Penny e Judy Robinson foram empurradas pela multidão desesperada. Um funcionário do Aurora as colocou numa cápsula salva-vidas, sem lhes dar tempo para discutir prioridades, como o paradeiro de sua família. Foi assim que se viram arremessadas em direção a um planeta alienígena, com o mínimo de mantimentos possíveis e o que era pior, sem seu pai, mãe e o irmãozinho caçula.

A trepidação da queda livre só não foi pior do que o impacto no mar. Se não estivessem bem presas a seus assentos teriam virado mingau. Lentamente os painéis elétricos começaram a fumegar até o fogo irromper na pequena cápsula espacial.

— Judy, o que faremos? Está tudo pegando fogo. Temos que dar o fora daqui. — Penny falou em tom baixo e controlado que não demonstrava o nível de angústia que estava sentindo.

— Não! Temos que manter a cabeça fria. Temos que nos lembrar do treinamento.

— Ok! Vamos manter a cabeça fria enquanto morremos torradas.

— Quer parar? Deixe- me analisar friamente nossas …

Penny não esperou pela opinião da irmã. Destravou o cinto de segurança e procurou pelo extintor de incêndio caído ao chão. Passou a usá-lo até debelar as chamas do ambiente, mas o ar ficou irrespirável de fumaça. Judy soltou-se de seu assento e usou a escada da escotilha superior para entrar em contato com a atmosfera exterior.

— Você é louca, Judy? Coff, coff … podemos morrer com a atmosfera desse planeta.

— Não mesmo. Eu li os informe do Aurora sobre esse planeta. Tem as condições atmosféricas ideais para o assentamento de colônias terráqueas.

Judy pegou o tablet que todos usavam no Aurora, o PDA . Uma pequena tela transparente abriu o logotipo da Corporação Alterra. E uma mensagem apareceu na tela, acompanhada de uma voz eletrônica feminina que lia os informes.

"Banco de dados

Planeta 4546B — Escaneamento do ambiente

— Planeta oceânico categoria 3
— Atmosfera de Oxigênio/Nitrogênio
— Biodiversidade extensiva

Avisos de segurança:
— Pode comportar predadores da classe dos Leviatãs
— Água contaminada com altos níveis de bactéria desconhecida.
— Este planeta está além da área da Federação. O resgate é improvável.

Não é recomendável explorar este ambiente sem vestes protetoras específicas e aparelhos de suporte extensivos."

— Não fala nada sobre risco de radiação, diferença de gravidade, atmosfera ou temperatura. Na verdade …

Judy abriu a escotilha e animais alados semelhante gaivotas alçaram vôo. O ar marinho penetrou em suas narinas. O marulhar do oceano e o piar das "aves" lhe pareceu tão acolhedor e familiar quanto o mar do Caribe. Ela saiu lentamente da cápsula e ficou de pé admirando o que parecia ser um mar sem fim. A não ser pela visão da nave Aurora que jazia na superfície do oceano, um pouco a sudeste. Pelo menos 50 km distante de onde estavam. Parecia intacta, mas Judy não tinha ilusões. Ninguém sobreviveria ao impacto da queda de uma nave desse porte.

— Na verdade esse planeta parece a Terra.

— Chega pra lá, Judy. Eu também quero ver como é isso aqui.

Judy afastou-se o suficiente para Penny também sair pela escotilha.

— Uau! Minha Nossa! Olha a Aurora ali. Será que tem alguém vivo lá?

— Não creio!

— Precisamos ir lá, ver se há sobreviventes e se precisam de nossa ajuda.

— Penny, você prestou atenção ao PDA? Este planeta é habitado. Há criaturas aquáticas aqui. Le-vi-a-tãs!

— Sei. E o que exatamente isso significa, doutora?

— Pare com isso! Sabe que não gosto que me trate como uma estranha. Leviatã é o nome que se dava na antiguidade a monstros marinhos. Tipo dinossauros marinhos. Tipo uma baleia. Carnívoros. E furiosos. Então, nenhuma de nós duas irá botar um dedinho que seja nesse …

Penny mergulhou no oceano sem esperar o fim do argumento da irmã compenetrada.

— Penny! Volte já aqui! — Irritada, Judy mergulhou atrás da irmã estabanada.

Sob a superfície da água, viram-se envoltas em nada. A água era só um pouco turva, mas dava para ver o leito do oceano, com uma vegetação avermelhada, pilares de pedra e muita areia branquinha. Ao perceber que a irmã a seguira, Penny apontou para o fundo do mar e fez um sinal informando que iria nadar até lá. Judy esbugalhou os olhos e tentou falar alguma coisa, muito agitada, mas só produziu bolhas e nenhum som. Por fim agarrou os braços da irmã, enquanto apontava para algo atrás dela. Penny se virou para ver o que era. Uma espécie de grande Rocha flutuante, nadava lentamente ao longe. Era enorme como uma ilha submersa, de coloração roxa e tentáculos róseos que se prolongavam das laterais. Cardumes de peixes multicromáticos nadavam em volta, e seu brilho tornava o estranho ser aquático tão colorido quanto um arco-íris. As irmãs entraram em pânico e nadaram rapidamente para sua cápsula salva-vidas, entrando pela escotilha da base. Ao se verem em segurança, se arriaram no chão, quase sem fôlego.

— O que era aquilo? Era um leviatã?

— Creio que sim.