Talassofobia
3 Dra. Smith
Aurora, uma das maiores naves de transporte da Corporação Alterra. Preparada para enfrentar quaisquer ambientes inóspitos ou emergenciais em suas viagens a outros planetas ou sistemas solares. A viagem a Alfa Centauri era uma das mais calmas e rotineiras para a tripulação do Aurora. Foi com grande surpresa e espanto que eles se descobriram sob ataque pesado de inimigo desconhecido, e o que é pior, caindo em um planeta alienígena, no qual estavam em órbita. O alvoroço e pânico a bordo envergonharia os supervisores de segurança espacial. Nem todas as 200 famílias a bordo se salvariam, uma vez que as cápsulas espaciais salva-vidas estavam sendo liberadas com lotação mínima de 2 pessoas. Uma catástrofe digna do Titanic, célebre navio de luxo que foi a pique, matando 1500 pessoas a bordo.
John Robinson ajudou como pôde a debelar o fogo que consumia a espaçonave, mas como não fazia parte da tripulação, foi logo empurrado para uma das cápsulas de fuga. Junto com ele veio uma estranha, cujo pânico impedia de falar, mas o crachá em seu casaco a identificava como Dra. Smith. John gostaria de estar com sua família. Alguém o acalmou dizendo que todos já haviam partido em cápsulas pregressas. Se Deus quiser ele logo os encontraria.
Maureen havia pedido o divórcio enquanto ainda estavam na Terra. E logo depois voluntariou-se na equipe de exploradores e colonos de Alfa Centauri. Quando ele poderia ver os filhos novamente? Talvez nunca mais nessa vida. Ele e Maureen não eram mais um casal, mas Penny e Will ainda eram seus filhos. O vínculo com eles era sagrado. Por esse motivo estava nessa aventura insana a mercer de perigos e ameaças inimagináveis. Uma vez na superfície do planeta alienígena ele se reuniria a sua família.
A doca das cápsulas espaciais estava ardendo em chamas quando ele foi expelido em direção ao espaço. A gravidade do planeta fez a velocidade aumentar perigosamente, nada que ele já não tivesse experimentado antes quando era um fuzileiro naval, arriscando a vida por seu país. O impacto com a superfície do planeta foi atenuado em parte pelo sistema de amortecimento e flutuação da cápsula. Houve dano mínimo interno, o que John rapidamente controlou graças a uma ferramenta de reparação do Aurora.
— Você parece saber o que faz. — Dra Smith finalmente falou.
— Observei como a tripulação trabalhava e os estava ajudando a reparar a nave quando o fogo ficou incontrolável. Acabei trazendo a ferramenta comigo. A propósito, meu nome é John Robinson e sou um dos colonos. Tudo bem com você?
— Sim, sim. Só não sei o que poderemos fazer agora.
— Teremos que nos preocupar em sobreviver. Alimentação, hidratação, manter-se bem física e mentalmente. E consertar esta cápsula para nos dar suporte, enquanto exploramos o ambiente alienígena em que estamos.
John pegou seu PDA e o consultou. Escutaram a mesma informação de escaneamento do planeta 4546B e também foram alertados sobre Leviatãs.
— Você acha que alguém virá nos resgatar? — Dra. Smith perguntou com apreensão, mas seus olhos estavam muito vívidos, enquanto ela vasculhava o interior da cápsula.
— O PDA informou que não, mas não podemos perder as esperanças.
John a observava curioso. Aquela mulher tinha uma atitude de sobreviventes, pessoas sempre dispostas a tudo para se safar de diversas situações catastróficas e letais. Tinha visto muito esse olhar e atitude em zonas de guerra. Ela com certeza sabia se virar sozinha, só tinha de ter cuidado para não ficar no caminho dela.
— Ouça, Dra. Smith, teremos mais chances de sobrevivência se agirmos como uma equipe. Principalmente porque não conhecemos esse planeta. A propósito, você é médica?
— Não, eu … esse é só um título técnico. Tenho doutorado em psicologia e especialidade em mecanismos de interação comunitária-familiar. Na verdade sou apenas consultora.
— E por que acharam que uma expert em psicologia era necessária para uma colônia interplanetária?
— Bem, não é tão difícil de entender. Sempre …
O discurso da Dra Smith foi brutalmente interrompido por um chacoalhão na pequena cápsula. Eles tiveram a nítida sensação de que a cápsula foi arremessada para o alto e depois caiu pesadamente no mar. Novamente foram sacudidos e arremessados contra objetos e paredes, como se estivessem em um liquidificador. Quando toda essa experiência cinética cessou, estavam caídos no que seria o teto abobadado da cápsula. Estavam de ponta-cabeça.
— O que foi isso? — Dra Smith perguntou.
— Só há um meio de saber.
John escalou a cápsula até chegar à extremidade superior e abriu a escotilha do que antes era a base.
— Tem certeza que isso é seguro?
— Sim, mesma temperatura, pressão e atmosfera da Terra, de acordo com o PDA.
John saiu da cápsula e ficou de pé sobre a base de ponta-cabeça. O que ele viu o deixou estarrecido.
— O que houve? O que descobriu?
— O Aurora. A nave caiu.
Dra. Smith também saiu pela escotilha da base. Diante dela estava a mais imponente e colossal nave espacial para transporte de passageiros. Aparentemente íntegra e ainda funcional, salvo por fumaça e fogo que crepitavam da cúpula dianteira. Uma luz intermitente brilhava sem parar de uma estrutura superior, como um farol pedindo socorro que seria visível do espaço. O Aurora estava perto, muito perto. Talvez uns 500 m. Poderiam facilmente nadar até lá. E se possível encontrar sobreviventes que pusessem esse colosso em movimento novamente.
— Vamos até lá. Está pertinho. Podemos nadar e encontrar socorro na nave. — Dra Smith deliberou.
— Acho que tem razão. É nossa melhor chance. Podemos nadar até a cúpula dianteira, que por estar destruída permitirá acesso ao Aurora.
— Ei John, cadê aquela sua ferramenta reparadora?
— Eu a deixei na cápsula. Vou buscá-la.
John voltou para o interior da cápsula, e ao se abaixar para apanhar a ferramenta no chão, foi atingido com força na cabeça pelo extintor de incêndio. Ele desabou no chão.
— Não, meu caro. Minha experiência me diz que quanto menos gente é mais provável a sobrevivência. E eu ficarei com isso. — Dra Smith pensou em voz alta enquanto espoliava o corpo de John e se apossava do PDA e da ferramenta reparadora.
Ela escalou até a escotilha da base e uma vez no exterior se atirou ao mar. Nadou rapidamente em direção à cúpula dianteira da nave. Havia uma parte danificada, como uma janela estilhaçada, mas para conseguir penetra-la teria de mergulhar. Uma vez sob a água ela se apoiou na placa de metal da nave, enquanto quebrava os estilhaços com a ferramenta reparadora. Ela não viu uma criatura ondulante, esbranquiçada, com as extremidades laranjadas se aproximar de onde estava.
Ao conseguir livrar-se dos estilhados de vidro da janela, Dra Smith deu impulso para nadar adiante. Infelizmente, algo a puxou para fora e a arremessou para o leito do oceano. Dra Smith ainda teve presença de espírito para ligar a ferramenta reparadora e usá-la como arma, mas a criatura que a atacou era muito maior do que ela esperava, com quatro olhos, chifres superiores e inferiores, pinças dianteiras, e uma bocarra cheia de dentes. Ela ainda evitou a mordida ao atingir os olhos da criatura com a ferramenta, mas soube que era o seu fim, quando as pinças dianteiras perfuraram seu tórax e crânio.
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