Take Me

10 Um dia de sorte no inferno.


Pov. Marie Zoey Somerfeld. (Mazzy)


Logo quando me aproximei da casa do Tha — como eu chamava Thales agora, por pura preguiça de pronunciar o resto — que ficava não muito longe da lanchonete, pude avistar o garoto de olhos claros e touca. Vestia sua camiseta preferida de gatos verdes em espiral. E para variar, fumava.

— Eae hipster. — Tay gritou antes mesmo de eu desligar o carro. Ele sorriu, soltando a fumaça branca.

— Olha quem veio ao subúrbio. — Thales disse irônico. Sempre tão receptivo.

— É, levanta essa bunda dai, maconheiro. Vamos nos atrasar. — disse entediada. Ele jogou o cigarro no chão e entrou no carro parecendo ansioso.

— Queimando uns e nem convida os amigos. — Tay reclamou, fechando os olhos para sentir o cheiro que veio junto com ele. E eu estava me segurando para não bancar a chata e começar uma discussão por ele ter se drogado antes de ir na gravadora.

Muito responsável da parte dele. Uma ótima segunda impressão.

Ignorei minha puta vontade de mandar ele subir, pra tomar um banho e tirar esse cheiro de droga do carro, e continuei a dirigir para o destino mais preocupante: casa da July.

Acelerei em direção ao bairro mais nobre da região. Enquanto eu ia escutando Under Cover of Darkness na estação de rádio e imitando uma guitarra imaginária em mãos.

July nos esperava sentadinha na varanda de sua casa. Ela não parecia querer me matar. Mas não parecia querer me abraçar dizendo "viva nossa amizade eterna e verdadeira". Ela entrou quieta no carro, e suspirou antes de dizer um:

— Olá, seres viventes. Que a depressão desse dia ensolarado caia sobre vós, e não tenha piedade. Que Darth Vader vos guarde, amém. — Cumprimento típico dela, porém com uma pequena acrescentação: — Que cheiro de maconha é esse?

Resumindo: ela nem, ao menos, olhou na minha cara e eu continuei dirigindo, fingindo que não me importava. Eu teria que falar com ela. Ai, que horror ter que pedir desculpas por ter falado a verdade.

— E então, Mazzy, como foi sua noite com o "Damen"? — quase bati o carro contra um poste quando ela disse isso. E, porra, por que ela está usando esse tom irônico?

— Quem é Damen? — Tayloree resmungou curiosa.

— Hm... Vim embora com o Syn mesmo. — disse baixo, respondendo à July e ignorando a pergunta da Tay.

— É, July, ela pegou o Syn de jeito ontem. — Tay deu de ombros. Fitei-a ameaçadoramente.

— Pera ai, onde vocês foram ontem? — Thales disse com o olhar perdido.

— Chegamos. — disse, sobrepondo a voz de todos apenas para encerrar o assunto chato. Descemos do carro, que agora estava estacionado em frente a um prédio com o letreiro Dogween Records.

— É... Chegamos. — Thales resmungou olhando para cima, assim como eu.

Comecei a andar em direção à porta de entrada, me sentindo um pouco insegura. Passamos por um corredor iluminado até chegar a uma saleta encarpetada, com uma garota pin up sentada atrás de uma mesa grande.

Dissemos que Nick tinha falado para que estivessemos aqui hoje e ela mandou que entrassemos na sala imediatamente.

Abri a porta devagar, sendo seguida pela banda.

Ele estava sentado atrás de sua grande mesa, lendo uma revista em quadrinhos.

— Olha, se não é a banda de nome estranho. — disse sem desviar os olhos da revista.

— É, acho que somos nós. — disse um pouco insegura.

— Hm, ok. Vamos direto ao ponto. — ele nos olhou, finalmente deixando a revista de lado. — Me dê um motivo para eu fechar contrato com vocês. — exigiu com o semblante sério.

Ele parecia milhões de vezes mais intimidador atrás dessa mesa do que sentado num bar, num pub qualquer.

— Porque nossas músicas e nossos estilos estão na tendência para bombar. É facil no mercado. E somos realmente bons. — disse confiante, recebendo um olhar semicerrado de Nick.

— Sim, eu concordo. Mas me diga por quê justamente a Dogween Records? — indagou.

— Porque merecemos o melhor contrato. E, no entanto, a sua gravadora é a que pode nos proporcionar isso. — sorri um pouco tímida. Ele ficou em silêncio, ponderando. Depois disso abriu uma gaveta, tirando de lá uma pasta preta.

Suspirei nervosa.

— Eu quero que todos vocês assinem esses papéis agora, porquê eu não tenho tempo. Caso queiram ler, dou uma cópia e vocês tem 48 horas para desistir do contrato se não concordarem com algo. Se isso não acontecer, vocês já podem se considerar parte da família Dogween. — ele sorriu mais acolhedor, desfazendo a fachada exigente e empresarial.

Sorri para meus amigos, que também pareciam animados por termos conseguido.

Assinamos tudo bonitinho e pegamos a cópia só por precaução.

— Então... Assim...Quando começam os shows, turnês, festivais, gravações de clipes, dvd's, prêmios da MTV e etc? — Tayloree perguntou em certo momento, fazendo Nick rir.

— Vamos com calma. Essa semana vou ver se consigo falar com um amigo meu, dono de uma rádio e pôr umas demos de vocês para tocar. Pra ir já lançando vocês na parada. Eu preciso que me tragam um cd, até quarta-feira, com as músicas mais badaladas de vocês. As que pegam fácil, ok? — instruiu, nos fazendo acentir inúmeras vezes.

Porra, nossas músicas numa rádio! Acho que quero gritar.

— E ah, Nick? Seria muito idiota se eu pedisse um autógrafo? Sabe, sua banda é foda e eu sou muito fã, quando anunciaram que estava em hiatus eu... Chorei muito! — encarei July, incrédula. Ela não conseguia conter seus ataques de fangirl?

— Claro que não. Faz tanto tempo que ninguém me pede autógrafo, que já estou quase pagando para as pessoas o fazerem. Manter uma banda em hiatus hoje em dia está foda. — ele sorriu, já autografando um pedaço de papel sobre a mesa. July parecia brilhar de felicidade com isso.

Depois de acertar o nosso futuro, abri a porta, revelando a mesma sala de espera usual, porém com um pequeno acréscimo significantemente notável.

— Mazzy? — seus olhos semicerraram ao me ver passar pela porta. — O que faz aqui? — perguntou com um tom de voz indiferente.

— Estou aqui pela minha banda, e você? — disse brevemente, me aproximando insegura. Não deixando de notar que ele vestia uma camiseta preta e um jeans também escuro. Seu guarda-roupas devia ser constituído só de roupas desse tom, dando-o um certo ar de bad boy.

— Vim falar com o meu tio. — deu de ombros.

— Ei, Nick é seu tio? — perguntei um pouco incrédula. Ok, eu flertei com o tio do meu flerte atual.

— Aham, por quê? — franziu o cenho. Ele não tinha conhecimento do quão atraente ficava assim.

— Hm. — pensa. — Porque vocês não se parecem. — disse como desculpa, me sentindo um tanto desconfortável.

Uma linha de sedução cruzou por seus lábios, expandindo-se num sorriso. Tremi inconsciente.

— Er, Mazzy? Temos que ir. — Tayloree me cutucou com um meio sorriso. Acenti inconformada.

— Hm, ok. — concordei breve, voltando meu olhar para ele. — Será que você pode me ligar? Estou precisando falar com você... — soei insegura.

— Eu tenho seu número? — ele indagou com sombras de incredulidade.

— Você o pegou naquele dia do shopping. — acuei. Ele nem se lembrava. Devia me odiar por causa de ontem, mesmo eu não sendo diretamente culpada.

— Quem sabe. — ele suspirou enigmaticamente. Respirei fundo tentando encontrar forças para caminhar até a saída. E com muito custo, eu consegui.

— Cara, quem era aquele? — Tayloree me chacoalhou empolgada.

— Aquele é o tão falado Damen! — July deu de ombros, entrando no carro.

— E por que diabos você ainda não o apresentou para mim? — ela fez bico, entrando no carro logo em seguida.

— Não sei se notou, mas Damen estava tentando ignorá-la e...

— Não é nada disso. A gente só está estranho por causa de ontem, na verdade. — interrompi July que me lançou um olhar mortífero.

— Não vi nada de mais nele. — Thales deu de ombros, no banco de trás.

— É porque você é um cara, Tha. Se você visse algo demais nele, você estaria gritando que é gay. — Tay considerou, levando um empurrão leve do moreno.

— Podiamos começar a cantar Pocketful Of Sunshine como nos comerciais antigos da Always, nos aderindo ao protótipo de felicidade dos anos 80. — July comentou, o semblante mais leve. Mas é claro, ela não estava se dirigindo a mim.

— Hey, eu sou homem. Vamos ser felizes num bar.

— Thales, seu machismo me surpreende. — Juls bufou.

— Chama-se realismo, baby. Homens comemoram em um bar. — ele se defendeu.

— Aceito sua proposta de comemoração, Tha. — Tay sorriu para ele, que a retribuíu com um beijo na bochecha.

— Onde vocês querem que eu os deixem? — disse seca, olhando para o trânsito.

Humor nível: 0.

— Você não vai? — Tay arqueou as sombrancelhas, incrédula.

— Enxaqueca. — menti, dando de ombros.

— Eu também não vou, tenho trabalhos pra fazer e apostilas para estudar. — July desculpou, olhando para a paisagem pela janela do carro em movimento. Como se ela deixasse de beber todas para ganhar uma nota alta no colégio.

— Vocês são umas cuzonas.

Depois dessa, ignorei toda e qualquer conversação dentro do Bobs.

Deixei cada um em sua respectiva casa, com exceção de Tayloree, que ficou na casa do Thales.

E como July era a primeira a ser deixada em casa, não tive tempo de falar com ela a sós e me desculpar pelo ocorrido.

Isso teria que esperar. Ela não ia me odiar para sempre. Assim espero.

Apertei o botão do elevador, batendo o pé insistentemente enquanto esperava as portas se abrirem.

E antes mesmo que eu pudesse soltar o ar dos pulmões, senti-me ser abraçada por trás.

— Mas... Porra! — reclamei ao ser solta.

— Bom dia, flor do dia. Feliz em me ver? — Jimmy sorriu, seus olhos azuis se iluminando. Percebi que sorri — pela primeira vez no dia — com sinceridade.

— Não precisava me assustar. — relaxei minha posição, me sentindo confortável com a sua presença de quase dois metros.

A porta do elevador abriu e entramos, subindo para o meu andar.

— E aí, que cara é essa? Seu instinto para confusões ainda não te abandonou? — perguntou humorado.

— July. Acho que peguei pesado ontem. Ela está me ignorando ao máximo e eu dúvido que continuo no topo da lista de MAIPS dela.

— O que é MAIPS? — ele indagou, anexando uma careta ao ato.

— "Melhores Amigos De Infância Para Sempre".

— Acho que ela não guarda rancor. July é foda. — ele declarou absorto.

— Você está afim dela? — exclamei, soando quase incrédula. Eu sabia que July devia estar afim de um dos garotos, mas não imaginava ser recíproco.

— Eu? Não... Ela é só uma amiga! — ele sorriu amarelo, sem soar certeza em suas declarações, fingindo olhar as horas no celular.

— Mentiroso. — acusei, mas ele não teve tempo de responder já que a porta se abriu. — Vai no Brian? — suspirei. Ele acentiu mecânicamente, me acompanhando a passos lentos pelo extenso corredor.

— Ok. Quer que eu diga algo para ele? — semicerrou os olhos me desafiando.

— Pergunte a ele se continua o babaca mais babaca que já conheci. — sugeri, pegando minhas chaves.

— É uma pergunta retórica. — sorrimos.

— Então diga para ele parar de interromper meus flertes. — tentei novamente.

— Hm, acho que vai ser difícil se seus flertes forem com alguém que ele não goste e ele estiver por perto. Syn é um defensor de território. Ele protege as pessoas em volta dele. É... Instinto. — Jimmy o defendeu.

— Instinto para me irritar, tenho certeza que é esse o qual provalece. — encerrei, abrindo a porta e me despedindo dele com um aceno.

Joguei as chaves pelo sofá e subi para o meu quarto. Tomei um banho rápido, colocando uma roupa suméria para ficar em casa. E depois coloquei umas tortilhas de peito de peru para assar no forno.

Peguei um dvd de minha coleção e o coloquei para rodar. Assistindo um filme de terror qualquer, enquanto comia as tortilhas em silêncio. Depois de comer, fiquei deitada enquanto a sonolência usual pós-almoço me invadia.

Meu celular começou a tocar baixo, contra a almofada que abafava o som.

— Alô.

— Achei seu número sem querer. Estava nomeado como "garota estranha da loja do shopping".

— Damen? — solucei, surpresa com a ligação. Ignorando o fato dele ter se referido a mim como "estranha".

— Por que? Esperava mais alguém? — ofereceu quase sarcástico.

— Não achei que ligaria. — dei por fim.

— Eu também não. — ele ponderou, me fazendo rir baixo. — Deve estar num bar com seus amigos, tomando uma Cherry Coke com Vodka. — ele chutou, sua voz fazendo ecos estranhos na minha cabeça.

— Passou perto. Assistindo um filme, deitada entre as almofadas da minha sala de estar. — sorri para o nada, tentando imaginar seus lábios se curvando num sorriso fraco.

— Parece convidativo.

— Sinta-se convidado. — rebati quase de imediato.

— Realmente, é quase irrecusável o convite, mas...

— Já está recusando. — interrompi sabendo o que ele diria.

— Negócios. — revelou apenas.

— Trabalha com o seu tio? Na Dogween Records? — questionei interessada. Eu teria motivos para vê-lo mais vezes por semana.

— Não. Quero dizer, mais ou menos. Mas não era a esse tipo de negócio o qual me referia. Eu tenho apostas a ganhar. — explicou. Podia jurar que ele estáva dando de ombros.

— Rachas? — arrisquei.

— Fliperama. — concluíu. Ficamos em silêncio, o que me serviu para analisar a nossa situação. Ele estava me dispensando por um fliperama? E ainda era sincero quanto a isso.

— Parece convidativo. — imitei sua voz.

— Sinta-se convidada. — ele entrou no meu jogo.

— Acho que não seria uma boa idéia. — suspirei vencida.

— Como vai o Brian? — ele provocou.

— Espero que morto, queimado, num baú a milhas abaixo da terra. — disse transparecendo uma ligeira irritação.

— Achei que fossem o casal do ano.

— Não, por favor. Você está ferindo meus sentimentos, mencionando a palavra "casal" referindo-se a Brian e eu. Tem um grande "impossível" escrito em letras maiúsculas e em negrito nisso. — frizei, mexendo inquieta em meus cabelos.

— O que te impede? — insistiu em um tom desafiador.

— O fato de existirem caras bem melhores. — ataquei.

Ok, foi muito na cara? Com isso eu entreguei que disponibilizo um espaço especial no meu coração para ele, sem pedir duas vezes?

— Você tem algo em mente? — inquisitou, humorado.

— Quem sabe. — deixei em aberto.

— Acho que você deve estar com o meu nome no topo da lista de candidatos. — me desmascarou, sem nem mudar o tom descontraído.

— Nossa! Sua falta de presunção me deslumbra. — ironizei. Tudo bem que o que ele disse era a mais pura verdade, mas isso não quer dizer que eu tenho que adimitir assim de cara.

— Posso enumerar várias outras características minhas que também te deslumbram facilmente, além da minha falta de presunção. — disse com certa provocação. Meu coração acelerou imediatamente.

Com essa você já podia me levar para a sua cama, cara.

— O fato de você ser misterioso, com certeza, se inclui no pacote. — mencionei a característica dele que mais mexe comigo.

— Eu exalo mistério, Mazzy.

— E visões auto-vangloriosas também. — acrescentei, ouvindo sua risada gradativamente baixa, se prevalecer por breves instantes.

— Isso já está na categoria: "charme". É como eu seduzo as garotas. Hm, falando nisso, tenho que desligar. O que você vai fazer na segunda? — interrogou sem enrolação.

— Minha agenda me diz que tenho que ir para a escola. — bufei, louca para soltar um "sou toda sua em qualquer dia da semana".

Soaria atirada? É.

— Aquele prédio enorme com professores, alunos, salas de aula e refeitório?

— Que coincidência! Esse mesma! — sorri, meu falso entusiasmo anexado à conversa.

— Então, boa aula antecipado. — ok, nenhum convite? Então porque ele perguntou o que eu faria na segunda?

Eu poderia até matar aula se ele insistisse.

— Obrigada. E boas apostas no fliperama. — me despedi.

— Ok. Se eu ganhar muito, te levo para sair.

— Estou com os dedos cruzados. — mordi os lábios, apaixonada pelo som da sua voz, que logo se fora.

Fiquei analizando o tamanho do poder dele sobre mim e, definitivamente, é grandioso.


***


O final de semana foi realmente um saco. Fiquei trancada em casa o dia inteiro, saindo apenas para comprar um mocha no domingo de manhã. Trombei com a Sra. McVille no trajeto e foi o suficiente para acabar com o meu dia.

Minha mãe ligou só para a checagem habitual, perguntando se eu estava em casa, se tinha feito os deveres e coisas afins. Ela decidiu não voltar ontem, dizendo que ficaria até amanhã fora de casa. Como se eu me importasse com a presença dela.

July nem se importou em me ligar. Até pensei em me deslocar até sua casa e me desculpar, mas eu tinha certeza de que ela estaria com seus pais neste final de semana.

Me afundei em sorvete, cobertores e solidão.


***


— Srta. Somerfeld? — o professor de Física me tirou de minhas lamentações usuais.

— Sim? — afastei o celular que ainda estava aberto no jogo que roubava minha atenção segundos atrás.

— Já que você está prestando atenção na aula, me esclareça o que 5 quilotons podem causar. — me desafiou com um sorriso na face esguia.

Eu nem imaginava o que era isso. E a sala inteira estava encurvada vergonhosamente para me encarar.

— Um quiloton é equivalente a 1.000 toneladas de T.N.T. Quilotons são para armas, mísseis, poder destrutivo em grande parte. Essa quantidade de antimatéria pode literalmente aniquilar tudo num raio de quase um quilômetro. — me virei embasbacada para meu parceiro de Física, surpreendendo-me ao ver que era Zacky e que foi ele quem respondeu no meu lugar.

— Elementar, Sr. Baker. Mesmo tendo bancado o intrometido e respondido na vez da Srta.Somerfeld, foi esclarecedor. Eu ainda não me aprofundei nessa matéria. Você cursou física nas férias de verão? Parece adiantado entre os demais.

— Hm. Pois é. — ele não pereceu concordar ou discordar. Mas ao menos desviou a atenção de mim e a aula se prosseguiu.


***


— Como sabia daquilo? — perguntei enquanto saíamos da sala, após o sinal que indicava a hora do almoço ter soado.

Zacky deu de ombros, despreocupado.

— Leito muito as ficções do Brown. — sorri mesmo não acreditando muito que ele tirou aquilo de um livro que não seja didático.

— Baaker! — July saltitou até o garoto, dando-lhe um beijo no rosto. Depois seu olhar caiu em mim, parecia surpresa ao me ver ao lado dele. — Estão andando juntos agora? — indagou com ceticismo. Abaixei o olhar para o dela, que claramente me desafiava.

Não sei porque, mas continuei acompanhando os dois até o refeitório mais lotado que o normal. Eu normalmente sairia pelas portas dos fundos do local e sentaria atrás das árvores. Fumaria meu cigarro diário e lamentaria o dia mórbido.

Mas hoje eu quis fazer algo diferente. Quis mostrar para July e para os outros que eu sei ser legal também.

Mirei a mesa onde os garotos tatuados estavam sentados e andei até eles, com July e Zacky atrás de mim.

— Jimmy!! — chamei empolgada, recebendo olhares curiosos dos outros.

— Heey cat! — me puxou para um abraço quente. Sorri após ele me soltar e abracei Johnny, que estava sentado sobre a mesa. Ele retribuíu parecendo surpreso.

— Oi Matt. — fiz o mesmo com o maior, que sorriu em resposta.

— Achei que nos odiasse. — Johnny comentou, me encarando.

— Também achei. — dei de ombros. Eles riram descontraídos.

— Syn, onde você estava, cara? — Matt disse atrás de mim. Bufei, me virando para encarar o tão amado vizinho.

— Tava resolvendo uns lances com a Mi... — ele parou quando viu que era eu. — O que você está fazendo aqui? —indagou confuso.

— É bom te ver também, Brian. — respondi irônica.

— Já ficou com saudades. — ele sorriu sacana.

— Não mesmo. — sorri de volta.

— Tá rolando um clima. — Zacky comentou, levando um soco de Jimmy, no ombro.

— Hey gente, semana que vem é o aniversário do Jimmy. — July desviou a atenção para ela.

— Yeaah, isso significa festa! — Johnny sorriu animado.

— Na verdade, eu não quero festa no meu aniversário, ok? — ele disse sério, fazendo os seus amigos pararem para encará-lo.

— Como assim "eu não quero festa"? — Matt parecia ofendido.

— Ai cara, eu estou cansado das nossas festas. Eu sempre acordo no outro dia com uma dor de cabeça infernal, sem me lembrar do que fiz no dia anterior e com duas garotas sem roupa na minha cama, as quais eu nunca vi na vida. — ele explicou, o que me fez gargalhar alto.

— Mas esse é o bom das festas, porra! — Johnny parecia incrédulo com as palavras do amigo.

— No meu aniversário não vai rolar, eu quero algo diferente. — decretou autoritário. Todos fizeram careta.

— Ok, por que a gente não faz um lual no dia do seu aniversário? — opinei com meu melhor semblante inocente.

— Heey, é uma boa idéia. Tipo, um lual a fantasia. — ele se empolgou. — Obrigado, Mazzy. — ele abraçou meus ombros, beijando meu rosto em seguida.

— Eu ia sugerir uma boate de stripp. — Syn suspirou inconformado.

— Mulheres... — Zacky acrescentou desapontado.

— Ah, calem a boca, a idéia da Mazzy foi melhor. — ele reclamou.

July bufou e se afastou entre a multidão sem dizer nada.

— Eita Jimmy, você vai destruir a amizade delas. — Matt comentou.

— O que eu fiz? — perguntou assustado, me soltando logo em seguida.

Bufei irritada, July estava afim dele.

E agora ainda tem isso para me desculpar.

— O que você tem de tamanho, tem de burrice. — Johnny revirou os olhos, zombando do amigo.

— Tem certeza que vamos começar a discutir sobre tamanho? — semicerrou os olhos numa clara ameaça. Johnny deu-lhe o dedo do meio como resposta.

Minutos depois o sinal soou alto, nos informando que deveríamos voltar ao inferno chamado salas de aula. Jimmy me acompanhou até a sala, já que a sua era ao lado.

Entrei junto com um grupo de alunos e me sentei na última mesa.

— Está andando com os novatos agora? — Tha me empurrou de leve ao sentar ao meu lado. Pulei em seu pescoço para um abraço, sentindo o perfume feminino empregnado nas suas roupas.

— Estava pegando alguma vadia do colégio? — indaguei ofendida. Ele deu de ombros, despreocupado.

— Você ainda não respondeu minha pergunta. — insistiu.

— Eles não são tão chatos. — disse baixo.

— Claro que não. — ele retruco irônico. Depois disso o professor entrou na sala, munido de seus livros e sua voz irritante, explicando os fatos das guerras mundiais.

Dormi.


***


— Se liga, eu e a Tay pensamos de ensaiar hoje a noite lá em casa. Agora que temos a gravadora, vamos ensaiar mais vezes por semana. De boa pra você? — Thales lembrou, enquanto andávamos rumo ao estacionamento. Meu cérebro agradecia o final das aulas.

— Ok. — concordei, admirada por eles terem tomado essa iniciativa. Geralmente, eu era o pilar que juntava-os. — Vai ser um motivo para eu encontrar a July e falar logo com ela. — acrescentei. Poucos passos a nossa frente, July caminhava entre as pessoas que também iam para a saída. Ela sorria abraçada com Brian.

— Se cuida, gata. — ele me abraçou quando chegamos na frente do meu carro. Sorri ofuscada pelo gesto. Eu tinha que aniquilar essa minha quedinha pelo Thales, cara. Nem que para isso eu precise arrumar aqueles lances da aula de física... Como fala? Qui... Quito... Quilotons. Isso.

Balancei a cabeça para espantar o vestígio de atração momentânea e peguei minhas chaves. Nesse mesmo instante, o celular vibrou no meu bolso, indicando uma nova mensagem.


"Se você se virar para a sua esquerda, terá a visão do paraíso."


Franzi o cenho para a mensagem, resolvendo ignorá-la. Podia ser qualquer um do campus querendo me zoar.

Mas quando joguei minha mochila para dentro do Bobs, permiti que meus olhos corressem pelo perímetro a minha esquerda. Meu coração pulou uma batida e minhas pernas amoleceram.

Ele estava lá, com uma camiseta do Sex Pistols, óculos escuros e boné de baseball, escorado em seu carro tunado, chamando atenção de toda a escola, porém eu só o tinha notado agora.

Caminhei lenta e vergonhosamente até lá, recebendo um sorriso convencido dele.

— E aí, gata, quer dar uma volta?


Notas finais
Reviews?