Talassofobia
6 A ilha
Quando o técnico de logística e transporte da nave Aurora, Don West, foi arremessado pelo leviatã com forma de serpente gigante, translúcida, ele chocou-se contra algo mole e gelatinoso que amorteceu o impacto. Ao perceber-se vivo e sem maiores traumatismos, procurou algo com que se defender. Era impossível atacar um monstro daqueles, mas era possível sim, esconder-se dele.
Don foi adentrando cada vez mais a estrutura gelatinosa que se prolongava como um labirinto, ou como uma cadeia montanhosa com picos, como se fossem os Alpes invertidos. A serpente continuou em seu encalço, mas não havia forma de sua cabeça gigantesca penetrar no emaranhado de picos revestidos de gelatina. Após algumas rondas, a serpente brilhante se afastou.
Don aproveitou essa chance para tentar chegar à superfície, pois seu oxigênio estava no limite mínimo. Mais 5 minutos sob a água e ele morreria. Intuitivamente procurou por um facho de luz em meio à escuridão submarina. Havia um facho no meio do labirinto gelatinoso, e ele dirigiu-se para lá no fim de suas forças. Em poucos minutos ele chegou à superfície. Retirou a máscara de mergulho e se permitiu observar a vista ao redor. E que vista!
Ele estava no meio de um lago. Ao seu redor, praia, e à distância, montanhas, árvores. Ele riu e chorou por sua bem-aventurança. Nadou até à praia e galgou a areia fininha. Pensou em retirar o traje de mergulho, mas era melhor estar preparado para uma fuga estratégica. Quem sabe não haveria monstros terrestres nesse planeta? Algo não parecia certo. Pegou seu PDA e checou as informações. "Planeta aquático", "leviatãs", "atmosfera", é, não havia nada sobre terra, ilhas ou continentes. Essa praia era uma anomalia.
Don pegou seus apetrechos que fabricara para sua proteção e decidiu explorar a terra recém-descoberta.
Após caminhar por horas ele descobriu algumas coisas: não havia animais ali, salvo animais alados como gaivotas, que fugiam ante qualquer tentativa de contato. Havia frutas. Uma delas parecia um côco, rica em líquido e sua polpa era palatável. Outra era tipo uma batata, e tinha um bom sabor ao ser comida crua. Um terceiro tipo assemelhava-se à melancia e este tipo foi cultivado em caixas de horticultura. Aparentemente este planeta era habitado por vida inteligente. Um quarto tipo de fruta parecia um cacau, mais tinha pouco líquido e pouca polpa, apesar do tamanho.
Os moradores da ilha haviam feito trilhas que atravessavam rochas e faziam um caminho ao alto das montanhas. Sempre alerta e esperando pelo pior, Don seguiu essas trilhas. Encontrou estruturas de metal muito antigas, deformadas e enferrujadas, embora muito semelhantes aos habitats extraterrestres que a própria corporação Alterra produzia. Isto é, outros seres humanos habitaram essa ilha antes deles. Antigos PDAs ainda funcionais contaram a estória deles, os Degasi. Comerciantes terrestres que tiveram sua nave derrubada em um ataque à traição, de inimigo desconhecido, viram-se obrigados a sobreviver nesse planeta desconhecido há 10 anos passados. Paul, seu filho Bart, e sua agente de segurança Marguerit Maida, adaptaram-se ao planeta, catalogando suas descobertas sobre a flora e fauna, bem como detalhando os diversos biomas existentes e suas ameaças. Sendo a maior delas o Kharaa, uma doença bacteriana mortal, sem cura conhecida. Paul e Marguerit morreram após serem atacados por um leviatã chamado "Dragão do mar", e Paul morreu vítima do Kharaa.
Don salvou toda a informação em seu próprio PDA. Compreendeu que o que quer que tenha derrubado os Degasi, também havia derrubado o Aurora. Isso significava que ainda havia elementos hostis no planeta 4546B.
Sua intuição foi confirmada mais cedo do que poderia imaginar, ao encontrar uma passagem inaparente para um anfiteatro no interior de uma montanha. Uma estrutura grandiosa como uma catedral estava decorada com inscrições taquigráficas. Era impossível traduzir o que estava escrito. Havia nichos e um lugar marcado sob um grande arco. Logo mais, no chão, ele encontrou um tablete avermelhado que ele intuiu servir como chave. Aproximou o tablete de cada um dos nichos e um deles reagiu, prendendo o tablete e assimilando-o à estrutura dele. Então o enorme arco se acendeu como um cinema drive-in, exibindo ondas centrífugas douradas.
Don sabia o que deveria fazer. Com certeza aquele era um portal para outro universo, e ele seria mais inteligente se não o atravessasse. Infelizmente, ele nunca foi considerado brilhante por seus colegas de trabalho. Assim sendo, pegou seu PDA e ativou um sinal de socorro, e deixou seu PDA no chão. Qualquer outro sobrevivente do Aurora poderia ver onde ele estava, ou ao menos sua posição geográfica, e descobrir tudo o que ele havia descoberto, também, no caso de ele não conseguir voltar desse portal.
Maldição! Ele deveria ficar e sobreviver, mas então nunca saberia o que há do outro lado. Pensando assim, Don tocou a tela dourada do arco alienígena. O movimento centrífugo expandiu para seu ser, e ele não soube mais dizer onde estava e quem era, ao menos momentaneamente, como uma vertigem. Foi quando se lembrou de Victor Dahr e seu dilema: "Melhor viver uma semana confinado e morrer, do que ousar no desconhecido e morrer 5 minutos depois". Talvez o Sr Dahr tivesse razão e Don estivesse indo em direção a sua própria morte.
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