochechas com beijos, pressionando os lábios nos meus com força em seguida. E então lágrimas silenciosas começaram a cair dos meus olhos novamente enquanto nos beijávamos. Podia sentir o gosto salgado delas.
– Edward? – ouvimos a voz de Carlisle novamente.
Trocamos alguns selinhos e então descolamos nossos lábios do outro.
– Vou te ligar quando chegar no LAX.
– Vou esperar sua ligação.
– Eu te amo, Bella. – disse novamente, dando-me um breve beijo nos lábios, outro no nariz e por último em minha testa.
– Eu te amo. Muito. – sussurrei de volta.
E então ele me soltou e começou a se afastar.
– Cuide-se. – disse, fungando.
– Me espere. – ele pediu quase em voz alta para que eu escutasse de onde estava, se afastando lentamente.
– Sempre. – foi tudo que consegui dizer antes de Edward sair de nosso campo de visão.
Ele tinha ido embora.
Minhas pernas começaram a tremer e uma dor forte pulsava em meu peito quando desmoronei em lágrimas espessas novamente. E então fui abraçada por um par de braços. Não precisei olhar para saber que era Esme. Me agarrei a ela e molhei toda a sua camisa fina de seda, que afagava minhas costas, e entoava palavras de conforto em meu ouvido.
Minutos depois ouvi sussurros, e fora quando percebi que os outros ainda estavam ali parados. Suspirei e comecei a tentar me acalmar.
– Vocês podem ir andando para o estacionamento. Bella e eu iremos logo em seguida.
Senti uma mão afagar rapidamente o meu braço, e ergui a cabeça para ver que havia sido Carlisle. Ele beijou o topo da cabeça de Esme e começou a andar com os demais.
– Vou esperar você no carro. – disse Rosalie com um olhar pesaroso, indo embora ao lado de Emmett.
Quando todos se afastaram, Esme e eu afrouxamos o abraço. Ela abriu a própria bolsa e tirou um lencinho.
– Aqui. – disse, entregando-me.
– Obrigada.
– Vamos? – pediu. Assenti com a cabeça e ela enlaçou um braço ao meu, e então começamos a andar para o estacionamento do aeroporto.
– E... quanto ao que nós conversamos ontem? – perguntei, com a voz rouca.
– Você pode ir comigo amanhã de manhã? Eu sei que é sábado, mas...
– Posso. – a cortei. – Mesmo que fosse um dia de semana eu iria. O que eu tenho que levar?
– Todos os seus documentos. Você já conversou com Renée?
– Sim. Ontem mesmo, depois que encerramos a ligação. Ela não fez nenhuma objeção.
– E o seu pai?
– Minha mãe pediu para deixar que ela converse com ele. Disse que eu não me preocupasse.
– Ótimo.
– E... você acha que eu vou conseguir tirar? – questionei hesitante.
– Isso é o que você menos deve se preocupar. – Esme sorriu. – Tivemos sorte de Carlisle ter um amigo lá dentro. Minha única preocupação era o prazo. Mas a perspectiva é de vinte dias.
Quando chegamos ao estacionamento, antes de alcançarmos os demais, parei de andar, forçando-a a parar também. Ela me olhou confusa.
– Obrigada Esme. – agradeci e uma lágrima furtiva caiu de um dos meus olhos.
– Não me agradeça. – ela estendeu a mão e limpou a lágrima. – Esse é meu presente para você e para o meu filho.
– Vinte dias.
– Sim. – ela sorriu e me abraçou. – Vinte dias para o seu passaporte sair. Vinte dias para você encontrar Edward em Londres.
~.~.~.~.~.~.~.~.~.~.~
POV EDWARD
Assim que o avião pousou no LAX e eu pude sair da aeronave, liguei imediatamente para Bella, que atendeu o celular logo após o primeiro toque.
– Edward. – meu peito palpita quando ouço sua voz.
– Ei linda.
– Você está no LAX? Chegou bem?
– Sim, acabei de chegar. A primeira coisa que fiz foi ligar para você. E você, onde está?
– Em casa. No meu quarto. – ela respondeu.
Olhei para o relógio no meu pulso esquerdo, vendo que já eram quase quatro da tarde.
– Você não vai ao Espejo?
– Não. – ela faz uma pausa. – E-eu não estou com cabeça para fazer alguma coisa hoje. – disse lentamente e num tom baixo.
Era doloroso demais partir. Mas ver e ouvir a tristeza que eu obrigara Bella a passar por causa da minha viagem fazia da minha partida ainda pior. Eu me perguntava como lidaria esses dias sem ela.
E mais uma vez eu lamento ter aceitado esse papel. Eu sou o responsável por tudo isso, e nem posso voltar atrás depois de ter assumido o compromisso. Teríamos que conviver com a ausência durante esse tempo por minha causa.
Após uma longa pausa em silêncio, senti que precisava falar.
– Eu sinto muito. – disse a ela tristemente.
– Pelo que?
– Por fazer isso conosco.
– Não sinta, Edward. Conversamos sobre isso ontem. Nós vamos conseguir passar por isso.
Ouvi o seu suspiro do outro lado da linha.
– Eu já estou com saudades. – murmurou. Sua voz era melancólica.
– Eu também. – fechei os olhos e suspirei. – Estávamos juntos há uma hora e quarenta minutos e já sinto sua falta. Não sei se sou forte para agüentar ficar longe de você por tanto tempo.
– Você vai, Edward. Nós vamos.
Encerramos a ligação nos confortando mutuamente, trocando palavras de carinho e proferindo “eu te amo” ao outro, embora eu desejasse que pudéssemos permanecer pendurados na linha por mais tempo. Mas eu precisava pegar o meu vôo direto para Londres, e estava em cima da hora. Fora isso que escolhi. Então iria dar duro e suportar as semanas de dolorosa solidão.
Assim que encontrei o meu lugar, liguei para a minha mãe, avisando-a que já estava na aeronave e que em alguns minutos partiria. Falei rapidamente com o meu pai, e após terminamos a chamada, desliguei o aparelho e guardei em minha mochila, tirando o casaco de Bella de dentro dela, e o livro que ela me dera. Inspirei o seu cheiro no tecido e sentei em meu assento, encostando a cabeça, pensando no quanto seria difícil esses dias. Na última turnê com a peça, eu sempre voltava para casa em cada brecha que tinha na agenda para vê-la. Agora eu não poderia fazer isso. Não teria folgas e já havia recebido ordens expressas que não poderia voltar para a América antes dos dois fins de semana de apresentação. Só estaria livre para voltar para casa e para Bella quando tudo terminasse.
Contudo, não podia mentir que uma pequena parte de mim se empolgava com o motivo dessa viagem. Afinal, eu estava indo fazer parte de algo grandioso, indescritível e que qualquer pessoa não pensaria duas vezes em aceitar. Eu hesitara no início, por Bella, mas por fim aceitei por receio de um dia vir a me arrepender caso eu recusasse o papel. Na época os meus sentimentos por Bella já eram muito fortes, sempre foi, mas eu não imaginara que ter de me ausentar durante esses dias seria profundamente doloroso. E agora, que ela havia se tornado a minha vida e todos aqueles sentimentos fortes transformaram-se em amor, eu tinha certeza que se essa proposta estivesse sendo feita agora, eu recusaria sem receios e arrependimentos.
Eu a amo demais. Nunca senti algo parecido assim por ninguém, nunca chegou perto. Eu a quero tanto que tenho medo de fazer algo errado. Não sou perfeito, mas com Bella eu sempre quero fazer o certo. Quando estamos juntos, nada mais importa. Tudo era muito emocional e quando nos beijávamos, era mais que junção de lábios, era junção de almas. Estávamos a apenas um passo de nos unirmos por completo, de corpo e alma. Mas na noite passada, por muito pouco eu fizera tudo errado. Por pouco não perdia a cabeça e levava sua virgindade de forma rápida e precipitada. E eu nem tinha uma camisinha. Eu não ando com elas. Antes de Bella ainda colocava alguma na carteira em caso de necessidade, embora eu só tenha usado uma vez desde que cheguei em Sacramento, meses atrás. Deus, eu nunca fiz amor. Bella seria minha primeira, e eu estava a um segundo de estragar tudo para ela. Ela merecia que fosse especial, sem pressa, e não debaixo do teto de seus pais. Nós nos arrependeríamos depois, como já estou agora, sem mesmo ter acontecido. Caso Renée não tivesse chegado àquela hora, eu não sei até onde teríamos ido.
Eu não queria que a primeira vez dela fosse assim. Ou melhor, eu não quero que a nossa primeira vez fosse assim, por impulso. Numa escala de desejos, fazer amor com Bella é o que mais anseio, e desde o dia em que conversamos, quando ela anunciara que estava pronta e que queria isso também, eu não conseguia parar de pensar sobre o assunto. E eu sei que ela estava. Depois de vários momentos de intimidade que compartilhamos, estávamos prontos para o último passo. Tinha preparado tudo no barco. O quarto, as velas, o jantar. Então houve o acidente com Rosalie e tivemos que adiar. Não vou mentir, me senti frustrado. Assim como Bella também ficara. Eu mal dormira na noite anterior, pensando em todas as coisas que iria fazer para tornar nossa primeira vez especial. E na noite passada, por pouco, eu teria estragado tudo.
Ontem à noite, após chegar da casa de Bella, sentei-me no sofá e coloquei o rosto em minhas mãos. Não havia percebido a proximidade da minha mãe, apenas quando ouvia sua voz perguntando se estava tudo bem. Acabei desabafando todas as minhas frustrações para ela.
~ FLASHBACK ON ~
– Edward?
Ergui a cabeça e olhei para a minha mãe, parada na minha frente.
– Está tudo bem?
– Eu queria ter o poder de voltar no tempo. – disse a ela e joguei a cabeça para trás.
– Você está se referindo a ter aceitado esse trabalho? – questionou-me, sentando a meu lado.
Apenas assenti.
– Acho que nem preciso perguntar se é por causa de Bella. – ouvi o tom divertido da sua voz.
– Eu vou sentir falta de vocês também. Eu senti muito nos meses fiquei nesta casa sozinho, antes de todos chegarem. Mas... não sei, com Bella eu... eu não sei se vou suportar ficar longe dela esses dias. – pus as mãos no cabelo em frustração.
– São tipos de amores diferentes, Edward. É totalmente compreensível que você sentirá muito a falta dela. Como se tivessem tirado partes de você. Porque você a ama, amor de homem para mulher. É diferente de amor entre irmãos, amor ao pai, amor à mãe. – ela alisou o meu cabelo. – Quando nascemos, somos destinos a encontrar a nossa metade, para nos sentirmos completos. E quando encontramos, o nosso lugar é onde ela estiver.
Virei-me e olhei no rosto da minha mãe.
– Você acredita nessas coisas de destino?
– Sim. Não acredito que as coisas aconteçam por acaso.
– Bella é minha metade. – pausei e olhei para as minhas mãos. – Eu a amo. Tanto que às vezes sinto medo.
– Do que você tem medo?
– Não sei. De tudo e nada em específico.
– Elabore, filho. – ela pediu.
Como explicar? Nem eu sabia direito do que eu tinha medo.
– Não é insegurança quanto aos meus sentimentos ou os dela, nosso amor é recíproco. – esclareci. – E-eu não sei. Eu não quero magoá-la, mãe. Nunca. Eu... eu só tenho medo de desapontá-la, de fazer algo errado. E hoje mesmo eu quase fiz. – esfreguei meu rosto com as mãos com a memória.
– O que você fez? – perguntou minha mãe, hesitante.
– Eu... eu quase... quer dizer, nós... nós quase fizemos sexo. E então Renée chegou.
– Oh! – minha mãe olhou-me horrorizada. – Ela... pegou vocês?
– Não! A porta estava trancada.
Esme soltou um suspiro de alívio.
– Mas... ela viu a... – parei sem ter certeza se deveria terminar. Poxa, eu estava falando da minha intimidade para a minha mãe! Nós nunca conversamos sobre isso!
– O que ela viu? – ela me incentivou a continuar.
Sorri embaraçado com a situação.
– É estranho falar essas coisas com você, mãe.
Ela sorriu.
– Não entendo por que é estranho. Eu sei o que é sexo, Edward, ou você não estaria aqui.
– Certo, certo, mãe. – revirei os olhos e sorri.
– E então. O que Renée viu?
– Bem, nós estávamos sem roupas e quando ela bateu na porta nos vestimos rapidamente. Mas não conseguíamos encontrar a calcinha dela em nenhum lugar e quando Renée entrou, ela a viu. No chão.
– Sério? – Esme colocou a mão na boca para abafar o riso.
– Não ria, mãe. – adverti, mas a verdade era que eu também estava rindo. – Foi constrangedor. Para todos nós. Ela praticamente saiu correndo do quarto. E eu não conseguia nem olhar no rosto dela agora, há pouco, quando estava me despedindo. Eu não conseguia nem olhar para Charlie, imaginando se ela tinha contado o que viu.
– Não é algo que Renée faria.
– Eu sei, mas... não sei. Eu fiquei com receio.
– Certo. Mas ainda não entendi onde está o erro que você quase cometeu que o deixou assim.
– Mãe, Bella estava doente. Ainda está na verdade, embora ela insistisse que não. O que eu estava pensando? Eu sei que teria ido até o fim se Renée não tivesse chegado. Eu não estava pensando na hora.
– Era... só uma despedida, Edward.
– Não era uma despedida. – sacudi a cabeça. – Seria nossa primeira vez.
– Oh!
– É. – exalei. – Bella... é virgem.
– Eu achei que vocês já tinham... – ela parou.
– Não. Nós não.
– Bem, nesse caso...
– Nesse caso eu teria estragado tudo que planejara para nossa primeira vez. – a cortei. – Eu não estava pensando. No segundo antes que Renée batesse à porta, eu estava prestes a... – espremi os olhos. – Você sabe. – suspirei e balancei a cabeça.
– Nem sempre precisa ser planejado, Edward. Eu arriscaria dizer que quase sempre nunca é planejado.
– Eu sei que não. Mas eu queria que comigo e com Bella fosse diferente. Ela merece que seja especial. Bella significa muito para mim para que eu fizesse as coisas precipitadamente.
– Você é igualzinho seu pai. Tão romântico. – minha mãe sorriu. – Tenho orgulho de você.
– Não tenha, mãe. Não enxergo romantismo em nada do que fizera mais cedo. Eu agi sob influência dos meus hormônios.
– Claro que sim. Você só tem vinte e um anos.
– Que poderia engravidar a namorada de dezessete anos por ser irresponsável. – pendi o corpo para frente e coloquei os cotovelos em meus joelhos.
– Oh! – exclamou Esme surpresa. – Você esqueceu o preservativo?
– Eu não tinha um. Não ando com eles.
– Edward! Não me diga que você costuma fazer sexo sem proteção? – ela me repreendeu.
– Não! Não é assim, mãe. Eu nunca fiz sem camisinha. Nunca. Nem mesmo com Victoria ou Tanya. Você sabia sobre Tanya, que ela tinha um medo enorme de engravidar. Ela me fazia usar mesmo tomando pílula.
– Desculpe a minha indiscrição. Eu não me referia as suas ex-namoradas, embora me agrade que você se protegia mesmo com elas. Eu só me preocupo com encontros casuais, o que não é o caso aqui. Mas eu sempre me preocupei com você e seus irmãos, principalmente com Emmett. Fiquei tão feliz quando ele sossegou ao conhecer Rosalie.
– Eu entendi.
– Tenho que dizer que fora um alívio então Renée ter aparecido antes que... – ela deu uma pequena pausa. – Bem, antes que as coisas tivessem ido um pouco longe entre vocês dois. Tenha cuidado da próxima vez, Edward. Digo por experiência própria, você sabe. Engravidei do filho que perdi na primeira vez com o seu pai, e quando tinha a idade de Bella. E embora eu não me arrependesse do que fizemos e quisesse muito que a gestação não tivesse sido interrompida, não vou negar que foi um choque saber que eu carregava um bebê em meu ventre. Vocês ainda são muito jovens para tal responsabilidade.
– Não vai mais se repetir. – disse com a cabeça baixa.
– Vocês conversaram sobre isso depois? – indagou.
– Mais ou menos. A forma que Renée saíra do quarto como se tivera cometido um crime foi um pouco engraçado, então nós rimos um pouco. – sorri fraco, recordando. – Mas, quando passara e eu me conscientizei do que quase tínhamos feito, eu comecei a pedir desculpas. Bella não queria que me desculpasse, alegando que ela quem pedira, e eu lhe disse que teríamos muito tempo quando eu retornasse. Mas falar da viagem a fez chorar de novo, e então não conversamos mais sobre o que acontece no quarto. Apenas, fiquei tentando reconfortá-la e não externar minha tristeza para não piorar a dela. Eu estou me sentindo quebrado, mãe.
– Eu sei, eu entendo. Senti dor pior quando meus pais resolveram mudar de país na época que eu namorava seu pai.
Olhei para Esme, vendo a lembrança do passado assombrando em seus olhos.
– Eu não suportaria que me separassem de Bella. – disse a ela.
– E nem ela de você.
– Maldita hora que assinei esse contrato. – falei, puxando meus cabelos.
– Não, Edward. Não diga isso. Você não pode sentir raiva do que você está indo fazer, ou você não terá um bom rendimento. E eu sei que não é isso que você quer.
– Eu sei. Eu só... eu só gostaria de poder voltar. Nem que fosse por um dia. Só para vê-la e matar a saudade que já estou sentindo por ela.
– Mas você não pode. – ela afirmou.
– Não. – balancei a cabeça.
Ficamos longos minutos em silêncio, antes de Esme interromper o silêncio.
– Vá para o quarto, Edward. Você precisa descansar e acordar cedo para terminar de arrumar suas coisas.
Assenti, e então levantei-me do sofá.
– Você não vai dormir agora? – perguntei.
– Daqui a pouco. Vou beber um copo de água.
Inclinei-me para baixo e beijei o topo de sua cabeça.
– Boa noite, mãe.
– Boa noite, filho.
~ FLASHBACK OFF ~
Após a decolagem, decidi gastar as mais de dez horas de vôo lendo o livro que ganhara de Bella. Quando abri, vi que ela escrevera na parte de trás da capa.
Um livro de cabeceira. Para que todas as vezes que você olhar para ele lembre de mim, como o primeiro pensamento ao acordar, e o último antes de dormir.
Te amo, Bella.
Sorri e senti-me emocionado. Eu não precisava de um livro na cabeceira para pensar nela, porque ela simplesmente não sai da minha cabeça. Nem mesmo quando estou dormindo. Constantemente Bella habitava os meus sonhos.
Meus pensamentos, meu coração e minha vida. Eram tudo dela.
~.~.~.~.~.~.~.~.~.~.~
Abri os olhos e despertei preguiçosamente ao ouvir a voz do comandante de vôo anunciando que estávamos prestes a pousar no Heathrow. Informara também que eram dez e meia da manhã, e a temperatura na cidade era de 5ºC. Ajeitei-me na poltrona do avião e abri a persiana da janela, vendo a luz do dia nublado em Londres. Afivelei o cinto e aguardei a aterrissagem.
Em terra e com saída dos passageiros liberada, peguei minha mochila no compartimento para volumes acima da poltrona e guardei o casaco de Bella e o livro, tirando meu casaco quente azul-marinho e com capuz de dentro. Vesti-me e saí da aeronave.
Após pegar minhas malas na esteira, segui em direção ao portão de desembarque, encontrando o Sr. Jones à minha espera.
– Grande Edward. – disse ele, dando-me um abraço camarada, com tapinha nas costas.
– Ei Sr. Jones. – retribuí o abraço. – Pensei que David que viria.
– Sim, era ele. Mas surgiu algo de última hora. E então como foi o vôo?
– Tranqüilo e cansativo. – disse após um suspiro. – Terei que me acostumar com o fuso.
– Aposto que está com sono. – ele sorriu enquanto caminhávamos pelo aeroporto.
– Um pouco.
– Vou levar você para o hotel, assim pode tirar o dia para descansar.
– É. Preciso de uma cama e um hambúrguer.
– Fome?
– Super. Comida de avião é uma droga.
– Ainda não tive meu café da manhã então que tal uma parada no Burger King?
– Não era preciso nem me perguntar. – sorri. – Também preciso comprar um celular local.
– Paramos em algum lugar depois do Burger King.
Uma hora mais tarde, com um celular novo, alimentado e cansado, Sr. Jones me deixava no hotel The Ritz.
– Vejo você no Espejo amanhã, Edward. É apenas uma reunião com todo o elenco, diretor, produção, enfim, toda a equipe. Só na segunda começam os ensaios.
– Tem certeza que não preciso aparecer hoje? – perguntei.
– Não. Hoje vamos dar uma passada no teatro para ver como andam os acabamentos. Você não precisa ir.
– Ok, então.
– Bom descanso. – ele bateu no meu ombro e depois saiu.
Após o check in, com hospedagem toda paga pelos patrocinadores e pelo CTE de Londres, recebi minhas chaves e pude então seguir para o meu quarto no sexto andar. Dei uma gorjeta ao funcionário que me ajudara com as malas e após sua saída me joguei na cama.
O quarto era um luxo, assim como todo o hotel. Quando soubera dias atrás que ficaria hospedado aqui tentei argumentar que não fazia questão em ficar num hotel cinco estrelas, mas eles disseram que já estava feito e que não me preocupasse quanto a isso.
Tirei meu relógio de pulso, que não gostava muito de usar, mas colocara porque não poderia ligar o aparelho celular no avião para ver as horas, e o coloquei no criado-mudo. Tirei o tênis com os pés e peguei o celular da minha mochila, colocando-a no chão. Liguei o a aparelho e encontrei duas mensagens, uma de Bella e uma da minha mãe, pedindo para ligar quando chegasse em Londres. Mas eram três e meia da manhã em Sacramento e elas estariam dormindo, não queria acordá-las. Peguei o meu celular novo e salvei os números. Ligaria mais tarde.
Apaguei todas as luzes e fechei as cortinas, pegando no sono em seguida.
~.~.~.~.~.~.~.~.~.~.~
Quando abri os olhos, senti-me desorientado por um momento quando olhei para o quarto escuro e estranho. Só então lembrei onde estava. Lentamente, levantei-me da cama, liguei a luz e pedi água ao serviço de quarto.
Depois que a água chegou, peguei meu celular novo e vi que eram quase cinco da tarde. Em Sacramento ainda nem era nove da manhã. Bella já estaria acordada, então resolvi ligar para ela.
– Alô? – ouvi a voz doce do outro lado da linha.
– Sou eu, Edward. – sorri.
– Eu sei, pelo número estranho. – ela deu uma risadinha.
– Comprei um celular local quando cheguei. Como você está?
Ela suspirou.
– Bem. E você, como foi de viagem?
– A viagem foi tranqüila. Ruim é me acostumar com o fuso horário. Dormi a tarde inteira.
– A tarde inteira? Aqui ainda faltam quinze minutos para as nove. – ela disse e então ouvi alguém chamando-a pelo nome.
– Você está em casa? – perguntei.
– Er... não.
– Onde você está?
– Onde estou? – ela perguntou.
– Sim, onde você está? – por que ela estava tão hesitante em responder?
– Eu estou... er... – ouvi alguém falar novamente ao lado dela. – No shopping. – disse por fim.
Eu não estava gostando nada disso.
– Quem está aí com você?
Houve um breve silêncio antes dela responder.
– Sua mãe.
– Minha mãe está aí com você? – perguntei confuso.
O que minha mãe e Bella estão fazendo a essa hora num shopping?
– Sim. Nós viemos fazer compras. – respondeu Bella. – Você... quer falar com ela?
– Por favor.
Segundos depois, minha mãe respondeu.
– Bom dia filho.
– Oi mãe. O que você e Bella estão fazendo num shopping? E desde quando está aberto a essa hora?
– Então, Edward, nós chegamos aqui e esquecemos este detalhe. Eu queria comprar um vestido que vi outro dia. Sabe como é, receio de não encontrá-lo mais. Convidei Bella para me acompanhar.
– Hmm. – sibilei.
– E então como foi de viagem?
Conversei um pouco com minha mãe, depois com Bella novamente. Nos despedimos e avisei que ligaria mais tarde de novo.
Após encerrar a ligação, fui ao banheiro e tomei um longo banho quente. Enrolado na toalha, voltei para o quarto e abri uma das malas, pegando uma boxer. Conversar com minha mãe só aumentou minha vontade de visitar meu avô em Barnes, algo que programei fazer apenas amanhã. E fora o que fiz quando me troquei, colocando um jeans escuro, uma camisa preta, outra de xadrez por cima e o casaco azul-marinho que estava mais cedo, quando cheguei ao aeroporto. Peguei minha carteira e tomei um táxi, indo em direção ao lugar que vivi durante vinte anos.
Após pagar o táxi, fiquei parado na calçada olhando o movimento na rua e as casas que eu costumava achar familiar. Era tão estranho estar aqui e não me sentir em casa. Minha casa era em Sacramento agora. Ao lado da minha família e da minha garota. Minha casa era onde Bella estivesse.
Coloquei o capuz na cabeça e saquei as mãos nos bolsos do casaco, caminhando em direção ao endereço do meu avô. Esbarrava com algumas pessoas na rua, mas não encontrei nenhum rosto conhecido. Talvez eu encontrasse alguém na antiga rua em que eu morava, embora quase todo mundo tenha se mudado. Mas isso ficaria para outro dia.
Ao parar na frente da casa que eu costumava freqüentar quando menino, sorri ao ser assaltado pelas lembranças de infância. Lembro de um dia, quando tinha oito anos e estava sentado nos degraus da porta de entrada com os braços cruzados e emburrado, sem querer entrar.
~ FLASHBACK ON ~
– Por que está com essa cara, meu menino?
– Minha mãe proibiu o vídeo game.
– Se ela proibiu, foi por algum motivo. – disse meu avô se sentando ao meu lado. – Mas sabe, você vai passar o domingo com o vovô e sua mãe já vai embora.
Permaneci calado, então ele continuou.
– E você sabe que aqui tem vídeo game também.
– Sei. – falei, fazendo um bico.
– E você sabe que sua mãe vai embora.
– Você já disse isso.
Ele gargalhou e me deixou confuso.
– Por que você está rindo, vovô?
– Porque aqui você pode jogar, meu menino.
– Sério? – perguntei, descruzando as mãos e me levantando num átimo.
– Sério. Agora vamos entrar e venha se despedir da sua mãe.
Ele me pegou nos braços, e eu joguei meus braços ao redor do seu pescoço.
– Você é o melhor avô do mundo.
~ FLASHBACK OFF ~
Caminhei em direção à porta e toquei a campainha. Segundos depois, o velho Sr. Evenson abria a porta.
– Não pode ser... – ele murmurou, me fitando.
– Não vai convidar o seu neto para entrar? – sorri.
– Edward. – ele disse, emocionado. – Venha dar um abraço nesse velho avô.
Assim que pus os pés dentro da casa, o abracei.
– Meu menino. – ele disse.
– Senti sua falta, vô.
Depois de um longo abraço, nos afastamos e ele fechou a porta.
– O que você está fazendo aqui? Você não estava na América?
– Vim trabalhar. Eu disse a você no Natal por telefone que viria encenar uma peça de reinauguração do Royal.
– Disse, mas eu não sabia que seria agora. – murmurou, franzindo a testa. – Venha, sente-se aqui. Você quer um café? Acabei de fazer.
– Quero sim.
– Nem preciso dizer que fique à vontade. Essa ainda é sua casa. Já volto.
Sorri para ele e me sentei no sofá branco de longas datas, mas que ainda estava intacto, quase como novo. Olhei ao redor, vendo tudo do mesmo jeito como há meses atrás, quando fui embora. A mobília, a velha poltrona negra, as fotos da vovó, da minha mãe, minha e dos meus irmãos, os quadros na parede.
– Aqui, filho. – ele me entregou a xícara.
– Obrigado, vô. – peguei de sua mão e dei um gole. – E então, como andam as coisas por aqui?
– Na mesma. Quase nada mudou na verdade.
– Eu posso ver. – falei, olhando ao redor.
– Como está Esme?
– A mamãe está bem. Falei com ela há pouco tempo no telefone. Mandou um beijo e avisou que telefonaria amanhã.
– Como todos os domingos. – ele sorriu, bebendo o café da própria xícara. – E o seu pai e seus irmãos?
– Papai está de férias do hospital. Jasper cursando Direito, começou a estagiar e Emmett também continua trabalhando. Todos estão bem.
– E você ainda no teatro?
– Por enquanto. Estou querendo deixar um pouco de lado para entrar numa Universidade no próximo semestre.
– Seguir os passos do seu pai. – ele sorriu.
– Algo assim. – sorri. – Mas quero a área de pediatria.
– Bonito da sua parte. Cuidar de crianças. – ele deu outro gole no café. – E quando você me concederá um bisneto?
Engasguei com o café.
Meu avô se levantou e bateu em minhas costas.
– Se eu soubesse que você ficaria nervoso, não teria perguntado. – ele gargalhou.
Quando me recuperei, não pude evitar sorrir.
– Ainda é cedo. – consegui responder.
– Bella, não é?
– Sim. – estiquei os lábios num sorriso orgulhoso.
– Olha como você está apaixonado. – ele murmurou, sorrindo. – Sorriso bobo e um brilho nos olhos só com a menção do nome.
– Estou. – assenti, alargando ainda mais o sorriso. – Eu a amo.
– Nem precisava dizer para eu descobrir. Você teria uma foto dela?
– Droga. Não. – lamentei. – No meu outro celular tem várias fotos dela, mas ficou no hotel. Da próxima vez que vir visitá-lo, mostrarei.
– Você está num hotel? – perguntou franzindo a testa.
– Sim. No The Ritz.
– Por que se você tem aqui e a antiga casa do seu pai para ficar?
– É tudo pago pela companhia de teatro e os patrocinadores. Eles queriam que eu ficasse hospedado em um hotel próximo do local onde serão os ensaios.
– Hmmmm.
– Se não fosse por esse motivo, com certeza eu ficaria aqui.
E então a campainha tocou.
– Deve ser Harry. – disse meu avô, se levantando para abrir a porta.
– E aí, Roger. Pronto para levar outra surra no xadrez? – perguntou a pessoa do lado de fora.
– Nos seus sonhos. Entra aí. Meu neto está aqui.
– Oh! Jasper, quanto tempo!
Sorri.
– Olá Sr. Gregson.
– Este é Edward! Não Jasper.
– Oh, sim, sim. Edward.
– Você ainda freqüenta o clube do xadrez aos sábados à noite, vô?
– Religiosamente.
– Então acho que não cheguei em boa hora.
– Você pode vir conosco.
– Não, não. Não quero atrapalhar.
– Claro que ele não vai, Roger. O que um jovem como ele iria fazer num clube de velhos em pleno sábado à noite? – questionou Harry.
Meu avô rolou os olhos.
– Eu posso ficar, Edward. Um sábado só não...
– De jeito nenhum. Não quero que mude seus planos por minha causa. Eu ficarei aqui por mais de um mês, voltarei outro dia.
– Tem certeza, meu menino?
– Absoluta. – disse, me levantando. – Ainda estou perdido com o fuso horário. Sinto que não dormi o suficiente, e amanhã preciso acordar cedo.
– Tudo bem então. Você já jantou? – perguntou.
– Não, mas comerei algo no hotel. Não se preocupe. – sorri, colocando minhas mãos nos bolsos do meu jeans.
– Quando você virá novamente?
– Logo. Eu tenho muito o que fazer ainda, mas assim que me organizar ligarei para você e podemos marcar algo juntos. Como nos velhos tempos.
– Sim. Me ligue. Temos muito o que fazer para recuperar o tempo perdido.
Meu avô levou-me até a porta e então nos despedimos.
– Não esqueça do seu velho aqui.
– Nunca. – falei, e saí para a calçada.
Olhei para trás e o vi acenar da porta. Acenei de volta, e então fui caminhando pela calçada, para pegar um táxi de volta para o hotel. Segui pelas ruas de Barnes, olhando as antigas casas vitorianas e saboreando o clima frio que pairava na vila, que ficava a poucos quilômetros do coração de Londres.
Minutos mais tarde, após uma longa caminhada em que eu deixara passar alguns taxis, parei na esquina da Cross Street, que eu sabia de cor ser a rua do The Brown Dog. De repente senti-me muito faminto ao recordar as maravilhas que serviam lá. Então, resolvi dar um pulo.
Caminhei até a entrada e parei, sentindo o aroma delicioso dos pratos que costumava saborear nos tempos que morava aqui.
Quando estiquei o braço para abrir a porta, senti uma mão em meu ombro. Virei-me e dei de frente para a última pessoa que imaginei encontrar.
– Tanya?
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