Talassofobia
5 Explosão
John Robinson acordou com um galo na cabeça. A princípio não se lembrava de nada do que havia se passado. Então a memória lhe veio em flashes rápidos.
— Dra Smith me atacou por trás. Que cobra!
Ele saiu da cápsula e ficou de pé sobre sua base de ponta-cabeça. Já era noite e as águas assumiram uma coloração negra. O Aurora estava logo ali, com a maior parte das luzes de emergência acesas. Uma fumaça negra constante emanava de sua extremidade dianteira, e nenhum ruído se ouvia, a não ser o crepitar de fogo ao longe. O céu daquele planeta possuía duas luas. Uma enorme, de coloração laranjada, que parecia querer se fundir ao planeta, em simbiose, e uma outra lua menor, de coloração prateada, muito semelhante à única lua da terra.
John ficou admirando o céu, enquanto as luas se moviam ao redor do planeta. Ele não contou no relógio, mas a noite lhe pareceu durar apenas um par de horas, ao contrário das 12 horas da terra. Recordou a família que também havia caído no planeta, em cápsulas salva-vidas semelhantes à sua. Onde eles estariam numa hora dessas? Será que haviam sobrevivido à queda. Será que … ? Ele não queria pensar o pior. Não, seus meninos estavam firmes e fortes. Maureen tomava muito bem conta deles. Tinha que encontrá-los, mas como?
Ele voltou para o interior da cápsula e procurou pelo rádio. Estava inoperante e fumaçando. Procurou pelo PDA, mas não o encontrou. Lembrou-se da impressora em 3D da cápsula. Por tentativa e erro conseguiu imprimir uma outra ferramenta reparadora, com a qual consertou o rádio e o computador de bordo, que funcionava como um PDA gigante, com a tela projetada na parede da cápsula. Após ler diversos manuais no computador de bordo, resolveu imprimir as seguintes ferramentas: um construtor de habitats, um scanner portátil, uma faca com lâmina térmica, equipamento de mergulho, e um deslizador aquático, capaz de levá-lo velozmente de um lugar a outro, sem se cansar.
— A quem possa escutar. Aurora? Tem alguém vivo aí? Aqui é John Robinson, da cápsula salva-vidas 04. Estou bem próximo do Aurora. Uns 500 m. Minha cápsula está de ponta-cabeça, e minha passageira, Dra Smith, desapareceu. Acho que ela se aventurou nas águas enquanto eu estava desacordado. Maureen, você está bem? Will? Penny? Judy? Vocês estão bem? Se estiverem me ouvindo esperem por mim. Eu os encontrarei. 04 desligando.
Após paramentar-se em traje de mergulho, John resolveu enfrentar o desconhecido. Saiu da cápsula e mergulhou no mar. Durante o dia a água era limpa e era possível ver o leito arenoso, sem vegetação e sem vida aquática. O Aurora estava encalhado no leito arenoso, e a profundidade ali não devia passar de 20 m. Ele bem que pensou em ir ao Aurora, mas um brilho metálico no leito do mar o fez se aprofundar pra descobrir o que era aquilo. Ao aproximar-se mais percebeu que era sua ferramenta reparadora, seu PDA, e um crachá de metal, do tipo que os médicos usam em jalecos. Sabia o que era antes mesmo de apanha-lo: "Dra Smith". Teve pena do destino da doutora traiçoeira.
Pensando bem, talvez algo a tivesse impedido de se aproximar do Aurora. Talvez fosse melhor explorar as cercanias antes de confrontar seja lá o que fosse que estivesse protegendo a nave de invasores. Ele nadou um pouco mais pra longe do Aurora e percebeu um declive que levava a uma paisagem estranha, e ao mesmo tempo fantástica. Uma floresta de cogumelos. Um bioma inteiro com cogumelos gigantes a perder de vista. Ele resolveu explorar esse bioma e por isso mergulhou mais profundamente no que pareceu uma ravina. Talvez esses cogumelos fossem comestíveis.
O PDA então ativou-se automaticamente: "Emergência. Uma explosão no core do reator atômico do Aurora ocorreu. Detonação esperada em 5, 4, 3, 2, ..." O barulho da explosão propagou-se no meio aquático criando turbilhões, mais um brilho laranja que invadiu a área e deixou a audição e visão de John turvas, momentaneamente. O PDA voltou a informar: "Níveis de radiação letais ao redor do Aurora, na zona do acidente. É recomendável que use uma veste blindada contra radiações. Esquemas de fabricação acrescentados à impressora 3D."
Voltar à cápsula estava fora de cogitação. Por isso, usou o fabricante de habitats para construir uma pequena habitação muito semelhante a um tonel de combustível, com escotilha de entrada e placa solar na floresta de cogumelos. Ao adentrar em seu novo habitat arriou-se ao chão. Estava fraco e respirando com dificuldade. Construiu uma nova impressora 3D com o fabricante de habitat, e por fim uma veste blindada contra radiação. Após paramentar-se, seu estado geral melhorou sensivelmente. Quando estava bem nadou até a superfície. O Aurora agora tinha perdido a parte dianteira da nave e o que restou ardia em fogo contínuo. Aqui e acolá objetos ardentes eram arremessados da nave, como o resultado de pequenas explosões ainda acontecendo. Sem dúvida uma explosão maior ainda ocorreria.
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