A cápsula salva-vidas caiu vertiginosamente em direção ao planeta aquático. Sua aerodinâmica e sistema de amortecimento atenuaram o impacto na superfície do mar, contudo, algo não estava certo e a cápsula começou a afundar.

— Aguente mais um pouco, salva-vidas, aguente mais um pouco! — exclamou Don West, tripulante da nave Aurora escoltando um dos colonos sobreviventes.

— A nave não obedece a comandos verbais. Então, poupe seu fôlego. — Victor Dhar, reclamou azedo.

— Desculpe, Sr. Dhar. Força do hábito, por trabalhar enfurnado com máquinas.

Don West soltou o cinto de segurança de sua cadeira e acionou a máquina impressora 3D, a quem chamava de "fabricante". Em poucos minutos foi impresso um tanque de oxigênio e máscara para mergulho, bem como pés de pato. Ele entregou os objetos a Victor.

— O que? Não espera que eu faça um tour nesse ambiente alienígena. Nem sabemos se poderemos resistir no meio exterior.

— Li o PDA quando estava procurando uma cápsula salva-vidas remanescente. Este é um planeta aquático muito semelhante à Terra. Mesma pressão atmosférica, temperatura, radiação e minerais comuns aos dois planetas. Em suma … sobreviveremos.

Enquanto Don West falava, ele ia manufaturando equipamentos de mergulho para si também. A cápsula afundava lentamente, mas já estavam 5 metros abaixo do nível do mar. Pela escotilha superior, a água ainda deixava transparecer o céu azul rico em oxigênio, e o brilho da estrela amarela, semelhante ao Sol da Terra. Pela escotilha inferior, o leito do oceano era indistinguível na escuridão local. Era como se estivessem afundando para um lugar muito profundo e assustador.

Após se paramentar, Don tentou comunicação pelo Rádio de bordo.

— Aurora, Cápsula 19 falando. Sou Don West da Logística e transporte. Tenho um colono comigo, Victor Dhar. Nossa cápsula sofreu pane na amerrissagem no planeta 4546B. Estamos afundando lenta mais progressivamente. Atualmente 10 m abaixo da superfície do mar. Vamos abandonar a nave e procurar algo em que possamos nos apoiar, enquanto esperamos pelo socorro. 19 desligando. Deseje-nos sorte.

— Por que não podemos esperar pelo socorro a bordo? Não é como se pudéssemos sair nadando por aí a mercer de predadores alienígenas. Eu li meu PDA. Há Leviatãs aqui. Não teremos nenhuma chance se eles nos encontrarem.

— Tem razão! Por isso é melhor nos precavermos. — Don West concedeu. A seguir acionou o fabricante novamente e após alguns minutos, entregou uma pesada arma a Victor Dhar. E então passou a fabricar outra.

— Mas que diabos é isso? Não sou um soldado, mas um colono, um catedrático na terra, mestre em botânica e química orgânica. Eu me recuso a sair por aí com uma arma que nem sei usar. Provavelmente atiraria no próprio pé. Nosso treinamento de sobrevivência na Terra não incluía matar outros seres.

— Isto que lhe entreguei não é uma arma. É um Stasis rifle. É usado para paralisar objetos muito rápidos, para que possam ser estudados. O protocolo do Aurora nos impedia de termos ou fabricarmos armas, mas podemos manufaturar ferramentas. Esta que acabei de imprimir é uma ferramenta de repulsão. Serve para empurrar objetos pesados. E francamente, Sr Dahr, não pretendo enfrentar o que quer que esteja aí fora de mãos vazias.

Don olhou para o grande monitor na parede da cápsula que dava informações sobre o meio exterior: 25 m de profundidade e afundando. Com o tanque de oxigênio, poderiam aguentar uma profundidade de 200 m por alguns segundos, qualquer coisa mais profunda que isso seria suicídio.

Imprimiu mais algumas coisas: bússolas, facas, flares, lanternas. A seguir repartiu a provisão da nave: água estéril em garrafas e barras de comida concentrada e comprimida. Seu passageiro parecia muito desgostoso, e muito a contragosto se paramentou e acondicionou os objetos de sobrevivência nos bolsos de utilidades de seu traje.

50 m e afundando.

— Sr. Dahr, temos que sair agora.

— Precisamos mesmo? Pesando os prós e contras, podemos sobreviver uma semana nessa cápsula. E lá fora podemos morrer em um segundo. Uma semana de vida ainda é melhor que nenhuma vida.

— Depende da profundidade desse oceano. Se atingirmos 200 m de profundidade e pararmos de cair, podemos sobreviver por uma semana. Se a cápsula continuar a cair até 500 m, 1000 m, 2000 m, então a integridade da cápsula estará comprometida, e ela não aguentará a pressão, sendo comprimida como uma lata de cerveja vazia, e nos esmagando no processo. Então ao invés de 1 semana de vida, teremos apenas algumas horas. E nessa profundidade extrema, não adiantará nadar para chegar à superfície. O tanque de oxigênio não tem reservas para tanto.

Victor baixou a cabeça e ficou calado. Não havia argumentos contra a lógica, mas ele estava com medo. Como explicar isso ao outro?

— Eu já vou indo, Sr. Dahr. Se quer viver, me siga.

Don então abriu a escotilha inferior e mergulhou nas águas negras a sua frente. Tratou de se movimentar lateralmente, antes de ser comprimido pela cápsula em sua descida ao leito do mar. Um movimento às suas costas e ele viu que Victor o havia seguido. Don ligou a lanterna e tentou distinguir qualquer estrutura a sua volta. Havia dunas de areia e formações rochosas. O pálido brilho do sol daquele planeta lhe indicou o caminho a seguir. Ele fez um sinal para cima, para Victor, que assentiu com a cabeça. Ambos começaram a subir.

Don não viu o que o atingiu. Sentiu-se arremessado como uma peteca em um jogo de squatch. Ele parou de deslizar ao atingir uma estrutura rochosa. Não sentiu dor, pois algo gelatinoso amorteceu o impacto. Foi quando ele viu o que o atingiu. Uma enorme serpente, tremendamente brilhante, como um trem desgovernado, adornado com luzes de natal. Era magnífico e terrível. Por ventura 200 m de comprimento, e dadas as proporções, sua cabeça devia chegar quase a 10 m de diâmetro. Aquele ser poderia engoli-lo inteiro, sem mastigar. Suas armas eram como brinquedos de criança. Não fariam nenhum efeito naquele ser colossal.

Victor estava bem próximo a Don quando ele foi atingido pela cauda da serpente gigantesca e fulgurante. O medo falou mais rápido do que qualquer instinto de luta. Ele procurou o local que lhe oferecia segurança momentânea. Voltou a nado para a cápsula salva-vidas. Ao chegar em seu interior jogou-se ao chão e chorou baixinho de puro medo e de pena do jovem Don West, que encontrara um triste fim.

Algum tempo se passou até que ele percebesse um movimento continuado do lado de fora da cápsula. Ele olhou no grande monitor da cápsula: 350 m. Esse número se mostrou estável, sem que aumentasse gradativamente nos próximos minutos. Ele havia atingido o leito do oceano. Contudo, o movimento no exterior continuava a sacolejar a nave. Ele olhou para a escotilha superior e o exterior estava negro. Usou sua lanterna para iluminar o que quer que seja que estava lá fora. Alguma coisa se movimentava. Aliás, várias coisas, como pequenos animais. Alguns tentavam se aderir ao vidro da escotilha, mas logo se soltavam, por algum motivo.

Ao fim de uma semana, depois que sua ração havia acabado, e a bateria da lanterna se exaurido, Victor considerou a possibilidade de nadar até a superfície, ou quem sabe, conseguir algo para comer no leito do oceano. Nesse caso a fome e a sede foi mais forte que o medo. E ele resolveu sair.

Ao entrar em contato com o ambiente aquático foi atacado por pequenos animais, misto de ouriço do mar e lesma, que se atracavam ao seu corpo e sugavam seu sangue, ele ainda matou alguns com sua faca, mas a perca de sangue e os fermentos constantes, além da fome e sede, o fizeram desmaiar. E ele foi devorado por pequenas criaturas aquáticas.